Solenidade da Assunção de Maria

“Olhou para a humilhação da sua Serva”Lc 1,39-56 Pode-se dividir este texto em duas partes: a história da Visitação de Maria a Isabel e o “Canto de Maria” ou “Magnificat”. Reduzir o sentido da Visitação a um simples gesto serviçal da parte de Maria para com a sua parente idosa seria empobrecer muito o pensamento de Lucas. Essa cena é altamente simbólica. Lucas quer mostrar o acolhimento do “Novo” (representado por Maria e Jesus) por parte do “Antigo” (representado por Isabel e João). Isabel, símbolo de todos os justos da Antiga Aliança, inspirada pelo Espírito Santo, proclama Maria “bendita entre as mulheres”, usando uma frase aplicada no Antigo Testamento para duas mulheres lutadoras, que ajudaram na libertação do seu povo: Jael (Jz 5,24) e Judite (Jt 13,18). Assim, apresenta Maria como mulher corajosa que, animada pela fé no Senhor libertador, colabora na luta pelo mundo que Deus quer. Esse mundo, a chegada do Reino de Deus, já é inaugurado com a chegada do seu Filho: “Bendito o fruto do seu ventre”. Nesse trecho, é importante destacar o motivo pelo qual Maria é bem-aventurada: “Feliz aquela que acreditou”. Para Lucas, Maria é bendita não pelo simples fato da maternidade, mas porque ela é o modelo da fé. Ela acreditou na promessa do Senhor, não somente a promessa da gravidez, mas o projeto de Deus, desde Abraão, de dar a seu povo a terra, a descendência e a bênção. Enfim, a promessa da realização do projeto do Reino. O Magnificat, que Lucas põe na boca da Maria, é uma composição literária magistral, inspirada no Cântico da Ana (1Sm 2,1-10) e outros trechos do Antigo Testamento. Expressa a espiritualidade dos “pobres de Javé”, os deserdados desta terra que, apesar de tudo, acreditavam no projeto libertador do Deus da vida e na chegada de uma sociedade justa. Maria exulta, pois experimentou que Deus olhou para a sua pequenez e humilhação (não “humildade”!). Ela celebra a mudança radical que o Reino traz: os poderosos, soberbos e ricaços serão derrubados, e os pobres, humilhados e famintos serão erguidos. Esse retrato de Maria contrasta muito com a personalidade passiva e pálida que, muitas vezes, inventamos para ela. A Maria de Lucas é uma figura pobre e humilhada, mas forte e batalhadora, como tantas mulheres de nossas comunidades hoje. Diante das forças opressoras de seu tempo (o abuso do poder religioso e econômico, o machismo, o racismo), ela canta a experiência do Deus libertador, do Deus da vida, do Deus que se encarna no meio dos oprimidos. Essa Maria nos desafia para que nos unamos na luta pela construção do Reino, sem pobres e ricaços, humilhados e soberbos, dominados e dominadores. Em nosso mundo, pelo menos tão opressor quanto naquela época, esse texto questiona as nossas opções reais da vida. Seremos bem-aventurados conforme acreditarmos e nos empenharmos na construção de um mundo mais fraterno, justo e igualitário, conforme a vontade e o projeto de Deus, celebrado por Maria no canto do Magnificat e demonstrado na pessoa e missão de seu filho Jesus. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
Quem não conhece a verdade faz fofoca

Há pessoas que se comprazem em falar dos outros quando têm uma chance de emitir opiniões sem conhecer a verdade dos fatos. Ouvem algum boato, tomam-no como verdadeiro e passam a fazer juízos falsos, interpretações errôneas e têm prazer em passar adiante a notícia, sem verificar sua veracidade. São especialistas em fofocas, emitindo julgamentos sobre coisa que não conhecem, sem se darem conta do quanto estão prejudicando a reputação de pessoas e das consequências que daí decorrem. Para essas pessoas, valeriam as três peneiras de Sócrates. Conta-se que, um dia, um amigo chamou Sócrates, grande filósofo da antiga Grécia, para contar-lhe algo sobre alguém. Antes de o amigo prosseguir, o pensador lhe perguntou se o que iria contar-lhe já tinha passado pelas três peneiras. “Peneiras?” “Sim, há três peneiras”, disse-lhe o filósofo. “A primeira é a da verdade. Você tem certeza se aquilo que vai me contar é absolutamente verdadeiro?” “Não – disse-lhe o amigo – Como posso saber? O que sei foi o que me contaram!” “Então suas palavras já vazaram a primeira peneira. Vamos, então, para a segunda peneira: a bondade. O que vai me contar faz bem a alguém, gostaria que os outros também dissessem a seu respeito?” “Não! Absolutamente não!” “Então suas palavras vazaram também a segunda peneira. Vamos agora para a terceira peneira: a necessidade. Você acha mesmo necessário contar-me esse fato ou mesmo passá-lo adiante? Resolve alguma coisa?” “Não”, respondeu-lhe o amigo. “Então nem eu nem você, nem outros vão se beneficiar disso que você tem para me contar. Então, esqueça, enterre tudo.” Da próxima vez que ouvir algo, antes de ceder ao impulso de passá-lo adiante, submeta-o ao crivo das três peneiras, porque pessoas sábias falam sobre ideias, pessoas comuns falam sobre coisas, pessoas medíocres falam sobre pessoas. Será uma fofoca a menos para envenenar o ambiente e fomentar a discórdia entre as pessoas. Quanto bem faria à convivência se esses critérios socratianos fossem observados. Todos os dias, ouvem-se queixas de pessoas que se sentem julgadas, humilhadas por outras que se acham impolutas e acima dos demais e, portanto, com o direito de falar sobre o que não conhecem. Têm coceira na língua e vivem distorcendo os fatos. São pouco críticas em relação a si mesmas, mas especialistas em criticar falhas dos outros ou mesmo espalhando inverdades. Quem tem o direito de julgar os outros ou suas intenções sem os conhecer de verdade? Se os fofoqueiros de plantão se ocupassem com coisas úteis e se calassem, fariam muito bem. Haveria mais amizades sinceras, solidariedade, compaixão. A fofoca é como travesseiros de penas de galinha, quando abertos ao vento. Elas se espalham rapidamente, e ninguém mais terá controle sobre a situação. Daí vale o ditado, conte até dez antes de emitir juízos temerários e você será mais prudente, e uma pessoa melhor para conviver com os outros. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.
Santa Dulce dos Pobres

Este é o primeiro ano em que celebramos Santa Dulce dos Pobres, nossa santa baiana, canonizada no dia 13 de outubro do ano passado. Seu nome de batismo era Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes e nasceu em Salvador, em 26 de maio de 1914. Desde muito jovem, manifestou sua paixão pelos pobres e os acolhia em sua casa. Ao optar pela vida religiosa, encontrou caminhos para ajudar as pessoas mais necessitadas, a ponto de ficar conhecida como “O Anjo Bom da Bahia”. Irmã Dulce não medida esforços para cuidar daqueles que não tinham a quem recorrer. Por eles, enfrentava todos os desafios, até mesmo transformou o galinheiro do convento num abrigo para os doentes, dando início ao Hospital Santo Antônio. A Ir. Dulce ficou associada ao cuidado dos pobres e ao testemunho radical de entrega e doação a Deus, a serviço dos doentes e mais necessitados. Sua própria vida já era um milagre, pois, além de sua constituição frágil, tinha muitos problemas de saúde e, mesmo assim, era incansável em sua dedicação. Santa Dulce dos Pobres, título que ganhou após sua canonização, faleceu em 13 de março de 1992. No vídeo que apresentamos a seguir, produzido pela Verbo Filmes em 1983, quando Ir. Dulce estava em plena atividade, vemos seu carinho pelas pessoas e por que ela se tornou tão amada pelo povo brasileiro. Santa Dulce dos Pobres, intercedei por nós! Assista ao vídeo:
Maestro João Carlos Martins participa do Tecendo Relações nesta quinta

Nesta quinta-feira, 13 de agosto, às 19h, o maestro João Carlos Martins participa ao vivo de um bate-papo sobre a arte de agir com amor e emoção para superar os desafios. O artista é o convidado do webinar Tecendo Relações. A conversa será mediada pela professora Edja Camila, do Colégio Imaculado Coração de Maria, no Rio de Janeiro-RJ. A transmissão será pelo canal da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo, no Youtube. O professor Marcus Vinícius Leles de Barcelos, que leciona Literatura e História da Arte no Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG, conta um pouco mais sobre o maestro João Carlos: “Aos 5 anos, João precisou submeter-se a uma cirurgia para a remoção de um tumor benigno incrustrado em seu pescoço. Todavia o procedimento contou com alguns revezes. Sensibilizado, o pai do menino decidiu presenteá-lo com um instrumento, o piano. O pai de João lhe sentenciou ao apresentar o instrumento pelo qual o garoto desenvolveria verdadeira fascinação: ‘Nós vamos perseguir o sonho de você se curar, e você ficará curado’. Iniciou-se, assim, a relação entre o menino e a música. João, sanado em nova cirurgia aos 8 anos, debruçou-se cada vez mais sobre as teclas. Aos 13 anos, João Carlos Martins estabelecera-se como concertista com sólida carreira pelo Brasil. Aos 18, passou a constelar entre os nomes de lustre do cenário internacional. Pouco depois, consagrou-se em apresentações no Carnage Hall, em Nova Iorque, sempre com lotação esgotada. Em tais ocasiões, peças de Bach eram as melhores vitrines para o virtuosismo do brasileiro. João não apenas os versava com facilidade como adestrou seu corpo a um novo patamar de exigência. Tornou-se capaz de executar vinte e uma notas por segundo. Em 1965, o músico residia em Nova Iorque, quando o time da Portuguesa de Desportos visitou a cidade por ocasião de um jogo-treino, para o qual convidou João Carlos Martins a integrar a equipe oficial. Contudo, em um desfecho inusitado, a participação do pianista na partida foi interrompida por um acidente que provocou a perfuração de seu braço à altura do cotovelo e comprometeu o pleno funcionamento do nervo ulnar, relacionado à elaboração motora das falanges. Como consequência, João Carlos Martins precisou afastar-se temporariamente do piano, devido à atrofia de três dedos. A situação se agravou alguns anos depois, quando o músico, que em nenhum momento desistiu da vocação e manteve-se engajado em exaustivos tratamentos, desenvolveu um quadro de lesão por esforço repetitivo. Entretanto, em um exemplo incrível de superação, o pianista conseguiu voltar aos palcos após longas e atribuladas sessões de fisioterapia. Não se desapegou, aliás, da paixão por Bach. Entre 1979 e 1985, realizou várias e significativas gravações das composições do mestre barroco. Em 1995, uma nova pirueta do destino. Ao sair de um teatro na cidade de Sófia, na Bulgária, João Carlos Martins foi golpeado na cabeça com uma barra de ferro, em um assalto. A concussão causou uma sequela neurológica que impôs restrições ainda mais severas à mobilidade do braço direito. Passou a executar peças que demandassem apenas a utilização de sua mão sã, como o álbum Só para a mão esquerda, composto por Maurice Ravel para Paul Wittgenstein, pianista austríaco que perdeu o braço direito durante a Primeira Guerra Mundial. No entanto, acabou por ter a mão esquerda inviabilizada pelo acometimento de uma nova moléstia, a contratura de Dupuytren. Desse ponto em diante, iniciou um longo périplo pela regência antes que pudesse voltar ao piano. A transição à posição de maestro acarretou novas necessidades de adaptação. Impossibilitado de manusear as partituras em tempo hábil para reger a orquestra, João Carlos Martins passou a memorizar, nota por nota, as peças que se propunha apresentar. Ressignificou também sua fascinação por Bach por meio da criação da Bachiana Filarmônica e da Bachiana Jovem, instituições responsáveis pelo recrutamento e pela revelação de grandes talentos musicais. Surpreendentemente, em 2020, deu-se o reencontro do músico com o piano, por meio de um par de luvas biônicas projetadas pelo designer industrial Ubiratã Bizarro Costa, as quais restituíram a mobilidade às mãos de João. A trajetória de João Carlos Martins é uma peça executada a vários andamentos. Nunca em silêncio. E para aqueles que, a qualquer momento, pensaram-no fora de cena, não se iludam. Como todo bom prestidigitador de Bach, João Carlos Martins é mestre da invenção e do improviso. Tem a arte sutil do ardil e da saída. Tocata e Fuga. Conhecê-lo é um privilégio que será experimentado pelos colaboradores da Rede de educação das Missionárias Servas do Espírito Santo no webinar Tecendo Relações.” Marcus Vinícius Leles de Barcelos é graduado em Letras pela Universidade Federal de Minas Gerais e mestre em Teoria da Literatura e Literatura Comparada pela mesma instituição. É professor de Literatura e de História da Arte do Colégio Sagrado Coração de Jesus.
Água benta evapora…

Diz a sabedoria popular que a última aula só termina quando a nossa luz se apaga ou, para quem acredita, quando vamos ser luz na eternidade. Dito de outra maneira, a gente aprende até morrer. E é sobre aprendizados da vida que vamos conversar. Para contextualizar, um pouco de memória. Em 2012, ousei querer herdar de minha mãe sua inesgotável fonte de água. Ficava pendurada na parede e media minúsculos 12 centímetros, mas era gigante aos meus olhos.Uma “minipia” de água benta que nunca secava, num gesto invisível que nos inundava de fé… Feito o bolo que chega à mesa depois de muita maestria e alquimia. Parecido com a mudinha que vinga de um galho arrancado. Cheiro de casa limpa e roupa de cama lavada. A travessia dos que nunca se atrasam. Boletim que chega sem nota vermelha. Cachorros vibrando com sua chegada. O indizível da pia sempre limpa. A experiência de ser perdoada. O convite despretensioso para passear com as amigas. A visita surpresa de um parente querido. Um telefonema inesperado de alguém distante. A espontaneidade dos braços de um bebê querendo seu colo. A alegria de falar sim, todo dia, para seguir jurando amor. Tudo isso, e muito mais, é expressão de nosso empenho e de nossas opções cotidianas.A vida, tomada como um pote de água benta, também é assim. Há de se cuidar!É cuidando todo dia, nutrindo de convicções e gestos tudo o que nos é valor que vamos ter sempre nosso pote mágico sempre cheio. Que saibamos cuidar do pote de água benta que é nossa vida.Eu já aprendi, demorou, mas aprendi: água benta evapora.E você, já colocou água benta no pote hoje? Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.
19º Domingo do Tempo Comum

“Coragem! Sou eu! Não tenham medo!”Mt 14,22-33 É comum ler nos jornais e revistas os resultados de pesquisas que apontam o medo e a insegurança entre as principais preocupações de nosso povo, especialmente nas cidades: o medo da violência, do desemprego, da pobreza, da solidão, da velhice e muitos outros. O medo parece até tomar conta de uma boa parte de nossas instituições, o medo de tomar as medidas necessárias para justas reformas (agrária, política e econômica) por parte das autoridades competentes; o medo de muitos líderes religiosos diante dos desafios do mundo da Pós-Modernidade, pluralista e globalizada, levando até à paralisia e ao fechamento; o medo de procurar novas soluções para novos desafios. O medo parece ser a força motora da atividade (ou da falta dela) de muitas pessoas, grupos e instituições. A comunidade eclesial onde nasceu o Evangelho de Mateus também sentia medo. Seus membros (em sua maioria, judeu-cristãos, bem diferente, etnicamente e de tradição religiosa, das comunidades lucanas) enfrentavam oposição e perseguição por parte das autoridades das sinagogas. A comunidade estava em luta com o chamado “judaísmo formativo”, para definir o rumo que o judaísmo tomaria depois do desastre de 70 d.C., quando foram destruídos Jerusalém e o Templo. Com a eliminação, pela repressão romana ou por guerra civil, dos saduceus, dos zelotes e dos essênios, somente dois grupos organizados sobreviveram para disputar a hegemonia dentro do judaísmo: o grupo de cunho farisaico e o grupo judeu-cristão, representado pela comunidade de Mateus. Era uma luta de muita radicalidade, como costuma acontecer nas brigas fratricidas. O sofrimento da comunidade de Mateus é retratado em Mt 10,22: “Sereis odiados por todos por causa do meu nome. Mas quem perseverar até o fim será salvo”. É nesse contexto que se entende o texto de hoje. Os discípulos, ao verem Jesus, acham que é um fantasma e ficam apavorados. A comunidade de Mateus era semelhante; diante da perseguição e do sofrimento, Jesus parecia para eles um fantasma, uma ilusão, uma fugacidade, incapaz de dar sustento à sua vida comunitária de fé, no contexto da perseguição. Diante do medo dos discípulos, Jesus é taxativo: “Coragem! Não tenham medo! Sou eu!”. Mateus relata essa história, acrescentando esses elementos em comparação com o texto mais sóbrio de João 6,16-21, para ajudar sua comunidade a entender que Jesus não é um fantasma, mas uma presença real, vivificante, fortalecedora e libertadora no meio da comunidade, especialmente na hora das dificuldades e perseguições. Tipicamente, o Evangelho de Mateus destaca a figura de Pedro (como também em 16,13-20; 17,24-27). Pedro era personagem muito importante em Antioquia, talvez o local da última redação de Mateus. Aqui Pedro é o protótipo do discípulo, cheio de amor, mas com uma fé enfraquecida pela dúvida. O estender da mão de Jesus é um convite a Pedro, à comunidade de Mateus e a nós hoje para dar uns passos para o desconhecido, para não nos fechar em nossas seguranças, frequentemente falsas, que nós mesmos construímos, mas para ter a coragem de enfrentar os ventos da vida, mesmo quando contrários, pois Jesus está realmente conosco, e, como disse Paulo, “Se Deus está conosco, quem estará contra nós?” (Rm 8,31).Ter fé e não ter medo por causa de Jesus não quer dizer “Não tenham medo, confiem em Deus, e Ele garantirá que as coisas que os amedrontam não lhes acontecerão”, mas antes: “Não tenham medo, confiem em Deus. É bem possível que as coisas que os amedrontam vão lhes acontecer, mas não devem ter medo disso, porque Deus estará ao seu lado”. A fé em Deus não tira os nossos sofrimentos e dificuldades, como querem tantos hoje, mas nos dá as forças necessárias para vencê-los. Deus não é um analgésico para as dores e dificuldades da vida, mas uma presença amorosa que anima, fortalece e estimula, pois, como disse Paulo, “A fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1Cor 1,25) Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
Em tempo de máscaras: o olhar, o ouvir e a ação

“#Fiqueemcasa, mas, se sair, use máscara.” O compromisso com a vida, com o outro atualmente começa com um gesto simples, o uso de máscara cobrindo o nariz e a boca. Essa solidariedade, além de ser uma recomendação dos especialistas da área da saúde, é um ato de empatia. E você, tem usado sua máscara de modo correto? Quais modelos você utiliza? São tantas, profissionais e caseiras, não importa. O importante é não ficar sem o uso da máscara. O fato de se cuidar demonstra que está cuidando do outro, lembra a frase “Faça aos outros o que gostaria que fizessem a você”. Essa máxima nunca foi tão verdadeira quanto na atual conjuntura mundial. Somos todos conectados, afirma a Física Quântica. Nesse sentido, o uso da máscara passou a ser um acessório indispensável para todos, independentemente da classe social. Não basta apenas lavar as mãos, deixar os calçados num canto da casa ou evitar aglomerações, o ar que respiramos não é mais o mesmo… Analisando esse momento de pandemia gerado pelo covid-19, em que todo cidadão precisa usar máscara, podemos aprender algumas coisas. Em tempos de máscaras, chama a atenção o olhar de cada um. Há décadas, as pessoas não se olhavam mais por causa da televisão ou do computador e, recentemente, do celular. Agora, olhar para o outro é um desafio constante, pois os olhos revelam a alma que está dentro de você. E, dependendo do seu olhar, de sua empatia, entenderá o outro, devendo colocar-se no lugar dele. Quantos estão precisando de sua ajuda neste momento de crise, por causa de desemprego ou por causa de desafetos, ou mesmo porque estão doentes, sozinhos? Dar as mãos ou abraçar devemos evitar, mas ouvir é de graça! A máscara sinaliza não falar, mas olhar, ouvir e agir. Ter compromisso com a vida. Ficar em casa significa ouvir-se também. Quantos apelos dentro de si o têm transtornado? Ouvir os filhos, a esposa ou o esposo, os pais, os avós… Imagino o quanto de apelos os agentes de saúde (médicos, enfermeiros, técnicos da área de saúde) ouvem todos os dias e a todo instante quando chega mais um enfermo nos hospitais. Há muitos desesperados, desolados. E os cientistas então? Estão a ouvir o apelo mundial pela vacina ou por uma medicação eficaz. E quantos estão a orar pedindo a Deus que os ouça? Muitas famílias, neste tempo de pandemia, têm reencontrado com seus afetos antes dispersos. No entanto outras estão amarguradas pelos desafetos, buscando quem as ouça, quem as socorra. Infelizmente, há muitas máscaras invisíveis que não demonstram quem a pessoa é. Geralmente, os que não querem ouvir automaticamente puxam a máscara protetora para o pescoço ou então, por descaso, nem a usam. Mas quem tem o olhar de empatia e o ouvir solidário busca agir de modo fraterno e justo. A ação passa a ser coerente com a situação. A realidade social clama por pessoas que saibam ver o outro e ouvir os apelos dos mais fracos, dos mais vulneráveis, dos mais isolados, dos mais empobrecidos, porque são os menos ouvidos por aqueles que deveriam ouvir e agir mediante decisões sensatas. Além de ouvir os infectados pelo covid-19, não deixemos de ouvir e agir em prol da vida de negros e mulheres sufocados pela desigualdade, pelo preconceito e pela discriminação. No momento, ainda são os apelos mais expressivos que existem Em tempos de máscaras, olhar, ouvir e agir são características de todos aqueles que são vocacionados a dar sua vida pela vida do outro, que colocam em prática seus conhecimentos e também suas virtudes, como a bondade e a solidariedade, buscando uma ação justa. Neste mês de agosto, mês dedicado a ouvir o chamado, a ouvir o apelo do Espírito, ouça os que ainda não têm quem os ouça. Faça valer cada minuto que existe para dar sentido a uma vida sem “máscaras” sociais, que somente têm causado decepções e corrupção humana. Cuide-se sem esquecer de cuidar do outro. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, Teologia pelo Mater Ecclesiae, professora de Filosofia, filiada à ABA, APEOESP e SBPC; membro da Comissão de Prevenção e Combate à Tortura pela ALESC, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, na Arquidiocese de Florianópolis.
Agosto Dourado: o aleitamento materno também salva o planeta

O leite materno é considerado pelos especialistas como alimento “padrão ouro”, por isso, neste mês, realiza-se a campanha Agosto Dourado, como incentivo à amamentação. Entre os dias 1º e 7, a Aliança Mundial de Ação Pró-Amamentação (WABA, sigla em inglês) promove a Semana Mundial de Aleitamento Materno. A proposta é mobilizar famílias, profissionais, cientistas e governos. Todos os anos, a entidade define um tema e divulga materiais traduzidos para vários idiomas, com participação de 120 países. “Apoie o aleitamento materno para um planeta mais saudável” é o destaque em 2020. Para os organizadores, o aleitamento é um gesto de proteção não só às crianças e a toda a família, mas surpreendentemente também ao meio ambiente. De acordo com o Ministério da Saúde, a iniciativa quer informar as pessoas sobre o vínculo entre a amamentação, o ambiente e as mudanças climáticas. As autoridades reforçam que a amamentação é natural, renovável e segura para o planeta. A substituição indiscriminada do leite humano por produtos industrializados pode causar mal também à natureza. A fabricação de suplementos exige estruturas muitas vezes nocivas ao planeta, como o consumo de água e energia, além de gastos com embalagens. Tudo isso sem contar que os “substitutos” não oferecem os mesmos benefícios. “A ideia de substituir leite materno por leite artificial pode ser comparada à de sugerir que se substituam os rins por aparelhos de diálise”, afirma Andrew Radford, membro da Baby Milk Action, em artigo publicado na revista Breastfeeding Review. Segundo Radford, o alimento artificial e os aparelhos de diálise salvam vidas, mas usá-los indevidamente no lugar dos órgãos originais do corpo é perigoso e desperdiça recursos. Benefícios para a vida inteira Segundo a WABA, as ações em prol do aleitamento em tempos normais e em emergências são essenciais para garantir que as necessidades nutricionais dos bebês sejam atendidas. Pelo leite a mãe transfere para a criança anticorpos, protegendo contra doenças perigosas, como diarreia e infecções, principalmente as respiratórias. Também diminui o risco de asma, alergias, obesidade e diabetes, mesmo quando os pequenos já podem se nutrir com outros alimentos. Os estudos comprovam ainda que mamar no peito é um exercício eficiente para o desenvolvimento da face da criança, da respiração, além de ajudar a formar dentes fortes. A tudo isso se acrescenta que o gesto ajuda a estreitar o vínculo entre mãe e recém-nascido, mais um ganho para toda a vida. A Organização Mundial da Saúde (OMS) propôs uma meta para que, até o ano de 2025, 50% das crianças estejam recebendo o aleitamento exclusivo até os seis meses de vida. No Brasil, o índice é alarmante. Não chega a 9% o índice de crianças que se beneficiam do aleitamento materno exclusivo no primeiro semestre de vida. Curiosidades sobre o aleitamento materno O recém-nascido que recebe o leite materno em até uma hora após o nascimento está mais protegido contra infecções, reduzindo as taxas de mortalidade neonatal. Os homens, sobretudo os pais, também devem instruídos sobre a importância do aleitamento materno e, sempre que possível, devem estar ao lado da mãe e da criança durante a amamentação. A doação de leite materno pode salvar milhares de crianças. O Brasil tem a maior rede de banco de leite do mundo. O leite materno contém anticorpos, água, gorduras, proteínas, vitaminas e açúcares de que o bebê precisa para se desenvolver bem e crescer de forma saudável. Não é necessário oferecer água ao recém-nascido que amamenta exclusivamente de leite materno. Crianças e jovens que foram amamentados quando bebês têm menos chances de serem obesos, segundo estudos da OMS. Além de estreitar o vínculo com a criança, a amamentação ajuda a mãe a perder peso após o parto e ainda a protege do câncer de mama e de ovário. A amamentação é capaz de salvar a vida de cerca de 13% das crianças, menores de 5 anos, em todo o mundo. Para saber mais Aleitamento.com Rede Internacional em Defesa do Direito de Amamentar – Brasil Blog da Saúde (Ministério da Saúde)
18º Domingo do Tempo Comum

“Dai-lhes vós mesmos de comer”Mt 14,13-21 O Evangelho de hoje vem logo após a história da morte de João Batista, ligada à festa de aniversário do tetrarca Herodes Antipas. Mateus contrasta o “banquete da morte”, promovido por Herodes, com o “banquete da vida”, protagonizado por Jesus. O milagre, normalmente chamado “A Multiplicação dos Pães”, é o único milagre de Jesus relatado em todos os quatro evangelhos. Isso aponta para a importância dada nas primeiras comunidades a esse relato, tanto que sua memória persistiu não somente nas comunidades da tradição sinótica (Marcos, Mateus e Lucas), mas também na comunidade do Discípulo Amado. Mesmo fazendo uma leitura superficial dos quatro relatos (Mc 6,30-44; Lc 9,10-17; Mt 14,13-21; Jo 6,1-15), alguns elementos importantes soltam aos olhos: a reação dos discípulos diante do problema da fome da multidão. Nos sinóticos, a solução sugerida por eles foi a de despedir a turba, para que pudesse comprar pão. Assim, ignoraram a situação dos que não tinham possibilidade de comprar. É a solução de muita gente hoje, diante do escândalo da pobreza no mundo: que se virem! Cada um para si! Quem não tem condições que se lasque! Jesus rejeita claramente essa “solução”: “Dai-lhes vós mesmos de comer!”. Em João, Marcos e Lucas, a proposta de comprar pão para doá-lo também se revela uma solução inadequada. Jesus insiste “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Ele não aceita nem a solução de “lavar as mãos” diante da fome alheia ou de cair em um assistencialismo. Ele desafia a comunidade dos discípulos a achar uma saída baseada numa nova proposta de vida, a da partilha. Em nenhum dos quatro relatos se usa o verbo “multiplicar”. O motivo é simples. Se a ênfase caísse sobre o “multiplicar” milagroso, teria poucas consequências para os discípulos (nós, hoje), pois não temos possibilidade de “multiplicar” as coisas. Os verbos são bem escolhidos: “benzer, partir, dar, distribuir”, porque todos nós podemos partilhar os bens materiais e espirituais que temos.O Brasil não precisa “multiplicar” terras, bens ou renda. Tem mais do que o suficiente. Mas é urgente partilhar e redistribuir os bens que Deus nos deu para o sustento de todos. Menos do que João, mas muito mais do que Lucas e Marcos, Mateus liga a sua narrativa à instituição eucarística (Mt 26,26). Também concentra a atenção nos pães, pois, nesse relato, somente eles são distribuídos. Assim, o texto nos lembra que a participação eucarística exige compromisso com uma visão social baseada na partilha dos bens necessários para a vida e não na acumulação da parte de alguns, junto com a falta do básico para muitos. O cristão não pode compactuar com uma sociedade organizada conforme os princípios de Herodes, mas deve lutar para a construção de uma sociedade em favor da vida, seguindo as pegadas de Jesus de Nazaré. O texto de hoje relê Êxodo 16 (sobre o maná), Números 11 (as codornas) e 2Rs 4,1-7.42-44 (em que Eliseu distribuiu óleo e pão). O texto de Êxodo 16 enfatiza que a avareza de acumular coisas às custas dos outros leva à podridão. É claro que, diante do enorme sofrimento da maioria da população do mundo, a gente pode sentir-se tão impotente como se sentiram os discípulos no Evangelho de hoje. Mas o texto nos ensina que não devemos cair na cilada de aceitar as saídas falsas propostas pela sociedade vigente e hegemônica: ou de “lavar as mãos” ou de cair somente num simples assistencialismo. O cristão, sustentado pela Eucaristia, a Mesa da Palavra e a Mesa do Pão, deve se comprometer com uma visão cristã da sociedade, que exige que nós façamos o que é possível para a construção de um mundo de justiça e fraternidade. Há dois mil anos, Jesus olhou a multidão, teve compaixão dela e agiu. Com certeza, Ele olha hoje a situação de tantos irmãos e irmãs, e pede que seus seguidores façam algo para mudar a situação. É comum os jornais trazerem notícias do aumento assustador da fome no mundo, por causa da crescente falta de alimentos e do aumento dos preços de alimentos básicos. Paira sobre nós, cristãos, o desafio do texto de hoje: “Dai-lhes vós mesmo de comer!”. O que significa isso na prática para mim, para você, para as nossas Igrejas, na situação concreta da nossa vida? Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
Pássaros voam em direção à luz

Estava com um grupo de jovens em um retiro. Fomos ver o nascer do sol! Celebrar a luz! Enquanto o sol não despertava, ainda havia noite. Aos poucos, os albores matinais foram invadindo tudo. Os pássaros começaram a acordar, e os maiores, ainda em silêncio, começavam a sair de seus dormitórios e voavam ao encontro da luz. Todos eles alçavam voo. Voavam em direção à claridade que vinha chegando do Sol, surgindo lá longe, no horizonte. O Sol ainda não tinha tomado conta de tudo, mas bastou começar a mostrar um novo dia, e os pássaros saíram em pequenos grupos, em grupos maiores, voando para mais perto dele. Era curioso: todos pareciam ir ao encontro da luz! Não sei se isso é instintivo dos pássaros. Eles devem ter uma razão que desconheço. Talvez os ornitólogos saibam. Contudo percebo que, assim como ocorre ao amanhecer, também se dá ao cair da tarde. Os pássaros voltam, ou melhor, voam em direção ao Sol novamente. São livres porque vivem segundo os ciclos da natureza, da vida. Para cada dia, basta o que o dia oferece, sem ganância, sem sofreguidão. Todos sabem que, após uma noite, outra alvorada vem. Poderão voar de novo em direção à luz. Esse vaivém dos pássaros suscitou-me algumas perguntas. Será isto um desejo inato dos seres vivos, desejarem a luz? Ela tem a ver com a vida? Quando se nasce, se diz que a “mãe deu à luz um filho” e se celebra um nascimento. Então é bem provável, porque, sem luz, ficamos às escuras, sem rumo e sem norte. E aí podemos ficar rodopiando como peão do jogo das crianças: roda, roda até cansar e aí se deita, e não sai do lugar. Viver a vida sem sair do lugar é ficar tonto e não perceber os horizontes que se abrem a cada manhã. É ficar parado, esperando o dia passar e não ir ao encontro da luz. Pássaro que é pássaro sabe que a vida está perto da luz, lá é onde ele encontra comida mais fácil, sente-se mais protegido, pode ficar alerta diante de algum perigo. É a partir dela que ele sabe quando o dia começa e quando termina. Sabe a hora de sair e a hora de voltar. Nós, humanos, nem sempre observamos isso. Aliás, no mundo de hoje, as pessoas andam meio atrapalhadas. Há uma inversão de sentido das coisas. Estamos perdendo muito daquilo que a vida sempre nos ensinou: que ela somente tem sentido se for em direção à Luz. Mas hoje parece que vivemos numa escuridão, e o medo toma conta de nós. Veja-se em São Paulo, Rio de Janeiro, por exemplo. A violência está assustando todo mundo, o medo começa a governar a vida, já não se pode sair com liberdade de ir e vir, porque, em qualquer esquina, pode haver alguém com segundas intenções, querendo assaltar, roubar, sequestrar. Veja-se também o que se faz com a natureza. Destroem-se as árvores, envenenam-se os rios, polui-se o ar, invadem-se os espaços livres. Muitos já entram em desespero, a depressão é um dos sinais. Como sair dessa? Onde está a solução? Certamente a resposta é difícil e complexa. Mas tudo não poderia se resumir nisto: é porque não sabemos mais observar os pássaros? Todos os dias, eles nos dizem: “A vida está onde há luz”. É para lá que precisamos ir. Aliás, alguém já nos disse isso há dois mil anos, “Eu sou a luz do mundo, quem anda por mim não fica nas trevas”. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.