25º Domingo do Tempo Comum

“Os últimos serão os primeiros”(Mt 20,1-16) Há um consenso entre os estudiosos da Bíblia de que o centro da pregação de Jesus era “O Reino de Deus” (ou dos Céus, que, em Mateus, significa a mesma coisa). Mas Jesus nunca define o Reino; pelo contrário, sempre o descreve por meio de parábolas, para que o ouvinte se esforce para descobrir quais são os valores que tornam o Reino de Deus presente no meio de nós. A parábola de hoje nasce no contexto da realidade agrícola do povo da Galileia. Era uma região rica, de terra boa, mas com seu povo empobrecido, pois as terras estavam nas mãos de poucos, e a maioria trabalhava ou como arrendatários ou como “boias-frias”, como diríamos hoje. Embora a cena situe-se na Galileia de 2 mil anos atrás, ela bem poderia ser no Brasil da atualidade. Apresenta uma situação de trabalhadores braçais desempregados, não por querer, mas “porque ninguém os contratou” (v. 7). Talvez haja uma diferença, comparando com a situação de hoje: na parábola, o salário combinado era uma moeda de prata, um denário, que, na época, era o suficiente para o sustento de uma família por um dia, o que nem sempre se verifica hoje. O texto nos ensina que a lógica do Reino não é a lógica da sociedade vigente. Na nossa sociedade, uma pessoa vale pelo que produz; logo, quem não produz não tem valor. Assim se faz pouco caso do idoso, aposentado, doente, excepcional. Na parábola, o patrão (símbolo do Pai) usa como critério de pagamento não a produção, mas o sustento da vida: também o trabalhador da última hora precisa sustentar a família e, por isso, recebe o valor suficiente: um denário. O Reino tem outros valores da sociedade neoliberal do nosso tempo: a vida é o critério, não a produção. Por isso quem procura vivenciar os valores do Reino estará na contramão da sociedade dominante. O texto nos convida a imitar o Pai do Céu, lutando por novas relações na sociedade e no trabalho, baseadas no valor da vida, não na produção e consumo. Para a comunidade de Mateus, a parábola tinha mais um sentido. Começavam a entrar pagãos na comunidade, e muitos cristãos de origem judaica tinham dificuldade em aceitá-los em pé de igualdade, eram “da última hora”. Mateus conta a parábola para ensinar a eles que, no Reino, experimentado por meio da comunidade, não pode haver discriminação entre cristãos de várias origens; por isso “os últimos serão os primeiros”. O critério é a gratuidade de Deus Pai, pois tudo o que temos recebemos dele, e sendo todos filhos e filhas amados dele, a comunidade cristã não pode discriminar pessoas, por qualquer motivo que seja. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.Pe. Tomaz Hughes, SVD

A vida resiliente do povo Pataxó Hã-hã-hãe: entre lutas e lutos

O povo Pataxó Hã-hã-hãe, com cerca de 4 mil pessoas, vive em território tradicional, nos municípios Pau Brasil, Itaju do Colônia e Camacan, no sul da Bahia. No entanto, devido aos conflitos gerados por disputas fundiárias com fazendeiros, a crise de água decorrente do monocultivo de eucalipto na região e as ameaças por parte dos produtores de cacau e pecuaristas, membros do povo foram forçados a migrar para diferentes regiões de Minas Gerais a partir de 1970. Em 2012, um grupo se instalou temporariamente em Belo Horizonte, mas a incompatibilidade com o estilo de vida da cidade, a impossibilidade de viver e expressar seus costumes, bem como os múltiplos desafios próprios do meio urbano fizeram com que os indígenas buscassem um novo território. Em 2017, esse grupo ocupou um terreno de 30 hectares no Município de São Joaquim de Bicas-MG, Região Metropolitana de Belo Horizonte, às margens do Rio Paraopeba, formando a aldeia Naô Xohã. A área, protegida como reserva ambiental, estava sob litígio e pertencia à mineradora MMX Mineração e Metálicos S.A., do empresário Eike Batista. Desde que chegaram à região, os indígenas vinham reivindicando a regularização fundiária do território que ocupavam. O anseio de ter um lugar onde pudessem viver sua cultura em paz e em harmonia com a Mãe Terra, como é tão próprio do povo indígena, foi fortemente impactado em 25 de janeiro de 2019. Nesse dia, ocorreu a ruptura da barragem do Córrego do Feijão, da mineradora Vale, no Município de Brumadinho. Os indígenas viram seu sonho se transformar em pesadelo quando toneladas de resíduos tóxicos contaminaram o rio e as terras de que dependiam para sua sobrevivência. Depois do desastre, algumas famílias decidiram ficar na área, no entanto outros membros não encontraram condições materiais e emocionais para permanecer no local. “Saímos de lá porque não estávamos aguentando mais ficar naquela situação. O Tyopai (rio) estava morto, e a gente não podia plantar nem fazer rituais. Estávamos ficando doentes”, conta a líder indígena Ângohó, que se tornou uma das vozes de denúncia dessa tragédia humana e ambiental. Hoje 13 famílias estão em Belo Horizonte. Vivendo em diferentes locais na periferia da capital mineira, atualmente os indígenas lutam pela subsistência. O auxílio pago pela Vale, por determinação judicial, é insuficiente para as despesas do grupo. A situação ficou ainda mais dramática com a pandemia do novo coronavírus. A venda de artesanatos na Feira Hippie e outras localidades, fonte principal de renda do grupo, foi interrompida. Além disso, todos foram contaminados pelo vírus, sendo que alguns tiveram sintomas graves. Atualmente, para a sobrevivência, essas famílias contam com a solidariedade de pessoas e entidades. A Redes (Rede de Solidariedade), entidade das missionárias Servas do Espírito Santo, soma-se a outros benfeitores com o objetivo de auxiliar os indígenas em suas necessidades e apoiá-los na luta por seus direitos a uma vida digna. Nem os indígenas, nem nós, apoiadores, estamos satisfeitos com a situação na qual se encontram no momento. “A gente não quer viver assim, de doação. Sabemos plantar, fazer nosso artesanato. Só queríamos que nos devolvessem nossa terra e nossa paz”, afirma Ângohó. A maior urgência desse grupo do povo Pataxó Hã-hã-hãe é a justiça. Embora os males causados pelo crime da Vale nunca possam ser compensados em sua totalidade, uma vez que vão muito além de questões materiais, esperamos que a companhia possa responder pelos danos causados em todas as dimensões possíveis de reparação. Continua a luta do líder Galdino, também pataxó hã-hã-hãe, queimado e assassinado em Brasília quando reivindicava os direitos de seu povo. Diante de todas as formas de ameaças, desde o tempo da colonização até a contemporaneidade, os corpos indígenas teimam em resistir. Se alguns tombam pela truculência dos brancos e pela voracidade do capitalismo, o sonho por uma terra sem males continua vivo e vibrante. Que a causa indígena seja também a nossa. Certamente esse também é o sonho de Tupã (Deus) que, por meio de seu Filho, quis instaurar seu Reino, seu projeto, onde todos podem ter vida em abundância. Ir. Stela Martins, SSpSCoordenadora da RedesRede de Solidariedade

SSpS abrem nova comunidade na capital paulista

Nem a pandemia impediu a missão de três irmãs servas do Espírito Santo, Ir. Maria Gislaine Pereira, Ir. Lusia Sakunab e Ir. Severina do Carmo Amaral, de iniciarem uma nova comunidade religiosa. A nova casa está situada na Paróquia São Marcos, Parque São Rafael, Zonal Leste de São Paulo-SP. Irmã Gislaine, coordenadora da comunidade, é brasileira; Ir. Lusia é da Indonésia e, como missionária, está no Brasil há 18 anos; e Ir. Severina é natural do Timor Leste e chegou ao Brasil há sete meses e está estudando português. A comunidade foi fundada tendo como perspectiva a missão no Centro Educacional Madre Theresia, creche que atende gratuitamente 65 crianças de famílias em situação de vulnerabilidade econômica, e também na Paróquia São Marcos Evangelista, onde atuam os missionários da Congregação do Verbo Divino. A creche pertencia ao Verbo Divino e, em 2017, passaram para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo. As irmãs, que moravam na comunidade do Tatuapé, começaram a trabalhar na creche, para isso, tinham de tomar ônibus e metrô todos os dias. O tempo gasto no trânsito, devido à longa distância, era uma dificuldade para que chegassem a tempo dos compromissos. “Agora a nossa presença aqui abrirá a possibilidade de visitar as famílias de nossas crianças. A maioria delas vem de locais onde a realidade da vida é mais dura e desafiadora”, enfatiza Ir. Gislaine. “Para iniciar uma comunidade neste tempo de pandemia, precisávamos do espírito e da intercessão do São José Freinademetz”, conta Ir. Lusia. Ao explicar por que a comunidade escolheu o santo como patrono, Ir. Lusia conta que ele foi pioneiro como missionário do Verbo Divino na China. “Toda a sua vida foi marcada pelo desejo de ser um chinês entre chineses. Ele disse ‘Eu amo a China e os chineses; aqui quero morrer e junto deles ser enterrado’”. Quando surgiu uma epidemia de tifo, o evangelizador foi à frente no atendimento e socorro às vítimas. O missionário contraiu a moléstia e morreu no dia 28 de janeiro de 1908, em Taikia. “‘O melhor lugar é onde Deus nos quer’, como disse São José Freinademetz, por isso estou feliz por colaborar entre o povo nesta região”, explica Ir. Gislaine. Para uma recém-chegada ao Brasil, como a Ir. Severina, a linguagem pode ser uma barreira para comunicar e compreender, mas ela afirma, com confiança, que precisa não somente do idioma para conversar com as pessoas, mas também da linguagem do amor. Ela também retoma o ensinamento do patrono da nova comunidade, o qual dizia que “A única linguagem que todas as pessoas entendem é a linguagem do amor”. A bênção da nova comunidade foi no dia 22 de agosto. O rito foi celebrado juntamente com a missa, presidida pelo Pe. Bonifácio Issaka, pároco, e demais verbitas da paróquia. A coordenadora provincial, Ir. Maria Percila Vieira, as irmãs conselheiras, Maria Aparecida Ribeiro e Heloise Mattos, além da ecônoma, Ir. Maria de Fátima Marques, foram conhecer a nova residência das irmãs e participaram da liturgia. “A missão não é nossa missão só, mas a missão de Deus, da Província e também da Congregação. Nós três representamos a missão de todas”, disse Ir. Gislaine. Irmã Lusia falou com gratidão sobre o apoio e a partilha das irmãs para o estabelecimento da nova comunidade. “Nós temos tudo em casa e nada compramos, pois a Província partilhou conosco”. “Irmã Maria Percila nos acompanhou no dia a dia, e também toda a Província estava conosco pelo espírito de oração e pelo apoio”, acrescentou Ir. Gislaine.

Lives ajudam a superar o estresse da pandemia

A Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo vem realizando uma série de atividades on-line dentro do Projeto Tecendo Relações. Entre elas estão as lives que apresentam os talentos dos colégios da Rede de Educação. A última foi com a banda Xad Caramelo, na sexta-feira, 11 de setembro, no Colégio Stella Matutina, em Juiz de Fora-MG. A escola está comemorando 118 anos de existência. Antes disso, o Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG, apresentou a banda Soul Much Blues, no fim de julho. A irmã Maria de Fátima Marques, diretora-presidente da Rede de Educação, explica que as lives surgiram como um desdobramento do projeto Tecendo Relações, quando perceberam que a pandemia estava gerando muito cansaço e um certo nível de estresse na comunidade educativa. “Então resolvemos trazer as lives com uma leveza artística, com a música, com o ‘sextou’, com o descanso, para estar num ambiente familiar, curtindo uma boa música”. Além disso, segundo ela, é também uma oportunidade para promover os talentos dos alunos e professores, que se intercalam durante a apresentação. Na última live, o aluno Alexander Behrend e sua mãe, Ana Paula Behrend, professora de Música, representaram o Colégio Imaculado Coração de Maria, que celebrou recentemente os cem anos de presença no Méier, bairro do Rio de Janeiro-RJ. O aluno Eduardo Martins, do Colégio Espírito Santo, fez uma apresentação de guitarra, e o professor Célio Andrade, do Colégio Sagrado Coração de Jesus, soltou a voz, em homenagem ao cantor Vander Lee, nascido em Belo Horizonte-MG. “O Tecendo Relações, dentro dos jardins do Colégio Stella Matutina, comemorando os seus 118 anos, fez pulsar dentro de mim os sentimentos mais profundos de saudade, de emoção, de solidariedade e de amizade”, afirmou a gestora administrativa Raquel Fiuza. Para ela, o projeto significa “o reencontro com a comunidade escolar, neste momento de angústia, de tristeza, por que o mundo está passando”. O mais importante para ela é que isso “está fazendo os nossos corações pulsarem”, não só nos alunos e profissionais, mas também no ex-alunos e até nas escolas vizinhas. Feliz com os bons resultados, afirma: “A comunidade precisa desse carinho”. Também Lilian Sedlmayer, diretora educacional do Colégio Stella Matutina, falou de sua emoção ao perceber o engajamento da comunidade escolar: “Foi muito bom participar da organização do evento, ver a mobilização das pessoas e a emoção da equipe, dos professores, alunos e familiares”. Irmã Maria de Fátima vem participando diretamente das lives e demais atividades on-line, e comenta que as transmissões já ultrapassaram 1.800 visualizações. “É número muito significativo no universo educacional de nossas escolas”, acrescenta. Das atividades on-line, o recorde de visualizações foi a apresentação do centenário do Colégio Imaculado Coração de Maria, em agosto, com mais de 4.600 visualizações. Segundo ela, está crescendo a adesão no canal do Youtube, o que mostra que “a comunidade educativa vem respondendo a esse projeto on-line da Rede de Educação”. A diretora-presidente lembrou ainda que, neste momento, o objetivo da Rede de Educação é cuidar da comunidade educativa, incluindo os educadores, os alunos e as famílias, e que “esses momentos de leveza são uma expressão desse cuidado”, explicou. “Queremos desestressar, viver momentos alegres, mesmo que o distanciamento social, nesta realidade da pandemia, traga desafios tão profundos.” Para finalizar, Ir. Maria de Fátima recitou o slogan da Rede: “Uma escola viva pulsa na gente”. ____ Na live do dia 11 de setembro, foi escolhida a banda Xad Caramelo porque seu vocalista, Alex Xad, é pai do aluno Aleph Mograbi, de 2 anos de idade, e sua esposa Thais Moreira Silva, é professora do colégio. A apresentação, com um repertório dedicado ao rock dos anos 70, foi uma homenagem aos 118 anos do Stella Matutina. Aqui trazemos a letra da música composta por Thomé Paulo Soares e Xad Caramelo, a qual ganhou uma adaptação para homenagear a presença missionária do colégio na cidade de Juiz de Fora. Flores do Céu Em tudo e em todosAlgo existe fascinante de se ver O céu é lindo visto da terraA terra é linda vista do céuFlores da terra, flores do céu Na bravia tempestadeNos ventos indomáveisNa calmaria em um lagoNo cintilar das gotasAté no tocar dos sinosDe um templo mais alémNa revoada dos pássarosAlegres em debandada O céu é lindo visto da terraA terra é linda vista do céuFlores da terra, flores do céu No alvorecer do diaNa noite caindo aos poucosNo surgir de uma estrelaNas estrelas matutinas (O Stella Matutina – adaptação) O céu é lindo visto da terraA terra é linda vista do céuFlores da terra, flores do… Se o mundo assim tão beloMe revelou sua belezaSerá assim pra sempreE será a partir de agora! O céu é lindo visto da terraA terra é linda vista do céuFlores da terra, flores do céu

24º Domingo do Tempo Comum

“Não lhe digo sete vezes, mas até setenta vezes sete”(Mt 18,21-35) Este texto trata do último dos problemas comunitários no discurso do capítulo 18: o perdão. Mais uma vez, é Pedro que articula em palavras o desafio cristão, “Quantas vezes devo perdoar o meu irmão?”, e responde ele mesmo, sugerindo “sete vezes”, com certeza achando que agir assim seria um exagero. Mas, para Jesus, não basta o discípulo agir segundo os critérios deste mundo, nosso modelo de ação sempre deve ser o Pai. Por isso exige “não somente sete vezes, mas setenta vezes sete”, ou seja, para quem realmente quer se modelar em Deus, o perdão tem de ser sem limites. A frase lapidar é tirada da tradição comum que Mateus partilha com Lucas (17,4), mas Mateus acrescenta a parábola dos servos, para ilustrar a necessidade da misericórdia sem fim. A ideia básica inverte a posição sangrenta e vingativa de Lamec, em Gênesis (4,24): “Se a vingança de Caim valia por sete, a de Lamec valerá por setenta e sete!”. O cristão tem de deixar definitivamente por trás todo sentimento de vingança e assumir os novos valores do Reino de Deus, entre os quais tem lugar de destaque o perdão. A parábola provavelmente foi composta pelo autor mesmo, para ilustrar um dos pedidos do Pai-Nosso, “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos os nossos devedores”. Fazendo esse pedido, estamos querendo o perdão de Deus para que, experimentando-o, consigamos perdoar nossos devedores (originalmente se referiu realmente às dívidas financeiras, mas se aplica às ofensas em geral). Não é que o perdão de Deus depende do nosso; é sempre Deus que toma a iniciativa, e nós que respondemos. Mas somos capazes de render nulo o efeito do perdão do Pai se nós não queremos perdoar os outros. Assim, o Pai continua querendo nos perdoar, mas nós cortamos o efeito dessa gratuidade divina. Obviamente, o perdão envolve um processo todo, que abrange não apenas a parte espiritual, mas também psicológica da pessoa. Não se consegue eliminar os efeitos das ofensas de uma só vez. Mas o importante é o “querer” perdoar. O próprio desejo já é o perdão, pois é somente com a graça divina que nós conseguiremos perdoar mesmo. Mas, quando esse desejo é ausente, nem o perdão do Pai penetra a barreira que nós erguemos, e seu perdão fica sem frutos. A proposta do texto de hoje é além de nossas forças humanas, mas não além da possibilidade da graça divina. Por isso temos de sempre pedir o dom do perdão, conforme nos ensina a Oração do Senhor, para que nossas comunidades sejam verdadeiramente sinais do Reino e não meramente aglomerações de pessoas que partilham as mesmas teorias teológicas, mas sem que estas influenciem em sua vivência, em sua prática. De nossa parte, exige-se esforço, e Deus dará a força, para que vivamos conforme o desafio do Sermão da Montanha: “Sejam perfeitos como o Pai do Céu de vocês é perfeito” (Mt 5,48). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.Pe. Tomaz Hughes, SVD

Missão em Juquitiba continua…

Na vida missionária, tão importante quanto iniciar uma missão, é saber a hora de entregá-la aos outros. Assim se deu com a comunidade das missionárias servas do Espírito Santo de Juquitiba-SP, após 33 anos de presença evangelizadora no Município localizado na Região Metropolitana de São Paulo. Irmã Elisabeth Plattner e Ir. Anastásia M. Krohling, em um misto de saudade e de gratidão pela missão cumprida, compartilham um pouco do “tempo em Juquitiba”. Ambas trabalharam em diferentes períodos, mas sempre atuando na área de saúde integrativa, com o objetivo de “ajudar as pessoas a tomarem a saúde em suas próprias mãos”, conforme explica Ir. Beth, como é mais conhecida. Antes de começar a pastoral da saúde, Ir. Anastásia recorda as visitas às famílias, tanto na cidade como também nos bairros do interior. Para resgatar o conhecimento que o povo tinha em relação ao uso de ervas medicinais, especialmente no uso de chás e tinturas, ela e a Ir. Beth organizaram cursos e atendimentos individuais. Em consequência, “muitas pessoas mudaram seu estilo de alimentação”, enfatiza Ir. Beth, relatando a importância de uma nutrição correta para uma vida saudável. Para que as pessoas conhecessem as propriedades das ervas e a variedade de verduras e legumes, as irmãs ampliaram a horta no quintal da própria casa e, na calçada, colocaram uma mesa com mudas, para que as pessoas as plantassem nas próprias casas. “Essa doação foi um legado que nós deixamos”, afirma Ir. Beth. Núcleo de Saúde Madre Teresa de Calcutá Na Pastoral da Saúde formaram uma equipe de leigos que lideravam ativamente a missão, com a orientação das irmãs. Regularmente os membros da pastoral visitavam os doentes, organizavam as missas dos enfermos e faziam encaminhamentos para outros profissionais de saúde. A pedido do pároco de São Lourenço da Serra, Município vizinho de Juquitiba, Ir. Beth iniciou, em 1998, a Pastoral da Saúde. O primeiro passo foi realizar um curso de fitoterapia. A partir daí, 15 pessoas se prontificaram a iniciar um trabalho de atendimento para as pessoas interessadas em melhorar e fortalecer sua saúde. Assim surgiu o Núcleo de Saúde Madre Teresa de Calcutá que, nos anos seguintes, promoveu inúmeras formações sobre tratamentos, como massagens, reiki, acupuntura sistêmica, terapia craniossacral, florais de Bach e de Minas, limpeza de ouvido com cone de cera, constelação familiar, entre outras. “Jesus sempre se preocupou com a saúde física e espiritual das pessoas. Para Ele, era fácil curar: um toque, uma palavra… Exigia apenas a fé da pessoa. Para nós, curar exige empenho, amor e perseverança”, afirma Ir. Beth, que é enfermeira. Nestes anos todos de missão, utilizando as terapias integrativas e complementares, as irmãs ajudaram muita gente a encontrar a cura. “Perto de nossa casa organizamos grupos de oração. Nós nos encontrávamos principalmente na Semana Santa e na novena de Natal”, conta Ir. Beth. Muitas pessoas se sentiam em casa na comunidade das irmãs e iam visitá-las para conversar, pedir orações e rezar na capela. Às vezes, passavam apenas para cumprimentar. “A casa tinha muito movimento”, lembra Ir. Anastásia. Desde 1987, muitas irmãs passaram por Juquitiba e deixaram sua contribuição para a missão. Durante um tempo, lá também foi casa de formação para as jovens que ingressavam na Congregação. Nos últimos anos, além da Ir. Anastásia e Ir. Beth, também Ir. Helena Suzana Christo morou na comunidade. Ela dividia seu tempo com a Casa São José, que cuida da recuperação de jovens dependentes químicos, e suas atividades com a Pastoral Carcerária e a CRB da Diocese de Campo Limpo. Mais recentemente, ela mudou para a Comunidade da Cohab Adventista, na Região Sul de São Paulo-SP, assumindo a coordenação das duas comunidades. Gratidão a Deus e ao povo Com a idade avançada, 86 e 87 anos, e problemas de saúde que foram se agravando, Ir. Anastásia e Ir. Beth perceberam que já era momento de deixar Juquitiba. Foi uma decisão tomada com tranquilidade e que já vinha sendo preparada havia mais tempo. Atualmente, elas vivem na comunidade do Convento Santíssima Trindade. Irmã Anastásia trabalhou quase 20 anos em Juquitiba e, para ela, não foi fácil deixar a comunidade e o Núcleo de Saúde Madre Teresa de Calcutá. “Sou grata a Deus e ao povo, principalmente às pessoas que nos ensinaram a viver mais autenticamente a nossa fé”, expressou com emoção. Depois, citando as palavras de São Paulo, acrescentou: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé” (2 Timóteo 4,7). Para Ir. Helena, o mais importante na missão é formar lideranças que possam dar continuidade ao trabalho e, em Juquitiba, os leigos assumiram as atividades pastorais e sociais ligadas à paróquia. Um dos motivos que dão tranquilidade e alegria às irmãs ao deixarem Juquitiba é que a missão do Núcleo de Saúde Madre Teresa de Calcutá continua com 25 terapeutas, e a casa onde estavam será usada para a recuperação de jovens dependentes químicos da Casa São José. “Assim, nossa missão está continuando” afirma Ir. Helena, com gratidão, lembrando também todas as irmãs que participaram na missão na comunidade.

Vivat pressiona países a defenderem meio ambiente

A Vivat Internacional, organização não governamental constituída por 12 congregações religiosas, entre as quais a Congregação das Missionárias Servas do Espírito Santo e a Sociedade do Verbo Divino, membros fundadores, atua na ONU para promover os direitos humanos, o desenvolvimento sustentável, a paz entre os povos e a defesa do meio ambiente, tendo em vista as futuras gerações. Seguindo sua missão, quer pressionar os países da América Latina e Caribe a assinarem o Acordo de Escazú, firmado na Costa Rica, em março de 2018. Mas que acordo é esse e qual a sua importância para o continente e o mundo? E o que a Vivat Internacional pretende fazer? Quem responde a essas questões é o Pe. José Boeing, verbita, membro da equipe da Vivat Brasil e que atua na Região Amazônica. Urgência de soluções para a Amazônia Os nove países pan-amazônicos estão sofrendo impactos ambientais, principalmente a Amazônia brasileira, afetada pelo desmatamento, grilagem de terras públicas, garimpos ilegais nas terras indígenas, impactos das hidrelétricas e mineradoras. Os povos indígenas e comunidades tradicionais são vítimas do sistema capitalista de exploração e depredação do meio ambiente. Por isso é urgente a necessidade de ratificar o Acordo de Escazú, que garante o direito de todos a um meio ambiente limpo e saudável, além de proteger aqueles que lutam para defender a ecologia. Como o prazo termina no dia 26 de setembro de 2020, a Vivat Internacional apoia a iniciativa da ONU e também reforça a carta da CLAR (Confederação Latino-Americana e Caribenha de Religiosas e Religiosos) para pressionar os congressos nacionais a fim de que pelo menos 11 dos 33 países da América Latina e do Caribe ratifiquem o tratado, de modo a levar o acordo a entrar em vigor (veja abaixo a íntegra da carta). Até o momento, 9 países ratificaram o documento (Antígua e Barbuda, Bolívia, Guiana, Nicarágua, Panamá, São Cristóvão e Nevis, São Vicente e Granadinas, Equador e Uruguai). Precisamos pressionar para que ao menos mais dois países ratifiquem o Acordo de Escazú. Por isso, a Vivat Internacional solicita que os cidadãos dos países enviem cartas, e-mails, ofícios para o Congresso Nacional de cada país, manifestando o interesse e a importância da ratificação do Acordo Escazú para a defesa da vida, dos direitos Humanos e do meio ambiente. Conheça o Acordo de Escazú O tratado histórico visa a garantir a implantação plena e eficaz, na América Latina e no Caribe, dos direitos de acesso à informação ambiental, participação do público na escolha de decisões ambientais e o acesso à Justiça em questões ambientais. O Acordo Escazú foi adotado em 4 de março de 2018, na cidade de Escazú, Costa Rica. Esse tratado fortalece o vínculo entre direitos humanos e defesa ambiental, impondo obrigações aos Estados partes sobre a proteção dos defensores dos direitos humanos ambientais. Assim, o Acordo de Escazú promove um modelo de quatro pilares da democracia ambiental. 1 – Acesso à informação O artigo 5 define as obrigações de os países que fazem parte garantirem o acesso à informação pública sobre o meio ambiente. De acordo com esse artigo, qualquer cidadão tem o direito de, sem a necessidade de apresentar demais justificativas, solicitar informações ambientais e recebê-las dentro de 30 dias. O artigo 6 define as maneiras pelas quais os países que fazem parte devem produzir e divulgar dados sobre o meio ambiente. As informações que devem estar disponíveis ao público incluem, entre outros, textos sobre tratados e acordos internacionais bem como leis ambientais, relatórios sobre o estado do meio ambiente, lista de áreas contaminadas, informações sobre o uso e conservação de recursos naturais e serviços ecossistêmicos, dados sobre processos de avaliação de impacto ambiental e sobre outros instrumentos de gestão ambiental. Além destes, informação sobre os riscos ambientais que possa afetar o meio ambiente e a saúde. 2 – Acesso à participação na tomada de decisões ambientais As comunidades afetadas pelos grandes projetos devem ser consultadas, como afirma a Convenção OIT 169. Qualquer empreendimento que causará impacto ambiental deverá antes passar por audiências e consultas aos povos originários. 3 – Acesso à justiça em questões ambientais O artigo 8 estabelece obrigações em relação ao direito de acessar mecanismos judiciais ou administrativos, de apelar e contestar decisões relativas ao acesso a informações ambientais ou à participação em processos de tomada de decisões ambientais. Isso é essencial para a plena implantação dos outros direitos. Da mesma forma, os países devem garantir a existência de entidades estatais competentes, com acesso a conhecimentos especializados em questões ambientais. Esses órgãos devem ser capazes de fornecer medidas preventivas para evitar danos ao meio ambiente e fornecer compensação e soluções eficazes para as vítimas dos danos ao meio ambiente. 4 – Proteção para os defensores ambientais Propõe prevenir, investigar e punir todos os ataques contra defensores de direitos ambientais. É o primeiro tratado internacional que contempla medidas específicas para protegê-los. Quatro pontos importantes do acordo Escazú 1 – Teve a participação significativa do público e o apoio da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), como secretaria técnica. 2 – É o único tratado que surgiu da Rio + 20 e o primeiro sobre questões ambientais na América Latina e no Caribe. 3 – Gerações futuras: o tratado reconhece o direito a um ambiente saudável para as gerações presente e futuras. 4 – Direitos humanos e meio ambiente: é o único instrumento internacional vinculativo com disposições específicas para a promoção e proteção dos direitos humanos em questões ambientais. Pe. José Boeing, SVDCoordenador da equipe executiva da Vivat Brasil. Desde 1991, atua na Amazônia como religioso missionário do Verbo Divino. Como advogado da CPT e pastorais sociais, sempre atuou junto com várias entidades em apoio aos defensores dos direitos humanos e do meio ambiente. ______ Assista ao vídeo produzido para a Vivat Internacional Íntegra da carta da CLAR A Confederação Caribenha e Latino-Americana de Religiosas e Religiosos (CLAR) solicita aos Congressos Nacionais a ratificação do Acordo de Escazú Bogotá, 4 de setembro de 2020. Em sintonia com a inspiração do Papa

Reaprendendo a flanar

Entre os vários sentidos que se atribuem ao verbo “flanar”, o significado formal sempre diz de algo sobre andar sem rumo, sem sentido e ociosamente. Com meus pés morrendo de saudades da rua, minhas mãos pousam no teclado, meus ouvidos escutam “acordes saltimbancos”, ouço a vizinhança ao longe, e a memória longínqua me faz lembrar certas cidades invisíveis. Não sabia mais se era sonho ou realidade, se era realidade sonhada, se era sonho realizado, só sei que meu “All Star azul” pisou na rua. Não eram mais a mesma praça, o mesmo banco, nem as mesmas flores, nem o mesmo jardim. Eu também já não era mais a mesma. O que eu enxergava já não me afetava da mesma forma. Nas palmeiras enfileiradas, o ir e vir sem fim. Ipês desprendiam suas flores bailarinas. Ao redor da praça, pessoas correndo contra o tempo, ao encontro da saúde e do bem-estar. Nos passos curtos dos idosos, a sabedoria dos que perderam a pressa de chegar. A presença divina nos ninhos, brotos e flores era de calar a alma de tanto encantamento. A fonte seguia jorrando e ressignificando cada gota, num transbordar infinito e cotidiano que somos nós. Máscaras na face das pessoas como se fossem uma declaração de amor próprio e à vida em comum. O barulho ensurdecedor dos carros seguia nos desafiando a encontrar caminhos e alternativas mais sustentáveis. Sementes pelo chão, sementes pela terra, sementes ao vento, um ar primaveril nos convidando a renascer e ser transformação. O cheiro da pipoca trouxe lembranças, e fez-se infância. Beijos estalando doçura e desejos eram ouvidos. Casais das mais variadas composições seguiam de mãos dadas celebrando a vida. A alegria da menininha que parecia voar no seu primeiro passeio de bicicletas sem rodinhas contagiava e nos enchia de metas e planos. A água potável que mata a sede, independente de faixa etária, credo ou classe social, seguia disponível e democrática. A essa altura, eu já estava descalça, sentindo as pedras do caminho nos pés, mas sabendo que flanar é preciso e que as cidades seguem e seguirão nos desafiando e inspirando. Cada dia, todo dia! Maria José Brant (Deka), assistente social, estudante de Antropologia, analista de políticas públicas no Programa Bolsa Família, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.

23º Domingo do Tempo Comum

“Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, eu estarei no meio deles”Mt 18,15-20 O texto de hoje é tirado do chamado “Discurso eclesiológico”, que trata de problemas da vida cotidiana da comunidade dos discípulos, a qual Mateus chama de “Igreja” (nos evangelhos, o termo “Igreja” só ocorre aqui e em Mateus (16,18). Entre esses problemas, podemos detectar a busca do poder (v. 1-5), o escândalo dado aos pobres e humildes (v. 6-14), a questão do irmão que erra (v. 15-20) e o perdão das ofensas (v. 21-25). São questões ainda atuais para as comunidades de hoje. Um dos grandes assuntos que perpassa o capítulo é a preocupação com o irmão, a irmã que se desgarra ou se desvia. A lição é que os dirigentes (e a comunidade) devem ter a mesma atitude de Jesus diante de tais pessoas, ou seja, a compaixão, a compreensão, a vontade de reintegrá-las à comunidade. Somente em último caso, o erro de um irmão deve ser levado à comunidade mais ampla (a Igreja), pois a caridade exige que primeiro se procure resolver a questão em particular. É nesse espírito que a comunidade ganha o poder que Pedro recebeu em Mateus (16,19), o de excluir o infrator da comunidade. Porém é essencial interpretar esse direito à luz dos versículos 12 a 14, em que a busca da ovelha desgarrada é dever primordial dos dirigentes comunitários, a exemplo do Pai Celeste. Esse sentido da exclusão é ressaltado por Paulo em 1 Coríntios (5,5): “Humanamente, ele será arrasado, mas seu espírito será salvo no dia do Senhor”. O texto conclui-se dizendo que, “se dois de vocês estiverem de acordo sobre qualquer coisa que queiram pedir, isso lhes será concedido”. Certamente, “qualquer coisa” se situa dentro das preocupações desta seção de Mateus, que trata do seguimento de Jesus e da vivência da comunidade. Não se refere a um pedido qualquer ou que não fomenta a chegada do Reino, da justiça, da partilha, da fraternidade. Quantas vezes nossos pedidos são nada mais do que expressões de nosso individualismo? Cumpre lembrar que o Deus da Bíblia ouve “o clamor do sofrido”, como tantos textos afirmam, os salmos e os profetas. O Evangelho afirma que o Pai vai atender a qualquer pedido em nome de Jesus, em favor da chegada do Reino. É claro que podemos e devemos rezar por nossas preocupações individuais e pessoais, mas elas não podem dominar o horizonte de nossa fé. Devemos realmente lembrar a frase tão importante de Mateus que nos ensina: “Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo isso será dado em acréscimo”. A nossa oração jamais poderá ser desvinculada dos grandes temas do Reino e do sofrimento de tantos irmãos e irmãs no mundo de hoje. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.Pe. Tomaz Hughes, SVD

A pandemia na perspectiva de uma comunidade de idosas

Vivendo nesta época da pandemia, cada pessoa tem uma história para contar às gerações futuras sobre a pandemia causada pelo novo coronavírus, que transformou a vida comum em um “novo normal”. Santana é uma comunidade de missionárias servas do Espírito Santo já idosas. São vinte irmãs, algumas acamadas, outras na cadeira de rodas, outras andando com a ajuda de bengala. Todas têm muito para contar. O covid-19 está afetando drasticamente a população global. Em muitos países, os idosos, por serem mais vulneráveis, enfrentam riscos maiores. Em relação às irmãs da Comunidade de Santana, os cuidados estão sendo redobrados. “Nossa responsabilidade é apoiá-las e protegê-las para não contraírem essa doença”, explica a Ir. Maria Percila Vieira, coordenadora provincial. Por orientação médica, as religiosas não recebem visitas, nem mesmo das outras irmãs de congregação. Irmã Maria Percila descreve os cuidados que elas recebem. Regularmente, as missionárias passam por consultas médicas e por acompanhamento de dentista, fisioterapia, nutricionista, enfermeiras e cuidadoras que estão sempre ao lado das missionárias. Ela também as acompanha nas reuniões e as ajuda a se organizarem melhor nas orações, missas e outras práticas espirituais. “Isso as ajuda a ter saúde física e mental. Estão todas felizes e com boa saúde, graças a Deus”, afirma a provincial. “A população de rua e os pobres passam fome e não têm quem cuide deles neste tempo de pandemia”, lamenta Ir. Maria das Graças Mallmann, 80 anos, coordenadora da comunidade. Ela se sente muito agradecida pelos cuidados recebidos, quando tantas pessoas não têm o necessário. “As cuidadoras estão se arriscando para cuidar de nós e de nossas necessidades”, acrescenta. “Agora a nossa única missão é rezar, e repito sempre a oração ‘Vinde, Maria, chegou o momento, se humano socorro vier a faltar, com o vosso sempre podemos contar’”. Irmã Mansuetis Santanna, 92, falou sobre calamidades naturais que vêm acontecendo nos últimos anos, e agora reflete sobre a pandemia que tira a vida de milhares de pessoas: “Somos vulneráveis. O futuro parece incerto”. Apesar disso, Ir. Mansuetis tem muita fé e esperança que Deus transformará toda essa situação e cita a frase do Apocalipse (21,5): “Eis que eu faço novas todas as coisas”. A Ir. Maria Catarina Schneider, 79, explica que sua visão em relação à própria vida mudou. “O coronavírus levanta questões metafísicas”. E ela se pergunta: “Por que isso está acontecendo? O que isso significa?”. Para ela, questionamentos como esses podem levar à oração. “Em vez de caminhar lá fora, caminho por dentro de mim. Agora compreendo melhor o que é a transitoriedade da vida”, partilha. Acompanhamento profissional A fisioterapeuta Daniela Aparecida Mourão se sente feliz e grata por trabalhar em um ambiente seguro e protegido: “Quando entro no convento, meu medo desaparece. Cada dia é uma batalha diferente, e tenho que vencer”. Ela explica que a Fisioterapia desempenha um papel importante no aumento da imunidade e da saúde mental durante a pandemia; a respiração melhora quando se fazem exercícios, ajuda no tratamento e na recuperação de pacientes também com covid-19. “Quando cuido da saúde dos outros, Deus cuida de mim; é uma bênção para mim e para minha família”, declara a fisioterapeuta. Maria das Graças Serrão da Silva, uma das enfermeiras que cuida das idosas, recorda o pronunciamento da Organização Mundial de Saúde, que declarou 2020 o “Ano da Enfermeira e da Parteira”, em comemoração ao 200º aniversário de Florence Nightingale (1820–1910). “Foi completamente inesperada esta crise internacional de saúde”, afirma. “Como cuidadoras de saúde, temos de buscar formas de proteger aqueles que estão em maior risco, como as irmãs idosas aqui”, explica Marisa Ferreira Gomes, outra enfermeira da comunidade. Apesar de seus medos e ansiedades, “temos de ser esperança e otimismo para as situações de desesperança”, acrescenta Maria das Graças. “A pandemia me faz pensar que a vida é curta, e desejo ser feliz, e as pessoas ao meu redor também. O que está acontecendo no mundo, com certeza, nos deixa tristes e deprimidos”, confessa Marcela Soares da Silva, uma das funcionárias da casa. Ela encontra sua própria maneira de tornar sua vida feliz e satisfatória. Ela costuma ouvir música no celular enquanto trabalha e aproveita breves momentos para conversar com as irmãs idosas e rir com elas. “Estou feliz e grata por ser capaz de trabalhar em um ambiente de silêncio e paz”, acrescentou. Com muita sabedoria, Norma Suely Barbosa dos Santos, uma das cuidadoras, acredita que “Deus está cuidando de nossas vidas, e nós na terra temos que cuidar de nosso próximo”. Ela recorda a parábola do “Bom Samaritano”. “Hoje essas irmãs precisam de nossa ajuda e cuidado, e amanhã podemos estar na mesma situação. Por isso precisamos ser mais humanas e bondosas com todos”, conclui.

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