ANO NOVO: exercer o “ofício da pacificação”

“O Senhor volte para ti o seu rosto e de dê a paz!” (Nm 6,26) O relato do Nascimento de Jesus nos desafia a superar a rotina acostumada e romper as estreitezas da vida para poder acolher a admirável profundidade que se esconde e se revela na simplicidade da cena, que em seu nível mais profundo ou espiritual, fala de todos nós. Ali fala-se de alguns pastores, de um presépio, de um recém-nascido, de uma mulher que “guarda” um segredo, de um homem silencioso… Toda a cena quer introduzir-nos em um Silêncio admirado e agradecido, pleno de luz, de paz e de gratidão. A simplicidade do relato nos convida a mergulhar no Mistério que aí se expressa. Tudo está aí. E, da mesma maneira, tudo é agora. Pastores, presépio, recém-nascido, um casal silencioso…: quando sabemos olhar, descobrimos que tudo está cheio da Presença que pacifica. A Presença ou o Mistério não é uma realidade separada da nossa vida, nem à margem da realidade e da criação. Por esse motivo, os personagens presentes na Gruta de Belém representam a realidade inteira: somos nós mesmos, é tudo o que nos rodeia neste preciso momento, são todos os seres. E diante dessa manifestação, o que nos resta? A atitude de Maria: acolher todas as coisas, “guardá-las”, “meditando-as no coração”. Ir mais além dos conceitos e das palavras e, desse modo, descansar – admirados, agradecidos, irmanados, pacificados – no Mistério e deixar-nos conduzir por Ele. “Meditar as coisas no coração” significa ativar o “olhar contemplativo” que se encontra em todos nós e que se manifesta quando cessamos nosso palavreado crônico. Serenados interiormente, somos presenteados com o dom de permanecer no presente, onde tudo está bem, onde tudo flui mansamente e na santa paz. Este é o desafio diante do Novo Ano que se inicia: devemos primar por construir “ambientes de paz”: paz que vem do alto, que aquece nossos corações, plenifica nossas relações e se expande, tal como perfume, em todas as direções. Paz é aspiração congênita do ser humano. Nosso coração humano foi feito para a paz e anseia a convivência harmoniosa com Deus, com o cosmos, com os nossos semelhantes. É processo interminável. Na raiz bíblica do termo “shalom”, (em latim “pax”)está a ideia de “algo completo, inteiro”.  A paz pertence à plenitude, à completude, enquanto a violência está do lado da falta, da carência, do incompleto. Paz reflete harmonia consigo, boas relações com os outros, aliança com Deus, enquanto a violência infecciona os relacionamentos, contamina a convivência, rompe os vínculos, exclui os mais fracos… Paz: há milênios esta palavra ressoa e ecoa na história dos povos. Inúmeros homens e mulheres a cultivam secretamente no coração. Todos a invocam. Muitos dão a vida, defendendo-a… A paz autêntica contém densidade humana. É paz de consciência inocente dos justos que fazem o bem, dos profetas que se arriscam em favor dos outros. Paz é humanidade alegre, espontânea, confiante. Paz não é sossego, não é alienação, nem cumplicidade. Paz requer bravura. Somente o ser humano amante da paz é realmente “perigoso”, não o violento. Mas, a paz ainda não encontrou espaço para ser a companheira de estrada em nosso cotidiano. O contexto social-político-religioso no qual vivemos está carregado de profundas divisões, ódios, intolerâncias, mentiras, preconceitos, violências… Há um “cheiro de morte” que nos paralisa e nos impede viver relações mais sadias e respeitosas para com os outros. No entanto, permanece a promessa profética de que ela habitará na nossa terra. Assim, o sonho impossível, que reina desde sempre no coração do Senhor, amante da Paz, se realizará, graças àquelas pessoas revolucionárias, que acreditam, desejam e realizam a paz. Na Gruta de Belém tudo exala paz e o encontro com Aquele que é o “príncipe da paz” nos inspira a sermos presenças pacificadoras. Paz “solidária” que abraça os excluídos; paz “resistência” que não se acovarda; paz “audácia” que não se amedronta; paz “limpa” que não corrompe a ética; paz “profética” que encarna a justiça; paz “rebelada” que não se dobra; paz “estética” que revela a face bela da nova humanidade… (cf. Juvenal Arduini). Na carta de S. Paulo aos Efésios, Cristo é chamado “a nossa paz” (Ef. 2,14). A paz é característica do reino messiânico que Jesus inaugurou. Ele revela que a paz é um trabalho muito paciente, de artesanato. Ele era um artesão, um carpinteiro. Ele sabia que para ser mestre na arte de fazer móveis era preciso saber aplainar muito bem. A paz começa nesta arte de aplainar o que em cada um de nós é áspero e duro; há divisões e conflitos em nosso interior…, mas nós podemos, pacientemente,  construir a paz do coração. Quem tem paz irradia luz; quem vive na luz constrói a paz. Paz expansiva, paz que é respiração da vida, paz marcada pela esperança.                “Que a Paz de Cristo reine em vossos corações” (Col. 3,15) No início deste Novo ano confessamos: apareceu um Menino; fizeram-se visíveis a ternura, a paz e a doçura do Deus que salva. A ternura pobre do presépio ajuda a dizer “sim” ao que importa e a recuperar nosso centro em Deus. Por isso, a paz é carregada de ternura. Só a ternura de uma criança pode nos tirar de nossos lugares atrofiados. A ternura de Deus continua fazendo-se alternativa original. Quando expandimos nosso espaço interior e a acolhemos, a ternura nos move a fazer visitas inesperadas a enfermos, presentear tempo e não objetos, investir a “fundo perdido” em quietude, oração e reconciliação e substituir as felicitações impessoais dos celulares por palavras de vida, que ajudem a curar feridas do caminho. A ternura alternativa acolhe solidões, sofrimentos familiares e enfrenta os contratempos da vida tal como aparecem, anunciando que Deus nasce para todas e cada uma de nossas histórias. Depende de nós abrir-lhe a porta e deixar que ela faça morada em nós. Na Gruta de Belém todos são acolhidos e a paz brota da hospitalidade. Se queremos a paz, preparemos as boas-vindas, aprendamos a ver os outros não como inimigos, mas como

A política da paz é uma decisão.

A violência, a polarização ou mesmo a intolerância que pode ser observada em alguns acontecimentos atuais podem ser vistas como o reflexo exterior de uma desordem interna bem maior. Um dos grandes exemplos está na radicalização da opção política. O foco da opção política foi deslocado do bem comum [1] para a sedimentação cada vez mais refinada daqueles que compartilham das mesmas ideias. As ideias políticas sobrepuseram-se inclusive aos valores religiosos, como foi atestado pelo pregador apostólico, cardeal Raniero Cantalamessa, em 2021 [2]. Os efeitos de uma polarização intensa é a autodestruição dos laços de proximidade (cf. Mateus 12,25), religiosos e familiares, até chegar o momento em que a tolerância perde seu fundamento, pois a diferença sempre é ameaçadora. O Dicionário Online de Português define o verbete “paz” como “Estado de calmaria, de harmonia, de concórdia e de tranquilidade; calma” [3]. Definições como essa podem trazer um risco de entender a paz como fruto de um comportamento passivo, em que qualquer proatividade ou iniciativa pode destruir esse estado de calmaria. A paz pode ser entendida como virtude quando envolve a liberdade, a vontade e a consciência. Portanto, somente opta pela paz quem tem motivos para fazer guerra. Essa compreensão pode ser vista no Cântico do Irmão Sol, no qual Francisco de Assis afirma: “Louvado sejas, meu Senhor, por aqueles que perdoam (cf. Mateus 6,12) pelo teu amor e suportam enfermidade e tribulação. Bem-aventurados aqueles que as suportam em paz, porque por ti, Altíssimo, serão coroados” [4]. A ofensa é o lugar teológico de onde nasce a misericórdia. A proposta não é romantizar as feridas causadas pelas atitudes humanas, mas retomar o fundamento trinitário da paz e do perdão. Ao longo da Sagrada Escritura, Deus teve diversos motivos justos para punir a humanidade, mas sua misericórdia ultrapassou a justiça. O auge da misericórdia está na encarnação, eucaristia e paixão em que Cristo assinala, de forma permanente, a escolha de Deus pela humanidade. A contemplação do Evangelho levou Francisco a dar o seguinte conselho a um superior: “Não haja no mundo irmão que pecar, o quanto puder pecar, que, após ter visto teus olhos, nunca se afaste sem a tua misericórdia […]. E se depois ele pecar mil vezes diante de teus olhos, ama-o mais do que a mim, para trazê-lo ao Senhor” [5]. Deus opera, por mediações, o bem que Ele quer [6]. Quando a graça de Deus precisa se submeter ao julgamento humano, o ser humano deixa de ser instrumento do bem para tornar-se alfândega da graça divina [7]. A paz é uma opção dolorida, pois, necessariamente, envolve um processo de perdão (ou autoperdão); é um processo de mudança de mentalidade e, ou, conversão. Referências [1] Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/politica/politica-definicao.htm. Acesso em: 19 dez. 2022. [2] Disponível em: https://www.vaticannews.va/pt/vaticano/news/2021-04/raniero-cantalamessa-sexta-feira-santa-pregacao-texto-integral.html. Acesso em: 19 dez. 2022. [3] “Paz”. In: Dicionário Online de Português. Disponível em: https://www.dicio.com.br/paz/. Acesso em: 21 dez. 2022. [4] SÃO FRANCISCO DE ASSIS. Cântico do Irmão Sol (cnt. 10). In: Fontes franciscanas e clarianas. Tradução de Celso Márcio Teixeira et al. Petrópolis: Vozes, 2004. [5] SÃO FRANCISCO DE ASSIS. Carta a um ministro (mn 9-11). In: Fontes franciscanas e clarianas. Tradução de Celso Márcio Teixeira et al. Petrópolis: Vozes, 2004. [6] MORESCO, Kleber; SANTANA, João Henrique. A minoridade como opção pelo seguimento a Cristo. Thaumazein, v. 15, n. 30, p. 98, 2022. [7] PAPA FRANCISCO. Evangelii gaudium (n. 47). Disponível em: https://www.vatican.va/content/dam/francesco/pdf/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium_po.pdf. Acesso em: 21 dez. 2022. Frei Kleber Moresco, OFM Cap

Celebrar o Natal

De ano em ano, no dia 25 de dezembro, celebramos a festa do Natal. Parece automático: todo mundo planeja fazer festa em família, preparar uma ceia apetitosa ou um almoço festivo. Há até certos produtos que, por tradição, entram no cardápio, como peru, chester; isso vale para quem tem condições de comprar tais ingredientes. Nem todos podem. Alguns se contentam com um franguinho e uma farofinha. São coisas de se fazer na celebração do Natal. Embora seja legítimo e desejável, isso não é celebração do Natal cristão se não vier acompanhado do verdadeiro sentido da festa. Natal cristão, em primeiro lugar, é celebrar a presença de Emanuel, Deus conosco, que se fez pessoa humana em nosso mundo. Armou sua tenda no meio de nós. É a presença inédita de Jesus, o enviado do Pai, que tomou corpo humano. Celebrar seu nascimento significa reconhecê-lo homem-Deus que veio para salvar. Seu nascimento mudou a história em antes e depois. As promessas feitas pelos profetas se cumpriram, e as expectativas foram contempladas. Todos se beneficiaram de seu nascimento, até os que não acreditavam. Ele veio para todos, sem exclusão. A vida, desde então, passa por ele. Tudo se fez novo com ele. É com ele, por ele e nele que tudo recebe sua marca. Nenhuma obra da criação ficou de fora. Tudo foi redimido por Cristo, em sua morte e ressurreição. Seu Natal foi o começo dessa obra realizada em três anos de atividades como Messias entre nós, mas sua ação se perpetuou para sempre. Não virá outro Messias; é Ele e somente Ele por toda a eternidade. Viver o Natal nos reporta aos fundamentos de nossa fé e de nossa esperança. Nas tradições natalinas, relembram-se costumes, repetem-se desejos de feliz Natal, armam-se presépios, enfeitam-se pinheirinhos, dão-se presentes, iluminam-se as ruas e as casas com luzes cintilantes. Há um clima que pervade tudo e todos. Existem diferentes sentimentos e objetivos, mas não se pode negar que tudo indica um tempo novo que convida à convivência familiar, com salutares encontros. Que o espírito de Natal seja o da alegria de celebrar a vinda do Filho de Deus entre nós. Ele veio, morou conosco. Viveu nosso cotidiano, salvou-nos, dando sua vida, e continua conosco, não mais em carne e osso, mas numa presença misteriosa que alimenta a vida cristã, na Eucaristia que celebramos em seu nome. Feliz Natal, dizemos uns aos outros. Que esse desejo se traduza na vida prática, numa convivência sadia, solidária e fraterna, eliminando tudo aquilo que nos afasta uns dos outros. Boas festas e FELIZ NATAL! AMÉM! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S

Deus “é” Encarnação

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14) Nenhuma palavra consegue expressar com profundidade o mistério do Natal que estamos celebrando. Talvez o melhor seria aplicar o provérbio oriental: Se tua palavra não é melhor que o silêncio, cala-te. Só em chave de silêncio podemos compreender a Encarnação e o Nascimento de Jesus. O que devemos descobrir não pode vir de fora, mas deve surgir do mais profundo de nós mesmos. As leituras dos evangelhos indicados pela liturgia para o tempo do Natal certamente farão transbordar em nosso interior os sentimentos mais nobres e elevados. Mas isto não basta para nos situar diante do Mistério e vivê-lo com intensidade. Falamos de uma noite surpreendente, mas para a contemplação. Sem esta contemplação, permanecerá um vazio interior, sem nenhum sentido religioso. O valor desta festa depende de nossa atitude. Nada substituirá o itinerário para o centro de nós mesmo. Só ali acontece o mistério; só no mais profundo de nós mesmos descobriremos a presença de Deus. Celebrar a Encarnação-Nascimento de Jesus pode nos ajudar a encontrar a Deus dentro de nós e no coração dos outros. Jesus nasceu, viveu e morreu em um lugar e um tempo determinado, mas não estamos celebrando um aniversário. Os dados históricos não têm maior relevância: não sabemos onde Jesus nasceu, não sabemos quando, nem em que dia ou mês. Tudo o que digamos d’Ele, a partir do ponto de vista histórico, aponta para o desconcerto. Não se trata de recordar e celebrar o que aconteceu faz dois mil anos, mas de descobrir o que está acontecendo hoje em cada um de nós. Devemos descobrir, celebrar e viver conscientemente essa realidade sublime. Este é o sentido do Natal. O que celebramos, na noite de Natal, é precisamente isso: o sublime Mistério da Encarnação de Deus em cada coração humano e em todo o Universo. Como costuma ocorrer com os grandes mistérios da fé, acabamos adocicando e esvaziando o conceito original de Encarnação. Preferimos dizer natal ou natividade, fazendo referência a um termo latino relacionado com o nascimento. Por isso, nos fixamos em um nascimento – o de Jesus – e colocamos à margem o que realmente significa encarnação. Talvez, no fundo, essa coisa de carne não nos convence muito: é como se fosse algo muito vulgar, material, prosaico…, que se conecta com nossa dimensão corporal-sexual. Afirmar que Deus se fez carne é quase uma heresia. Segundo a mentalidade que foi se propagando no cristianismo Deus é o Absoluto e não pode ser contagiado com a matéria corporal. No entanto, a partir da Revelação bíblica, a Encarnação é Deus dentro de nós e dentro de toda a Realidade existente, sem se confundir ou desaparecer no que é perecível, no transitório. Este é o grande milagre de Deus. O Verbo se faz carne na pessoa de um Menino que, dentro de sua corporeidade e sua realidade como ser humano verdadeiro interioriza Deus na Humanidade. Tão humano, tão humano… só podia ser Deus (L. Boff). Assim, a moral cristã, durante muitos séculos, alimentou uma espiritualidade desencarnada, piegas, cheia de culpas, angústias e remorsos. No fundo, negou-se uma dimensão humana tão nobre: o ser humano é carne. É da sua essência. O mistério da Encarnação-Nascimento vem iluminar e dignificar esta dimensão carnal que foi tão desprezada e gerou tantos conflitos morais. Na Encarnação do Filho, Deus se faz carne, se humaniza; assume e plenifica tudo o que é humano. Nada do humano é considerado como suspeita, fonte de pecado… Afinal, somos obras maravilhosas do Criador. É preciso superar a pobreza do dualismo corpo-alma e retornar à visão antropológica bíblica onde o ser humano não tem corpo nem tem alma. Ele é corpo, é alma, é espírito, é sentimento, é relação, é afeto, é razão… Ele é, nas suas diferentes expressões. A partir da Encarnação do Verbo não dá mais para imaginar um ser humano compartimentado, desintegrado, dividido nas suas dimensões existenciais. Ele é um todo, integrado, unido, pacificado… Quão distante estamos da essência do Mistério da Encarnação! Santo Inácio de Loyola, ao propor a contemplação da Encarnação, nos Exercícios Espirituais, afirma: recordar como as Três Pessoas divinas determinam, em sua eternidade, que a Segunda Pessoa se faça homem, para salvar o gênero humano. A Encarnação é o mistério fundante de nossa fé a ser vivido e não pensado. A Encarnação não é um evento isolado da história. Toda a Criação foi afetada; todos os fatos da história encontram nela seu sentido. A história humana se faz História de Salvação. Assim sendo, Deus não só se encarna; Ele é Encarnação. A Encarnação não é um ato pontual, mas uma atitude eterna de Deus. A Encarnação já começa na criação do mundo: Tudo foi feito por Ele, e sem Ele nada se fez de tudo que foi feito (Jo 1,3); tudo é perpassado pela Sua Presença. Estamos falando do Verbo que tem a ousadia de penetrar as categorias de espaço e tempo, as únicas que nós temos para conhecer em plenitude a realidade de tudo. Deus já veio, está vindo deste sempre; só o esperamos e o celebramos seu Nascimento de um modo simbólico, religioso, fraternal. Por isso, o Natal é tão inspirador e nos enche de paz, por saber que carregamos Deus dentro de nós, embora nem sempre saibamos disso, nem O vejamos. Deus deixa de ser o eterno desconhecido para se tornar Emanuel, Deus conosco. Já estamos salvos porque Deus se encarnou em nós, em todos: sem distinção de credo religioso, raça, língua, época em que se viva, idade que tenhamos, etc. Assim novamente encarnado, nos diz S. Inácio nos EE (n. 109). Encarnação permanente. E por isso nos felicitamos, porque não somos órfãos, nem estamos perdidos em um Universo imenso, mas porque Deus é nosso cúmplice, o melhor avalista de que nossa vida é já Vida n’Ele. Eis o realismo da Encarnação! Cada vez mais nos conscientizamos, com maior evidência, de que a Encarnação do Filho é isto: tomar a carne concreta da humanidade para

Celebração de Natal

Roteiro Leitor 1: Nasceu-nos hoje um menino, Um filho nos foi dado, Grande é este pequenino, Rei da Paz será chamado. Leitor 2: O Natal é a festa da paz e da luz. O mundo e todos nós precisamos de paz. Diz o texto sagrado que “a multidão que andava nas trevas viu uma grande luz” (Isaías 9,1a). Que a luz irradiante do Menino Deus aqueça nosso coração e nos abra para a vivência do amor. [Neste momento, a pessoa responsável pela casa acende uma vela, que pode estar no centro da mesa ou ao lado da árvore de Natal, ou do presépio.] Fazer memória do Nascimento Leitor 3: Vamos agora escutar a narrativa do nascimento de Jesus. A passagem se encontra no Evangelho de Lucas, capítulo 2, versículos 1 a 14. Mais do que uma simples lembrança, a celebração de hoje atualiza esse fato tão marcante da história da humanidade e nos faz testemunhas desse acontecimento. Ouçamos. Leitor 4: Naqueles dias, o imperador Augusto publicou um decreto, ordenando o recenseamento em todo o império. Esse primeiro recenseamento foi feito quando Quirino era governador da Síria. Todos iam registrar-se, cada um na sua cidade natal. José era da família e descendência de Davi. Subiu da cidade de Nazaré, na Galileia, até a cidade de Davi, chamada Belém, na Judeia, para se registrar com Maria, sua esposa, que estava grávida. Enquanto estavam em Belém, completaram-se os dias para o parto, e Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou e o colocou numa manjedoura, pois não havia lugar para eles na hospedaria. Naquela região, havia pastores que passavam a noite nos campos, tomando conta do rebanho. Um anjo do Senhor apareceu aos pastores; a glória do Senhor os envolveu em luz, e eles ficaram com muito medo. Mas o anjo disse aos pastores: “Não tenhais medo! Eu vos anuncio a Boa Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido envolto em faixas e deitado numa manjedoura”. De repente, juntou-se ao anjo uma grande multidão de anjos. Cantavam louvores a Deus, dizendo: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados”. Leitor 5: Neste momento, vamos receber a imagem do Menino Jesus. Que Jesus seja a luz para a nossa caminhada, e que ela nos traga a paz. Enquanto ouvimos a música “Anunciação”, cada um eleve até Deus seus louvores e súplicas. Partilha e preces espontâneas 1. Pedimos ao Menino Deus que sejam possíveis a paz e o perdão para toda a gente, seja aqui, seja do outro lado do mundo, seja numa pequena alameda de cada cidade onde há sede de verdade e de infinito. Jesus, Luz do Mundo e Príncipe da Paz, escuta nossa prece. 2. Pedimos, Menino Deus, por nossas famílias. Que a esperança que recebemos de suas mãos de criança alimente nossos corações e nos ajude a ter fé e perseverança no amanhã. Jesus, Luz do Mundo e Príncipe da Paz, escuta nossa prece. Outras orações… Benção Avós ou pais: A bênção final que vamos receber é inspirada no livro dos Números, capítulo 6, versículos 24 a 26. Que Deus Menino nos abençoe e nos guarde. Que Ele nos mostre o seu rosto e nos conceda a paz e o amor. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Todos: Amém!

José do Advento

“José, Filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa…” (Mt 1,20) A liturgia do quarto domingo do Advento nos motiva a buscar inspiração na pessoa de S. José, indicando-o como apoio e guia nos momentos de obscuridade e de dificuldade; ele é o homem do discernimento que, na solidão, no silêncio e na atenção ao seu coração, vai vislumbrando o caminho a assumir e a decisão a ser tomada. Sua presença silenciosa põe em destaque a pessoa de Maria que, por seu fiat e sua maternidade se revela a protagonista do Advento. No contexto do mistério da Encarnação José se revela como um personagem de “segundo plano”, discreto e silencioso, recordando-nos o protagonismo oculto, mas imprescindível, de todos(as) aqueles(as) que atuam em favor do Reino, aparentemente escondidos(as) ou na “segunda fila”. O Advento realça o valor de todas essas pessoas que não são como os cata-ventos que brilham no alto, mas vigas que sustentam o edifício no porão, e que tecem o essencial da existência. Pessoas aparentemente anônimas – mães, mestres, avós, amigos – que estão aí ajudando a construir um novo mundo, às vezes sem o reconhecimento por sua atitude sem preço. Assim também foi o caso do próprio Jesus de Nazaré, durante a maior parte de sua vida. Neste 4º. domingo do Advento, fazemos memória de S. José como o referente de todas as pessoas que vivem uma profunda fidelidade a Deus, quase sem serem percebidas, mas com um protagonismo sem igual na história da Boa Notícia. O mundo precisa de homens e mulheres de discreta e humilde presença para sustentar os outros, sobretudo aqueles que carecem dos recursos necessários e vínculos humanos. A atitude de José, homem de “segunda fila”, revela uma humildade e uma confiança tão cheia de generosidade como de incompreensão. Também foi grande o seu fiat. Abandonou-se no mistério de Deus, e isto implicou assumir uma missão incômoda que, certamente, não foi compreendida e aceita entre seus parentes e vizinhos; com plena disponibilidade e fé adulta acolheu os planos de Deus sem exigir maiores explicações. Seu lugar, a partir de então, é de “segunda fila”, cuidando amorosamente de sua família e renunciando todo protagonismo de intenso brilho. São José é conhecido como o santo do Advento porque neste tempo nos ensina com sua vida a atitude da espera e da confiança total em Deus que sempre cumpre suas promessas, embora, às vezes não coincidam com nossos planos. Com São José podemos aprender de sua fé e sua humildade a dobrar nosso ego; sua valentia nos inspira a viver com mais disponibilidade; seu despojamento nos ajuda a afastar de nossa vida a busca de ostentação e vanglória… Atitudes estas que certamente acabaram lhe proporcionando uma verdadeira paz interior. José de Nazaré foi aquele que se abriu ao Deus surpreendente e deixou-se conduzir por Ele. Dele não se diz muito nos evangelhos, mas o que ali se diz nos revela uma presença surpreendente, capaz de ver mais além do cotidiano e estabelecido. Presença que aponta para uma outra presença, a de Jesus. Lendo o Evangelho com uma sensibilidade mais apurada podemos encontrar, com facilidade, uma descrição muito aproximada de quem era José, da casa de Davi. Em cada gesto de Jesus, revelava-se um ensinamento do Pai e de seu pai José; em cada parábola havia uma expressão da natureza e da terra com o selo de José, e uma mensagem espiritual inspirado a partir do alto. Em cada cura que Jesus realizava havia um modo e uma sensibilidade de tratar o enfermo, o desvalido, herdados da tradição mantida por José; e à hora de orar havia um hábito criado na casa de seu pai, fiel cumpridor da lei mosaica e aberto à novidade e ao mistério que seu filho Jesus deixava transparecer. Enfim, quem, senão José, juntamente com Maria, pôde ensinar a Jesus a tratar às pessoas, a servir os mais pobres, a olhar, a falar, a sorrir…! Seria um equívoco considerar José uma espécie de marionete nas mãos de Deus, ou que fosse atropelado na sua liberdade. A mensagem evangélica tem como ponto de partida a convicção de ser possível o ser humano “escutar e praticar” a vontade de Deus, mesmo quando lhe é pedido algo, à primeira vista, superior à capacidade de suportar. José não deu mostras de agir a contragosto, acuado, pressionado ou duvidoso. Agiu com a liberdade de quem sabe o que faz, colocando-se à inteira disposição de Deus, com total generosidade. Ele conhecia as bases em que se fundamenta sua relação com Deus, onde se enraíza sua disposição para viver em profunda sintonia com Aquele que conduz a história para a sua plenitude. José, na sua vocação paterna, torna-se diá-fano de Deus Pai (deixa transparecer a imagem paterna/materna de Deus). Através do seu modo de ser e de agir, carregado de silêncio inspirador, José, não só revela uma profunda comunhão com Aquele que o chamou a assumir a vocação paterna, mas deixou “fluir”, no cotidiano e na simplicidade de sua vida, os atributos d’Aquele que o conduzia. O coração de José passa a pulsar em acorde com o coração de Deus Pai: a Paternidade divina flui na paternidade humana. Deus Pai encontrou liberdade para ativar e tornar visível em José as características próprias de um pai: “Não se nasce pai, torna-se tal… E não se torna pai, apenas porque se colocou no mundo um filho, mas porque se cuida responsavelmente dele. Sempre que alguém assume a responsabilidade pela vida de outrem, em certo sentido exercita a paternidade a seu respeito”. (Papa Francisco, Patris Corde) Porque estava presente a Deus, José fez-se presente nos momentos decisivos da Família de Nazaré, bem como fez-se presente na vida das pessoas. Uma presença que faz a diferença: presença solidária, marcada pela atenção, prontidão e sensibilidade, próprias de um pai que acompanha tudo com ternura. Sua presença não era presença anônima, mas comprometida; presença que é “música calada” nos lugares cotidianos e escondidos, que sabe enternecer-se e escutar as inquietações que

Mindfulness”: a arte da atenção plena

O fim do ano se aproxima. Na Igreja, celebra-se o tempo de espera, chamado Advento. Depois virá o Natal, o réveillon. Dezembro e janeiro são marcados por muitas festas, confraternizações, passeios, férias. Haverá muitas reuniões de amigos e parentes. Muita gente estará presente fisicamente, mas será que, de fato, estará presente? Haverá sempre aquela pessoa que estará apenas fisicamente ali em cena, porque a mente estará divagando sabe-se lá por onde. Em tempos de ansiedade, algumas mentes estarão pensando na próxima refeição, no dia seguinte, no ano seguinte… Alguns estarão conversando de olho no celular. Muitos estarão conversando com alguém à sua frente, mas, ao mesmo tempo, observando o celular, navegando pelo Youtube, Facebook, Instagram, Twitter, TikTok, Kwai, etc. Cada sinal sonoro de notificação será capaz de interromper até mesmo a melhor experiência de convivência física. A melhor conversa, a melhor partilha, a melhor atividade, a melhor refeição. Quanto a você: já esqueceu o nome de alguém minutos após ser apresentado a essa pessoa? Muitas vezes, você já leu uma página da Bíblia ou de um livro e teve de voltar ao início da página porque já esquecera o que estava escrito no início? Já teve de usar o controle remoto para voltar o filme, porque você estava olhando, mas não estava assistindo às últimas cenas? Mais de uma vez, você já se distraiu numa missa, como celebrante ou como participante, e se perguntou se já tinha rezado uma determinada parte da liturgia? Já rezou o terço no automático, pensando nos afazeres logo após? Quantas vezes você tomou um suco ou comeu alguma comida sem observar o sabor? Já conversou com alguém olhando para o relógio ou bocejando durante a conversa? Se mesmo estando bem de saúde isso acontece com você frequentemente, eu o convido a pensar comigo sobre o significado de mindfulness. Em inglês, essa palavra significa atenção plena. Sugere estar atento, ter atenção e lembrar; estar alerta a todo o momento; manter nossa consciência viva para a realidade presente; estar clara e determinadamente alerta ao que realmente nos acontece em momentos sucessivos da percepção, ou seja, “sair do piloto automático”. É uma ferramenta muito útil na psicoterapia. Dá importância ao momento presente. É muito usada também na meditação. Na prática terapêutica, chama a atenção para a necessidade de estar por inteiro diante do paciente. Na prática pastoral, seja por parte dos religiosos, missionários, confessores, diretores espirituais, seja por parte das lideranças e coordenações leigas de comunidades, pastorais, grupos ou movimentos, esse conceito nos lembra do cuidado que deveríamos ter para com o outro diante de nós. É tratar a pessoa diante de você como se fosse o próprio Jesus. Esse conceito tem sido usado ultimamente, com frequência, para controlar a ansiedade, o estresse, a depressão e até a obesidade. Tem chamado a atenção também para a necessidade de sentirmos autocompaixão. Como podemos exercitar a atenção plena? Uma prática formal necessita da ajuda de um profissional de Psicologia. No entanto, práticas informais são possíveis, como o treinamento diário dos cinco sentidos (audição, visão, tato, olfato e paladar). Assim, dando atenção ao caminhar, ao comer, ao meditar, ao dirigir, ao ouvir o outro. Até mesmo olhar para nós mesmos e sermos mais compassivos com nossos próprios limites, problemas, incapacidades, medos e frustrações. Por que somos compassivos com os outros e rígidos com nós mesmos? Vale a pena pesquisar mais sobre o assunto. Pe. Aparecido Luiz de Souza, SVDPsicólogo.

A surpreendente novidade que vem das “periferias existenciais”

“Ide contar a João o que estais ouvindo e vendo” (Mt 11,4) Na prisão de Maqueronte, onde está confinado por ordem de Herodes, João Batista recebe notícias de Jesus; e o que ele ouve o deixa desconcertado, pois Jesus não corresponde às suas expectativas. João espera um Messias que se imponha pela força terrível do juízo de Deus, salvando àqueles que acolheram seu batismo e condenando àqueles que o rejeitaram. Quem é Jesus? Nem João, nem os rabinos, nem os sacerdotes, nem os apóstolos estavam capacitados para entender Jesus. Sua presença e atuação não se ajustavam ao que eles esperavam do Messias. Jesus rompe com todas as concepções e esquemas mentais, desmonta todas as expectativas, frustra uma visão… A novidade de Jesus é muito maior do que aquilo que podiam esperar; além disso, o que Ele traz vai na direção contrária do que esperavam do Messias. Não vem com poder e força; não vem impor nada, senão propor uma dinâmica de serviço e desatar a vida travada. Jesus tem um caso de amor com a vida. Para sair de suas dúvidas João envia dois discípulos que perguntam a Jesus sobre sua verdadeira identidade: “És tu, Aquele que há de vir, ou devemos esperar um outro”? A resposta de Jesus não é teórica, mas muito concreta e precisa: contai a João o que estais vendo e ouvindo. Eles perguntam a Jesus por sua identidade e este responde através de sua atuação terapêutica (curar e cuidar da vida); Ele se dá a conhecer através de ações concretas em favor da vida: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam… O que o profeta Isaías anunciava como futuro, agora se faz presente em Jesus. Jesus sabe que sua resposta pode decepcionar àqueles que sonhavam com um Messias poderoso. Por isso acrescenta: “Feliz aquele que não se escandaliza por causa de mim!”. Que ninguém espere outro Messias que realize outro tipo de “obras”; que ninguém invente outro Cristo a seu gosto, pois o Filho foi enviado para tornar a vida mais digna e ditosa para todos, até alcançar a plenitude na festa final do Pai. Estes são os sinais da presença do Messias: alívio para quem sofre, acolhida para quem é excluído, vida para quem se sente morrer, visão para quem se encontra na penumbra, fortaleza para os joelhos frágeis… Feliz aquele que aceita que este é o Deus da Vida, Aquele que desce, se faz carne humana, para acolher em si a dor e o sofrimento de todos, sobretudo daqueles que são vítimas e estão excluídos. O modo de agir de Jesus em favor da vida deve também inspirar o nosso modo de agir durante o Advento. Não tem sentido despertar nossa sintonia com aquele que colocou a vida dos mais pobres e sofredores no centro de sua missão se não ativarmos nossa sensibilidade e nosso compromisso com aqueles que são vítimas das estruturas sociais e políticas injustas. Viver em “estado de Advento” não é se fixar no futuro, aguardando a vinda d’Aquele que já está sempre presente e que se faz visível nos rostos dessas vítimas. “Ser Advento” implica “descer” junto à humanidade, recompondo vínculos quebrados, superando ódios e intolerâncias, mobilizando energias e criatividade para que a vida de todos possa ser desbloqueada e encontre espaço para se expressar em sua plenitude. Portanto, Advento sem compromisso com a vida é Advento estéril, com cheiro de morte. Para conhecer Jesus, o melhor é ver de quem Ele se aproxima e a que Ele se dedica. Para captar bem sua identidade não basta confessar teoricamente que Ele é o Messias, Filho de Deus. É preciso sintonizar-nos com seu modo de ser Messias, que não é outro senão o de aliviar o sofrimento humano, curar a vida ferida e abrir um horizonte de esperança aos pobres. Os cegos, surdos, coxos, leprosos, pobres e muitos outros coletivos no mundo de hoje, continuam sendo símbolos da marginalização mais radical que afeta muitíssimos seres humanos. O texto do evangelho deste domingo quer ressaltar que a chegada do Reino terá consequências para todos, mas sobretudo para os mais excluídos, que tinham perdido toda esperança e o sentido do viver. Como podemos perceber, entre os sinais da presença do Messias não há um só sinal “religioso”: nem culto, nem rezas, nem sacrifícios, nem doutrinas, nem leis… Isto nos deveria fazer pensar. Nós cristãos, com frequência, esquecemos que, para Jesus, primeiramente vem a vida, depois o culto; em primeiro lugar, o compromisso em aliviar a dor humana, depois a religião. Não são só os cegos, surdos, coxos, doentes que fazem presente o Reino, mas também aqueles que se preocupam com eles. Só as ações em benefício dos outros deixam transparecer a presença de Deus. Entrar na dinâmica do Advento, significa estar dispostos a aproveitar qualquer ocasião para tornar presente o Reino, não frustrando aqueles que esperam de nós atitudes comprometidas com a vida. Nas páginas dos Evangelhos não vemos um Jesus fixo no deserto ou no templo, mas caminhando por toda a Galiléia; aproxima-se dos últimos e excluídos, vítimas do contexto social e religioso da época. O centro da sua missão é aliviar todo sofrimento humano, restabelecendo a vida onde ela está ferida. Quando se luta contra o sofrimento, quando se alivia a dor, quando se abre uma vida mais sadia… ali está atuando o Reino de Deus. O que Jesus fez, fundamentalmente, foi curar a vida. Pode-se dizer que toda a atuação de Jesus está encaminhada a criar uma sociedade mais saudável, mais humana, mais respirável, mais leve… Recordemos a rebeldia de Jesus frente a tantos comportamentos patológicos de raiz religiosa; como Ele critica o rigorismo, o legalismo, o culto vazio de amor… Jesus quer sanar a religião; seu esforço visa criar uma sociedade mais justa e solidária; sua oferta de perdão gratuito é para todos; sua atitude acolhedora envolve a todos os maltratados pela vida ou pela injustiça dos homens… Em tempos de fanatismos, intolerâncias e preconceitos, precisamos assumir uma

Direitos humanos e a desigualdade social

Infelizmente, em pleno 2022, ano de Copa do Mundo, como ocorre no Catar, ainda ocorrem violações dos direitos humanos. Homofobia, submissão das mulheres, sem falar no feminicídio em vários lugares no mundo, inclusive no Brasil, ocorrência que aumentou muito com a pandemia; a grande violação dos direitos fundamentais da pessoa humana. A má distribuição de renda é um dos principais fatores da desigualdade social. Como combater essa situação? O preconceito tem aumentado a violência, como no caso do racismo que tem sido corrente com pessoas públicas, como jogadores, artistas (como aconteceu num show do cantor Seu Jorge) e, há poucos dias, até com o ex-ministro Gilberto Gil, mesmo tendo sido uma importante autoridade e pessoa idosa. O fanatismo tem causado terrorismo, ameaçando a boa convivência humana, como estabelece a Declaração Universal dos Direitos Humanos, principalmente nos países de extrema pobreza e em desenvolvimento, como Haiti, países da África e regiões do Brasil, bem como em outros da América Latina, além do poder de grandes nações como a Rússia, que ataca cruelmente a Ucrânia. Há 74 anos, a Declaração Universal dos Direitos Humanos tem avançado nas conquistas do direito à vida dos indivíduos pelo mundo, para todos, “sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição”. Desde 10 de dezembro de 1948 que a luta pela dignidade humana passou a ser um desafio universal, entretanto ainda vemos jovens morrerem pelo fato de usar um véu de modo diferente de sua cultura. Os representantes de vários países enfrentam a desigualdade dos governos por vários motivos: cultural-religioso, histórico-político e econômico. É preciso ter pão em todas as mesas, mais empregos, educação para todos, para que o desenvolvimento de cada país possa ser possível; acesso à saúde, revitalizando o calendário das vacinas, medicação e cirurgias; crescer na prática solidária com os menos favorecidos; utilizar as mídias para campanhas justas e solidárias, em vez de manter a ostentação da riqueza que tem gerado cada vez mais desigualdade social. A Declaração Universal dos Direitos Humanos deve ser um compromisso social, eliminando de nossa sociedade a discriminação contra a população negra e indígena, bem como em relação às diferenças de sexos nos empregos, na participação política e social. É necessário o conhecimento dos 30 artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos por parte dos brasileiros que, infelizmente, mantêm muitas injustiças e violações quanto aos direitos de crianças e idosos, por exemplo. Com o conhecimento sobre esse documento, procuremos denunciar quando os artigos não são cumpridos pelas autoridades e, ou, cidadãos comuns. A Declaração também é contemplada na Constituição brasileira de 1988, no Estatuto da Criança e do Adolescente, no Estatuto do Idoso, no Código Civil, na Lei Maria da Penha, no Estatuto da Juventude e demais leis que têm como objetivo proteger e garantir o bem comum a todos, inclusive quanto à vida ambiental. Maria Terezinha CorrêaMestre em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP, SBPC, Sintran e membro da APROFFIB. Atualmente, é professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, voluntária na Comissão de Prevenção e Combate à Tortura pela ALESC, na Pastoral da Pessoa Idosa ligada à Arquidiocese de Florianópolis e, recentemente, da ACC de Jales-SP.

ADVENTO: tempo para cuidar das raízes

“O machado já está na raiz das árvores” (Mt3,10) Sentimos indignação quando alguém corta uma árvore e deixa desnudo uma cepa do velho tronco com suas raízes ainda fundadas na terra. Estava já velha, dizem alguns. Era um perigo, comentam outros. Só ocupava lugar, exclamam mais alguns. Todos apresentam justificativas para eliminá-la e jogá-la abaixo. Todos têm razão quando se trata de eliminar o que é visto como inútil ou velho. No entanto, quando acreditavam que o velho tronco estava condenado a desaparecer, se esqueceram que ainda não tinham arrancado suas raízes. Subitamente, quando menos esperavam, viram como novos rebentos brotavam no tronco velho. O tronco estava para ser cortado, mas as raízes ainda tinham vida. E enquanto há vida nas raízes, a vida é possível. “Do velho tronco de Jessé, brotará o rebento que é Jesus”. A vida é mais forte que a velhice; a vida é mais forte que o robusto tronco; a vida sempre triunfa sobre aquilo que consideramos inútil, estorvo ou perigo. O problema que nos aflige hoje, talvez, não seja tanto referente aos troncos, mas um problema de raízes. Há demasiadas vidas sem raízes profundas; há demasiadas instituições carentes de raízes, que terminam sendo instituições vazias; há demasiadas vocações sem raízes profundas, que nascem de ideais mais emotivos que evangélicos; há demasiadas decisões sem raízes, porque são tomadas em um momento emocional, mas sem terra que as sustente; há demasiadas convicções ideológicas sem raízes… Por isso são vidas que morrem facilmente; morrem com a facilidade com a qual morrem os sentimentos que as sustentavam. Suas raízes estão tão na superfície da terra que acabam morrendo antes que o tronco. Cultivamos os ramos com muito esmero, mas nos esquecemos das raízes. Cultivamos muito o tronco, mas não alimentamos as raízes; cultivamos muito a aparência, mas não nos preocupamos em colocar água nas silenciosas raízes que não se veem. Quando as raízes têm vida, pode ser que alguns ramos se sequem, mas ainda permanecem outros sufici-entes para embelezar a árvore. Quando as raízes têm vida, podemos encontrar dificuldades no caminho, mas a vida é mais forte que os obstáculos. Quando as raízes têm vida, podemos passar por momentos de prova, mas a vida que sobe pelo tronco é mais forte. Com frequência, passamos a maior parte do tempo regando os ramos enquanto as raízes morrem de sede. O evangelho deste domingo nos revela que João Batista é o broto novo no velho tronco. No velho “tronco” de ontem (1º. Testamento), “vem a palavra de Deus sobre João, filho de Zacarias, no deserto”. João não é do AT. Tampouco do NT. Ele é a travessia, a ponte, o broto novo. Ele é o anúncio do novo que está prestes a brotar. O AT é um velho tronco que já não dá fruto, mas em suas raízes ainda permanece uma Vida que no NT será revitalizada. Porque o que Deus semeou durante séculos são sementes de Vida. Desaparecerá o tronco, mas suas raízes ainda têm vida. João é o novo rebento que anunciará a nova Árvore e a nova Vida. E ele mesmo começa por lançar água nas velhas raízes, anunciando a conversão do coração. Cultivar as raízes é fazer que, até os velhos troncos renunciem a morrer, mesmo que os cortemos, pois a vida das raízes encontrará novos brotos para continuar crescendo e vivendo. Serão vidas novas; serão troncos novos. O tempo litúrgico do Advento se revela como um momento privilegiado que nos motiva a “descer” em direção às nossas raízes interiores, para ativá-las, cultivá-las e evangelizá-las. Nosso contexto social-político-religioso está saturado das “palhas” da aparência e da superficialidade, gerando o veneno do ódio, da intolerância e da violência contra quem “pensa-sente-ama” de maneira diferente. É preciso levar as águas vivas do evangelho às profundezas do coração. Nesse sentido, Advento nos revela um componente de expansão, que alarga nosso ser, que nos dinamiza e nos eleva, ao mesmo tempo que é experiência radical daquilo que é mais humano em cada um. A partir das “raízes interiores” o Advento ilumina e dá sentido ao nosso modo de ser e viver; ao abarcar toda a vida, alcança também a nossa ação transformadora no mundo. Espiritualidade do Advento é a força vital que sacode nosso mundo interior, alimenta nossas raízes e faz surgir novos brotos que se visibilizam na nossa maneira original e inspirada de ser e viver no mundo de hoje.  Tal força regenerativa procede do Espírito Santo de Deus, que nutre e aquece nossa vida. Compreendemos, então, que espiritualidade não tem a ver com práticas piedosas alienadas e autocentradas; é uma experiência que deve ter raízes no coração, precisa de interioridade. Se não tem interioridade, não tem sonhos nem criatividade. No interior de cada um existe uma riqueza acumulada que procura se expressar (sentimentos, atitudes e valores, crenças, motivações, intuições…). O nível profundo é o nível da Graça, da gratuidade, da abundância… onde a pessoa mergulha no silêncio à escuta de todo seu ser. O Evangelho de Mateus nos apresenta João Batista clamando por conversão, “porque o reinado de Deus está próximo”. João contempla a realidade de seu povo e sente o impacto da violência e exclusão que tanto o poder religioso como o civil impunham a todos. Sua mensagem se concentra neste grito: “Preparai o caminho do Senhor, endireitar suas veredas!” Também o Papa Francisco grita a mesma mensagem aos cristãos de hoje e nos lança uma pergunta: “Estamos decididos a percorrer os caminhos novos que a novidade de Deus nos apresenta ou nos entrincheiramos em estruturas caducas, que perderam a capacidade de resposta?”. O Advento nos mobiliza a “descer” ao chão da vida para cultivar e cuidar do nosso ser essencial com o mesmo cuidado que tem o camponês quando trabalha a terra e a plantação. Apenas aquelas pessoas que se mantêm próximas ao chão, às raízes da vida, conseguem manter também esta postura totalmente radical, a “humilitas” que vem de húmus, o chão escuro, úmido e fértil da terra.  Somos Advento, ou seja, pessoas “radicais”,

Política de Privacidade

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações de cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.

Mais informações sobre: Política de Privacidade