Coração-manjedoura: alegria e esperança

Tempo, tempo, tempo, tempo… O tempo humano, chronos, é entendido como finito, destrutivo… Nós, cristãos, vemos o tempo como kairós, o tempo de Deus, como tempo de salvação, favorável à graça de Deus, especialmente em dezembro. Tempo de olhar para trás e agradecer a Deus por mais um ano combatendo o bom combate e guardando a fé (cf. 2Tm 4,7) diante de uma pandemia que parou o mundo. Como diz a música:¹ “Te agradeço por tudo que tens feito,Por tudo que vais fazer,Por tuas promessas e tudo que és.Eu quero te agradecer com todo meu ser.” É tempo de olhar para frente, Tempo do Advento, tempo de piedosa e alegre expectativa pelo nascimento de Jesus, o Salvador. E para esse tempo de kairós ser bem vivido, com abertura à graça de Deus, precisa de preparação para esperar Jesus que veio, vem e virá. No Tempo do Advento, começamos a trilhar o caminho de um novo ano litúrgico na vida da Igreja, caminho espiritual para viver e celebrar o mistério da esperança, vigilância e preparação dos corações. Mas essa espera não é passiva, estática, inerte. É uma espera ativa, de conversão, reflexão e preparação do coração para receber o Menino Jesus que deve nascer e habitar em nós. Quando Jesus nasce e faz morada em nosso coração-manjedoura, Ele cuida, faz novas todas as coisas, cura, dá novo sentido… Como está nosso coração? Talvez não esteja preparado, talvez esteja confuso, ansioso, adoecido… Não importa como está o coração. Permita que Cristo nasça e faça morada, liberte, restaure… Aproveite bem este tempo de espera ativa até o Natal, procure preparar-se por meio do sacramento da reconciliação, mudança de vida, perdão, caridade, oração… Quem reza é sempre conduzido pelo céu e para o céu. Nossa Senhora, Mãe do Menino Deus, nos dá um conselho constante em Medjugorje: “Queridos filhos, rezem, rezem e rezem”. O Catecismo da Igreja Católica (cân. 524) nos diz que, “Ao celebrar em cada ano a liturgia do Advento, a Igreja atualiza esta espera do Messias: comungando com a longa preparação da primeira vinda do Salvador, os fiéis renovam o ardente desejo de sua Segunda Vinda. Pela celebração da natividade e do martírio do Precursor, a Igreja se une a seu desejo: ‘É preciso que ele cresça e que eu diminua’ (Jo 3,30)”. Como a diz a música:² “Ouço uma voz vindo da montanha,Ouço cada dia melhor.Ouço uma voz vindo da montanha,E eis uma voz a clamar.Preparai o caminho.Preparai o caminho do senhor.” De acordo com as Normas Universais do Ano Litúrgico e Calendário Romano Geral, “O Tempo do Advento possui dupla característica: sendo um tempo de preparação para as solenidades do Natal, em que se comemora a primeira vinda do Filho de Deus entre os homens, é também um tempo em que, por meio desta lembrança, voltam-se os corações para a expectativa da segunda vinda do Cristo no fim dos tempos. Por este duplo motivo, o Tempo do Advento se apresenta como um tempo de piedosa e alegre expectativa” (cân. 39). Que todos encontrem o Menino Deus em nosso coração-manjedoura, que possamos irradiar sua luz com pensamentos, palavras e ações: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue nunca andará em trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12). Nesse caminho de esperança e vida nova, com a Mãe Santíssima, possamos juntos cantar:³ “Cristãos, vinde todos com alegres cantos.Oh! Vinde. Oh! Vinde até Belém.Vede, nascido, vosso rei eternoOh! Vinde, adoremos!Oh! Vinde, adoremos!Oh! Vinde, adoremos o salvador!” Maria Cristina MaiaMissionária leiga de Deus Uno e Trino, membro da Equipe de Espiritualidade SSpS BRN e da Equipe Nacional de Espiritualidade SSpS e SVD. Referências¹ Música “Te agradeço”. Autora Ana Paula Valadão. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=oX21nw-Vv6M. Acesso em: 4 nov. 2021. ² Música “Preparai o caminho”. Autor Monsenhor Jonas Abib. Disponível em: https://www.letras.mus.br/padre-jonas/291066/. Acesso em: 4 nov. 2021. ³ “Cristãos, vinde todos” (Adeste fideles). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=jc4_w2yIUqc. Acesso em: 4 nov. 2021.
Esconder-se de Deus

O Salmo 139 reflete as tentativas do salmista de esconder-se de Deus. A cada refúgio em que se metia, era encontrado! Se descia ao sheol, lá Deus o achava, se subia às nuvens, lá Deus o esperava. Quando parava para pensar, Deus se antecipava e conhecia seus pensamentos. Por todas as veredas em que procurava se esconder, essas eram conhecidas por Deus. Tentava se revestir de asas e fugir para o mar, mas também não adiantava, lá também Deus o via. Todas as suas tentativas foram em vão. Parecia brincadeira de “pega-pega”, tentando escapar, mas sem êxito. Por fim, deu-se conta de que até seus ossos, quando estavam sendo formados em segredo, eram apenas um esboço, os olhos de Deus já os tinham visto. Somente lhe restou render-se perante a presença onisciente e onipresente. Boquiaberto diante de tais mistérios, restava silenciar-se! Mergulhado em sua confusão, reconheceu sua pequenez: “Ó Deus, como são difíceis para mim os teus projetos, como é grande a soma deles. Gostaria de contá-los, mas são mais numerosos que os grãos de areia!”. Rendido diante de tão grande mistério, pediu que Deus o prescrutasse e conhecesse seu coração. “Prova-me e conheça meus pensamentos.” Eis aí uma história de relação com Deus de um fiel que põe Deus à prova, embora, de antemão, intui qual será o desfecho. O Salmo acaba sendo uma parábola. Por um lado, a percepção que nada escapa do “controle” de Deus e, diante disso, não há saída senão reconhecer sua onipresença; por outro, as tentativas de esconder-se, de ignorá-lo acabam sempre em fracasso. No Salmo, nenhuma vez Deus amedronta ou ameaça o salmista, apenas se deixa perceber em todas as situações. É uma presença que abre cada vez mais horizontes, mostra sua grandeza escondida na imensidão do universo, mas também nas coisas menores, como grão de areia. Há um espaço sem medidas, infinito, onde sua grandeza se manifesta. Diante disso, o salmista apenas pode silenciar-se. Hoje os astrônomos, cada vez mais, descobrem a infinitude do Universo. A cada nova galáxia captada pelos telescópios, mais mistérios se apresentam. Busca-se uma explicação para o Universo, mas nenhuma é conclusiva. Quando se aproxima de uma, outras mil se apresentam sem solução, e os mistérios se multiplicam. Daí é de se admirar que muita gente se declare ateia ou agnóstica. Conformando-se que tudo acaba com a morte. Para isso se contente com a possibilidade de, um dia, a ciência dar explicação para tudo o que existe. Enquanto esta não chega, basta viver como se Deus não existisse ou “escondido”, conformando-se com um sentido para a vida num horizonte pequeno, que cabe em seus raciocínios e explicações. Diga-se de passagem, não convencem o próprio coração que, ansioso, espera por algo mais. Uma ilusão enganosa para quem tenta esconder-se de Deus, não o reconhecendo nas pequenas e grandes coisas. A experiência do salmista, pressionado por tribulações, meditando, percebe que Deus o conhece melhor do que a si próprio, não adianta esconder-se. Pois a tudo Deus conhece! Nada lhe pode escapar. Compenetrado diante de tal mistério, volta-se para dentro de si mesmo e se interroga: o que é o ser humano diante de Deus? Conclui: Ele se mostra presente desde o início de sua vida, ainda em sua formação óssea. Aceita, então, que é aquilo que é, e nada mais. Não há como esconder-se de Deus! Como o salmista, somos convidados a meditar sobre nossa vida, nossas tribulações e na experiência de sua busca. Percebê-lo como participante de nossa história desde seu início, em cada momento já vivido. Constatar sua presença que nos acompanha desde nossas origens. Onde quer que estejamos, sua presença já se antecipou e nos conhece mesmo nos malabarismos que inventamos para nos esconder dele. Mais sábio parece ser, render-se, como o salmista, e dizer “Sonda-me, ó Deus, e conhece meu coração! Prova-me e conhece minhas preocupações. Vê se ando por um caminho de desgraça, e guia-me pelo caminho eterno” (leia e medite o Salmo 139). Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S
Fake news e seus perigos para a democracia

Este texto propõe uma reflexão crítica sobre as fake news e os prejuízos que elas provocam para as democracias contemporâneas. Nossa hipótese segue a premissa de que a mentira não é protegida pela liberdade de expressão e deve ser sempre combatida pelo Estado e repelida pela sociedade. Contextualizando o tema Brasil, século XXI, ano 21. Vivemos em um país ainda distante de cumprir as promessas da Modernidade: liberdade, igualdade e fraternidade. Parecem jingles de sonhadores, pessoas fora da realidade. Com a queda do Muro de Berlim e a dissolução da União Soviética, descortina-se o que se convencionou chamar Pós-Modernidade: um tempo no qual tudo é líquido e só tem valor por 24 horas. Como dizia Freud, o desejo é a falta, e sempre haverá o que cobiçar, isto é, nenhuma conquista basta por si, o ideal é sempre o que não tenho e o que me satisfaz. Nesse ambiente, as informações circulam em quantidade e velocidade jamais experimentadas, o que não significa qualidade, obviamente. A amplificação de opiniões proporcionada pelo mundo virtual trouxe consigo o problema das denominadas fake news e, com elas, as seguintes indagações: propagar mentiras é a mesma coisa que usar o direito de expressar livremente opiniões e ideias? Qual a diferença entre liberdade de expressão e fake news? Significado e alcance da liberdade de expressão Calorosos debates acerca da liberdade de expressão estão na agenda das democracias ao redor do mundo, sobretudo nos Estados Unidos e no Brasil. Há quem afirme que a liberdade de expressão não deve tão somente proteger a difusão de argumentos simpáticos e comuns a todos, mas também aqueles com os quais nós não concordamos. Nesse sentido, o remédio contra as más ideias deve ser a divulgação de boas ideias e a promoção do debate, não da censura. Do outro lado, há os que pensam de forma diversa e sustentam que as manifestações de intolerância não devem ser admitidas, porque violam princípios fundamentais de convivência social, como os da igualdade e da dignidade humana. O pensador norte-americano Ronald Dworkin1 formula duas justificações para a liberdade de expressão: uma instrumental e outra constitutiva. A primeira sustenta que a mais ampla liberdade de expressão permite a melhor escolha política, protegendo o povo contra a tirania e inibindo a corrupção. Já a constitutiva, por seu turno, apoia-se na ideia de que o Estado deve tratar seus cidadãos como agentes morais individuais e responsáveis, que devem poder ter acesso a qualquer tipo de informação ou de opinião, para, assim, tomar suas decisões. Nesse sentido, diz o autor que “o Estado insulta seus cidadãos e nega a eles a sua responsabilidade moral quando decreta que não se pode confiar neles para ouvir opiniões que possam persuadi-los a adotar convicções perigosas ou ofensivas”. Mentira não é liberdade de expressão, tá ok? O que são as chamadas fake news? Como e em que medida elas são prejudiciais à democracia? Qual é a relação entre fake news e liberdade de expressão? Como enfrentar o problema? Em síntese, o termo fake news será aqui proposto como uma notícia ou ideia parcial ou totalmente inverídica, intencionalmente circulada para enganar uma pessoa ou grupo, influenciando seu comportamento, com o propósito de obter alguma vantagem específica e indevida. Um exemplo atual e amplamente conhecido foi a campanha contra as urnas eletrônicas. Após espalhar que provaria as fraudes nas eleições de 2018, com a intenção de acumular capital político e aprovar uma emenda constitucional, o atual presidente brasileiro teve de assumir publicamente que era uma mentira, um blefe. No ponto, a informação falsa (urnas adulteradas) e a intenção de obter vantagem indevida (colocar em dúvida eventual derrota) foram nítidas. A proliferação incontrolável de fake news tem provocado impactos negativos nas relações sociais e políticas brasileiras. Informações falsas são jogadas no mundo virtual (principalmente nas redes sociais) para abalar instituições, agentes públicos e polarizar ideologias fortes, como as religiosas, por exemplo. Diferentemente do que ocorre no exercício da liberdade de expressão, as notícias falsas não agregam pessoas e ideias. Pelo contrário, separam concidadãos que dividem o mesmo projeto de país e mundo. Tal estratégia resulta ou pode resultar em seríssimas e irreversíveis implicações, basta lembrar o movimento antivacina e a propagação da informação mentirosa dos kits covid aptos a salvarem vidas. A livre circulação de mentiras não se equipara a livre circulação de ideias, já que inexiste nela o principal elemento: a boa-fé que se pressupõe no embate de opiniões fundamentadas. Verdade e democracia Se o leitor chegou até aqui e ainda tem alguma dúvida sobre o que é fake news (ou desinformação, se preferir), a percepção é natural. Trata-se de conceito em construção, como apontado no curso do texto. Por outro lado, não me parece restarem dúvidas do que elas não são, isto é, promover desinformação dolosamente para abalar instituições e biografias não é liberdade de expressão, um direito tão caro para as democracias contemporâneas. Referência[1] DWORKIN, Ronald. Freedom’s law: the moral reading of the American Constitution. Cambridge: Havard University Press, 1996. Bruno Stigert de SousaDiretor-geral da Escola Superior de Advocacia da 4° Subseção de Minas Gerais, professor adjunto da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), coordenador da Clínica de Direitos Fundamentais e Transparência – UFJF, presidente da Comissão de Estágios da Faculdade de Direito – UFJF, mestre em Direito Público pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e doutor em Ciências Sociais e Jurídicas pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Onésima MarquesProfessora de Química no Colégio Stella Matutina, em Juiz de Fora-MG, educadora digital, líder do Grupo de Educadores Google de Juiz de Fora (GEG JF), licenciada em Química pela UFJF.
“Vidas negras importam”: a luta dos afrodescendentes no Brasil

“Depois de escalar uma grande montanha se descobre que existem muitas outras montanhas para escalar” (Nelson Mandela, 1994). O mês de novembro é o momento de fomentar, em todos os níveis da sociedade, reflexões sobre o peso da escravidão e como essa história reflete-se atualmente no seio da comunidade afrodescendente. Se, no passado, os negros recorreram à sua história como forma resistência e luta, em nossos dias, devemos resgatar a história como instrumento do enfrentamento ao racismo. Estamos diante de um governo de extrema-direita, que vem ostensivamente desmantelando a memória, programas e direitos conquistados pelo povo negro no Brasil, e de uma parcela da sociedade que insiste na manutenção de “valores racistas”. Falas e atitudes racistas vem expondo, cada dia mais, a população negra às estatísticas de violência. Podemos citar o caso do pequeno Miguel Santana da Silva, de 5 anos, que caiu do 9º andar, no Recife. O garoto era filho da empregada Mirtes, que havia deixado a criança sob os cuidados da patroa branca, enquanto a trabalhadora levava o cachorro da família para passear. Do caso da Loja Zara, com várias acusações de racismo, entre elas, a de um código para avisar a entrada de pessoas negras e pobres em suas lojas, os abusos e atos violentos contra as religiões de matriz africana, e tantas outras formas de racismo estrutural e institucional que presenciamos no dia a dia. Diante desse contexto, é imprescindível reafirmar a importância de manifestações e lutas por uma sociedade igualitária, plurirracial, que respeite as diferenças de cor, gênero, idade e raça. A Constituição de 1988 estabelece o racismo como crime inafiançável, reconhece direitos fundamentais, como à liberdade, à saúde, à justiça, à igualdade para todos, sem distinção de raça, gênero, cor, origem, idade, etc., proíbe diferenças salariais e de contratação tendo critério de gênero, idade, cor ou estado civil. Há também a lei contra o preconceito de raça ou cor (Lei nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989); de cotas raciais, voltada para a educação superior (Lei nº 12.711, de 29 de agosto de 2012); na área da educação básica, que instituiu a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-brasileira (Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003). Esses direitos conquistados não foram suficientes para dissipar a desigualdade racial. A maioria da população, que, no Brasil, é de pessoas negras (isso significa 54,9%, segundo IBGE), tem os piores índices socioeconômicos. Os desafios são muitos, e ainda temos um longo e árduo caminho a percorrer. Liberdade capenga A desigualdade racial no Brasil tem seus pés fincados no regime escravocrata, e a desigualdade social tem os dois pés fincados na senzala. Mesmo depois da libertação, os ex-escravos e seus descendentes foram condenados a viver à margem da sociedade. Depois de mais de 300 anos de escravidão, a Lei Áurea (Lei nº 3.353, de 13 de maio de 1888) trouxe uma liberdade capenga. Não contemplava aos negros os direitos a educação, saúde, trabalho, recursos que auxiliassem a integração à sociedade e ao mercado de trabalho. Sem poder ir à escola, trabalhar decentemente, acusados de vadiagem, empurrados para viver nas periferias das grandes cidades e excluídos de toda e qualquer possibilidade de vida digna. A Lei Áurea estava longe de ser um ato de benevolência da Monarquia, mas sim resultado da pressão do Reino Unido e dos movimentos abolicionistas. Os historiadores nos mostram que, antes da Lei Áurea, várias ações foram protagonizadas pelos negros escravos em seu processo de libertação, como fugas, formação de quilombos, rebeliões, desobediência à rotina de trabalho nas fazendas. Os negros, que produziram riquezas por séculos, estavam libertos sem políticas públicas, sem mudanças estruturais que os amparassem. Na mesma época, o governo brasileiro estimulava, com políticas de incentivos, a imigração de europeus. A vinda dos europeus encontrava apoio na ideia racista de que era necessário “branquear” a população, que era maioria. Assim, estaria próxima às “civilizações” europeias e reorganizaria a economia do País. Nesse contexto, os ex-escravos foram abandonados à própria sorte, em uma sociedade marcada pela discriminação racial, embasada em teorias que justificavam a superioridade intelectual, física e moral dos brancos europeus. A ideologia de branqueamento contribuiu para desenvolver nos brancos o complexo de superioridade e, nos negros, o de inferioridade, servindo para legitimar e naturalizar o racismo. A população mista do Brasil deverá ter, pois, no intervalo de um século, um aspecto bem diferente do atual. As correntes de imigração europeia, aumentando a cada dia mais o elemento branco desta população, acabarão, depois de certo tempo, por sufocar os elementos nos quais poderia persistir ainda alguns traços do negro (LACERDA, 1912). Conforme sentia a violência do preconceito, o negro buscava livrar-se desse sofrimento, assimilando comportamentos e atitudes dos brancos, negando suas origens, desenvolvendo complexos e traumas repassados de geração em geração. O Dia da Consciência Negra é uma data para evidenciar o racismo e a resistência de todos os negros que, no dia a dia, combatem a discriminação e o preconceito racial. O Estado não pode mais se omitir e ser indiferente diante das situações vividas pelos afrodescendentes. Dados revelam que 75% dos negros e pardos no Brasil vivem em situação de pobreza e vulnerabilidade, concentração nas periferias, exclusão social e política. Além disso, 64% de desempregados são negros e pardos, 66% das mulheres que sofrem violência doméstica e sexual são negras, 66,7% do sistema prisional é composto de pessoas negras, o índice de mortalidade infantil é maior entre os negros. São vítimas do subemprego, da violência policial, do desrespeito patrimonial, cultural e religioso, e de violação dos diretos das comunidades quilombolas. A Lei Áurea completou 133 anos. De lá para cá, algumas leis e políticas públicas foram estabelecidas, com tímidos avanços na promoção da inclusão social. O racismo estrutural e institucional, contudo, é uma dura e vergonhosa realidade na sociedade atual. O Brasil ainda convive com trabalho escravo. Segundo a SIT (Secretaria de Inspeção do trabalho), em 25 anos, 55 mil pessoas foram resgatadas de trabalho análogos à escravidão. Em 2020, foram 942 casos registrados. A pandemia
Estado laico e diálogo religioso

Todos nós sabemos que as religiões surgiram em meio a mistérios e polêmicas. Cada povo tem suas crenças que, em comum, transmitem valores e códigos sociais. Mas, por que, desde a Antiguidade, há tanta guerra envolvendo crenças religiosas? Desde os tempos das civilizações antigas, as divindades são invocadas para proteger, ganhar guerras, alcançar conquistas e, ou, obter vitórias. Muitas mortes inocentes aconteceram e, ainda hoje, em pleno século XXI, ocorrem mal-entendidos. Como ser tolerante e buscar o respeito com a religião do outro? Embora tenhamos um pequeno avanço na humanidade em relação à tolerância religiosa, ainda existem o preconceito, a discriminação, o fanatismo. Desde o início do cristianismo, a perseguição aos seguidores de Jesus ou simpatizantes levou muitos ao martírio, acusados de traírem o Império Romano. Este acreditava que o imperador era o filho enviado de um de seus deuses. Conforme o Estado monárquico se tornou adepto da religião cristã, toda autoridade era considerada escolhida por Deus e, por isso, vitalícia. E aí “a religião do rei passou a ser a religião do povo”. Cruzadas em nome de Deus passaram a conquistar novas terras, desvirtuando práticas evangélicas, o que ocasionou um cisma dentro da própria Igreja cristã, como historicamente aprendemos, no fim do Período Medieval, com a Reforma e a Contrarreforma. Em busca da paz entre os povos, a tolerância religiosa passou a ser defendida por um grupo de filósofos modernos que combatia o absolutismo. Um dos representantes foi o inglês John Locke (XVII). Este propôs a necessidade de um Estado laico ou civitas. Para uma civilização crescer e se desenvolver, é necessário o respeito para com todos. No Estado republicano ou laico, o direito positivo substitui as leis divinas, geralmente predomina apenas de uma determinada crença. O direito natural à vida, à liberdade e à segurança passa a ser garantido por uma Constituição que acolhe todas as crenças religiosas e respeita, também, os que se dizem agnósticos quanto ao Transcendente. O espaço para a diversidade em todas as dimensões, seja ela cultural, social, econômica ou política, seria para garantir a igualdade e a liberdade. No Brasil, a Proclamação da República, que se deu em 15 de novembro de 1889, já encontrou uma nação plural, isto é, com uma diversidade imensa de culturas. As rebeliões quilombolas em defesa de povos indígenas e dos negros, dos pobres colonos rurais já alertavam para a falta de tolerância. Depois de muitos séculos, as reivindicações dos brasileiros afrodescendentes tornaram o Dia da Consciência Negra também um grito importante para combater o desrespeito referente às religiões afro-brasileiras. Por isso, a necessidade de uma educação emancipada para todos é fundamental para construir um país consciente de seus direitos e deveres, democrático, onde a diversidade cultural, o diálogo religioso deveriam ser uma prática constante da cidadania. No Brasil, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2010, nós, brasileiros, somos de maioria cristã. Por que a intolerância com a crença do outro? Sejamos ecumênicos! Pratiquemos o bem uns com os outros, vivamos a fraternidade, para, assim, construirmos um Estado de paz. Maria Terezinha Corrêa Mestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP e SBPC, atualmente é professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, membro da Comissão de Prevenção e Combate à Tortura pela ALESC, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis, e membro da diretoria da APROFFIB.
A santidade cristã também passa pela gentileza

O mês de novembro traz duas comemorações as quais mereceriam ser unidas. A primeira é a Solenidade de Todos os Santos, que, no Brasil, é uma data litúrgica móvel, podendo ou não ser no dia 1º. A outra é o Dia Mundial da Gentileza, 13 de novembro, celebração menos conhecida. Estou longe de ser um lorde, contudo acho difícil compreender um autêntico espírito cristão afastado da gentileza. Como pode um batizado ou batizada responder ao chamado à santidade e, ao mesmo tempo, não ter o mínimo de doçura no trato com o outro, em qualquer ambiente? Isso independe de qual função se exerce, seja na vida eclesial ou civil. Creio que não estou sozinho nesse pensamento. Por diversas vezes, em discursos, homilias ou em documentos, o Papa Francisco critica os cristãos mal-humorados, “que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa” (Evangelii Gaudium, 6). Entre outros predicados, o Pontífice coloca a mansidão, a paciência, a alegria e o humor como algumas das características da santidade no mundo de hoje (Gaudete et Exsultate, cap. IV). Para buscar fontes ainda mais profundas, é interessante recordar a narrativa de um dramático naufrágio do qual São Paulo foi vítima. A passagem está nos Atos dos Apóstolos, do capítulo 27 até o versículo 15 do capítulo 28. O trecho faz muita questão de reforçar a gentileza do povo da Ilha de Malta, aonde os náufragos chegaram e foram acolhidos com “extraordinária gentileza” (At 28,2). Naquele lugar, o Apóstolo deu atenção aos enfermos e, com a graça de Deus, realizou curas. É impossível não recordar também a passagem do Evangelho de Lucas, capítulo 17, versículos 11 a 19. Dos dez leprosos curados por Jesus, apenas um voltou para agradecer ao Senhor e reconhecer seu poder. Esse era justamente um samaritano, um “estrangeiro”. Os outros, “de casa”, apenas foram embora, talvez pensando ter Cristo apenas cumprido sua “obrigação”. A iniciativa do homem chamou a atenção de Jesus, mostrando que a gentileza é, sim, um valor divino. Gestos educados podem fazer muita diferença no dia a dia. Em uma sociedade doente em todos os sentidos, faz muita diferença usar expressões simples, mas poderosas, como “por favor”, “muito obrigado”, “com licença”, “desculpe-me”, “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite” (quanto a estas três últimas, não me refiro às famigeradas mensagens pré-fabricadas espalhadas por redes sociais). Incluo aqui a nobilíssimo gesto de pedir e de conceder a bênção, tal como em outros tempos. Essa prática, carregada de valor, começa liturgicamente no dia do batismo e deve-se estender por toda a vida. Expressões e gestos gentis exigem autenticidade. Quando, por exemplo, deseja-se um “bom dia” a alguém, isso precisa soar como uma prece. Que “o espírito concorde com a voz”, conforme ensina São Bento. Aí está a diferença de uma gentileza cristã. Não desperdiçar palavras, sobretudo as de bendizer. Em meu ministério de diácono, vez ou outra, sou chamado a abençoar casas comerciais. Quando estou diante das portas desses estabelecimentos, fico a imaginar as pessoas passando por aquele lugar. Assim, costumo sugerir aos funcionários que evitem cara fechada para quem entra. Longe de ser uma atitude mercadológica, a acolhida é um dom cristão. Talvez o leve sorriso daqueles trabalhadores e trabalhadoras será a única demonstração de doçura que um cliente poderá ver ao longo do dia. Embora o comprador possa não retribuir o cumprimento ou ser de espírito “poluído” pela crueza, sempre os encorajo a insistir na prática. Se isso vale para uma loja, um supermercado, um shopping, o que dizer de uma igreja, uma obra social, uma secretaria, uma escola? Nunca é demais reforçar: a santidade é para ser vivida no dia a dia, com os pés no chão, em situações reais, quiçá no silêncio do fermento na massa. Nosso mundo precisa de batizados e batizadas humanamente gentis e santos. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das SSpS.
Urbanismo em todos nós

O Urbanismo é tão próximo dos cidadãos que habitam os centros urbanos que, por vezes, não o percebemos, de tão acostumados que estamos com ele. Você deve estar se perguntando: tão próximo? Como assim? Quando você acessa o metrô ou anda em outro transporte coletivo, quando você reconhece as sinalizações que indicam que rumo tomar, quando você entra em um edifício público ou privado, em uma indústria ou escritório para trabalhar, quando você vai à escola, parque, clube, posto de saúde e até quando você pensa no futuro próximo, o Urbanismo está presente. Mas o que é o Urbanismo? Simplificando, é um conjunto de diretrizes, regras e leis para dar ordenamento e qualidade de vida aos usuários das cidades. O Urbanismo toma impulso com as necessidades da Revolução Industrial e o crescimento das cidades, que, com o tempo, viraram grandes metrópoles (como São Paulo). Assim, o Urbanismo tem de pensar o espaço urbano de maneira interdisciplinar e dinâmica, criando leis orgânicas que, de tempos em tempos, devem ser revistas para acomodar as novas tecnologias e costumes que o progresso propõe. Por isso, ao sair do trabalho e voltar para casa, você usa a infraestrutura urbana, pensada por arquitetos, urbanistas e engenheiros, para, de forma ordenada, dotar os bairros com saneamento, eletrificação, transporte, saúde, lazer e cultura. Porém, como as cidades são muito dinâmicas, por vezes, a urbanização chega com atraso em alguns pontos, e aí os desafios dos planejadores urbanos são muito maiores. Mas são nos desafios e nas projeções de futuro próximo que as soluções inovadoras aparecem. O Urbanismo fortalece a cidadania, e quanto mais cidadã for a cidade, mais urbanizada ela será. Sérgio Leal Costa FilhoArquiteto, formado pela Universidade Mackenzie, atuante na área de Arquitetura e Urbanismo.
Missão, um testemunho de encontro

No espaço escolar e de missão, deve-se considerar o valor do testemunho. A Semana Sem Fronteiras 2021 exigiu de cada educador, de cada educadora, estudante e famílias a capacidade de redescobrir o valor do testemunho. Muitas foram as histórias e vivências, indicando que a condição de estar nas fronteiras independe do local geográfico. Tempos novos exigem novas posturas, sem perder de vista a beleza do caminho missionário: encontrar, escutar e celebrar. Encontrar, entre os estudantes da educação infantil ao ensino médio, a ternura e o vigor da vida e dos saberes; escutar a realidade cultural de cada território e discernir o melhor modo de agir nas fronteiras existenciais e geográficas; e celebrar a diversidade que nos enriquece. Descobrimos que os protagonistas da missão são todos aqueles, aquelas que se deixam tocar pela força do Espírito Santo que sopra onde quer. Percebemos que a força da palavra é fundamental tanto nas fronteiras geográficas como nas virtuais. Muitas foram as imagens, experiências, testemunhos, ações e sonhos partilhados. Dessa forma, alegres e fortalecidos, os que estão nos espaços educativos e de missão, nas fronteiras e em tantos outros espaços afirmamos: “Não podemos deixar de falar sobre o que vimos e ouvimos” (Atos dos Apóstolos 4,20). No link a seguir, acesse o álbum e confira um pouco do muito que cada escola realizou: Lucas Fortunato CarneiroProfessor de Ensino Religioso,Colégio Sagrado Coração de Jesus,Belo Horizonte-MG.
Atrás da cruz, a luz!

Nasci em 2 de novembro de 1954. Imaginem como era comemorado, há algumas décadas, o Dia de Finados… Dia de silêncio, de cores escuras e muita tristeza… Muitas famílias nem ligavam o rádio, quase não sorriam… Em minha infância, não tive festa de aniversário devido às dificuldades e também ao dia em que nasci. Aos 7 anos, minha mãe comprou um bolo de padaria, daqueles bem simples, com um furo no meio, sem confeitos, só para lembrar meu aniversário. Foram convidadas algumas vizinhas para o momento. Acreditem: ninguém apareceu! Mas por quê? Era Dia de Finados! Dia dos Mortos! Como nossos falecidos eram lembrados com muita tristeza, com muita saudade, não era momento de manifestar alegria. Assim era há mais de meio século. No meio em que vivi, sentiam como se os mortos estavam em “um sono profundo”. Quantas vezes ouvimos dizer: “Ah, finalmente, descansou”. Esse não é o cenário nem a realidade para a qual Jesus nos criou. “Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou” (Apocalipse 21,4). A morte é um momento de tristeza, de lamento. É um momento muito duro em nossa trajetória, mas Cristo nos deu uma mensagem de esperança: “Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o Reino que vos está preparado desde a fundação do mundo’” (Mateus 25,34). A vida é transformada pelo amor misericordioso de Deus. Vejam com atenção as palavras do Pe. Anísio Tavares, missionário redentorista: A celebração leva a compreender o amor de Deus por todos. São filhos e filhas amados, criados segundo a sua imagem e semelhança. Foi por amor e para o amor que Ele deu o dom da vida. Viver bem e em plenitude é o desejo que o Criador tem para todos e cada um de nós. Continuemos a refletir… O momento de viver o luto de um ente querido nos faz perceber que o amor de Deus é ainda maior do que imaginamos. Vida e morte são dois grandes mistérios que ultrapassam nossa compreensão. O nascimento e o falecimento nos levam a fazer as três perguntas: de onde viemos? Onde estamos? Para onde vamos? “Nossa origem e nosso destino é o coração de Deus. Nele, temos a plenitude da vida”, explica Pe. Anísio Tavares. Estes temas: Cruz, sofrimento, saudades, tristeza e vida me fizeram ler mais, pesquisar, conversar, buscar, partilhar para perceber a verdadeira luz que descobriremos nos momentos de viver nossas cruzes. Olhem o que o Catecismo da Igreja Católica (cân. 1680) declara: Todos os sacramentos, principalmente os da iniciação cristã, tem por fim a última páscoa do cristão, que, pela morte, o faz entrar na vida do Reino. Então se cumpre o que ele confessa na fé e na esperança: “Espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há de vir”. “O mundo que há de vir…” Vamos continuar em nossa reflexão… Seguindo a leitura do Catecismo, encontramos, no cânone 1681: O sentido cristão da morte é revelado à luz do mistério pascal da morte e ressurreição de Cristo, em quem pomos a nossa única esperança. O cristão que morre em Cristo Jesus “abandona este corpo para ir morar junto do Senhor” (2 Coríntios 5,8). “Saudade sim, tristeza não.” Essa frase de Santo Agostinho nos ensina que o tempo que nos separa da presença de nossos entes queridos traz a saudade que é natural. Padre Marcelo Rossi repete sempre essa passagem, lembrando a todo cristão essa verdade. Desde o início da Igreja, já havia o costume de celebrar e rezar pelos mortos, pedindo a misericórdia de Deus para os que partiram. Por sua morte e ressurreição, Jesus Cristo “nos abriu” o céu. A vida dos bem-aventurados consiste na posse em plenitude dos frutos da redenção operada por Cristo, que associou à sua glorificação celeste os que creram nele e que ficaram fiéis à sua vontade. O céu é a comunidade bem-aventurada de todos os que estão perfeitamente incorporados a Ele (Catecismo da Igreja Católica, cân. 1026). Somente a fé verdadeira é capaz de dar um novo significado a toda a nossa vida. Como diz o texto do Evangelho de João (6,35): “Quem vem a mim não terá mais fome, e quem crê em mim nunca mais terá sede”. São promessas de Jesus como em João (6,47): “Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim tem a vida eterna”. Por isso tudo, que nossa vida se encha de esperança e sempre rezemos por nossos irmãos que partiram desta vida. Para o cristão, a morte é o início de uma nova etapa. Embora a tristeza nos domine quando perdemos um ente querido, a esperança nos consola, pois, como rezamos na liturgia, “Para os que creem, a vida não é tirada, mas transformada; e desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado, nos céus, um corpo imperecível”. A fé na ressurreição encoraja nosso viver e nos impulsiona à prática do bem, deixando-nos conduzir pelo Espírito Santo. Na Profissão de Fé rezamos: creio na ressurreição, creio na vida eterna. Que essa fé nos impulsione na caminhada até Deus, seguindo os ensinamentos de Jesus Cristo. Assim construiremos uma vida feliz que se realizará, de forma plena e perfeita, após a morte, quando seremos envolvidos pelo abraço amoroso de nosso Pai. Todos morreremos, mas somos chamados à ressurreição por Cristo. Por isso, o Dia de Finados é um convite a celebrarmos a vida e a esperança! Maria Fernanda P. AzevedoMissionária leiga de Deus Uno e Trino, Rio de Janeiro.
Enquanto a chuva cai…

Por minha janela, vejo a chuva mansa que está caindo lá fora. Hoje ela desce sem muito barulho, prometendo que vai passar umas horas assim. Sem me dar conta, encantou-me e me fez pensar sobre ela. Imagino-a como um sinal de bênção porque traz consigo a garantia para a terra de que sua fertilidade não ficará infértil. Mesmo sendo terra boa, sem a chuva, não seria capaz de produzir. A água da chuva e a chuva de águas irrigam o solo e despertam nele a força de germinar as sementes. Ela penetra em suas artérias, garantindo a vida das plantas, abastecendo as vertentes, os córregos, os rios, os lagos. A água da chuva corre para o mar e se retroalimenta. Nas fontes de águas cristalinas, os animais, os pássaros saciam sua sede… A água nos riachos desliza por caminhos traçados pela própria engenharia e desemboca nalgum rio que a leva para passear por longos caminhos até chegar ao oceano. Lá a água se torna salina para se conservar, fica balançando, forma ondas, faz subir e descer as marés e dali evapora para o céu, formando novas nuvens que voltarão a chover. Um ciclo que se repete há milhões de anos. Mesmo com tanta gente, animais e plantas consumindo-a, ela continua se recriando e garantindo “as vidas” de quem na terra está. A nuvem que deságua, suas águas caem do céu e escorrem pelas ruas, entram pelos bueiros, apagam a poeira das estradas sem asfalto, lavam telhados, faz um barulhinho gostoso de se ouvir quando se está na cama para dormir. A nuvem, quando é grande, encobre o sol e deixa o dia meio cinzento. Quando ela predomina, tudo fica meio nebuloso, condicionado por ela. Faz mudar planos de idas e vindas. Mexe com as rotinas de trabalho. Por vezes, é preciso esperar que a chuva cesse. A dança da nuvem é meio misteriosa. Enquanto faz chover aqui, o sol se esconde; lá onde não chove, ele reina soberano. Quando a nuvem se atrasa e demora para vir, as pessoas olham para o céu, em sua busca, procurando sinais que indiquem que ela está chegando e, então, bendizem a Deus porque chove. Quando ela persiste por vários dias, alguns a maldizem porque atrapalha. Contudo, ela fica indiferente aos humores humanos. Ela se mantém obediente às ordens da natureza e pronto! Gostem ou não, ela tem as próprias leis. E nós dependemos dela. Sem ela, nossas caixas d’água ficariam vazias; nossos banhos, adiados; nossos alimentos, sem preparo; nossos ambientes, sem limpeza. Ah, bendita chuva! Sem ela, o mundo fica “seco”, e a vida, comprometida. Quando as nuvens estão com sobrepeso, impulsionadas por ventos fortes, tornam-se tempestades. Ao soltar suas águas, elas caem e formam torrentes que tudo arrastam, causando medo, assustando, destruindo, trazendo sérios prejuízos. Não podemos colocar qualquer condição. Ela é soberana e, para nós, necessária. Não temos como controlar sua intensidade nem suas ocorrências. Podemos saber, com antecipação, quando vai chover, se as “previsões de tempo” não falharem. De qualquer modo, não nos cabe definir nem dia, nem hora, nem quanto. Tudo isso pertence ao termômetro da natureza, que tem seus ciclos. Diante da chuva, somos passivos. Ela cai onde quer, independentemente de nossas opiniões ou decisões. A chuva se envolve nos mistérios da Criação. Suas águas apareceram quando a ordem de Deus disse: “Faça-se!”. Elas fizeram depois a arca de Noé boiar por quarenta dias; abriram-se sob a vara de Moisés, obrigadas a se afastar, criando uma brecha no mar, permitindo aos israelitas passagem a pé enxuto. Depois, na travessia do deserto, esconderam-se, forçando Moisés a bater na pedra para dela sair água para saciar a sede do povo. Nas águas, vivem mergulhados os peixes e animais marinhos, e, lá em seus abismos, moram os mistérios. Elas suportam, com galhardia, os navios cheios de contêineres e, no alto-mar, escondem os horizontes, deixando sem “terra à vista”! O próprio Jesus pediu água do poço de Jacó e, depois, revelou à Samaritana que tinha uma, que quem dela bebesse não teria mais sede. De seu peito aberto por uma lança, brotou água que escorreu por seu corpo. Assim, o mistério da água fica sempre maior. Voltando às (ou das) nuvens, sabemos que elas se formam pela evaporação dos mares, dos rios, das florestas. As águas sobem e descem. Esparramam-se por todos os recantos do planeta Terra. Hoje caem aqui, correm para os rios sem que consigamos acompanhá-las para saber onde elas vão parar. Seguem seu curso, fundem-se em outras águas. Aquela que hoje desceu do céu, aqui, não sei amanhã onde estará. Vou agradecendo a Deus pelos encantos da chuva. Elas saíram assim de suas mãos. A Bíblia a compara com a Palavra de Deus que diz: ela não volta para o céu sem antes ter produzido seu efeito na terra. Se for ela de novo que vai chover amanhã, não sei; sua história e trajetória, não as conheço, mas ela continua me encantando, enquanto ainda a vejo chovendo, pela minha janela. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S