Buscar o tesouro e a pérola que somos

Veja a reflexão elaborada pelo jesuíta padre Adroaldo Palaoro, comentando o Evangelho proclamado na liturgia deste 17º Domingo do Tempo Comum. A passagem está em Mateus 13,44-52.

Em cada semente, uma faísca de eternidade

Veja a reflexão elaborada pelo jesuíta padre Adroaldo Palaoro, comentando o Evangelho proclamado na liturgia deste 15º Domingo do Tempo Comum. A passagem está em Mateus 13,1-23.

A exigência da hora

A parábola de Lázaro e o Rico (Lc 16,19-31) é uma das narrações de duplo clímax. O primeiro clímax se encontra nos versículos 19 a 23 e tem por objeto a inversão do destino no além. O segundo se encontra nos versículos 24 a 31. Trata-se da rejeição dos dois pedidos do rico para que Abraão enviasse Lázaro. Interessa-nos, contudo, perceber a intenção dessa parábola, almejando nossa transformação em vista ao Reino de Deus. Por isso cabe observar que o tema dessa “mashal” não se reduz a tomar partido sobre o problema rico-pobre ou dar uma lição sobre a vida após a morte. Trata-se de uma advertência profética. As pessoas que se assemelham ao rico e aos seus cinco irmãos irão se deparar com a fatalidade iminente. Pois, preferindo a riqueza (material, intelectual ou religiosa), mergulham no absoluto egoísmo e, surdos à Palavra de Deus, pregam que, com a morte, tudo acaba, e assim negam a ressurreição (cf. v, 28). Dessa forma, garantem sua estabilidade e conforto por sobre tudo e todos. Na Contemporaneidade, não é diferente. Vemos pessoas de todos os níveis sociais mergulhados no egoísmo. O rico e os seus cinco irmãos desfrutam até do odiar. O que é mais escandaloso é que muitos ousam usar o nome de Deus para justificar seu injusto proceder. Por outro lado: quem são os Lázaros? Por acaso são os que hoje mendigam asilo em nossos países? Ou são os que, por terem a “doença da pele escura”, são deixados à sorte? Ou talvez sejam os que, aleijados pela tirania de um sistema injusto e excludente, jazem descartados de toda condição à vida? Na parábola, o mendigo é o único que recebe nome: Lázaro (= “Deus Ajuda”). Isso é muito significativo, pois Lázaro era um mendigo, aleijado, atacado por uma doença da pele (cf. v. 21). Ele jazia às portas do rico e somente desejava saciar-se com o que caía de sua mesa. Sua condição, vista sob a teologia da retribuição, mostra-nos que ele era um pecador, castigado por Deus. Por isso a inversão do destino na parábola causou um forte impacto nos ouvintes de Jesus. Lázaro e não o rico iria se sentar no “seio de Abraão”! Ou seja, no lugar de honra dos justos (cf. v. 25). Perante esse cenário, o imperativo “Tarde demais” da parábola soa contundente e até ameaçador. Pois significa “é preciso agir com decisão agora!”. Diante dessa exigência, não há possibilidade de fuga. O enorme abismo que se impõe entre o rico e Lázaro nos mostra que Deus é o Deus dos mais pobres e abandonados. Ele é oposto ao deus “customizado”, que “satisfaz nossas vontades”. Portanto a troca de papéis na parábola é, ao mesmo tempo, convite à salvação. Trata-se de tirar as vestes de púrpura para vestir as da justiça, antes que seja “Tarde demais”! Irmã Juana Ortega, SSpS, é teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e, atualmente, além de animadora vocacional, acompanha as jovens aspirantes na Comunidade Madre Josefa, em Belo Horizonte-MG. Referência bibliográfica JEREMIAS, Joachim. As parábolas de Jesus. Tradução de João Rezende Costa. 11. reimp. São Paulo: Paulus, 2017.

Possibilidade de mudar de rumo

“Vigiai, portanto, porque não sabeis quando o senhor da casa voltará: à tarde, à meia-noite, ao cantar do galo, ou de manhã, para que, vindo de improviso, não vos encontre dormindo” (Mc 13,35-36). As primeiras comunidades cristãs enfrentaram a crise pelo retardamento da Parusia. Nesse cenário, a parábola do porteiro nos narra que o dono da casa partiu para uma longa viagem, mas, antes, dividiu entre os servos a responsabilidade de cuidar de sua casa e ao porteiro deu a ordem de permanecer vigiando. Porém, na parábola, a quem endereçou Jesus o apelo à vigilância? No Horto das Oliveiras, antes de ser feito prisioneiro, Jesus pediu aos apóstolos: “Permanecei aqui e vigiai”, “Vigiai e orai para não entrar em tentação” (cf. Mc 14,34.37). Nesse marco, compreende-se que Ele se dirigiu aos discípulos. Porém poderia estar dirigindo-se também aos que se consideravam os donos da salvação (cf. Mt 23,13; Lc 11,52). Entretanto, quem quer que tenham sido os destinatários, o fato é que a mensagem se insere num contexto de crise e, por isso, de possibilidade de mudar de rumo. Nós, os cristãos de hoje, também somos esses servos da parábola, chamados a cuidar de nossa Casa Comum. As responsabilidades variam, mas é de todos a missão de fomentar a cultura do encontro e do serviço à humanidade, especialmente à humanidade pobre e fragilizada. A ordem de manter-se despertos e vigilantes até a Parusia do Senhor Jesus é também para nós. Pois facilmente caímos no perigo de habituar-nos à nossa própria comodidade, e a rotina acaba por nos adormecer. Quando isso sucede, traçamos agendas e compromissos, ativando o piloto automático. Dessa forma, o mecânico toma conta de nosso cotidiano e nos esvazia da autenticidade fundamental. O olhar crítico da parábola, “Vigiai, portanto…”, convida-nos a romper com o conformismo e abrir-nos à liberdade e à criatividade de quem vive na espera ativa da volta do seu Senhor (a Parusia). “Vigiai!” para que o dono da casa, “vindo de surpresa, não vos encontre dormindo”. Na vinda do Senhor, ficará evidente se fostes dignos de confiança vivendo da misericórdia, da compaixão do perdão e da justiça, ou se fostes indignos por terdes vivido do poder, da indiferença e conformismo. Não é que Deus seja severo, a questão está em nós que, ao nos adequar aos sistemas desumanos, estamos sendo contrários à vida plena que Deus quer para todos. Por isso Jesus nos oferece, pelo alerta da parábola, a possibilidade de mudar de rumo. Irmã Juana Ortega, SSpS, é teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e, atualmente, além de animadora vocacional, acompanha as jovens aspirantes na Comunidade Madre Josefa, em Belo Horizonte-MG. Referência bibliográfica JEREMIAS, Joachim. As parábolas de Jesus. Tradução de João Rezende Costa. 11. reimp. São Paulo: Paulus, 2017.

A lição da figueira

“Aprendei, pois, a parábola da figueira. Quando o seu ramo se torna tenro e as suas folhas começam a brotar, sabeis que o verão está próximo. Da mesma forma, também vós, quando virdes essas coisas acontecerem, sabei que ele está próximo, às portas” (Mc 13,28-29). A poesia de Jesus, em continuidade com a tradição de Israel, faz uso de imagens para apresentar a presença salvadora de Deus na vida das pessoas. A figueira é referida como sinal concreto da chegada do verão. Da mesma forma, os sinais realizados por Jesus também são a prova de que o Reino de Deus está bem próximo. Essa parábola é uma das mais difíceis de compreender, e, quando interpretada, é lida em referência ao do fim do mundo. O perigo das interpretações descontextualizadas e isoladas conduz ao reducionismo ou fundamentalismo. E então a mensagem salvadora do texto corre risco de ficar oculta pelas especulações de condenação final ou servindo de falsas marcações de datas sobre a volta de Jesus. Porém a parábola da figueira aponta em outra direção e pode ser lida em paralelo com as parábolas que tratam da colheita, do vinho, da messe. Isso porque ela contém figuras de julgamento e assim introduzem o tempo da salvação. Quando os ramos se tornam tenros e as folhas começam a nascer, saberemos que o verão está próximo. “Da mesma forma, quando virdes acontecer essas coisas saiba que ele está próximo, às portas.” Quem está às portas? É o Messias. É interessante observar que, quando a figueira perde as folhas, parece como que inteiramente morta, por isso seus brotos irrompem como se a vida vencesse a morte. Não é por acaso que Jesus usa essa imagem para mostrar que o Messias tem seus prenúncios: o povo da salvação é chamado para nova vida. Mas o que podemos apreender da figueira? A lição da figueira é, para todas as pessoas e em todos os tempos, um alerta sobre o mistério da vida e da morte. Pois nem sempre estamos conscientes e, muitas vezes, ficamos alheios aos sinais da presença salvadora de Deus. As mídias nos bombardeiam com notícias sobre assassinatos, catástrofes, etc., misturadas com ofertas de produtos, viagens, comidas e vida de celebridades. É difícil digerir tanta informação e mais difícil distinguir o que é fato real e o que é #fakenews. O mais grave é que, pela rapidez das coisas, nem temos tempo para permitir-nos sentir dor e alegria, indignação e compaixão diante as realidades apresentadas. Aprendamos, pois, com a figueira o discernimento e a sensibilidade: “Sabei que ele está próximo, às portas” e, nos chama para uma vida nova! Irmã Juana Ortega, SSpS, é teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e, atualmente, além de animadora vocacional, acompanha as jovens aspirantes na Comunidade Madre Josefa, em Belo Horizonte-MG.

O sal da vida cristã

Quanto mais Jesus nos mostra o amor de seu Abba (Pai) tanto mais espera nossa resposta gratuita a esse dom do amor. E esse é o sentido de ser sal em nós mesmos. Mas o amor não gera reações automáticas. Ele é mais uma disposição pessoal que se concretiza no bem comum e, por esse motivo, o discípulo deverá primeiro ser salgado no fogo. “Todos serão salgados com fogo” (cf. Mc 9,49). Segundo a lei judaica, todo sacrifício devia ser salgado antes de ser devotado a Deus no altar (Levítico 2,13). Esse sal usado para o sacrifício era considerado o sal da Aliança (cf. Números 18,19). Jesus, na Nova Aliança, não preserva do sacrifício, Ele mesmo se faz sacrifício (cf. Lc 22,19-20). Nesse contexto, compreende-se que, antes de a vida do cristão ser aceitável a Deus, deve ser tratada com fogo. No Novo Testamento, encontramos duas conexões referidas ao fogo. A primeira alude à purificação do pecado; e a segunda, à destruição. No caso, os primeiros cristãos vivenciaram a destruição na perseguição pela fé. Sob esse marco, compreende-se o ditado de Jesus (“Todos serão salgados com fogo”), no sentido de que a vida purificada pelo amor e a vida que enfrentou a perseguição por causa do Reino são agradáveis a Deus. Na Contemporaneidade, nós, cristãos, vivemos em um mundo que propaga “a sociedade do bem-estar”. Diariamente assistimos a uma variedade de ofertas prometendo-nos “bem-estar pessoal” à custa do mal-estar dos outros. Estamos invadidos de produtos que vendem saúde, beleza, qualidade de vida… Por outro lado, temos uma captura biotecnológica da vida, produtora de mais-valia e rentabilidade. A avalanche de ofertas termina convencendo-nos inclusive da felicidade, mas o que temos é uma total manipulação da vida e, no fim, vamos tornando-nos “insossos”, sem paixão e incapazes de enxergar a realidade. Nesse cenário, ressurge o dito de Jesus: “O sal é bom; mas se o sal se tornar insípido, como o retemperar?”. As características do sal são temperar e evitar a decomposição. Por isso resulta bem mais compreensível a insistência de Jesus para sermos sal, pois o cristão é enviado a viver numa sociedade corrompida, deprimida e cansada. E é nessa realidade que o cristão é enviado para dar sabor, por meio da esperança, da pureza e da partilha de nossos bens e talentos. É nesse contexto que o nosso sal deve se espalhar para evitar a decomposição social. Irmãos e irmãs em Cristo, sejamos sal, vivendo limpos do egoísmo e da corrupção, porque só a vida que está limpa e cheia de Cristo pode estar em verdadeira comunhão com os outros e com a criação! Irmã Juana Ortega, SSpS, é teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e, atualmente, além de animadora vocacional, acompanha as jovens aspirantes na Comunidade Madre Josefa, em Belo Horizonte-MG.

Jesus foi um poeta apaixonado pelo Reino de Deus!

A experiência de Deus Abba (Pai) se fortalece no coração de Jesus até se tornar sua razão mais profunda de ser e de agir. Portanto Jesus não duvida em poetizar o amor que o queima por dentro, e diz: “Com que compararemos o Reino de Deus? Ou com que parábola o apresentaremos? É como o grão de mostarda que…” (cf. Mc 30-32). Usando-se de variadas parábolas, Jesus comunica uma mensagem sobre o Reino. O Reino de Deus é semelhante a toda situação descrita nas parábolas. Por exemplo, com a parábola do grão de mostarda, Jesus nos provoca a entrar em diálogo com o amor de Deus, que se manifesta na vida concreta do ser humano. O paradoxo do pequeno grão e da grande árvore reflete a fé desabrochando no coração daqueles que escutam e acolhem a boa-notícia do Reino. O Reino de Deus que se manifesta na prática da justiça, solidariedade, fraternidade, perdão, inclusão… Ações pouco visíveis, pois nascem primeiro no coração de quem acolhe a mensagem de Jesus. Mas logo essas ações se desenvolvem e crescem, transformando a família e a sociedade. A parábola lida no contexto de Jesus valoriza o trabalho no campo. Das pequenas sementes depende a vida de milhares de pessoas. Por isso confronta os oponentes ao projeto de Deus, aqueles que, acumulando as sementes, tiram o pão das maiorias. Esse sistema de dominação e morte é denunciado inclusive por meio da imagem dum pequeníssimo grão de mostarda. Pois a vida pertence a Deus, e nenhum ser humano, por mais “poder” que retenha, poderá apropriar-se de seu dinamismo. A parábola do grão de mostarda tem detalhes surpreendentes, como comparações para expressar o amor de Deus. Esse amor que é capaz de nos renovar e até fazer fluir nosso dinamismo mais profundo. O amor de Deus ultrapassa a medida humana, pois nos pede amar, inclusive os inimigos, pondo fim à violência e estabelecendo a paz. O amor e a confiança ativam e comprometem com o Reino de Deus, revelado nas palavras e prática de Jesus. A semente jogada na terra quer nos mostrar que o Reino de Deus cresce no cotidiano da vida, aí onde quer que as pessoas atuem com justiça e misericórdia. A parábola por meio do percurso da menor das sementes salienta, enfim, a absoluta confiança de Jesus em seu Pai. O mistério do Reino de Deus se manifesta no Filho, por isso o conhecimento de Jesus é conhecimento do Reino de Deus. Irmã Juana Ortega, SSpS, é teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e, atualmente, além de animadora vocacional, acompanha as jovens aspirantes na Comunidade Madre Josefa, em Belo Horizonte-MG.

Foi Jesus, o Filho de Deus, um poeta?

Será? Em geral, as parábolas são tidas como a grande obra de arte de Jesus. Essa obra poética reflete o encontro entre duas culturas (a semita e a grega) e se acha resumida em 83 parábolas autônomas. A parábola é um convite à mudança e quer despertar em nós algumas atitudes básicas e necessárias para crescermos na confiança em Deus e vivermos com alegria e prazer nossa fé. Jesus teve como meta o anúncio do Reino de Deus, por isso sua vida esteve direcionada para as coisas desse Reino. As parábolas são a forma característica que Ele usou para anunciar essa presença de Deus como salvação acessível a todos. Jesus foi um mestre na arte de ensinar em parábolas. Mas o gênero literário das parábolas era próprio dos sábios, do povo do Antigo Testamento. Jesus deu um estilo único às parábolas. Por meio delas procurou uma nova maneira de o povo compreender Deus. Mas você sabe o que é de fato uma παραβολή (parábola) evangélica? A parábola nos evangelhos é uma comparação que busca transmitir uma realidade única. As imagens nela são realistas, correspondem às experiências cotidianas, são acessíveis e desafiam aos ouvintes a abrirem-se ao projeto libertador de Deus. Cada parábola é um mosaico único da grande obra de arte da pregação de Jesus. E, por meio dela, Jesus revelou um Deus misericordioso, muito próximo das fraquezas humanas e, ao mesmo tempo, um Deus que conta com a colaboração das pessoas para ser conhecido no interior da sociedade. Encontram-se, nas parábolas, algumas marcas que são consideradas ipsissima vox de Jesus, ou seja, expressão autêntica e original de Jesus. Por exemplo, o termo βασιλεíα “Basiléia” de Deus (Reino de Deus) é usado 54 vezes por Jesus nos evangelhos. Na literatura da época, a expressão era raramente utilizada. Na parábola, olhamos Jesus fazendo coincidir as palavras com sua conduta. Por exemplo, a Parábola do Pai Misericordioso (Lc 15,11-32) harmoniza com a conduta de Jesus acolher os pecadores e comer com eles. E você já se sentiu acolhido, perdoado, amado por Deus, por meio de alguma parábola? Referência THEISSEN, Gerd; MERZ Annette. O Jesus histórico: um manual. (3. ed.). Tradução de C. Milton Mota e Paulo Nogueira. São Paulo: Loyola, 2015. Irmã Juana Ortega, SSpS, é teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e, atualmente, além de animadora vocacional, acompanha as jovens aspirantes na Comunidade Madre Josefa, em Belo Horizonte-MG.

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