Deus nos amou primeiro

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São João nos diz que não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou por primeiro (1 João 4,19). E São Paulo completa, dizendo que o Espírito foi derramado em nossos corações (Romanos 5,5): “A esperança não nos decepciona, porque Deus derramou seu amor em nossos corações, por meio do Espírito Santo que ele nos concedeu”.

Somos obra do amor de Deus por meio de nossos pais que nos geraram. Porque neles estava o amor de Deus suscitando seus corações para que, no amor entre si, dessem lugar à vida que, desde sempre, estava na mente de Deus. Nós nascemos, e a experiência do amor, desde o primeiro momento, a fizemos no colo da mãe que nos acariciou, amamentou, protegeu, cuidou e nos acompanhou em nosso crescimento. O amor de Deus derramado no coração de nossa mãe a fez especial para cada um.

Nenhum de nós abre mão do amor da mãe, a menos que se desumanize. A experiência humana do amor materno é base para entender o amor de Deus por nós. Aquele amor materno tão essencial em nossa vida é o reflexo do amor de Deus nela. Conforme nos tornamos adultos, nós nos deparamos com nossa realidade fragilizada que precisa de amor verdadeiro para se sustentar diante dos desafios do cotidiano. Contudo, quando se desliga do amor de Deus e se deixa pervadir pelas fragilidades e marcas do pecado original, perde-se o encanto e o prazer de viver. Se quiser reencontrar o rumo da vida, esta exige de nós redescobrirmos o amor de Deus derramado em nossos corações pelo Espírito Santo.

Ninguém é capaz de amar a Deus por própria conta. Sempre que desejamos fazê-lo, o amor de Deus se antecipa e nos possibilita a experiência dele. O amor de Deus, contudo, deixa-nos livres. Quando levados pelas nossas ambições e prepotências, deixamos a ação do amor de Deus enclausurado e então nossa liberdade nos afasta daquilo que o coração realmente deseja, o amor de Deus.

Porque Ele nos amou primeiro, somos capazes de amar também. E a experiência do amor é a mais marcante na vida de qualquer um. Ele, às vezes, torna-se tão comum que nem prestamos mais atenção que ele vem de Deus. Ignoramos sua origem e, com frequência, o banalizamos, desvirtuando seu caráter de comunhão e fraternidade. Quando extrapolamos o amor, geramos conflitos nas relações recíprocas, nos desumanizamos, capazes de cometer injustiças, crimes, encher a vida de ressentimentos.

São Paulo, no Hino à Caridade, nos lembra dos frutos do amor. O amor é paciente e benigno. O amor não tem inveja, amor não se vangloria, não se envaidece, não falta com o respeito, não busca o próprio interesse, não se irrita, não leva em conta o mal recebido, não goza de injustiça, mas ele está satisfeito da verdade. Cobre tudo, tudo acredita, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca vai acabar. O amor é um caminho superior aos demais: “Vou mostrar-vos um caminho, que ultrapassa tudo” (1 Coríntios 12,31), um meio de perfeição, muito superior e insubstituível: o amor que é “a plenitude da lei” (Romanos 13,8-10), “o vínculo da perfeição” (Colossenses 3,14). Tudo o que contraria essas manifestações do amor se torna desamor.

Tudo isso está ao alcance do ser humano, pois Cristo nos libertou por seu amor derramado na Cruz. É nele que a vida encontra plenitude. Quando internalizamos essa experiência, essa verdade, tornamo-nos verdadeiramente humanos e somos capazes de criar um ambiente mais saudável e acolhedor nas nossas relações e convívios.

Nosso mundo está altamente inflacionado e carente do amor verdadeiro. Ainda o mal parece predominar, temos guerras infindáveis, crimes contra a humanidade, a prepotência parece se sobrepor ao bem. O barulho das bombas que destroem, causando calamidades, parece desacreditar o amor verdadeiro. Contudo, as aparências podem enganar, porque o coração humano humanizado pelo amor derramado nos corações é mais forte que as bombas barulhentas e as propagandas manipuladas que justificam as atrocidades.

Deus nos amou primeiro e, portanto, ele tem primazia. Vivamos o amor porque é ele que nos salva e salva o mundo. Ninguém é feliz sem amor verdadeiro. É a constatação mais óbvia, contudo mais ignorada! A certeza que temos é que Deus nos amou primeiro!

 

 

Padre Deolino Pedro Baldissera, SDS

 

 

Imagem principal: Artem Varnitsin (Istock)

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