“Mas os convidados não deram a menor atenção” (Mt 22,5)
Nestes três últimos domingos, a liturgia nos convida a ter acesso a três parábolas que nos apresentam Deus como pai, como proprietário de uma vinha e como rei que prepara a festa de casamento de seu filho.
Deus é Pai e nos fala de sua bondade; Deus é Rei e nos fala de sua dignidade; Deus é proprietário e nos fala da herança que nos quer transmitir.
Jesus narrou essas parábolas em um contexto polêmico e cheio de tensão com o judaísmo institucional. O grande conflito d’Ele foi com as autoridades religiosas, petrificadas em suas práticas legalistas e que se consideravam “puras” e merecedoras de uma recompensa.
A atmosfera que envolveu essas parábolas foram os últimos dias da vida de Jesus, já em Jerusalém; um momento no qual estava se formatando um duplo juízo, político e religioso, por seus discursos, ações e provocações às autoridades rabínicas. Através das parábolas, Ele pretendia expressar sua certeza de que o projeto de Deus ia se realizar apesar das contradições humanas.
Na parábola deste domingo, o Deus que Jesus nos revela é um Deus a quem encantam a festa, o banquete, a alegria de seus filhos e filhas. Deus é “festa”.
Ao longo da História da Salvação, Deus faz da “mesa da refeição” o local de seu encontro e de sua comunicação com a humanidade. Tanto no Primeiro como no Segundo Testamento, encontramos as refeições como momentos privilegiados, nos quais Deus se manifesta ao ser humano e com ele convive.
São refeições que revelam a presença de Deus, os cuidados paternos de Deus, a vontade manifesta de Deus, sua familiaridade com o ser humano, o simbolismo das promessas que estavam à espera.
Deus instala a grande Mesa no centro do mundo, para a qual convergem todos os homens e mulheres de todos os cantos da terra e de todos os tempos; nela, todos se assentam e ali fazem a experiência do Deus companheiro, do Deus comensal, do Deus que já instalou seu Reino no meio da humanidade.
O Deus que Jesus revela é Aquele que desce das alturas, entra nas casas, toma assento junto à mesa, come com as pessoas, serve-lhes o pão. Na intimidade da mesa, Ele restitui aos excluídos a dignidade e a autoestima, pois eles são os preferidos do Reino da Festa.
Encanta-nos a pessoa de Jesus porque lhe encantam as festas de casamento. Começou com as Bodas de Caná e continua agora com a parábola do Banquete do Reino.
Aqui, Ele revela a imagem de Deus que organiza um banquete de casamento; no entanto, todos os convidados apresentem justificativas e motivos para deixá-lo plantado, com a mesa posta, e tudo preparado.
E, além disso, o fazem de um modo muito cortês e “educado”. Ninguém quer ficar mal com Deus, mas não participa. Cada um tem suas justificativas para desculpar-se: um campo comprado é suficiente razão para não aceitar o convite; os negócios particulares revelam-se suficiente motivo para não ir à festa; outros ainda apelam para a violência contra os servos que foram entregar os convites.
Todos afirmam crer n’Ele; mas são muitos que não lhe fazem caso.
Todos dizem que o amam; mas são muitos que têm justificativas para apresentar-lhe suas desculpas.
Todos são corteses com Deus; mas são muitos que se fazem de surdos e não acolhem o convite festivo.
Todos são educados com Deus; mas são muitos que não querem envolver-se com Ele.
As justificativas egoicas os petrificam e os impedem de saborear a vida como festa; preferem a solidão de seus “afetos desordenados”.
No entanto, Deus não se dá por vencido. Sua bondade não tem fronteiras e não discrimina ninguém; por isso, o dom do banquete é oferta universal, é para todos. Diante da negativa dos convidados, o banquete se abre a todos os que estão fora, nos caminhos e encruzilhadas, bons e maus. A todos é dada a possibilidade de responder ao seu convite, ao seu chamado; ninguém tem o direito de sentir-se privilegiado ou de reivindicar a exclusividade. É preciso abrir-se às periferias, reconhecendo que também quem está nas margens, inclusive aquele que é rejeitado e desprezado pela sociedade, é objeto da generosidade de Deus.
Tudo isso nos leva a vencer o costume de posicionar-nos comodamente no centro, como faziam os chefes dos sacerdotes e dos fariseus. Mais uma vez, aparece o alarme de viver a fé numa posição de conforto, de busca de seguranças e certezas, de instalação no de sempre e de reatividade e resistência frente o novo. Deus oferece a possibilidade da plenitude humana, tudo está preparado no interior de cada pessoa para conectar-se com a Fonte e viver a partir do essencial.
O evangelho rejeitado por vários encontra uma acolhida inesperada em muitos outros corações.
Enfim, a parábola deste domingo parece expressar com claridade que somos chamados a participar incondicionalmente da vida divina, onde temos pendente uma refeição que não é tristeza, mortificação, mas um festim que se expande e atrai a todos para a comunhão com o Deus festeiro.
No fundo, a parábola de hoje denuncia o “ateísmo da indiferença”, o “ateísmo da falta de apetite”, na qual nem sequer a mesa preparada e as melhores carnes são capazes de abrir o apetite de muitos. Eles mesmos sofrem também a surdez, incapazes de escutar a música da festa.
São muitos os “inapetentes”, aqueles que têm tudo, que vivem ocupados em “suas terras”, na obsessão dos “seus negócios”. Podemos chamar isso de “surdez do ter”, ou “indiferença da abundância”. As coisas fazem muito ruído no coração; elas ocupam muito espaço no interior e não deixam lugar para Deus.
Também são muitos os que se sentem saturados do “religioso” (religião esvaziada de festa e centrada no sacrifício, na mortificação, na penitência…). Muitos ainda se perguntam se esse banquete que nós oferecemos não é demasiado pobre, repetido e sem música que alegre a vida.
É um questionamento que todos nós temos de fazer. Por que se afastam aqueles que estão dentro da comunidade cristã? Por que não vêm aqueles que estão fora? Por que será que as festas de Deus são pouco atraentes? Por que será que as festas de Deus encontram tanta indiferença?
Talvez porque a imagem de Deus e do evangelho que oferecemos é pouco atrativa.
Deus nos apresenta uma religião e uma salvação que é “boda”. Dá impressão de que, em nossas comunidades cristãs, há mais velório que bodas; nossa pregação provoca mais aborrecimento que festa e banquete.
E, por último, o polêmico “traje de casamento” para entrar no banquete: não se trata de uma purificação penitencial que só afeta a cada um; é o traje da vinculação à nova comunidade festiva.
É muito fácil entrar na festa e fazer parte da comunidade, aproveitando das vantagens, mas sem mudar as atitudes nem viver de maneira sintonizada com o evangelho. Não basta pertencer nominalmente a uma comunidade; só aquele que, de verdade, se reveste de Cristo (suas atitudes, sua liberdade, suas opções, seus sentimentos…) pode estar seguro de entrar no Reino. É preciso revestir-se com as roupas do amor, da convivência solidária, do espírito festivo…
Deus não pratica represálias contra ninguém.
Fica de fora aquele que se nega a entrar na dinâmica da comunidade cristificada.
Texto bíblico: Mt 22,1-14
Na oração: sua comunidade cristã é lugar do anúncio da Boa Notícia do “Deus festa” ou está mais focada nas ameaças, nas mortificações e penitências?
– As celebrações da Ceia do Senhor trazem a marca da alegria, da partilha, da acolhida mútua…? Ou estão mais centradas no ritualismo frio, vazio, estéril, sem a participação dos membros da comunidade?
Diretor do Centro de Espiritualidade Inaciana (CEI).
Imagem principal: Mikhail Artamonov (Istock).
