A mística pascal em nossas madrugadas

Vivemos a mais importante celebração do calendário litúrgico anual: a Páscoa do Senhor. Depois de dois anos sem as celebrações nas igrejas, devido à pandemia, tive a impressão de um povo mais “entusiasmado” (inclusive no sentido original dessa palavra) na Semana Santa. Já nestas primeiras linhas, saúdo os cientistas e os muitos outros profissionais envolvidos na vacinação contra a famigerada covid-19. Sem esse recurso bendito, como estaríamos agora? Uma percepção que tive, pelo menos nas comunidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde sirvo como diácono da Igreja, é a admiração de muitas pessoas, inclusive ministros e agentes de pastorais experientes, diante da liturgia destes dias. Descobri que muitos jamais haviam participado de um Tríduo Pascal completo. Para meu espanto, para dizer pouco, havia até idosos que nunca estiveram numa Vigília Pascal, a mais bela liturgia do ano, realizada na noite do sábado (para a Igreja, já o domingo). Assim, vem a meu coração o Evangelho proclamado na manhã do Domingo de Páscoa (João 20,1-9). Eu gostaria de sublinhar o primeiro versículo: “No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo”. A madrugada pode dizer bem mais que um período do dia. Dependendo do enfoque, ela pode ser ainda a noite, com suas sombras, medos, obstáculos; ou pode ser a antessala da claridade, a expectativa da luz que virá em breve e trará segurança e ânimo. No início do trecho, a madrugada para Maria Madalena é o cenário das trevas. Certamente ainda estão fortes em sua lembrança as imagens bem nítidas da violência cometida contra o Mestre. No interior da discípula, uma tempestade talvez de revolta contra os companheiros de caminhada que abandonaram Jesus numa hora difícil, decepção pela aparente queda do projeto de Cristo devido à injustiça das autoridades do Templo e de Roma, e de espanto ao testemunhar a dor de Maria, a Mãe do Senhor. Eis a assombrosa madrugada! Essas horas, contudo, também são o prenúncio do Sol. Se nosso olhar, nosso espírito está voltado para o nascente, a perspectiva é outra. Isso vale para nossa vida. Nos instantes de escuridão, nossa fé precisa nos levar a acreditar na vitória das luzes. É esse o espírito da Páscoa. Não uma vitória qualquer, mas aquela carregada de crescimento, aprendizado (às vezes, doloroso), libertação daquilo que nos diminui como seres humanos. Madalena, ao identificar o túmulo violado, ainda sob o pavor das trevas, pensa ter havido um roubo. Conforme chega o dia, a esperança começa a vencer ao horror. Por fim, a Apóstola dos Apóstolos tem a experiência do encontro com o Senhor, segundo outras narrativas, amedrontando quem ainda não passa por esse mistério (outros discípulos levam um susto ao ouvir o depoimento das mulheres). O tenebroso véu da pandemia nos deu e ainda nos força a muitas lições. Mas talvez tenhamos aprendido a rever muita coisa, tal como os idosos que se encantaram com a beleza da Vigília Pascal; até este ano, inédita para eles. Quiçá partiriam deste mundo sem a terem festejado. Que Deus nos permita, no próximo ano, termos mais segurança para podermos retomar todos os gestos litúrgicos possíveis e, claro, as doces tradições populares, por ora limitadas pelos cuidados sanitários. Mais pessoas se encantem com uma festa de uma semana de semanas! Páscoa não pode ser uma ideia bem emaranhada da teologia ou mote para consumo, mas experiência bem concreta. Muitos homens e mulheres entre nós permanecem encerrados nos mais diversos túmulos. Que a mão de Deus e nosso testemunho de fé na vida, na justiça e na paz reergam das sombras da morte nossa sociedade. Um santo e feliz Tempo de Páscoa! Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das SSpS.
8º Domingo do Tempo Comum

“A boca fala do que o coração está cheio”Lucas 6,39-45 Um dos principais sinais de fidelidade dados por um verdadeiro discípulo ou discípula de Cristo é a coerência entre discurso e gestos. Esse é o tema central do Evangelho na liturgia deste 8º Domingo do Tempo Comum. Por várias vezes, a Palavra de Deus nos alerta para a tentação de sermos meros adeptos de uma filosofia, uma ideologia, uma teologia estéril. Nossa missão é seguir os passos de uma pessoa: Jesus. Originalmente, a palavra “hipócrita”, de origem grega, referia-se, entre outros significados, a “ator”. Esse artista “transforma-se” em um personagem, quase sempre bem diferente da pessoa que o interpreta. No maravilhoso mundo das artes, é algo comum, mas não o deveria ser para a realidade de um batizado, batizada. A passagem contemplada neste domingo é a conclusão do ensinamento do Nazareno aos recém-chamados discípulos, conhecido como o “Discurso da Planície”, característico do Evangelho de Lucas (em Mateus, ocorre na montanha). Após escolher os que o ajudariam pastorear o povo, o Senhor lhes dá várias instruções e advertências as quais valem também para nossos tempos (veja os evangelhos dos dois últimos domingos). A primeira é estar de olhos abertos para conhecer os caminhos e orientar os irmãos e irmãs confiados a nós. É necessária a vigilância do discipulado, obtido sobretudo na escuta atenta, na oração, no estudo. Caso contrário, tudo se torna apenas discurso, levando à ruína os “guias-personagens”, os guiados e a própria mensagem, que se torna vã (vers. 39). A outra é reconhecer quem é o verdadeiro mestre, não nos colocando em seu lugar. Cada um, à sua maneira, é chamado, chamada a colaborar na obra do Senhor (e não a nossa), por isso devemos ter o cuidado de não falar por nós mesmos, ocultando o exemplo e lições do próprio Filho de Deus. O legítimo discípulo deve ter a humildade de colocar-se aos pés de Jesus para receber a boa instrução e, assim, agir como o Mestre (vers. 40) (veja também Lucas 10,38-42). O terceiro alerta diz respeito à hipocrisia, ou seja, ser um discípulo apenas na aparência, cometendo os mesmos erros das autoridades religiosas judaicas daquele tempo. Quem age assim é levado a achar-se superior aos outros. Essa era uma fraqueza daquele povo que, com soberba, sabia-se o escolhido de Deus, mas se esqueceu de ser luz das nações (Isaías 42,6; 49,6). Infelizmente, muitos dos primeiros seguidores de Jesus herdaram esse raciocínio, por isso o Mestre os adverte para esse perigo. Vestir-se desse personagem leva a pessoa a ignorar as próprias falhas e a julgar e condenar o próximo, muitas vezes com fraquezas bem menores. A hipocrisia é a trave a prejudicar a visão. Nestes nossos tempos de julgamentos rápidos, superficiais, quase sempre sem a devida base, nesta era de curtidas, “descurtidas” e “cancelamentos” em um clique, as palavras do Senhor soam atualíssimas. É um grande contratestemunho saber de cor rubricas e cânones, mas não ter sequer ideia de quantos irmãos e irmãs estão feridos pelos arredores, ter destreza para buscar os “abusos litúrgicos” e os “relativistas”, mas ser conivente com situações de miséria e injustiça. Em nome de um “zelo” pela Igreja, ser lobo e não ovelha. Nunca é demais recordar: o sermão da planície foi dirigido antes aos discípulos e discípulas, de ontem e de hoje. Uma das revoluções do cristianismo foi dirigir o olhar também para nossa essência, figurada como o “coração”. O que fazemos ou falamos deve refletir o profundo de nosso ser. Não há espaço para encenação, mas para uma sacratíssima autenticidade. “Toda árvore é reconhecida pelos seus frutos” (vers. 44). De nós deve emanar o bem, mesmo nos desafios (veja a primeira leitura deste domingo: Eclesiástico 27,5-8), pois somos convocados a aprender com o Mestre, o Senhor da Vida. Iluminados pelo Evangelho, esta é uma ocasião para nos ver no espelho, avaliando se nossas ações condizem com nossas palavras e fé. Quais frutos nós e nossas comunidades têm produzido? Com que credibilidade anunciamos o reinado de Deus? Estejamos despertos e peçamos a força e a graça de pregarmos, com nossa própria vida, o verdadeiro Evangelho. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das SSpS.
7º Domingo do Tempo Comum

“Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso”Lucas 6,27-38 O Evangelho na liturgia deste 7º Domingo do Tempo Comum nos traz a proposta de Jesus para uma verdadeira revolução. Mais do que ensinar, o Senhor nos convoca a quebrar as espirais do mal e reforça: o ódio definitivamente não é sua proposta, e sim o amor e o perdão. É importante recordar: a passagem se dá no contexto do famoso sermão das bem-aventuranças, proclamado no domingo anterior, o mais sublime manual de santidade. Os ensinamentos destacados na passagem de hoje foram guardados com muito carinho pelos primeiros cristãos, vítimas principais da intolerância religiosa e política de seu tempo. Se eles tivessem agido na mesma medida de seus perseguidores, provavelmente a proposta de Jesus não teria tido a mesma força. Os cristãos seriam apenas mais um grupelho, pois dariam um contratestemunho e estariam desacreditados ao dizerem “Deus é amor” (cf. 1Jo 4,8b). Vale como nunca, porém, o chamado ao perdão e ao amor, sobretudo hoje, no cenário de polarização, julgamentos rasteiros e gratuitos, muros e intolerância em que nossa sociedade vive. O amor e o perdão sem exigir contrapartida devem ser iniciativa dos discípulos do Senhor. Os seguidores de Cristo são aqueles, aquelas que precisam interromper em si correntes de ódio, quebrar os círculos de maldade. Não se deve esperar isso de senhores da guerra, de idólatras cultuadores da morte, do dinheiro, do ódio, da injustiça, e até daqueles cuja fé é cambaleante ou egoísta. Quem caminha com o Senhor deve se preparar para a grande chance de o perdão e outros gestos de amor não serem caminhos de mão dupla. O afeto do próprio Deus em relação a seus filhos e filhas é assim. É concedido a nós gratuitamente, pois temos poucas condições de retribuir, mesmo numa proporção aproximada, o amor do Pai por nós. Ainda assim, Jesus nos aponta o Pai do Céu como modelo, pois espera que tenhamos o mesmo espírito uns para com os outros. A sentença do Mestre, “Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso” (Lucas 6,36), presente na passagem contemplada neste domingo, é considerada uma espécie de resumo do Evangelho de Lucas. Jamais essa expressão deveria ser pronunciada distraidamente pelos batizados e batizadas. Colocá-la em prática nos exige coragem e, ao mesmo tempo, ela nos conforta. Jesus nos revela um Deus companheiro (ou seja, partilha conosco do mesmo pão) do ser humano e que não se deixa deter por regras de morte e preconceitos, mas acalenta seus filhos e filhas; e pede de nós o mesmo em favor do próximo. Orar pelos inimigos e até poupá-los quando a vingança é oportuna (veja a primeira leitura deste domingo) são gestos dificílimos, mas podem ser portais para a perfeição cristã. Grande parte dos especialistas de vários campos da psique afirmam que atitudes nobres como o perdão, a gratidão e a solidariedade beneficiam primeiramente quem os pratica. Talvez não se espere um perdão amnésico, mas feito na concretude de nossos limites, até não se abrindo mão da legítima justiça. Já faz algumas décadas, somos bombardeados por programas policiais pseudojornalísticos, cuja especialidade é difundir o ódio. Não apresentam propostas sérias de diminuição da violência, ignoram as reais causas do mal, tentam vincular os pobres com a delinquência, virando as costas para os grandes malfeitores. Nisso, somos levados a participar de julgamentos precipitados, feitos sob as rédeas de nossos instintos e não na serenidade. Numa sociedade livre, esses arautos do sangue têm o direito de mostrar o que querem, mas isso não significa que tenhamos a obrigação de dar audiência ou perder nosso tempo com esse tipo de conteúdo. Passou da hora de colocar o ódio para fora de nossas casas, de nossa sociedade, questionar a respeito de quem ganha com o medo e a ira. É dever dos cristãos fomentar boas ideias de paz (a justiça restaurativa, por exemplo, cultivada pelas irmãs servas do Espírito Santo), praticar ações de socorro a sofredores de todas as classes, instaurar um mundo que seja sinal do reinado de Deus. Que o mundo volte a admirar-se ao reconhecer os discípulos e discípulas de Cristo que evangelizam pelo exemplo. “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (João 13,35). Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das SSpS.
Simão Cireneu, os enfermos e a gratidão de Deus

Em 11 de fevereiro, comemora-se o Dia Mundial dos Enfermos. É um momento oportuno para refletir sobre o significado da dor para a espiritualidade cristã. Antes, é bom reforçar: nestes nossos tempos, o tabu já não é mais o sexo, mas a morte, a enfermidade, o luto e tudo o que vai contra o mundo cultuador de aparências. Assim, as limitações e finitudes dos outros estarão em bom lugar se afastadas dos olhos dos “sãos”. No contexto cristão, contudo, a dor tem um sentido mais profundo. Diferentemente da sociedade do produzir, na qual o enfermo é tido como um peso, uma “peça defeituosa”, pelo olhar do cristianismo, aquele que sofre tem uma incumbência singular e, ao mesmo tempo, desafiadora. Para entender um dos olhares cristãos sobre a dor, voltemos a uma célebre sexta-feira de quase dois mil anos atrás, em Jerusalém. Depois de passar por um dos julgamentos mais questionáveis da história, Jesus foi condenado a morrer na cruz. Segundo os evangelhos, durante o caminho do Messias ao Calvário, os soldados obrigaram um homem que voltava do campo a carregar o pesado madeiro, pois tinham receio de o Nazareno não ter condições de chegar ao fim do sinistro itinerário. Mesmo forçado, Simão, da cidade de Cirene, ajudou Cristo a cumprir a Via Dolorosa. Talvez por gratidão dos primeiros discípulos, aquele trabalhador teve o nome imortalizado na história da salvação (cf. Mt 27,32; Mc 15,21; Lc 23,26). É possível fazer um paralelo entre o esforço do Cireneu e o dos doentes. Uma interpretação diz que os sofredores em geral, entre eles os enfermos, são associados à cruz de Cristo. Como Simão, que fez uma “caridade” sem querer, quem pena com a dor não escolhe passar por ela, mas forçosamente tem de cumprir essa tarefa. Numa perspectiva de fé, contudo, é reconhecido com amor por Deus, como o foi com o Cireneu. Poderíamos dizer que, nesse ponto de vista, o “dolente” (ou seja, quem sente dor) seria da “tropa de elite” divina, pois participa do sacrifício do Senhor em uma das horas mais importantes. O legítimo discípulo, discípula de Jesus, no entanto, não é conformista com a dor. Já neste mundo, tenta antecipar, com o próprio testemunho, o esperado reinado de Deus. Na lógica da fé, não há dor no Paraíso. Por isso, quem procura seguir os ensinamentos de Jesus não admite sistemas de saúde precários, deficiência na prevenção, negacionismos e o descaso contra os enfermos e os profissionais que deles cuidam. Lutar em favor dos muitos crucificados e crucificadas é a outra forma de o cristianismo ver a dor. Agir “para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10) é uma legítima tarefa cristã. O próprio Cristo tinha grande apreço pelos padecentes, e não é difícil achar trechos dos evangelhos em que o Senhor cura, conforta, alivia a dor tanto física quanto espiritual e social. Ele é o próprio exemplo para seus seguidores, seguidoras fazerem multiplicar, desde hoje, a alegria eterna, numa terra sem males (pelo menos os evitáveis), sem se esquecer da dignidade dos que sofrem. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das SSpS.
Batismo: missão de “amar como Jesus amou”

Com a celebração da Festa do Batismo do Senhor (em 2022, no dia 9 de janeiro), a liturgia católica conclui o ciclo do Natal. Esta é uma oportunidade de aprendermos muito ou até recordar algumas das bases de nossa fé. É claro: não pretendo nem sei dizer sobre tudo o que essa data representa, mas eu gostaria de aproveitar para dar um enfoque em nosso próprio batismo. Dias atrás, alguém me perguntou qual era meu santo de devoção. Confesso que tive dificuldades para responder, pois eu gosto e tento ser amigo de todos eles. Conto com o modelo e a intercessão de cada um, cada uma. O tema, contudo, inquietou-me por um bom tempo. Depois de pensar bem, eu descobri ser um devoto do batismo, por tudo o que ele implica em nosso elo com Jesus. Estranho? Por analogia, não! Conheço muitos devotos da Eucaristia, por exemplo. A liturgia batismal, seja de adultos, seja de crianças, é impressionante pela riqueza dos ritos. Um tesouro! Lamento demais ao constatar que muitas comunidades, apesar da boa vontade, descuidam da catequese batismal (pobremente chamada “curso de batismo”) e da própria cerimônia. É comum ver improvisos, catequistas ríspidos com as famílias, ministros presidentes no “piloto automático”, pais e padrinhos alienados do que está ocorrendo naquele instante. Uma pena! Uma lástima! Uma tragédia! A palavra “batismo” tem origem na língua grega e significa “mergulho”, “banho”. O dia em que recebemos esse sacramento é único em nossa vida. Pela concretude desses mistérios, diante de nossos olhos, os neófitos são mergulhados em Cristo, encharcados de Jesus. O útero da Mãe Igreja dá à luz, à Divina Luz, seus filhos e filhas. Um legítimo parto; às vezes, até com o choro do “recém-nascido”. É a hora em que somos “tatuados”, sinalizados, sacramentados com a marca inapagável em nós, mesmo se nosso nome for riscado de um registro formal. É também quando nós, os ramos, somos “enxertados” em Cristo, a videira (João 15,1-11). Isso significa que a seiva de Jesus passa por nós, e a perfumada força do Senhor nos nutre. Passamos, portanto, a ser membros de um magnífico corpo, cuja cabeça é Cristo (1 Coríntios 12,12-13). Tamanha delicadeza de Deus também nos faz assumir compromissos. Recordo aqui os versos da famosa canção de Padre Zezinho que resumem boa parte de nossa vocação batismal: “Amar como Jesus amou, sonhar como Jesus sonhou, pensar como Jesus pensou, viver como Jesus viveu, sentir o que Jesus sentia, sorrir como Jesus sorria”. Eis nosso chamado! No início da Igreja, esse sacramento era denominado “iluminação”. Assim, o neófito recebia (recebe) a luz de Cristo para iluminar o mundo. Onde estiver, o batizado precisa ser sinal de Jesus, ser luz no trânsito, no trabalho, em casa, na escola, nos momentos de lazer, até na igreja… Em resumo, o iluminado, iluminada por Cristo tem sempre o dever de, ao sair de um contexto, deixar tudo melhor do que quando chegou. Batismo não é teoria ou formatura, é prática! Para concluir esta breve exposição sobre alguns dos muitos sinais da liturgia batismal (reforço: a beleza dela é incrível!), eu gostaria de destacar a unção com o crisma. A palavra “cristo”, também de origem grega, significa “ungido”. Provém de “crisma” (“óleo”). Ao sermos ungidos, nós nos unimos a Cristo também por esse aspecto. É outro sinal visível de que somos colocados no mesmo “molde” (configurados) do Senhor (Romanos 8,28-32). Passamos a fazer parte do povo de Deus e podemos chamá-lo de “Papai”. O batismo é a grande comunhão espiritual com Jesus. Bem diferente do que andam difundindo por aí por liturgias transmitidas. Uma pena existir um grande número de cristãos, das mais diferentes denominações, sem a mínima ideia da riqueza do batismo. Que nossas comunidades de fé e seus animadores avaliem para já a forma com a qual esse sacramento é celebrado. Neste novo ano e por toda a nossa vida, possamos emanar, com nossos gestos e palavras, a luz que vem do Senhor! Dedico este texto ao cônego João Parreiras Villaça que, num domingo de carnaval, mergulhou-me em Cristo, e às muitas e muitas crianças as quais tive o privilégio de também encharcá-las de Jesus. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das SSpS.
O presente de Isaías para este Natal

Os últimos anos têm sido muito difíceis em vários aspectos. Mesmo antes da famigerada pandemia de covid-19, nosso país já passava por instabilidades importantes na política, na economia, na segurança pública, na saúde, na educação, nos gestos de gentileza, na religião, nas ideias. Reconheço ser estranho começar um texto de Natal recordando essas mazelas, mas elas vêm ao encontro de um trecho de Isaías que pulsa em meu coração nestes dias. É o início da primeira leitura da liturgia da noite de Natal: “O povo que andava na escuridão viu uma grande luz; para os que habitavam na sombra da morte, uma luz resplandeceu” (Isaías 9,1). Que grande presente esse o de Isaías! Um profeta, uma profetisa de verdade costuma nos tirar do lugar, nos incomodar, seja “puxando nossa orelha”, seja nos animando. Parece que estamos aceitando a vitória das trevas e da morte! Ainda hoje, há pessoas comemorando “apenas” dezenas de mortes diárias causadas pelo covarde coronavírus e seus aliados. Verdadeiramente, andamos à sombra de muitas mortes. Perdemos milhares de nossos irmãos e irmãs devido à pandemia, ao descaso, à violência, à fome e muitos outros males, as também perdemos a esperança, as águas, os animais e as matas. Não deveríamos chegar a esta particular solenidade do Natal do Senhor apenas mandando, via redes sociais, figurinhas pré-fabricadas, quase sempre com as cafoníssimas neve, renas, frases feitas, estrelinhas piscando… Este Natal precisa ser o marco para a ressurreição de muitos vivos e de virtudes como a esperança e a verdade, o valor a trabalhadores, aos pobres e “lascados”, à ciência, a toda a Criação. Jesus já veio como um sofredor. Veio sem as mínimas condições, num curral, e foi colocado num comedouro (eis os verdadeiros termos!), porque não havia lugar para seus pais na hospedaria (Lucas 2,7c). Nessa escuridão experimentada por ele próprio, também foi consolado pela luz do cuidado de Maria, que o enrolou em faixas e o colocou na manjedoura (Lucas 2,7b), talvez o lugar menos inseguro no cenário. Foi visitado por pastores e estrangeiros. Naquelas trevas, a luz da ternura e do amor venceram. Eis a Boa-Nova! Na noite de Natal (dulcíssima, apesar de tudo), não podemos cochilar diante dessas leituras carregadas de vida, santa subversão e ternura, particularmente a esse versículo do profeta. Ele não diz “verá uma grande luz”, mas com a convicção dos grandes na fé, usa outro tempo verbal: o pretérito perfeito. Um fato passado bem delimitado no tempo. Vimos o brilho, mas ouso dizer: continua a surgir diante de nós uma grande luz. Não fechemos nosso coração, nosso olhar para esse resplendor. Deveríamos repetir o trecho como um mantra, a começar de agora até quando julgarmos termos o mínimo de estabilidade e paz. Apesar de tudo, vamos nos permitir um santo e esperançoso Natal. Que as luzes e a vida vençam! Abramos nossos olhos para a glória do Senhor! Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das SSpS.
A santidade cristã também passa pela gentileza

O mês de novembro traz duas comemorações as quais mereceriam ser unidas. A primeira é a Solenidade de Todos os Santos, que, no Brasil, é uma data litúrgica móvel, podendo ou não ser no dia 1º. A outra é o Dia Mundial da Gentileza, 13 de novembro, celebração menos conhecida. Estou longe de ser um lorde, contudo acho difícil compreender um autêntico espírito cristão afastado da gentileza. Como pode um batizado ou batizada responder ao chamado à santidade e, ao mesmo tempo, não ter o mínimo de doçura no trato com o outro, em qualquer ambiente? Isso independe de qual função se exerce, seja na vida eclesial ou civil. Creio que não estou sozinho nesse pensamento. Por diversas vezes, em discursos, homilias ou em documentos, o Papa Francisco critica os cristãos mal-humorados, “que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa” (Evangelii Gaudium, 6). Entre outros predicados, o Pontífice coloca a mansidão, a paciência, a alegria e o humor como algumas das características da santidade no mundo de hoje (Gaudete et Exsultate, cap. IV). Para buscar fontes ainda mais profundas, é interessante recordar a narrativa de um dramático naufrágio do qual São Paulo foi vítima. A passagem está nos Atos dos Apóstolos, do capítulo 27 até o versículo 15 do capítulo 28. O trecho faz muita questão de reforçar a gentileza do povo da Ilha de Malta, aonde os náufragos chegaram e foram acolhidos com “extraordinária gentileza” (At 28,2). Naquele lugar, o Apóstolo deu atenção aos enfermos e, com a graça de Deus, realizou curas. É impossível não recordar também a passagem do Evangelho de Lucas, capítulo 17, versículos 11 a 19. Dos dez leprosos curados por Jesus, apenas um voltou para agradecer ao Senhor e reconhecer seu poder. Esse era justamente um samaritano, um “estrangeiro”. Os outros, “de casa”, apenas foram embora, talvez pensando ter Cristo apenas cumprido sua “obrigação”. A iniciativa do homem chamou a atenção de Jesus, mostrando que a gentileza é, sim, um valor divino. Gestos educados podem fazer muita diferença no dia a dia. Em uma sociedade doente em todos os sentidos, faz muita diferença usar expressões simples, mas poderosas, como “por favor”, “muito obrigado”, “com licença”, “desculpe-me”, “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite” (quanto a estas três últimas, não me refiro às famigeradas mensagens pré-fabricadas espalhadas por redes sociais). Incluo aqui a nobilíssimo gesto de pedir e de conceder a bênção, tal como em outros tempos. Essa prática, carregada de valor, começa liturgicamente no dia do batismo e deve-se estender por toda a vida. Expressões e gestos gentis exigem autenticidade. Quando, por exemplo, deseja-se um “bom dia” a alguém, isso precisa soar como uma prece. Que “o espírito concorde com a voz”, conforme ensina São Bento. Aí está a diferença de uma gentileza cristã. Não desperdiçar palavras, sobretudo as de bendizer. Em meu ministério de diácono, vez ou outra, sou chamado a abençoar casas comerciais. Quando estou diante das portas desses estabelecimentos, fico a imaginar as pessoas passando por aquele lugar. Assim, costumo sugerir aos funcionários que evitem cara fechada para quem entra. Longe de ser uma atitude mercadológica, a acolhida é um dom cristão. Talvez o leve sorriso daqueles trabalhadores e trabalhadoras será a única demonstração de doçura que um cliente poderá ver ao longo do dia. Embora o comprador possa não retribuir o cumprimento ou ser de espírito “poluído” pela crueza, sempre os encorajo a insistir na prática. Se isso vale para uma loja, um supermercado, um shopping, o que dizer de uma igreja, uma obra social, uma secretaria, uma escola? Nunca é demais reforçar: a santidade é para ser vivida no dia a dia, com os pés no chão, em situações reais, quiçá no silêncio do fermento na massa. Nosso mundo precisa de batizados e batizadas humanamente gentis e santos. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das SSpS.
31º Domingo do Tempo Comum

Amarás o Senhor teu Deus. Amarás o teu próximo.Marcos 12,28b-34 Depois de uma caminhada marcada por muitas lições, altos e baixos quanto ao seguimento por parte dos discípulos, mudanças de estratégias, Jesus chega a Jerusalém. Nesse lugar, Ele seria julgado e vitimado pelos poderes políticos e religiosos e, em termos mais messiânicos, no trono da Cruz, assumiria seu reinado. Neste 31º Domingo do Tempo Comum, vemos, no diálogo do Senhor com o Mestre da Lei, mais uma grande catequese que Marcos dirige a suas comunidades e a nós, neste terceiro milênio. O evangelista apresenta um diálogo entre dois mestres. De um lado, um representante da religião oficial; de outro, Aquele que não veio abolir a Lei e os Profetas, mas para dar-lhes pleno cumprimento (cf. Mateus 5,17). Diferentemente de outras passagens, nesta não há uma controvérsia entre Jesus e o especialista da Lei. Marcos narra um diálogo honesto e desarmado de ambas as partes. Quando a busca da verdade é feita na intenção de evoluir e não por vaidade, todos saem ganhando. Naquele tempo, existiam 613 mandamentos segundo a tradição dos mestres de Israel. Deles, 365 diziam o que não se deveria fazer, e os outros 248 determinavam o que deveria ser feito (cá entre nós: na Igreja de hoje, temos muito mais normas, por isso é bom refletirmos primeiro antes de criticar o antigo costume judeu). Entre esses mestres, havia divergências em relação a qual dessas prescrições seria mais importante. Para um grupo, guardar o sábado era a principal, pois o próprio Criador cumprira esse preceito. Já outra linha defendia não haver uma hierarquia, pois mandamento era mandamento, e pronto! Jesus, como um bom judeu, conhecia o principal, pelo menos no que se refere ao costume diário de recordar, em oração, a sentença presente em Deuteronômio (6,4-5): “Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e com toda a tua força”. Até então, nada de novidade. A inovação foi o elo que Jesus, usando o verbo “amar”, deu ao preceito de amar também ao outro e a si próprio: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, baseando-se em Levítico (19,18). Colocar Deus, o próximo e si próprio em “seus devidos lugares” só pode ser feito sob a chave do amor. Algo a merecer atenção quanto ao “amar a si próprio” é que, naquele tempo, não havia o conceito psicológico de autoestima, como modernamente conhecido. Por isso fica superficial, pelo menos com base na passagem de hoje, alguma meditação mais aprofundada nesse sentido. Boa parte da resposta do mestre da Lei foi uma repetição das palavras de Jesus, um estilo bem próximo ao do evangelista Lucas. Mas há de se notar que a réplica do escriba foi respeitosa. O homem ainda acrescentou outra parte, recordando que o verdadeiro culto ao Senhor seria baseado no amor. Amar a Deus, ao próximo e a si “é melhor do que todos os holocaustos e sacrifícios” (vers. 33). Esse trecho é inspirado na profecia de Oseias (6,6): “Porque é amor que eu quero e não sacrifício, conhecimento de Deus mais do que holocaustos”. O elogio de Jesus ao mestre da Lei, dizendo que este não estaria longe do Reino de Deus, pode trazer importantes informações catequéticas, bem ao estilo de Marcos. A imagem é curiosa, dando a impressão de esse reino ser um lugar, ideia talvez mais fluida nas comunidades assistidas por esse evangelista. Estar perto do Reino não significava que aquele homem já o havia alcançado. Ele dera passos importantes, mas ainda não chegara “lá”. O evangelista estava abrindo uma concessão, pois, nas passagens seguintes, expôs severas críticas ao modo como os chefes da religião exploravam o povo: “Tomai cuidado com os doutores da Lei!” (Marcos 12,38 – um dos temas do Evangelho do próximo domingo), resume o tom das denúncias em sequência. Quem sabe não haveria membros da comunidade marcana (tal como nas de hoje) que estavam apenas “próximos” do Reino? O amor, portanto, é a coluna do ensinamento do Senhor neste domingo. Que, por nosso amor aos irmãos e a nós mesmos, testemunhemos, sobretudo com nossos gestos e na simplicidade do cotidiano, o amor a Deus. Com a graça divina, possamos antecipar a justiça do Reino e alcançá-lo um dia. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo.
Contemplar a Cruz e socorrer os crucificados

A Igreja celebra a Festa da Exaltação da Santa Cruz em 14 de setembro. Até a reforma do calendário litúrgico determinada pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), era celebrada em 3 de maio, com o nome de “Invenção” da Santa Cruz, recordando a “descoberta” da Vera (verdadeira) Cruz por Santa Helena, em 337. Alguns lugares de nosso País preservam a antiga data, sobretudo onde a dulcíssima fé popular se destaca. De qualquer forma, é uma oportunidade para meditarmos um pouco sobre o que representa a Cruz para nós, cristãos. Por motivações diferentes, vez ou outra, os crucifixos são deixados de lado, tanto em ambientes laicos quanto, espantosamente, nos sagrados. Esse esconder o crucificado pode ter um sentido bem mais grave, dramático até, do que apenas questões de gosto estético ou arroubos modistas. A Cruz começou a ser usada como símbolo cristão mais difuso a partir do século III. No tempo de Jesus, a pena de crucificação era a mais grave do Império Romano e causava enorme comoção. Costumava ser reservada a criminosos mais contumazes e presos políticos (como Jesus), demonstrando força e desprezo ao condenado, intimidando os mais atrevidos. Segundo antigos registros, os carrascos que executavam o sentenciado quase sempre eram os mais experientes, tal era o horror da cena. Os primeiros cristãos, portanto, tinham boas justificativas para terem pavor desse instrumento. Na 1ª Carta aos Coríntios (1,23), contudo, São Paulo afirma que ele e os outros evangelizadores pregavam Cristo crucificado, “escândalo para os judeus e loucura para os pagãos”. Ele se referia ao verdadeiro Messias, não ao “general” esperado pelo povo, mas, conforme o próprio Cristo, aquele que “devia sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei; devia ser morto e ressuscitar depois de três dias” (Marcos 8,31). Em tempos de pregações sobre busca de “prosperidade”, sucesso, “vitória”, as palavras de Paulo e do próprio Cristo devem ser bem incômodas para algumas “seitas” dentro e fora do catolicismo. Tirar o Crucificado diante dos olhos pode nos levar a uma religião alienada ou ingênua. Ouso aconselhar que todo batizado passe algum tempo contemplando a Cruz. É impressionante e até constrangedor ver que nosso Deus, nosso Mestre, nosso Pastor não aparece numa ilha tropical, num iate, num camarote ou desfilando sobre um elegante e badalado tapete vermelho. Em nosso batismo, fomos enxertados primeiramente nesse Cristo que passou pela experiência da humilhação, da dor, para, depois, ser ressuscitado pelo Pai. Mirar com atenção a Cruz é um gesto piíssimo, mas exigente. O corpo nu, sujo e ensanguentado do Senhor é o sacramento dos muitos crucificados, alguns bem perto de nós. Essa contemplação precisa abrir nossos olhos e nosso espírito aos pobres, aos enfermos, aos fracos, aos desempregados, às mulheres agredidas, às crianças, aos sem acesso à escola, segurança e saúde, aos “lascados” de nossa sociedade. Ignorar a Cruz, substituindo-a por uma imagem de Jesus que parece sair do banho, pode levar a Igreja a distrair-se da missão e jogar para debaixo do tapete os sofredores, os crucificados de nosso tempo. Celebra-se uma barulhenta ressurreição que não passa pelo Calvário. Uma comunidade que verdadeiramente se configura a Jesus pode apropriar-se das palavras de Paulo: “Com Cristo, eu fui pregado na cruz. Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim” (Gálatas 2,19b-20a). Que bom seria se todos nós pudéssemos pelo menos tentar fazer o Cristo (que passou pela Cruz, reforço), viver em nós. Um fiel, uma família, uma Igreja que tem diante de si a Cruz pode louvar, com toda a dignidade, a Jesus, de cujo peito aberto jorrou a água que nos batiza e o sangue que nos embriaga de alegria e vida. Sem a Cruz, nosso olhar de fé é embaçado. Outra lição da Cruz é a do sacrifício. Quanta gente quer obter o sucesso sem passar pelo esforço, quer ir logo para o Domingo da Ressurreição, ignorando a Sexta-Feira Santa! Daí surgem a corrupção, os golpes, os roubos, o abuso contra o outro. A tão esperada e cantada “vitória que Deus guardou para mim” pede empenho. Horas de estudo e de trabalho, superação de obstáculos, tentativas mil, recuos e avanços, investimento, paciência e muita oração. Que o Senhor Crucificado seja de novo exposto em nossos lares, em nossos locais de trabalho e em nossas igrejas. Ao contemplar nosso silencioso Mestre, o Salvador ferido, de cabeça inclinada e de olhos fechados, talvez entenderemos a lição do Santo Madeiro. Poderemos, assim, exaltar a Verdadeira Cruz ao longo de todo o ano e obedecer às palavras de Jesus: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Marcos 8,34b). Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo.
Conheça oito atitudes de um catequista por vocação

O belo itinerário de agosto, reconhecendo e orando pelas diversas vocações cristãs, encerra-se com o Dia do Catequista, celebrado no último domingo do mês. Com justiça, a Igreja reconhece esse preciosíssimo dom. Ao longo do ano, milhares e milhares de batizados e batizadas, respondendo ao chamado a ser configurados a Jesus, vão ao encontro de irmãos e irmãs, alguns ainda bem pequenos, para instruí-los no caminho do Senhor. Em maio, esse fundamental ofício ganhou novas luzes, quando o Papa Francisco publicou a Carta Apostólica Antiquum ministerium, instituindo oficialmente o ministério de catequista (existente desde o início da Igreja, diga-se). Depois da elaboração do rito pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, as conferências episcopais e as dioceses regulamentarão a norma. Os catequistas não deveriam ser confundidos com professores, mesmo uma pessoa podendo exercer, com grande louvor, as duas funções. A palavra catequese tem origem grega e significa “ecoar”. Aquele ou aquela que se dispõe a esse ministério recebe a sagrada tarefa de “ecoar” não apenas a voz, mas os gestos, o espírito de Jesus. Não é uma mera transmissão de conteúdo, mas um anúncio, com palavras e gestos, de algo a arder antes no peito, após uma experiência de encontro com o Senhor (cf. Lucas 24,13-35). Depois de um tempo e alguns episódios de incompreensão de minha parte, entendi por que se costuma dizer que um catequista jamais tira férias. Claro! Um homem ou mulher, seja jovem ou mais experiente, ecoa Cristo a qualquer momento ou lugar. Quem procura seguir os passos do Senhor não pode (e nem deveria) afastar-se dele. A catequese, de uma forma mais ampla, é uma missão exercida em conjunto. A começar das famílias, depois passando pelo bispo (o primeiro catequista de uma diocese), os presbíteros, diáconos, consagrados e consagradas, e pelo povo de Deus, todos têm o dever de “ensinar” o Evangelho, sobretudo pelo testemunho. Cada um precisa dar sua contribuição. Não adianta se um familiar ensina a uma criança, a um jovem ou mesmo adulto que Jesus é misericordioso, manso e humilde de coração (Mateus 11,29) se, ao chegar à comunidade de fé, esse catequizando é acolhido com rispidez ou indiferença. Por isso, a Igreja entende que todos os batizados são chamados a, de algum modo, serem catequistas. Oito atitudes de um catequista de vocação Voltando-me diretamente a quem exerce esse grandioso ministério (as palavras que conheço são poucas para saudá-los como merecem), eu gostaria de lançar luzes sobre oito aspectos dessa nobilíssima vocação; a maioria inspirados no motu proprio do Papa Francisco. A lista é bem maior, confesso, e não é possível organizá-la por ordem de importância. Fala em nome da Igreja Todo catequista deve ter no coração que nem sempre fala em nome próprio. Pode ocorrer de seu olhar pessoal sobre algum ponto destoar com o da Igreja, baseado na Revelação, na Tradição e no Magistério, mas a palavra do Corpo Místico de Cristo tem prioridade. Cultiva a vida de oração É difícil oferecer com credibilidade aquilo que não se tem. Para ecoar a voz e os gestos do Senhor, o catequista deve ter o propósito de se aproximar o máximo possível de Jesus. Isso se dá em primeiro lugar na oração constante e sincera, na escuta atenta da Palavra, a qual deve cair como semente boa em terra fértil. Nesse ponto, nenhum batizado deveria “tirar férias”. Procura se atualizar A Igreja não é um museu ou um antiquário, e é uma pena muitos cristãos não se darem conta disso até hoje. As teologias evoluem, as liturgias não usam o princípio do “pode/não pode”, e o conhecimento da Bíblia, da Doutrina Social da Igreja e dos dogmas vão se aprofundando ao longo do tempo. A própria catequese passa por atualizações desde os primórdios. Quem se propõe a transmitir a fé precisa estar em dia com as boas novidades. Ao longo da catástrofe da pandemia, muitos catequistas tiveram de se adaptar a novas formas de acompanhar os catecúmenos, os noivos, os jovens e as crianças. Isso, contudo, já ocorria de modo mais ou menos intenso ao longo da história, e é preciso estar de espírito dócil aos ventos do Espírito. Participa na vida da comunidade O catequista, a catequista é parte preciosa da comunidade de fé. É preciso ecoar Cristo primeiramente em casa, depois junto aos outros irmãos e irmãs. Não se pode estar numa bolha, assistindo de longe aos desafios e conquistas do povo. Isso implica também gostar de estar com as pessoas, compreender as fraquezas e o sagrado que elas trazem dentro de si. De modo mais amplo, é necessário estar atento à sociedade como um todo, tentando compreender como o cristão, a cristã pode ser “sal da terra e luz do mundo” (cf. Mateus 5,13-16). Por outro lado, uma comunidade madura também respeita e procura iluminar-se pelo testemunho dos catequistas. Têm equilíbrio O termo é muito genérico, mas eu o compreendo aqui mais no sentido de relacionamento humano. Catequese e mau humor não combinam. É necessário se esforçar para saber lidar com os mais diferentes tipos (não é fácil, eu sei!). Administrar conflitos, saber respeitar as ideias dos outros, ceder, ter uma divina paciência, tudo isso é ser bom pastor, pastora, sinal de um amor que vem de Deus. Sabe acolher O catequista deve ter claro: não cuida das próprias ovelhas, mas daquelas pertencentes a Deus, o Pastor-Mor. Ele confia seus queridos filhos e filhas a esse ministro, ministra. Cada catequizando que chega e suas respectivas famílias devem ser considerados verdadeiros presentes do Senhor. Aos olhos da fé, é o Espírito que os impulsiona a querer conhecer as coisas santas. Saber acolher o ser humano, com suas virtudes e fraquezas, é uma dos mais elementares gestos esperados de um catequista. É modelo de generosidade Um legítimo catequista coloca à disposição dos irmãos e irmãs, da Igreja e do mundo o que tem de melhor. Partilha com generosidade seus dons, talentos, seu tempo. Nesse aspecto, recordo a passagem dos cinco pães e dois peixinhos apresentados ao