26º Domingo do Tempo Comum

“Quem não está contra nós está a nosso favor”Marcos 9,38-43.45.47-48 O texto de hoje nos coloca, mais uma vez, no contexto do ensinamento de Jesus a seus discípulos, enquanto caminhavam para Jerusalém. Já vimos que, a partir da “crise galilaica”, Jesus mudou sua estratégia, afastou-se das multidões e dedicou-se à formação mais intensa de seus discípulos, pois estes se mostravam incapazes de acolher a novidade do Evangelho, com a mudança radical de atitudes que ele implicava. A primeira atitude a ser corrigida, conforme vemos nos versículos de hoje, é a de querer reservar o Espírito de Jesus como propriedade da comunidade. João se queixa que um homem que não os seguia estava expulsando demônios em nome de Jesus. Atitude mesquinha, de querer dominar o Espírito de Deus, sequestrar o poder divino. Mas, infelizmente, uma atitude bastante prevalecente em certos setores mais retrógrados das igrejas, ainda hoje, que acham que toda a riqueza do mistério de Deus possa caber dentro das margens estreitas de suas definições dogmáticas. Hoje, Jesus nos ensina a verdadeira atitude de um discípulo: “Não lhe proíbam, pois… quem não está contra nós está a nosso favor” (versículo 40). Temos de aprender a acolher as manifestações verdadeiras do Espírito de Deus em todas as religiões e culturas, e estar alertas para que nós mesmos não o escondamos ou deturpemos. Discernimento deve ser uma atitude permanente de vida. A segunda parte do trecho nos coloca diante do problema do escândalo aos pequenos na comunidade. Aqui cumpre ressaltar que “os pequenos” nesse texto não são as crianças, mas os humildes e pobres da comunidade cristã. É bom lembrar o sentido original da palavra “escândalo”. Vem de um termo grego que significa “pedra de tropeço”. Então se trata de uma situação em que os pequenos da comunidade “tropeçam”, isto é, não conseguem manter-se em pé ou se afastam por causa de certas atitudes dos dirigentes comunitários (é bom notar que o discurso e as advertências se dirigem aos discípulos e não aos de fora). Deve ter sido um problema comum, pois o discurso eclesiológico (isto é, da Igreja) no Evangelho de Mateus trata do mesmo assunto (Mateus 18,6-14). Usa imagens e linguagem tipicamente semitas: Jesus manda cortar e jogar fora “a mão, o pé e o olho” que causam escândalos aos pequenos. Obviamente não se propõe aqui uma mutilação física, mesmo se, ao longo da história, houvesse quem assim o entendesse; por exemplo, Orígenes. “Mão” significa nossa maneira de agir; “pé”, o modo de caminhar na vida; e “olho”, o jeito de ver e julgar as coisas, ou até nossa ideologia. Então o texto convida os dirigentes das comunidades cristãs (hoje bispos, padres, pastores, irmãs, ministros, etc.) a reverem o seu modo de agir, pensar e julgar, para averiguar se não estão causando a queda dos pequenos e humildes. Se descobrirmos que assim esteja acontecendo, então devemos “cortar e jogar fora”, ou seja, mudar o que causa o problema. Caso contrário, não experimentaremos na comunidade a presença do Reino de Deus, a vivência dos valores do Evangelho, por que Jesus deu a vida para estabelecer. A caminhada para Jerusalém, no Evangelho de Marcos, é um grande ensinamento de Jesus para quem quer segui-lo como discípulo. Trecho por trecho, ele vai desafiando a mentalidade dos discípulos, tão marcada pelos valores da sociedade vigente, e semeando os valores do Reino. Hoje, Ele nos desafia a praticarmos um verdadeiro ecumenismo e diálogo inter-religioso, e a revermos os nossos modos de agir e pensar, para que a experiência cristã de comunidade seja uma amostra real dos valores do Reino de Deus. O Papa Francisco nos dá o exemplo, enraizado como está no espírito de Jesus e na Palavra. Que tenhamos a abertura e a coragem de praticar o que ele nos ensina. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

25º Domingo do Tempo Comum

“Se alguém quer ser o primeiro deve ser o último, aquele que serve a todos” Marcos 9,30-37 Na estrutura do Evangelho de Marcos, depois da chamada “crise galilaica”, manifestada no episódio da estada de Cesareia de Felipe, Jesus muda totalmente de tática, de estratégia. Ele não anda mais com as multidões, quase não faz mais milagres (dos 19 milagres em Marcos, somente 2 ocorrem depois do acontecimento de Cesareia). Em lugar disso, Ele se dedica à formação dos seus discípulos, tentando inculcar neles as atitudes de verdadeiros discípulos, ensinando-os que o caminho dele é o da Cruz, da entrega, da doação, e não da busca do poder, da glória ou da fama. Marcos demonstra isso de uma maneira bem organizada. Em três ocasiões, Jesus anuncia a sua futura paixão (8,81; 9,31; 10,33-34). Em cada uma, os discípulos não compreendem (8,32; 8,34; 10,35-37), e a partir dessas incompreensões, Jesus dá um ensinamento, aprofundando vários aspectos do verdadeiro seguimento dele (8,34-38; 9,35-37; 10,38-45). O trecho de hoje trata do segundo desses três acontecimentos. A causa da dificuldade é a tentação do poder. Embora Jesus tenha deixado bem claro, pela segunda vez, que o seguimento dele é uma vida de entrega, até à morte, em favor dos outros, os Doze discutem entre si qual deles era a maior. O poder é tentação permanente em todas as comunidades, não isentando as igrejas. Podemos até dizer, com certa dose de humor, que a busca de poder está no DNA das pessoas humanas. Talvez mais do que outro motivo, a sede do poder tem sido o que mais tem corrompido nas igrejas, mais ainda do que a imoralidade ou a ganância financeira. No século XIX, o estadista e historiador católico inglês Lord Acton falou que “todo poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente”, e não há poder mais perigoso do que o religioso, exercido em nome de Deus! Quantos sofrimentos e males são causados por essa sede do poder, disfarçada como mandato de Deus. Desde o fundamentalismo fanático do Talibã, no Afeganistão, até a ufania de certos padres (mormente recém-ordenados), que se ostentam com roupas finas e carros do ano e, de uma maneira opressora, dominam religiosas e leigos de muito mais experiência e sabedoria do que eles… A sede do poder e da dominação, sempre em nome de Deus ou de Jesus, continua a distorcer a vida de muitas comunidades religiosas, dentro e fora do cristianismo. No fundo, é por isso que certos setores da Igreja se colocam, frontalmente ou veladamente, contra o Papa Francisco. Como escreveu o teólogo sul-africano Alberto Nolan, dominicano, “Jesus tem sido mais frequentemente honrado e venerado por aquilo que Ele não significou, do que por aquilo que Ele realmente significou. A suprema ironia é que algumas das coisas, às quais Ele mais fortemente se opôs na sua época, foram ressuscitadas, pregadas e difundidas mais amplamente através do mundo – em seu nome”. O poder-dominação é frequentemente um desses elementos. Diante da recusa de seus discípulos em entender seu ensinamento, Jesus, o Servo de Javé, pega uma criança como símbolo de quem deve segui-lo. Não porque criança é sempre santa nem inocente, mas porque é sem-poder, dependente dos adultos em tudo. No tempo de Jesus, criança não tinha direitos e era entre os últimos da sociedade. Seus discípulos são convidados a despojar-se do poder para serem servos, da mesma maneira do que o Mestre, Ele que “não se apegou à sua igualdade com Deus. Pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo, assumindo a condição de servo e tornando-se semelhante aos homens. Assim, apresentando-se como simples homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte da cruz” (Filipenses 2,6-8). O poder em si é um bem para ser usado a serviço dos outros. Todos nós (clero, religiosos, leigos) somos vulneráveis diante da tentação do poder. Levemos a sério o ensinamento de hoje, pois somente pode ser discípulo de Jesus quem procura ser o servo de todos. Evitemos títulos, privilégios e comportamentos que tão facilmente poderão nos afastar do seguimento do Senhor. Que o nosso modelo seja sempre Ele e não a sociedade vigente, onde é o poder que manda. A nossa força vem da Cruz de Jesus, a fraqueza do Deus “que escolheu o que o mundo despreza, acha vil e sem valor, para destruir o que o mundo pensa que é importante” (1 Coríntios 1,28). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

23º Domingo do Tempo Comum

“Jesus faz bem a todas as coisas”Marcos 7,31-37 Os eventos relatados no texto de hoje se situam no território pagão de Tiro e Sidônia (hoje, Líbano). Marcos faz questão de sublinhar o contexto geográfico, talvez para enfatizar a missão aos gentios (pagãos) que marcava sua Igreja. Mais uma vez, estamos diante de um milagre de Jesus que manifesta o poder de Deus que age nele, que causa espanto e alegria entre as testemunhas, e que leva Jesus a proibir que a notícia se espalhe no território. Em si, o relato segue o roteiro de tantos outros: uma pessoa sofrida (neste caso, sofrendo de surdez e incapaz de falar corretamente), a compaixão da parte de Jesus, que o leva a atender ao pedido de uma cura, a cura em si, a proibição de espalhar a notícia (o chamado “segredo messiânico”) e a incapacidade das testemunhas de guardar o segredo. A violação da proibição por parte da multidão traz à tona a questão da verdadeira identidade de Jesus, dando a impressão de que Ele é muito mais do que um simples curador. As palavras que expressam o entusiasmo da multidão diante dele (versículo 37) são tiradas de uma seção apocalíptica de Isaías, sugerindo que, nas atividades de Jesus, o Reino de Deus se faz presente. Mais uma vez, o segredo messiânico em Marcos nos faz perguntar sobre seu sentido. Provavelmente faz parte da insistência de Marcos, de que Jesus é mais do que um taumaturgo ou milagreiro, e que sua verdadeira identidade somente se revelará em sua Cruz e Ressurreição. Pois é somente lá, e não diante dos milagres, que Jesus é proclamado “Filho de Deus” por uma pessoa humana, o oficial que exclamou, ao pé da Cruz, vendo como Jesus havia expirado: “De fato, esse homem era mesmo Filho de Deus” (Marcos 15,39). Para Marcos, uma fé baseada nos milagres é sempre ambígua, pois pode levar ao seguimento de Jesus por motivos errôneos, interesseiros e duvidosos. Para corrigir essa tendência em sua comunidade, ele insiste que só se pode proclamar Jesus com o título messiânico “Filho de Deus” ao pé da Cruz, onde não há lugar para dúvidas, pois só se pode crer na fraqueza de Deus, como diria Paulo, que é mais forte do que a força humana (1 Coríntios 1,25). Um alerta para muitos cristãos hoje. A proclamação das testemunhas que Jesus “fez os surdos ouvir e os mudos falar” alude a Isaías (35,5-6), que faz parte da visão apocalíptica do futuro glorioso de Israel (Isaías, capítulos 34 e 35, relacionado com Isaías, capítulos 40 a 66). O uso aqui desse texto veterotestamentário indica que o futuro glorioso do novo Israel já está presente no ministério de Jesus. Podemos ver um sentido mais simbólico para nossos dias na cura relatada: o de abrir os ouvidos e soltar as línguas. Pois o sistema hegemônico de hoje e os meios de comunicação, frequentemente atrelados e coniventes, procuram, em geral, tapar os ouvidos do povo diante dos gritos dos sofridos; pois fazem questão de camuflar a realidade sofrida de milhões, escondendo a realidade ou banalizando-a, como fica claro na maioria dos noticiários de televisão. Também as forças dominantes deixam cada vez mais os excluídos sem voz: em nossa sociedade materialista e consumista, só pode ter voz ativa quem produz e consome. Diante da surdez e mudez físicas, Jesus cura. O Evangelho e a atividade evangelizadora das igrejas devem ajudar as pessoas para que ouçam o grito dos oprimidos e para que ajudem a devolver a voz àqueles a quem lhes foi tirada. Sete de Setembro é o dia do “Grito dos Excluídos”, uma maneira de as Igrejas e todas as pessoas de boa vontade assinalarem que nossa luta está em favor dos excluídos e menos favorecidos, e que essa atividade não se limita a uma passeata nesse dia somente, mas que é a tônica de nossa ação evangelizadora, retomada com muita força no Documento de Aparecida e em tantos outros documentos do Magistério e da CNBB, e sempre enfatizada nos pronunciamentos e escritos do Papa Francisco. “Jesus fez bem todas as coisas: fez os surdos ouvirem e os mudos falarem!” (vers. 37). Que se possa dizer isso de todas as Igrejas e pastorais. Que ajudemos a devolver a capacidade de ouvir os gemidos dos sofredores a tantas pessoas ensurdecidas pela ideologia dominante e que ajudemos os sem voz a recuperarem a voz ativa nas decisões das Igrejas e da sociedade em geral. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

22º Domingo do Tempo Comum

“Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim”Marcos 7,1-8.14-15.21-23 Para entendermos o alcance do nosso Evangelho de hoje, é necessário compreender o contexto religioso do tempo de Jesus. Entre os elementos-chave na prática religiosa do judaísmo daquela época, estavam os conceitos de “puro” e “impuro”. Em nossa teologia, não é possível cometer um pecado inconscientemente, mas, para o povo do tempo de Jesus, o pecado tinha uma existência quase independente das pessoas. Certos atos, certos lugares, certas profissões tornavam as pessoas impuras, isto é, não aptas para participar do culto, sem primeiro passar pelos ritos de purificação. A seita dos essênios levava a preocupação com a pureza ritual aos extremos. Também os fariseus (cujo nome vem de uma palavra que significa “separados”) davam suma importância à pureza ritual; assim, muitas vezes, impossibilitando o acesso do povo comum ao culto ao Deus da vida. Diante dessa situação, a prática de Jesus era altamente libertadora. Sem se recusar a participar nos ritos tradicionais, pois era judeu piedoso e praticante, Ele entendeu que nada vindo de fora da pessoa é capaz de deixá-la impura. Jesus recuperava a visão dos profetas, que tradicionalmente tinham conclamado o povo para que vivesse a justiça e a prática da vontade de Deus, em lugar de se preocupar primariamente com rituais externos. Jesus reintegrava, assim, as massas pobres, excluídas da vivência comunitária pelas exigências de pureza, impossíveis de serem seguidas na prática pela maioria. Ele voltava a atenção às disposições internas das pessoas, que realmente podiam deixar as pessoas “impuras” diante de Deus: “As más intenções, a imoralidade, os roubos, crimes, adultérios, ambições sem limite, maldade, malícia, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo” (vers. 21 e 22). Assim, Jesus recupera o ensinamento de profetas como o Terceiro Isaías (Isaías 56-66), que, diante das injustiças cometidas por pessoas que viviam na pureza ritual enquanto oprimiam seus irmãos e ainda esperavam a proteção de Deus, denunciava: “O jejum que eu quero é este: acabar com as prisões injustas, desfazer as correntes do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e despedaçar qualquer jugo; repartir a comida com quem passa fome, hospedar em sua casa os pobres sem abrigo, vestir aquele que se encontra nu e não se fechar à sua própria gente” (Isaías 58,6-7). É um desafio hoje examinarmos a realidade de nossa prática religiosa. Sem negar a importância e o papel de celebrações, ritos, rituais e devoções, nosso texto exige de nós, seguidores de Jesus, um sério exame de consciência, para que verifiquemos se a nossa prática religiosa não está frequentemente semelhante à dos fariseus (perfeita nas expressões externas, mas vazia por dentro) ou se é como aquela que os profetas e Jesus propõem, uma religião de prática de solidariedade e justiça, brotando da fé, e coerente com nossa fé no Deus da vida, em que os ritos têm seu lugar, mas como expressão de um verdadeiro compromisso com o Reino de Deus. Que não se torne realidade nossa a denúncia de Jesus diante do legalismo farisaico: “Este povo me honra com os lábios, mas o coração deles está longe de mim” (vers. 6). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

21º Domingo do Tempo Comum

“Tu tens palavras de vida eterna”João 6,60-69 Aqui temos a conclusão do grande discurso sobre o Pão da Vida. Mais uma vez, O Evangelho de João deixa claro que, diante de Jesus e de suas palavras, o ouvinte tem de tomar uma decisão radical. Os versículos de nosso texto não escondem o fato de que nem todos conseguem optar por Jesus. As primeiras palavras de hoje, “depois de ter ouvido isso”, demonstram que a divisão nasceu a partir de algum ensinamento de Jesus, sem explicitar o motivo exato da discussão. As preocupações comunitárias dos versículos anteriores, a afirmação de Jesus, de que Ele dá seu corpo como pão da vida, e o fato de que o texto se dirige aos discípulos indicam que provavelmente foi o discurso eucarístico a fonte de divisão. Porém a afirmação de Jesus, de que Ele “dá a vida” (o que causou já uma divisão em 5,19-47) e a identificação de sua palavra reveladora com “o pão vindo do céu”, na primeira parte do discurso, talvez tenham criado a controvérsia. De qualquer maneira, é importante notar que a divisão não se dá entre “os judeus”, no sentido das autoridades judaicas, mas entre os próprios discípulos, muitos dos quais abandonam Jesus nesse momento. Sem dúvida, essa história reflete a experiência da comunidade do Discípulo Amado na década de 90 do primeiro século, quando estava sentindo na pele as dores de divisão, pois muitos de seus membros a estavam abandonando (essa divisão é o pano do fundo das três cartas joaninas). É muito interessante a reação de Jesus diante do abandono da maioria de seus discípulos. Ele não arreda o pé, mas, com toda a calma, até convida os Doze para saírem se não podem aceitar sua Palavra. Jesus não se preocupa com números, mas com a fidelidade ao Pai. Talvez até fique sozinho, mas não vai diluir em nada as exigências do seguimento da vontade do Pai. Um exemplo importante para nós, pois, muitas vezes, caímos na tentação de julgar o êxito pelos números: igrejas cheias indicam sucesso. Mas nem sempre é assim. É mais importante ser coerente com o Evangelho, custe o que custar, do que “fazer média” com a sociedade, às vezes, por uma pregação tão insossa que reduz a religião a mero sentimentalismo, sem consequências sociais. Devemos cuidar de não interpretar erradamente as palavras de Jesus no versículo 63, quando diz que “É o Espírito que vivifica, a carne para nada serve”. Às vezes, usa-se essa frase (e outras de João) para justificar uma religião dualista, na qual tudo o que é “espírito” é bom e tudo o que é material é do mal. Aqui João não distingue duas partes do ser humano, mas duas maneiras de viver. A “carne” é a pessoa humana entregue a si mesma, incapaz de entender o sentido profundo das palavras e dos sinais de Jesus; o “espírito” é a força que ilumina as pessoas e abre seus olhos para que possam entender a Palavra de Deus que se pronuncia em Jesus. Diante do desafio de Jesus, Pedro resume a visão dos que percebem no Senhor algo mais do que um mero pregador. A quem iriam? Só Jesus tem as palavras de vida eterna. Declaração atual, pois é moda na nossa sociedade (até entre muitos católicos praticantes) de correr atrás de tudo o que é novidade: supostas aparições, videntes, esoterismo, religiões orientais, gnosticismo e tantas outras propostas, às vezes até esdrúxulas, enquanto se ignora a Palavra de Deus nas Escrituras. O texto nos convida a nos examinarmos, a verificarmos se estamos realmente buscando a verdade onde ela se encontra, ou se a deixamos de lado, achando (como a multidão no texto) que o seguimento de Jesus “é duro demais”. No meio de tantas propostas de vida, estamos convidados a reencontrar a fonte da verdadeira felicidade e da verdadeira vida, fazendo a experiência de Pedro, que descobriu que Jesus “tem palavras de vida eterna”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

19º Domingo do Tempo Comum

“Quem come deste pão viverá para sempre”João 6,41-51  Nesse texto, nós nos encontramos no meio do discurso de Jesus sobre o “Pão da Vida”. O gancho que João usa para pendurar a fala é o pedido dos judeus no versículo 35: “Senhor, dá-nos sempre desse pão”. Em resposta, Jesus começa sua grande alocução. Divide-se em duas partes. Na primeira (vers. 35-50), que inclui o texto de hoje, o pão celestial que nos nutre é a revelação ou o ensinamento de Jesus (o tema sapiencial); na segunda parte (vers. 51-58), será a Eucaristia (tema sacramental). O redator da comunidade joanina combinou “o pão do céu” com o material eucarístico da Última Ceia, e assim formou a segunda parte do discurso como texto paralelo à primeira. Isso explica a ausência de um relato da instituição da Eucaristia nos textos da Ceia em João, pois seu conteúdo básico foi colocado aqui. Como seus antepassados murmuravam no deserto contra o pão que Deus mandava (o maná), agora eles se queixam do novo maná. Aqui logo aparece uma característica do João, a ironia. Os judeus (aqui se entendem as autoridades judaicas e não o povo judeu) dizem que conhecem a origem de Jesus, pois só pensam em sua família de origem. Jesus mostra que, na verdade, não a conhecem, pois eles não viram o Pai, sua verdadeira origem. Aqui também aparece, no versículo 47, mais uma característica joanina, a “escatologia realizada”. Enquanto, para os Sinóticos, o juízo é algo que se dá no último dia, para João, frequentemente, já aconteceu, pois a pessoa é salva ou condenada já, por sua aceitação ou não de Jesus como o Filho de Deus. Aqui, de novo, João nos dá o que talvez seja uma variante das palavras da instituição da Eucaristia: “O pão que eu vou dar é a minha própria carne, para que o mundo tenha a vida” (vers. 51). João enfatiza que o Verbo Divino se tornou carne e tem entregado sua carne como alimento da vida eterna. O texto não é fácil, pois é extraído de um discurso muito mais comprido e que forma uma unidade. Mas está ligado, no capítulo 6, à multiplicação dos pães. A participação eucarística no Corpo e Sangue de Jesus exige uma vivência de partilha e solidariedade. Esse tema é caro a João e é retomado em sua Primeira Carta. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

17º Domingo do Tempo Comum

“Pegou os pães, agradeceu a Deus e os distribuiu”João 6,1-15 A liturgia de hoje interrompe as leituras do Evangelho de Marcos e insere um trecho tirado do capítulo sexto de João, o que comumente chamamos o milagre da “multiplicação dos pães”. Logo, vale lembrar que esse é o único milagre contado pelos quatro evangelhos, tanto pela tradição sinótica como da comunidade do Discípulo Amado. Isso mostra claramente que, para as primeiras comunidades cristãs de diversas tradições, a história hoje relatada tinha um grande valor e uma mensagem muito importante. Os quatro relatos seguem basicamente o mesmo fio da meada, com as divergências próprias a cada tradição e teologia. O enfoque mais “sacramental” ou “eucarístico” é de João, mostrando, mais uma vez, uma das características da comunidade do Discípulo Amado: a de ter uma teologia eucarística mais desenvolvida. Embora seja um dos relatos mais conhecidos dos evangelhos, vale a pena sublinhar um elemento que talvez possa parecer estranho: embora nós sempre nos refiramos ao milagre da “multiplicação dos pães”, em nenhum dos quatro relatos, usa-se o verbo “multiplicar”. Usam-se outros termos nos quatro evangelhos: “pegar”, “benzer”, “distribuir”, “partilhar”. Não é o caso de discutir aqui o que foi que Jesus fez! Nem teríamos condições de descobrir. O enfoque é outro. Se os evangelistas tivessem colocado a ênfase sobre o “multiplicar”, ou seja, sobre o estritamente milagroso, então a história não teria grandes consequências para nós hoje, pois nós não temos o poder de fazer milagres. Mas, colocando a ênfase sobre o “partilhar” e o “distribuir”, os evangelistas nos desafiam hoje. Pois as ações de partilhar e distribuir estão a nosso alcance. No Brasil, com tanta gente assolada pela injustiça e miséria, não precisamos multiplicar nada. O Brasil não precisa multiplicar terras (somos um dos maiores países do mundo) nem precisa multiplicar a renda (somos uma das maiores potências econômicas do mundo). Não! O que precisamos é de uma partilha e uma redistribuição das terras e da renda. O que precisamos é uma mudança de mentalidade, de coração e das estruturas, e não milagres paliativos. A história de João e dos outros evangelistas insiste que a solução para a carência se acha na solidariedade, na partilha e na redistribuição, a partir de nossa fé no Deus da Vida. Outro elemento importante no relato joanino do evento é a atuação do menino que tinha cinco pães de cevada e dois peixinhos, era seu lanche. Mesmo sendo suficiente somente para ele, o jovem dispõe dos pães e peixes, por meio de André. Esse gesto de partilha, abençoado por Jesus, faz com que todos se fartem. O relato ressalta que foram pães de cevada, a comida do pobre. Também aqui há uma releitura de um evento na vida do profeta Eliseu, que também “multiplicou” pães de cevada (2 Reis 4,42-44). Sem a colaboração desse rapaz simples, oferecendo o pouco que tinha, Jesus não poderia ter alimentado essas pessoas. Assim, o texto nos desafia a descobrirmos quais são os “cinco pães de cevada” que cada um tem e a colocá-los a serviço da comunidade. Quando todos partilham o pouco que têm, sobrará. Quando cada um que tem algo o segura para si, falta para muitos. Já mencionamos que João, colocando o relato no capítulo sexto, no qual há o discurso do Pão da Vida, focaliza o aspecto eucarístico. Participar da Eucaristia é comprometermo-nos com o mundo de solidariedade e partilha, onde os bens materiais (mais do que suficientes) serão distribuídos e partilhados, criando, assim, de uma maneira real entre nós, o Reinado de Deus. Como diz um canto de comunhão, “Comungar é tornar-se um perigo, viemos pra incomodar”. A mensagem da “multiplicação” dos pães incomoda, e muito, pois aponta para as consequências da nossa participação na Eucaristia. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

4º Domingo da Páscoa

“O bom pastor se despoja da própria vida por suas ovelhas”João 10,11-18 Hoje é o dia Mundial de Oração pelas Vocações, ou “Domingo do Bom Pastor”. O texto de hoje nos demonstra a compreensão que a comunidade do Discípulo Amado tinha da paixão, morte e ressurreição de Jesus. A imagem escolhida é a do “pastor”, uma imagem muito usada nos escritos do Antigo Testamento (Salmo 40,11; Ezequiel 34,15; 37,24; Eclesiástico 18,13; Zacarias 11,17, etc.). Algumas vezes, é aplicada ao próprio Deus (Salmo 23,1; Isaías 40,11; Jeremias 31,9); outras, ao futuro rei messiânico (Salmo 78,70-72; Ezequiel 37,24); e outras, aos líderes político-religiosos de Israel (Jeremias 2,8; 10,21; 23,1-8; Ezequiel 34). Também os evangelistas sinóticos usaram-na bastante (Marcos 6,34; 14,27; Mateus 9,36; 18,12-13; 25,32; 26,31; Lucas 15,3-7). Jesus é realmente pastor, pois Ele, o Filho do Homem, participa da condição humana, inclusive da morte, para nos conduzir à vida eterna. A palavra grega aqui usada para “bom”, “kalos”, significa “ideal” ou “nobre”, e não somente eficiência em sua função. Assim é Jesus, pois livremente despoja-se de sua própria vida para salvar a vida do seu rebanho. O texto contrasta a ação de Jesus com a atuação dos pastores mercenários, que não defendem o rebanho, mas somente cuidam dos próprios interesses. Aqui o texto está enraizado na tradição profética de Ezequiel (capítulo 34, o qual vale a pena ler) que condenava os “maus pastores” do povo de Deus: os líderes religiosos e políticos de seu tempo (antes do Exílio e nos anos entre a primeira deportação para Babilônia e a destruição de Jerusalém, em 587 a.C.), que somente exploravam o povo para o seu próprio proveito, abandonando-o nas horas de maior necessidade. Quanta coisa do tempo de Ezequiel e de Jesus pode ser aplicada quase que diretamente a muitos líderes políticos (e, às vezes, religiosos) de nossos tempos. O trecho destaca o verbo “conhecer”: Jesus conhece suas ovelhas como conhece o Pai e é conhecido pelo Pai. “Conhecer”, na linguagem bíblica, não significa um saber intelectual, mas implica um relacionamento íntimo de amor e solidariedade. O conhecimento que Jesus tem de seus discípulos nasce e se plenifica no amor que existe entre o Pai e o Filho. Não é um amor só de emoções ou sentimentos, mas um amor exigente, de assumir o outro até o ponto de doar a vida. Assim, a morte na Cruz (assumida livremente por Jesus) é a expressão suprema desse amor. O amor não pode se restringir aos irmãos e irmãs da comunidade. A utopia proposta por Jesus é da união entre todos “os seus”. Aqui, talvez haja uma referência às outras comunidades não joaninas do tempo do escrito, mas também podemos aplicar o texto à missão universal da Igreja: a de colaborar na realização do Reino de Deus, pois todos os povos do mundo, sem distinção de raça, cor, cultura ou religião, são misteriosamente ligados a Jesus, morto e ressuscitado. Não devemos imaginar esse sonho como um crescimento da Igreja visível até que toda a humanidade faça parte dela, mas muito mais como a realização do pedido do Pai-nosso, “Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no Céu”, em que se procura o bem, a justiça e a fraternidade, mesmo fora da Igreja visível, onde se realiza o Reino, ou Reinado, de Deus. Como seguidores do Bom Pastor, também somos convidados à vivência desse mesmo amor que exige o despojo da própria vida. Isso não implica necessariamente a morte física, mas a morte ao egoísmo e a todos os “ismos” que nos dividem, seja por causa do gênero, raça, cor, classe ou cultura. Onde há luta em defesa da vida, lá existe a missão do Bom Pastor. Ele que veio “para que todos tenham a vida e a tenham plenamente!” (João 10,10). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Domingo de Ramos

“Bendito seja aquele que vem em nome do Senhor!”Marcos 11,1-11 Uma das grandes festas religiosas na tradição popular brasileira é a celebração da entrada de Jesus em Jerusalém, no Domingo de Ramos. Organizam-se procissões, o povo abana ramos, e pessoas que dificilmente pisam em uma igreja nos domingos comuns hoje fazem questão de não perder a celebração. Tudo isso tem o potencial de ser muito positivo, mas, para não reduzirmos a comemoração a mero folclore ou teatro, acredito ser importante aprofundar, com base em textos bíblicos, o que significava esse evento para Jesus e para o evangelista. Talvez nosso entendimento da passagem (como de outros textos) é dificultado pela nossa pouca familiaridade com o Antigo Testamento. Para que entendamos bem o sentido do gesto profético de Jesus nesse evento, seria bom relembrar um trecho do profeta Zacarias (9,9-10): “Dance de alegria, cidade de Sião; grite de alegria, cidade de Jerusalém, pois agora o seu rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado num jumento, num jumentinho, filho de uma jumenta… Anunciará a paz a todas as nações, e o seu domínio irá de mar a mar, do rio Eufrates até os confins da terra”. Esse era um trecho muito importante na espiritualidade do grupo conhecido como os anawim, na língua hebraica, ou “os pobres de Javé”, que esperavam ansiosamente a chegada do Messias libertador. Herdeiros dessa espiritualidade e esperança seguramente estavam Maria e José, e os discípulos e discípulas de Jesus. O Senhor foi educado dentro dessa espiritualidade. Zacarias traçava as características do verdadeiro messias: seria um rei, mas um rei “justo e pobre”; não um rei de guerra, mas de paz. Estabeleceria uma sociedade diferente da sociedade opressora do tempo de Zacarias (e de Jesus, e de nós), onde poderosos e ricos oprimiam os pobres e pacíficos. Um rei jamais entraria em uma cidade montado em um jumento (o animal do pobre camponês), mas em um cavalo branco, de raça. Então Jesus, fazendo sua entrada assim, faz uma releitura do profeta Zacarias e se identifica com o rei pobre, da paz, da esperança dos pobres e oprimidos. Por isso, muitas vezes, perdemos totalmente o sentido da entrada de Jesus em Jerusalém. Celebramos o evento como se fosse a entrada de um presidente ou governador dos nossos tempos: de pompa, imponência e demonstração de poder e força. Parece muito mais ligado à prepotência de um déspota ou imperialista do que à figura de Jesus. O contrário do que significava o que Jesus fez. Chamamos o evento da “entrada triunfal de Jesus em Jerusalém”, e realmente foi uma entrada triunfal, mas como triunfo de Deus, que se encarnou entre nós como o Servo Sofredor, o triunfo da vida, morte e ressurreição de Jesus. De fato, naquele dia, havia duas procissões entrando em Jerusalém. Primeiro, pelo portão ocidental, a de Pôncio Pilatos, representante do imperador, que chega de Cesareia Marítima com uns cinco mil soldados legionários. Podemos imaginar a impressão causada: milhares de soldados com espadas, elmos e escudos brilhando no sol, trombetas tocando e Pilatos montado num cavalo de raça branco, para demonstrar o poderio de César, o opressor do povo. À tarde, entrou pelo portão oriental uma pequena procissão, de um camponês pobre, Jesus de Nazaré, montado num jumentinho com seu séquito de pobres e estropiados. O anti-Rei, diante do poder opressor de César. Nada mais longe do sentido original desse evento do que manifestações de poderio e pompa, mesmo (ou especialmente) quando feitas em nome da Igreja e do Evangelho de Jesus. O texto de hoje convida a todos nós a revermos nossas atitudes. Seguimos Jesus, mas será que é o Jesus real, o Jesus de Nazaré, o Jesus rei dos pobres e humildes, o Jesus cumpridor da profecia de Zacarias? Ou inventamos um outro Jesus, poderoso nos moldes da nossa sociedade, com força, poder e prestígio, conforme o mundo entende esses termos? É valiosa a advertência contida em um canto muito usado nas celebrações de hoje: “Eles queriam um grande rei, que fosse forte, dominador. E por isso não creram nele e mataram o Salvador”. Realmente, acreditamos no rei dos pobres e oprimidos ou só fazemos um folclore bonito no Dia de Ramos, totalmente desvinculado da mensagem verídica e profunda do profeta Zacarias e do Evangelho de hoje? Acreditamos na força do direito (Jesus e seu projeto de vida) ou no direito da força (tantos poderosos do cenário mundial com o seu projeto de morte)? Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

5º Domingo da Quaresma

“Se alguém quer servir a mim, que me siga!”João 12,20-33 O texto de hoje traz muitos elementos que têm eco nos textos sinóticos. Até uma leitura rápida vai trazer lembranças de seus textos sobre o seguimento de Jesus; por exemplo, Lucas (9,22-25): “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz cada dia e me siga”, entre outros. João faz uma redação conforme sua teologia e enfatiza que o seguimento de Jesus se dá no serviço a ele, ou seja, na luta em favor de seu projeto. Todo o Evangelho de João manifesta que o serviço a Jesus se dá no serviço aos irmãos e irmãs. Não é possível servir Jesus sem se colocar a serviço dos outros, especialmente dos mais sofridos. Pois o projeto de Jesus de fidelidade ao Pai vai custar-lhe a vida, Ele será como o grão do trigo que, se não cai na terra e não morre, fica sozinho; “mas, se morrer, produz muito fruto” (vers. 24). Não que Jesus quisesse a morte e o sofrimento, mas são inerentes no seguimento do projeto do Pai, por causa da oposição garantida de grupos de interesse da sociedade do seu (e do nosso) tempo, e, apesar das aparências, não levam à derrota, mas à vitória. Jesus não veio para ser triunfalista, mas para dar a vida em favor de todos. Essa visão que Jesus tinha da missão do Messias não era a comum. Em geral, as pessoas daquele tempo esperavam um messias triunfante, glorioso e guerreiro. A Bíblia nos conta que Deus criou o homem e a mulher à sua imagem e semelhança; mas, na verdade, muitas vezes, nós criamos Deus à nossa imagem e semelhança, para que Ele não nos incomode. A nossa tendência é de querer vencer e nos impor, de seguir um messias triunfante e não o Servo Sofredor. Mas, para Jesus, não há meio-termo. O discípulo tem de andar nas pegadas de seu mestre: “Se alguém quer servir a mim, que me siga” (vers. 26). O seguimento de Jesus leva à cruz, pois a vivência das atitudes e opções dele vai nos colocar em conflito com os poderes contrários ao Evangelho. Mas é importante compreender o sentido de “carregar a cruz”. Não é aguentar qualquer sofrimento. Se fosse assim, a religião seria masoquismo! Carregar a cruz é viver as consequências de uma vida coerente com o projeto do Pai, manifestado em Jesus. Segui-lo não é tanto fazer o que Jesus fazia em sua época e situação social e cultural, mas o que Ele faria se estivesse aqui hoje, diante dos desafios de nossa sociedade, convivência e situação concreta. Isso o levou a ser assassinado, não pelo povo, mas por grupos de interesse bem claros, “os anciãos, os chefes dos sacerdotes e os doutores da Lei” (a elite dominante em termos econômicos, religiosos e ideológicos), e, do mesmo jeito, seus seguidores entrarão em conflito com os grupos que hoje representam os mesmos interesses dos oponentes de Jesus, sejam eles sociopolíticos, econômicos ou religiosos (normalmente tudo vem misturado!). Por isso, sempre haverá a tentação de criarmos um Jesus “light”, sem grandes exigências, limitado a uma religião intimista e individualista, sem consequências sociais, políticas, econômicas ou ideológicas. Seria cair na tentação de Pedro, conforme o relato sinótico, quando rejeita o seguimento de um Messias que dará sua vida (Marcos 8,32). Mas que Jesus queremos seguir? A resposta se dará não tanto com os lábios, mas com as mãos e os pés. Respondemos quem é Jesus para nós por nossa maneira de viver, por nossas opções concretas, por nossa maneira de ler os acontecimentos da vida e da história. Tenhamos cuidado com qualquer Jesus que não seja exigente, que não traz consequências sociais, que não nos engaja na luta por uma sociedade mais justa. Há pouco tempo, fiquei triste ao ouvir uma senhora que tinha deixado a Igreja Católica para aderir a uma Igreja da teologia de prosperidade (na verdade, uma empresa multinacional) e exclamar “Agora achei o Jesus que eu queria”. Sem dúvida, o Jesus que ela queria, mas não o Jesus real! Pois o Jesus real, Jesus de Nazaré, o Jesus do Evangelho, não foi assim e deixou bem claro: “Quem tem apego à sua vida vai perdê-la; quem despreza sua vida neste mundo vai conservá-la para a vida eterna” (vers. 25). É claro que aqui se usa um semitismo (o contraste com o “apegar-se” é expresso no verbo “desprezar”, o que significa “amar menos”). Essa opção é difícil. Embora João não relate a agonia no Horto, ele expressa a mesma realidade quando Jesus diz “Estou perturbado” (vers. 27). Mas o Pai lhe deu força, como dará a quem faz a opção real pelo Reino, no seguimento de Jesus, no serviço aos irmãos e irmãs, na construção de uma sociedade, Igreja e comunidade sem exclusões, onde todos tenham a possibilidade de ter a dignidade e vida plena dos filhos e filhas de Deus e de cidadãos da sociedade. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Política de Privacidade

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações de cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.

Mais informações sobre: Política de Privacidade