Festa da Sagrada Família

“Por que me procuravam? Não sabem que eu devo estar na casa do meu Pai?”Lucas 2,41-52 Na Igreja Católica, hoje é celebrada a Festa da Sagrada Família. Portanto o trecho de Lucas põe em relevo os três membros da família de Nazaré, mas tem como seu tema principal um ensinamento sobre quem é Jesus, sua relação com o Pai e com sua família humana. A história começa enfatizando a identidade da família humana de Jesus como judeus piedosos. Os regulamentos sobre as peregrinações ao Templo de Jerusalém, para a festa da Páscoa, encontram-se em Êxodo 23,17; 34.23; Levítico 23,4-14. Como consequência, entendemos que o ambiente em que Jesus cresceu (e no qual descobriu sua vocação e missão) é aquele dos “pobres de Javé”, os devotos que esperavam a libertação de Israel, por meio da vinda do Messias davídico prometido. Essa viagem prefigura a grande viagem de Jesus a Jerusalém em Lucas 9,51 a 19,27, que Ele fará com seus discípulos e na qual revelará, por palavras e ações, seu relacionamento com o Pai, prefigurado aqui no versículo 49. O texto salienta certas atitudes de Jesus. É bom prestar bem atenção aos verbos. Lucas diz que Jesus estava no Templo entre os doutores: “escutando e fazendo perguntas” (vers. 46). A atitude de Jesus é a de um aluno muito inteligente e não de um mestre (Ele não está “ensinando no Templo”, como muitas vezes dizemos em nossas tradições). Aqui Lucas antecipa para os doze anos o que realmente ocorrerá mais tarde, quando Jesus realmente ensina no Templo e sofre a rejeição e a perseguição por parte dos doutores de Lei e dos sumos sacerdotes. O ponto central do texto se acha em versículo 49: “Por que me procuravam? Não sabiam que eu devo estar na casa do meu Pai?”. Aqui Lucas relata as primeiras palavras de Jesus em seu Evangelho. Agora não é Gabriel nem Zacarias, nem Maria quem diz quem é Jesus, mas Ele mesmo. A palavra que traduzimos como “devo”, em grego “dei”, transmite o tema de “necessidade”, que aparece 18 vezes no Evangelho e, nos Atos dos Apóstolos, 22 vezes, e “expressa um senso de compulsão divina, frequentemente visto como obediência a uma ordem da Escritura ou profecia, ou na conformidade de eventos com a vontade de Deus. Aqui a necessidade consiste no relacionamento inerente de Jesus com Deus, que exige obediência” (Marshall, The Gospel of Luke). No versículo 50, fica claro que seus pais não entendem que o relacionamento de Jesus com o Pai celeste tomava precedência sobre sua relação com eles: “Eles não compreenderam o que o menino acabava de lhes dizer”. A “espada”, a dor de sentir esse distanciamento sem poder compreendê-lo e da que falou Simeão em 2,35, já começa a aparecer. Maria não compreende plenamente (retomando o tema do vers. 19) e tem de continuar sua caminhada de fé, meditando sobre o sentido e identidade de seu filho. Fato encorajador para nós. Quantas vezes acontecem coisas em nossas vidas que não compreendemos e nelas nem conseguimos ver a vontade de Deus? A exemplo de Maria e José, aceitemos essa escuridão, continuemos a caminhada, mas nunca deixemos, com atitude de oração de contemplação, de “conservar em nosso coração todas essas coisas”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.Pe. Tomaz Hughes, SVD

4º Domingo do Advento

“Bendito o fruto do seu ventre!”Lucas 1,39-45 Para entender bem a finalidade de Lucas em relatar os eventos ligados à concepção e nascimento de Jesus, é essencial conhecer algo de sua visão teológica. Para ele, o importante é acentuar o grande contraste e também a continuidade entre a Antiga e a Nova Aliança. A primeira está retratada nos eventos que giram ao redor do nascimento de João Batista e tem seus representantes em Isabel, Zacarias e João; a segunda está nos relatos em torno do nascimento de Jesus, com as figuras de Maria, José e Jesus. Para Lucas, a Antiga Aliança está esgotada. Seus símbolos são Isabel, estéril e idosa; Zacarias, sacerdote que não acredita no anúncio do anjo; e o nenê que será um profeta, figura típica do Antigo Testamento. Em contraste, a Nova Aliança tem como símbolos a virgem jovem de Nazaré que acredita e cujo filho será o próprio Filho de Deus. Mais adiante, Lucas enfatiza esse contraste nas figuras de Ana e Simeão, no Templo (Lucas 2,25-38), quando Simeão reza: “Agora, Senhor, conforme a tua promessa, podes deixar o teu servo partir em paz, porque meus olhos viram a tua salvação” (2,29). Assim, não devemos reduzir o texto de hoje a um relato que pretende mostrar a caridade de Maria em cuidar da sua parente idosa e grávida. Se a finalidade de Lucas fosse mostrar Maria como modelo de caridade, não teria colocado o versículo 56, que mostra ela deixando Isabel na hora de maior necessidade, “Maria ficou três meses com Isabel e depois voltou para casa”, antes do nascimento de João. Também não é verossímil que uma moça judia de mais ou menos 14 anos enfrentasse uma viagem tão perigosa como a da Galileia à Judeia. A intenção de Lucas é literária e teológica. Ele coloca juntas as duas gestantes para que ambas possam louvar a Deus por sua ação em suas vidas e para que fique claro que o filho de Isabel é o precursor do filho de Maria. Por isso Lucas tira Maria de cena antes do nascimento de João, para que cada relato tenha somente suas personagens principais: de um lado, Isabel, Zacarias e João; do outro, Maria, José e Jesus. O fato de que a criança “se agitou” no ventre de Isabel faz recordar algo semelhante na história de Rebeca, quando Esaú e Jacó “pulavam” em seu ventre, na tradução, da Septuaginta, de Gênesis 25,22. O contexto, especialmente o versículo 43, salienta que João reconhece que Jesus é seu Senhor. Com a iluminação do Espírito Santo, Isabel pode interpretar a “agitação” de João em seu ventre: é porque Maria está carregando o Senhor. As palavras referentes a Maria, “Você é bendita entre as mulheres, e bendito é o fruto do seu ventre” (vers. 42), fazem lembrar mais duas mulheres que, no Antigo Testamento, ajudaram na libertação de seu povo: Jael (Juízes 5,24) e Judite (Judite 13,18). Aqui, Isabel louva a Maria, que traz no ventre o libertador definitivo de seu povo. Finalmente, vale destacar o motivo pelo qual Isabel chama Maria de “bem-aventurada” (vers. 45): “Bem-aventurada aquela que acreditou”. Maria é bendita, em primeiro lugar, não por sua maternidade somente, mas pela fé; em contraste com Zacarias, que não acreditou. Assim, Lucas apresenta Maria principalmente como modelo de fé. Notemos que, neste capítulo primeiro, nós encontramos frases que podem fundamentar uma compreensão correta da visão bíblica da pessoa e função de Maria, que pode unir, em lugar de dividir, cristãos das diversas confissões: “Ave, Maria” (1,28), “Cheia de graça” (1,28), “O Senhor é convosco” (1,28), “Bendita sois vós entre as mulheres” (1,42), “Bendito o fruto do vosso ventre” (1,42). Lucas nos apresenta a Mãe do Senhor como modelo de fé para todos nós! Benditos somos nós se realmente acreditarmos na Palavra de Deus! Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

3º Domingo do Advento

“Ele é quem batizará vocês com o Espírito Santo e com fogo”Lucas 3,10-18 A passagem trata da pregação de João Batista, que “Percorria toda a região do rio Jordão, pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados” (vers. 3). O início do texto (vers. 10 a 14, que constam somente em Lucas) mostra bem sua teologia e contexto: não são os líderes religiosos que estão prontos para arrepender-se, mas o povo comum e até pessoas que estão à margem da sociedade, como cobradores de impostos e soldados. Mais adiante, no Evangelho, são essas as pessoas que responderão positivamente diante da pregação do próprio Jesus. Escrevendo para as comunidades pelos anos 80 a 85 d.C., Lucas quer lembrar aos cristãos que eles também devem estar abertos para achar sinceridade e bondade fora das vias “aceitáveis”, como o fizeram João e Jesus. A frase lapidar do trecho é a pergunta que os diversos grupos formulam a João: “O que devemos fazer?”. Essa interrogação aparece mais vezes no Terceiro Evangelho, em Lucas 10,25 (na boca de um doutor da Lei) e 18,18 (uma pessoa importante); e também nos Atos dos Apóstolos 2,37 (os judeus, depois da pregação do Pedro), 16,30 (o carcereiro gentio de Filipos), 22,10 (Saulo, o perseguidor). Usando esse artifício, Lucas quer salientar que é uma pergunta que constantemente tem de ser feita durante nossa caminhada. Não há cristão que possa se dispensar de fazê-la sempre, por achar que já sabe a resposta. É interessante que João, embora uma pessoa de cunho fortemente ascético, não exige sacrifícios ou práticas religiosas, como jejum e abstinência. Ele enfatiza uma exigência muito mais radical, que atinge o cerne de nosso ser: uma preocupação com os mais pobres, manifestada na busca de justiça e solidariedade. As Campanhas da Fraternidade seguem essa linha de João, pois, muitas vezes, é mais fácil abster-se de uma carne ou uma bebida do que engajar-se na luta por um mundo melhor. Esse trecho traz à tona, mais uma vez, um dos temas principais do Evangelho de Lucas: o uso correto dos bens materiais. No fundo, João aqui prega antecipadamente o que, mais tarde, Jesus vai ensinar: a partilha dos bens com as pessoas que sofrem necessidades, a justiça nos relacionamentos econômicos e políticos, a conversão que se manifesta numa mudança radical da vida. A segunda parte da passagem insiste que João é inferior a Jesus. João batiza com água como agente de purificação, mas Jesus usará a força purificadora maior do Espírito Santo e do fogo. Lucas vai mostrar em Atos dos Apóstolos, capítulo 2 (na história de Pentecostes), como o fogo do Espírito Santo cumpre sua missão nas pessoas. O texto termina com a declaração de que “João anunciava, de muitos outros modos, a Boa Notícia ao povo” (vers. 18). O que João prega é tão semelhante ao que Jesus pregará e que também merece ser tachado de “Boa Notícia”. A boa notícia da chegada da misericórdia e da salvação de Deus, de uma forma gratuita, mas que exige resposta decidida de cada pessoa. É a crise existencial do mundo todo: aceitar ou rejeitar a salvação oferecida gratuitamente em Jesus. Para Lucas, essa decisão tem de ser renovada sempre, por meio da pergunta “O que devemos fazer?”, enquanto continuamos andando “pelo caminho”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

2º Domingo do Advento

“Esta é a voz de quem grita no deserto: preparem o caminho do Senhor”Lucas 3,1-6 Atrás das informações históricas deste texto, referentes às autoridades seculares e religiosas que teriam influência nos primórdios do cristianismo, jaz a realidade trágica da resposta negativa deles à Palavra de Deus e a seus mensageiros: João, o Batista, e Jesus, o Cristo. Na pessoa de Pôncio Pilatos, a autoridade romana vai agir na decisão de assassinar o Messias; entre os governantes da Palestina, Herodes Antipas aparece diversas vezes no Evangelho, sempre com juízo negativo, e será o responsável pela morte de João, além de estar presente no sofrimento de Jesus na Semana Santa; Anás (sumo sacerdote de 6 a 15 d.C.) e seu genro Caifás (sumo sacerdote de 18 a 37 d.C.) só funcionam porque os romanos permitem e realmente são a estes que servem. Os sumos sacerdotes sempre serão hostis a Jesus e à sua pregação e, no fundo, são eles os responsáveis por sua morte. No meio desse elenco de poderosos corruptos e perseguidores, Deus manda João Batista como arauto do novo tempo de graça e salvação. Deus não permite que a perversidade e a maldade tenham a palavra final na história da humanidade. Esta será, mais tarde, a mensagem básica do Apocalipse: o mal já é um derrotado e, embora possa parecer diferente, é Deus e não a maldade que controla a caminhada da história. Mensagem de conforto às comunidades sofridas do fim do primeiro século. Mas essa vitória não se concretiza sem que haja luta, sacrifício, e cruz! Lucas põe na boca de João um trecho de Isaías (40,3-5): Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparem o caminho do Senhor, endireitem as suas estradas. Todo vale será aterrado, toda montanha e colina serão aplainadas, as estradas curvas ficarão retas, e os caminhos esburacados serão nivelados. E todo homem verá a salvação de Deus (Lucas 3,4-6). Sem dúvida, podemos entender esse trecho com sentido metafórico, como descrição de uma mudança radical no estilo de vida de quem quer aceitar o convite à penitência e ao arrependimento. Os vales a serem aterrados, as montanhas e colinas a serem aplainadas, os caminhos esburacados a serem nivelados simbolizam os empecilhos em nossas vidas a um seguimento mais radical e coerente de Jesus. Quem aceita sua mensagem terá de mudar radicalmente (isto é, na raiz) sua vida. O Advento, embora não seja tempo de penitência no sentido que a Quaresma o é, torna-se tempo oportuno para uma revisão de vida, para descobrir quais são as curvas, as montanhas e as pedras que teremos de tirar para que o Senhor realmente possa habitar em nossos corações. O Papa Francisco indica um elemento a ser vivido mais profundamente na vida individual de todo cristão e na comunidade da Igreja: a misericórdia, tema tão caro ao autor do Terceiro Evangelho, e algo que, muitas vezes, falta em nossas relações, em todos os níveis. O último versículo, “E todo homem verá a salvação de Deus” (vers. 6), faz eco ao tema lucano da universalidade da salvação, usando essa frase que não se encontra no texto paralelo de Marcos (1,3). Ninguém é excluído da mensagem e da oferta da salvação. Mas a resposta depende de cada um de nós! Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

33º Domingo do Tempo Comum

“O céu e a terra passarão, mas minhas palavras não passarão”Marcos 13,24-32 O texto deste domingo nos apresenta diversas dificuldades de interpretação, pois está saturado com conceitos apocalípticos, referências veladas a possíveis eventos históricos e outras tiradas de escritos do tempo do Antigo Testamento, muitas das quais desconhecidas para nós. Porém sua mensagem central fica clara: o triunfo final do Filho do Homem, mandado por Deus para estabelecer seu Reino. A linguagem veterotestamentária de sinais cósmicos, a figura do Filho do Homem e a reunião dos eleitos de Deus são unidas em um contexto novo, em que a vinda escatológica de Jesus como Filho do Homem se torna o evento central. Sua vinda gloriosa, no fim dos tempos, servirá como prova da vitória de Deus, e a expectativa dessa chegada serve como base da vigilância paciente recomendada aos discípulos ao longo de todo o Discurso Escatológico de Marcos. Os sinais cósmicos que antecederão o fim fazem referência a textos do Antigo Testamento: Isaías 13,10, Ezequiel 32,7; Amós 8,9; Joel 2,10.31; 3,1-5; Isaías 34,4; Ageu 2,6.21. Mas em nenhum lugar no Antigo Testamento se refere à vinda do Filho do Homem, é uma novidade do Evangelho. A lista desses sinais é uma maneira de dizer que toda a criação assinalará sua vinda final. A descrição da chegada do Filho do Homem, rodeado das nuvens, é tirada do livro de Daniel 7,13, mas aqui se refere claramente a Jesus e não à figura angélica “em forma humana” do livro apocalíptico de Daniel. A ação de Jesus em reunir os eleitos é o oposto de Zacarias 2,10. Esse reunir-se dos eleitos de seu povo por parte de Deus se encontra em Deuteronômio 30,4; Isaías 11,11.16; 27,12, Ezequiel 39,7, etc., mas nunca, no Antigo Testamento, é o Filho do Homem que faz esse trabalho. A segunda parte do texto consiste em uma parábola (versículos 28 e 29), um ditado sobre a hora do fim (vers. 30), sobre a autoridade de Jesus (vers. 31) e, de novo, sobre a hora (vers. 32). Nem sempre fica claro a que se refere. O que se fala sobre essas coisas acontecerem “nessa geração” tem como contrabalanço o vers. 32, que diz que somente Deus sabe a hora exata. A parábola sobre os sinais claros da chegada do fim (vers. 28 e 29) tem em contraposição a parábola da vigilância constante (vers. 33 a 37). Mas continua clara a mensagem básica: a vitória final do projeto de Deus, concretizada através de Jesus, o Filho do Homem. Mas a certeza dessa vitória não dispensa a atitude de vigilância constante por parte dos discípulos, para que não se desviem do caminho. Pode parecer confuso nosso texto (e para nós, hoje, de uma certa forma, o é), mas, inserido no contexto do Discurso Escatológico (referente aos tempos finais) do Evangelho, traz a nós uma mensagem de esperança e uma advertência. A esperança nasce do fato de que a vitória de Deus é garantida, um elemento fundamental em todo apocaliptismo. A advertência está na necessidade de vigilância constante, para que não percamos a hora do Filho. Em um mundo de desesperança e falta de ânimo por parte de muitos, o texto convida nós, os discípulos, a uma atitude positiva que nos leva a um engajamento maior em prol da construção do Reino entre nós. Mas também nos desafia a estarmos sempre vigilantes para não sermos cooptados pela sociedade vigente, opressora e consumista, que, muitas vezes, baseia-se em princípios contrários aos do Reino de Deus. As palavras de Jesus têm um valor permanente, para que possamos julgar as diversas propostas de vida que o mundo nos apresenta. “O céu a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão.” Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

31º Domingo do Tempo Comum

Amarás o Senhor teu Deus. Amarás o teu próximo.Marcos 12,28b-34 Depois de uma caminhada marcada por muitas lições, altos e baixos quanto ao seguimento por parte dos discípulos, mudanças de estratégias, Jesus chega a Jerusalém. Nesse lugar, Ele seria julgado e vitimado pelos poderes políticos e religiosos e, em termos mais messiânicos, no trono da Cruz, assumiria seu reinado. Neste 31º Domingo do Tempo Comum, vemos, no diálogo do Senhor com o Mestre da Lei, mais uma grande catequese que Marcos dirige a suas comunidades e a nós, neste terceiro milênio. O evangelista apresenta um diálogo entre dois mestres. De um lado, um representante da religião oficial; de outro, Aquele que não veio abolir a Lei e os Profetas, mas para dar-lhes pleno cumprimento (cf. Mateus 5,17). Diferentemente de outras passagens, nesta não há uma controvérsia entre Jesus e o especialista da Lei. Marcos narra um diálogo honesto e desarmado de ambas as partes. Quando a busca da verdade é feita na intenção de evoluir e não por vaidade, todos saem ganhando. Naquele tempo, existiam 613 mandamentos segundo a tradição dos mestres de Israel. Deles, 365 diziam o que não se deveria fazer, e os outros 248 determinavam o que deveria ser feito (cá entre nós: na Igreja de hoje, temos muito mais normas, por isso é bom refletirmos primeiro antes de criticar o antigo costume judeu). Entre esses mestres, havia divergências em relação a qual dessas prescrições seria mais importante. Para um grupo, guardar o sábado era a principal, pois o próprio Criador cumprira esse preceito. Já outra linha defendia não haver uma hierarquia, pois mandamento era mandamento, e pronto! Jesus, como um bom judeu, conhecia o principal, pelo menos no que se refere ao costume diário de recordar, em oração, a sentença presente em Deuteronômio (6,4-5): “Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e com toda a tua força”. Até então, nada de novidade. A inovação foi o elo que Jesus, usando o verbo “amar”, deu ao preceito de amar também ao outro e a si próprio: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, baseando-se em Levítico (19,18). Colocar Deus, o próximo e si próprio em “seus devidos lugares” só pode ser feito sob a chave do amor. Algo a merecer atenção quanto ao “amar a si próprio” é que, naquele tempo, não havia o conceito psicológico de autoestima, como modernamente conhecido. Por isso fica superficial, pelo menos com base na passagem de hoje, alguma meditação mais aprofundada nesse sentido. Boa parte da resposta do mestre da Lei foi uma repetição das palavras de Jesus, um estilo bem próximo ao do evangelista Lucas. Mas há de se notar que a réplica do escriba foi respeitosa. O homem ainda acrescentou outra parte, recordando que o verdadeiro culto ao Senhor seria baseado no amor. Amar a Deus, ao próximo e a si “é melhor do que todos os holocaustos e sacrifícios” (vers. 33). Esse trecho é inspirado na profecia de Oseias (6,6): “Porque é amor que eu quero e não sacrifício, conhecimento de Deus mais do que holocaustos”. O elogio de Jesus ao mestre da Lei, dizendo que este não estaria longe do Reino de Deus, pode trazer importantes informações catequéticas, bem ao estilo de Marcos. A imagem é curiosa, dando a impressão de esse reino ser um lugar, ideia talvez mais fluida nas comunidades assistidas por esse evangelista. Estar perto do Reino não significava que aquele homem já o havia alcançado. Ele dera passos importantes, mas ainda não chegara “lá”. O evangelista estava abrindo uma concessão, pois, nas passagens seguintes, expôs severas críticas ao modo como os chefes da religião exploravam o povo: “Tomai cuidado com os doutores da Lei!” (Marcos 12,38 – um dos temas do Evangelho do próximo domingo), resume o tom das denúncias em sequência. Quem sabe não haveria membros da comunidade marcana (tal como nas de hoje) que estavam apenas “próximos” do Reino? O amor, portanto, é a coluna do ensinamento do Senhor neste domingo. Que, por nosso amor aos irmãos e a nós mesmos, testemunhemos, sobretudo com nossos gestos e na simplicidade do cotidiano, o amor a Deus. Com a graça divina, possamos antecipar a justiça do Reino e alcançá-lo um dia. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo.

30º Domingo do Tempo Comum

“E seguia Jesus pelo caminho”Marcos 10,46-52 Estamos no fim da caminhada de Jesus, de Cesareia de Felipe até sua morte e ressurreição, em Jerusalém. No texto de hoje, Marcos encerra o bloco todo da caminhada com o último milagre de Jesus que ele relata: a cura do cego Bartimeu. O texto começa com um senso de urgência: chegaram a Jericó e logo saíram. Parece que Jesus tem pressa para caminhar até Jerusalém. E lá está o cego Bartimeu. Onde? Sentado à beira do caminho. Enquanto Jesus está “a caminho” com os discípulos, o cego está à beira do caminho, sentado. Simboliza todos os que não conseguem caminhar no discipulado e estão parados, à beira do caminho do seguimento de Jesus. Esse texto está bem carregado de sentido. Logo que Bartimeu ouve que é Jesus que passa, ele grita fortemente: “Jesus, Filho de Davi, tem piedade de mim!”. É de novo um dos temas centrais da Bíblia: o grito do pobre e sofrido. Desde o grito do sangue de Abel, passando pelo grito do Êxodo, de Jó, dos pobres nos Salmos, de Bartimeu, de Jesus na Cruz, dos martirizados do Apocalipse, o tema do grito do sofrido perpassa toda a Escritura, com a garantia de que Deus ouve esse grito. Mas a reação dos transeuntes é típica: mandam que Bartimeu se cale. O poder dominante sempre quer abafar o grito do excluído. Isso não mudou até os dias de hoje. É só verificar o pouco-caso que nossa sociedade faz diante da opressão e massacre dos povos indígenas, diante de sofrimento dos excluídos e marginalizados pela sociedade de consumo. Até nas Igrejas, existe quem não queira ouvir o grito e faz de tudo para abafar qualquer iniciativa popular. Mas Deus o ouve! Com um fino toque de ironia, o texto mostra como, por causa da atitude de Jesus, os mesmos que o mandaram calar agora têm de convidá-lo a falar com Jesus. Porém, para isso, Bartimeu tem de lançar fora o manto (a única coisa que ele possuía, a sua única segurança). É sua roupa, seu cobertor à noite, o que ele usa para recolher as esmolas. Ele o joga fora, embora seja cego, e não tem certeza de que vai ser curado. Como os primeiros discípulos no lago (Marcos 1,18.20), ele aprende que não é possível seguir Jesus sem deixar algo, sem arriscar a segurança humana para experimentar a mão de Deus. É bom notar que Jesus não parte imediatamente para a ação. Ele respeita a liberdade do cego e pergunta “O que queres que eu te faça?” (vers. 51). Pois Jesus não obriga ninguém a se libertar; há quem prefira ficar sentado à beira do caminho, no seu comodismo, quem não opte pela libertação. Mas Bartimeu quer ver de novo. Diferente do cego de João, capítulo 9 (cego de nascença), ele via anteriormente e tinha perdido a visão. Aqui ele simboliza a comunidade marcana pelo ano 70, que tinha perdido a clareza da fé e que precisava do toque de Jesus para que voltasse a ver claramente. Curado, Bartimeu recebe licença para ir, para seguir sua vida. Mas ele faz outra opção: “No mesmo instante, ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho” (vers. 52). Ele usava para Jesus um título não muito adequado “filho de Davi”, pois em Marcos 12,35-37, Jesus fez muitas restrições a esse título messiânico, mas ele tem a prática certa: segue Jesus pelo caminho. Aqui Marcos faz contraste com a figura de Pedro, que tinha o título certo, “Tu és o Messias” (Marcos 8,29), mas a prática errada. Não quis que Jesus caminhasse para a doação total de sua vida, na Cruz. Aqui, o modelo de discípulo não é Pedro, mas Bartimeu. Pois, mais importante do que os títulos e expressões teológicas, sem negar sua importância relativa, é a prática do seguimento de Jesus. Um alerta a todos nós, para que nossa prática seja coerente com nossa fé, no seguimento de Jesus, em favor do Reino de Deus e seus valores! Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

29º Domingo do Tempo Comum

“Quem de vocês quiser ser o primeiro, deverá tornar-se o servo de todos.”Marcos 10,35-45 No esquema do Evangelho de Marcos, o texto de hoje se situa quase no fim da caminhada de Jesus com os seus discípulos para Jerusalém, o lugar do desfecho de toda a missão do Mestre. Pela terceira vez, Ele tem dado a seus mais íntimos colaboradores o anúncio sobre sua paixão e morte: “Eis que estamos subindo para Jerusalém, e o Filho do Homem vai ser entregue aos chefes dos sacerdotes e aos doutores da Lei. Eles o condenarão à morte e o entregarão aos pagãos. Vão caçoar dele, cuspir nele, vão torturá-lo e matá-lo”. Novamente uma colocação mais do que clara sobre o que significa ser o Messias (Cristo em grego) de Deus, mas que não surte efeito. Os discípulos, cegados pela ideologia dominante, não são capazes de entender o sentido da vida de Jesus, e, por conseguinte, o sentido de ser discípulo dele. Como Pedro depois do primeiro anúncio, e todos os Doze depois do segundo, João e Tiago conseguem resistir ao ensinamento de Jesus, numa tentativa de impor a própria agenda. Apesar de ouvirem que Jesus veio para dar sua vida em serviço de todos, os irmãos pedem os primeiros lugares quando Jesus entrasse em sua glória. O desejo de dominar estava muito enraizado neles. É tão gritante o descompasso entre o ensinamento de Jesus e os desejos dos dois irmãos que Mateus, relatando a mesma história, suaviza o texto de Marcos, fazendo com que a mãe deles fizesse o pedido (Mateus 10,20). A queixa de Deus no Antigo Testamento, de que seu povo era um povo de “cabeça dura”, atualiza-se nos Doze. Não devemos pensar que eram somente os dois filhos de Zebedeu que sentiram o gosto pela dominação. É interessante notar a reação dos outros dez diante do pedido feito: “Quando os outros dez discípulos ouviram isso, começaram a ficar com raiva de Tiago e João” (vers. 41). Por que ficaram com raiva? Não porque achavam sem sentido o pedido dos dois, mas porque, no fundo, cada um deles queria ter o lugar de honra e poder. O vírus de dominação é mais do que contagioso. Mais uma vez, Jesus demonstra paciência histórica com seus seguidores. Contrasta o sistema de organização da sociedade com aquele que queria para a comunidade de seus discípulos: “Entre vós, não deve ser assim: quem quiser ser grande seja vosso servo; e quem quiser ser o primeiro seja o servo de todos” (vers. 43 e 44). E deixa bem claro o motivo: não por causa de uma humildade qualquer, mas porque Ele nos deu o exemplo: “Porque o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e para dar a sua vida como resgate para muitos” (vers. 45). Ser discípulo de Jesus é ter o mesmo ideal, a mesma prática que ele. O texto torna-se muito atual para os dias de hoje. Infelizmente, o contraste feito por Jesus entre seus seguidores e o sistema da sociedade secular nem sempre se verifica. Existe, nos últimos anos, de modo mais acentuado, uma busca de status e do poder dentro do seio das igrejas, talvez especialmente entre o clero mais jovem. O Papa Francisco não cansa de combater essa tendência. Mas ninguém pode se achar imune diante dessa tentação, pois está bem enraizada dentro de todos nós. Somente uma mística bem cultivada do seguimento de Jesus, fundamentada na Palavra da Escritura, poderá nos ajudar para que realmente construamos uma Igreja onde se demonstre que “entre vocês não deve ser assim”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

28º Domingo do Tempo Comum

“Como é difícil entrar no Reino Deus!”Marcos 10,17-30 Nosso texto inicia-se com a frase: “Quando Jesus saiu a caminhar”. Novamente estamos na caminhada com Jesus, uma caminhada que é uma aprendizagem para o discipulado, uma caminhada que o leva a cada vez mais perto de Jerusalém, lugar da crise definitiva de sua vida. Ao longo dessa caminhada, Jesus luta com a incompreensão de seus discípulos, até dos mais chegados a Ele, pois a mentalidade deles era formada pela ideologia dominante e assim tinham a maior dificuldade em apreciar a reviravolta de valores que Jesus e sua mensagem significavam. Nos domingos anteriores, vimos essa tensão no trato das questões do poder, do divórcio, das crianças. Em nosso texto de hoje, Jesus põe em xeque o ensinamento comum sobre a riqueza e a pobreza. A cena é muito conhecida: um homem pede orientação sobre como entrar na vida eterna. Em um primeiro momento, Jesus coloca diante dele a exigência conhecida por todo judeu piedoso e ensinada pelas escolas rabínicas: o cumprimento dos mandamentos. Mas o homem (sem dúvida, um praticante piedoso da Lei) sente que isso não é o suficiente, pois é o mínimo. Assim, Jesus põe diante dele as exigências do Reino: o seguimento dele, o despojamento dos bens, a partilha e a solidariedade. Isso o homem é incapaz de aceitar. Estava amarrado a seus bens, pois era muito rico (versículo 22). Fez sua opção: escolheu uma vida “regular”, que não exigisse partilha nem despojamento, e, como consequência, foi embora “muito abatido”, pois tinha colocado bens secundários acima do bem maior. O centro do relato está no debate entre Jesus e seus discípulos. O Mestre afirma que “é mais fácil passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!” (vers. 25). Muitas vezes, gastamos muita energia em debater o que significa “o buraco da agulha” (quase sempre tentando diminuir seu impacto!) e deixamos de lado o aspecto mais importante: a reação dos discípulos. Eles ficaram “muito espantados” quando ouviram isso e se perguntaram: “Então, quem pode ser salvo?”. Por que ficaram espantados? O que houve de espantoso na colocação de Jesus? Aqui está o âmago da questão. O espanto dos discípulos (todos eles também judeus praticantes e piedosos) era causado pelo fato de que, na ideologia religiosa vigente, a riqueza era considerada sinal da bênção de Deus, e a pobreza como sinal da maldição (uma ideia presente em certas seitas hoje e que, às vezes, infiltra em certas pregações sobre o dízimo na própria Igreja Católica). Para eles, quem não se salvaria era o pobre, pois o rico era abençoado. Aqui é bom lembrar que se trata de “entrar no Reino de Deus”, o que não é sinônimo de salvação eterna. A salvação depende da gratuidade e misericórdia de Deus e, diante de tal mistério, só cabe à gente calar-se. O Reino de Deus deve ser uma experiência já existente entre nós, mesmo que não em plenitude, e que significa experimentar na vida os valores do Reino. O rico dificilmente entra nessa dinâmica porque normalmente é autossuficiente, atrelado a um sistema classista e injusto, e com grande dificuldade para partilhar e de sentir sua dependência de Deus. A proposta de Jesus desafia as ideologias, disfarçadas de teologia e espiritualidade, que veem a riqueza como sinal da bênção de Deus. A proposta dele não é a riqueza, mas a partilha, não é a acumulação, mas a solidariedade e a justiça, para que todos possam ter o suficiente. O texto deixa claro que quem quer viver essa proposta vai sofrer, pois o mundo não vai aceitá-la. Quem segue Jesus na prática da solidariedade encontra uma felicidade mais duradoura, mas com perseguição; porém já vive a certeza da plenitude do Reino que virá (vers. 29 a 31). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

27º Domingo do Tempo Comum

“O que Deus uniu, o homem não separe”Marcos 10,2-16 Durante a caminhada de Jesus rumo a Jerusalém, onde o poder central religioso-político vai condená-lo à morte, no intuito de acabar não somente com a pessoa dele, mas com seu projeto, o Senhor, no texto de hoje, entra primeiro em controvérsia com os fariseus, os guardiães da prática fiel da Lei. Estes, que gozavam de muito prestígio diante da população mais simples, outorgavam-se o direito de serem os únicos intérpretes autênticos da vontade de Deus, por meio de sua interpretação da Lei. Por isso entram em conflito com Jesus, não na busca de conhecer melhor a vontade do Pai, mas, como ressalta o texto, “para tentá-lo” (versículo 2). O campo de batalha escolhido era o debate sobre o divórcio. O texto de referência para eles era Deuteronômio (24,1-4), no qual não se trata da legitimidade do divórcio, mas dos critérios para que possa ocorrer. O Evangelho de Mateus, no capítulo 19, deixa mais claro do que Marcos o sentido do debate (veja Mateus 19,1-9). O pano de fundo eram os critérios necessários para que um homem pudesse divorciar-se de sua mulher (nem se cogitava a mulher pudesse divorciar do marido, pois ela era considerada “objeto” que pertencia ao homem!). No tempo de Jesus, havia duas tendências, simbolizadas pelas escolas rabínicas dos grandes fariseus Hillel e Shammai. Uma escola, mais laxista (Hillel), ensinava que se podia divorciar da mulher por qualquer motivo, mesmo dos mais banais. A escola mais rigorosa (do Shammai) apenas permitia o divórcio por motivos muito sérios. Por isso, em Mateus a pergunta se define melhor: “é permitido divorciar a mulher por qualquer motivo que seja?” (Mateus 19,4). Em ambos os evangelhos, Jesus se recusa a entrar no debate de casuística que cercava a questão e se limita a reafirmar o projeto do Pai para o casamento: “Portanto, o que Deus uniu, o homem separe”. Jesus reafirma, com toda a firmeza, o ideal do casamento cristão: uma união permanente, baseada no amor e fortalecida pela graça do sacramento. Seria inútil buscar nesse trecho uma teologia mais desenvolvida do casamento, muito menos orientações pastorais para os problemas práticos de casamentos malsucedidos, pois isso não foi a intenção do autor. Marcos simplesmente reafirma o princípio de que “o que Deus uniu, o homem não deve separar”. Deixa em aberto a questão de quando é que Deus realmente uniu o casal. Será que, só porque passaram por uma cerimônia validamente celebrada na igreja, um casal é necessariamente unido por Deus? Os problemas reais são muito mais complexos, angustiantes e difíceis de serem solucionados, como reconhece claramente o Papa Francisco, bem como qualquer pessoa com coração pastoral. O trecho continua com a questão das crianças. A questão aqui não é a criança como símbolo da inocência, mas de dependência. As crianças e os que se assemelham com elas vivem essa situação de dependência, de “sem-poder”. Quem quer entrar no Reino de Deus terá que se ab-rogar de todo poder dominador, tornando-se como criança. Recusando-se a aceitar a situação em que a mulher era simples objeto de posse do homem e assim passível de ser divorciada, e propondo o fraco e dependente como modelo em uma sociedade que valorizava o prepotente, Jesus mostra que os valores do Reino de Deus estão na contramão dos valores da sociedade de seu tempo (e de hoje). Propõe uma igualdade de dignidade entre homem e mulher, uma fidelidade e compromisso permanentes, e a busca de uma vida de serviço e não de dominação. Realmente, uma proposta no contrafluxo da sociedade pós-moderna, que nega o permanente, perpetua o machismo e admira o poderoso e dominador. O texto de hoje nos convida para que entremos com Jesus na “contramão” e criemos uma sociedade baseada em outros valores do que os que estão hoje em vigor, às vezes, até no seio das próprias igrejas. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

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