Como integrar “Pedro e Paulo” em nossas vidas?

“E vós, quem dizeis que eu sou?” (Mt 16,15) Neste domingo, a liturgia nos convida a “fazer memória” de S. Pedro e S. Paulo, dois personagens instigantes, inspiradores e motivadores para todos nós cristãos, seguidores(as) d’Aquele que continuamente nos desafia com sua pergunta: “E vós, quem dizeis eu sou?”. Não se trata de dar uma resposta teológica, mas de reforçar nossa adesão e identificação à pessoa de Jesus Cristo. Por isso, cada um responde de maneira diferente, porque não há um seguimento igual para todos. Foi assim que Pedro e Paulo, com suas personalidades tão distintas, deixaram-se impactar pela pergunta de Jesus e souberam responder com a vida; por isso, eles são referências para nós. Há perguntas inofensivas, fáceis de responder e que não nos comprometem. O problema está quando nos fazem perguntas nas quais nos sentimos implicados. Há perguntas que parecem ser de pesquisas; e há perguntas que nos desvelam por dentro. Há perguntas secundárias sobre as quais podemos dizer qualquer coisa. E há perguntas essenciais que nos movem a falar de nós mesmos. E essas perguntas doem porque são perguntas que desnudam o fundo de nosso coração. São perguntas que nos implicam naquilo que somos realmente. O perguntar é ousado, instigante; perguntar contém desafio, provocação; leva dose de irreverência. “Perguntar é mergulhar no abismo” (Exupèry). As perguntas têm uma força que não encontramos nas respostas. Enquanto perguntamos por alguém, palpita em nós um impulso, um interesse que não se apaga enquanto não sacia nossa curiosidade. A pergunta é movimento; é a pergunta que faz emergir a novidade, pois ela ativa a busca por uma resposta criativa. Mais ainda, perguntar põe em crise certas convicções, ideias fechadas, modos arcaicos de viver… e nos mantém em busca permanente. É neste nível que surge a pergunta de Jesus aos discípulos, na região de Cesareia de Filipe. Ele não pergunta aos seus discípulos sobre o que pensam a respeito do Sermão da Montanha ou sobre sua atuação curativa juntos aos doentes da Galileia. Para seguir Jesus, o decisivo é a adesão à sua Pessoa. Por isso quer saber o que eles pensam e sentem, depois de um tempo de convivência com Ele. Jesus propõe a pergunta fundamental, “e vós, quem dizeis que eu sou?”; uma pergunta exigindo que eles se examinem a sério, que tomem consciência do que pretendem, que explicitem as reais motivações que os levam a segui-lo. Responder à pergunta “Quem sou eu para vocês?” é fazê-los comprometer com um novo estilo de vida, é assumir o novo caminho com Ele, é arriscar-se numa aventura. A pergunta é desafiadora, e não simples curiosidade e inquietação, e se dirige a todos. Cada um tem de dar sua resposta. Ela exige uma tomada de posição, um ato de fé. Pedro e Paulo responderam com suas vidas à pergunta feita por Jesus; por isso, eles não são somente duas colunas que sustentam a grande comunidade cristã; eles representam as duas dimensões essenciais para o dinamismo da Igreja. A liturgia intuiu que é preciso integrar as identidades destes dois personagens. Não se pode privilegiar um em detrimento do outro. Nos Evangelhos, Pedro é o pescador que, impactado pela presença e pelo convite de Jesus, vai entrando, aos poucos, em sintonia com Ele. Um encontro que vai crescendo em adesão à proposta do Reino; um caminho de seguimento que tem seus momentos de obscuridade e de crise, sobretudo ao ver o fracasso do Mestre condenado pelas autoridades religiosas e políticas. Pedro é o protótipo do cristão que vai se convertendo, abrindo-se à presença desconcertante de Deus na conduta histórica de Jesus. Em Pentecostes, Pedro fala em nome dos primeiros discípulos, cuja fé vem a ser normativa para todas as gerações que se sucedem na história da igreja. Ele confessa o artigo central e original da fé cristã: “Jesus Cristo é o Filho de Deus vivo”. E se a Igreja se mantém firme nessa confissão, nada nem ninguém a destruirá. Entre os discípulos de Jesus, Pedro foi, sem dúvida, o mais atirado, o mais impulsivo, com o perigo que isso implica. Era o líder do grupo, o primeiro a falar em qualquer circunstância, sem medo de repreender Jesus quando este anuncia sua paixão, sem medo de levar uma reprimenda quando Jesus quer lavar os pés ou quando anuncia que todos o trairão. O fato de ser tão lançado o situa também no lugar mais perigoso, o da negação de Jesus. Mas, ele mesmo termina confessando depois da ressurreição: “Tu sabes tudo, tu sabes que te amo”. Não é novidade que Jesus o visse como o líder natural do grupo depois de sua morte e ressurreição. Paulo, por sua vez, é o homem universal. Alcançado e convertido pela presença do Ressuscitado, ele abriu a Igreja ao mundo grego e romano, superando os moldes da religião judaica. Com sua itinerância, rompeu as fronteiras geográficas, culturais e religiosas, pois, para ele, o Evangelho de Jesus é anúncio de salvação para todos os povos. O que muitos não conhecem é a revelação que Deus lhe fez e que ele tanto insiste em suas cartas: que a boa notícia de Jesus não era só para os judeus, mas também para toda a humanidade. A expansão da Igreja primitiva é humanamente inconcebível sem a figura de Paulo. Percorreu milhares de quilômetros e se expôs a todo tipo de perigos para levar o anúncio de Jesus “até os confins da terra”. Em chave de interioridade, podemos afirmar que Pedro e Paulo são também dimensões de nosso ser. “Pedro” representa a solidez interior, a certeza, a convicção, os valores… Viver a “dimensão Pedro” é cuidar dos fundamentos de nossa vida, a rocha sobre a qual construímos a maneira de viver o seguimento de Jesus. Nossa própria interioridade é a rocha consistente e firme, bem talhada e preciosa que temos, para encontrar segurança e caminhar no seguimento superando as dificuldades e os inevitáveis golpes na luta pela vida. É no “eu mais profundo” que as forças vitais se acham disponíveis para nos ajudar a
Missão, Mística e Profecia na Amazônia

“Missão, partida de amor por amor, ir ao encontro do irmão com alegrias e dores. Entrega do coração e disso o melhor. Missão, missão a nossa paixão maior”. Nos dias 5 a 16 de julho, realizamos uma missão no distrito de Maracajá, diocese de Cametá, Pará. O evento foi organizado pela equipe da CRB Nacional com as Novas Gerações e Pe. João Paulo, pároco da Paróquia São José, Maracajá. Vindos de diferentes partes do Brasil, formamos um grupo de 65 missionários, entre religiosas e religiosos (20 congregações), formandas, seminaristas, padre e alguns leigos comprometidos. Como Serva do Espírito Santo, este foi um momento único viver a multiplicidade de culturas como Vida Religiosa Consagrada junto a população local, distinta em sua diversidade, formada por paraenses, maranhenses, baianos, goianos e mineiros. Ao viver a inculturalidade, traço marcante da nossa congregação, senti a diversidade como riqueza e dom, pois unimos diferenças culturais, carismas e espiritualidades, para interagir em caminhada sinodal. O objetivo da missão foi inserir os jovens da Vida Consagrada na missão da Igreja e conhecer a realidade do povo da região transamazônica. Visitamos famílias, doentes e necessitados, como presença reveladora do amor de Deus neste solo sagrado carregado de mística e profecia, a Amazônia. Para iniciar nossa missão, tivemos nossa preparação, com momentos de integração, de oração, celebrando a memória e fazer memória dos mártires da região e de hoje, que fizeram e fazem da religião um ato de fé, amor e libertação, causa de vida e morte! Conhecemos o local de missão da Irmã Dorothy Stang, visitando, também, sua sepultura e ficamos impregnados pelo ar de profecia da vida religiosa consagrada e impressionados pelo testemunho da comunidade local pela Irmã Dorothy, que esteve em constante luta e defesa por vida mais digna dos mais empobrecidos e cuidado da natureza: “A morte da floresta é o fim da nossa vida!”. Para iniciar nossa missão, participamos da Santa Missa, momento em que fomos ungidos pelo óleo, recebemos a cruz missionária, fomos enviados/as e partimos para as visitas em 4 diferentes comunidades/paróquias: Maracajá, Gelado, Novo Repartimento e Pacajá. Visitar casa por casa, sentir e comungar da experiência de Deus, em cada pessoa e família, foi gravando em nossos corações a marca do eterno. Missão é sempre partir! Não só geograficamente, mas, principalmente, de si mesmo e ir ao encontro do irmão, do próximo, do pobre, do necessitado. Após a realização das visitas, de porta em porta, percorrendo distâncias, em motos, carros, camionetas ou a pé, por pontes e ladeiras, chegando a todas as família, retornamos para Maracajá para a Missa de encerramento, com a comunidade local. Celebramos e agradecemos a Deus por tantas experiências enriquecedoras vividas, tantos rostos nos quais contemplamos a face de Deus, não só no sorriso e testemunho de vida das pessoas impelidas do Espírito Santo que conhecemos, engajados na igreja, em diferentes pastorais e movimentos, mas, sobretudo e principalmente, na realidade dos nossos irmãos desfavorecidos; nos doentes, nos que sofrem, nos que trabalham duro para ganhar o pão de cada dia, nos pobres, nos mais pequenos, ignorados, explorados, marginalizados, oprimidos, abusados, inocentes e necessitados. Nossos corações, tocados por eles, ajudou-nos a tirar as sandálias e adentrar nos corações destes nossos irmãos/ãs queridos. Feita a avaliação final, os nossos sentimentos eram de alegria e profunda gratidão. Sem dúvida, este foi um grande impulso no ardor missionário para nossas vidas, como jovens religiosos consagrados. Gratidão e apreço a toda equipe de coordenação da missão e CRB Nacional por esta enriquecedora experiência junto aos nossos irmãos e irmãs da região Amazônica. Sem deixar de dizer um Deus lhe pague para a Direção Provincial, que apoiou essa tão rica experiência missionária, em terras amazônicas. Que Deus abençoe a todas e todos. Ir. Patrícia Zeponi, Missionária Serva do Espírito Santo
A revolução da inteligência artificial

A inteligência artificial (IA) tornou-se uma das tecnologias mais importantes e disruptivas de nosso tempo. Desde seu surgimento, a ela evoluiu rapidamente e desempenha um papel importante na transformação de vários setores da sociedade, como educação, saúde, indústria, transporte, comunicação, serviços, entre outros. Essa revolução alavancada pela IA tem o potencial de trazer mudanças significativas na maneira como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos, criando uma série de novas oportunidades e desafios em todo o mundo. Uma das principais características da IA é a capacidade de aprender e adaptar-se com base em um grande volume de dados. Algoritmos avançados, como redes neurais artificiais, machine learning e deep learning, permitem que as ferramentas de IA processem grandes volumes de informações, identifiquem padrões e apresentem soluções baseadas em dados, de maneira semelhante aos humanos. Na área da saúde, por exemplo, a IA está revolucionando diagnósticos médicos. Ferramentas de IA podem analisar exames de imagem, como raios X e ressonâncias magnéticas, contribuindo para o diagnóstico precoce de doenças. Na indústria, robôs e sistemas autônomos são utilizados em fábricas e cadeias de suprimentos para executar tarefas repetitivas e perigosas, aumentando a produtividade e reduzindo o risco para os trabalhadores. Além disso, ferramentas de otimização são aplicadas para melhorar o planejamento da produção, reduzir custos e melhorar o uso de recursos. Ela também é usada para prever falhas de equipamentos, permitir manutenção preditiva e evitar interrupções não planejadas na produção. Essas inovações fazem parte de uma nova onda na industrialização, conhecida como “indústria 4.0”. No transporte, os veículos autônomos já são realidade graças aos avanços nos sistemas computacionais e de tomada de decisão, baseados em IA. Esses veículos são capazes de analisar seus arredores, identificar objetos, tomar decisões de direção e evitar colisões. Além disso, ela é usada para melhorar o gerenciamento de tráfego, reduzir o congestionamento e aperfeiçoar sistemas de transporte público. Nas finanças, algumas ferramentas de IA são utilizadas para analisar dados financeiros, identificar padrões de fraude, decidir sobre investimento e gerenciar riscos. Além disso, algumas instituições financeiras usam assistentes virtuais de atendimento e para detectar tendências de mercado, permitindo que prestem serviços mais personalizados e eficientes. Embora a IA proporcione inúmeras oportunidades, também levanta diversas preocupações e desafios. Questões éticas, como a privacidade dos dados e a manipulação, precisam ser abordadas para garantir que a IA seja utilizada de forma responsável e justa. Além disso, a substituição de empregos por ferramentas de IA levantam preocupações sobre o impacto social e a necessidade de requalificação profissional. Observação: parte deste artigo foi elaborada com a ajuda de ferramenta de inteligência artificial. Júlio César StadlerAdministrador, analista de sistemas, estudante de Engenharia Mecatrônica e professor, 25 anos de experiência em tecnologia da informação.
Erradicação da tortura: hora de educar nossas consciências

O artigo 5º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, promulgada em 10 de dezembro de 1948, estabelece que “ninguém será submetido à tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes”, independentemente da cor, do sexo, da religião, do idioma. Mas como identificar a tortura no meio social, ainda hoje? Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), “a tortura é a imposição de dor física ou psicológica a uma pessoa para obter confissões”. A prática da tortura tem vários motivos: sexual, racial, político, religioso ou todos esses juntos. Infelizmente, desde a chegada dos portugueses ao Brasil, em 1500, a tortura é usada como prática para obter uma confissão. A exploração dos indígenas ou povos originários e mais a escravidão do povo negro, forçadamente trazido da África como mercadoria, marca a crueldade histórica do País. Muitos outros países têm histórias de guerras sangrentas desde a Antiguidade, as quais se mantêm hoje, fato a que assistimos pelos meios de comunicação. Diversas instituições legais, tanto nacionais quanto internacionais, utilizaram e ainda usam de violência política, insurreições, atos terroristas, guerrilhas… A guerra da Rússia contra a Ucrânia, que submete a população civil a uma situação lamentável, policiais que abusam do poder contra indivíduos já indefesos, maus-tratos, superlotação nas prisões… Até quando veremos essas situações? Dia 26 de junho é a data instituída pela ONU, em 1997, para celebrar o Dia Internacional de Apoio às Vítimas da Tortura, recordando a Convenção Contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis. Toda violação e ações contrárias à vida podem ser uma submissão à tortura. Para garantirmos a vida humana, é necessário denunciar ao Ministério Pública e ao Conselho Estadual dos Direitos Humanos e demais grupos de combate à tortura. Procuremos educar nossa consciência para erradicar a tortura das relações pessoais e sociais. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, filiada à ABA, APEOESP, SBPC, Sintran e membro da APROFFIB.
Medo ou confiança: quem determina nossa vida?

“Não tenhais medo!” (Mt 10,31) Uma das grandes insistências de Jesus no Evangelho é, sem dúvida, esta: “não tenhais medo!”. Jesus sempre se revelou um profundo conhecedor da condição humana; percebeu claramente que muitas pessoas eram marcadas por tremendos medos, impedindo-as de viver com sentido e plenitude. Ele tinha plena consciência de que os maiores medos eram alimentados pela religião, centrada nas leis, nos ritos, nas doutrinas… gerando sentimentos de culpa e angústia diante do futuro. Pior ainda, eram os controladores da religião que manipulavam os medos, tendo o controle sobre as pessoas e impondo a imagem de um Deus que ameaça e castiga. É o chamado “poder de consciência” exercido pelas autoridades religiosas que tem feito e continua fazendo tantos “estragos” nas consciências dos indivíduos. Diante dessa dura realidade, Jesus sempre procurou despertar a esperança nas pessoas, alimentando um clima de confiança no Pai e da busca de vida plena: “Vim para que todos tenham vida e vida em plenitude”. Medo e confiança são duas emoções fortes presentes no desenvolvimento do ser humano; dependendo de como alimentamos uma ou outra, assim será nossa vida: carregada de medo (atrofia, paralisia existencial…) ou de confiança (criatividade, mobilização dos melhores recursos internos, busca, inspiração…). O medo é o oposto da confiança. Os neurocientíficos confirmam que ambas as emoções usam as mesmas redes neuronais. Isso quer dizer que, alimentar o medo, consciente ou inconscientemente, significa solapar a possibilidade de confiar. O medo nos incapacita para a confiança, que é a atitude humana sobre a qual se assenta o dom da fé; o medo seca as fontes da esperança, impedindo-nos viver com prazer e alegria. Sabemos que o medo é uma emoção importante que nos permite detectar as ameaças e proteger-nos diante delas. Faz parte, portanto, de nosso equipamento biológico. Seu objetivo primeiro é defender-nos, seja fugindo, seja ativando energias para enfrentar a ameaça. O problema surge quando a ameaça não é real, mas fabricada e alimentada por nossa mente, como consequência de medos “herdados” através de gerações, de experiências infantis mais ou menos traumáticas ou da ignorância de quem realmente somos. O medo é um câncer que ameaça à fé, ao amor e à esperança de pessoas e instituições; ele corrói as fibras humanas, asfixia talentos, esvazia a vida e mata a criatividade. O medo encolhe o ser humano, inibe a decisão e bloqueia os movimentos em direção ao “mais”. A intensidade do medo pode anular a capacidade de reação das pessoas ou das instituições; ele impede o discernimento e a busca da solução mais inteligente para os problemas; longe de resolvê-los, pode agravá-los a médio e longo prazo. O medo nos acovarda e nos constrange, nos isola e nos obriga a viver na defensiva, em permanente estado de alerta. O medo é paralisante; o medo nos impede ser nós mesmos; o medo nos acovarda diante daqueles que não pensam como nós; o medo impede afirmar nossa identidade de seguidores(as) de Jesus. O medo nos mimetiza como alguns insetos que, diante do perigo, mudam de cor para não serem vistos e reconhecidos. O medo pode minar nossas esperanças, esvaziar a capacidade de amar, atrofiar a força de nossas ideias… Enfim, o medo obscurece o sentido e a direção da vida, tira o brilho tão próprio do amor, nos bloqueia e nos enterra na acomodação mesquinha. O medo não só é explorado por empresas que se dedicam a todo tipo de seguros, mas também pelas religiões, que exploram seus seguidores, vendendo-lhes o “paraíso”, depois de ter-lhes infundido um medo irracional ao sagrado. Somos bombardeados constantemente por uma “pastoral do medo”, que continua tendo uma influência nefasta. Geralmente, os controladores das religiões tentam manipular a “divindade” para colocá-la a serviço de seus interesses egoístas. O medo induzido é o instrumento mais eficaz para dominar os outros. Historicamente, as autoridades religiosas utilizaram sempre desse expediente para conseguir a docilidade de seus súditos. Evangelicamente falando, o medo é sinal de que ainda não entramos na dinâmica do Reino, no caminho de Jesus; o medo nos faz refugiar numa fé alienante, que não arrisca nada, que não se compromete com nada, que não vai mais além de nossa autorrealização narcisista, fechados numa prática devocional estéril. Os medos não costumam apresentar-se de rosto descoberto; mascaram-se, porque são sintomas de debilidade; tornam-se vergonhosos para nós. Eles se disfarçam para se tornarem mais aceitáveis. Existem muitos medos escondidos por trás das atitudes tirânicas de rigidez, de legalismo, de intransigência ou de intolerância. Recorremos a eles para ocultar-nos e defender-nos contra o novo e o diferente. O Papa Francisco afirma que por detrás das atitudes intolerantes está o frio hálito do medo. O medo empurra na direção dos individualismos, dos fanatismos e das soluções que contemplam simplesmente os próprios interesses. O medo enche de sombras o horizonte, tornando impossível uma decisão clarividente e ordenada. O medo cega, agita a imaginação e precipita juízos e decisões, criando impedimentos sérios para a vivência da fraternidade e para a coragem de compreender a vida como doação de si para o bem dos outros. Quem é capaz de sentir compaixão, bondade, mansidão… não se deixa afetar pelo medo e nunca será fanático nem intolerante, nem intransigente… Frente a tais medos-fantasmas, criados e alimentados por uma mente temerosa e ignorante, a mensagem das pessoas sábias aparece marcada pela confiança. É o que percebemos em Jesus de Nazaré, quem, de maneira constante, insiste: “Não tenhais medo”! Confiai! A confiança brota da compreensão, da certeza de que aquilo que somos se encontra sempre a salvo. Nas palavras do próprio Jesus: “podem matar o corpo, mas não podem matar a alma”. A confiança não surge de um voluntarismo a toda prova, mas da experiência profunda de quem é Deus para nós. Aceitar e acolher nossas limitações e descobrir nossas verdadeiras possibilidades é o único caminho para chegar à total confiança. Confiar em Deus é confiar em nosso próprio ser, na vida, naquilo que somos de verdade. Não se trata de confiar em um ser que está fora de nós
Junho e as vozes da ecologia e do meio ambiente

O mês de junho vem acompanhado de várias notas para reverenciar e cuidar da nossa casa comum, a Terra. Além de temas como educação ambiental, meio ambiente, ecologia, oceanos, vida no mar, mudanças climáticas como seca e desertificação, é o mês que demarca o início do inverno, com o dia mais curto do ano, demonstrando delicada relação de equilíbrio como Cosmos que afeta a organização de nosso dia a dia, do vestuário e alimentação até nossas horas de sono. Ao prestigiar o Dia Mundial do Meio Ambiente, dias depois de o Congresso Nacional mutilar o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, a ministra Marina Silva destacou: Hoje é dia de termos consciência de que nosso tempo para agir está se esgotando e assumirmos definitivamente o que a ciência nos diz: ou respeitamos a natureza, e fazemos dela uma aliada, ou inviabilizaremos nosso futuro. Por tudo isso, faço desta data um convite para nos unirmos numa inadiável missão: a de tratar a natureza da forma correta, num esforço em benefício da nossa e das futuras gerações. A voz de Marina não ecoa solitária nesse cenário de crise ecológica. À sua convocação somam-se a sabedoria indígena, representada por Ailton Krenak; a tese do cuidado, defendida escritor e teólogo Leonardo Boff; e as orientações da Encíclica do Papa Francisco (2015), Laudato si’: sobre o cuidado da casa comum. Nesse documento, o Papa convoca: Precisamos de um debate que nos una a todos, porque o desafio ambiental que vivemos e as suas raízes humanas dizem respeito e têm impacto sobre todos nós. O movimento ecológico mundial já percorreu um longo e rico caminho, tendo gerado numerosas agregações de cidadãos que ajudaram na consciencialização. Infelizmente, muitos esforços na busca de soluções concretas para a crise ambiental acabam, com frequência, frustrados não só pela recusa dos poderosos, mas também pelo desinteresse dos outros. As atitudes que dificultam os caminhos de solução, mesmo entre os crentes, vão da negação do problema à indiferença, à resignação acomodada ou à confiança cega nas soluções técnicas. Precisamos de nova solidariedade universal. Como disseram os bispos da África do Sul, “são necessários os talentos e o envolvimento de todos para reparar o dano causado pelos humanos sobre a criação de Deus”. Todos podemos colaborar, como instrumentos de Deus, no cuidado da criação, cada um a partir da sua cultura, experiência, iniciativas e capacidades. É importante destacar, não só no mês de junho, que a Laudato si’ passa por questões urgentes, como poluição, resíduos e cultura do descarte; clima como bem comum; água; perda da biodiversidade; desigualdade planetária; deterioração da qualidade de vida humana e degradação social. Além disso, o Pontífice chama a atenção para a relação tecnologia, criatividade e poder; a fraqueza das reações; a globalização do paradigma tecnocrático; as consequências decorrentes da crise gerada pelo antropocentrismo moderno. A Encíclica situa a ecologia como tema central, relacionando-a com questões ambientais, econômicas, sociais, culturais e a vida cotidiana; defende o princípio do bem comum e da justiça intergeracional. O Papa Francisco apresenta orientações para ação fundamentadas no diálogo e na educação. O diálogo é considerado estratégia para desafios ambientais, política internacional, novas políticas nacionais e locais, transparência nos processos decisórios, interação entre política e economia para a plenitude humana, e relação entre religiões e ciências. Educação e espiritualidade ecológicas, por sua vez, devem guiar para outro estilo de vida, para a conversão ecológica, para a aliança entre a humanidade e o ambiente. O Papa finaliza propondo duas orações: a primeira pela nossa Terra, a segunda pela criação, fechando a Encíclica com as palavras: Deus de amor,mostrai-nos o nosso lugar neste mundocomo instrumentos do vosso carinhopor todos os seres desta terra,porque nem um deles sequeré esquecido por Vós.Iluminai os donos do poder e do dinheiropara que não caiam no pecado da indiferença,amem o bem comum, promovam os fracos,e cuidem deste mundo que habitamos.Os pobres e a terra estão bradando:Senhor, tomai-nossob o vosso poder e a vossa luz,para proteger cada vida,para preparar um futuro melhor,para que venha o vosso Reinode justiça, paz, amor e beleza.Louvado sejais!Amém. ___________________________________ ReferênciasSILVA, M. Pronunciamento da ministra do Meio Ambiente e Mudanças do Clima, Marina Silva, em rede de rádio e televisão, por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente, em 5 de junho de 2023. Disponível em: https://www.gov.br/mma/pt-br/assuntos/noticias/nosso-tempo-para-agir-esta-se-esgotando-diz-marina-silva-em-pronunciamento-do-dia-mundial-do-meio-ambiente. Acesso em: 13 jun. 2023. DICASTÉRIO PARA O SERVIÇO DO DESENVOLVIMENTO HUMANO INTEGRAL; STOCKHOLM ENVIRONMENTAL INSTITUTE. A nossa casa comum: um guia para cuidar do nosso planeta vivo. Disponível em: https://www.sei.org/wp-content/uploads/2022/11/a-nossa-casa-comum-sei-vatican-20221128.pdf. Acesso em: 14 jun. 2023. __________________________________ Marli Teresinha EverlingProfessora dos cursos de Graduação e Pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville (Univille); coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica; colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental (caranguejo.org.br); colaboradora do blog SSpS para temas ambientais; colaboradora das redes sociais do design para temas ambientais – Instagram (@designuniville).
“Chamado-seguimento” com a marca da compaixão

“Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas…” (Mt 9,36) O atributo primeiro do Deus de Jesus não é o poder, a majestade, o senhorio…, mas a compaixão. Ele não vem para impor-se e dominar o ser humano. Aproxima-se para tornar nossa vida mais digna e ditosa. Esta é a experiência que Jesus comunica em suas parábolas mais comovedoras e a que inspira toda sua trajetória a serviço do Reino de Deus. De fato, na sua vida pública, Jesus deixa transparecer o rosto do Pai compassivo na sua relação com a humanidade, sobretudo com os sofredores, vítimas de violência e exclusão. A imagem do Deus revelado por Ele não está acima ou à margem do sofrimento humano. Jesus é a primeira testemunha da compaixão do Pai; Ele foi o primeiro a viver totalmente a partir deste sentimento tão divino e tão humano, desafiando claramente o sistema de santidade e pureza que predominava naquela sociedade. Ele quer que, a partir de então, os enfermos, os famintos, os excluídos… experimentem em sua própria vida a compaixão de Deus. A atuação de Jesus era diferente das autoridades religiosas, pois Ele via tudo a partir da compaixão de Deus. O que lhe preocupava, antes de mais nada, era o sofrimento que destruía, humilhava e marginalizava tantas pessoas. Jesus não caminhava pela Galileia buscando pecadores para convertê-los de seus pecados, mas aproximava-se dos enfermos, famintos e endemoninhados para libertá-los de seu sofrimento. É precisamente esta compaixão de Deus que faz Jesus tão sensível ao sofrimento e à humilhação das pessoas, que o atrai para as vítimas inocentes: os maltratados pela vida ou pelas injustiças dos poderosos. Sua paixão pelo Deus do Reino se traduz em compaixão pelo ser humano. O Deus do templo, o Deus da lei e da ordem, do culto e do sábado, não poderia alimentar sua entrega a todos os sofredores. Por isso, a compaixão, é a opção e atitude fundamental de Jesus diante dos sofredores, famintos e excluídos. Diante deles, Ele não permanece impassível, mas sente remover suas entranhas. A palavra hebraica que se traduz por compaixão é “rahamim”, derivada de “rahem”, ventre, entranhas. Na antropologia bíblica, ventre é o lugar da compaixão e é aplicado a Deus, pois só Ele é capaz de atuar compassivamente a partir de suas entranhas. A tradição bíblica do Êxodo apresenta Javé movido pela compaixão diante dos sofrimentos do povo hebreu; Ele escuta os gritos que chegam ao céu e compromete-se com a libertação da escravidão do Egito (Ex 3,7-12). A compaixão também está na base da legislação hebraica que defende os direitos dos órfãos, das viúvas e dos estrangeiros, os mais vulneráveis entre o povo. É o centro da mensagem e a prática dos profetas de Israel, para quem a religião verdadeira não consiste em oferecer sacrifícios, mas em fazer o bem, estabelecer o direito e praticar a justiça. A compaixão expressa, portanto, uma reação visceral, o estremecimento mais íntimo e humano que uma pessoa pode experimentar. Nesse sentido, a compaixão é o motor da vida e da conduta do ser humano. A partir de sua experiência radical da compaixão, Jesus introduz na história um princípio decisivo de ação: “Sede compassivos como vosso Pai é compassivo” (Lc 6,36). A compaixão é a força que pode mover a história para um futuro mais humano. A compaixão ativa e solidária é a grande lei da dinâmica do Reino, aquela que faz reagir diante do clamor daqueles que sofrem e mobiliza a todos para construir um mundo mais justo e fraterno. Esta é a grande herança que os cristãos precisam mantê-la sempre ativa. Afinal, eles são seguidores do Compassivo. A compaixão é a virtude por excelência proclamada no Sermão da Montanha: “Bem-aventurados os compassivos…”. Felicidade e compaixão são inseparáveis. Uma pessoa é feliz partilhando e aliviando a dor das pessoas que sofrem. A falta de entranhas de misericórdia torna infelizes aqueles que não praticam tal virtude e aqueles que sofrem. Por isso, pode-se dizer que se trata de um princípio ético universal, que transcende todas as culturas e religiões, de maneira que, precisamente por isso, está presente onde há humanidade. A compaixão é comum a todos e é anterior a toda instituição religiosa. Ela está inscrita no mais profundo de todo ser humano, independentemente de sua opção religiosa. Fomos criados à imagem e semelhança do Deus Compassivo e trazemos “tatuado” em nossas entranhas a marca da compaixão, que é continuamente ativada diante dos dramas da vida humana. Este sentimento, tão humano e tão divino, constitui a essência do nosso “eu” verdadeiro e revelador da nossa identidade mais original e profunda. No entanto, quando nos deixamos seduzir pelo “ego inflado”, a compaixão se atrofia, a sensibilidade se petrifica, os afetos se esvaziam… Consequências: agravamento da cultura do ódio, da intolerância, do preconceito e da indiferença frente à realidade marcada pela violência, miséria e exploração. Compaixão bloqueada dá margem ao processo de desumanização. O eu entrincheirado em seu “bunker” necessita passar por um processo de higiene e saúde, respirar novos ares, não viciados ou contaminados; precisa abrir suas portas e janelas ao outro, sair às ruas, fazer-se presente junto às situações desumanizadoras. Viver fechado em si e para si termina por afogar-se nas águas poluídas do narcisismo. Só a compaixão vem a ser o melhor antídoto contra o egoísmo tão enraizado no ser humano. Impulsionado pelo sentimento da compaixão ele quebra as paredes de seu “bunker”, sai ao encontro do outro e se compromete com ele. Escreve E. Levinás: “a partir do momento em que o outro me olha, eu sou responsável por ele”. No evangelho deste domingo, Mateus nos deixa claro que foi no contexto da compaixão de Jesus diante da multidão faminta e sem pastor que o “chamado e o envio” acontecem. O chamado de Jesus emerge do calor da compaixão; só este sentimento tão nobre dará inspiração e sentido ao seu seguimento. Sem se deixar guiar pela compaixão, o seguimento de Jesus “passa pelo outro lado” diante do sofrimento humano e se torna cúmplice dele. A alternativa
Nativos digitais: se as crianças não passarem tempo com os pais, teremos consequências?

O termo “nativos digitais” foi criado por Marc Prensky, em seu artigo Digital natives, digital immigrants, de 2001, publicado com a intenção de se referir à geração que nasce e cresce imersa na tecnologia, e a algumas das implicações dessa mudança no processo de ensino-aprendizagem. De tal forma, podemos observar um marco de mudança significativa entre gerações que nos coloca diante de uma nova realidade: as atuais novas gerações e próximas estão conectadas, desde a infância, no digital. A problemática surge quando refletimos, de forma crítica, sobre a função que se direciona hoje aos eletrônicos em contato com a criança, cada vez mais cedo e sem limite de uso. Estamos, nos últimos anos, recebendo nos consultórios as primeiras gerações de bebês e pequenas crianças que, desde o nascimento, convivem com a existência desses gadgets eletrônicos e que recolhem as consequências disso não só diretamente, na medida em que eles passam a ser oferecidos no lugar dos brinquedos (não à toa, têm sido fabricados menos brinquedos e mais jogos eletrônicos), mas também indiretamente, na medida em que convivem com adultos que não têm mais tempo, porque os eletrônicos bugaram, desconfiguraram a borda entre o espaço de lazer e de trabalho, e que não têm mais lugar, afinal se vive olhando para janelas virtuais, de corpo presente, mas psiquicamente ausente (BAPTISTA; JERUSALINSKY, 2017, p. 35). Quando pensamos no surgimento de um termo utilizado para definir as gerações conectadas e começamos a repensar nossa forma de atuação para mediar um acesso que se apresenta quase intrínseco às crianças, faz-se válido destacar alguns pontos de consequência acerca dos limites de uso dessas ferramentas digitais, de uma conexão wi-fi que não pode substituir a conexão humana, principalmente em tempos fundamentais como do desenvolvimento e estimulação inicial de uma criança, considerando que, nos anos iniciais, ocorre a instauração da linguagem bem como seus efeitos, mediados por um adulto que efetua essa inscrição na criança. Este é o problema: os aparelhos emitem sequências sonoras, mas não conversam […] eles oferecem fragmentariamente uma linguagem, mas não sustentam sua função. Emitir sequências sonoras é bem diferente do que dar lugar a que o sujeito possa se representar na linguagem (BAPTISTA; JERUSALINSKY, 2017, p. 41) Podemos visualizar, entre vários aspectos, algumas consequências desse afastamento dos responsáveis pela criança, que acabam, muitas vezes, por colocar em seu lugar aparelhos eletrônicos para obter algum tempo de descanso, por exemplo (nem sempre cientes dos malefícios) como o prejuízo na linguagem e dos estímulos, conforme nos apontam Baptista e Jerusalinsky (2017, p. 42): “Não são poucos os bebês e pequenas crianças de um ano e meio a três anos que chegam ao consultório […] que não respondem quando chamados”. De tal forma, essas crianças respondem a sequências sonoras emitidas por serviços de entretenimento digital, mas não localizam o olhar do outro nem se localizam em um espaço, apenas buscando as telas e passando o dedo por elas (BAPTISTA; JERUSALINSKY, 2017). Emitir frequências sonoras, observar entonação da voz e a musicalidade desta se dá pela chamada prosódia, que seria, nesse caso, a comunicação entre bebê e quem realiza a função materna, “o modo como cada um se apropria da língua materna ao aprender a falar” (MAURANO, 2015, p. 92). Sendo as telas uma crescente inserção da infância, já observamos crianças como espectadoras do que os brinquedos fazem, e não mais como protagonistas de criar e imaginar, o que deve ser considerado quanto aos prejuízos que isso pode causar em um tempo em que as crianças ainda estão constituindo-se em seu desenvolvimento corporal e psíquico Podemos, assim, caminhar para a conclusão e seguir ampliando as reflexões de que vários fatores nos apontam sobre ser fundamental o tempo de qualidade (e, com esse termo, queremos dizer adultos presentes de corpo e mente, brincando, interagindo e não apenas sentados ao lado dos filhos, dividindo telas e rolando um feed) que os pais/responsáveis passem com essa criança. “Jogar é muito diferente de brincar, atividade constitutiva que permite e favorece a elaboração psíquica, estimula a imaginação e permite criar recursos anímicos para lidar com as angústias e os conflitos próprios da vida” (GUELLER, 2017, p. 66). Vale destacar que um bebê chega ao mundo já nomeado por um outro que escolhe como se chamará ao longo da vida, que foi desejada como filho, filha e que ocupará um lugar nessa família, necessitará, por mais algum tempo, de várias nomeações vindas desse outro a que se refere como pai e mãe, visto que é quem faz essa função inicial nos primeiros anos de vida com a criança, que nomeará quando sente fome, frio, sono… Isso é tão importante quanto o tempo de nomear e colocar significados, o tempo que a criança aprenderá nomear e dizer de si, imaginar e criar a partir da subjetivação da vivência dos anos iniciais e os vínculos que estabeleceu. Dessa forma, haverá o tempo de observar esse bebê tornando-se criança, adolescente e um adulto, atravessado pelas experiências iniciais de sua família e dos demais afetos de sua vida. Por fim, podemos então finalizar este pequeno artigo com o mesmo título que nos convocou a escrevê-lo: se os pais não passarem tempo com as crianças, quais consequências poderemos ter? Referências BAPTISTA, Angela; JERUSALINSKY, Julieta. Intoxicações eletrônicas: o sujeito na era das relações virtuais. Salvador: Ágalma, 2017. GUELLER, Adela. Droga de celular! Reflexões psicanalíticas sobre o uso de eletrônicos. In: BAPTISTA, Angela, JERUSALINSKY, Julieta. Intoxicações eletrônicas: o sujeito na era das relações virtuais. Salvador: Ágalma, 2017. p. 63-75. MAURANO, Denise. A perspectiva “musicante” da voz na Psicanálise ou notas sobre o ditirambo psicanalítico. In: DIAS, M. M. (Org.). A voz na experiência psicanalítica: III Jornada Seminário Fundamentos da clínica do psicanalista pelas psicoses. São Paulo: Zagodoni, 2015. p. 87-106. PRENSKY, Marc. Digital natives, digital immigrants. On the Horizon, v. 9, n. 5, out. 2001. Disponível em: https://www.marcprensky.com/writing/Prensky%20-%20Digital%20Natives,%20Digital%20Immigrants%20-%20Part1.pdf. Acesso em: 10 jun. 2023. Amanda Monteiro FaedoPsicóloga educacional no Colégio Santa Maria de Cascavel-PR, psicóloga clínica (CRP 08/28509), especialista em Psicanálise Clínica – Freud a Lacan pela PUCPR, Campus
Olhares que destravam vidas

“Ao passar, Jesus viu um homem chamado Mateus…” É curioso: nossa identidade também se revela no modo de olhar; somos o que olhamos; somos como olhamos. Alguns dizem: “Dize-me como olhas e te direi quem és”. Trata-se de uma linguagem universal, para além das palavras. Diariamente vivemos de olhares, imersos neles, amando ou condenando, acolhendo ou rejeitando. Quem não experimentou alguma vez sentir-se especial diante do olhar do(a) outro(a)? Quem não provou o peso de um olhar julgador que, como um dardo venenoso, atravessou as entranhas? O olhar diz muito mais do que pensamos. Há olhares que ocultam um poder imenso: maliciosos, sensuais, provocativos, inocentes… Há olhares intensos e penetrantes que conseguem despertar nosso lado mais selvagem e passional, e que ultrapassam a barreira de nosso ser, permanecendo gravados em nossa mente. Há olhares que falam por si sós, sem necessidade de nenhuma palavra, que transmitem sentimentos, desejos e afetos. Igualmente há olhares que deixam transparecer uma personalidade venenosa, destrutiva e daninha e que, muitas vezes, nos fazem afastar dessas pessoas pelas más sensações que nos causam. Não nos enganemos; os olhares não são neutros. Eles desvelam (tiram o véu) o mais profundo da pessoa. A maneira com que olhamos uma pessoa, a forma com que respondemos a um olhar, muitas vezes vai determinar a diferença entre um encontro memorável e grandioso ou um encontro repulsivo e constrangedor. Corações petrificados e insensíveis se expressam nos olhares que matam, que fecham as portas e condenam aqueles que são diferentes; há olhares que delatam, que invejam e que não suportam o bem alheio; olhares de morte, impessoais e indiferentes, superficiais e interesseiros; olhares embriagados de soberba, calculistas, gélidos. Olhares sem luz e sem Deus. Mas também sabemos que há olhares que curam e reconfortam; olhares que são oásis e sombra acolhedora, que protegem e bendizem; olhares que são bálsamos que aliviam feridas, derramam consolo e compreensão. Olhares cheios de amor para com o outro, que tornam a vida mais fácil. Olhares tolerantes, que não levam em conta o mal, mas tudo suportam e tudo esperam. Olhares que transmitem o bem e que embelezam seus destinatários, fazendo-os melhores e extraindo o melhor deles. A Revelação vem nos ensinar que Deus “olhou” para a humanidade, e seu olhar de amor foi tal que desceu até o mais profundo da condição humana. A Encarnação do Filho foi determinada a partir de um “olhar” que saiu do coração da Trindade, que pousou sobre o mundo e que voltou ao seu coração, estremecendo-a de compaixão e movendo-a à ação redentora. Assim também nossa presença no mundo deve ter sua origem no olhar misericordioso e compassivo, amoroso e esperançoso… Precisamos reaprender a olhar as pessoas nos olhos para despertar em nós a consciência da bondade humana, cujas raízes foram plantadas por Deus no coração de cada uma delas. E quando somos capazes de olhar nos olhos, com simplicidade, podemos encontrar no coração do outro uma imagem do nosso próprio coração. Quem é a referência e o modelo na arte de olhar? O Mestre da Galileia que, passando pelos lugares cotidianos, olhou a todos como ninguém nunca olhou, extraindo o melhor de cada pessoa em cada circunstância, ativando possibilidades inimagináveis, mobilizando todos os seus recursos vitais… Seu olhar transformava as pessoas em maravilhosas obras de arte. Durante sua vida, Jesus passou entre nós com um olhar profundo e que chegou a comover muitas e diferentes pessoas: os discípulos, convidando-os a segui-lo; os pecadores, oferecendo seu perdão; os enfermos, oferecendo cura; os excluídos, oferecendo sua acolhida… Seu olhar nos inspira a olhar o mundo e as pessoas de maneira diferente; olhar que recupera e vibra frente à novidade, que capta a verdade, a beleza e o bem presente em tudo e em todos; olhar que recolhe das margens os olhares perdidos, distraídos ou derrotados de tantos irmãos caídos que necessitam, com urgência de um “olhar cristificado” que os salve. O que salva é o olhar. O evangelho deste domingo nos situa diante do olhar arrebatador e transformador de Jesus. O sujeito do primeiro verbo é Jesus: “viu um homem chamado Mateus”. Jesus estava em movimento, e Mateus, pelo contrário, estava parado, passivo, “sentado junto à banca”, apegado à sua condição de cobrador de impostos, preso a uma profissão que o tornava desprezível aos olhos de todos. Mas os olhos de Jesus souberam ver além das aparências: viram no publicano um discípulo, um seguidor. Para esse olhar ninguém está sentenciado nem qualificado definitivamente, mas tem o futuro diante de si. Pela primeira vez, Mateus sentiu-se olhado de outra maneira: alguém acreditou nele e o chamou, e por isso ele se transformou em alguém dinâmico que deixou para trás seu passado, assumiu o protagonismo de sua própria vida e se pôs a caminho atrás d’Aquele que foi capaz de olhá-lo assim. No olhar de Jesus não há, nesse primeiro momento, nem exigência, nem correção, nem sequer chamado à conversão; tão somente um apelo para entrar em outro nível de relação com Ele. Com seu olhar provocativo Jesus arrancou Mateus de sua mesa (mesa que o distanciava dos outros, mesa da traição do seu povo e que o fazia colaborador do império romano, mesa que o fazia sentir-se inimigo do povo, mesa da exploração, da solidão, da acomodação, da fixação… mesa da morte). Em casa de Mateus, Jesus funda uma outra mesa: mesa da comunhão, da partilha, da festa, mesa da fraternidade onde todos se sentem iguais… Mesa da vida. Trata-se de uma mesa provocativa, questionadora, incômoda… que requer mudança de lugar, de mentalidade, de atitude… transformação interior. “Virar a mesa”, eis a questão! Porém, a aventura de “troca de mesa” requer uma troca de “senhor”. Para Mateus, a troca de mesa só foi possível a partir da troca de “senhor”: deixou a mesa da dependência ao imperador romano e abriu espaço interior para a presença de Jesus e dos outros. Ele correu o risco de assumir a mesa da liberdade e da comunhão. Mateus não tem mais mesa fixa (deixa de
Sobre enamorar e enamorar-se

Entre tantas datas celebrativas, religiosas, comemorativas e até de apelo comercial, o amor pede passagem no mês de junho, que, tradicionalmente, nos lembra a defesa do meio ambiente. Fica inaugurado um tempo de celebrar o amor em sua fase inicial de aprendizagem, de experimentações afetivas, de mudança de fase, de novos laços, de ampliação das escolhas e desejos. Tempo de renovar juras de amor e de escolher nunca desistir do amor e da partilha. Nestes tempos de celebrar o amor, será preciso não pensar no namoro em si, mas no enamorar, no enamorar-se… Cada um de nós experimenta esses ciclos continuados de encantamento que são a base para as escolhas que fazemos na vida, muito além do amor entre pares. Se eu me enamoro, antes de tudo, crio as defesas para não permitir que nem um ato sequer me faça sentir desrespeitado, desrespeitada nessa proximidade. Se eu me enamoro e enamoro o milagre da vida, minhas escolhas serão balizadas pela defesa intransigente da dignidade da pessoa humana. Na simplicidade, no “enamoramento” e no encantamento, escolhas vão se desenhando diante dos nossos olhos, mãos, corpo e mente. A vida vira um discernimento permanente. Vira namoro, vira vocação, vira devoção, vira meta, vira casamento, vira separação, vira transformação, vira sonhos… A vida, (in)finitamente, apresenta-se em forma de broto e, se cuidada e protegida, vai crescer, alongar-se, achar seu lugar ao sol. Enamorar-se, enamorar e namorar são faces da mesma mirada. É permanecer onde existe a mansidão, a paz interna, a paixão, a devoção, a partilha, a partida, o descanso no colo de alguém, a esperança traduzida em gestos e atitudes. Enamorar-se, enamorar e namorar é “querer permanecer, mesmo podendo voar”. Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.