Como se anuncia Cristo onde ninguém o conhece

Para São José Freinademetz, primeiro missionário da Congregação do Verbo Divino na China, “a linguagem do amor é a única língua que todos os povos compreendem”. Essa é a fala de um homem simples, sacerdote diocesano da região do Tirol, então pertencente à Áustria, hoje na Itália. Ao ouvir o chamado de Deus para ser missionário, saiu de sua terra e se juntou ao padre Arnaldo Janssen, que havia acabado de fundar uma casa missionária dedicada a São Miguel, em Steyl, Holanda. O objetivo era preparar missionários e enviá-los à China. Após um tempo de formação, o padre Freinademetz fez as promessas, deixou sua terra natal, pais e irmãos, e partiu para a China, uma cultura totalmente desconhecida por ele. Não falava a língua, não conhecia os costumes das pessoas. Ele saiu de um mundo, de cultura cristã, e se viu em uma sociedade não cristã, em um espaço onde havia muitas outras antigas tradições religiosas. Foi naquele contexto que Freinademetz percebeu sua limitação humana e a manifestação da graça de Deus em sua vida. Ele se deu conta de que, para ser missionário naquele país, era necessário fazer-se pequeno, humildade. Primeiramente teve de se esforçar para aprender o idioma, mas, ao mesmo tempo, ele, como estrangeiro, totalmente diferente dos nativos, tanto culturalmente como fisicamente, e sendo observado por todos, não podia deixar de se comunicar com as pessoas que lhe rodeavam. Mas como? Ele não falava chinês. É aí que ele se lembrou de São Paulo, na 1ª Carta aos Coríntios, capítulo 13, onde se lê que o amor cristão, ou seja, o amor ágape, está acima de tudo. Ele praticou esses ensinamentos bíblicos em sua vida cotidiana, junto aos chineses, não por palavras, mas sim pelo testemunho de sua própria vida. Foi por meio do sorriso, da acolhida, da preocupação com os pobres, os doentes e da paciência. Sabia que a obra missionária era de Deus e que ele era um simples operário da messe, como bem escreveu: “O êxito da missão é fruto da graça, tornado possível pela entrega incondicional e dedicação generosa do missionário”. Foi com a convicção na ação de Deus em sua presença missionária entre o povo chinês que ele foi conquistando, pouco a pouco, o povo daquele país. Isso durou anos. São José Freinademetz é, para nós, um exemplo de como um missionário deve se portar num lugar onde se faz necessária a primeira evangelização. Apesar de ele ter vivido a missão no século XIX, seu testemunho é sempre atual: o cuidado com os mais necessitados, a sensibilidade para perceber as demandas do outro, a aproximação com o povo, seu testemunho de fé mediante uma vida de oração como ele mesmo expressa: “Enquanto o permitirem minhas forças e meu limitado entendimento, todos vocês encontrarão em mim uma ajuda sempre pronta e um acolhimento cordial”. Semear Ontem e hoje, além do testemunho, o missionário é chamado a anunciar a pessoa de Jesus Cristo. Assim se expressou Freinademetz: “Ao missionário compete dar testemunho de Jesus Cristo e semear a boa semente do Evangelho, deixando ao Senhor o cuidado de que essa semente dê fruto a seu tempo”. Também o Documento de Aparecida (29) chama atenção sobre a importância do anúncio: “Deus amou tanto nosso mundo que nos deu seu Filho. Ele anuncia a boa-nova do Reino aos pobres e aos pecadores. Por isso, nós, como discípulos e missionários de Jesus, queremos e devemos proclamar o Evangelho, que é o próprio Cristo. Anunciamos a nossos povos que Deus nos ama, que sua existência não é uma ameaça para o homem, que Ele está perto com o poder salvador e libertador de seu Reino, que Ele nos acompanha na tribulação, que alenta incessantemente nossa esperança em meio a todas as provas. Os cristãos são portadores de boas-novas para a humanidade, não profetas de desventuras”. Em sua mensagem para o Mês da Missão de 2021, o Papa Francisco nos recorda que Jesus Cristo é missão, por isso o missionário, a missionária têm o dever de comunicar o conhecimento da Palavra que recebeu gratuitamente, como nos lembra no lema do Mês Missionário: “Não podemos deixar de falar sobre o que vimos e ouvimos” (Atos dos Apóstolos 4,20). O seguimento de Jesus exige do missionário o discernimento da realidade em que ele se encontra. Aí se faz necessária a vivência do Evangelho, que se expressa nos gestos e palavras que unem a todos na fraternidade. A união somente é possível quando Jesus é o centro, pois Ele nos comunica o amor do Pai, como nos recorda o Papa Francisco: “Quando experimentamos a força do amor de Deus, quando reconhecemos a sua presença de Pai na nossa vida pessoal e comunitária, não podemos deixar de anunciar e partilhar o que vimos e ouvimos”. São José Freinademetz, na missão de proclamar o Reino de Deus que é amor, compaixão, perdão e misericórdia, fez-se chinês com os chineses, sem deixar de ser tirolês. A partir de dentro, da proximidade com os chineses, proclamou com alegria o amor de Deus que “foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Romanos 5,5), amou aquele povo, sentiu-se um chinês entre os chineses e percebeu que a pátria do missionário é o mundo: “Se um missionário já não tem pátria neste mundo, é porque todo o mundo se tornou sua pátria”. Seu testemunho e seu amor ao povo chinês foram tão grandes que, no fim da vida, disse: “Os chineses são tudo para mim. Quero ser sepultado no meio deles… e continuar a ser chinês no Céu”. Padre Djalma Antônio da Silva, SVDMissionário do Verbo Divino na Província Brasil Norte (BRN), doutor e mestre em Ciências Sociais. Diretor do CCM (Centro Cultural Missionário), órgão vinculado à CNBB, em Brasília-DF.
O sangue dos mártires, os pobres da rua, as crianças carentes…

No mês de outubro celebramos o mártir São Calisto I, Papa que cuidava das catacumbas dos mártires, na Via Ápia, em Roma. Em seu dia (14), o Evangelho (Lucas 11,47-54) nos fala do sangue dos mártires. Como comunidade verbita de Teologia, temos Dom Paulo Evaristo Arns como patrono e o estamos recordando no dia 14 de cada mês, por ocasião de seu centenário de vida. A figura dele representa alguém que lutou incansavelmente pelos mártires injustiçados da vida cotidiana. O sangue é, para os judeus, o lugar onde reside a vida, essa vida que, ao ser derramada na terra, clama a Deus, como ocorreu com o sangue de Abel. De fato, desde que houve esse primeiro homicídio injusto, que simboliza milhões de mortes em nome da cobiça, da ganância, da exploração e do poder, não deixam de acontecer, em nosso mundo, mortes e mais mortes. O sangue dos inocentes continua clamando do ventre da terra, onde foi derramado. Jesus diz aos fariseus e mestres da Lei: seus pais derramaram sangue, tiraram a vida dos profetas, até no lugar mais sagrado para um judeu: entre o altar e o santuário. E tudo em nome do poder, da cobiça, da ganância e da exploração. E Jesus menciona o profeta Zacarias, o último da tradição profética do povo. Em outra passagem, Ele fala de João Batista, assim como a Carta aos Romanos (3,24-25) nos fala do sangue de Jesus Cristo que nos salva. Embora eu sempre diga que a história nunca se repete, às vezes, tenho a impressão de que continua a repetir-se hoje: muitos dos que sustentam esse sistema econômico de morte estão derramando o sangue e a vida de profetas que gritam com seus testemunhos, com suas palavras, mas também daqueles que vivem o dia a dia no silêncio. “Ai de vós” que matais os homens e mulheres aos poucos, sem lhes tirar a vida de maneira imediata, mas em parcelas e com juros… Como disse o Papa Francisco: “Estamos vivendo uma guerra mundial em pedaços, aos poucos”, e o sangue do povo continua sendo derramado. Para concluir esta reflexão, eu gostaria de partilhar dois testemunhos que resgato de minha experiência na Pastoral de Rua, no projeto “Alimentar Direitos”, que distribui diariamente mil marmitas à população em situação de rua, na Quadra dos Bancários, à Rua Tabatinguera, 192, Centro de São Paulo. O primeiro deles não aconteceu comigo, mas o ouvi de alguém que trabalha conosco na Associação Rede Rua. Ela disse que, depois de uma visita à Prefeitura de São Paulo, feita por alguns membros da equipe de trabalho e alguns dos nossos conviventes, eles voltaram para almoçar no lugar de atendimento, na Quadra dos Bancários. Ali, todos se sentaram ao redor da mesa para almoçar, enquanto um dos conviventes falava emocionado: “Estou agradecido, porque faz cinco anos que eu não me sentava à mesa para comer com alguém”. Um gesto que, para nós, é tão corriqueiro, cotidiano, esvaziado de sentido, para outros, torna-se um grande sinal de humanidade. O segundo testemunho é de um fato ocorrido na comemoração do Dia das Crianças, na ocupação Nova Jerusalém, perto da represa de Guarapiranga. Um menino, depois de uma linda manhã de atividades, brincadeiras, sorrisos e presentes, disse a mim e a uma voluntária: “Vocês são muito bacanas! Quero ir junto com vocês”. Ele sabia que, apesar de tudo, estava vivendo uma vida com muitas carências… Já como criança, vivia uma vida doída, dilacerada, injustiçada, quase que derramada na terra. Enquanto tivermos líderes e autoridades que não vejam isso, que não tenham um olhar que enxergue a vida, que não sejam humanizadores, seguiremos matando os profetas, seguiremos martirizando nosso povo. Que São Calisto, todos os mártires e Dom Paulo Evaristo Arns intercedam por nós, para que sejamos profetas da justiça, dispostos a derramar até nosso sangue se for necessário. Juan Contreras Tapia, SVDNatural do Chile, é seminarista da Congregação do Verbo Divino. Iniciou seus estudos no Chile, fez seu noviciado em Juquiá-SP. Atualmente está cursando o segundo ano de Teologia no ITESP (Instituto Teológico São Paulo). Desde o início de 2021, realiza trabalhos na Pastoral da Rua, no projeto Rede Rua.
O amor próprio começa pelo autocuidado

Criada na década nos anos 90, a campanha Outubro Rosa tem como objetivo conscientizar as mulheres sobre a importância da prevenção e do diagnóstico precoce do câncer de mama. O tumor maligno é o que mais acomete as mulheres e estima- se que mais de 66 mil novos casos sejam registrados no Brasil, em 2021. O câncer de mama, também, é o que mais mata no sexo feminino, atingindo cerca de 15 mil óbitos, por ano, no país. Além do autoexame, existem outros hábitos simples que as mulheres podem adotar para se manterem felizes e saudáveis. O médico Dr. Fernando Luiz Motter, Cancerologista Clínico, especialista em Oncologia Clínica, destaca a alimentação saudável, prática de atividades físicas, não fumar, não consumir álcool em excesso e não manter relações sexuais sem proteção são algumas delas. Além disso, é preciso consultar um médico periodicamente e fazer exames rotineiros. As mulheres, classicamente, são mais envolvidas com o autocuidado e com a promoção de sua saúde do que os homens. Procuram, mais rotineiramente, os recursos médicos e estão sempre à frente do sexo masculino quando se fala de prevenção e exames precoces. Que tal aproveitar o Outubro Rosa para desenvolver essa relação de amor com você mesma/o? SSpS – O câncer de mama é uma das principais doenças que afetam as mulheres, como você vê a importância de campanhas como Outubro Rosa? Dr. Fernando – Além de lembrarem, frequentemente, em todo mês de outubro, que as mulheres precisam fazer seus exames, em especial a mamografia, a iniciativa também traz muitas informações e ensinamentos. Estudos realizados no Canadá, Suécia e Espanha mostram que campanhas sistemáticas para realização de exames de rastreamento, como o Outubro Rosa, podem ter um impacto de até 30% na redução da mortalidade por câncer de mama. SSpS – Que outros tipos de câncer costumam afetar principalmente o público feminino? Dr. Fernando – Se excluirmos os tumores malignos de pele (aqueles mais simples, “não-melanoma”), as maiores incidências de câncer são o de mama (24,2%), de intestino (9,5%), de pulmão (8,4%) e de colo do útero (6,6%). O que chama a atenção é que todas essas doenças são facilmente preveníveis ou detectadas, precocemente, através de exames periódicos. SSpS – Muito se fala em prevenção, mas na prática qual o impacto de diagnosticar uma doença ainda nas fases iniciais? Dr. Fernando – Todas as doenças, especialmente de âmbito oncológico, têm mais fácil manejo e melhor prognóstico quando diagnosticadas precocemente. Um tumor pequeno é muito fácil de ser extirpado ou tratado, porque ainda não se enraizou e não se espalhou, através da corrente sanguínea e/ou linfática, para outros órgãos. Um câncer diagnosticado no início pode poupar cirurgias maiores, quimioterapia, radioterapia e diminuiu a mortalidade da doença. O diagnóstico precoce muda tudo! SSpS – As mulheres estão mais sujeitas a doenças crônicas, como diabetes e hipertensão? Dr. Fernando – Essas doenças acometem principalmente pessoas acima de 65 anos de idade com ligeira prevalência entre as mulheres. Alimentação balanceada, prática de atividades físicas e estilo de vida saudável ajudam diminuir a incidência e a morbidade de tais doenças. Lembro aqui que as doenças cardiovasculares, causadas principalmente pelo diabete e hipertensão são ainda a principal causa de morte global. SSpS – Que hábitos as mulheres devem ter para cuidar melhor da própria saúde? Quais doenças podem ser evitadas? Dr. Fernando – É preciso adotar medidas preventivas e de diagnóstico precoce.Medidas preventivas que devem ser adotadas são a promoção de atividade física, uma dieta rica em vegetais, frutas e proteínas (preferentemente oriundas de carnes brancas), e pobre em açúcar, sal e farinha. Evitar embutidos na alimentação, alimentos sob conservantes e sempre preferir alimentos frescos (evitar embutidos). Não exagerar na ingestão de alimentos submetidos ao fogo, como defumados e carne assada. Além disso, as mulheres devem evitar a atividade sexual desprotegida e o cigarro. Evitar recintos fechados, com fumaça; manter ar circulante Por último, evitar o sol nos horários de maior pico e utilizar protetor solar, renovando-o 3 x ao dia! Por fim, evitar o Sol nos horários de maior pico e utilizar protetor solar nas áreas foto expostas, renovando-o 3 x ao dia! Entre as medidas de diagnóstico precoce, destaco o ir ao ginecologista, anualmente, para averiguar resultados de mamografias e Papanicolau. As mamografias devem ser realizadas, anualmente, após os 45 anos e o exame Papanicolau, também anualmente, assim que a mulher iniciar atividade sexual. Após os 50 anos, as mulheres devem ser acompanhadas por um clínico ou gastroenterologista para fazer exames de prevenção do câncer de intestino e ficar de olho nas desordens da glândula tireoide. Por último, é importante olhar para à procura de manchas novas, que estejam crescendo, adotando um formato irregular ou ainda mudando de cor, pois esse pode ser um sinal de câncer de pele. SSpS – E ao contrário, que hábitos as mulheres devem abandonar se quiserem cuidar melhor da própria saúde? Dr. Fernando – Há alguns hábitos femininos que podem fazer mal, em maior ou menor grau. Dormir com a maquiagem não deixa a pele respirar à noite, o que pode causar acne e envelhecimento precoce da pele. Pintar o cabelo com tinturas que contenham excesso de amônia e/ou de chumbo, ou ainda utilizar compostos contendo formol ou outros químicos para preparo capilar, alisamento, etc, podem causar intoxicações Usar saltos altos, excessivamente altos, podem ocasionar erros posturais e doenças na coluna vertebral; retirar a cutícula em excesso pode deixar as unhas desprotegidas para entrada de patógenos. SSpS – As mulheres também estão entre as principais vítimas de transtornos alimentares, obesidade, anorexia e bulimia. Como isso pode ser evitado? Dr. Fernando – Obesidade, anorexia e bulimia são transtornos mais comumente incidentes no sexo feminino. Transtornos alimentares, muitas vezes, têm origem no núcleo familiar e devem ser prevenidos principalmente na infância e adolescência. O foco não deve ser o peso, mas hábitos saudáveis e práticas de esportes. Sugiro refeições familiares mais frequentes, pois elas melhoram a qualidade da ingestão alimentar e fortalecem as relações e vínculos. Desencoraje dietas sem acompanhamento médico, pular refeições, fazer
Nossa Senhora Aparecida, nos dê a mão!

O mês de outubro está chegando e com ele todas as comemorações a Nossa Senhora Aparecida, a grande padroeira de nosso Brasil. Querida Mãe, no fim de 2020, logo após eu e meu marido termos acompanhado pela TV Aparecida uma bela e santa novena, fui contaminada pelo vírus. Somente minha fé e as bençãos de Maria me proporcionaram forças para suportar o contágio da covid-19. Foram onze dias de muito sofrimento e risco na UTI, com respiração artificial, sem intubação, pois meus pulmões estavam com setenta por cento de comprometimento. A cada momento difícil, eu recorria aos meios de comunicação que estavam a meu dispor, como canais católicos, Youtube e Facebook. Sentia como uma brisa passando, visitando-me, encorajando-me… Só pode ter sido a Virgem Maria me falando à consciência: TUDO VAI PASSAR. Era o poder de uma missa, um terço ou uma oração que me faziam companhia naquele lugar, onde me faltavam o ar, o sono e também o apetite, mas não a fé e a certeza da presença de Deus com sua Mãe Maria. Durante a pandemia, em todos os cantos e recantos do mundo, os católicos mantiveram sua fé, com o auxílio dos projetos missionários das tevês católicas e de todas as redes sociais. Assim transformaram cada lar numa igreja doméstica, pois a frequência nas igrejas foi impedida. Relembrando: foi assim que o cristianismo começou. Não havia grandes templos nem grandes santuários. Os cristãos se reuniam em casa e em família. Sabemos e reconhecemos que o papel de Maria para com a Igreja é inseparável de sua união com Cristo, tendo a origem nas entranhas de Nossa Mãe, a Virgem Maria. A vida de Maria teve uma relação permanente com seu filho Jesus, desde sua concepção virginal até a hora da morte de Cristo. Maria, a bem-aventurada Virgem, avançou em sua peregrinação de fé e manteve sua união com o Filho até a Cruz, onde ficou com seu unigênito e associou seu sacrifício até a morte de Cruz. No fim, antes de ser morto na Cruz, foi dada como mãe ao Discípulo Amado, com estas palavras: “Mulher, eis aí teu filho”, e para nós foi dito: “Eis aí tua mãe!” (João 19,25-27). Grande presente para a humanidade! A fé em Nossa Senhora Aparecida também nasceu com a devoção familiar. Os pescadores encontraram a imagem de Aparecida e a levaram para casa, surgindo aí a primeira igreja. Hoje temos o grande Santuário Nacional, onde se reúne o maior número de devotos brasileiros e estrangeiros. Cada devoto o visita para seu encontro pessoal e comunitário com Jesus Cristo, pela mediação materna de Nossa Senhora. A Mãe de Jesus, por meio de cada celebração, convoca, convida, toca no coração de seus fiéis o amor, a esperança e a fé para perseverar no amor real a seu filho Jesus, expressando sua gratidão por gestos concretos com o próximo, principalmente com todos os menos favorecidos. Sabemos que a fé cristã nos ilumina e leva a compadecer-nos com os sofredores, compartilhar, sermos fraternos e solidários, mostrar interesse através do apoio, do amor, principalmente, da generosidade. Minorar, com gestos concretos, as dores do próximo sofrido, desempregado, para além das palavras de conforto. Interessar-se pelas ações e inciativas comunitárias. Lembrar-se sempre de todo o sofrimento humano. Assim, recebe sua redenção, seu valor e seu sentido transformador a partir da Cruz de Jesus. Bendita a fé que dá asas ao discípulo-missionário de Jesus quando lhe falta o chão. Que Maria, Mãe do Belo Amor, seja sempre bendita. Tenho certeza de que, para todos nós, sobram motivos para amar Nossa Senhora. Desde a mais remota memória da tradição cristã, os fiéis sempre olharam para Ela com carinho, com afeto, com devoção, por vários motivos: porque é discípula da Palavra, porque protegeu e amou Jesus, porque é a vocacionada do Pai e porque Ela é missionária, a primeira missionária, nosso modelo. A razão principal de nossa devoção a Maria esteja de fato ligada à sua maternidade divina. Ela é a mãe de Deus e nossa mãe. No coração de todos os cristãos vibra esta esperança, de que Deus nasceu de uma mulher. Maria, Mãe de Deus, significa o amor de quem nos criou, de quem nos acolhe, de quem nos estende a mão nos momentos de aflição. Podemos aí estender nossas mãos, pedindo à Mãe Aparecida intercessão a seu Filho Jesus. Maria estará sempre disponível com seu “sim”, como foi seu “sim” para o anjo Gabriel. Nós também somos chamados a dizer “sim” a Deus. O anjo Gabriel apresentou-se a Maria com um convite desafiante. E a resposta de Nossa Senhora foi “Faça-se em mim segundo a sua palavra” (Lucas 1,38). Jesus, quando veio a este mundo quis nascer de uma mulher. Todos os mistérios da vida de Jesus derivam exatamente da Encarnação. Jesus é verdadeiramente humano e verdadeiramente divino. A ressurreição de Cristo realmente é o núcleo. Crer na ressurreição de Jesus é crer na verdade fundamental de nossa fé. Que Nossa Senhora nos dê a mão e nos ajude a dizer “sim” a Deus e ao próximo todos os dias de nossas vidas. E que possamos cantar: “Nossa Senhora, me dê a mão,Cuida do meu coração,Da minha vida, do meu destino,Do meu caminho,Cuida de mim!”(Roberto Carlos, Nossa Senhora) ReferênciasCatecismo da Igreja Católica, cap. 3, art. 9, § 6, Maria – Mãe de Cristo, Mãe da Igreja.Disponível em: vatican.va/archive – Acesso em: 25 ago. 2021. Portal A12.Disponível em: a12.com – Acesso em: 25 ago. 2021. Revista Aparecida, a. 19, n. 233, out. 2020.Disponível em: mflip.com.br – Acesso em: 25 ago. 2021. Rosiná Lopes BressanCoordenadora do Grupo de Missionários Leigos de Deus Uno e Trino (MLDUT) do Rio de Janeiro.
Sobre infância e “desinteligência”

É outubro outra vez, o famoso Mês das Crianças. Nas tristes lembranças, os tiros que atingiram crianças ainda no ventre materno, as supostas “balas perdidas” nas comunidades, a estupidez no trânsito, o extermínio, o “desaparecimento”, a violência sexual, a violência doméstica, as drogas e o tráfico, os afogamentos, os sufocamentos, as agressões, as queimaduras, as vítimas da covid-19, enfim, um sem-fim de motivos. Nas doces lembranças, a alegria, as dancinhas, a espontaneidade, as conquistas motoras do dia a dia, as encantadoras perguntas e respostas no cotidiano, os segredos, as amizades, as músicas, as brincadeiras, a fantasia, as letras e números ganhando sentido, os desenhos e garatujas, as telas, os áudios, os vídeos, os gritos, os choros, as cólicas, as febres, as espinhas, os primeiros amores, a simplicidade complexa do cuidar, enfim, um sem-fim de registros de afeto e zelo. Das lembranças que se misturam e brotam em nós, lágrimas e sorrisos, uma certeza: crianças e adolescentes precisam de proteção integral para usufruir e fruir a infância e juventude, pois estão na peculiar condição de pessoas humanas em desenvolvimento. Aos olhos de uma criança de 6 anos que cunhou a expressão “desinteligente” numa banal cena do cotidiano, envolvendo uma ingênua crítica à conduta de um adulto a seu redor, um aprendizado para a vida. Em contraponto à infância e à adolescência como fase de formação e desenvolvimento, temos os adultos, aos quais cabe zelar, cuidar, oportunizar, proteger e, acima de tudo, ser porta-vozes de condutas e escolhas inteligentes que mudam o mundo. Diria que temos um “trio de adultos” dos quais se espera sabedoria e inteligência: o ESTADO, a FAMÍLIA e a SOCIEDADE em geral. A esse trio de adultos, um recado na potente voz de uma criança: “Não sejam desinteligentes”. O Estado precisa garantir, em qualidade e quantidade, as políticas públicas que garantam acesso e oportunidade de pleno desenvolvimento a todas as crianças e os adolescentes na complexidade do que é traduzir direitos na prática. Não seja “desinteligente”. A família, em sua multiplicidade de arranjos, precisa ser ambiente fértil e protetivo para dar conta dessa missão de proteção em sua dimensão cotidiana. Não seja “desinteligente”. A sociedade, como um todo, deve ser vigilante com relação ao dever de prevenir a ocorrência de ameaça ou violação dos direitos da criança e do adolescente, reagindo a toda forma de desproteção. Sociedade, não seja “desinteligente”. Este mês de outubro, quando celebramos a vida das nossas crianças, seja tempo para que esse “trio de adultos” possa olhar ao redor e para dentro para (re)ver e ter dimensão do alcance formativo e protetivo de nossas escolhas e decisões “inteligentes”, seja na dimensão cotidiana, seja na complexa dimensão social, política, econômica, cultural. Não sejamos “desinteligentes”! (Qualquer semelhança com os princípios do Estatuto da Criança e do Adolescente não é mera coincidência.) Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.
Chamados à missão

Quando eu, Salete, recebi a notícia de que a Igreja do Paraná decidiu convidar-nos para uma missão em um país do grande continente africano, pensei logo: “Mas eu sou tão nada, tão pequena! Como poderei ajudar numa situação tão adversa de nossa realidade aqui vivida, ajudar alguém lá? Essa é uma missão tão grande, é algo tão grandioso, como pode Deus querer se utilizar de mim para essa realidade tão nova e diferente em minha, nossa vida?”. Mas aí percebi como esse nosso Deus é inesperadamente maravilhoso. Entendi que Ele queria nos conceder a graça de podermos experienciar mais de perto seu amor por nós. Foi então que percebi que Deus me ama muito, antes mesmo de eu nascer, e é o que me dá a certeza de que não estou nem estarei sozinha. Fui escolhida por Deus, na pessoa de nosso bispo, Dom Sérgio Arthur Braschi, para ser missionária além-fronteira do Brasil. E, com alegria, eu me dispus a levar a Boa-Nova àquele povo tão sofrido e necessitado; necessitado em todos os sentidos. Ir e levar a alegria do Evangelho, ou o Evangelho da Alegria, para o mundo. É a partir de nosso batismo que todos somos e estamos aptos para servir em missão. Este é o convite que Deus nos faz: “Ide por toda a terra”, “Ide por todas as nações e levai a alegria da Boa-Nova”. Que possamos ser o canal da graça de Deus e dar oportunidade de esses povos o conhecerem, dar-lhes oportunidade para que possam fazer uma experiência com o Deus de Amor. Isso é grandioso! Sabemos que não seremos os últimos da fila para despojar-nos de nossas vestes, despojar-nos das comodidades, deixar e desmontar a nossa tenda, que significa deixar nossa filha, genro, netas, demais familiares, amigos e nossa comunidade, onde vivemos momentos intensos, experiências de fé e, acima de tudo, de caridade uns para com os outros. Somos felizes, pois entendemos que o amor é a razão primeira da evangelização, conforme nos diz o documento Evangelii Gaudium, e também, “mesmo que eu tivesse o dom da profecia e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; mesmo que tivesse toda fé a ponto de transportar montanhas, mas se eu não tiver caridade, nada seria” (1 Coríntios 13,2). Portanto ir e revelar um Deus de esperança é nossa missão. A nossa vida é puro dom. É preciso partilhá-la, doá-la por completo e não a guardar para si. A metodologia que usamos para nos aproximar daqueles nossos irmãos em Cristo é, necessariamente, a mesma de Jesus, ou seja, tocar, alcançar o coração deles. Nossa alegria também é saber que não estamos sozinhos na missão; temos uma comunidade inteira que reza por nós e pela missão, e essa comunidade se chama família, paróquia, Diocese e Regional, enfim, toda a Igreja do Paraná. O que nos anima e encoraja é saber que a missão para a qual fomos convidados e escolhidos para fazer parte é missão de Deus. Diariamente, Deus se manifesta por sua presença para nos mostrar que é Ele que conduz, que está à frente. É Ele que interfere em todos os momentos e, de modo especial, nos mais difíceis. Inúmeras foram as experiências de fé vividas na missão entre os muçulmanos, por quem a missão católica foi muito bem recebida. Viver e conviver em uma realidade de muçulmanos (90% da população de Quebo) parecia-nos algo difícil, aliás muito difícil. Mas o convívio foi uma grande surpresa para nós. A comunidade muçulmana nos acolheu muito bem. Fomos respeitados e os respeitamos, acolhidos e acolhemos o diferente, convivência e boa relação, convivência e boa relação e testemunho do bispo diocesano, Dom Pedro Zilli (in memoriam) com a comunidade muçulmana e demais etnias africanas (pelo menos trinta e duas). O povo africano tem uma cultura milenar, e é preciso saber respeitá-los nessa cultura e em suas tradições, até porque o missionário é, e sempre será, hóspede naquele chão. Os missionários presentes na missão não fazem distinção entre as pessoas. Todos são atendidos da mesma maneira, sem discriminação. Muitos são os muçulmanos que procuram a missão e aí se sentem muito bem acolhidos. Por outro lado, eles também sabem que, junto com uma missão católica oriunda de outro país, vem para a eles muitos benefícios: atendimento na saúde e na educação, porque a missão católica é posta, é constituída num tripé: evangelização, saúde e educação. E assim, aos poucos, vamos construindo essa missão com a ajuda de nossa Igreja do Paraná (Regional Sul 2). Somos e estamos felizes, confiantes no amor de Deus hoje e sempre. Depois de quatro anos de missão em Quebo, retornamos ao Brasil, para reiniciar aqui nossa vida e as atividades profissionais. Deixamos a missão, mas trouxemos no coração o povo africano. Mais difícil que a ida para a missão foi deixá-la para outros, porque tudo o que fizemos realizou-se no e com amor. Quem quiser saber mais sobre a experiência missionário do casal Pedro e Salete acesse https://youtu.be/gsZmfTZy_iw Diácono Pedro e Salete Lang, membros da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, Diocese de Ponta Grossa, missionários em Quebo por quatro anos (2015 a 2018).
18 anos da Pastoral da Pessoa Idosa

Primeiro de outubro. Além de estarmos em plena primavera, é a abertura de um mês de muitas datas significativas. Para a Igreja, celebra-se o Mês das Missões, cuja padroeira é Santa Teresinha do Menino Jesus, acompanhada dos Santos Anjos. Lembramos também o Dia da Padroeira do Brasil e Dia das Crianças (12), do Fisioterapeuta (13), do Professor (15), do Médico (18), do Dentista (25), do Funcionário Público (28) e tantas outras homenagens. Nesse sentido, também se comemora a aprovação da Lei nº 10.741, de 1º de outubro de 2003, que dispõe sobre o Estatuto do Idoso. Dá-se à sociedade, ao Poder Público, ao Estado, às famílias brasileiras a regulamentação de uma série de prerrogativas à pessoa idosa, como o direito à vida, à saúde, à educação, à cultura, à assistência e previdência social, ao lazer, ao esporte, à habitação e ao transporte. A velhice passa a ter uma proteção social como direito fundamental. Assim, nessa mesma data, celebra-se o Dia do Idoso. Diante do quadro demográfico da população brasileira, que tem demonstrado um perfil de envelhecimento, do Ano Internacional do Idoso, promovido pela ONU, e da Carta aos Anciãos, escrita pelo Papa João Paulo II em 1999, a CNBB lançou, em 2003, a Campanha da Fraternidade com o tema: “Fraternidade e as Pessoas Idosas”, tendo como lema: “Vida, dignidade e esperança”. Assim, no ano seguinte, sensibilizada pela situação das pessoas idosas, principalmente nas comunidades carentes, a dr.ª Zilda Arns Neumann, médica, irmã do arcebispo Dom Paulo Evaristo Arns, decidiu iniciar um programa de acompanhamento às pessoas idosas, nascendo a Pastoral da Pessoa Idosa (PPI). Por dezoito anos, a PPI sempre foi marcada pela visita domiciliar. Com a pandemia, contudo, muitas visitas foram substituídas pela conversa ao telefone. Com a vacinação e os cuidados sanitários, a Pastoral da Pessoa Idosa vem retomando as visitas, pois muitas pessoas que moram sozinhas esperam ansiosamente receber os agentes missionários. A experiência da pessoa idosa tem muito a acrescentar à vida da família e da comunidade em geral. Seus ensinamentos e relatos fazem parte da memória da história local. Ouvir a pessoa idosa é importante, pois muito têm a nos ensinar. Infelizmente, o século XXI tem sido de muita correria. Ninguém parece ter tempo para visitar aquele avô ou avó que mora longe dos filhos e netos ou aquela tia que vive sozinha. Em contraponto, há grupos da terceira idade que costumam programar reuniões ou viagens em excursão. Mas, ainda, há aquelas pessoas idosas que não têm condições ou não querem sair, pois preferem ficar em seu “cantinho”. Nosso desafio está em encontrar um tempinho na semana para dar atenção a todos os que são necessitados de atenção e levar a Palavra, o conhecimento. Na educação para jovens e adultos (EJA), é comum ouvir de senhoras e senhores que, depois de aposentados, voltam a estudar: “Voltei para realizar um sonho que eu tinha de estudar”. Depois dos filhos criados, estão voltando… O Brasil ainda tem 11 milhões de pessoas analfabetas (conforme dados do IBGE de 2010) e, entre eles, a maioria é de idosos. Vamos incentivar a pessoa idosa a aproveitar melhor o tempo que tem, respeitando suas fragilidades, oferecendo-lhes conforto, conhecimento, dignidade. O Brasil precisa de todos. Leia o Estatuto do Idoso, procure pesquisar seus direitos. Ter cuidados com a saúde física é importante, mas com a saúde mental e espiritual também. Devemos combater o etarismo e a humilhação social contra os idosos. Se alguém sofre violência tanto física quanto psicológica, financeira, patrimonial, afetiva, denuncie. Ligue para 180. Que Santa Ana, São Joaquim, Zacarias, Isabel e outros exemplos bíblicos, os filósofos Sêneca e Cícero, nossa poetisa Cora Coralina e tantos outros nos inspirem a viver bem. Maria Terezinha Corrêa Mestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP e SBPC, membro da diretoria da Aproffib (Associação dos Professores de Filosofia e Filósofos do Brasil), atualmente é professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, membro da Comissão de Prevenção e Combate à Tortura pela ALESC e voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis.
Passos bíblicos da interculturalidade

A interculturalidade na Bíblia segue um caminho muito peculiar. Apresenta os processos de inclusão e exclusão, acolhida e repúdio, abertura e fechamento, mostrando, assim, uma íntima ligação com a vivência intercultural do mundo contemporâneo. O mundo bíblico era tão intercultural quanto o de hoje, onde se pode perceber tanto inúmeros bons exemplos de interculturalidade quanto de intolerância em relação a outras culturas. É evidente que o Antigo Testamento é uma coleção de livros agrupados conforme os temas: Pentateuco e proféticos, nos quais se encontram também os livros históricos e sapienciais. Já o Novo Testamento inicia-se com os Evangelhos, depois os Atos dos Apóstolos e diversas cartas, finalizando com o Apocalipse. Em ambas as partes, não há um único autor, mas a coletânea de livros é resultado de um longo processo redacional e de transmissão da tradição do povo de Israel. Para ser um texto vivo, no entanto, pressupõe-se um leitor, e a leitura é feita pessoalmente e também pelas diversas comunidades de fé. Por isso fundamental é que, para se compreender a interculturalidade na Bíblia, como aponta Walter Vogels (2015), dois aspectos devem ser examinados: o contexto intercultural da produção da Bíblia e o contexto intercultural de sua leitura. O Antigo Testamento conta a história da caminhada do povo de Israel, e o Novo Testamento apresenta o processo intercultural iniciado por Jesus, continuado eficientemente por Paulo e, posteriormente, pela comunidade apostólica. O missionário do Verbo Divino Roger Schroeder (2020) aponta que o Antigo e o Novo Testamento refletem como as pessoas viveram a experiência de Deus e expressaram sua fé e espiritualidade por meio de seu contexto cultural e histórico, conforme épocas distintas. Podem-se citar como exemplo o chamado e a resposta de Abraão e Sara; o êxodo pascal, a travessia do Mar Vermelho; os ensaios e bênçãos na peregrinação de fé no deserto; as proclamações dos profetas e a literatura sapiencial; a adoração no Templo e na sinagoga; a experiência religiosa de Simeão e Ana no Templo; o chamado e a resposta dos primeiros discípulos; o encontro transformador de Jesus com um cobrador de impostos, um centurião romano e uma mulher samaritana; a travessia de limites culturais em Atos dos Apóstolos; a vida cristã e os desafios entre as comunidades de Paulo. Assim, o caminho intercultural da Bíblia se torna uma inspiração para nossa caminhada como batizados, em direção à atividade missionária promovida por Jesus. Além disso, a Família Arnaldina tem o dever de seguir o caminho intercultural bíblico em nossos contextos da missão. Padre Joachim Andrade, SVDMissionário do Verbo Divino natural da Índia, atua no Brasil desde 1992. Tem pós-doutorado pela PUC-PR, doutorado em Ciências da Religião pela PUC-SP e mestrado em Antropologia Social pela UFPR. É professor na PUC-PR, no Studium Theologicum e na Faculdade Vicentina, membro da equipe interdisciplinar da CRB Nacional. Foi provincial do Brasil Sul de 2008 a 2013.
Um ato de amor e generosidade

“Você deu um belo e saudável rim para sua irmã”, disse o cirurgião à irmã Arnolda Kavanamur, que, em meio à pandemia de covid-19, decidiu doar um de seus rins para a irmã Kristina Lajar. Ambas são irmãs missionárias servas do Espírito Santo (SSpS), vivendo em Chicago, Estados Unidos. No Brasil, 27 de setembro, é Dia Nacional de Doação de Órgãos. Essa data foi instituída pela Lei nº 11.584/2007, com o objetivo de conscientizar a sociedade para a importância da doação de órgãos. Eis a história de Ir. Arnolda, natural de Papua-Nova Guiné. Ela chegou aos Estados Unidos em 2013. Lá conheceu a Ir. Kristina, natural da Indonésia. As duas religiosas, longe de suas famílias e fora de sua pátria, viveram uma experiência de fé, amor e doação que marcou a vida da Congregação nos 132 anos de presença em mais de 50 países. “A generosidade requer coragem para agir”, afirma Ir. Arnolda, ao compartilhar sua jornada de transplante do rim. Para ela, nossa escuta atenta da vontade de Deus nos orienta a tomar decisões que nos levam à felicidade, à realização e à doação gratuita. A Ir. Kristina Lajar foi diagnosticada com insuficiência renal em 2013 e fazia diálise peritoneal todos os dias. Ficava ligada à máquina de 3 a 8 horas, todas as noites, havia seis anos. “Era doloroso vê-la acamada com frequência”, relata a doadora. A Ir. Arnolda, recém-chegada de outro continente, logo tomou conhecimento da situação da Ir. Kristina. Foi no momento de um passeio pelos jardins do Convento Espírito Santo, em Northfield, Illinois, que a Ir. Arnolda sentiu e expressou seu desejo de ajudar a Ir. Kristina. Porém, como a Ir. Kristina não estava preparada, encontrou dificuldade em aceitar a proposta de sua coirmã. Em setembro de 2019, quando Ir. Arnolda retornava de sua terra, Papua-Nova Guiné, passou uns dias no Convento, antes de partir para sua missão, em São Cristóvão e Neves, no Caribe. Novamente foi passear pelo jardim do Convento. O pensamento em doar o rim para a Ir. Kristina veio novamente à tona. Com o resultado dos exames feitos, soube-se que tinham o mesmo tipo de sangue. Irmã Arnolda se dispôs a doar seu rim, dizendo: “Talvez eu possa ajudar”. E, depois de rezar, voltou a falar com Ir. Kristina e decidiram conversar com a coordenadora provincial. Após conversa e consentimento, fez-se contato com o Centro de Transplante de Rins da Universidade de Chicago. Realizados os trâmites legais, em dezembro de 2019, a irmã doadora foi chamada para realizar o processo de avaliação de doadores vivos, envolvendo análises médicas, psicossociais, consentimento livre, informações e cuidados pré e pós-operatórios. Após a avaliação da doadora, veio a grande notícia: “Eu era compatível com Kristina!”, celebra Ir. Arnolda. Naquele momento, o coronavírus já estava se espalhando pelos países, incluindo os EUA. O governador de Illinois, J. B. Pritzker, emitiu uma nota de “permanência em casa”. Com a pandemia, foram adiadas, por tempo indeterminado, todas as cirurgias eletivas. A Ir. Kristina continuava com o tratamento, porém cada vez mais debilitada. Finalmente, em 19 de maio de 2020, terminou a longa espera. “Às seis horas da manhã, fui submetida à cirurgia. Quando eu estava na metade da cirurgia, a irmã Kristina foi chamada e ficou em serviço cirúrgico… Graças a Deus, foi um sucesso”, respira aliviada Ir. Arnolda. A Ir. Arnolda conta que a decisão nem sempre foi tranquila. “Houve muitos altos e baixos ao longo do caminho; ansiedades e estresse, medo de não ser compatível. Mas sempre que há uma reposta generosa a um ‘chamado à ação’, Deus está sempre presente. Em resumo, a experiência foi estressante, mas a confiança plena em Deus me fez acreditar que Ele estava no controle o tempo todo.” O profundo ato de bondade salvou a vida de Ir. Kristina e transformou a vida de Ir. Arnolda. Ela lembra sentir-se mais forte na fé e com vida mais significativa. E conclui seu testemunho: “Todos os dias, eu me encontro buscando viver autenticamente meu chamado e ser feliz onde Deus me quer. Estou convencida de que o que fiz por Ir. Kristina foi uma intervenção de Deus. Ele lhe deu uma segunda chance de viver, porque Ele a ama muito”. “Embora um pedaço de mim esteja faltando para sempre, estarei sempre grata por esse pedaço de mim estar dando vida à minha irmã. Ela será para sempre parte de mim,” conclui a Ir. Arnolda. Ir. Zélia Cordeiro, SSpSCoordenadora de Comunicação na Província Brasil Sul das missionárias servas do Espírito Santo (BRS), mestra em Gestão e Negócios pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), curso com dupla titulação, vinculado à Université de Poitiers, na França, com dissertação na área de Desenvolvimento de Liderança.
Mindfulness: uma alternativa para nossa saúde mental

Em razão do aumento da ocorrência de sintomas como ansiedade, depressão e estresse na Contemporaneidade, fez-se necessária a incorporação de uma técnica não tradicional à medicina do Ocidente. Com isso, programas baseados em mindfulness foram desenvolvidos para que pudessem aplicar sua técnica, de uma maneira simples e não rigorosa, no cotidiano das pessoas, a fim de se tornar um recurso terapêutico não convencional. O mindfulness é uma técnica que teve origem na cultura budista e, como já mencionado anteriormente, foi incorporado na medicina tradicional ocidental, enquadrando-se nas terapias cognitivo-comportamentais. Um aspecto importante a ser considerado é que o principal ponto defendido pelo mindfulness, de maneira simplista, é a detenção da atenção no agora e não em situações passadas ou cenários hipotéticos do futuro (como ocorre na maioria dos distúrbios psicológicos), de maneira que o indivíduo consiga viver no momento presente. Além disso, um dos pilares dessa técnica é a aceitação de todos os sentimentos que a pessoa venha a ter, de modo que ela se possibilite sentir de raiva a alegria, de maneira que ela não tente evitá-los ou então modificá-los. O mindfulness ensina o indivíduo a assumir, sempre, uma posição curiosa e sem julgamentos perante seus pensamentos e emoções. A partir dessa análise, o praticante consegue identificar as “situações-gatilho”, ou seja, as que automaticamente e inconscientemente despertam uma determinada emoção no indivíduo, a qual pode ser a causadora da ansiedade ou então da depressão, por exemplo. Com isso, as terapias baseadas em mindfulness buscam modificar a maneira como o cérebro do indivíduo reage a esses estímulos, isto é, as respostas emocionais reativas, e promover um pensamento racional que permite que o indivíduo consiga pensar antes de responder às situações-gatilho. Isso promove a modificação da fisiologia cerebral, pois os estímulos constantes fazem com que o cérebro se readapte, por exemplo, por meio do fortalecimento do córtex pré-frontal, o qual relaciona-se com a racionalidade. Um exemplo prático foi o programa MindUp, que usava, no cenário escolar, uma terapia baseada em mindfulness conhecida como MBSR (mindfulness-based stress reduction). Em virtude da cobrança de amadurecimento precoce das crianças, elas não são educadas a lidar com suas emoções e sentimentos, o que pode ser um fator limitante em sua convivência social. Como resultado dessa pesquisa, o grupo de crianças que participaram do programa, quando comparadas com o grupo de controle, apresentaram uma diminuição significativa no tempo de resposta às atividades propostas, o que demonstra que o MBSR facilitou a concentração das crianças nas tarefas. Além disso, houve nos alunos uma diminuição dos sintomas depressivos e ansiosos, assim como um aumento em sua empatia, otimismo e, principalmente, em seu controle emocional. O mindfulness, apesar de ser um campo de estudo recente, demonstra resultados semelhantes e, em alguns casos, até mesmo equivalentes aos tratamentos tradicionais com medicamentos, o que é um bom indicativo no caso de pessoas que o buscam como uma forma de terapia. Vale ressaltar, ainda, que ele também pode ser utilizado como ferramenta de melhoramento de qualidade de vida, adequando-se às necessidades do paciente. Caso fosse incorporado no cotidiano das pessoas, o mindfulness as auxiliaria a viver plenamente o agora, assim como a diminuir suas reações emocionais, o que contribuiria para uma vida mais equilibrada. Mariana Veiga é aluna da 3ª série do ensino médio do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP.