E se a Bíblia ainda tivesse algo para dizer a você?

Talvez você já tenha pensado que a Bíblia é um livro antigo, difícil de entender e distante da realidade de hoje. Se você já pensou assim, saiba que não está sozinho. No artigo, a irmã Eduarda Gracilda, jovem missionária serva do Espírito Santo, recorda que a Sagrada Escritura fala de pessoas reais, talvez seja justamente por isso que suas histórias ainda conseguem tocar nossa vida. Veja!
Bíblia: a Palavra de Deus é vida

A Palavra de Deus não é um adorno religioso em casa, mas é pão para o faminto, luz para o peregrino e “espada” para conquistar a paz. Quando nos aproximamos dela com humildade e fé, o Senhor nos corrige, consola e transforma. Na abertura deste Mês da Bíblia, irmã Hermelinda Maria Ruschel, missionária serva do Espírito Santo, medita sobre o valor do contato diário com a Sagrada Escritura.
Catequese com adultos: experiência, testemunho e missão

Ser catequista é, a exemplo de Jesus, estar a serviço e caminhar ao lado dos que estão evoluindo na fé. Atuando na catequese, temos acompanhado o crescente testemunho da experiência de luz e vida de jovens adultos e de idosos buscando os sacramentos. No artigo deste mês, Maria Terezinha Corrêa conta um pouco de sua caminhada de fé com essas pessoas. Confira!
Espiritualidade: as crianças nos ensinam a ler a Bíblia

Nesta semana festiva, quando celebramos o Dia das Crianças, apresentamos cinco lições que elas nos dão quando devemos nos aproximar das Sagradas Escrituras e fortalecer nossa espiritualidade. Nunca é demais lembrar a palavra de Jesus: “O Reino de Deus é dos que são como elas”.
Nove curiosidades sobre a Bíblia

Em artigo passado, apresentei algumas propostas para celebrar o Mês daBíblia. Reforço: reduzir as homenagens à Palavra de Deus, no Mês da Bíblia, a umaprocissão e a palmas é pouco demais. Este é um tempo oportuno de louvar a Deus,justamente buscando nos aprofundar, de vários modos, no conhecimento daSagrada Escritura. No decorrer dos séculos, sobretudo nas últimas décadas, os estudos bíblicostêm avançado de modo significativo. Com o apoio de outras ciências, como aArqueologia, a Linguística, a História, a Teologia, entre muitas outras, vamosdescobrindo dados que nos ajudam a compreender a trajetória de um povo que,com sua experiência de Deus, nos deixou uma valiosa herança.Neste texto, eu gostaria de apresentar nove curiosidades sobre a SagradaEscritura. A ideia é fomentar, de um jeito mais leve, o interesse pelo estudo daBíblia. 1 BibliotecaA palavra “Bíblia” vem da língua grega (como muitas outras que usamos nocristianismo) e tem alma no plural. A tradução seria “biblioteca”, um conjunto delivros. É uma coletânea cultivada, com muito carinho, por séculos. São váriosautores (de santos a pecadores), contextos e modos de lidar com o Sagrado e ohumano. Ao todo, são 73 livros, sendo 46 no Antigo Testamento (AT) e 27 no NovoTestamento (NT). Algumas versões têm livros a menos no AT, pois desconsideram ostextos tardios (deuterocanônicos), escritos em grego. 2 Antigo e Novo TestamentosA palavra “testamento” pode ser entendida como “aliança”, “contrato”. Temos,portanto, uma Antiga e uma Nova Aliança. Em resumo, é um “acordo” entre Deus eos homens: “Eu sou seu Deus, e vocês são meu povo”. Hoje se entende que não éadequado dizer, em vez de Antigo Testamento, “Velho” ou “Primeiro” Testamento;nem “Segundo” Testamento no lugar de Novo Testamento, pois ambos formam umaunidade. Para se referir ao AT, alguns teólogos consideram mais preciso usar aexpressão “Escrituras Hebraicas” ou “Bíblia Hebraica”. 3 Quando foi escrita A maioria dos estudiosos acredita que os textos do AT foram organizados a partir doséculo ano VI antes de Cristo, provenientes de antiquíssimas e veneráveis tradiçõesorais. Sim, existiu “uma bíblia antes da Bíblia”. Talvez o escrito mais antigo seja oCântico de Débora, presente no capítulo 5 do Livro dos Juízes. O último livro do ATa ser compilado foi o da Sabedoria (por volta do ano 50 a.C.). Já os do NTcomeçaram a ser organizados alguns anos depois da morte e ressurreição de Jesus,a partir do ano 50. 4 Não é reportagemA Bíblia não tem o objetivo de ser ata, crônica, reportagem ou manual de ciências(no sentido moderno do termo). Geralmente ela traz os fatos lidos à luz da fé. Afinalidade é, sob inspiração divina, iluminar os caminhos, catequizar, curar, corrigir,consolar. Como exemplo, temos dois relatos da Criação (veja os capítulos 1 e 2 deGênesis). São formas de celebrar transmitidas por escolas diferentes. Ler aEscritura ao pé da letra leva ao fundamentalismo e pode provocar tragédias. 5 Cultura, tempo e lugares diferentesAo meditarmos sobre as passagens bíblicas, devemos ter em conta que é aexperiência espiritual de um povo proveniente de cultura, tempo e lugares bemdiferentes dos nossos. Por isso é importante o estudo bíblico, a meditação, aatualização para nossa realidade. Não à toa, algumas passagens soam estranhas eaté engraçadas para nós deste século XXI. Um exemplo é um trecho de Cântico dosCânticos (capítulo 1, versículo 9), comparando a amada à égua do cavalo do faraó.Um elogio e tanto em tempos antigos, mas, no mínimo, deselegante hoje. 6 Ordem dos livrosA ordem dos livros na Bíblia, tanto no AT quanto no NT, nem sempre se refere àdata em que foram escritos. Com toda a certeza, Gênesis, o primeiro da lista, nãoé o texto mais antigo. Há critérios distintos de organização, como a narrativa deum mesmo evento, o tamanho dos textos, o contexto histórico, o propósitocatequético, etc. O Evangelho mais antigo, por exemplo, é o de Marcos, mas, noNT, ele aparece em segundo lugar, atrás do de Mateus. 7 “Método abacate”Diferentemente de nossa cultura, nem sempre, a mensagem principal de umcapítulo ou mesmo de um livro bíblico está no fim do texto. Muitas vezes, amensagem central está… no centro! É o conhecido “método abacate”. Recordemosque estamos diante de um modo diferente de ver as coisas. 8 AutoriaÉ um costume muito antigo dedicar a autoria de grandes obras a um “patrono”, nãoexatamente a quem escreveu o texto. Por exemplo: a “lei” é atribuída a Moisés; oslivros sapienciais (palavra que remete à sabedoria) são dedicados a Salomão; osSalmos e textos poéticos, a Davi. Isso também ocorre no NT, em que há textos cujaautoria é dedicada a São Paulo ou a outro apóstolo. 9 “Puxão de orelha” no presépioQuando vemos o presépio, notamos duas figuras curiosas: um boi e um burro. Essaforma de retratar o nascimento de Jesus foi criada por São Francisco de Assis, em1223, em Greccio (Itália). Ainda hoje, há quem veja esses animais como a“aquecerem” o Menino Jesus, que nasceu em condições insalubres, pois “não havialugar para eles na hospedaria”, segundo os evangelhos. Na verdade, as duas figurasremetem-se à profecia de Isaías (capítulo 1, versículo 3): “O boi conhece seu dono,e o burro, o cocho de seu senhor; mas Israel não conhece, meu povo nãoentende!”. De fato, é um grande puxão de orelhas que o Pobrezinho de Assis,inspirado no profeta, quis dar nos irmãos e irmãs de todos os tempos, que ouvem,mas ficam indiferentes à Palavra de Deus. A intenção de colocar algumas dessas curiosidades é despertar para oriquíssimo tesouro que é a Palavra de Deus. A Bíblia é uma fonte inesgotável desabedoria a saciar as pessoas ao longo dos séculos. Cada geração descobre naSagrada Escritura uma luz para os desafios e vitórias de cada tempo. O importanteé reconhecer, como ensina a Igreja: o Senhor está presente, de forma real, tambémneste pão que sustenta nossa caminhada. Deixemo-nos encantar com o magníficomundo da Bíblia! Alessandro Faleiro Marques
Mês da Bíblia: homenagens além dos aplausos

A Igreja no Brasil comemora, em setembro, o Mês da Bíblia. Com fundamentos mais ou menos sólidos, alguns teólogos questionam a ideia de meses temáticos, sobretudo quando envolvem a liturgia. Obviamente, sabemos que a Palavra de Deus nos acompanha, todos os dias, ao longo de nossa vida. Ela é sinal da presença do Senhor entre nós (shekinah) e merece toda o nosso carinho. Há algum tempo, contudo, um olhar especial à Sagrada Escritura está consolidado neste período, pelo menos em nosso País. Lastimo muito (muito mesmo!) que as homenagens à Bíblia, em várias de nossas comunidades de fé, resumem-se a uma automatizada procissão com o livro (quase sempre, a meu ver, realizada na hora errada das celebrações) e a uma “protocolar” salva de palmas. É pouco demais! Assim, quando o mês passa, quase tudo continua na mesma. Precisamos aproveitar bem este tempo para bendizer a Deus por sua Palavra entre nós e para buscar aprofundar-nos nesse riquíssimo patrimônio espiritual. Ouso dizer: se não for pela fé, pelo menos seja pela importância da Bíblia como patrimônio cultural da humanidade, como a obra mais publicada de todos os tempos. No propósito de venerar o Sagrado Livro, partilho aqui algumas propostas e experiências de como celebrar bem esse tesouro de nossa fé. Bíblia para todos Em princípio, um testemunho. Tempos atrás, em uma das queridas comunidades cristãs onde sirvo como diácono da Igreja, o povo, animado pelos catequistas, fez um combinado. Comemorariam o Mês da Bíblia de modo mais missionário. Decidiram constatar se todas as famílias do lugar tinham em casa um exemplar da Escritura. Para espanto de muitos, descobriram que, até em lares de pessoas que participavam da Igreja, ela não estava presente. Em outros, existia de modo precário, com o livro em frangalhos ou com traduções ultrapassadas. Animados pelo pároco, o povo assumiu uma campanha de doação de um exemplar a quem precisasse. No fim, dezenas de famílias e indivíduos receberam a Bíblia. A entrega foi realizada em clima de alegria e oração. Algumas na liturgia dominical, outras diretamente nos lares. Um exemplo a ser seguido. O Espírito, a Bíblia e os humildes Em uma paróquia de um bairro humilde, na Região Metropolitana de Belo Horizonte-MG, alguns jovens decidiram, em louvável iniciativa, implantar círculos bíblicos. Para isso, procuraram conhecer essa metodologia e se dividiram em pequenos grupos para atender mais pessoas. Quanta riqueza! O exemplo acabou seguido por outros grupos da Igreja. Por grata experiência, todos nós constatamos: o povo, sim, entende da Palavra de Deus. Conhecê-la não é privilégio apenas de iniciados ou intelectuais (é deles também, claro). Muitas interpretações dadas por donas de casa, jovens, idosos, operários são espetaculares, inspiradíssimas, obra-prima do Espírito Santo. Em suma, a Bíblia é, de fato, uma carta de amor de Deus a seu povo. Na liturgia Colocar a Sagrada Escritura em seu devido e nobre lugar na liturgia é urgente em muitas comunidades de fé. Isso vale para os ministros ordenados, as equipes de liturgia, os ministérios de leitores, de canto, etc. É importante observar que a Palavra de Deus está presente desde os primeiros minutos das celebrações. As próprias saudações iniciais são geralmente inspiradas em textos bíblicos (quase sempre das cartas paulinas). O ideal seria valorizar as antífonas, o tema do Evangelho do dia, o Evangeliário (principal livro litúrgico da Igreja) e entrar com a Palavra já na procissão inicial. No espaço litúrgico, é preciso compreender o valor do altar da Palavra (chamado também de ambão), conforme as normas da Igreja. É o lugar donde brota a vida, a cura, o conforto aos feridos, a esperança. Deve primar pela nobre simplicidade, ser belo. Desse lugar sagrado devem ser proclamadas as leituras, os salmos, o Evangelho, opcionalmente a homilia e, conforme estipulado pela maioria das dioceses mundo afora, as preces da assembleia. É onde ocorre o diálogo entre Deus e o povo, e se proclama a ressurreição do Senhor. Não deveria ser usado para fins alheios à liturgia da Palavra nem para afixar cartazes. Presença real de Jesus também no pão da Palavra Este ponto se liga ao anterior, mas merece um destaque. Desde seu início, a Igreja crê e proclama firmemente estar Jesus presente, de forma real, também em sua Palavra. Uma pena, mas muitos batizados, batizadas não conhecem essa áurea base da fé! A prova disso se vê em muitos lugares: os leitores são requisitados de modo precário, mas não se percebe o mesmo desleixo quanto aos que servem o Pão Eucarístico. Ficam aqui alguns questionamentos: se Cristo está no Pão da Palavra e na Eucaristia, por que improvisamos os leitores (chamando inclusive crianças ou pessoas inaptas para proclamar os textos), mas não improvisamos quem distribui a comunhão eucarística? Por que existe o valoroso ministério extraordinário da sagrada comunhão eucarística e, em inúmeras paróquias, faltam os não menos importantes ministérios de leitores, de salmistas e até do canto? Na catequese Catequese e liturgia são “irmãs gêmeas”. Com acerto, os especialistas insistem em não se confundir a instrução para a fé, marcada sobretudo pela experiência de encontro com o Senhor, com o ensino meramente acadêmico. A catequese (para todas as idades) não deveria ser entendida como “aula” nem catequista como “professor”. Mais do que “estudar” sobre a Bíblia, o ideal seria primeiro celebrá-la, experimentá-la. É necessário, antes, formar bem os catequistas para serem próximos da Palavra a qual eles mesmos ecoam com o próprio exemplo. É claro que esta partilha não abrange todas as possibilidades de celebrar o Mês da Bíblia. É imperativo, no entanto, cristãos e cristãs batizados acolherem com alegria o desejo do Concílio Vaticano II, que “devolveu” para o povo o acesso à Sagrada Escritura. É hora de tirar o pó daquela Bíblia exposta apenas como adorno, é momento de valorizar esse “sacrário” ao qual temos fácil acesso em nossos lares, é tempo de manter os ouvidos e o coração bem abertos para acolher a mensagem de Deus. Assim, nossos aplausos à Palavra poderão ser dados com autêntica alegria e convicção. Alessandro Faleiro Marques Membro das equipes de
Mês da Bíblia: o Livro de Josué e os tempos atuais pós-covid-19

O mês de setembro estava começando quando vi, pelas redes sociais, um padre, grande amigo, incentivando sua comunidade de fé a ler, estudar e aprofundar o texto bíblico escolhido pela CNBB para o ano de 2022: o Livro de Josué. Assim, eu me senti tocada a também ler a Escritura, uma vez que já fiz parte do Grupo de Animação Bíblica de minha paróquia e sei que os encontros sobre a Palavra são sempre muito proveitosos, com grandes partilhas e insights enriquecedores. Desta vez, contudo, comecei a ler Josué, apenas eu e meu esposo, em casa, sem material de apoio, apenas a letra seca do texto bíblico. Esta foi uma experiência também muito interessante, que nos trouxe a oportunidade de pensar sobre nosso atual momento. Já na introdução, os biblistas fazem uma salutar colocação: “O livro de Josué olha para duas direções. Para trás, completando a saída do Egito com a entrada em Canaã. Para diante, inaugurando a nova etapa do povo com a passagem para a vida sedentária” (Bíblia do Peregrino, p. 313). Sedentária é uma palavra estranha, mas demonstra bem o fenômeno que levou os hebreus a deixarem de ser nômades e a ocuparem a Terra Prometida. Os escritos de Josué expõem uma grande mudança por que o povo hebreu estava passando. Finalmente, eles chegavam à terra de Canaã, mas esta não foi conquistada de modo fácil, sem adversidades. Ao contrário, para ocupar a “terra que mana leite e mel”, o povo escolhido enfrentou guerras contra várias nações, especialmente os cananeus. Nessa disputa, inclusive, os hebreus contaram com a ajuda de Raab, a prostituta, que, já tendo sabido sobre o Deus daquele povo, decidiu ajudá-los à custa da vida de sua própria gente. A aliança estabelecida é muito forte, e Raab, pelo que fez, por sua fé e coragem, é equiparada a Abraão por grandes exegetas. Ao longo do texto de Josué, descrevem-se algumas disputas com povos que estavam no lugar, o que demonstra que, apesar de “prometida”, a terra não foi ocupada pacífica e facilmente; ao contrário, ela foi conquistada com muito sacrifício, dor, perdas, etc. O povo já havia conseguido fugir do Egito, atravessado o Mar Vermelho, mas, em determinados momentos, descritos categoricamente no livro, é possível ver situações de idolatria bem como de exploração econômica, como as já vividas no Egito, e isso precisava ser logo combatido para haver unidade entre o povo e este não se perder. Para enfrentar a exploração e os desvios, os sábios de Israel se utilizaram das ações memoriais, que tinham o condão de evitar situações que transgredissem o projeto do povo. Esses gestos memoriais iam muito além da recordação. Eles recolocavam os envolvidos dentro do projeto, como senhores e participantes da experiência salvífica, recobrando sua parcela de responsabilidade no objetivo maior de um povo. Nesse texto, é interessante notar a divisão de terra às tribos conduzida por Josué. Cada clã recebeu uma parte, com as descrições físicas e lhe foi explicado o porquê de cada uma receber esta ou aquela porção. Os levitas, que hoje poderiam ser equiparados aos atuais diáconos, não receberam nenhuma área significativa, pois tinham como função o serviço religioso e a propagação da Palavra em todas as tribos. Período pós-covid-19 Ao ler o texto de Josué, agora em setembro, não pude deixar de associá-lo ao momento pós-covid-19 que vivenciamos. Sinto que estamos como o povo hebreu, que olha adiante, mas ainda têm fortes memórias e percepções de tudo aquilo que é seu passado recente e doído. Ao mesmo tempo em que estamos muito felizes com o fim (pelo menos aparente) da pandemia, após tantas idas e vindas, ainda sentimos em nosso peito a dor pelas quase 700 mil mortes em nosso país e as sequelas da doença. Estão latentes o grande empobrecimento coletivo e a falta de perspectiva de muitos em nossas comunidades. Diante desse quadro, tendo a experiência hebreia como ponto de partida, devemos pensar adiante sem nos esquecer de que fazemos parte do grande projeto de Deus. Precisamos nos animar mutuamente e, se for preciso, buscar ajuda profissional e tentarmos, juntos, impulsionar os passos dos irmãos que caminham conosco. Uma verdadeira caminhada sinodal rumo aos novos desafios. Não é fácil, mas também não foi fácil para aquele povo, porém a íntima experiência divina nos leva a continuarmos tentando. Tânia Cecília Cardoso de Oliveira MarquesEntusiasta no conhecimento da Bíblia.
Passos bíblicos da interculturalidade

A interculturalidade na Bíblia segue um caminho muito peculiar. Apresenta os processos de inclusão e exclusão, acolhida e repúdio, abertura e fechamento, mostrando, assim, uma íntima ligação com a vivência intercultural do mundo contemporâneo. O mundo bíblico era tão intercultural quanto o de hoje, onde se pode perceber tanto inúmeros bons exemplos de interculturalidade quanto de intolerância em relação a outras culturas. É evidente que o Antigo Testamento é uma coleção de livros agrupados conforme os temas: Pentateuco e proféticos, nos quais se encontram também os livros históricos e sapienciais. Já o Novo Testamento inicia-se com os Evangelhos, depois os Atos dos Apóstolos e diversas cartas, finalizando com o Apocalipse. Em ambas as partes, não há um único autor, mas a coletânea de livros é resultado de um longo processo redacional e de transmissão da tradição do povo de Israel. Para ser um texto vivo, no entanto, pressupõe-se um leitor, e a leitura é feita pessoalmente e também pelas diversas comunidades de fé. Por isso fundamental é que, para se compreender a interculturalidade na Bíblia, como aponta Walter Vogels (2015), dois aspectos devem ser examinados: o contexto intercultural da produção da Bíblia e o contexto intercultural de sua leitura. O Antigo Testamento conta a história da caminhada do povo de Israel, e o Novo Testamento apresenta o processo intercultural iniciado por Jesus, continuado eficientemente por Paulo e, posteriormente, pela comunidade apostólica. O missionário do Verbo Divino Roger Schroeder (2020) aponta que o Antigo e o Novo Testamento refletem como as pessoas viveram a experiência de Deus e expressaram sua fé e espiritualidade por meio de seu contexto cultural e histórico, conforme épocas distintas. Podem-se citar como exemplo o chamado e a resposta de Abraão e Sara; o êxodo pascal, a travessia do Mar Vermelho; os ensaios e bênçãos na peregrinação de fé no deserto; as proclamações dos profetas e a literatura sapiencial; a adoração no Templo e na sinagoga; a experiência religiosa de Simeão e Ana no Templo; o chamado e a resposta dos primeiros discípulos; o encontro transformador de Jesus com um cobrador de impostos, um centurião romano e uma mulher samaritana; a travessia de limites culturais em Atos dos Apóstolos; a vida cristã e os desafios entre as comunidades de Paulo. Assim, o caminho intercultural da Bíblia se torna uma inspiração para nossa caminhada como batizados, em direção à atividade missionária promovida por Jesus. Além disso, a Família Arnaldina tem o dever de seguir o caminho intercultural bíblico em nossos contextos da missão. Padre Joachim Andrade, SVDMissionário do Verbo Divino natural da Índia, atua no Brasil desde 1992. Tem pós-doutorado pela PUC-PR, doutorado em Ciências da Religião pela PUC-SP e mestrado em Antropologia Social pela UFPR. É professor na PUC-PR, no Studium Theologicum e na Faculdade Vicentina, membro da equipe interdisciplinar da CRB Nacional. Foi provincial do Brasil Sul de 2008 a 2013.
Bibliodrama: uma experiência de vida

Durante o ano de 2019, o grupo de coordenadores missionários da Rede de Educação, de missionários leigos de Deus Uno e Trino e das irmãs missionárias servas do Espírito Santo se reuniu no Centro Missionário Cultural Santíssima Trindade, em São Paulo-SP, para o Curso de Bibliodrama. A formação foi ministrada por irmão Paolo de Lucca, SVD; irmã Maria de Fátima Marques, SSpS; irmã Heloíse Matos, SSpS; e Agostinho Travençolo Júnior, coordenador missionário. O encontro de encerramento foi no fim de semana, entre 29 de novembro e 1º de dezembro. A temática envolveu sonho e missão que perpassam o encontro com a Palavra. Foram dias de crescimento pessoal, vivência em grupo e aprofundamento da fé. A cada encontro, tive a oportunidade de trazer a Bíblia para a centralidade de minha vida, de maneira única, diferente de todas as outras, levada por minhas intuições, emoções, revelando que Deus comunica-se comigo e que o Espírito está em ação, pela escuta, pela transformação. Nem sempre, nos encontros de bibliodrama, foi possível nomear as emoções, mas foi possível vivenciá-las e promover um encontro comigo mesma e com o outro. Tive, em muitos momentos, oportunidade de escutar, ouvir com atenção, ser ouvida, perguntar, responder, compreender a dor do outro que, muitas vezes, era a minha também e não a percebia… Pela dança, um dos elementos do bibliodrama, tive a chance de vivenciar maior interação com o grupo e de deixar pulsar no coração sentimentos vividos na experiência da Palavra. Neste último encontro, fizemos a experiência do bibliodrama completo: estruturação do texto, leituras, esculturas, gestos, “bibliolog”, entrevistas, entre outros. Estes me fizeram crer que é bom olhar para dentro de mim e contar minha história, relembrar meu caminho, percebendo que Jesus me fala também por meio de outras pessoas. Um fim de semana rico de novas experiências que contribuíram para minha própria história e para minha prática como educadora. Um curso que me fez ressignificar o valor das pequenas coisas: sentar-me à mesa com a família, escutar com paciência meus filhos, alunos, amigos, viver intensamente cada momento, descobrir o que há de especial em cada pessoa sem me prender a aparências e rótulos, perdoar para ter a capacidade de amar intensamente e agradecer sempre. _ “Se eu quiser falar com Deus tenho que me aventurar Eu tenho que subir aos céus Sem cordas pra segurar tenho que dizer adeus dar as costas, caminhar“ (Gilberto Gil, “Se eu quiser falar com Deus”) Luciana Marzullo Araujo, coordenadora da Pastoral Missionária no Colégio Stella Matutina, pedagoga e cientista das religiões. ________
O encontro que rompeu minhas correntes (Lc 13,10-17)

A narrativa do encontro entre Jesus e a mulher encurvada se insere na sequência das curas realizadas por Jesus, em dia de sábado. Porém as narrativas trazem suas próprias peculiaridades. Neste pequeno escrito, nós nos deteremos especificamente nas características particulares do episódio da mulher encurvada. “Ora, Ele estava ensinando numa das sinagogas em dia de sábado. E eis que se encontrava lá uma mulher possuída, havia dezoito anos, por um espírito que a tornara enferma; estava inteiramente encurvada e não podia, de modo algum, endireitar-se. Vendo-a, Jesus a chamou e disse ‘Mulher estás livre de tua doença’” (vv. 10-12). É interessante percebermos a estrutura da narração, pois detalha cuidadosamente o contexto e as condições em que se encontrava a mulher à qual Jesus se dirige. Ela estava possuída havia dezoito anos. O número é simbólico e indica muito tempo. É possível, portanto, que ela estivesse por quase toda sua vida sofrendo desse mal. Aliás, ela estava “inteiramente encurvada”. No Antigo Testamento, o estar encurvado é considerado como uma atitude de humilhação (cf. Gn 4,5-6; Sl 57,7). Mas também encontramos vários textos nos quais o mesmo Deus se ocupa dos cegos, dos encurvados, das viúvas e dos órfãos (cf. Sl 146). Deus tem o poder de erguer o ser humano da prostração: “Mulher, estás livre de tua doença”. Entretanto, Ele conta conosco para romper as correntes e libertar da opressão cultural, social e religiosa. Não é por acaso que Jesus exerça sua atividade libertadora justamente no dia do shabbát (sábado). Jesus segue a tradição profética e lembra ao povo de Israel e a nós que o mandamento da assistência vem antes do mandamento do sábado. Salvar e promover a vida tem prioridade sobre a observância (cf. Mc 3,4). Quando queremos controlar e resguardar, acima da vida, as “leis”, caímos na total desumanização. Consequentemente teremos sociedades doentes e encurvadas. Nesse quadro, a degradação do ser humano se reforça. O exemplo claro é a sobre-exploração da vida em todas as suas formas: mortes violentas; fome massiva; deslocamentos forçados; o aquecimento global causando mudanças climáticas que ameaçam a existência de toda a humanidade. E o mais grave é que, diante desse cenário, os acordos comerciais têm prioridade em relação à vida. No entanto, Deus não nos abandona, segue confiando em nós. Ele, em seu Filho Jesus, aproxima-nos, olha-nos com compaixão e nos atrai, endireitando-nos. A mulher estava possuída por um espírito que a tornava enferma. Ou seja, há uma causa da decomposição, e é fundamental reconhecê-la. Observemos que Jesus é quem toma a iniciativa. Ele vê a mulher, a chama e, com sua palavra e seu toque, a cura. A palavra “chamou-a” é usada somente quando Jesus chama os discípulos (cf. Lc 6,13). Será que Jesus a chama como discípula? Mesmo a imposição das mãos, por parte Jesus, é crucial no texto, pois, mais do que um toque de cura, trata-se de um gesto simbólico. Lucas, no Evangelho, somente narra outra imposição em 4,40. Isso reforça a peculiaridade da imposição de mãos além do sanar. Na obra lucana, esse gesto é feito ao se eleger alguém para um cargo (At 6,5-6; 9,10-18). Será que a imposição de mãos na mulher significa que ela foi eleita? A mulher reage, louvando e glorificando a Deus. O verbo (louvar-glorificar) está em gerúndio, o que remete a uma atuação duradoura. Isso significa que a mulher não apenas expressou um breve louvor pela maravilha recebida, mas, com toda a sua vida, glorificava-servia a Deus na comunidade. Além do mais, seguindo as narrativas de Lucas, percebemos que ele usa elementos estilísticos dos duplicados. Portanto o episódio em questão encontra seu paralelo na cura do homem da mão atrofiada (Lc 6,6-11). Conclui-se que o duplicado “homem-mulher” traz a intenção de realçar a igualdade que mulheres e homens têm no Reino de Deus. O evangelista também nos chama a atenção para as reações dos personagens. A mulher reagiu, louvando a Deus por sua vida, por sua Palavra e por suas ações. A fé que demonstra é exemplar e, por isso, mostra-se como verdadeira filha de Abraão. Os dirigentes religiosos reagem aborrecidos. O povo dos “filhos de Abraão” se mostra cheio de assombro por ver realizarem-se as maravilhas de Deus no meio dele. Com a mulher e seu povo, reconheçamos que a salvação de Deus não está condicionada a atos pessoais. Nem a Lei ou o pecado podem coagir sua ação libertadora. Ergamo-nos! Pois o Reino de Deus já está no meio de nós, eis nossa alegria! Irmã Juana OrtegaMissionária serva do Espírito Santo, teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e colabora na animação vocacional.