Espiritualidade do (no) trânsito: por que não?

Em poucas palavras, a base da prática cristã, ouso dizer, é seguir os passos de Jesus, em todos os lugares e situações em que estamos. Assim não nos deveria estranhar dizer de uma espiritualidade do trânsito. No dia 25 de julho, os católicos celebram São Cristóvão, o padroeiro dos motoristas, como é conhecido em nosso País. A Igreja oficial não dá mais tanto destaque a esse santo, mas a coloridíssima fé popular cuida de louvar aquele que “carregou Cristo nos ombros”. O nome Cristóvão vem de Cristóforo (o portador de Cristo), e os cristãos e cristãs batizados precisam ser Cristóforos, Cristóvãos, levando Jesus a todos os destinos e sendo um sinal, um sacramento do Senhor, nas diversas rotas desta vida. Sobretudo no Brasil, o trânsito é um ambiente complicado para condutores, pedestres e autoridades. Não obstante o maior rigor das leis, continuamos sendo um país em cujas ruas e estradas são feridas ou mortas muitas pessoas diariamente. Em milésimos de segundo, podemos passar do céu ao inferno, dependendo de uma série de fatores, inclusive no profundo de nós. Num descuido, podemos ostentar o que temos de pior e mais nebuloso de nosso espírito, mas recordemos: “todos vós sois filhos da luz e filhos do dia. Não somos da noite nem das trevas” (1 Tessalonicenses 5,5). Nessa espiritualidade, tudo deve partir do entendimento de que jamais devemos compreender o tráfego como algo individualista. Pensar comunitariamente é o começo. Mesmo se estamos sozinhos numa via, nossas boas ou más atitudes influenciam a jornada de quem vem depois de nós ou cruza nosso caminho. Um objeto jogado na estrada, por exemplo, por mais “inofensivo” que pareça, pode, em graus diferentes, colocar em risco outras pessoas ou até prejudicar a natureza ao redor. Isso se acentua quando desobedecemos à sinalização, abusamos da velocidade ou, hipnotizados pelo celular, atravessamos distraídos uma rua. O trânsito também é um ambiente propício à prática da misericórdia. O cansaço, a inexperiência, a imprudência, a imperícia ou a negligência de um podem prejudicar o caminho de outros, causar prejuízo ou ferir alguém. Os melhores motoristas e pedestres erram vez ou outra. Aqui recorro ao óbvio: somente Deus é perfeito. Quem nunca aprontou alguma, mesmo que sem querer? É um grande exercício cristão relevar as falhas e, à maneira dos desportistas, procurar seguir o caminho. Sei que não é tão simples, mas quem disse que seguir os passos de Jesus seria fácil? Partilho outras experiências de estrada pelas quais fui agraciado com lições de vida. Ainda sobre o relevar as falhas dos outros, conto o que aprendi de meu pai. Certa vez, fui com ele em viagem de caminhão ao Alto Paranaíba, no Oeste de Minas Gerais. À noite, já voltando para Belo Horizonte, no meio de uma serra, local reconhecidamente perigoso, um carro pequeno veio com os faróis muito altos e, ignorando os avisos, ofuscou minha vista e, pior, a de meu pai. Na carroceria, umas boas toneladas de carga (levávamos outro caminhão). Na imaturidade de minha adolescência, pensei que meu pai jogaria nos olhos do outro condutor todas as luzes do “bruto” (eram muitas). Mas não houve revide à barbeiragem. Eu quis saber o motivo. Meu pai respondeu que seria melhor apenas um dos motoristas estar “cego” no mesmo lugar (repito, perigosíssimo) do que os dois. A possibilidade de tragédia estaria reduzida pela metade. E então, já com a vista recuperada, seguimos em paz o trecho. Um ensinamento a valer para outros desafios da vida. Outra vez foi quando, ao voltarmos de Brasília, sentimos um forte cheiro de diesel. Ao olharmos para o assoalho da cabine, tudo estava encharcado com o combustível. Tivemos de parar imediatamente no meio da estrada, em lugar isolado. Pensei que meu pai, meio “sangue quente”, começaria a esbravejar, mas outra surpresa! Com serenidade enorme, ele desceu do caminhão, tomou logo a providência de sinalizar o caminho, para dar segurança a quem pudesse passar (ninguém veio), e procurou reparar o veículo. Não aguentei e perguntei-lhe a razão de estar tão calmo. E a resposta: se temos fé, compreendemos até os imprevistos; talvez Deus poderia estar nos libertando de algo pior à frente. Mais uma da estrada que serve para a vida! Inicialmente, a Igreja, a grande comunidade dos seguidores de Jesus, era conhecida como “O Caminho”. E o caminho se faz percorrendo-o, já diz o ditado. A estrada tem seus altos e baixos, seguranças e obstáculos. Não podemos é desanimar da jornada ou deixar de socorrer, como o fez Jesus muitas vezes, aqueles que estão caídos às margens. Seguir as veredas do Senhor é compreendê-lo como o “Caminho, a verdade e a vida” (João 14,6a), e como companheiro de viagem, ávido por entrar na pousada de nosso coração e cear conosco (cf. Apocalipse 3,20). Seja como pedestres, seja como condutores, condutoras ou outros responsáveis pelo tráfego, tenhamos em nosso peito que o trânsito é, sim, lugar para a santidade, para nosso testemunho cristão. Oremos com as palavras do Salmo 24(25): “Mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos e fazei-me conhecer a vossa estrada! Vossa verdade me oriente e me conduza, porque sois o Deus de minha salvação”. São Cristóvão, São Rafael e Nossa Senhora da Estrada, abençoai e protegei todos os que são e estão no trânsito. Amém! Dedico estas linhas a meu pai, Luiz Gracildo Rodrigues Marques, que, após cumprir por aqui suas muitas jornadas, agora descansa nas paragens de Nosso Senhor. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo.
Serviço: a outra face da Eucaristia

Na quinta-feira, 3 de junho, celebramos a Solenidade do Corpo e Sangue de Cristo, também conhecida como Corpus Christi. Mesmo nestes tempos difíceis de pandemia, fadigas e muitas restrições, a data é (a)guardada com afeto por comunidades católicas de todo o mundo. Este também é um momento oportuno para reforçar a importância da Eucaristia para a vida cristã. Sempre é bom recordar o aforismo do cardeal francês Henri-Marie de Lubac, inspirado na teologia dos padres da Igreja: “A Eucaristia faz a Igreja, a Igreja faz a Eucaristia”. Dos quatro evangelhos, os sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) enfocam Jesus, na chamada “Santa Ceia”, proclamando o pão e o vinho como sendo seus próprios corpo e sangue. Perdoe-me, caro leitor, cara leitora, se abordo apressadamente a narrativa desses três evangelhos, ainda mais no calor de Corpus Christi. Mas eu gostaria de destacar como o quarto Evangelho, o de João, aborda a instituição da Eucaristia. No capítulo 13 (versículos de 1 a 15), o autor sagrado chama a olhar para um gesto ocorrido na refeição ritual, horas antes de Jesus ser entregue ao sacrifício na Cruz. A passagem começa com a base das bases de qualquer teologia eucarística séria: o amor. “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (João 13,1b). Pouco mais adiante, o evangelista começa a narrar não muito a refeição, mas a atitude do Mestre, que se abaixa (em todos os sentidos) para lavar os pés de seus discípulos. Como todo o Evangelho de João, o trecho pede uma leitura atenta, sem pressa. A Eucaristia, para ele, é principalmente o serviço. Não me atrevo a arriscar uma exegese. Partilho aqui uma modesta meditação. Espero que, aos olhos da fé, possamos identificar algumas coisas na cena na qual Jesus, mais uma vez, demonstra ter vindo a nós para servir e não para ser servido (cf. Mateus 20,28; Marcos 10,45; Lucas 22,24-27). Gestos que deveriam ser mais trabalhados em nossas catequeses eucarísticas. Até o fim do procedimento de “purificar” os pés de seus amigos, o Senhor realiza sete atos. João, como diz o ditado, “não dá ponto sem nó”. Muitas vezes, sete, na Bíblia, é mais uma ideia do que um mero algarismo. Entre outros significados, pode indicar perfeição e, no olhar cristão, a própria encarnação de Deus (a soma de três da Trindade: Pai, Filho e Espírito Santo; e quatro dos elementos cósmicos: terra, fogo, água e ar). Jesus é o próprio “Sete”: o verdadeiro Deus e o verdadeiro homem. O primeiro gesto é “levantar-se”. No início, a Igreja era chamada de “O Caminho”. Como empreender esse caminho sem sair do lugar? Para servir, é preciso disposição, ânimo, entusiasmo (palavra, aliás, muito significativa). O segundo é “tirar o manto”. Para nós, isso deveria significar despojar-nos de nossas couraças, nossos personagens, nossos privilégios, nossos títulos e servir com o que temos de mais profundo. Deus vê o escondido (Mateus 6,4b), sabe de nossas contradições e fraquezas, mas Ele nos ama e nos convoca em nossa essência. A ação seguinte é “pegar a toalha”. Dias atrás, o Pe. Júlio Lancellotti, famoso pelo apoio aos mais necessitados, contou que Dom Luciano Mendes de Almeida, outro gigante no serviço, havia-lhe explicado sobre o significado da estola presbiteral que ele receberia na ordenação. Não transcrevo literalmente as palavras, mas era algo mais ou menos assim: atadura para curar as feridas, lenço para secar as lágrimas, toalha para enxugar os pés do irmão. A estola transversal usada por nós, diáconos, também tem esse sentido (e não um meio-sacerdócio como alguns ainda hoje pensam). O quarto movimento nessa narrativa eucarística de João é o “cingir a cintura”. O cingir-se indicava a prontidão. A ceia pascal judaica, segundo o preceito de Moisés, devia ser tomada com os “rins cingidos, sandálias aos pés e cajado na mão” (Êxodo 12,11). A toalha em torno da cintura poderia ser parte da vestimenta típica do empregado aliada à presteza no servir, como desejou o Senhor. O quinto gesto é o “derramar a água numa bacia”. Água, sinal de pureza, de vida, que cura nossas sequidões, elemento de nosso batismo a nos convocar a ser sinais de Cristo. É a seiva de nossa Casa Comum e de nós próprios; somos água. Com ela, o Senhor preparou seus irmãos para o grande momento da Cruz. O sexto é o “lavar os pés dos discípulos”. O serviço em si, sem discursos vazios, sem clichês, mas a realidade de qualquer ministério que se preze. Nessa hora, Jesus resume toda a sua vida e missão entre nós, conforme diz a Carta de São Paulo aos Filipenses (2,7): “Esvaziou-se de sua glória e assumiu a condição de um escravo, fazendo-se aos homens semelhante”. Nessa hora (e em outras), Jesus, o Senhor, olha-nos de baixo para cima. O sétimo é o “enxugar os pés”. O Senhor leva sua obra até o fim. Continua a ter seus frágeis e limitados discípulos como seus superiores e os segue vendo da perspectiva do chão. Os pés estão purificados e prontos para seguir “O Caminho”. Mais adiante, o Senhor recorda: “Se eu, o Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais a mesma coisa que eu fiz” (João 13,14-15). Com base em João, podemos dizer: não há Eucaristia sem também o lava-pés. O cristão ou cristã alimentado pela Palavra, o corpo e sangue do Senhor precisa, sim, colocar-se a caminho, à disposição do próximo. Creio estarem dispensados dessa missão apenas aqueles que, por motivo grave, não o podem fazer. Servir em, com e por Cristo é um agir sacramental, não há lugar para ativismo, mas para o seguimento dos passos do Senhor. Assim é a Sagrada Ceia. E não nos esqueçamos desta ordem de Jesus: “Fazei isso em meu memorial” (Lucas 22,19b). Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo.
Pentecostes: o Espírito nos leva a servir

Neste domingo, 23 de maio, a Igreja celebra a grande solenidade de Pentecostes. É quando os cristãos comemoram a vinda do Espírito Santo sobre os discípulos de Jesus. Festejamos o “sopro”, a “respiração”, a “brisa”, o “vento” criador de Deus a vivificar a Igreja. A liturgia nessa data é riquíssima, com uma celebração própria para a vigília (sábado) e outra para o domingo. As comunidades cristãs orientais, sobretudo, são muito esmeradas quando se trata do Espírito Santo. Quanto à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, o tesouro místico, litúrgico e teológico dessas tradições é incalculável. Nós, cristãos ocidentais, temos muito a aprender com esses nossos irmãos e irmãs, mas isso não quer dizer que, deste lado do mundo, também não existam riquezas. Estive meditando um pouco sobre o nome que Santo Arnaldo Janssen deu ao primeiro ramo feminino de sua obra evangelizadora: a Congregação das Missionárias Servas do Espírito Santo. Dias atrás, numa formação para os futuros diáconos permanentes da Arquidiocese de Belo Horizonte-MG, tratei sobre o tema “espiritualidade”. Em um resumo bem agudo, destaquei que esse dom é, de fato, vivido na prática; caso contrário, vira espiritualismo. Uma “pessoa espiritualizada” preocupa-se (e procura agir) diante de uma floresta que arde, água e ar poluídos, com o fato de haver pessoas sem um teto, sem uma terra, sem emprego, sem acesso à saúde, à educação, à segurança. Afinal, “Todas as vezes que fizestes isso a um destes mínimos que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” (Mateus 25,40b). Nessa linha, o servir à Criação, algo essencial para os seguidores de Jesus, é impressionante o horizonte que o Fundador da Família Arnaldina propõe para suas filhas espirituais: irmãs evangelizadoras e servas do Espírito Criador, do Espírito Consolador, do Espírito da Vida. Para Santo Arnaldo, a maior e constante adoração ao Senhor passaria pelo anúncio de Jesus, a Boa Notícia, e pelo serviço principalmente aos mais fragilizados, pois cada ser traz a essência do sagrado, o Espírito que Deus nos soprou nas narinas (cf. Gênesis 2,7). Em síntese: ser serva, servo do Espírito Santo é estar à disposição do próximo, e esse propósito vale para todos os batizados e batizadas, de qualquer tempo e lugar. Viver na espiritualidade de Deus é servir, e bem. Ser discípulas-missionárias, discípulos-missionários, servindo ao Espírito Santo, é, para mim, uma indicação muitíssimo inspirada de ter o coração na Trindade e os pés bem no chão. Não é muito fácil falar sobre essa Brisa Santa. Creio que Deus nos faz mesmo é um convite à experiência de nos deixar levar por esse subversivo “vento que sopra aonde quer” (João 3,8a). Assim, ouso aqui partilhar uma breve oração, vinda do que sinto (e não penso) sobre o Espírito Criador. Permita-se inspirar por aquele que renova a face da Terra e componha a sua prece também. Se temos o dia, Senhor, por vosso Espírito, temos o calor e o Sol.Se temos a noite, por vosso Espírito, Senhor, temos a luz a nos guiar na escuridão.Se temos a chuva, por vosso Espírito, a terra é ventre fecundo.Se temos a semente, por vosso Espírito, temos a árvore e os abundantes frutos.Se temos os livros, por vosso Espírito, temos o mais profundo instrutor.Se temos inteligência, por vosso Espírito, Senhor, recebemos o dom da preciosa sabedoria.Se temos forças, por vosso Espírito, nosso ânimo é inspirado para o bem.Se temos o cansaço, por vosso Espírito, temos o conforto do repouso e da serenidade.Se temos o presente da água, por vosso Espírito, temos o mergulho em Cristo.Se temos a vida, por vosso Espírito, nós a temos em abundância.Se temos fé, por vosso Espírito temos a chama da verdadeira piedade.Se temos as liturgias, por vosso Espírito, celebramos o Mistério e o divino abraço.Se temos a morte e as cruzes, por vosso Espírito, temos a ressurreição e a vida.Se temos o Espírito, temos a fé, a esperança, o amor.Vinde, ó divina Brisa!Vinde, ó Vento de santa rebeldia!Vinde, ó Sopro de vida!Vinde, ó Espírito Santo! Amém. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo.
“Com coração de pai”: um grande louvor a São José

Em 19 de março, celebramos a Solenidade de São José, patrono universal da Igreja, título que o Esposo de Maria recebeu em 8 de dezembro de 1870, pelo Bem-Aventurado Papa Pio IX. Para marcar os 150 anos dessa proclamação, o Papa Francisco convocou um ano especial dedicado ao Patriarca de Nazaré, a ser comorado até 8 de dezembro de 2021, e publicou a Carta Apostólica Patris Corde (“Com coração de pai”, em tradução livre), assinada em 8 de dezembro de 2020. A devoção a São José pode ser considerada mais uma das grandes características do atual pontificado. Por uma feliz providência, o início oficial do ministério do Papa Francisco deu-se exatamente em 19 de março de 2013. Um de seus simpáticos costumes é colocar debaixo de uma imagem de São José dormindo algumas anotações sobre temas difíceis, que pedem melhor discernimento, como explicou o próprio Papa. Desde então, a curiosa figura do santo dormindo é uma das lembranças mais procuradas tanto nos arredores da Praça São Pedro, no Vaticano, quanto em lojas especializadas em artigos religiosos ao redor do mundo. A mensagem de Patris Corde quer mais dirigir um grande louvor a São José, homem discreto, mas exemplar, que ajudou a proteger e a formar a personalidade humana de Jesus. Francisco desejou partilhar algumas reflexões pessoais sobre aquele a quem denomina de uma “figura extraordinária, tão próxima da condição humana de cada um de nós”. “Depois de Maria, a Mãe de Deus, nenhum santo ocupa tanto espaço no magistério pontifício como José, seu esposo”, explica. Assim, o Papa destaca que o Bem-Aventurado Pio IX declarou São José como “Padroeiro da Igreja Católica” (1870); o Venerável Pio XII o apresentou como “Padroeiro dos Operários” (1955); e São João Paulo II o proclamou como “Guardião do Redentor” (1989). Francisco lembra que o povo também invoca o pai adotivo de Jesus como “Padroeiro da Boa Morte” (Catecismo da Igreja Católica, cân. 1014). O texto do Pontífice sublinha sete atributos de São José: Pai amado, Pai na ternura, Pai na obediência, Pai no acolhimento, Pai com coragem criativa, Pai trabalhador, Pai na sombra. Sobre cada um, o Papa expõe meditações para reafirmar que, em sua atitude silenciosa, aquele homem deixa importantes exemplos a guiarem os cristãos no seguimento de Jesus. “São José lembra-nos de que todos aqueles que estão, aparentemente, escondidos ou em segundo plano têm um protagonismo sem paralelo na história da salvação”, diz Francisco, em tom de reconhecimento e de gratidão. Homem de fé Em Patris Corde, Francisco destaca uma atitude de José que intriga muitos de nós, homens, sobretudo quem vive o matrimônio. O Carpinteiro de Nazaré aceita Maria, mesmo tendo uma imensa angústia ante a gravidez incompreensível da noiva. Que situação complicada! Talvez possamos ter uma ideia do tamanho da decepção a invadir o coração de José! Contudo aquele operário decide não difamar Maria (o que poderia levá-la a punições indizíveis), mas, de modo secreto, deixa a gestante (veja o primeiro capítulo do Evangelho de Mateus). Mais surpreendente ainda é a fé do Patriarca. Ele dá crédito à mensagem de Deus, representado por um anjo, que lhe fala em sonho: “José, filho de Davi, não tenhas medo de receber Maria como tua esposa, porque ela concebeu pela ação do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho, e tu lhe darás o nome de Jesus, pois ele vai salvar o seu povo dos seus pecados” (Mateus 1,20-21). Justificativa difícil! Mas José acredita! Daí podemos inferir que esse trabalhador é um homem de oração, atento à voz de Deus; um gigante na fé. “Quando acordou, José fez conforme o anjo do Senhor havia mandado” (Mateus 1,24). Segundo o Papa Francisco, “José acolhe Maria, sem colocar condições prévias. Confia nas palavras do anjo”. O Pontífice completa: “Com a obediência, [José] superou o seu drama e salvou Maria”. “Hoje, neste mundo onde é patente a violência psicológica, verbal e física contra a mulher, José apresenta-se como figura de homem respeitoso, delicado, que, mesmo não dispondo de todas as informações, decide-se pela honra, dignidade e vida de Maria. E, em sua dúvida sobre o melhor a fazer, Deus o ajudou a escolher iluminando seu discernimento” (homilia em Villavicencio, Colômbia, 8 de setembro de 2017). Francisco faz outra observação interessante: tal como Maria, na Anunciação (solenidade celebrada uma semana depois, em 25 de março), e Jesus, no Getsêmani (Marcos 14,36), ao longo da vida, “José soube pronunciar o seu ‘fiat’” (“que se faça”). Um “sim” dado nos desafios do cotidiano de uma família pobre, que vivia em uma periferia e tinha de lutar muito para sobreviver, tal como vemos muitas em nosso tempo. “A Sagrada Família teve que enfrentar problemas concretos, como todas as outras famílias, como muitos dos nossos irmãos migrantes que ainda hoje arriscam a vida atormentados pelas desventuras e a fome. Nesse sentido, creio que São José seja verdadeiramente um padroeiro especial para quantos têm de deixar sua terra por causa das guerras, do ódio, da perseguição e da miséria”, diz o Papa.Na Carta Apostólica, o bispo de Roma chama a atenção para um dado dos evangelhos que pode passar despercebido. Ao fim de cada passagem na qual José é protagonista, vê-se “que ele se levanta, toma consigo o Menino e sua mãe, e faz o que Deus lhe ordenou” (cf. Mateus 1,24; 2,14.21). O dom da paternidade Para o Papa Francisco sempre que alguém assume a responsabilidade pela vida de outra pessoa, em certo sentido, exercita a paternidade em relação a esta. “Não se nasce pai, torna-se tal… E não se torna pai apenas porque se colocou no mundo um filho, mas porque se cuida responsavelmente dele”, completa. A Carta Patris Corde encerra-se com uma singela prece, bem ao estilo de Francisco e do Padroeiro da Igreja: “Salve, guardião do Redentore esposo da Virgem Maria!A vós Deus confiou seu Filho;em vós, Maria depositou sua confiança;convosco, Cristo tornou-se homem. Ó Bem-aventurado José, mostrai-vos pai também para nóse guiai-nos no caminho da vida.Alcançai-nos graça, misericórdia e coragem,e defendei-nos de todo o mal.
O tesouro da liturgia doméstica no Natal

A pandemia não trouxe apenas dor, luto, lágrimas. Estamos sendo obrigados a rever várias atitudes, inclusive dentro da prática religiosa. Assim, eu gostaria de deter-me um pouco nesse aspecto. Antes de entrar no tema do Natal, acho bom partilhar algumas considerações. Nestes meses, foram revelados, escancarados alguns problemas que quase sempre existiram, mas andavam meio disfarçados pela correria do cotidiano. Sem querer esgotar a lista, destaco aqui o clericalismo (não apenas de clérigos, diga-se!); o desconhecimento da amplitude litúrgica de nossa Igreja (até hoje, muitos pensam a liturgia apenas como a missa); e o “assistir” passivamente aos ritos, seja pela tevê, seja pelas redes sociais; em resumo, aflorou-se a ignorância ou a omissão quanto às bases existentes desde o início da Igreja e restabelecidas, com louvor, pelo Concílio Vaticano II. Os perigos reais da famigerada covid-19 obrigaram comunidades de fé a terem de respeitar o isolamento, afetando gravemente a vida eclesial. Um dos lados positivos dessa história é a Igreja ter tirado a poeira que escondia um tesouro: as liturgias domésticas. Até pelos séculos IV, V, os seguidores de Jesus se reuniam na chamada domus ecclesiae para celebrarem os sacramentos, serem instruídos, organizarem a caridade e consolarem-se. Muitos de nossos ritos atuais são herança desse tempo. O cristianismo, contudo, passou a ser “religião oficial”, e isso levou os cultos para ambientes públicos, cheios de pompa. A liturgia doméstica valoriza o sacerdócio comum dos batizados. Essas celebrações, devem estar em comunhão com a Igreja, mas não se atrelam a certos protocolos dos ofícios comunitários. O despojamento, a brevidade e, claro, o ar familiar dão o tom. Por isso não é recomendável transferir mecanicamente para o lar o modelo da igreja paroquial. Em tempo: é importante sublinhar que esse formato é “outra liturgia” e não se opõe jamais à comunitária. Ambas podem (e precisam) conviver, mesmo depois da pandemia. Para a liturgia doméstica do Natal O Natal é oportunidade para uma tocante celebração na domus ecclesiae deste início de Terceiro Milênio. Há inúmeras propostas elaboradas por especialistas, quase todas maravilhosas! Vale reforçar: como é uma autêntica liturgia, o presidente é Cristo! Ele está presente, de forma real, na Palavra proclamada e na reunião dos batizados. Ouso sugerir alguns encaminhamentos. Evitarei aqui dar os textos prontos, pois cada Igreja-lar tem sua autonomia para dirigir ao Senhor as próprias orações. Nunca é demais recordar que o povo de Deus, em Cristo, é sacerdote, profeta e rei, e, pelo Espírito Santo, sabe como fazer (cf. Romanos 8,26-27). No que couberem, as orientações são válidas também para quem, devido ao isolamento, tem de celebrar sozinho ou para inúmeros outros contextos, como junto ao leito de um enfermo, por exemplo. Jesus veio para todos! O ambiente Escolha um lugar significativo para sua família. Pode ser em torno do presépio, da mesa das refeições cotidianas, na sala de estar, na varanda, no quintal… Evite ornatos alheios ao espírito cristão, próprio dessa solenidade. Considere como alienígenas figuras do Papai Noel, neve artificial, renas, trenós, duendes e outros penduricalhos. Jesus é o centro! A luz é um elemento significativo do Natal, por isso, se for oportuno, haja pelo menos uma vela. Ela pode ser acessa no início da celebração, na proclamação do Evangelho ou em outro ponto do rito. A Bíblia é outro sinal a estar presente desde o início da oração. Afinal, Cristo é a Palavra que se fez ser humano e veio viver conosco (cf. João 1,14). Em outros contextos, faça as devidas adaptações. Os ministérios Escolha com antecedência alguém para presidir o momento. É recomendável que a leitura bíblica seja proclamada por quem tem mais aptidão para leitura. Também seria muito significativo a pessoa mais idosa conceder a bênção final. Há outros ministérios que podem ser exercidos, como o de música. Como é uma liturgia, repito, haja o devido esmero: a preparação do espaço, o contato prévio com as leituras, o ensaio dos cânticos. Informalidade não significa falta de capricho. As crianças É muitíssimo louvável o envolvimento das crianças. Que tal, após a proclamação do Evangelho, uma delas colocar a imagem do Menino Jesus sobre a manjedoura? Em seguida, as outras podem depositar flores no presépio. O importante é elas se sentirem acolhidas. Essa é uma das heranças não corroídas pela traça (cf. Mateus 6,19-20). Com certeza, levarão por toda a vida uma doce recordação desse dia sagrado e, queira Deus, sigam o exemplo. As leituras Recomendo vivamente que as leituras acompanhem as da liturgia solene. Isso demonstra comunhão com toda a Igreja e ajuda a manter o foco na vinda de Jesus. Jesus está presente também no Pão da Palavra, por isso é uma hora especial. Podem-se proclamar todas as leituras ou apenas algumas delas, porém não se deve deixar de lado o Evangelho. A seguir, as indicações: Para quem celebra na tarde do dia 24 de dezembro: Isaías (62,1-5); Salmo 88/89; Atos dos Apóstolos (13,16-17.22-25); * Evangelho de Mateus (1,18-25). Para a celebração da noite de 24 de dezembro: Isaías (9,1-6); Salmo 95/96; Tito (2,11-14); * Evangelho de Lucas (2,1-14). Para quem celebra na madrugada do dia 25 de dezembro: Isaías (62,11-12); Salmo 96/97; Tito (3,4-7); * Evangelho de Lucas (2,15-20). Para a celebração nas outras horas de 25 de dezembro: Isaías (52,7-10); Salmo 97/98; Hebreus (1,1-6); * Evangelho de João (1,1-18 ou 1,1-5.9-14). Preces Com a família reunida, é salutar dirigir a Deus louvores, pedidos e agradecimentos; interceder por outros familiares, pelos sofredores, pelos vizinhos, pelos falecidos, pelo mundo. Recomendo que as preces sejam breves e bem objetivas. Depois todos rezam juntos o Pai-Nosso. Caso haja membros de diferentes denominações cristãs, pode-se recitar a versão ecumênica. Bênção à mesa Um gesto sacratíssimo é bendizer a Deus por Ele nos nutrir com o Pão da Palavra, da Eucaristia e com o alimento a sustentar-nos o corpo. Seria muito oportuno que todos, juntos, abençoassem a reunião em torno da mesa, um prenúncio do alegre banquete na Casa do Pai e anunciado por Jesus. Outra possibilidade é o membro mais idoso ou quem preparou a ceia
Advento: preparar-se para a chegada do noivo

Com o Tempo do Advento, que começa quatro domingos antes do Natal, iniciamos um novo ano litúrgico. Nessa espiral do calendário, vamos celebrando as ações de Deus (chamadas “mistérios”) na vida de seus filhos. A palavra “advento”, originária do latim, referia-se à espera da visita de um imperador. Como ocorreu com outros termos, o conceito foi apropriado pelos cristãos, aqui significando, desde o início, a expectativa pela volta de Jesus, no fim dos tempos (Mt 24,27). O correspondente grego é a palavra parusia (a forma sem acento é a mais usada no Brasil) ou parúsia. Nós, latino-americanos, normalmente somos muito calorosos e acolhedores, por isso nos é fácil entender o espírito desta época. O Advento equivale ao que sentimos quando recebemos a notícia de que uma pessoa muito querida, e a qual não vemos há muito, virá nos fazer uma visita. Quanta alegria! Limpamos a casa, trocamos os lençóis e as toalhas, preparamos deliciosos quitutes. É muito limitado dizer que este período é uma preparação para o Natal. Nestas quatro semanas, de fato, celebramos as três possibilidades do encontro com o Senhor, segundo São Bernardo de Claraval: o primeiro, o intermediário e o último. O primeiro é o da encarnação do Senhor no seio de Maria e nascido como um pobre, num estábulo. Deus, em Jesus, tornou-se um de nós, portanto divinizando nossa condição humana. É o Deus que se fez pobre e rei (este não como pensa o mundo, diga-se!). Não é uma mera lembrança, mas um memorial solenemente celebrado no Tempo do Natal, que começa ao anoitecer do dia 24 de dezembro e vai até a Festa do Batismo de Jesus. São dias em que, pela sagrada liturgia, colocamo-nos diante da manjedoura e testemunhamos a manifestação (epifania) do Messias à humanidade. O encontro intermediário é aquele que ocorre a qualquer hora, a depender de nossa disposição em se deixar abraçar por Deus. O Senhor vem a nosso encontro no Pão da Palavra, nos sacramentos, na oração, nos irmãos e irmãs, em especial nos mais fracos e excluídos. A vinda futura de Jesus é o foco maior do Advento, pelo menos esse foi o intento dos cristãos dos primeiros séculos, ainda antes de uma formulação litúrgica deste período. Nos Evangelhos, o Senhor nos alerta para a necessidade de estarmos acordados para o encontro definitivo com Aquele que, sem qualquer aviso, vem a nós. Diferentemente de certos pensamentos ingênuos e ultrapassados, esse dia terá o tom da alegria, pois a Igreja (a grande comunidade dos batizados), a noiva, será beijada com muito carinho pelo Amado, que virá correndo a seu encontro. Essa linda noiva deve estar bem preparada para esse dia: vestida de justiça, adornada pelas joias da oração e do cuidado com os mais necessitados, trazendo o anel da misericórdia e o ramalhete do amor. Serenidade na liturgia O Tempo do Advento tem algumas particularidades interessantes quanto à liturgia. As leituras envolvem personagens admiráveis, com destaque a três figuras: o profeta Isaías, alimentando-nos com magníficos textos sobre a esperança (nunca precisamos tanto dela como agora!); São João Batista, que veio preparar os caminhos do Senhor; e a Virgem Maria, com seu “sim” ao projeto de Deus, mulher corajosa e modelo para todos nós. Os hinos, costumeiramente muito bonitos quando os ministros do canto seguem o espírito da celebração, levam-nos ao recolhimento e nos chamam à conversão (volta ao caminho seguro). Não se canta o “Glória”, exceto nas solenidades e festas que caem nesse período. O chamado “Hino Angélico” é entoado com toda a alegria a partir da celebração da noite de 24 de dezembro (já no Natal). Ao contrário do que ocorre na Quaresma, a expressão “aleluia” pode ser entoada. Os ornamentos são sóbrios, mas não com a austeridade quaresmal. A cor roxa nos recorda que a casa de nosso coração está sendo preparada para a festa do encontro. No meio do Advento, no terceiro domingo, os paramentos róseos anunciam que a hora da grande alegria está chegando. Esse domingo é chamado Gaudete (alegrai-vos), devido à antífona de entrada: “Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo: alegrai-vos! O Senhor está perto!” (cf. Fl 4,4s). O ideal é que os enfeites natalinos sejam expostos do dia 24 até o fim do ciclo do Natal (que, reforço, não se encerra em 6 de janeiro). Desde o primeiro domingo, as igrejas são adornadas com a coroa do Advento. Esse costume pagão foi ressignificado pelos seguidores de Jesus. A ideia é mostrar que, a cada vela acesa conforme avançam os quatro domingos, a luz do Senhor vai vencendo as trevas. É importante que o nascer dessas chamas seja visto por toda a comunidade, mesmo num momento de silêncio. A partir de 17 de dezembro até o entardecer do dia 24, temos o que alguns chamam de “Semana Santa do Natal”. As leituras enfocam mais a primeira vinda do Salvador e insistem nas profecias sobre o cuidado de Deus para com seu povo. É impossível falar desses dias sem mencionar as dulcíssimas “Antífonas do Ó”. São breves versos cristológicos entoados sobretudo nas orações das Vésperas, na Liturgia das Horas, cuja beleza todo o povo é convidado a conhecer. As manifestações populares de fé também têm vez nestes dias, a depender da cultura de cada lugar. A mais famosa em nosso país é a “novena de Natal”, um tesouro que tem produzido abundantes frutos espirituais em nosso povo. Ocasião indispensável para reunir a família, vizinhos e amigos em torno da Palavra e em espírito de fraternidade. É muito louvável que as crianças participem dessa prática. Qualidade do Advento e do Natal Há de se lamentar que um tempo tão frutuoso para nossa caminhada seja ofuscado pela correria às lojas, pela má preparação das liturgias ou mesmo pela ignorância a respeito do que se celebra. Nos dias em que “arrumamos a casa” para uma visita tão preciosa, ganhamos mais um convite de Deus a abandonarmos velhos costumes, caminhos tortuosos e voltarmos à estrada segura de Cristo. Concluo com um trecho do saudoso verbita
Carlo Acutis: a surpresa de Deus para nosso tempo

Deus é especialista em surpreender e desatar as “certezas” de nossa lógica humana. Um adolescente cristão tornou-se mais um farol a iluminar este difícil início de milênio. No dia 10 de outubro, foi beatificado, na emblemática Basílica de São Francisco, em Assis, Itália, Carlo Acutis. Ao ouvir falar do “descolado” jovem, figura cada vez mais celebrada nas redes sociais, logo pensei que ele seria mais um desses personagens “fofinhos”, muitas vezes instrumentalizados por grupos demasiadamente católicos, mas pouco cristãos. Por pura curiosidade, confesso, e enquanto não ficava pronto o almoço, procurei sua biografia. Ao ter contato com a vida do novo bem-aventurado, veio-me um choque, sobretudo ao saber de detalhes de seus últimos dias neste mundo. Depois de ser diagnosticado com leucemia fulminante, Carlo, então com 15 anos, viveu poucos dias. Não se deixou abater pelas dores. Sempre depois de um sorriso, dizia a médicos e enfermeiros que estava bem e havia gente a sofrer muito mais. O jovem morreu às 6h45min de 12 de outubro de 2006, em Monza. Em seu velório, havia amigos, parentes e colegas de escola. Mas, para meu embaraço e emoção, também migrantes, pessoas que viviam nas ruas, trabalhadores… Os lascados da vida, tão queridos de Jesus, foram prestar-lhe as últimas homenagens. Pessoas a quem o adolescente ajudava como podia. Naquelas testemunhas, estava uma espécie de resumo do apostolado de um santo de nossos tempos. Conforme seu desejo, o jovem foi sepultado em Assis. Carlo nasceu em 3 de maio de 1991, em Londres, e era filho de uma família de remediada situação econômica. Por causa do trabalho do pai, Andrea Acutis, tiveram de se mudar para Milão, no Norte da Itália. Segundo a mãe, Antonia Salzano, eles não eram uma família devota. O filho tinha um dom inato para o sagrado, mas sem deixar de ser uma criança como as outras. Gostava de desenhos animados, videogame, animais de estimação, de brincar com os amigos. Talvez seja essa própria vida “normal” o maior sinal de sua santidade. Isso o torna um modelo não apenas para os jovens, mas para todos nós, batizados e batizadas. Tinha os pés no chão e o olhar em Deus e nos irmãos. Constantemente, Carlo nutria-se com o Pão da Palavra e da Eucaristia. Tinha o hábito de buscar o sacramento da reconciliação. Com sabedoria, comparava os pecados ao peso que impede um balão de subir ao céu. Não ser cópias “Tornem-se o que comem! Vocês comem o Corpo de Cristo, tornem-se Corpo de Cristo”, dizia Santo Agostinho. E assim o fez Carlo. Os inúmeros momentos diante do sacrário, sua prática sobretudo antes e depois da missa, transformaram-se em fecundas ações de misericórdia. “Quanto mais recebermos a Eucaristia, mais nos tornaremos como Jesus, para que, nesta terra, tenhamos uma antecipação do Céu”, escreveu em seu site. Com a mesada, comprou agasalhos para os que viviam nas ruas. Ajudava a distribuir alimentos aos mais necessitados. Tinha compaixão pelos migrantes, sentindo com eles a dor de terem abandonado a terra natal. Era amigo de trabalhadores simples, aos quais chamava pelo nome. Muitas de suas iniciativas de amor ao próximo foram descobertas apenas no dia de sua morte ou depois. Seu testemunho foi o “fermento do Reino dos Céus”, o qual, no oculto e no silêncio, faz crescer o pão (cf. Mt 13,33). Na exortação apostólica Gaudete et Exultate: sobre o chamado à santidade no mundo atual, o Papa Francisco destaca algumas características de quem emana a santidade de Deus (algo a que todos nós somos convocados). O adolescente Carlo encaixa-se em muitos desses traços. Ele tinha disciplina na oração e demonstrava ternura e respeito aos colegas, sobretudo quem tinha mais dificuldade de aprendizado, passava por problemas familiares ou sofria bullying. Era reconhecido pelo humor e alegria, sinal de quem realmente crê no Deus da Vida. Exímio em Informática, procurou usar seus dons para anunciar pela internet apenas o bem e o Evangelho. Poucos meses antes de morrer, organizou um site sobre os chamados “milagres eucarísticos”, assunto com o qual era fascinado. “Todos nascemos originais, mas, muitos de nós morremos como fotocópias”, disse certa vez o novo bem-aventurado da Igreja, incentivando os colegas a descobrirem os próprios dons. Era uma elogiosa subversão de Carlo a um dos males dos temos de hoje: a conformação. Uma poderosa engenharia social, econômica e cultural que procura moldar indivíduos e nações inteiras a padrões estranhos, a gosto dos dominadores. Não posso deixar aqui de recordar outros jovens. Em Carlo, vejo moças e rapazes os quais, no anonimato, na alegria e na honestidade, dão a vida para manter as famílias, muitas vezes esfaceladas. Como o adolescente da Europa, há muitos por estes lados, cada um a seu modo, vivendo as santidades que podem. Benditos sejam! Na era das notícias falsas Com razão, o novo bem-aventurado começa a ser aclamado como “ciberapóstolo”. Repercute amplamente também o desejo de que ele seja proclamado patrono cristão da internet. Pelo jeito, Carlo Acutis vai ter trabalho para interceder pelos usuários da WEB neste tempo marcado pelas notícias falsas (as famigeradas fake news), ataques raivosos contra a Igreja e minorias, pela superficialidade, pela chamada “pós-verdade”. Ele mesmo foi vítima de um desses delírios nada virtuais. Após a exumação de seu corpo, em 23 de janeiro de 2019, uma etapa do processo de beatificação, correu um forte boato de que o cadáver estaria incorrupto. O assunto, vergonhosamente rasteiro diante da vida do jovem, provocou furor nas redes sociais. O fato foi desmentido pela Diocese de Assis. Segundo uma nota, houve uma reconstituição do rosto, com material de silicone. Só mesmo um santo entre os millenials ou “geração Y” para dar conta de tanta superficialidade. Que Deus mande outras lâmpadas resplandecentes e desconcertantes para iluminar nosso caminho. Bem-aventurado Carlo Acutis, rogai por todos nós! Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor de Língua Portuguesa, editor de textos para as irmãs servas do Espírito Santo.
Vida e morte: realidades da mesma existência

“Para os que creem em vós, a vida não é tirada, mas transformada.” Esse trecho, retirado do Prefácio dos Fiéis Defuntos I, pode ser visto em algumas lápides cristãs mundo afora. A relação vida-morte-vida é um dos fundamentos de nossa fé cristã. Para os seguidores de Jesus, não é possível separar esses eventos, e precisamos ser vigilantes para aprender as lições que elas têm a nos dar. Ainda me inspirando na liturgia, destaco um episódio único da vida: o dia de nosso batismo. A celebração desse sacramento é carregada de símbolos riquíssimos que remetem a Cristo, no qual somos mergulhados, enxertados, configurados. Conforme o costume em muitos lugares, no caso do batismo de crianças, o rito inicia-se com o bebê nos braços da mãe. Tal como fez Maria em relação a Jesus (Lc 2,22-32), a mulher apresenta a Deus e à comunidade o fruto de seu ventre, de seu do coração. Após consagrar o rebento ao Criador, no fim da celebração, quando a criança já está inserida no corpo de Cristo, ocorre a bênção solene. Reza-se pelo neófito, pelos pais, padrinhos, pelos outros presentes. Nessa hora, novamente a criança está no colo da mamãe. É como se Deus dissesse: “No ventre, no coração, você gerou esta preciosa criança e a consagrou a mim, agora eu a devolvo a você e lhe dou a missão de cuidar dela para mim”. Existe uma bela relação do batismo com as exéquias (ritos fúnebres). Além da presença da água, com a qual o corpo e o túmulo são aspergidos, há a prece da “encomendação”, quando a família, os amigos e a comunidade entregam, devolvem a Deus a pessoa querida. Um emocionante, não raro difícil, ofertório, pelo qual colocamos nas mãos do Senhor tudo o que aquela pessoa representou em nossa história: as vitórias, as fraquezas, as alegrias, os assuntos interrompidos, as broncas, os frutos de sua missão nesta terra. E o Deus misericordioso acolhe, na vida plena, o filho ou a filha tão amada. Os vivos e os mortos para o cristianismo Para o cristianismo, o olhar sobre a vida e a morte costuma ser bem deferente. Quando oramos em favor de alguém que já se foi, não estamos nos referindo a mortos. Segundo nossa fé, trazemos ao coração pessoas vivas, irmãos e irmãs que estão em outra realidade (veja novamente a frase litúrgica a abrir este texto). Há, por outro lado, muitos “mortos” perambulando por aí. À primeira vista, parecem até vivos e “bem de vida”. Estão de pé, conversam, comem e bebem, até compram e vendem. Entretanto, a todo instante, maquinam um modo de promover a violência, a injustiça, a discórdia; enfim, mais morte. Estar nas trevas é a morte. Podemos também trazer dentro de nós experiências alternadas de morte e de vida. Quem nunca se deparou, já no fim do dia, com um arranhão ou um hematoma no corpo? Onde nos ferimos? Por que nem notamos nossas próprias feridas? Qual de nós presta atenção à própria respiração, sentindo o prazer de nutrir-se do sopro vital nos dado como graça? Onde estávamos em nossos instantes de morte e vida? Quantas vezes, pelo pecado, nós nos afastamos de Deus? Como o joio e o trigo, portamos a vida e a morte, ciscos e travas, sempre mais fáceis de apontar quando é no outro. Não é demais recordar: “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10b). Não interessa tanto ou quanto tempo estaremos por aqui, mas o como, mesmo nos arranhões de nossos dias. Pendências Na década de 1990, ajudei a produzir uma reportagem sobre a morte. Não me estranhem, mas confesso: foi um dos trabalhos mais marcantes de minha carreira profissional. Uma pena, mas não recordo bem os detalhes dessa matéria, mas ficou marcada para mim uma pergunta feita por um tanatólogo, profissional especializado no fenômeno vida-morte: se eu receber a notícia de que morrerei daqui a quinze minutos, como aproveitarei meu tempo restante? Segundo o estudioso cujo nome se perdeu em minha memória após tantos anos, se uma pessoa tem o desejo de resolver várias pendências emotivas e práticas em intervalo tão curto, significa que ela vai morrer mal, porque viveu mal. Morre bem quem vive bem, conforme nos disse naquela ocasião. Como esquecer essa máxima? Quanto ensinamento a morte pode nos dar!? A Sagrada Escritura, com destaque para os Evangelhos, sempre nos chama à vigilância. Devemos estar acordados e bem preparados para o encontro com o “noivo”, o “senhor da vinha”, o “patrão”, o “ladrão”, Aquele que chega sem avisar. Precisamos ter combustível suficiente para nossas lâmpadas, o óleo da experiência pessoal e intransferível. Preocupação pastoral na pandemia A elaboração do luto é outro aspecto da vida-morte-vida que não pode ser ignorado. Em um contexto industrial e urbano como o nosso, e mesmo em nossas comunidades de fé, há uma tendência em jogar para debaixo do tapete a carga da morte. Quanto crucifixo não foi trocado por uma imagem de Jesus já ressuscitado? Um modismo questionável não somente do ponto de vista artístico, litúrgico e catequético, mas que pode nos levar a ocultar outros crucificados e cruzes da vida, inclusive a implacável dor de uma perda. Pelo olhar antropológico, precisamos, sim, de ritos fúnebres, de viver o luto. Nesses dias, é melhor o roxo ao dourado. Embora devamos testemunhar a vitória da vida sobre a morte, como manda nossa mais básica fé, necessitamos dessa pausa. Como ministro ordenado e próximo à realidade eclesial de um querido povo, admito que estou apreensivo por muitas famílias não poderem manifestar o luto nestes difíceis tempos de pandemia. As pessoas falecidas em decorrência da covid-19 tiveram de ser sepultadas às pressas, sem os devidos ritos que cada cultura reserva a seus mortos. As despedidas, mesmo para quem partiu por outros motivos, são breves, superficiais, praticamente à beira do túmulo. Teremos de buscar uma solução pastoral, ainda que seja preciso esperar um pouco. Visitas às famílias, escuta, dias de oração e homenagens, criação de memoriais, parceria com profissionais… Alguma
Crime ambiental de Brumadinho completa um ano

Exatamente às 12h29min de 25 de janeiro de 2019, ocorria um dos maiores crimes ambientais da história. Nesse horário, rompeu-se a Barragem I da Mina Córrego do Feijão, no Município de Brumadinho, Região Metropolitana de Belo Horizonte-MG. Em número oficiais, a tragédia vitimou 270 pessoas, sendo que, até o dia 31 de dezembro último, 13 destas permaneciam desaparecidas. Isso sem contar o incalculável dano ambiental, o que refletirá, por muito tempo, até em áreas bem distantes da barragem. A palavra “crime”, usada por organismos estatais, civis e mesmo a Igreja, não é um exagero. A Companhia Vale, responsável pelo empreendimento, parece não ter se preocupado em proteger a vida dos próprios trabalhadores e das pessoas que viviam no caminho da lama. Conforme investigações realizadas pelo Poder Público e outros profissionais de diversas áreas, a Vale sabia dos riscos do colapso da barragem e até mesmo já tinha na ponta do lápis o número de mortes que ela poderia causar: 214, segundo a Polícia Federal, que teve acesso aos relatórios. Tudo em números frios, tal como manda a idolatria do insaciável deus-mercado. Um relatório da PF, divulgado no fim de novembro último, mostra que a empresa TÜV SÜD não poderia ter emitido, em setembro de 2018, um aval de segurança da barragem de rejeitos de minério de ferro. Se o laudo da empresa tivesse dado um quadro real dos riscos, as autoridades poderiam ter se preparado melhor para minimizar os danos de uma possível tragédia. O Estado de Minas Gerais vem registrando esse tipo de crime desde que começou sua atividade minerária, no início do século XVIII. Um caso icônico ocorreu em 1884. Numa mina de ouro de Itabira da Serra, atual Itabirito, também nos arredores da capital, mais de cem trabalhadores ficaram presos dentro de uma galeria, após o desabamento de uma rocha. Como não havia tecnologia para abrir uma passagem para resgatá-los, a “solução” foi inundar o espaço, sacrificando todos os que gemiam no fundo da terra. As lições não foram aprendidas, em nome dos “benefícios” que a mineração leva à economia do Estado. Decisão inédita A Companhia também é acusada de outro crime, acontecido na tarde de 5 de novembro de 2015, em Mariana-MG. Dezenove pessoas morreram, e a bacia do Rio Doce, que passa por Minas Gerais e Espírito Santo foi contaminada. A Vale, juntamente com a anglo-australiana BHP Billiton, era responsável pela Samarco, que geria a Barragem do Fundão, zona rural da cidade história. A Justiça Federal decidiu não responsabilizar pelo crime os executivos. Se o julgamento não for revertido, ninguém responderá pelas mortes. Mas o caso foi denunciado ao Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH). Em dezembro passado, o órgão considerou o crime ambiental como sendo também contra a humanidade. Essa é a primeira decisão desse tipo no Brasil e pode servir de base para representações contra o País em tribunais internacionais. Feridas que não cicatrizam Não há dúvidas de que as centenas de famílias das vítimas do crime ocorrido em Brumadinho precisarão ter muita força para, pelo menos, aliviar a dor das perdas de seus entes queridos, de suas histórias. Houve muitos outros danos, além dos humanos. Hortas, granjas e pastos às margens dos cursos d’água atingidos foram danificados. O comércio sofreu um forte golpe e nem mesmo o simpático Museu de Arte Contemporânea e Jardim Botânico de Inhotim, lugar único no mundo, conseguiu devolver a vida aos eixos. A pacata Brumadinho, com cerca de 40 mil habitantes, já não é mais conhecida por seu museu, pelas festas, pelas construções históricas nem pelas alturas da serra do Rola Moça, local obrigatório para os adeptos do voo livre. Depois da tragédia, quando se fala na cidade, logo vem à mente as cenas da lama avermelhada e do esforço dos bombeiros para procurar as vítimas. A operação de resgate, aliás, prossegue e já é considerada a maior da história do Brasil. Deus ao lado dos sofredores Passado um ano, falta muito para que as famílias tenham acesso a indenizações devidas e justas. Aos poucos, os holofotes começam a se apagar. É importante que os missionários e outros profissionais que visitaram as famílias nos primeiros dias, rezando com elas e ouvindo-as, não deixem esfriar o ânimo. Também é essencial continuar acompanhando as investigações e exigindo das autoridades a punição aos responsáveis pelo crime, calculado e frio crime. O Deus, que é justo e está ao lado dos sofredores, console aquele povo, suas famílias, seus trabalhadores. De nossa parte, não permitamos que as trevas vençam as luzes. Brumadinho precisa voltar a ser o lugar da vida, da arte, das festas e de voos livres, bem livres. Sementes de esperança Luiz Felipe Ricobom de Sousa, aluno do 9º ano do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP, partilha um poema. A reflexão é fruto da experiência vivida na “Missão sem Fronteiras”, realizada em junho de 2019. Do alto daquele monte,vejo casas, ruas, praças, a igreja,o menino indo estudar.Do alto daquele monte,mineradores indo almoçar. De repente, a lama cobriu as histórias daquela gente.De repente, nada estava mais lá.Quanto valem as vidas ceifadas?Quanto vale o preço da gente?E o risco em toda Minas ainda é iminente. Flor da esperança brota em meio à lama.Brota no suor do bombeiro,na atitude voluntária que canta,nas cordas do violeiro. Todos juntos, no mesmo ideal,mãos dadas contra a impunidade,a barragem vai virar ponte,e o sonho de justiçaé um sonho de realidade. Diácono Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor de Língua Portuguesa de aspirantes e verbitas estrangeiros na Província Brasil Norte, revisor de textos para as irmãs servas do Espírito Santo.