4º Domingo da Quaresma

“Deus enviou o seu Filho ao mundo não para julgá-lo, mas para que seja salvo por ele”João 3,14-21 Podemos dizer que o texto de hoje inclui uns versículos (16 a 21) que podem ser entendidos como resumo de todo o Evangelho de João. Inclui também muitas referências ao Antigo Testamento e ao pensamento judaico da época. Inicia-se com a primeira de três frases em João sobre o “levantar” do Filho do Homem, aqui usando paralelismo com a serpente de bronze de Números (21,1-9). O termo “levantado” refere-se tanto ao ser elevado na Cruz como ao ser levantado aos céus. A Cruz é o primeiro passo na volta de Jesus ao Pai. A parte central do texto insiste no infinito amor do Pai pelo mundo. Mais uma vez, cumpre reconhecer que o termo “mundo” tem diversos sentidos em João. Muitas vezes, refere-se às forças opostas a Jesus, e, portanto, tem uma conotação altamente negativa. Aqui se refere à criação de Deus, o universo, com uma conotação positiva. Infelizmente, nos dias de hoje, muitos adeptos das religiões veem o mundo como algo negativo e pecaminoso, frequentemente se justificando com uma interpretação errônea de João e, assim, criando uma religião dualista, onde o “espiritual” é santo, enquanto o “material” é pecaminoso. Assim, o mundo se torna mais o domínio do demônio do que de Deus e cria-se uma religião de alienação e fuga das realidades terrestres. Essa visão equivocada está muito presente em certos movimentos neopentecostais e diversos programas de televisão e rádio. Tal visão se deve mais a certas religiões pagãs do que à mensagem do Evangelho. A missão de Jesus não é de condenar, mas de salvar (vers. 17). Porém a própria presença de Jesus já constitui um julgamento, pois exige uma tomada de posição da parte de cada um. Para o judaísmo, e muitos escritos do Novo Testamento, o juízo deve acontecer no fim da história, mas, para João, dá-se quando alguém se encontra na presença de Jesus e conscientemente aceita ou recusa sua mensagem. O termo que a Teologia usa para essa visão é “escatologia realizada”. Na visão de um mundo dividido entre luz e trevas, há paralelos com os documentos do Mar Morto, provavelmente da seita dos essênios. O cerne da questão é crer ou não em Jesus. Mas é importante lembrar que “crer” não é somente um exercício intelectual de aceitar que algo seja a verdade. “Crer” é assumir o projeto de vida de Jesus, é seguir em suas pegadas. É fazer que suas opções concretas sejam nossas, ou melhor, de agir como Ele agiria se estivesse entre nós hoje. Como será que Jesus agiria diante dos escândalos e crises que assolam nosso mundo? Que posição tomaria diante da acumulação de bens e terras nas mãos de poucos? O que faria diante da questão da reforma agrária ou da destruição do meio ambiente? Diante da corrupção quase endêmica e da manipulação de grande parte dos meios da comunicação de massa? O que diria diante do sofrimento de milhões de desempregos na crise atual econômico-financeira mundial, criada por gananciosos que não sofrem as consequências de sua sede sem limites de lucro? O que Ele diria diante da crise que leva dezenas de milhares de migrantes a arriscarem as suas vidas tentando escapar da miséria? “Crer” nele não é afirmar teses teológicas, mas seguir na prática Jesus de Nazaré que se colocou sempre ao lado dos excluídos e sofridos, não por serem mais “santos”, mas simplesmente por serem mais sofridos. É bom notar que Jesus, enfatizando nesse texto a necessidade do nascimento novo espiritual (estamos ainda no discurso diante de Nicodemos), nega a importância de nascer fisicamente como membro do povo eleito. Mais uma vez, como em Caná e no Templo (2,1-11.13-22), Jesus substitui um dos pilares do judaísmo de sua época. Estamos em plena Campanha da Fraternidade, procurando criar um novo mundo em que todos tenham acesso a uma vida digna, lutando pela luz contra as trevas! Agir “segundo a verdade” (vers. 21) significa fazer o bem. Quem luta pelo bem, pela vida, contra a exclusão, realmente “crê” em Jesus, seja qual for sua confissão religiosa, e “não é condenado” (vers. 18). Quem não faz essa opção opta então pelas trevas, mesmo que professe, de uma maneira ortodoxa, as teses da fé, mas realmente “não crê no nome do Filho Único de Deus” (vers. 18). Ninguém escapa de fazer essa opção concreta, pelo bem ou pelo mal, pela luz ou pelas trevas, pelo Reino ou pelo anti-Reino! É pelos frutos que se conhece a árvore! A Quaresma nos convida para revermos, de uma maneira sincera, nossas opções e também nossa contribuição em favor da criação de uma sociedade justa, de vida e não da morte. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
3º Domingo da Quaresma

“Mas Ele falava do templo do seu corpo”João 2,13-25 Nosso texto relata, na tradição do Quarto Evangelho, um dos eventos mais conhecidos na vida de Jesus: a expulsão dos vendedores do Templo. No Quarto Evangelho, esse evento está situado no início da vida pública de Jesus, enquanto, no Evangelho mais antigo, Marcos, está situado no início de nossa “Semana Santa”. Assim, os dois autores relatam o acontecido segundo o esquema de seus escritos, mas ambos trazem uma mensagem bem clara: o que vai finalmente levar Jesus à morte é seu conflito com as autoridades do Templo. Estas se sentiram ameaçadas em seu poder político, religioso e econômico pela pregação e atuação libertadora de Jesus, que revelava o verdadeiro rosto de Deus e seu projeto de vida plena, ofuscados pelo ritualismo de exploração por parte da classe sacerdotal de Jerusalém, aliada ao poder opressor romano. Para João, esse conflito estoura desde o início da vida pública de Jesus. Para Marcos, o evento é a gota d’água que desencadeou o conluio que levaria Jesus à Cruz. Na cena apresentada pelo texto, Jesus vai a Jerusalém para a primeira das três Páscoas mencionadas em João; nos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), a vida pública de Jesus só durou um ano, e eles só mencionam uma Páscoa. No Templo, que deveria ser o lugar do culto ao Deus verdadeiro da Bíblia, o Deus de libertação, o Deus dos pobres e sofridos, Ele encontra um verdadeiro mercado, onde, no pátio externo, era possível comprar os animais para os sacrifícios e trocar a moeda, uma vez que a moeda corrente do país não era aceita no Templo. Quando atacava esse comércio, Jesus estava indo além da mera condenação de um abuso. Pois os animais e o câmbio eram necessários para o funcionamento do Templo. Como Jesus substituiu a purificação dos ritos judaicos no sinal das bodas de Caná, aqui Ele demonstra que o centro do culto judaico perdeu seu sentido. Pois a presença de Deus, antes achada no Templo, agora deturpado pela elite religiosa e política, doravante residirá em Jesus, o Filho de Deus encarnado. Ele cumpre as profecias de Jeremias e Zacarias que predisseram uma religião sem um templo que fosse nacionalista e explorador econômico do povo (Jeremias 7,11-14; Zacarias 14,20-21). João entende que o verdadeiro templo é o corpo de Jesus, que será ressuscitado em três dias. Ele usa de propósito o verbo “reerguer” em lugar do “reconstruir” dos Sinóticos (Mateus 26,61). As autoridades judaicas destruíram o sentido do Templo, abusando do povo economicamente, como também vão destruir o corpo de Jesus, matando-o; mas Jesus tem o poder de reerguer o verdadeiro Templo onde habita Deus, na ressurreição, depois de três dias. Mais uma vez, Jesus, por uma ação profética, desmascara a deturpação da religião por parte das autoridades de Jerusalém. Embora o Templo fosse muito bonito e imponente, com liturgias pomposas bem frequentadas, sua religião era vazia, pois escondia o rosto amoroso e misericordioso de Deus. As Igrejas sempre correm esse mesmo risco. Além da descarada exploração financeira de seus fiéis por parte de algumas seitas e pregadores (cuidemos para não generalizarmos aqui e evitemos que a mesma coisa aconteça em nossa Igreja!), aos poucos, muitas comunidades cristãs perderam sua dimensão profética de denúncia e anúncio, configurando-se ao mundo neoliberal de consumismo e gratificação emocional imediata, tornando o Evangelho uma mercadoria a ser vendida através de um marketing, que jamais pode questionar os valores da sociedade vigente. Como escreveu anos atrás o Frei Betto, a religião assim “Brilha sob as luzes da ribalta, trocando o silêncio pela histeria pública, a meditação pela emoção, a liturgia pela dança aeróbica. Na esfera católica, torna o produto mais palatável, destituindo-o de três fatores fundamentais na constituição da Igreja, mas inadequados ao mercado: a inserção dos fiéis em comunidades, a reflexão bíblico-teológica e o compromisso pastoral no serviço à justiça. As homilias se reduzem a breves exortações que não incomodam as consciências” (O Estado de São Paulo, 3-11-1999). Assim, o texto de hoje nos traz um alerta: Jesus não veio compactuar com uma religião exploradora, alienadora e aliada ao poder, mas para encarnar as opções do Deus Javé, libertador dos males e de toda exploração. Ele veio “para que todos tenham a vida e a vida em abundância” (João 10,10). Uma religião que abandona sua função profética é tão traidora quanto a religião decadente das elites do Templo. Nos últimos anos, as vozes dos papas Francisco e Bento XVI, do arcebispo Desmond Tutu, do Dalai Lama e de outros líderes religiosos soaram profeticamente ao redor do mundo, lembrando-nos de que a religião não se confina à sacristia, mas tem de levar à prática dos princípios do Reino, que recusa a legitimar o derramamento de sangue em troca de petróleo ou minérios. Aproveitemos o “tempo oportuno” que é a Quaresma para reavaliar a nossa prática religiosa, para que não caia na desgraça do Templo, de ser uma prática bonita, atraente e emocionante, mas vazia de sentido. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
1º Domingo da Quaresma

“Durante quarenta dias, no deserto, Ele foi tentado por satanás”Mc 1,12-15 Os três evangelhos sinóticos contam a história das tentações de Jesus no deserto. Marcos, de uma forma resumida; Mateus e Lucas, mais detalhadamente. Mas devemos lembrar que esses relatos procuram expressar uma experiência mística de Jesus, e então não devem ser interpretados ao pé da letra ou de uma maneira fundamentalista. Uma coisa logo chama a atenção: nos três evangelhos, as tentações vêm logo após o batismo de Jesus. O batismo significa o assumir público de sua identidade e missão, como Servo de Javé. Logo após esse compromisso, Ele tem de enfrentar as tentações. Aqui, a experiência de Jesus é como a nossa própria: nós temos compromisso com o projeto de Deus, mas, entre nosso compromisso e nossa prática do seguimento de Jesus, existem muitas tentações. Marcos sublinha que “o Espírito impeliu Jesus para o deserto”. O Espírito não conduz Jesus à tentação, mas é a força sustentadora dele, durante suas tentações. Como o Espírito dava força a Jesus, Marcos quer ensinar às suas comunidades que elas também poderão contar com esse apoio do Espírito Santo nos momentos difíceis da vivência de sua fé. O relato mais desenvolvido de Lucas (Lc 4,1-14) pode nos ajudar a aprofundar o sentido das tentações de Jesus. Nelas podemos reconhecer as mesmas tentações que nós, individualmente e comunitariamente, enfrentamos em nossa caminhada de fé hoje. Primeiro, Jesus é tentado a mandar que uma pedra se torne pão. Podemos ver aqui a tentação do “prazer”. Logo que enfrenta um sacrifício por causa de sua opção, Jesus é tentado a escapar dele. Uma tentação das mais comuns hoje, em um mundo que prega a satisfação imediata de nossos desejos, criando necessidades falsas por meio de sofisticadas campanhas de propaganda. Pois vivemos em uma sociedade que prega o individualismo, onde a regra é “se quer, faça!”, e onde sacrifício, doação e solidariedade são considerados como ladainha dos perdedores. É só olhar o número de casamentos que fracassam diante da primeira crise ou a quantidade de seminaristas, religiosos, religiosas e padres que desistem, às vezes pouquíssimo tempo depois de professar seus votos ou de serem ordenados, diante de uma sentida falta de “autorrealização imediata”. A resposta de Jesus é contundente: “Não só de pão vive o homem”. O homem vive de pão certamente, mas não só! Jesus não é sádico, contra o necessário para viver dignamente, mas salienta, muito bem, que não é somente a posse de bens que traz a felicidade, mas a busca de valores mais profundos, como a justiça, a partilha, a doação, a solidariedade com os sofredores. Não faz nenhum contraste falso entre bens materiais e espirituais; ambos são necessários para que se tenha a vida plena. Nessa frase, Jesus desautoriza tanto os que buscam a felicidade na simples posse de bens como os que dispensam a luta pelo pão de cada dia para todos. A segunda tentação pode ser vista como a do “ter”. De novo, algo muito atual. Nós vivemos na sociedade pós-moderna da globalização do mercado, do neoliberalismo, do consumismo, do “evangelho” do mercado livre. Diariamente, a televisão traz para dentro de nossas casas a mensagem de que é necessário “ter mais” e que não importa “ser mais”. Como sempre, a tentação vem em forma atraente. Até a Igreja pode cair na tentação de achar que a simples posse de bens, que podem ser usados em favor da missão, garantirá uma pregação mais evangélica. Isso sem falar das pregações midiáticas que glorificam um Deus que supostamente faz da posse de bens materiais sinal da sua bênção. Somos tentados a não acreditar na força dos pobres, de não seguir o caminho do carpinteiro de Nazaré. Jesus também teve de enfrentar essa tentação. Ele, que veio para ser pobre com os pobres, para mostrar o Deus que opta preferencialmente pelos sofredores, é tentado a confiar nas riquezas. Para o diabo, e para o nosso mundo que idolatra o bem-estar material e o lucro, mesmo sacrificando a justiça social, Jesus afirma: “Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a ele servirá” (v. 8). A terceira tentação pode ser entendida como a do “poder”. Uma tentação permanente na história da Igreja e dos cristãos. Quantas vezes, para “evangelizar”, a Igreja confiava mais no poder secular do que na fragilidade da cruz? Quanta aliança entre a cruz e a espada (a América Latina que o diga)! Ainda hoje, todos nós enfrentamos esta tentação: não de ter poder para servir, mas de confiar no poder aparente deste mundo mais do que na fraqueza aparente de Deus. Jesus, que veio para servir e não para ser servido, que veio como o Servo de Javé e não como dominador, teve de clarificar sua vocação e despachar o diabo com a frase: “Não tentará o Senhor seu Deus” (v. 12). Realmente podemos nos encontrar nas tentações de Jesus. São as tentações do mundo moderno (o ter, o poder e o prazer). Coisas boas em si, quando bem utilizadas conforme a vontade de Deus, mas altamente destrutivas quando tomam o lugar de Deus em nossas vidas. Jesus teve de enfrentar o que nós enfrentamos: o “diabo” que está dentro de nós, o tentador que procura nos desviar de nossa vocação de discípulos. O relato de Lucas nos coloca diante da orientação básica para quem quer vencer: “Você adorará o Senhor seu Deus, e somente a ele servirá” (Lc 4,8). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
6º Domingo do Tempo Comum

“E, de toda parte, as pessoas iam procurá-lo”Mc 1,40-45 O primeiro capítulo de Marcos termina com um trecho que pode esclarecer o que significava para Jesus “ir adiante e pregar a Boa Nova” (Mc 1,38s). Marcos, diferentemente dos outros evangelistas, raramente nos conta o conteúdo da pregação de Jesus. Mas ele ilustra esse ensinamento, relatando ações de Jesus que demonstravam o sentido da chegada do Reino e de sua Boa Notícia. O texto de hoje descreve a cura de um leproso. Os leprosos estavam entre os mais marginalizados da época. Por motivos higiênicos e religiosos (Lv 13,45-46), eram obrigados a viver fora da cidade ou aldeia, longe do convívio social. A única esperança do leproso de ser reintegrado à comunidade estava numa cura da parte de Jesus. Ele diz algo significativo: “Se queres, tu tens o poder de me curar”. Pois, em Marcos, Jesus nunca faz milagre para despertar a fé; pelo contrário, somente faz onde a fé já existe. O milagre em Marcos nunca causa a fé, mas é a fé que causa o milagre. Isto se torna importante: recordar em nosso mundo tão afoito em correr atrás de supostos milagres e milagreiros, e pouco adepto a aprofundar a fé em Jesus no seguimento dele até a Cruz. O Evangelho de Marcos tem pouco lugar para a religião “light”, tão em voga hoje em diversos segmentos das Igrejas cristãs, incluindo a Católica. A reação de Jesus é interessante: “Jesus ficou cheio de ira”, certamente não com o leproso, mas com o sistema social e religioso que marginalizava uma pessoa humana em nome de Deus. As leis de pureza, inventadas pelos homens e atribuídas a Deus, tinham o efeito de excluir muitas pessoas da convivência humana e religiosa. O Evangelho nos desafia para que tenhamos a coragem de examinar nossas leis e práticas para verificar se nós também não criamos, em nome de Deus, classes de excluídos e cristãos de segunda categoria. Depois da cura do leproso, encontramos um elemento característico do Evangelho de Marcos, o chamado “segredo messiânico”. Jesus proíbe que ele conte para os outros a história da cura. Que esperança! O homem sentiu necessidade de espalhar a boa notícia de sua cura. Essa proibição vai aparecer muitas vezes em Marcos. No relato da confissão de Pedro na estrada de Cesareia de Filipe, vamos ver o motivo por trás dele. Jesus não quer que o povo siga-o buscando prodígios e milagres, mas que todos se tornem seus discípulos como o Servo de Javé, pegando a sua cruz na luta por um mundo melhor, pela concretização do Reino de Deus no meio de nós. Por isso, é de se desconfiar de pregações e celebrações religiosas que se limitam a experiências intimistas de Deus, sem um engajamento na transformação do mundo e de suas estruturas. Finalmente o homem deve apresentar-se aos sacerdotes para que sua cura seja autenticada, segundo as leis levíticas. Pois, para Jesus, não basta a cura individual, Ele quer que todas as pessoas sejam integradas numa vivência comunitária, sem marginalização por causa de gênero, classe social, raça, cor ou saúde. A fé em Jesus leva a um mundo totalmente diferente do mundo de exclusão que é nossa atual sociedade neoliberal e consumista. Diante dessa boa-nova de inclusão, o povo excluído corre atrás de Jesus, pois Ele manifesta a verdadeira face de Deus a eles: o Deus de bondade e perdão, cujo rosto tinha sido escondido pelas leis de puro e impuro do Templo e do sistema farisaico da época, “e, de toda parte, as pessoas iam procurá-lo”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
4º Domingo do Tempo Comum

“O que é isso? Um ensinamento novo, dado com autoridade”Mc 1,21-28 O evento relatado no texto de hoje demonstra um dos temas básicos do Evangelho de Marcos (e de todos os Evangelhos): o confronto entre o Reino de Deus, concretizado na pessoa e projeto de Jesus, e do Mal, expressado, na linguagem e mentalidade daquele tempo, na imagem de um homem doente, “possuído por um espírito impuro”. Marcos vai seguindo a caminhada de Jesus, sempre com essa luta como pano de fundo, até o conflito definitivo no Calvário, que leva, não por meio de milagres, mas da Cruz, até a vitória definitiva na Ressurreição. Tipicamente, Marcos enfatiza que Jesus ensinava; mas, como é costume dele, não nos explicita o que ele ensinava. Ilustra, contudo, o conteúdo do ensinamento do Mestre, relatando uma ação dele: a cura de um homem “possesso”, ou seja, libertando alguém do domínio do mal. Aqui não devemos nos fixar na cosmovisão da época, que tratava toda doença como expressão de um espírito mau, mas em que o evangelista quer nos mostrar. Na chegada do Evangelho do Reino, acontece a libertação verdadeira, em que o Mal, o pecado, com todas as suas expressões, está derrotado pelo Bem. No relato de hoje, com as imagens usadas, os dois poderes estão frente a frente; o Bem contra o Mal. No texto, o Mal, falando por meio do homem, reclama contra a chegada do Bem: “O que queres de nós, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir?”. O Mal, mesmo quando disfarçado, nunca aceita a chegada de um projeto alternativo; o poder, que aliena e domina nunca aceita um ensinamento ou prática que liberta e conscientiza. Isso continua até hoje: enquanto as igrejas se contentam com ações paliativas e assistenciais (sem negar o seu valor e urgência) diante do sofrimento das massas, ninguém vai reclamar; mas, quando as atividades eclesiais começam a conscientizar sobre as verdadeiras raízes do sofrimento do povo, as igrejas e seus agentes são perseguidos. Como dizia o saudoso Dom Helder Câmara: “Quando eu fazia campanhas em prol dos pobres, me diziam ‘o senhor é um santo’, mas quando comecei a perguntar por que existiam tantos pobres, me falaram ‘o senhor é um comunista!’”. Sabemos o quanto o santo Dom Helder foi perseguido pelo poder dominador aqui no Brasil. Então o relato nos ensina que, com a chegada de Jesus (portanto, também pela ação das comunidades dos seus discípulos e discípulas), algo essencialmente diferente acontece. Marcos sublinha isso pela reação do povo: “O que é isso? Um ensinamento novo, dado com autoridade”. A diferença do ensinamento de Jesus não estava tanto em seu conteúdo, pois isso foi profundamente enraizado no Antigo Testamento, mas em sua maneira de ensinar. Ele não dependia de citar autoridades, como faziam os escribas, mas falava com base em sua própria experiência de Deus, do Deus da vida e não do Deus que estava ofuscado por tantas leis e discussões legalistas e teológicas. Jesus devolveu ao povo sua autonomia de consciência, libertou-o da dependência dos escribas e revelou o verdadeiro rosto de Deus, que é partidário dos sofredores, demonstrando que é a vontade de Deus que toda força que aliena, domina e oprime (aqui representada pela força demoníaca) seja derrotada pela mensagem libertadora do Evangelho. Cabe a nós, seus seguidores, seguidoras, achar meios para praticar esse projeto em nossa situação concreta, não correndo atrás de milagres, de falsos messias, de uma teologia de retribuição ou de prosperidade, mas seguindo o projeto do Nazareno, construindo uma sociedade, uma economia, uma política de solidariedade, compaixão, justiça e fraternidade; manifestação do projeto de Deus para seus filhos e filhas. Essa ação começa no “micro” (em nossa família, comunidade, bairro, Igreja), pois a opção entre os dois projetos de vida se dá a cada dia, em cada opção e ação nossa. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
3º Domingo do Tempo Comum

“Sigam-me, e eu farei vocês se tornarem pescadores de homens”Mc 1,14-20 O texto trata da vocação dos primeiros discípulos, conforme a tradição sinótica, em contraste com o do último domingo, que nos trouxe a tradição da comunidade do Discípulo Amado. Marcos logo destaca e situa concretamente o momento de Jesus lançar-se em sua vida pública: “Depois que João Batista foi preso”. Não é uma indicação meramente cronológica, mas causativa, no sentido de que Jesus começou a pregar porque João foi preso. Assim, Ele se coloca na tradição profética de João Batista, uma vocação que levaria Jesus, como levou João, ao martírio. O texto encapsula, no versículo 15, todo o conteúdo do Evangelho, na frase lapidar “O tempo já se cumpriu, e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e acreditem na Boa Notícia”. O Reino de Deus irrompeu no meio da humanidade de uma maneira definitiva, por meio da pessoa e ação de Jesus de Nazaré. Esse Reino exige resposta da parte das pessoas: a conversão que nasce da fé na Boa Notícia da salvação, da justiça e da paz que Jesus trouxe. Mas Deus quis precisar das pessoas para concretizar seu plano. Por isso o primeiro passo de Jesus foi formar uma comunidade de discípulos. É importante notar a atividade dos primeiros chamados: dois estavam “lançando a rede ao mar”, e dois estavam “consertando as redes”. Significa os dois aspectos da vida cristã: a missão (lançar as redes) e a comunhão (consertar as redes). Como as redes se rasgam de tanto serem lançadas, assim acontece com nossa vida, com nossas comunidades. Por sermos frágeis, facilmente se rompem nossa comunhão e unidade. Por isso temos também de dar tempo para “consertar” (fortalecer nossa união, nossa vida interior, nossa vivência comunitária). Rede rompida pega nada; e rede consertada, por tão bonita que possa ser, se não for lançada, também pega nada. É assim com a vida cristã. Se rompermos nossa unidade e comunhão, não traremos pessoas para o Reino. Mas, se cairmos em uma religião intimista e individualista, não nos lançando na missão, tampouco seremos “pescadores de homens”. O unilateralismo deve ser evitado. Também é de notar que tanto os dois que estavam lançando as redes como os que as estavam consertando tiveram de deixar algo para seguir Jesus: ou as redes (símbolo da segurança profissional) ou o pai e os empregados (símbolo da segurança afetiva). Não é possível seguir Jesus sem deixar algo. Uma religião de seguranças humanas, que não exige compromissos concretos e opções, às vezes, difíceis, não é a religião de Jesus. O Evangelho é como “espada de dois gumes” (Hb 4,12). Incomoda e desinstala-nos hoje, da mesma maneira do que os primeiros discípulos. Perguntemo-nos: “O que é que o seguimento de Jesus exige que eu deixe neste momento concreto de minha caminhada de discípulo ou discípula-missionário, missionária de Jesus e do Reino? Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
2º Domingo do Tempo Comum

“O que estais procurando?”Jo 1,35-42 O autor do Quarto Evangelho organizou o material dos versículos de 1,19-2,12 em um esquema de sete dias, culminando com o primeiro sinal de Jesus (as Bodas de Caná), cuja consequência foi que “os seus discípulos creram nele” (2,11). Assim fez lembrar os sete dias da Criação, pois, com e em Jesus, acontece a nova criação. Mas Jesus não quis agir sozinho e, desde o início, chamou para si um grupo de seguidores. Embora seja mais conhecido o relato dos Sinóticos, que descreve o chamado dos primeiros discípulos à beira do mar de Galileia (Mc 1,16-20), talvez o relato do Quarto Evangelho guarde uma tradição mais histórica, os primeiros discípulos de Jesus eram seguidores de João, o Batista. O texto de hoje relata a vocação dos primeiros discípulos: André, um discípulo anônimo (o Discípulo Amado?) e Simão Pedro. O chamado dos primeiros discípulos nos apresenta um retrato de vocação válido para todos os tempos e todas as pessoas. A primeira pergunta que Jesus fez é fundamental: “O que vocês procuram?”. Essas são as primeiras palavras de Jesus no Evangelho de João. Uma pergunta muito importante para todos nós hoje: o que é que nós procuramos na vida? O que é o mais importante para nós? Onde procuramos nossa felicidade e realização? Não é uma pergunta meramente teórica, é a base de nossa vivência. Essa pergunta nos interroga, como interrogou os primeiros discípulos, sobre a busca que dá sentido à nossa vida. A resposta dos dois, “Mestre, onde moras?”, mostra que eles queriam criar comunhão com Jesus, pois a frase não significa descobrir seu endereço, mas sua proposta de vida. Ele lança a eles um desafio com o convite: “Venham e vejam”. Em João, “ver” tem o sentido de “crer” (Jo 6,40). Não se trata simplesmente de conhecer a moradia dele, mas algo muito mais profundo: descobrir quem é Jesus, descobrir que Ele veio do Pai e volta para o Pai. Ambos escolhem unir suas vidas e seus destinos a Jesus, pois “ficaram com ele”. Não é possível ser discípulo de Jesus sem que demos tempo para ficarmos com ele: na oração, na reflexão, na leitura de sua Palavra. Mas, para que sejamos discípulos, discípulas, não basta conhecer Jesus de uma maneira intimista e individualista. Logo, André procura partilhar sua descoberta, fazendo com que o próprio irmão chegue a conhecer Jesus. Hoje também é fundamental que os cristãos testemunhem Jesus, para que outros possam crer nele; e esse testemunho é dado muito mais por nossa maneira de viver e agir do que com nossas palavras. O terceiro discípulo do texto é Simão, que ganha o novo nome de “Pedro”: mudar o nome de uma pessoa na Bíblia, muitas vezes, significa uma nova identidade, uma nova vocação (Abrão, Jacó, Sarai, etc.). Pedro vai dar muitas cabeçadas antes de descobrir sua verdadeira identidade. Aliás, somente a encontra no fim do Evangelho, no capítulo 21, quando confessa seu amor incondicional por Jesus e pela comunidade, e ouve o convite definitivo do Mestre: “Siga-me”. Pedro simboliza a experiência de todo discípulo. O seguimento de Jesus é uma caminhada de uma vida toda, com muitos erros e desvios. Mas o amor incondicional de Deus é capaz de vencer todas as fraquezas e pecados. Ser discípulo é um aprendizado permanente. Para que façamos essa caminhada, é necessário que sigamos os passos dos primeiros discípulos. Que saibamos com clareza o que procuramos na vida, que busquemos criar comunhão com Jesus e com a sua comunidade, e que gastemos tempo com ele. Assim teremos a alegria imensa de fazer a grande descoberta da vida e, como os discípulos, chegarmos a realmente “crer nele”, não de uma maneira teórica e difusa, mas por uma experiência real do Deus da vida, encarnado em Jesus de Nazaré. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.