Bem-aventuranças: a felicidade ao alcance de todos

Veja a reflexão bíblica elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o Evangelho deste 6º Domingo do Tempo Comum, narrado em Lucas 6,17.20-26.
Solenidade de todos os Santos

“Fiquem alegres e contentes, porque será grande para vocês a recompensa nos céus”Mt 5,1-12 Esses primeiros versículos de capítulo 5 servem, ao mesmo tempo, como introdução e como resumo do Sermão da Montanha. Apresentam-nos um retrato das qualidades do verdadeiro discípulo, discípula, daquele que, no seguimento de Jesus, procura viver os valores do Reino de Deus. Basta uma leitura superficial para ver que a proposta de Jesus está na contramão da proposta da sociedade vigente, tanto a do tempo de Jesus como de hoje. Embora de uma forma menos contundente do que Lucas (Lc 6,20-26), o texto de Mateus deixa claro que o seguimento de Jesus exige uma mudança radical em nossa maneira de pensar e viver. Um primeiro elemento que chama a atenção é o fato de que a primeira e a última bem-aventurança estão com o verbo no tempo presente (o Reino “já é” dos pobres em espírito e dos perseguidos por causa da justiça), na verdade, as mesmas pessoas, pois os que buscam a justiça verdadeira são “pobres em espírito”. Eles já vivem a dependência total de Deus, pois só com ele esses valores podem vigorar. Mas quem luta pela justiça será perseguido, e quem não se empenha nessa luta jamais poderá ser “pobre em espírito”. As outras bem-aventuranças traçam as características de quem é pobre em espírito. É aflito por causa das injustiças e do sofrimento dos outros, causados por uma sociedade materialista e consumista. Podemos lembrar os sentimentos expressados pelo Papa Francisco na ocasião do naufrágio do barco carregando 500 refugiados da África, perto da Ilha de Lampedusa, na Itália. Em Assis, ele falou que sentiu uma sensação de “vergonha” diante da situação que não era somente daquele grupo, mas de milhões de nossos irmãos e irmãs. É manso, não no sentido de passivo, mas porque não é movido pelo ódio e violência que marcam a ganância e a truculência dos que dominam, “amansando” os pobres e fracos. Tem fome da justiça do Reino, não a dos homens, que tantas vezes não passa de uma legitimação oficial da exploração e privilégio. Tem coração compassivo, como o próprio Pai do Céu, e é “puro de coração”, sem ídolos e falsos valores. Promove a paz, não “a paz que o mundo dá” (Jo 14,27), mas o shalom, a paz que nasce do projeto de Deus, quando existe a justiça do Reino. Mas Jesus deixa clara a consequência de assumir esse projeto de vida: a perseguição. Pois um sistema baseado em valores antievangélicos não pode aguentar quem o contesta e questiona, algo que a história dos mártires de nosso continente testemunha muito bem. Qualquer igreja cristã que é bem-aceita e elogiada pelo sistema hegemônico precisa se questionar sobre a sua fidelidade à vivência das bem-aventuranças do Sermão da Montanha. O martírio (= testemunho, na língua grega) é pedra de toque dessa fidelidade. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.Pe. Tomaz Hughes, SVD
À luz do Evangelho Dominical

A Igreja dedica este domingo à Solenidade de Todos os Santos, transferida, no Brasil, do dia 1º de novembro. O Evangelho proclamado na liturgia é a versão de Mateus (5,1-12a) sobre as “Bem-Aventuranças”. O padre Raimundo da Silva, CRL, explica que o texto apresenta o ideal de santidade. A primeira bem-aventurança, “Feliz os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu” (v. 3), é a principal, inspirada na profecia de Sofonias (3,11-13), falando do resto de Israel que busca refúgio no nome do Senhor. As outras, segundo o Pe. Raimundo, derivam desta. Não basta ser pobre, é preciso humildade para entrar na dinâmica do Reino. Os aflitos, mencionados por Jesus, representam os sofredores, os injustiçados, os que choram o mal causado a si e a outros. Jesus lhes dá esperança, dizendo que serão consolados. Já no contexto do Salmo 37, a palavra “manso” refere-se ao impotente, ao humilhado. Essas pessoas são exortadas a confiar em Deus e a não fazer justiça com as próprias mãos. As bem-aventuranças ainda falam daqueles que têm fome e sede de justiça, dos que praticam a misericórdia, de quem é puro de coração, dos promotores da paz e dos perseguidos por seguir o Senhor. Em hebraico, “bem-aventurança” significa “colocar-se em movimento”. A infelicidade é estar imobilizado, parado no tempo, estático diante das injustiças. Por isso, segundo Pe. Raimundo, o trecho bíblico é um convite a colocar-se em marcha. Assista ao vídeo produzido pela Verbo Filmes e veja o conteúdo completo.
O encontro com a felicidade (Mt 5,1-12; Lc 6,20-23)

O relato das bem-aventuranças encontra sua versão em Mateus e Lucas. Estudiosos concordam que não se trata somente de um sermão, que Jesus tenha pregado em uma ocasião concreta. Antes, é o resumo dos ensinos que, em diversas oportunidades, Ele ministrara a seus discípulos. Portanto, no trecho das bem-aventuranças, encontra-se o essencial dos ensinamentos de Jesus. De tal modo, todo seguidor de Jesus precisar abraçá-las como programa de vida. Quando Jesus anuncia as bem-aventuranças, o que faz, na realidade, é descrever sua própria vida. Uma vida identificada com os desejos dos pobres, dos que carecem do indispensável para viver com dignidade. Por isso sua vida atraiu e atrai multidões. Nesse tratado, o surpreendente é Jesus colocando que o que nos faz mais felizes é aquilo que, ao “simples olhar”, parece nos fazer mais míseros. Pois a pobreza, o sofrimento, ter fome e sede de justiça, ser perseguido e insultado (Mt 5,1-12; Lc 6,20-23) é muito difícil de suportar. Onde está, então, a chave da felicidade nesse tratado Nesta breve reflexão, tentaremos responder a essa questão. Mas, antes de continuar, recomendamos a leitura do texto de Mateus (5,1-12), o qual será comentado a seguir. Notemos, logo na introdução, três importantes chaves de leitura: “Subiu à montanha e, sentando-se, começou a ensinar”; “E pôs-se a falar”; “Ensinava-lhes, dizendo”. No Antigo Testamento, a montanha evoca o lugar do encontro com Deus (Êx 19,3.10-18; 20,1-18). O gesto de sentar-se era comum aos rabinos quando ministravam seus ensinamentos. Nesse marco, a postura de Jesus para ensinar pode dizer da importância do caráter essencial de sua doutrina. “E pôs-se a falar”; a tradução mais exata é “abriu a boca”. Essa expressão, entre outros sentidos, significa abrir o coração. Abrindo seu coração, Jesus mostra os conteúdos mais íntimos àqueles que seriam seu braço direito no cumprimento da missão. “Ensinava-lhes, dizendo”. O verbo “ensinava” está no imperfeito e, portanto, descreve uma ação habitual, repetida de Jesus; entende-se que Jesus ensinava continuamente. Observemos que cada bem-aventurança tem a mesma forma: “Felizes os…”. Estudiosos concordam que, no grego, falta o elo que, em nossas traduções comuns, une cada ditado. Isso se deve a que Jesus as pronuncia em aramaico-hebraico. No Antigo Testamento, é comum encontrar uma expressão, em forma de interjeição, e que significa: “Que feliz é…!” (Sl 1,1). Essa é a mesma forma que Jesus usa nas bem-aventuranças: “Que feliz é o pobre de espírito…!”. É muito importante ressaltar essa forma, porque significa que as bem-aventuranças não são piedosas exclamações de esperança de um possível futuro, mas são de alegria e encanto por algo que já existe. São felicitações no agora, certamente alcançarão a plenitude na eternidade. Ao falar da felicidade, não podemos ignorar o desejo, pois nele se encontra a chave da felicidade. Aquele que cobiça e deseja aquilo que não pode alcançar na presente ordem das coisas, aos poucos, submerge-se na amargura, ressentimento e violência. Por outro lado, aquele que orienta suas vontades e desejos pelo bem da felicidade dos outros, esse é quem alcança a felicidade na presente ordem das coisas. De fato, é demonstrado que as pessoas que se preocupam com os demais, as pessoas que lutam para que, neste mundo, haja menos carências, menos injustiças, menos violências e mais paz, justiça e perdão são mais felizes. Pelo contrário, aqueles que se preocupam tão somente com elas mesmas se afundam no egoísmo e na infelicidade. Os desejos de Jesus se identificam sempre com os anseios dos pobres, dos doentes, dos excluídos… Por isso, multidões seguiam Jesus (Mt 4,23-24; 8,16-17; 9,35; Lc 4,18-21; 4,40-41; 6,17-19). Sem pretensões de “rebaixar” o projeto de Jesus para que cada um tome o que queira, o que buscamos é propor um apelo a subir ao monte, contemplar Jesus e escutar dele como viver nossas relações humanas. Pois, em nossa contemporaneidade, parece irreconciliável individualidade e compromisso social. A sociedade de consumo nos faz acreditar que satisfará tudo e todos, porém o que falaciosamente faz é identificar a felicidade com o estar saciado. Nessa dinâmica perniciosa, a saciedade é a prisão do desejo. Cabe aqui perguntar-se: qual é meu desejo? É interessante que se comece a falar da felicidade dizendo: “Que felizes são os pobres no espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (v. 3). Devemos deixar claro que Jesus não elogia a pobreza material. Ele sempre esteve contra essa classe de pobreza que esmaga pessoas e povos. Jesus elogia os pobres no espírito, isto é, os que reconhecem sua condição humana limitada diante das exigências da vida e colocam em Deus toda sua confiança. O “pobre no espírito” é quem compreende que nenhuma coisa satisfará seu desejo mais profundo, mas somente Deus. E, portanto, faz a vontade de Deus, tornando-se, assim, feliz cidadão do Reino de Deus. “Felizes os mansos porque herdarão a terra” (v. 4). Em grego, a palavra praus é equivalente a “manso”, e era de um significado elevado na ética. Aristóteles explicou a virtude como o meio-termo entre dois extremos. A virtude da mansidão era então o meio-termo entre muita ira e pouca ira. Entende-se então que é feliz o cristão que, diante da agressão, dos insultos à sua pessoa, não reage com agressividade, porém, quando os outros são ofendidos, ele manifesta indignação. Outro significado para praus é “domesticado”. Quando o animal tinha sido treinado para obedecer ao dono, era tido como manso. Nesse marco, pode dizer-se que é feliz a pessoa que sabe dominar suas paixões e desejos, pois têm domínio sobre eles. A atual sociedade se arroga por “liberdade”, porém, muitas vezes, estamos prisioneiros de nossas paixões. É imperativo, portanto, sempre se perguntar: sou eu a governar minhas paixões e desejos ou são eles a me governar Chama-me a atenção como as redes sociais concorrem por ocupar o centro de nossa vida. Parece que conhecem nossos gostos e se interessam por nossos sentimentos e pensamentos. Como elas, há outros mecanismos que que buscam é exaltar nosso ego. Mas Deus nos quer felizes e nos convida a sê-lo: “Felizes os mansos…”. O texto das bem-aventuranças