Namoro: tempo de carinho, alegria (e atenção aos sinais)

O Dia dos Namorados surgiu como uma data meramente comercial, mas podemos dar-lhe um olhar cristão, como ocorreu com outras celebrações ao longo da história. No artigo, apresentamos 12 pontos (além de um bônus) a serem observados no período do namoro. É uma das formas que encontramos para homenagear os casais que, apesar destes atuais tempos de ódio, divisões e bombas, insistem em testemunhar o amor. Confira!
Fundamentalismo bíblico: quando uma carta de amor vira arma

A leitura fundamentalista da Bíblia insiste em uma interpretação literal, desconsiderando o contexto em que o texto sagrado foi escrito. É preciso estar vigilante! Essa venenosa prática pode transformar em ferramenta de ódio, intolerância e destruição aquilo que veio para ser luz para a humanidade. Saiba mais!
Celebração da Palavra: curiosidades e desafios (II)

A celebração da Palavra é muito familiar a missionários e missionárias, inclusive as servas do Espírito Santo, em todo o mundo. Bendito seja Deus! Na segunda e última parte do texto sobre essa valiosa liturgia, conheça alguns desafios pastorais e veja dicas de obras para aprofundamento.
Mês da Bíblia: a preciosa herança do profeta e do doutor

Desde 1971, a Igreja no Brasil celebra, em setembro, o Mês da Bíblia. Esse período está ligado à memória litúrgica de São Jerônimo, celebrada no dia 30. Conheça algumas curiosidades sobre esse grande doutor da Igreja, tradutor e estudioso da Palavra, e que nos deixou um valioso legado. Saiba mais também sobre o profeta Ezequiel, cujo livro é destacado neste ano.
Equipe de Espiritualidade realiza encontro no Rio de Janeiro

A Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das missionárias servas do Espírito Santo (SSpS) se reuniu, nos dias 21 e 22 de julho, no Colégio Imaculado Coração de Maria (CICM), no Rio de Janeiro-RJ. O primeiro encontro presencial do grupo teve como objetivo fomentar a interação entre os participantes e o aprofundamento na herança espiritual deixada por Santo Arnaldo Janssen e a geração fundadora. Como tem sido prática na Congregação das SSpS, a equipe também é formada por irmãs e leigos. A programação começou com a acolhida da Ir. Maria Inês Aragão, coordenadora. Por meio de videochamada, a Ir. Maria Percila Vieira, superiora da Província Brasil Norte, também saudou os participantes. Em seguida, houve uma reflexão sobre a parábola do semeador, narrada no Evangelho de Mateus (13,1-23). Cada um recebeu uma sacola com um pequeno recipiente, terra fértil, um galho espinhoso, uma pedra, sementes de girassol, pincel atômico e papel. Usando o material, todos deveriam expressar as impressões sobre a passagem. A partilha foi um momento muito rico e emocionante. A Ir. Maria Inês conduziu um estudo sobre o tema “Paixão pela missão em Arnaldo Janssen”. Foi uma oportunidade para conhecer melhor os fundadores e primeiros missionários e missionárias da Família Arnaldina. No sábado, as atividades começaram ainda na madrugada, quando a equipe se dirigiu ao mirante do Parque do Leblon, para acompanhar o nascer do sol. Espontaneamente, os participantes elevaram a Deus uma oração de louvor. Na sequência, houve um passeio por alguns pontos da Cidade Maravilhosa. À tarde, a equipe revisou o planejamento, destacando as prioridades para os próximos meses. Após a avaliação do encontro, a equipe participou da celebração da Palavra. A liturgia do 16º Domingo do Tempo Comum destacou a parábola do joio e do trigo, presente no Evangelho de Mateus (13,24-43). Como é costume na Família Arnaldina, também foi dirigida uma prece especial à Santíssima Trindade. O momento concluiu-se com a bênção e o abraço da paz. Alessandro Faleiro MarquesMembro das equipes de Comunicação SSpS Brasil e de Espiritualidade da Província SSpS Brasil Norte, diácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte.
Eucaristia: enfeitar as ruas também com nosso testemunho

A Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, conhecida também como Corpus Christi, é celebrada com muito carinho pelos cristãos mundo afora. Data móvel, normalmente ocorre na primeira quinta-feira após a Solenidade da Santíssima Trindade, ou, dependendo do costume, no domingo seguinte. Essa liturgia foi instituída pelo Papa Urbano IV, em 8 de setembro de 1264. O objetivo era valorizar e celebrar a presença real de Jesus no pão e no vinho consagrados, uma verdade de fé cultivada com esmero desde o início da Igreja. Devido à importância do tema, o próprio Urbano IV encarregou o grande Santo Tomás de Aquino de elaborar os textos que até hoje são recitados ou cantados na festa. Nesse contexto celebrativo, é importante ampliar a reflexão sobre a Eucaristia, expandindo o tema para além da devoção às espécies consagradas (o que não é pouco). É uma oportunidade de redescobrirmos esse sacramento como ceia pascal, ou seja, sinal instituído por Jesus para marcar a passagem da morte para vida, das trevas para as luzes. É um valiosíssimo bendizer a Deus, ofertar-se ao Pai, partir o pão, acolher e curar. A famigerada pandemia, entre muitas coisas, escancarou uma falha enorme na catequese do povo e mesmo na formação do clero. Infelizmente, constatou-se certa redução da Eucaristia à presença real no pão e no vinho, esquecendo-se do aspecto pascal. Apenas para citar dois “exemplos”, o drive-thru de comunhão e a mal interpretada “comunhão espiritual” (compreendida, sem o devido questionamento, como a vista pela mídia) demonstraram um olhar restrito do que Jesus desejou em favor de seu povo. A ceia eucarística é o sentar-se à mesa, partilhando com o próximo e com, por e no Senhor as conquistas e os desafios da vida. É a hora de alimentar-se das palavras do Mestre (nas quais Ele também está presente de forma real), do pão que dá vida e do vinho que enche de alegria, agradecendo a Deus pelo triunfo da misericórdia, da graça e da justiça. A sagrada refeição é a fonte e o ápice do lava-pés, sinal de serviço. Nunca é demais recordar que tanto o trigo quanto a uva que deram origem às espécies sagradas, frutos da bênção de Deus e do trabalho humano, precisaram ser moídos, esmagados para se tornarem Eucaristia. No serviço, na doação, Deus quis estar entre nós. Corpus Christi nos questiona se o divino dom do qual comungamos nos transforma em Eucaristia em nossa casa, no trabalho, na Igreja, na escola, na política, no trânsito… Caso contrário, nós nos “alimentamos” sem nos “nutrir”. Novamente, temos uma preciosa chance de recuperar um lugar mais amplo desse alicerce que sustenta nossa fé, nossa caminhada de seguidores de Jesus, o Mestre da partilha do pão. Ao viver a Eucaristia, podemos adornar ruas com os tapetes coloridos (admirável gesto, diga-se) e com nosso testemunho, o ano inteiro. Que Jesus nos inspire e siga nos acolhendo no generoso banquete da Palavra, do Pão e do Vinho. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das SSpS.
As três grandes missões dos batizados e o papel da comunidade

Em 2023, a Festa do Batismo do Senhor, uma data móvel, é celebrada em 9 de janeiro. Normalmente, essa liturgia ocorre no domingo, mas, por variações do calendário litúrgico no Brasil, neste ano, cairá numa segunda-feira. Com ela, encerra-se o Ciclo do Natal. No dia seguinte, começa o Tempo Comum (eis uma dica para quem quer saber quando guardar a árvore de Natal e o presépio). Como ocorre com datas importantes da Igreja, sobretudo as que comemoram eventos da vida de Jesus, os ritos são belíssimos. Em muitas comunidades mundo afora, o povo costuma ser aspergido com água benta, e crianças são batizadas. Considero a celebração do batismo uma obra de arte. Se conduzida com o devido esmero, mergulhamos bem na beleza de muitas das bases de nossa fé, na graça de um Deus a nos tocar e a nos confiar algumas nobilíssimas incumbências, visto que somos configurados a quem veio para servir (cf. Marcos 10,45). Eu gostaria de destacar a unção com o crisma, feita logo após o banho na água sagrada. O gesto sinaliza três preciosas missões a emanarem de Jesus: “Que Ele (Deus Pai) as consagre com o óleo santo para que, inseridas em Cristo, sacerdote, profeta e rei, continuem no seu povo até a vida eterna”, diz um trecho da prece recitada nessa hora. Eu gostaria, portanto, de sublinhar, de modo resumido, cada um desses três pontos. 1. Sacerdotes em Cristo Todos os batizados, batizadas, porquanto “enxertados” no Mestre, ganham a dignidade do chamado sacerdócio comum dos fiéis, este que nos une a todos: leigos, ordenados ou consagrados. Pela vocação batismal, somos igualmente filhos e filhas de Deus, mesmo com diferentes responsabilidades. Em Jesus, podemos nos ofertar ao Pai, à Igreja, orar em favor do próximo, assumir o Templo-Cristo. No Senhor, não há mais o véu a nos separar (cf. Marcos 15,38), pelo qual passavam apenas alguns “privilegiados”. 2. Profetas em Cristo As palavras “profeta” e “profecia” andam muito mal-usadas, inclusive entre os cristãos católicos. O termo significa “porta-voz”. O profeta, a profetisa não age ou fala por si, mas como Deus deseja. Exercer a profecia, por atos e palavras, costuma dar trabalho. Muitas vezes, percorrer nos caminhos de Deus significa andar na contramão de várias coisas do mundo, sendo um “incômodo” para os injustos e perseguidores. O profeta anuncia o reinado do Senhor, por ser sábio, sabe falar e se calar na hora certa, também busca antes ouvir e falar com Deus, pede ao Mestre coragem para denunciar as trevas que apequenam o ser humano. 3. Reis em Cristo A terceira missão dos recém-admitidos ao Corpo de Cristo é a de reinar, mas não em trono dourado, e sim na cruz, tal como o Senhor. Os batizados e as batizadas precisam ser os reis, as rainhas do serviço. Esse é o motivo pelo qual os cristãos devem, sim, construir uma sociedade melhor, cuidar do ser humano, da natureza, devem colaborar para uma Igreja melhor, para ela ser, de fato, um sacramento de Deus para o mundo, como deseja o Concílio Vaticano II. O reinado e a profecia em Cristo jogam por terra a famigerada ideia, defendida por opressores do povo e da natureza, de que a Igreja deve se preocupar apenas com temas de sacristia. Apoio da comunidade Como esperar tarefas tão grandiosas de um neófito (palavra de origem grega cujo sentido é “brotinho”)? A própria liturgia batismal dá essa resposta. Ao longo da celebração, pais, padrinhos e outras pessoas são convocados a ajudar os pequenos a crescer na fé, pela observância dos mandamentos e pelo exemplo de vida na Igreja, a família dos seguidores de Jesus. As crianças aprenderão a ser sacerdotes, profetas e reis pelo testemunho dos outros batizados e batizadas. Reforço: estes, solenemente, prometem ser uma comunidade de fé e de amor para os recém-chegados, renunciam ao pecado, a tudo o que causa desunião, ao próprio demônio. Como todos nós perdemos quando essas promessas se tornam apenas palavras soltas, ditas no “piloto automático” ou sem a mínima consciência! O dia do mergulho em Cristo não é uma formatura, mas o início de uma caminhada sem fim. Essa liturgia é uma ótima oportunidade de conversão para os já iniciados. Humildes e frágeis, as crianças, a seu modo, nos questionam sobre como assumimos nosso estado indelével de verdadeiros filhos e filhas de Deus. Volto ao próprio ritual, desta vez a um doce, mas exigente trecho do rito da luz: “Queridas crianças, vocês foram iluminadas por Cristo para se tornarem luz do mundo. Com a ajuda de seus pais e padrinhos (e de todo o povo, eu acrescentaria), caminhem como filhos e filhas da luz”. Alessandro Faleiro Marques
Sete considerações sobre o dom da acolhida

“Jesus acolheu as multidões, falava-lhes sobre o Reino de Deus e curava todos os que precisavam” (Lucas 9,11b). Assim começa a passagem da “multiplicação” dos pães, uma das mais notáveis catequeses eucarísticas do Evangelho. Tudo começa com o Mestre a receber as pessoas, um gesto sacramental a ser praticado também em nosso tempo. A pandemia de covid-19 acabou dando destaque a duas pastorais que, em muitas comunidades, tiveram de ser criadas ou reforçadas às pressas. No isolamento sanitário mais rígido, a Pastoral da Comunicação (a querida “Pascom”) fez chegar a muitos lares as celebrações ou, pelo menos, uma palavra dos evangelizadores a seus irmãos e irmãs. Quando a participação do povo começou aos poucos a ser permitida, foi a vez de a “Pastoral” da Acolhida agir para receber bem e dar segurança a quem chegava, seguindo os protocolos sanitários. Como ocorreu em outros contextos da Igreja, a pandemia revelou algumas coisas soterradas pela poeira da rotina. Em minhas andanças pelas comunidades de fé, noto deficiências importantes quanto à acolhida. Isso tanto da equipe responsável por receber aqueles que se constituirão em assembleia litúrgica, o Corpo Místico de Cristo, quanto de outros servidores e servidoras. Proponho sete considerações sobre esse essencial gesto cristão. 1 – Quem acolhe também celebra Vez ou outra, ouço alguém reclamar não se sentir presente de fato na liturgia logo porque exerceu nela alguma função. Participa, sim, quem fica responsável por higienizar, distribuir algum subsídio, providenciar assentos aos idosos, anotar os pedidos de oração, cantar, organizar o som, a luz e as flores, e muito mais. A palavra “liturgia” indica algo semelhante a “serviço público”, “mutirão”. Pressupõe ação de cada um, conforme o que lhe couber. Assim, não é necessário ir a outra celebração “para valer”. 2 – Acolher é missão de todos A responsabilidade pela acolhida não é apenas dos ministros e ministras encarregados de receber as pessoas. Todos os que se unem para celebrar são sinais do Cristo acolhedor das multidões. Como é incoerente estar de cara fechada logo na hora de celebrar a vitória da vida sobre a morte! Não é preciso ficar “mostrando os dentes” em sorrisos falsos, mas, pelo menos, dar e responder, com delicadeza, a um simples cumprimento. 3 – Curar feridas Tempos atrás, antes de uma celebração dominical, um coroinha advertiu-me que uma senhora, sentada no fundo da igreja, estava em prantos, muito abalada. Recomendou-me ir ver aquela irmã. Assim o fiz. Fiquei muito impressionado ao saber que ela estava ali com seu resto de ânimo. A mulher se culpava dolorosamente, pois, por ter desrespeitado regras sanitárias, afirmava ter contaminado e matado de covid-19 os tios e irmãos. Mesmo com o pouco tempo para o início da liturgia, consegui ouvi-la. Prometi rezarmos por ela e, com convicção, com base no bom exemplo do coroinha, disse-lhe que ela poderia contar conosco. Aquele servidor adolescente teve grande sensibilidade e bendigo a Deus por ele. Aqui também lastimo não existir um serviço de escuta sistematizado (e, se necessário, aconselhamento) em todas as paróquias (todas!). 4 – Contar até dez Um cristão acolhe porque Jesus o fazia. Não é para ganhar, satisfazer ou “fidelizar clientes”, mas porque todo ser humano é precioso. Cada irmão ou irmã é membro importante do Corpo de Cristo. Neles, pelo batismo, há o divino e o humano do Senhor. Isso vale para os mais assíduos, os visitantes, os “fichas-sujas” e mal-afamados, os curiosos, os profissionais que atuam em cerimônias, os pseudoiniciados, os frequentadores eventuais de sétimo dia, formatura, casamento e batismo, etc. Acolher dá trabalho e exige muitas contagens até dez antes de reagir a qualquer coisa. Às vezes, pede inclusive alguma misericordiosa “vista grossa” para os mascadores de chicletes e trajados com deficiente decoro. Com certeza, a rispidez não resolverá esses problemas. Vale a correção fraternal e discreta na hora oportuna. 5 – Acolher quem acolhe Quem não gosta de gente não deveria se candidatar a qualquer ministério eclesial, seja laico, seja consagrado ou ordenado. A palavra Igreja já pressupõe plural. É impossível ser cristão sozinho. Se Deus quisesse que as coisas fossem quase perfeitas, Ele chamaria seus próprios anjos para servir. O Senhor, contudo, entende que temos nossas limitações, e nós já deveríamos saber disso. Como é constrangedor (no mínimo) ver algum servidor, servidora chorando porque tomaram um “pito” de alguma liderança! É preciso acolher a humanidade do outro, corrigindo fraternalmente. Numa celebração da vida, não há espaço para diminuir seja lá quem for. 6 – “Mais água no feijão” Podemos cair na tentação de praticar a “falsa acolhida”, aquela que, no fundo, impede o Espírito Santo de agir. Por exemplo, uma paróquia organiza um almoço na festa do padroeiro vende todos os convites, mas não deixa uma “reserva de coração” para quem não frequenta a comunidade. Ou um evento para jovens ou casais o qual tem regras engessadas e não prevê a chegada “de surpresa” dos tocados e enviados de última hora pelo Senhor. “Pôr mais água no feijão” faz parte do acolher em Cristo. 7 – Coração aberto Para se falar em acolhida, o primeiro requisito, claro, é ter o coração aberto. E isso vale para todos os contextos. Diante de tanta intolerância, “bolhas” sociais e desconhecimento da riqueza da diversidade humana, é preciso aqui reafirmar o óbvio: não somos iguais. Quando nos abrimos a conhecer, a dialogar, a buscar compreender respeitosamente diferentes culturas, jeitos de lidar como o Sagrado, de conviver, começamos a praticar a acolhida. Em troca, crescemos como seres humanos, cidadãos, batizados e batizadas. Isso compõe a legítima evangelização. Ouvir mais do que falar é um bom começo. Admitir o próximo é um valor humano-divino muito prezado por Jesus, a quem seguimos. Acolher, portanto, é mais do que jogar álcool na mão de quem chega ou aferir temperatura. Possam nossas comunidades de fé de fato abraçar, iluminar a vida e curar as feridas de irmãos e irmãs. Receber bem, em todos os sentidos, é um dom, e este já nos foi dado pelo Mestre. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de
13º DOMINGO DO TEMPO

“Eu te seguirei para onde quer que fores”Lucas 9,51-62 A liturgia deste 13º Domingo do Tempo Comum traz como tema central a qualidade do seguimento do projeto de Deus. O trecho de Lucas abre um novo ciclo, relatando o início da significativa viagem de Jesus a Jerusalém, onde Ele cumprirá sua missão até “ser levado para o céu” (versículo 51). Ao longo da difícil jornada, o Mestre dará muitos ensinamentos e deixará para o leitor a tarefa de avaliar e responder a alguns dilemas da vida em Cristo. O contexto geográfico não é o mais importante, mas o que ocorre ao longo da viagem e em seu desfecho. Para chegar a Jerusalém, Jesus deve cruzar a região da Samaria. Os samaritanos são tidos pelos judeus como impuros, e as hostilidades mútuas são comuns. Com história de miscigenação e vítima de muito preconceito e intolerância, esse povo não pratica o culto do Templo, e os peregrinos galileus, ao passarem por seu território rumo ao sul, são intimidados, a ponto de, às vezes, sequer conseguirem água para beber. O Senhor envia mensageiros à frente, para preparar-lhe hospedagem, demonstrando a “solenidade” do momento. A missão fracassa. Tiago e João, revoltados com a negativa dos samaritanos, fazem jus ao apelido de “Filhos do Trovão”. Ainda contaminados com a ideia de um messianismo cheio de poder, ao estilo dos opressores deste mundo, desejam vingar-se e sugerem pedir que caia fogo do céu para destruir aquela gente (vers. 54). Jesus imediatamente os repreende (mesmo termo usado para os exorcismos) e, de sua parte, quebra o ciclo de ódio. A passagem expõe um Mestre mais indignado com a reação violenta dos discípulos que com a falta de acolhida dos samaritanos. Um dado curioso: o segundo livro de Lucas, os Atos dos Apóstolos, conta que a Samaria será o primeiro lugar fora da Judeia a acolher a mensagem do Evangelho (Atos 1,8; 8,4-8). Os primeiros desafios, internos e externos, do caminho já dão o tom do difícil seguimento do Senhor. Assim, a continuação do texto deste domingo narra sobre três personagens. Eles não têm nome, talvez representando um pouco de cada um de nós. O primeiro é radical: “Eu te seguirei para onde quer que fores!”, mas o Nazareno “joga limpo”, dizendo não ter onde sequer reclinar a cabeça. A alusão às tocas das raposas e os ninhos das aves pode denunciar a “estabilidade” dos poderosos, algo contrário a quem se põe a caminho (em Lucas 13,12, por exemplo, Jesus chama Herodes de “raposa”). O segundo personagem (central entre os três) recebe o chamado do Messias. Algo muito importante, porém, impede uma resposta imediata: o drama de perder o pai e a necessidade de ir sepultá-lo antes. Esse trecho, bem delicado, é dos muitos a não serem lidos apressadamente. Em outras passagens dos Evangelhos, vemos o próprio Cristo se comovendo diante da morte e do luto, por isso haveria uma contradição em não aceitar que o filho honrasse o pai numa hora tão significativa. Assim, essa passagem pode ser compreendida na chave de ruptura com as tradições paternas judaicas e no contraste entre morte (passado) e vida (proposta do reinado de Deus). O terceiro personagem, como o primeiro, se oferece para acompanhar o Mestre, mas impõe uma condição: despedir-se dos familiares. A expressão também tem o sentido de desvincular-se de alguma tarefa, talvez de administrar um bem ou serviço, nos termos de hoje. Em suma, sugere-se um apego a algo que o impede de juntar-se livremente à missão (veja a segunda leitura: Gálatas 5,1.13-18). Um aspecto bem típico do conteúdo dessa viagem, já no excerto de hoje, é o autor não informar detalhes desses candidatos ao discipulado e qual a resposta final de cada um. O desenlace fica por conta do ouvinte, o qual tem a chance de pensar também na própria decisão. O caminhar com Jesus não é teórico, mas proveniente de decisão firme e real como a do Mestre. O reinado de Deus não tem lugar para um meio seguimento, mas para um horizonte de esperança. A primeira leitura desta liturgia (1 Reis 19,16b.19-21) dá um bom exemplo: Eliseu larga o arado logo ao ser chamado por Elias e, com coragem, segue adiante. A segunda leitura destaca a verdadeira liberdade. O apego pode nos aprisionar e paralisar, como ocorreu com a mulher de Ló, ao olhar para trás e virar uma estátua de sal (Gênesis 19,26). Possamos andar firmes nos passos do Senhor. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das SSpS.
Apaixonados, nunca precisamos tanto de vocês!

Data criada mais para afagar o comércio, o Dia dos Namorados é celebrado, no Brasil, em 12 de junho, véspera da memória de Santo Antônio de Pádua, o famoso “casamenteiro”. Essa, entretanto, também pode ser uma ótima ocasião de avaliar como nós, cristãos e cristãs, estamos lidando com os casais apaixonados de todas as idades. Adianto: há muito a ser revisto por nós, na vida pastoral, social e familiar. Antes de escrever estas linhas, eu tinha o desejo de dar algumas dicas para os que se preparam para o matrimônio. Elas seriam baseadas em minhas experiências pessoais e de meu ministério de diácono na Arquidiocese de Belo Horizonte. Bem a tempo, dei-me conta de estar caindo na soberba. Melhor mesmo, para quase todos nós, seria suplicar a reconciliação com os próprios casais. Muitas de nossas comunidades de fé têm dívidas importantes com os namorados. Quantos já não tomaram uma bronca simplesmente por estarem de mãos dadas durante alguma liturgia ou circularem abraçados dentro de algumas de nossas instituições? A rispidez costuma vir de um moralismo sem fundamento, sem Evangelho, disfarçado de “zelo pela casa de Deus”. O amor dos namorados sacramentaliza, sim, o afeto de Deus pela humanidade. Em inúmeras passagens da Bíblia, o noivo é alegoria de Deus Pai ou de Cristo, a depender do contexto. A noiva, ora exuberante, ora anônima, ora pecadora a ser perdoada, é figura do povo, da Igreja. A celebração do matrimônio expõe, diante de nossos olhos, o mistério (sacramento) do Senhor que se derrete de amores por sua amada, antecipa-se e vai ao encontro dela no caminho (no corredor da igreja). Admirado por sua beleza, Ele a beija e firma com ela uma aliança. Para quem ainda não o fez, sugiro meditar, nessa ótica, o Cântico dos Cânticos. Assim, será fácil compreender o motivo de esse ser um dos principais textos de mística da história. Namorados, perdoem-nos por, muitas vezes, nós nos esquecermos de vocês em nossas comunidades de fé! Vocês costumam ser colocados de lado até na programação da Semana da Família, imaginem! No Dia dos Namorados, falamos mais contra o comércio aproveitador do que bendizemos a Deus pelo amor de vocês! Relevem nossa negligência, ao privá-los de espaço e tempo para ouvi-los e apoiá-los quando sofrem pelos desafios típicos desse tempo, como as discussões, as dúvidas, as fraquezas. Como perdemos em não lhes preparar um lugar digno em nossas paróquias, para saborearem juntos um sorvete. Queridos, lamentamos pelo descuido com vocês em tantos de nossos encontros vocacionais! Uma lástima! Como ainda temos coragem de falar de uma família cristã sólida sem um olhar carinhoso a vocês? Tenham misericórdia de nós! Nossas famílias também precisam (re)ver como lidam com os relacionamentos de seus filhos. Algumas se omitem, nem querendo saber com quem os seus estão saindo. Outras, por ciúmes ou superproteção, impedem ou embaraçam o desejo de seus filhos e filhas encontrarem a pessoa amada e com esta constituírem uma família. Quantos lares deixaram de surgir por isso! Também existem pais, mães e toda uma sociedade a forçar uma vocação matrimonial inexistente em alguns jovens, levando-os a uma vida de desventura. Uma pena! Vivemos tempos de culto idolátrico (inclusive por parte de “cristãos”) ao poder, à morte, à fome, ao “mercado”, às armas, à guerra. Assim, queridos casais apaixonados, precisamos muito de vocês! Clamamos por seu testemunho de beijos, abraços, conversas longas, ternas e “bobas”! Não se assustem com “D.R.” (no idioma namorês, “discutir a relação”), pois elas são normais na vida, quanto mais nesse tempo de discernimento. Ignorem os que confundem “namoro santo” com amor sem carícias. Quem inventou isso nunca namorou! Posso lhes garantir! Evitem o jejum de afeto! Apesar de tudo, não desanimem! Sejam muitíssimo bem acolhidos, bem-vindos em nossas comunidades de fé, em nossos encontros vocacionais, em nossos centros de apoio e pátios. Mesmo penitentes, ousamos abençoá-los. Louvado seja Deus por vocês! Dedico este texto a Tânia, minha namorada, com quem orgulhosamente sou casado (também, sim, temos nossas “D.R.”!). Obrigado por tudo! Eu te amo! Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das SSpS.