Conservação e preservação de nossa casa comum

As Ciências da Vida diferenciam “conservação” e “preservação” quando associadas à natureza ou discussões ambientais. O primeiro termo está ligado à conservação da biodiversidade e da ecologia. Em tal abordagem, os ecossistemas incluem espécies naturais, permitindo, entretanto, o uso sustentável e a participação humana, desde que orientada para a proteção, o uso racional e as gerações futuras. Já a segunda visão abrange a preservação das espécies, ecossistemas, biomas, diversidade genética, em uma perspectiva na qual o mundo natural não está à disposição dos humanos. Concebe a proteção da natureza para além do valor utilitário e econômico e visa à perenidade e à proteção integral. Ambos os significados são relevantes e pertinentes. Conservação, por possibilitar o uso sustentável, por considerar a participação humana; e preservação, por causa do valor atribuído à biodiversidade para além do utilitário, pelo compromisso com a proteção integral. Para que o cuidado com a conservação e a preservação de condições de vida na terra extrapolasse o campo das Ciências da Vida, foi percorrido um longo caminho. No trajeto, foram publicadas várias obras centradas no tema, especialmente entre as décadas de 1960 e 1970, quando nossa pegada ecológica já se fazia evidente. A hipótese de “Gaia”, tão presente nos textos de Leonardo Boff, foi formulada por Lovelock em 1969 e publicada em 1979. Para ilustrar a delicadeza, a beleza e a fragilidade do planeta, Lovelock valeu-se de uma imagem produzida um pouco antes: o planeta azul imerso no cosmos, registrado do espaço em sua primeira fotografia colorida. A partir de suas investigações sobre a biosfera, o cientista intuiu que todos os seres vivos e elementos materiais da superfície da terra constituíam uma comunidade, um megaorganismo, que, “inconscientemente”, afinava-se para manter o planeta como um sistema viável para a vida. Em sua percepção, nós, humanos, não teríamos direitos especiais, mas obrigações para com a preservação do equilíbrio do sistema, uma vez que nosso destino está conectado com o impacto de nossas ações sobre a terra. O cuidado requerido pela terra, presente em “Gaia”, também foi abordado em conferências sobre o desenvolvimento e meio ambiente, como aquelas sediadas em Estocolmo (1972), Belgrado (1975), Tbilisi (1977), Moscou (1987), Rio de Janeiro (1992 e 2012), além de orientar as conferências climáticas anuais e documentos como a Agenda 21 e a Agenda 2030. Em tais ações, nem sempre a dimensão social e ambiental consegue sobreposição à agenda econômica, o que traz ainda mais relevância à Segunda Encíclica do Papa Francisco (2015), “Laudato si’: sobre o cuidado da casa comum”. A Organização das Nações Unidas instituiu 28 de julho como Dia Mundial de Conservação da Natureza. É mais uma oportunidade para que a Equipe de Comunicação das SSpS Brasil reafirme seu compromisso de missionariedade com o uso sustentável de recursos, a valorização da biodiversidade em uma dimensão não utilitária e o cuidado integral com o planeta e a vida. ReferênciasAGENDA 2030. Plataforma agenda 2030. Disponível em: http://www.agenda2030.com.br. Acesso em: 6 jan. 2021.BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela Terra. Petrópolis: Vozes, 1999.EVERLING, Marli; KAHLMEYER-MERTENS, Roberto S. Design, educação ambiental e ser-no-mundo: elementos para uma hermenêutica da complexidade e da sustentabilidade. In: Confluências Culturais; Dossier Nossa vida, nosso planeta, nossa saúde, Joinville, v. 11, n. 2. P. 58-71, 2022. Disponível em: http://periodicos.univille.br/index.php/RCC/article/view/1809/1524. Acesso em: 17 jul. 2023.FRANCO, José Luiz de Andrade. O conceito de biodiversidade e a história da biologia da conservação: da preservação da wilderness à conservação da biodiversidade. História, Franca, v. 32, n. 2, p. 21-48, jul./dez. 2013. Acesso em: 8 jan. 2021.LOVELOCK, James. Gaia: a new look at life on Earth. Oxford: Oxford University Press, 1979.MOREIRA, Catarina. Biosfera. In: Revista de Ciência Elementar,Porto, v. 3, n. 2, jun. 2015. Disponível em: https://rce.casadasciencias.org/rceapp/pdf/2015/113/. Acesso em: 17 jul. 2023.PADUA, Suzana. Afinal, qual a diferença entre conservação e preservação? In: Jornal Eco, 2 fev. 2006. Disponível em: https://www.oeco.org.br/colunas/18246-oeco-15564/#:~:text=Conserva%C3%A7%C3%A3o%2C%20nas%20leis%20brasileiras%2C%20significa,integral%2C%20a%20%E2%80%9Cintocabilidade%E2%80%9D. Acesso em: 15 abr. 2021.PAPA FRANCISCO. Laudato si’: sobre o cuidado da casa comum. In: Vatican.va, 24 maio 2015. Disponível em: https://www.vatican.va/content/dam/francesco/pdf/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si_po.pdf&ved=2ahUKEwjXkvHWspOAAxXKIbkGHTF6ATQQFnoECDoQAQ&usg=AOvVaw2u7wRcx62LzwHk1PDCrwCY. Acesso em: 15 abr. 2021. Marli Teresinha EverlingProfessora nos cursos de Graduação e Pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville (Univille), coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica, colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental (caranguejo.org.br), colaboradora do blog SSpS Brasil para temas ambientais (blog.ssps.org.br), colaboradora das redes sociais do design para temas ambientais. Instagram: @designuniville
Ser missionária serva do Espírito Santo: saiba como é o acompanhamento das jovens vocacionadas

Jesus “chamou os que Ele quis” (Marcos 3,13b) Desejo ser religiosa e consagrar minha vida ao serviço na Igreja. Sinto que Jesus me chama a ser missionária serva do Espírito Santo (SSpS). Quais são os passos e como ocorre o processo inicial? “Jesus subiu a um monte, chamou os que ele quis, e eles foram para perto dele. Então escolheu doze homens para ficarem com Ele e serem enviados para anunciar o evangelho. A esses doze Ele chamou apóstolos. Eles receberam autoridade para curar enfermidades e expulsar demônios” (Marcos 3,13-15). Eles deixaram tudo e o seguiram. Jesus chamou aqueles a quem Ele quis para subirem o monte e lhe fazerem companhia, vivenciando intimidade com ele, dando a conhecer sua missão e depois vivê-la, anunciando a Boa Notícia do Reino. Os Apóstolos não foram enviados logo para a missão, mas somente depois de um bom tempo de convivência e de formação. Mesmo após enviados, Jesus os chamava para novas instruções, para o descanso, confraternização e oração juntos. Jesus sabia que, em sua missão, Ele enfrentaria dificuldades com seus escolhidos. O Senhor conhecia a fragilidade de seus amigos, porém não desistiu e foi com eles até o fim. Quando Deus chama, Ele nos capacita para que possamos cumprir a missão a nós confiada, concede-nos os meios e os recursos necessários. Precisamos descobrir com Jesus, em sua Palavra e em oração, o que Deus quer fazer em nossa vida. Como missionárias servas do Espírito Santo, somos chamadas a servir na missão da Igreja, sobretudo em situações nas quais a vida é fragilizada e ameaçada, dentro ou fora do País. Realizamos nossa missão em comunidades, no Brasil ou em outros países, onde procuramos vivenciar o diálogo, a comunhão e o acolhimento. Nossa vocação missionária depende do compromisso com o seguimento de Jesus Cristo, buscando, como mulheres consagradas, testemunhar e tornar “Conhecido e amado o amor de Deus Uno e Trino por todas as pessoas”, conforme desejava Santo Arnaldo Janssen. Dedicamos nossa vida a Deus por meio da oração e das mais variadas atividades e apostolados, segundo as necessidades mais urgentes do povo ao qual somos enviadas. Quais são os passos para a jovem que deseja ser missionária serva do Espírito Santo? Primeiramente, a jovem que sente “inquietude vocacional”, com interesse e desejo de seguir Jesus, e um profundo anseio de ajudar o próximo, procura conversar com uma irmã SSpS. Isso pode ser pelas redes sociais ou pessoalmente. Manifesta-lhe seu desejo de conhecer algo mais sobre a vida religiosa, a Congregação. A partir de então, será encaminhada e acompanhada pela irmã responsável pelo Serviço de Animação Vocacional. Então iniciará seu processo de discernimento por meio de contato virtual ou presencial, visitas à família, retiros de convivência com outras jovens em nossas comunidades. Como é o processo de formação na Congregação? 1º – Ingresso na comunidade vocacional Tempo de experiência para maior clareza da vocação e descobrir em si os sinais do caminho de seguimento nos passos de Jesus. Nessa primeira experiência, a jovem vai conhecer o carisma, a vida e a missão das irmãs SSpS, e fazer seu processo de crescimento pessoal, comunitário, grupal. A jovem aspirante é acompanhada em seu desenvolvimento humano, autoconhecimento, vida cristã e no chamado pessoal de Deus. Também é acompanhada, de forma pessoal, pela irmã formadora, em sua opção de vida, vivência dos valores humanos, cristãos, experiência comunitária e missão. Nessa etapa de formação, a jovem permanecerá um ano, se já tiver concluído o ensino médio, ou o tempo necessário para terminar esse grau de escolaridade. 2ª – Pré-noviciado A jovem, após maior clareza do chamado de Jesus, continua o processo de discernimento, pelo qual vai aprofundando os temas relacionados ao carisma e à espiritualidade da Congregação, sua de formação humana e espiritual, e experiência de vida comunitária. 3ª – Noviciado Dois anos de intensa preparação para professar os votos de castidade, pobreza e obediência. Um tempo para conhecer Jesus Cristo e uma profunda intimidade e amizade com o Senhor. Começa, então, o seguimento incondicional a Cristo, como missionária serva do Espírito Santo. Período em que são colocados os alicerces para toda a sua vida, como religiosa consagrada. Terminado o período de dois anos a dois anos e meio, a jovem vai se encontrar apta a professar seus votos na Congregação e a viver como religiosa consagrada SSpS, com todas as suas alegrias e desafios. Para entrar em contato A jovem que desejar participar da experiência vocacional na Congregação das Irmãs Missionárias Servas do Espírito Santo ou na Congregação das Irmãs Missionárias Servas do Espírito Santo da Adoração Perpétua (ramo contemplativo da Família Arnaldina) basta entrar em contato com qualquer irmã dessas Congregações. Assim, será direcionada para as irmãs que acompanham as jovens vocacionadas. Caso deseje falar diretamente com o Serviço de Animação Vocacional, os contatos estão a seguir: Missionárias Servas do Espírito SantoIrmã Lusia Sakunab: animacaovocacionalbrn@ssps.org.comIrmã Yohana: (42) 99848-3772Missionárias Servas do Espírito Santo da Adoração PerpétuaIrmã Trindade Maria: (42) 99835-9535 Irmã Maria Cristina Krupek, SSpSFormada em Teologia, pós-graduação em Missiologia, terapeuta holística em constelação sistêmico-familiar, formadora na comunidade do Noviciado PANAM, em San Lorenzo, Paraguai. Irmã Ashrita Soreng, SSpSIndiana, missionária no Brasil.
Deus é “semente fecunda” em nosso interior

“O semeador saiu para semear” (Mt 13,3) O ser humano é surpreendente, inesperado, imprevisível… é pulsação original, é interpelação inquietante; é existência peregrina, é identidade dinâmica…; é uma mina de significados e riquezas. Com inesgotável potencialidade, ele recria a natureza e tem a possibilidade de inventar a sua própria vida. Onde há ser humano há espírito inteligente, impulso de liberdade e manifestação de tenacidade. Tratar com o ser humano é tratar com o imponderável, o misterioso… Ele é seduzido pela liberdade que lhe apresenta horizontes novos e lhe abre mares desafiantes. Ele é “espaço à vida aberta”, “vida que se expande”. Com seu pensamento e seu sonho, ele habita as estrelas e rompe todos os espaços. Essa capacidade é o que nós chamamos transcendência, isto é, “transcende, rompe, vai para além daquilo que é dado”. Numa palavra, o ser humano é um projeto infinito; tem sentido de transcendência, projeta-se em muitas direções. O ser humano é mais do que parece ser. Há nele algo maior que o leva a ser mais verdadeiro, mais justo, mais criativo, mais arrojado, mais responsável… “Desejando e elegendo aquilo que mais nos conduz…” (S. Inácio). Jesus expressa toda essa originalidade e riqueza do ser humano através da parábola do camponês que, com suas mãos abertas, espalha as “sementes” em diferentes terrenos. A parábola começa afirmando: “Saiu o semeador a semear”. Ele faz isso com uma confiança surpreendente. Semeia de maneira abundante. A semente cai em todas as partes, inclusive ali onde parece difícil que ela possa germinar. De fato, na semente encontra-se presente uma grande força de crescimento… A força da vida, contida no interior da semente, envelhecerá e se extinguirá se não houver quem confie nela, e arrisque a sua terra, seu tempo e seu trabalho. Quando a semente é enterrada na terra, ela já conhece o seu caminho; ela avança passo a passo, seja durante as horas em que as circunstâncias lhe são mais favoráveis, porque é de dia e existe luz e calor em abundância, seja porque é de noite, e o ambiente para seu crescimento já não é tão propício. Escondida ali, debaixo da terra, envolvida pelo absoluto silêncio, a semente germina e vai crescendo. O talo, a espiga e os frutos conduzem toda a vitalidade da minúscula semente até a maturidade da planta. E cada árvore vive intensamente o tempo que lhe cabe viver, o tempo suficiente para produzir frutos em abundância. Ao terminar o relato da parábola do semeador, Jesus faz este apelo: “Quem tem ouvidos, ouça!”. Ele nos pede que prestemos muita atenção à parábola. Mas, em que deve estar focada nossa atenção: no semeador? na semente? nos diferentes terrenos? Tradicionalmente, nós cristãos nos fixamos quase exclusivamente nos “terremos” onde cai a semente, para revisar qual é nossa atitude ao escutar o Evangelho. No entanto, é importante dirigir nossa atenção ao semeador e a seu modo de semear. Para nós que crescemos em um contexto religioso desde a infância, a leitura literal desta parábola condicionou nossa visão da realidade em dois aspectos determinantes: o dualismo e o moralismo. Em tal leitura aparecia a imagem do Deus semeador como um alguém separado e, portanto, distante. Essa crença de separação não só alimentava um dualismo religioso – Deus frente ao mundo – de nefastas consequências, mas que era a fonte de outras ideias igualmente perigosas em suas consequências: o pecado, a culpa, a alienação, o infantilismo religioso… Com frequência, o dualismo religioso era acompanhado de moralismo. Se a semente não dava fruto numa pessoa, devia-se simplesmente à sua própria maldade, já que não havia preparado adequadamente seu “terreno”. Assim se fazia presente a culpa em quem acreditava ser um terreno improdutivo ou caía-se no farisaísmo, passando a vida limitando-se somente a cumprir normas e leis. A verdadeira “semente” é o que há de Deus em nós. “O semeador saiu.” Para semear nos campos, na terra, é preciso sair de casa. Deus é, ao mesmo tempo, “semeador e semente”. Ele “desce”, faz um Êxodo, um deslocamento em direção à humanidade, onde encontra diferentes terrenos. Em nossa terra interior já está semeada a presença de Deus; é como a semente enterrada que permanece fértil debaixo da terra desértica pela seca prolongada, e o olhar de Deus é como a chuva que ao cair desperta a vida presente na semente. Também gerará novidades em nós, convertendo-nos em vidas germinais. Deus se derrama em todos e por todos da mesma maneira, não como produto elaborado, mas como semente, que cada deve acolher e deixar-se fecundar por ela, para poder frutificar. O decisivo é tomar consciência do divino que nos habita e viver em harmonia com essa realidade. O fruto seria uma nova maneira de nos relacionar com Deus, conosco mesmo, com os outros e com as criaturas. A semente é o mesmo Deus-Vida germinando em cada um de nós; sua presença é sempre fecunda. Deus habita em suas criaturas e se manifesta em todas elas como algo tão íntimo que se constitui como semente de tudo o que é. Não devemos dar a entender que nós os cristãos somos os privilegiados que temos recebido a semente (Escritura). Deus se derrama em todos e por todos da mesma maneira (a mão-aberta). Somente aquele que se deixa semear experimenta o sabor da seiva da vida de Deus entrando por suas raízes, percorrendo seu ser inteiro, fazendo-o crescer e dando os frutos de que nosso povo precisa. Aquele que não se deixa semear vive de ilusões e fantasias que envenenam sua existência. Entrar no fluxo da ação do Semeador divino é preciso sair de nossos espaços seguros, de nossas ideias e convicções atrofiadas, de nossos próprios esquemas fechados e abrir-nos aos diferentes terrenos. Semear é uma tarefa nobre na vida: semear trigo, trabalho, cultura, educação, semear ética, valores, esperança, respeito, dignidade, sentido da vida… Ao mesmo tempo que nobre, semear é uma tarefa de grande responsabilidade. Pais, mestres, escolas, universidades, meios de comunicação, igrejas, etc., todos temos a nobre e bela tarefa de semear. Ao nos
Missão sem Fronteiras 2023 incentiva estudantes a práticas sociais

O protagonismo juvenil como agente de transformação e de esperança na construção de uma sociedade mais justa e inclusiva. Essa foi a proposta da quarta edição do projeto Missão sem Fronteiras, realizada entre os dias 30 de junho e 2 de julho, no Colégio Imaculado Coração de Maria, no Rio de Janeiro-RJ. Além de estudantes da escola sede, a iniciativa reuniu alunos de outros sete colégios da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo Brasil, localizados em Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Ao todo, foram 147 pessoas envolvidas, sendo 108 jovens missionários e 39 educadores. Esta foi a primeira vez que todas as escolas SSpS do Brasil participaram da ação. Inspirados no tema “Pão partilhado, amor multiplicado”, os missionários foram imersos em diversas atividades, desde ações de solidariedade até de reflexão e aprendizado. Um dos momentos de espiritualidade, por exemplo, iluminado pela passagem da multiplicação dos pães, enfatizou que pequenas ações individuais de solidariedade podem modificar o coletivo. O Rio de Janeiro, com sua rica cultura, paisagens deslumbrantes e diversidade, foi o cenário perfeito para essa experiência transformadora, permitindo aos estudantes anfitriões do evento compartilharem com os jovens das outras escolas a realidade da capital fluminense. “Mudar nossa mente” “A vivência que tive nestes dias de missão marcou minha vida e meu coração para sempre. Vi pessoas com tão pouco fazendo de tudo para se manter, crianças em situações de extrema pobreza, mas com um sorriso no rosto sem igual. A humanidade parece que se esqueceu de ser humana, e precisamos resgatar esses valores, enxergando mais o nosso próximo. Saí desta missão com a vontade de ajudar muito mais e ser uma pessoa de transformação. Agradeço imensamente todos os educadores por me proporcionar esse crescimento humano e espiritual. Pude vivenciar, nestes três dias, estilos de vida diferentes e conhecer pessoas incríveis, responsáveis, com certeza, por deixar essa missão inesquecível. Pude me relacionar com outros Estados e culturas, e me divertir. Mas o principal objetivo, que era mudar nossa mente em relação ao mundo, foi alcançado. Nada faltou nesta missão. Agradeço a todos os envolvidos por me proporcionar tamanha experiência.” Lucas Madureira, aluno do Colégio Imaculado Coração de Maria, Rio de Janeiro-RJ. Na visita ao aterro sanitário de Gramacho, os participantes levaram 2082 garrafas de água, além de roupas e calçados para distribuir aos moradores da comunidade. Lá, puderam ouvir relatos de quem vive no local, em meio a adversidades. Sair da zona de conforto “Visitamos pessoas que moram em condições humildes, sem água, sem ter onde estudar e com vários problemas todos os dias, mas que demonstravam muita gratidão. Nesses momentos, percebi o quanto eu já fui ingrata por coisas pequenas que aconteceram na minha vida. Participei desta missão disposta a sair da minha zona de conforto e com muita vontade de estar lá para ajudar de qualquer maneira possível.” Alessa Pinzon, aluna do Colégio Espírito Santo, Canoas-RS. Por meio dessas experiências, os jovens tiveram a oportunidade de refletir sobre como o trabalho missionário pode impactar positivamente a vida daqueles que se encontram à margem da sociedade, além de se tornarem agentes ativos na prática especial realizada durante o evento. Valendo-se da união desses estudantes comprometidos com o bem-estar e com a inclusão social, o projeto Missão sem Fronteiras busca despertar a consciência coletiva para a importância de ajudar o próximo e promover mudanças significativas no retorno às próprias comunidades. Ao longo dos anos, a iniciativa tem se mostrado uma poderosa ferramenta para sensibilizar os jovens sobre as realidades sociais e estimular a empatia, a compaixão e a vontade de fazer a diferença. “Os dias na missão foram especiais e muito intensos. Foi tudo tão impactante na minha vida que influenciou até a profissão que escolhi para mim”, conta Clara Maia, que participou do Missão sem Fronteiras em 2019, em Brumadinho-MG, e que hoje é estudante de Medicina. O projeto tem se consolidado como um marco na jornada dos participantes, proporcionando momentos inesquecíveis, ampliando horizontes e estreitando laços de amizade e solidariedade. “Poder da solidariedade” “Esta quarta edição da Missão sem Fronteiras foi marcada pelo engajamento dos jovens missionários, pelo despertar de novas vocações a serviço da vida e pelo impacto positivo nas vidas daqueles que mais precisam. Que a esperança e a vontade de fazer a diferença inspirem não apenas os participantes, mas também todos os que acompanharam essa importante iniciativa em cada escola. Somos testemunhas do poder da solidariedade e do potencial transformador dos jovens comprometidos com um mundo melhor.” Agostinho Travençolo Junior, assessor-geral do evento. Saudade, gratidão, amor “Fazer parte da quarta edição do Missão sem Fronteiras foi uma experiência única. Foi um momento marcante, acredito que não só na minha vida, mas na de todos os que ajudaram e foram ajudados pelo projeto. Estar cercada de pessoas com o mesmo objetivo de fazer o bem ao próximo foi incrível. Ser acolhida por todos e mudar o mundo com eles, o mundo de algumas pessoas, foi muito gratificante. A Missão sem Fronteiras foi uma oportunidade maravilhosa de conhecer novas culturas, trocar experiências e vivenciar novas, fazer novos amigos e, principalmente, ajudar as pessoas. Os únicos sentimentos que restam após o fim da quarta edição são a saudade, a gratidão e o amor. Obrigada, Missão sem Fronteiras!” Heloísa Baldus Gromann, aluna do Colégio Santos Anjos, Porto União-SC. Partilha da experiência A Dimensão Missionária da Rede de Educação SSpS incentiva que cada delegação compartilhe, nas respectivas unidades escolares, o que viu, ouviu e sentiu. Para isso, propõe a realização de plenários, debates e celebrações, concluindo o projeto em grande estilo. Em momento oportuno, cada estudante que viveu a experiência do Missão sem Fronteiras 2023 receberá o certificado de participação. Agradecimento da Rede de Educação SSpS Em uma mensagem enviada aos participantes do Missão sem Fronteiras, a Dimensão Missionária da Rede de Educação SSpS agradeceu a escola anfitriã e a todos os que contribuíram para a atividade. Houve uma menção especial às unidades da Província Brasil Sul, estreantes no projeto. Palavras
Fardos pesados X fardos leves

A psicologia e a religião, historicamente, sempre tiverem embates. O pai da psicologia, Freud, considerava a religião como uma muleta para o ser humano lidar com o medo. Há preconceito dos dois lados. Parte também de religiosos, em geral, em relação à psicologia. No entanto, na história, houve psicólogos cristãos que contrariaram Freud e provaram que é possível usar a espiritualidade como ferramenta de cura. O mais conhecido deles é o neuropsicólogo Victor Frankl, o fundador da logoterapia, contemporâneo de Freud. Ele nasceu em 1905 e faleceu em 1997. Como ele, muitos outros reconhecem, nos ensinamentos de Cristo, elementos da psicologia. O escritor e religioso americano Mark W. Baker tornou-se muito conhecido ao publicar uma obra na qual reconhece a psicologia na atuação de Jesus. A obra, muito conhecida pelos brasileiros, chama-se Jesus, o maior psicólogo que existiu, publicado no País pela Editora Sextante, em 2005. Como psicólogo cristão, eu também encontro, em minhas reflexões dominicais dos evangelhos, elementos que podem ser usados como psicoterapia na busca da cura da alma. Tenho sempre a preocupação de não relativizar nem uma, nem outra: religião e psicologia. Assim, neste artigo, eu gostaria de apresentar minha reflexão sobre uma passagem bíblica que se encontra no Evangelho de Mateus (11,25-30). Esse texto narra que Jesus louva o Pai, Deus, por ter revelado (tirado o véu dos olhos) algumas coisas aos pequeninos, aquilo que os intelectuais da época não puderam compreender, pois estavam cheios da ciência da Lei antiga. Em seguida, Jesus faz um convite: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e fatigados pelo peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso”. Que fardos seriam esses? Sabemos que um fardo de materiais, principalmente cereais e alimentos, conforme os carregamos, tornam-se pesados. Por exemplo, um fardo de algodão ou de arroz, ou de feijão, ou de farinha pode começar pesando 60 quilos, mas, enquanto o carregamos, ele pode dar a sensação de pesar muito mais. Quanto mais tempo o carregarmos, mais pesado pode parecer. Olhando os sofrimentos da alma que as pessoas trazem até ao atendimento de psicoterapia, assim como ao atendimento do confessionário, posso associá-los metaforicamente a esses fardos mencionados por Jesus. Um fardo muito comum que as pessoas carregam por anos é o fardo da mágoa. A falta de perdão e a falta de ser perdoada pesam em tudo o que a pessoa faz. Alguns persistem por anos, até décadas. A doença da alma então se transforma em doenças físicas, somáticas, neuróticas. Tais pessoas se queixam de doenças, no entanto os exames laboratoriais não confirmam os lamentos. Há ainda outro fardo muito presente nos pacientes hoje. Trata-se da ansiedade. Essas pessoas vivem focadas no medo do futuro, do que de ruim possa acontecer. É difícil convencê-las de que o “perigo” é imaginário. Esse fardo se torna tão pesado que se transforma em alergias, quedas de cabelo, taquicardia, tremores, insônias, falta de apetite. Muitas vezes, desencadeiam uma depressão leve, moderada ou grave. Um terceiro fardo que gostaria de mencionar é o fardo da necessidade de visibilidade. Alguns pacientes têm medo de perder admiradores, seguidores, curtidores, etc. Por esse motivo, perdem o sono, perdem a paz. É uma mistura de vaidade, narcisismo e vazio interior. Isso pode evoluir a um quadro de arrogância, prepotência. Alternativa oferecida por Jesus E qual seria o fardo leve que Jesus oferece com alternativa a esses fardos pesados? Para o primeiro fardo, o das feridas produzidas pela mágoa, pela falta de perdão, Jesus propõe o oposto: o perdão. Um perdão sem limites. Ele afirma: “Não perdoe só sete vezes, mas setenta vezes sete vezes” (Mateus 18,21-22). Ensina ainda: “Se seu irmão tiver alguma coisa contra você, deixe a tua oferta e vá se reconciliar com ele enquanto ainda há tempo”. Quem já perdoou sabe a verdade dessas palavras. Após uma reconciliação, um reconhecimento de suas falhas, as pessoas sentem certa leveza. Após uma confissão, por meio do sacramento da reconciliação, a alegria se torna contagiante. Para o fardo da ansiedade, o Mestre propõe o fardo leve: “Por isso vos digo: não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida maior que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário? A cada dia basta a sua preocupação” (Mateus 6,25-34). Para o terceiro fardo mencionado, o do desejo de visibilidade, Jesus adverte: “Sabeis que os chefes das nações a dominam e os grandes fazem sentir seu poder. Entre vós, não deve ser assim. Quem quiser ser o primeiro entre vós seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o maior entre vós seja o vosso escravo” (Mateus 20,20-28). “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração” (Mateus 11,29). Com esta reflexão, penso que se pode desvelar, revelar, tirar o véu a respeito da importância da espiritualidade e da religião como aliada da psicologia. Revela que a religião não é cafona, antiga, retrógrada, alienada, como muitos críticos o afirmam. Há muitas outras passagens bíblicas em que Jesus convida o ser humano a olhar para dentro de si mesmo, deixando-o livre para segui-lo ou não. Para aceitar sua ajuda ou não. Muitas vezes, ao afirmar “A tua fé te salvou”, ou “O que você quer que eu faça?”, Ele atua como um psicoterapeuta que leva o paciente a elaborar seus conteúdos. Como Ele próprio afirmava sempre, “Não tenha medo”. Faça uma sessão de terapia com o maior psicólogo que existiu. Não custa nada. Pe. Aparecido Luiz de SouzaMissionário do Verbo Divino e psicólogo.
A gratidão dá “sabor e calor” à vida

“Dou-te graças, Pai, Senhor do céu e da terra!” (Mt 11,25) Sabemos, através dos evangelhos, que Jesus foi sempre um homem de oração, de intimidade profunda com o Pai, nos silêncios da noite, nas montanhas, nos desertos… Nenhum evangelista nos relata o conteúdo da oração nestes momentos de solitude (solidão habitada). No Evangelho deste domingo, Mateus “pega Jesus em flagra” e nos revela não só o modo como Jesus vivia sua relação com o Pai, mas o conteúdo desta intimidade, através de palavras carregadas de gratidão, de assombro, de admiração…; trata-se de um louvor, um canto à vida. Estes versículos deixam transparecer um estado de exultação que não nasce de nenhum estímulo exterior concreto. Nada do que precede justifica o canto que segue. Brota, sem dúvida, de um estado permanente, cheio de agradecimento assombrado, que vai mais além de um sentimento momentâneo. É um estado de gratidão que emerge do seu coração comovido, que nem a traição e o fechamento de cidades como Corazim e Betsaida são capazes de fazer sombras. Mateus reúne aqui vários ditos, que parecem expressar atitudes e sentimentos característicos do Mestre de Nazaré. E, nesses sentimentos, deixa transparecer sua verdade mais profunda: a gratidão, a intimidade com o Pai, a proximidade bondosa para com aqueles que estão suportando fardos desumanos, o convite a permanecer na mansidão e na humildade, o oferecimento de uma mensagem que é descanso… A gratidão parece brotar aos borbotões das entranhas mesmas de Jesus. Isso não é estranho se temos em conta que, junto com a compaixão, a gratuidade constitui a coluna vertebral de toda sua mensagem. E é impossível experimentar gratuidade sem que surja a gratidão. Quando tomamos consciência de que tudo é Graça, para além de todas as expressões superficiais, brota um agradecimento espontâneo, permanente e profundo. Mas isso requer uma condição: experimentar-nos em sintonia com a corrente da Vida que procede do Pai, na qual reconhecemos nossa verdadeira identidade. De fato, ao reconhecer-nos no fluxo da Vida, em meio a tudo o que acontece, descobrimos que a gratidão é outro dos nomes de nossa identidade profunda. Na medida em que cresce a compreensão de nós mesmos, reconhecemos que, vista a partir do plano espiritual, a gratidão não é simplesmente uma ação ou qualidade – algo que podemos viver com maior ou menor intensidade -, mas outro nome de nosso ser original: “somos gratidão”, é da nossa essência mais nobre. Por isso, ao vivê-la conscientemente, experimentamos comunhão, unificação e plenitude: estamos vivendo o que somos. A gratidão é, ao mesmo tempo, um sentimento e uma atitude admiravelmente terapêuticos, capaz de sustentar o nosso “tônus vital”. Por um lado, nos afasta do funcionamento da queixa; por outro, constitui o melhor antídoto frente ao desalento ou o desânimo. Na medida em que a exercitamos, ela vai nos transformando interiormente e enriquecendo nosso modo de viver a relação com os outros. Em certo sentido, poder-se-ia dizer que ela expande o nosso próprio coração, favorece a alegria de viver e facilita poderosamente a convivência. Por pouco que a observemos, poderemos advertir que a gratidão genuína não depende tanto daquilo que nos acontece, quanto do modo como recebemos aquilo que acontece. Se damos graças unicamente quando nos ocorre algo que consideramos “agradável”, não temos saído ainda de nosso egocentrismo. A gratidão autêntica é profundamente unida com a vida, flui com ela. Nasce e se apoia na compreensão de que, para além dos juízos que nossa mente possa fazer, no fundo, tudo é graça. A gratidão está intimamente relacionada com a capacidade de “ver”. Por isso, quando sabemos ver, a gratidão aflora sem obstáculos. Pelo contrário, se permanecemos aferrados às nossas expectativas – “a vida deve responder ao meu próprio querer, interesse e desejo” -, a frustração inevitável trará consigo a resistência e o sofrimento, o enfado, a queixa e o vitimismo. A gratidão, como força que nos “des-egocentra”, nos faz tomar distância de nossos pequenos interesses e nos abre à compreensão profunda de que, em último termo, tudo é dom, tudo é dado, tudo é graça… Somos seres agraciados, “cheios de graça”. Como o amor, como a alegria, a gratidão é uma arte. E, enquanto tal, precisa ser exercitada em um treinamento cotidiano, no qual, conscientemente, damos graças por tudo. Assim compreendido, poderíamos dizer que a existência inteira de uma pessoa sábia é vivida entre duas palavras: “agradecido” e “sim”. Por tudo o que aconteceu, agradecido(a)!; diante de tudo o que virá, sim! Ao entrarmos em sintonia com o coração “manso e humilde” de Jesus temos a oportunidade de recuperar algo que a cultura pós-moderna apagou de nossa consciência: a capacidade de admiração, a possibilidade do assombro diante de tantas realidades, simples, mas divinizadas, que nos passam desapercebidas. Custa-nos muito maravilhar-nos porque não despertamos a capacidade de assombro e de valorizar tudo o que desfrutamos, desde o cosmos até pequenos prazeres diários como tomar um café em boa companhia. Nosso contexto social não facilita um contínuo louvor, um “canto à vida”. Basta repassar o olhar sobre diferentes realidades – político-econômico-religioso-cultural-ecológico – para nos dar conta da dificuldade objetiva de sairmos dos trilhos das lamentações e queixas. Esquecemos muitas coisas porque não as valorizamos até que nos faltem: saúde, convivência, trabalho, possibilidade de ajudar os outros, a capacidade de superação das adversidades, a própria vida em si mesma como um campo maravilhoso no qual podemos nos esforçar para deixar transparecer as melhores potencialidades de nosso ser… “Dar graças”, “agradecer”, “louvar”… é também uma questão de memória. Por isso o Papa Francisco fala com frequência de “memória agradecida”. Só a “memória agradecida” está em condições de nos ajudar a entender o sentido, a profundidade e a verdade dos acontecimentos, das pessoas, da realidade que nos envolve…, pois temos de adotar determinada perspectiva e certo grau de isenção no julgamento, a fim de decifrar seu significado. Ela nos distancia estrategicamente dos acontecimentos para poder captar outro sentido, escondido neles. Eles passam a serem vistos sob nova luz para serem ressignificados. Só a “memória redentora” mobiliza nossos melhores
Conectando caminhos: o câncer e a sua interface psicológica e espiritual

“Um buraco sob meus pés.” Foi assim que, por incontáveis vezes, ouvi pacientes descreverem o momento exato em que receberam a notícia de diagnóstico de um câncer. De imediato, o indivíduo rompe com suas convicções até então consolidadas e automaticamente se conecta a uma série de tabus e estigmas que o câncer carrega consigo, principalmente a de estar sentenciado à morte. O medo da morte se apresenta em diferentes facetas. O medo da morte pode conter o medo da solidão, da separação de quem se ama; o medo do desconhecido, da interrupção de planos e sonhos; o medo do que pode acontecer aos que ficam; e, numa visão espiritual, medo do julgamento de seus atos em vida, dependendo de suas concepções religiosas. Cada pessoa teme mais de um aspecto da morte, e isso depende de características intrínsecas ao indivíduo que a enfrenta, seja ele quem esteja morrendo ou uma pessoa a quem estima (Kovács, 1992). Apesar de a notícia carregar o luto pela perda da condição do eu saudável expresso em um intenso sofrimento, a vivência do diagnóstico e tratamento implica em representações totalmente diferentes para cada indivíduo. O impacto não será exclusivo de quem a recebe, mas para todo o seu sistema familiar, exigindo uma reestruturação de planos de todos os envolvidos. É um momento permeado por muito medo da dor, insegurança e muita incerteza. Sentimentos estes, e tantos outros, que raras vezes abandonarão o indivíduo no decorrer de todo o tratamento. A Psicologia, diante da complexidade das demandas emocionais de um paciente oncológico, terá como prioridade a qualidade de vida deste, mas não a terá como exclusividade. É preciso participar ativamente do processo de aceitação e entendimento de todo o caminho que se percorrerá ao longo do tratamento, ajudar para que tenha a percepção acerca de seus recursos internos e estratégias para atenuar o sofrimento, favorecendo o desenvolvimento do conhecimento de suas dimensões psicológicas, sociais e espirituais. É preciso buscar o equilíbrio entre sua condição vulnerável e o gerenciamento de suas emoções adquirindo novas habilidades por meio do estímulo de autonomia e participação ativa diante do tratamento, tornando o indivíduo participativo e apropriado de todo o percurso. Embora o câncer tenha uma forte relação com a ideia de iminência de morte, é preciso favorecer o desenvolvimento de novos significados para o processo mais importante que ocorre no momento: o de viver. Falar sobre a relação e a perspectiva de vida não significa negligenciar a tomada de consciência da proximidade de morte, ao contrário, ao deparar-se com a possibilidade real de finitude, o indivíduo, muitas vezes, é levado a uma reflexão existencial, revendo suas prioridades e ressignificando os valores de sua existência, despertando, em alguns momentos, para o seu desenvolvimento e fortalecimento espiritual. Quando percebemos um indivíduo doente, ele está adoecido em sua totalidade. Não é possível presenciar apenas um corpo doente. É preciso desfocar da doença que tem e considerar toda a sua história de vida, possibilitando uma melhor compreensão da manifestação dos sentimentos relacionados à representação da doença para aquele indivíduo. Ao buscar o desenvolvimento de estratégias de enfrentamento da doença em conjunto com o indivíduo, a abordagem espiritual passa a exercer um papel importante no tratamento. Embora existam fases em que ocorram sentimentos de revolta, tristeza e até mesmo uma sensação de desamparo, os indivíduos tendem a buscar uma aproximação com seus valores e crenças para alívio de dores, perdas e enfrentamento de situações inesperadas. A espiritualidade relaciona a busca por significado e sentido para o adoecimento e sofrimento. Percebe-se a força para a superação, permeada por uma sensação de alívio, coragem e maior aceitação diante das adversidades. Boa parte dos pacientes que vivenciam o câncer demonstram acreditar que sua espiritualidade alimenta a motivação para o enfrentamento ao longo do tratamento. Assim como a espiritualidade, a fé se mostra uma fonte de apoio para conseguir encarar os desafios provocados pelos tratamentos ou até mesmo na possibilidade de conforto diante da proximidade de morte. A fé passa a ser um instrumento não somente para o paciente, mas para a sua família, mantendo uma postura mais positiva diante de todo o sofrimento implicado pela condição da doença. Busca-se, então, não somente o desenvolvimento da espiritualidade do paciente, mas um cuidado pautado naquilo que caracteriza a espiritualidade: humanizar, ouvir, fazer-se presente na dor, sofrimento ou solidão. É acalentar, consolar, flexibilizar e apoiar. Cuidar espiritualmente significa trabalhar com a esperança de cura física, mas se isso não for possível, de reestruturação e resiliência emocional. Cuidar não deve ser um ato técnico e objetivo, estruturado em etapas, procedimentos e técnicas, mas sim uma oportunidade de conduzir seres humanos para melhores direções existenciais. Valorizar constantemente o processo do outro no encontro consigo mesmo e com sua própria finitude. A experiência do adoecer pode se configurar como um acontecimento repleto de sentido, bem como um ganho existencial, pois, quando o homem encontra um sentido para seguir adiante, apesar dos obstáculos inerentes à vida, pode transcender as dificuldades imediatas impostas pelas circunstâncias adversas. Até mesmo na morte o sentido da vida se satisfaz, mobilizado pela ameaça da morte iminente e, consequentemente, pela luta desencadeada em prol da afirmação da vida ao se buscar o sentido da morte e do morrer, contribuindo para enriquecer esse processo com um sentido pleno ante a existência humana (Viktor Frankl). ReferênciasFrankl, V. E. (2003). Psicoterapia e sentido da vida. Quadrante.Kovács, M. J. (1992). Morte e desenvolvimento humano. Casa do Psicólogo. Fernanda Heming Souza MonteiroPsicóloga Clínica e da Saúde, especialista em Oncologia e Hematologia, Porto Alegre-RS.
Boletim Congregacional – Junho de 2023 – Nº 198

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Perdão em tempos de fragmentação

O que fazer diante do contexto de fragmentação em que vivemos? Sentir-nos afetados por essa situação pode ser um chamado a estar atentos. Isaías nos convida a alargar a tenda de nossa vida, afundando as estacas, para que possam segurar bem a tenda (Is 54,2) Há uma epidemia que silenciosamente se espalha e nos coloca uns contra os outros, criando inimigos e culpados para as crises que vivemos hoje, como humanidade. Essas crises podem chegar a nós como uma ameaça e despertar forças ocultas de violência, movidas pelo medo e instinto de defesa. Por outro lado, temos hoje movimentos que vivem e anunciam o perdão e que também se percebem como uma irradiação que leva cura e transformação ao mundo. O perdão é um deles. Antes de tratar do perdão, olhamos para a vitimização como raiva, ressentimento sedimentado principalmente em nosso inconsciente. No estado de vitimização, a pessoa fica desconectada dos sentimentos da dor e das perdas que sofreu; fica no medo, na baixa autoestima e na repetição de comportamentos compulsivos. Esse ressentimento pode ser projetado para fora de si como vingança em pensamentos, palavras, ações e omissões, achando que isso resolve. Mas a dor reprimida continua pulsando para dentro e para fora de si. A dor não curada atua como um véu através do qual avaliamos, de maneira distorcida, a realidade que nos rodeia e, assim, ficamos projetando condicionamentos de nossa mente, acreditando ter razão e agindo em consequência. É sobre essa energia violenta, alojada em nosso consciente e principalmente em nosso inconsciente, ativada pela manipulação das fake news, dos medos e insegurança de nosso tempo, que pode vir uma das causas das divisões e polarizações que vivemos atualmente. O ressentimento dificulta também aceitar os diferentes modos de ser e viver; dificulta lidar com a pluralidade o que explica a intolerância presente em nossos dias. Estamos ante um chamado a tomar consciência e discernir nossas escolhas. Perdão é uma escolha que pode resgatar nossa profunda dignidade e conduzir-nos ao que realmente somos em nossa essência. Perdão, para Robin Casarjian,1 é uma decisão, um processo e um modo de vida. A palavra “per-dão” significa doar, doar a dor que pede passagem para ser liberada; desapego do que nos prende ao ressentimento. Nas Escolas de Perdão e Reconciliação,2 é oferecida a possibilidade de fazer um exercício sobre esse processo que permite olhar-se como vítima, num espaço seguro onde a dor é reconhecida, acolhida e compreendida. Temos dificuldade de entrar em relação com a dor causada pelas ofensas e expressá-la pela necessidade de aparecer bem, não parecer fraco; por medo, vergonha, pelo viver no automático e na inconsciência. O processo do perdão passa pela expressão da dor e pede a habilidade de olhar para dentro de nós, conhecer-nos, perdoar-nos e amar-nos; um processo que nos leva à autocompaixão conosco e, ao mesmo tempo, com as outras pessoas; um caminho que nos conduz a descobrir quem somos. Essa é uma possibilidade de alargar nossa tenda e fincar mais profundamente as estacas na imagem que nos apresenta o profeta Isaías. É um chamado fundamental diante da ameaça de nos considerarmos bons e projetar no outro, no diferente, o que escondemos de nós mesmos e atribuir aos outros a causa dos males do mundo, e, assim, justificar a violência até em nome de Deus, como estamos vendo em nosso tempo. Perdoar nos permite avançar como humanidade, viver com mais saúde, liberdade e felicidade; permite ser criadores da história no momento presente, único em que podemos escolher a vida e o amor. Recentemente celebramos a Páscoa, passagem da morte para a vida, festa do perdão; grande convite a olhar-nos como Deus nos olha. Notas1 Casarjian, Robin. O livro do perdão. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.2 Escolas de Perdão e Reconciliação (Espere). Há vinte anos, nasceram na Colômbia e logo se espalharam por vários países da América Latina, chegando também ao Brasil. Irmã Martina Maria González Garcia, SSpS
Comunicadores SSpS Brasil têm primeiro encontro presencial

As palavras corpo, presença e conexão ganharam novo sentido durante o primeiro encontro da equipe de comunicação SSpS Brasil, realizado de 19 a 22 de maio, no Convento Espírito Santo, em Ponta Grossa-PR. É que, para os integrantes deste grupo de trabalho, consolidado em 2022, esta foi a primeira oportunidade de estarem juntos sem depender de ambientes de reunião on-line. “Quando propuseram que disséssemos uma palavra sobre o encontro, logo me veio ao peito a palavra ‘encarnação’. Até então, nós nos conhecíamos apenas pelas janelinhas das reuniões virtuais ou pelos textos recebidos por e-mail. Ao nos encontrar pessoalmente, percebemos até a diversidade física da equipe. Definitivamente, nada substitui o contato face a face”, comenta o diácono Alessandro Faleiro Marques, revisor da equipe SSpS Brasil. E corpo, presença e conexão também seguiram como uma constante ao longo de toda a programação, não somente como tema nos momentos de formação, mas também em dinâmicas de espiritualidade e nas visitas realizadas nas comunidades missionárias da cidade paranaense. O corpo e a mídia em estudo A participação on-line do missionário verbita irmão Paulo de Lima colocou em prática todos os três tipos de mídia abordados por ele no momento formativo intitulado: “E o verbo se fez mídia”. Com base na teoria das mídias, irmão Paulinho explicou que a mídia primária exige a presença de emissores e receptores em um mesmo espaço físico e em um mesmo tempo. Nesse sentido, a possibilidade de diálogo entre os integrantes da equipe de comunicação SSpS Brasil frente a frente é uma amostra disso. “O corpo é a primeira forma de comunicação entre as pessoas”, afirmou. Já na mídia secundária, a mensagem se desgarra do emissor e fixa-se em um suporte que permite a interação do receptor sem a presença do emissor. No encontro, isso se evidenciou em textos formativos impressos em papel e nas pinturas dos fundadores SSpS e escultura representando a Trindade que decoravam o ambiente. E a presença remota do irmão Paulinho, exibida em telão, ilustrou a grande mídia terciária de nosso tempo, caracterizada pela eletricidade e que abre outras possibilidades de geração, transmissão e conservação de mensagens. Além da teoria das mídias, ele apresentou um resgate histórico das publicações das congregações da Família Arnaldina, evidenciando o papel de Santo Arnaldo Janssen na produção e na divulgação da atividade missionária no mundo. Com isso, provocou a equipe de comunicação SSpS Brasil a articular o testemunho e o anúncio do Evangelho nas mídias digitais, buscando valorizar a interatividade com os públicos e o uso de novos meios. Missão On-line Diretamente de Roma, a irmã Ana Elídia participou remotamente do encontro SSpS Brasil, falando sobre o Manual de Comunicação da Congregação SSpS e o projeto Missão On-line. Ela destacou que o uso de ferramentas comunicacionais melhora a expressão missionária, tendo papel importante na vida da Congregação em todo o mundo. “O Manual de Comunicação SSpS nos convida a estar presentes e a tornar todas as vivências missionárias acessíveis às pessoas”, afirmou. Segundo ela, a comunicação institucional SSpS tem avançado para se consolidar em missão on-line, a fim de provocar uma transformação na prática missionária. “Todo o trabalho de relações humanas traz o testemunho dos valores da Missão. Tudo o que se faz na missão é parte do Evangelho. Por isso, devemos mostrar o sentido de tudo isso por meio dos meios de comunicação”, justificou. A irmã Ana Elídia ainda convidou os comunicadores SSpS Brasil a colocarem em prática quatro palavras-chave: 1) refletir: reservando tempo para pensar o fazer missionário; 2) descobrir: buscando saber como usar novas ferramentas comunicacionais; 3) partilhar: distribuindo a informação de forma consciente e criteriosa; 4) publicar: utilizando-se dos meios de comunicação disponíveis. Planejamento estratégico Uma das atividades realizadas em conjunto, durante o encontro em Ponta Grossa, foi a revisão do Planejamento Estratégico de Comunicação SSpS Brasil. Conduzida pela irmã Fátima Marques, a tarefa buscou avaliar a clareza do texto final formulado com base nos planos originais das províncias Brasil Sul e Brasil Norte. A tônica desse documento único é orientar a forma como a atividade missionária será comunicada aos diferentes públicos com os quais as irmãs SSpS interagem em todo o País. Ainda no encontro, foram revisitados os itens do planejamento já colocados em prática. Um deles é a unificação da identidade visual das províncias Brasil Sul e Brasil Norte como SSpS Brasil, que teve o conceito desenvolvido em conjunto pela irmã Zélia Cordeiro, Agostinho Travençolo Júnior e Gabriel Grecco. “A nova logomarca foi criada usando elementos visuais dos ícones das duas províncias, traduzindo muito bem essa unificação”, avalia Gabriel Grecco, responsável pela criação da arte. As redes sociais de cada Província também já foram consolidadas como SSpS Brasil no Facebook, Instagram e Youtube. A fusão fez com que todos os que seguiam a rede de uma província ou de outra formassem um só público, consumindo o mesmo conteúdo em contexto de Brasil. Isso ampliou o número de seguidores e, consequentemente, também aumentou o engajamento. O blog SSpS Brasil (blog.ssps.org.br) é outro exemplo positivo da unificação da equipe de comunicação e da publicação em um canal único na internet. “O blog reúne vozes diferentes e temas diversos. Hoje temos uma estrutura muito mais sólida, com a colaboração de várias pessoas, que escrevem artigos sobre temas diversos e comentários dos evangelhos. Os acessos ao blog aumentaram cinco vezes em relação aos números antes da fusão”, assinala Gabriel. A formação da equipe de comunicação SSpS Brasil, em abril de 2022, também foi relembrada como um passo importante dentro do planejamento estratégico. Antes disso, cada Província tinha a própria estrutura. “Quando assumi como coordenadora do serviço de comunicação das duas províncias, passamos a ter uma única equipe representada por irmãs e leigos das duas Províncias”, comenta irmã Zélia Cordeiro. Pertencimento e direcionamento O encontro teve a presença de três colunistas do blog SSpS Brasil: Maria Terezinha Corrêa, Marli Teresinha Everling e Maria José Brant, conhecida por Deka. Para elas, o convite para participar dos momentos de formação e de revisão do Planejamento Estratégico de Comunicação SSpS