Sete considerações sobre o dom da acolhida

“Jesus acolheu as multidões, falava-lhes sobre o Reino de Deus e curava todos os que precisavam” (Lucas 9,11b). Assim começa a passagem da “multiplicação” dos pães, uma das mais notáveis catequeses eucarísticas do Evangelho. Tudo começa com o Mestre a receber as pessoas, um gesto sacramental a ser praticado também em nosso tempo. A pandemia de covid-19 acabou dando destaque a duas pastorais que, em muitas comunidades, tiveram de ser criadas ou reforçadas às pressas. No isolamento sanitário mais rígido, a Pastoral da Comunicação (a querida “Pascom”) fez chegar a muitos lares as celebrações ou, pelo menos, uma palavra dos evangelizadores a seus irmãos e irmãs. Quando a participação do povo começou aos poucos a ser permitida, foi a vez de a “Pastoral” da Acolhida agir para receber bem e dar segurança a quem chegava, seguindo os protocolos sanitários. Como ocorreu em outros contextos da Igreja, a pandemia revelou algumas coisas soterradas pela poeira da rotina. Em minhas andanças pelas comunidades de fé, noto deficiências importantes quanto à acolhida. Isso tanto da equipe responsável por receber aqueles que se constituirão em assembleia litúrgica, o Corpo Místico de Cristo, quanto de outros servidores e servidoras. Proponho sete considerações sobre esse essencial gesto cristão. 1 – Quem acolhe também celebra Vez ou outra, ouço alguém reclamar não se sentir presente de fato na liturgia logo porque exerceu nela alguma função. Participa, sim, quem fica responsável por higienizar, distribuir algum subsídio, providenciar assentos aos idosos, anotar os pedidos de oração, cantar, organizar o som, a luz e as flores, e muito mais. A palavra “liturgia” indica algo semelhante a “serviço público”, “mutirão”. Pressupõe ação de cada um, conforme o que lhe couber. Assim, não é necessário ir a outra celebração “para valer”. 2 – Acolher é missão de todos A responsabilidade pela acolhida não é apenas dos ministros e ministras encarregados de receber as pessoas. Todos os que se unem para celebrar são sinais do Cristo acolhedor das multidões. Como é incoerente estar de cara fechada logo na hora de celebrar a vitória da vida sobre a morte! Não é preciso ficar “mostrando os dentes” em sorrisos falsos, mas, pelo menos, dar e responder, com delicadeza, a um simples cumprimento. 3 – Curar feridas Tempos atrás, antes de uma celebração dominical, um coroinha advertiu-me que uma senhora, sentada no fundo da igreja, estava em prantos, muito abalada. Recomendou-me ir ver aquela irmã. Assim o fiz. Fiquei muito impressionado ao saber que ela estava ali com seu resto de ânimo. A mulher se culpava dolorosamente, pois, por ter desrespeitado regras sanitárias, afirmava ter contaminado e matado de covid-19 os tios e irmãos. Mesmo com o pouco tempo para o início da liturgia, consegui ouvi-la. Prometi rezarmos por ela e, com convicção, com base no bom exemplo do coroinha, disse-lhe que ela poderia contar conosco. Aquele servidor adolescente teve grande sensibilidade e bendigo a Deus por ele. Aqui também lastimo não existir um serviço de escuta sistematizado (e, se necessário, aconselhamento) em todas as paróquias (todas!). 4 – Contar até dez Um cristão acolhe porque Jesus o fazia. Não é para ganhar, satisfazer ou “fidelizar clientes”, mas porque todo ser humano é precioso. Cada irmão ou irmã é membro importante do Corpo de Cristo. Neles, pelo batismo, há o divino e o humano do Senhor. Isso vale para os mais assíduos, os visitantes, os “fichas-sujas” e mal-afamados, os curiosos, os profissionais que atuam em cerimônias, os pseudoiniciados, os frequentadores eventuais de sétimo dia, formatura, casamento e batismo, etc. Acolher dá trabalho e exige muitas contagens até dez antes de reagir a qualquer coisa. Às vezes, pede inclusive alguma misericordiosa “vista grossa” para os mascadores de chicletes e trajados com deficiente decoro. Com certeza, a rispidez não resolverá esses problemas. Vale a correção fraternal e discreta na hora oportuna. 5 – Acolher quem acolhe Quem não gosta de gente não deveria se candidatar a qualquer ministério eclesial, seja laico, seja consagrado ou ordenado. A palavra Igreja já pressupõe plural. É impossível ser cristão sozinho. Se Deus quisesse que as coisas fossem quase perfeitas, Ele chamaria seus próprios anjos para servir. O Senhor, contudo, entende que temos nossas limitações, e nós já deveríamos saber disso. Como é constrangedor (no mínimo) ver algum servidor, servidora chorando porque tomaram um “pito” de alguma liderança! É preciso acolher a humanidade do outro, corrigindo fraternalmente. Numa celebração da vida, não há espaço para diminuir seja lá quem for. 6 – “Mais água no feijão” Podemos cair na tentação de praticar a “falsa acolhida”, aquela que, no fundo, impede o Espírito Santo de agir. Por exemplo, uma paróquia organiza um almoço na festa do padroeiro vende todos os convites, mas não deixa uma “reserva de coração” para quem não frequenta a comunidade. Ou um evento para jovens ou casais o qual tem regras engessadas e não prevê a chegada “de surpresa” dos tocados e enviados de última hora pelo Senhor. “Pôr mais água no feijão” faz parte do acolher em Cristo. 7 – Coração aberto Para se falar em acolhida, o primeiro requisito, claro, é ter o coração aberto. E isso vale para todos os contextos. Diante de tanta intolerância, “bolhas” sociais e desconhecimento da riqueza da diversidade humana, é preciso aqui reafirmar o óbvio: não somos iguais. Quando nos abrimos a conhecer, a dialogar, a buscar compreender respeitosamente diferentes culturas, jeitos de lidar como o Sagrado, de conviver, começamos a praticar a acolhida. Em troca, crescemos como seres humanos, cidadãos, batizados e batizadas. Isso compõe a legítima evangelização. Ouvir mais do que falar é um bom começo. Admitir o próximo é um valor humano-divino muito prezado por Jesus, a quem seguimos. Acolher, portanto, é mais do que jogar álcool na mão de quem chega ou aferir temperatura. Possam nossas comunidades de fé de fato abraçar, iluminar a vida e curar as feridas de irmãos e irmãs. Receber bem, em todos os sentidos, é um dom, e este já nos foi dado pelo Mestre. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de
A acolhida que muda a vida dos migrantes

O fenômeno da migração cresceu tanto no Brasil como no mundo que se tornou um forte apelo missionário para a Congregação, especialmente diante dos inúmeros sofrimentos e dificuldades que os migrantes enfrentam até se integrarem em sua nova terra. Em São Paulo-SP, as missionárias servas do Espírito Santo, ao escutarem as necessidades dos migrantes da região do Brás, deram início ao Centro de Integração do Migrante (CIM). Atualmente, o espaço oferece atividades educativas e culturais para crianças, adolescentes, jovens e adultos. A seguir, publicamos o depoimento de Lucélia Arrioja, imigrante venezuelana que trabalha no CIM como coordenadora de projetos sociais. O CIM ajuda a acalmar as angústias e a diminuir as dores O Centro de Integração do Migrante (CIM), localizado no bairro do Brás, na cidade de São Paulo-SP, funciona desde 12 de dezembro de 2015. Apareceu como uma luz no caminho dos migrantes que chegamos ao país, procurando uma mão amiga, entre tanto cansaço, angústia e momentos difíceis que passamos desde que decidimos começar a viagem até aqui. Nesse sentido, as pessoas que pensaram, criaram e materializaram o projeto trabalharam, dia após dia, com persistência, dedicação, humildade e, sobretudo, uma grande sensibilidade pelo próximo que não necessitava de palavras, porque, pelo olhar, o ouvir e o manter os braços abertos diante de qualquer circunstância, conseguiram ajudar a acalmar as angústias e diminuir as dores. E esse jeito de tratar as pessoas como seres humanos que são fez uma grande diferença que tocou no coração de muitas outras que eram cegas e surdas diante dessa realidade. No percorrer dos anos, multiplicou-se com o envolvimento e apoio de voluntários e pessoas da comunidade, convertendo-se em um espaço alternativo onde todas as pessoas são bem recebidas sem importar raça, cor, religião ou cultura. No entanto, não foi uma tarefa fácil, porque, como migrantes, sejamos de outros países ou dentro do Brasil mesmo, sofremos preconceitos. Muitas pessoas nos olham como ameaças e outras tantas se aproveitam de nossas necessidades e nos exploram com trabalhos forçados ou de muitas horas de duração. Porém o CIM tenta quebrar esses flagelos que nos afetam, usando a educação combinada com diferentes atividades que envolvem crianças, adultos e idosos. Nosso CIM, como muitas pessoas gostam de chamá-lo, veio para transformar a vida de todo aquele que passa ou faz parte dele, porque, em sua essência, tem como premissa proteger, integrar, promover e, sobretudo, acolher a todos e todas. Mas se esforçam para nos empoderar, por meio de cursos livres de capacitação, que nos ajudam a ter outras ferramentas tanto acadêmicas quanto espirituais para nos manter fortalecidos e sentindo que não estamos sozinhos em nossa caminhada nesta metrópole. No meu caso particular, eu considero o Centro como minha segunda casa e as irmãs e companheiros como parte dessa família que formamos baseada num vínculo que nos une, traduzido pelo amor que temos uns aos outros e que nos permitiu avançar nesta caminhada que empreendemos há pouco mais de dois anos, desde que saímos da Venezuela. E aconteceu porque, quando chegamos aqui, neste espaço, fomos acolhidos com tanto carinho e com uma “sorofraternidade” que jamais esqueceremos e que, para sempre, agradeceremos. Cada uma das irmãs e professoras(es) que já passaram ou que ainda se encontram trabalhando no CIM terão um lugar muito especial em nossos corações, como tenho a certeza de que estarão nos corações de outros tantos migrantes que estão no Brasil ou que já continuaram sua viagem. A mística de trabalho que aqui se tem faz com que cada vez somemos mais pessoas a participarem ativamente na criação de novos projetos ou na permanência e melhoria dos que já estão sendo executados. Para nós, isso é motivo de alegria e satisfação, porque é um resultado positivo que nos indica que estamos no caminho certo e que, para além dos tropeços, temos a convicção de estar colaborando, a partir de nosso CIM, para a construção de um Brasil melhor para todos os que aqui já vivemos e também para os que vêm chegando. Para finalizar, é importante mencionar que, nos últimos dois anos em que trabalhei nesta instituição, sinto muito orgulho, junto com os meus colegas, pelo fato de ter atendido muitas pessoas que enriqueceram o espaço com sua sabedoria e diversidade cultural. Lucelia del Valle Briceño ArriojaCoordenadora de projetos sociais do CIM