Festas e pandemia

Mais um ano de pandemia e, quando se pensava que, após dois anos de guerra contra a covid-19, estaríamos de volta ao normal, ainda precisamos evitar as aglomerações e manter os cuidados sanitários. Em fevereiro de 2020, mesmo a Organização Mundial de Saúde (OMS) tendo alertado as autoridades brasileiras a respeito do novo coronavírus, os eventos carnavalescos e festas em geral “correram soltos” pelo País. Como consequência, a pandemia instalou-se no território nacional, provocando muitas internações. As unidades de terapia intensiva e os hospitais, que não estavam preparados para receber tantos pacientes, entraram em colapso. De norte a sul do País, vimos a triste notícia da falta de materiais hospitalares, como tubos de oxigênio e equipamentos de proteção. Tanto os profissionais da saúde deram a vida, pois foram contaminados, deixando suas famílias desoladas, quanto os idosos e os jovens de serviços essenciais. Embora a vacinação tenha começado com certo atraso no Brasil, por causa da insana conjuntura política nacional, a pandemia parecia estar acabando. Mas as festas de fim de ano novamente causaram o aumento dos casos de internação e mortes, ceifando a vida de 650 mil brasileiros. E como ficam as festas? Festa sempre foi um momento de ação de graças, de gratidão e bênção. Marca um momento ritual para um povo. No caso do carnaval, festa da carne, seria a passagem de dias comuns para o período da Quaresma, que propõe o recolhimento e o jejum, em preparação para a Páscoa. O sentido religioso da maioria das festas, como a do carnaval, foi invertido pela lógica capitalista. Por esta, o evento festivo, em vez de ser de partilha, comemoração, um ritual fraterno, passou a dar valor ao consumismo exacerbado. A economia tomou conta. A festa, em seu sentido original, celebra a vida, mas, no contexto de hoje, não há o que festejar em plena pandemia. Como pular, brincar com tantas famílias enlutadas e sofrendo com entes queridos entubados, com tantos órfãos e viúvas(os)? O fato de aglomerar pessoas já deve servir de alerta, pois, com tantos indivíduos ainda não vacinados, principalmente crianças, o bom senso clama por prudência, moderação, recolhimento. Festa significa cantar, dançar, alegrar-se, celebrar a vida. Porém, na pandemia, fazer isso é gerar morte, e morte prematura. Pensemos em cuidar da vida, continuando a tomar todos os cuidados necessários, mantendo o uso de máscara, a higienização das mãos, evitando aglomerações. Aos poucos, voltaremos à vida coletiva. Agora, cuidemos da saúde de cada um para que, juntos, celebremos a vida em festa. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP e SBPC. Atualmente, professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, membro da Comissão da ALESC de Prevenção e combate à tortura, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis, membro da diretoria da Aproffib (Associação de Professores de Filosofia e de Filósofos do Brasil).

A arte como resistência: o centenário da Semana de Arte Moderna

Quem não gosta de ouvir música? Assistir a um filme? Ler um livro? Quando foi a última vez que você visitou um ateliê de pintura ou um museu de belas-artes e contemplou obras-primas? A arte faz parte da existência humana. O filósofo alemão Nietzsche (1844-1900) afirmou que “a arte é o grito de liberdade do ser humano”. Ela é a forma de expressarmos, de várias formas, nossas angústias e sentimentos, seja pela poesia ou pela pintura, pela escultura ou pela fotografia, ou pela escultura, por um filme ou coreografia. Toda cultura sempre tem presente a arte, tanto no domínio religioso quanto no profano. Recorre a técnicas com o fim de elaborar a visão do mundo em que vivemos, criando o belo. Nesse sentido, a estética passou a analisar o sentido, a sensibilidade, o espírito presente nas obras-primas. Enquanto, no Período Moderno, o espírito encarnava-se na arte romântica, no século XIX, de acordo com o filósofo Hegel (1770-1831), o conceito de beleza dependeria de mudanças culturais. O desafio, então, era apresentar a realidade brasileira para o mundo. Neste ano em que comemoramos o centenário da Semana de Arte Moderna, podemos refletir um pouco sobre a importância desse movimento em nosso país, apreciando algumas obras. A identidade e a nacionalidade brasileira foram muito bem retratadas por vários artistas, como o quadro de Tarsila do Amaral acima, além das obras de Anita Malfatti, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Victor Brecheret, Graça Aranha, Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida, Heitor Villa-Lobos, Di Cavalcanti e outros. Destacaram a passagem da economia rural do café para a indústria, a realidade do êxodo, da seca, do morro, do samba, da miscigenação, enfim, de vários cenários sociais, culturais, religiosos e também questões políticas. A arte tem a preocupação de retratar, por meio de traços criativos, situações-problemas e demonstrar a resistência de um povo que trabalha. Segundo Cassiano Cordi, “A missão do artista é criar (o belo, o feio, o trágico…)”. Para alguns estudiosos da arte, há três problemas que fazem parte no campo de investigação da estética: a relação entre arte e a natureza, da arte com o homem e a função da arte. Para que serve a arte? Na relação entre arte e natureza, há três concepções: 1) da reprodução, da imitação que o ser humano vê a partir do objeto observado; 2) com o Romantismo, a arte parte da criatividade, originalidade do artista, a obra independe da natureza e passa a exprimir sentimentos do artista; 3) por último, a arte resulta das relações do artista com a natureza e de sua experiência com o estar no mundo, desvela a realidade e constrói um sentido novo para sua obra contemporânea (como exemplo, a obra que está acima). Novas formas artísticas surgiram, como o grafite, que também tem demonstrado a diversidade. Com a pandemia, a arte, mais do que nunca, passou a ser necessária para as famílias, as pessoas, mesmo sendo por meio da internet. Mas, infelizmente, nem todos os brasileiros têm acesso à arte por não terem acesso às mídias, geralmente restringem-se a programas de tevê. Essa situação contraria o artigo XXVII da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que estabelece o direito de todos terem acesso à cultura. É dever do Estado proporcionar à população eventos culturais e promover momentos de entretenimento. Embora muitas verbas foram cortadas pelo governo, os artistas sobrevivem recriando a realidade, denunciando, pela arte, o mundo em que vivemos. Marilena Chauí diz sobre a arte: “A arte é revelação e manifestação da essência da realidade, amortecida e esquecida em nossa existência cotidiana, reduzida a conceitos nas ciências e na filosofia, transformada em instrumento na técnica e na economia”. Pesquise, aprecie, relembre a Semana da Arte Moderna que ocorreu em 1922. Conheça os artistas da época e descubra o quanto combatiam o preconceito, o racismo, a desigualdade. Valorize os artistas de rua, na internet, de circo, enfim, arte é resistência. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP e SBPC, atualmente, professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, membro da Comissão da ALESC de Prevenção e combate à tortura, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis, membro da diretoria da Aproffib (Associação de Professores de Filosofia e de Filósofos do Brasil).

A Fazenda da Esperança e a espiritualidade

A Fazenda da Esperança é uma comunidade terapêutica presente na Ásia, África, América e Europa. Desde 1983, a entidade apoia a recuperação de pessoas que buscam a libertação de seus vícios, principalmente do álcool e da droga. Fundada pelo Frei Hans Stapel, OFM, seu método de acolhimento contempla três aspectos determinantes: o “trabalho” como processo pedagógico, a “convivência” em família e a “espiritualidade” para encontrar o sentido da vida. Em diálogo com dois jovens que fizeram a experiência da Fazenda da Esperança, apresentamos seus depoimentos que deixam clara a importância da espiritualidade na transformação e no processo de reconstrução. Veja a seguir. André Luiz: colocar em prática os propósitos “Meu nome é André Luiz e tenho 36 anos. Sofri com problemas de álcool e drogas por dez anos da minha vida, quando cheguei ao fundo do poço. Foi minha família que me apresentou a Fazenda da Esperança. Confesso que fui para o tratamento sem acreditar em minha recuperação; mesmo assim, eu fui. Chegando lá, comecei a entender os propósitos e decidi colocar em prática. Logo vi, junto com meus familiares, a mudança acontecendo. Na Fazenda da Esperança, vivemos o tripé que consiste em trabalho, espiritualidade e convivência, os três em equilíbrio. Para viver nossa espiritualidade, temos missa diariamente, rezamos o terço logo pela manhã, adoração ao Santíssimo todos os sábados e somos convidados a viver uma frase tirada da Bíblia todos os dias, para colocá-la em prática, como este exemplo sobre a compaixão: ‘Jesus encheu-se de compaixão’ (Mc 1,40-45) Ter compaixão é, de certo modo, participar do sofrimento de alguém. É difícil entender, mas, de algum modo, Deus participa dos nossos sofrimentos. E Ele pode, através dos nossos atos de amor, tocar cada pessoa que precisa da sua presença. Ter compaixão de quem sofre não é ‘ter pena’, mas ‘fazer-se um’ com o outro, sendo uma presença concreta, e fazendo o que estiver ao nosso alcance para aliviar o sofrimento de quem precisa. Muitas vezes, basta estar ao lado. Fazer-se um. Uma vez por semana, realizamos o ‘FFF’ (Frase, Fato e Fruto), quando partilhamos com os demais o que vivemos da Palavra de Deus em nossa semana. Também semanalmente, realizamos uma terapia em grupo chamada ‘comunhão de almas’. Uma vela que representa o Espírito Santo é acesa em nosso meio, e então partilhamos, de forma livre, o que a gente quer falar, sem que ninguém interfira. Assim que a atividade acaba, a vela é apagada, e tudo o que foi dito não sai daquela sala. Por esse motivo, ficamos à vontade para falar o que a gente quiser. A catequese é oferecida para os que querem, desde o batismo, para os que desejam e ainda não receberam o sacramento. Em todas as fazendas, temos a presença de freiras que nos ajudam muito com um olhar de mãe. Na fazenda, tudo é proposto, nada obrigado. Mesmo para entrar, é necessário escrever uma carta de próprio punho, pedindo ajuda e deixando claro o desejo de estar lá. O carisma do espaço vem do movimento dos focolares e, quando a gente termina nosso ano de recuperação, a gente pode se tornar um voluntário em obras do Brasil e em outros países. Concluí minha recuperação há três anos e venho colocando em prática tudo o que aprendi, e me considero limpo.” Márcio: transmitir alegria “Meu nome é Márcio e tenho 48 anos. Meu problema com as drogas começou aos 13 anos, quando comecei a beber e fumar cigarro e maconha. Com o passar dos anos, fui me envolvendo mais e mais com os vícios, e experimentando outras drogas até chegar ao crack, do qual fiquei em uso contínuo por aproximadamente 20 anos. O ápice da drogadição se deu com a morte da minha mãe, e percebi que também eu estava morrendo, mas não tinha forças para mudar de vida sozinho. Minhas irmãs me apresentaram a Fazenda da Esperança, e senti que aquela era a luz no fim do túnel. De pronto, aceitei fazer o tratamento. Foi uma grande aventura esse ano de recuperação. Eu descobri que o problema não eram as drogas e sim o que me levava a ir buscar refúgio e fuga nelas. Aprendi a me conhecer, a não ser egoísta, achar que o mundo girava em torno de mim, aceitar os ‘nãos’ da vida e saber lidar com todas as dificuldades que o dia a dia nos coloca. Por muitas vezes, eu me refugiei nas drogas por não ter coragem para encará-los de frente. Hoje estou como padrinho na Fazenda Mãe Admirável, em Braga-RS, e me sinto muito feliz por estar bem e poder me doar para outros irmãos que, assim como eu, hoje precisam dessa direção. Hoje, com a vivência do Evangelho de forma concreta, consigo manter minha sobriedade. Todos os dias, tento transmitir essa alegria para os acolhidos, para que eles também possam viver essa alegria que só existe quando estamos no amor de Cristo.” Para conhecer mais sobre a Fazenda da Esperança, acesse www.portalfazenda.org

Amor e missão

Eis um pouco da missão das missionárias servas do Espírito Santo na Comunidade Cohab Adventista, na região do Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo-SP. Quando escutamos a palavra “amor”, nosso pensamento se dirige a Deus, que é amor. Em Jesus, esse amor se revela como uma plenitude do que somos chamadas a ser, filhas de Deus. Do nascimento até a morte e ressurreição, em Jesus, divindade encarnada, o humano transborda amor. Um amor que rasgou a escuridão de nossas trevas, de toda violência, indiferença, exclusão, discriminação, ambição e, com sua vida, anunciou a paz, a alegria, o perdão, a justiça, a inclusão a partir dos mais vulneráveis. Em Jesus, fundem-se terra e céu, o amor é manifestado assim na terra como no céu. Nós, irmãs servas do Espírito Santo, dizemo-nos discípulas, anunciadoras, testemunhas desse amor. E ao nos reconhecer como discípulas, também nos reconhecemos nesse caminho de aprendizado como as mulheres que seguiram Jesus durante sua vida pública. Mais do que nunca, estamos entendendo que anunciamos o que somos com nossa vida e testemunho. Reconhecemo-nos atravessadas por contradições, limitações e pecados em nossa missão. Como discípulas, a cada dia, aprendemos tantas lições, sempre em busca dessa luz que vamos descobrindo em nós, enquanto desvendamos nossas trevas, nossa ignorância, nossas cegueiras e caminhamos em busca da luz que nos conduz ao amor. Partilhamos nossa vida em missão com comunidades, grupos de reflexão, religiosas, movimentos sociais, vizinhos, doentes, pessoas, grupos e instituições. Em meio ao povo das comunidades, onde partilhamos a Palavra, celebramos um de nossos encontros com o amor. É um chamado que desperta “meu ouvido como discípula” para descobrir e saborear a Palavra revelada em Jesus. A comunidade se torna para nós dom e sacramento, onde essa Palavra anunciada ressoa e é celebrada, tornando-se luz e alimento no caminho. No projeto “Saúde ao Alcance da Mão”, que vem sendo desenvolvido no movimento de moradia “Povo em Ação”, marcamos presença na esperança de servir ao povo com aprendizados de saúde integrativa. Para isso, procuramos melhorar as condições para um atendimento com mais qualidade e dignidade. Nestes dias, mergulhar na Palavra, levou-nos a mergulhar numa situação de acúmulo de entulho num espaço verde da Prefeitura. Fomos confrontadas por situações de vulnerabilidade que pediam profundo silêncio, acreditar nas pessoas e na possibilidade de melhorar esse espaço físico relacionado com o espaço onde se desenvolve o projeto. Nesse processo, pudemos viver a tensão de esperançar, fazendo o caminho na certeza de que o amor está presente para além das dificuldades. Que, além do entulho sufocante, encontraríamos um espaço vital para cuidar da saúde de quem ali se achegar. Ainda em processo, cultivando o amor–paciência, já podemos começar a vislumbrar a bênção desse processo e preparar-nos para celebrar a presença do amor que cura e fortalece. A cada manhã, cada momento, encontramos sombras que escondem o segredo da luz. É essa luz que nos seduz e anima na busca e caminhada com a “Rede Nacional Espere Brasil” e com o “Centro de Direitos Humanos e Educação Popular”, com os quais partilhamos processos em busca de uma cultura de paz. Um novo ano, novas oficinas sobre esses temas são uma maneira de cultivar o dom do perdão, servir a esse dom que liberta e abre para que a vida encontre espaço nos corações, nas relações, nas comunidades e instituições. Pede de nós esperançar e confessar cada dia a fé no amor que só espera que a escuridão seja reconhecida para dar espaço à luz do perdão, da gratuidade do dom, perdão. E sentindo-nos perdoadas, acolhidas, abraçadas, de roupa nova, vestes de festa, podemos celebrar os encontros em meio aos conflitos que podem se transformar em energia criativa e transformadora. E, como diz nosso querido e saudoso poeta Thiago de Mello, “Faz escuro, mas eu canto,porque a manhã vai chegar.Vem ver comigo, companheiro,a cor do mundo mudar.Vale a pena não dormir para esperara cor do mundo mudar.Já é madrugada,vem o sol, quero alegria,que é para esquecer o que eu sofria.Quem sofre fica acordadodefendendo o coração.Vamos juntos, multidão,trabalhar pela alegria,amanhã é um novo dia.” Irmã Martina Maria González Garcia, SSpS

Filhote de canguru

Os cangurus, quando nascem, vão diretamente para o marsúpio (bolsa na barriga da mãe). Eles nascem imaturos e precisam dessa proteção para se desenvolver. Ali, eles mamam e são protegidos. Ficam escondidos até mais ou menos dois meses, então começam a aparecer com a cabecinha para fora, saltitam buscando alimento na relva, próximo da mãe. Em torno de um ano, deixam definitivamente a bolsa materna, começando a ter vida independente e, aos poucos, tornam-se adultos, convivem com os outros cangurus, assumindo os papéis próprios dos cangurus adultos. São inofensivos. Somente atacam quando se sentem ameaçados. Em alguns aspectos, nós, humanos, somos parecidos aos cangurus. Também nós, quando nascemos, precisamos dos cuidados maternos, leite, proteção, afeto. Normalmente, a criança se alimenta com o leite da mãe durante seis meses e aí começa a receber alimento mais sólido até não necessitar mais do peito materno. Deixa de mamar, mas continua precisando de proteção e afeto até ficar adulta. Conforme cresce, vai adquirindo mais autonomia. Passada a adolescência, assume papéis e responsabilidades, e convive nos grupos sociais, interagindo como uma pessoa adulta. Esse deveria ser o processo normal e é o esperado pelos demais. No dia a dia, contudo, há muitas pessoas adultas em idade, mas que se comportam e continuam como cangurus bebês. Não conseguem viver independentes do “colo” materno. Buscam pessoas que lhe façam às vezes de mãe, babá permanente. Suas relações são marcadas por apegos exigentes e permanecem infantis em sua busca de proteção e afeto. Não amadurecem afetivamente. São homens, mulheres, em idade cronológica de adultos, exercendo papéis de adultos, são responsáveis, têm competência profissional e, no entanto, na parte emotivo-afetiva, comportam-se como crianças. Não amadureceram e reagem às desatenções com atitudes que destoam do comportamento esperado. Continuam na dependência dos cuidados “maternos” como cangurus que não conseguem abandonar o marsúpio. Essas situações aparecem em diferentes formas de conduta. Há pessoas que abrem mão de sua autonomia, renunciam a uma personalidade própria, contanto que alguém se encarregue de cuidar delas, são dependentes. Há outras que, de modo mais disfarçado, procuram dominar outras pessoas para tê-las a seu serviço, comprando o afeto com favores e outras formas de recompensa. Há também aquelas que tentam nutrir sua afetividade imatura com chantagens emocionais ou mesmo com doenças. Existem ainda as pessoas que se fecham num mundo à parte, como solitárias, desligadas da vida dos demais. Outras tantas reagem às frustrações afetivas com vitimismo escandaloso, chamando atenção pelo exagero de suas “dores”. Muitas outras formas poderiam ser elencadas. Esses exemplos ilustram o quanto a questão afetiva é importante no processo de crescimento e amadurecimento. Nas questões afetivas, a maturidade não se mede pelo número de anos que a pessoa tem. Uma pessoa de 50 anos pode ser mais imatura do que uma de 25. Em geral, a causa do problema se encontra nas interações mal dosadas do início da vida. É nesse período que os desequilíbrios começam e a responsabilidade maior recai sobre os “cuidadores”, isto é, as pessoas mais significativas na vida da criança (mãe, pai…). O aspecto afetivo é determinante para o equilíbrio de relações sadias. Criança mal-amada, em geral, será adulto problemático. Cuidar bem delas enquanto não sabem se autogerir é garantir-lhes a possibilidade de serem adultos independentes, capazes de convívio sadio com os demais. Os filhotes de cangurus, quando adultos, não precisam mais do marsúpio, porque, aos poucos, aprenderam a cuidar de si como independentes, mantendo-se em comunhão com seu grupo. Conforme crescem, seus “pais” deixam que vivam suas vidas, integrando-se como adultos na sociedade dos cangurus. Quem sabe nós, humanos, poderíamos aprender algo com os cangurus? Para nos tornar pessoas maduras não apenas no tamanho físico e na competência profissional, mas também nas relações sociais equilibradas e sem muitos subterfúgios que atrapalhem a autonomia sadia, as quais permitam um convívio mais harmonioso com os demais. A maior parte das relações conflituosas se deve à imaturidade afetiva. Há adultos que se comportam como crianças manhosas as quais se emburram diante da menor frustração e se abraçam em seu vitimismo, pelo qual lamentam seu “abandono” e sofrem pela falta que sentem de afeto e reconhecimento. Filhote de canguru cresce e se torna independente, homem e mulher adultos deveriam ser assim também, mas muitos não o são porque ainda dependem do “marsúpio” de alguém que lhes faça as vezes de mãe/pai, pois ainda não sabem se virar sozinhos. Seu eu infantil continua reclamando cuidados maternos porque, defasados em seus afetos, sentem-se desamparados quando alguma contrariedade os afeta. Adultos carentes são problemas permanentes nas relações com os outros. Canguru adulto vive sua condição como tal, homem e mulher adultos nem sempre. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S

“Fala com sabedoria e ensina com amor”: nosso tema transversal em 2022

O tema transversal, escolhido a cada ano pelos educadores da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo, tem grande relevância ao iluminar, por meio dos valores cristãos e humanos, todos os projetos pedagógicos- missionários nas escolas e centros educacionais. No ano em que a Campanha da Fraternidade (CF) traz ao centro a Educação, o lema “Fala com sabedoria e ensina com amor” será o mote de nosso ano letivo. A educação sempre foi uma das grandes preocupações de educadores, pensadores e da Igreja; por esse motivo, ela volta à pauta neste delicado momento político vivido em nosso país, em que os atuais governantes optaram pelo descaso. Em 1982 e 1998, a Campanha da Fraternidade já nos chamava a atenção para a relevância do tema. Após 24 anos da última campanha, colhemos muitos frutos, porém ainda não chegamos aonde apontam nossos olhares para a educação que desejamos. Nesse sentido, o objetivo geral da CF nos convida a “promover diálogos a partir da realidade educativa do Brasil, à luz da fé cristã, propondo caminhos em favor do humanismo integral e solidário”. O diferencial desta campanha é de nos ajudar a olhar, de forma integral, a educação e a vida. Em meio a um momento ainda de pandemia, pensar uma educação integral é pensar uma educação que vai além da sala de aula e que apresente a vida como mestra e educadora. Uma educação que aponte caminhos que, com um olhar misericordioso, levem além do aprofundamento científico, que é muito importante, principalmente em momentos negacionistas, mas que perde o sentido se desvinculado dos valores da vida, capazes de gerar um mundo novo. Nascemos abertos ao aprendizado e é fundamental que entendamos, de uma vez, que não somente a escola formal nos constrói como pessoas, e sim todas as situações que nos humanizam. Para isso, torna-se imprescindível apontar caminhos que busquem a reflexão/ação sobre políticas públicas, valores, educação humanizadora, o papel da família no processo educativo, a dignidade humana e o compromisso com uma nova economia que coloque a vida no centro, em especial, dos mais pobres. Pensar novamente sobre a importância da escola de qualidade para todos e da valorização da sabedoria ancestral que sustenta a educação que acreditamos torna-se, outra vez, o grande convite para todos os setores da sociedade, afinal é necessária uma tribo para se educar uma criança, como lembra o provérbio africano. Por fim, se acreditamos que a qualidade de nossa presença educa e educar é um ato de amor e esperança no ser humano, cultivemos a cultura de encontros marcantes e transformadores, enfim educar é relacionar-se por inteiro. Agostinho Travençolo JuniorEducador e assessor da Dimensão Missionária da Rede de Educação Missionárias SSpS.

Combate às novas formas de escravidão

Mais um ano, e a humanidade continua com vários desafios a resolver: desemprego, fome, exploração de menores e pessoas vulneráveis, e tantas outras misérias que violam os direitos humanos. Desde os tempos da escravidão que a dignidade humana está ameaçada ou costuma ser abalada pela insegurança e violência. Quais as formas de escravidão que ainda existem? Como combater essa situação? Embora, no Brasil, a Abolição da Escravidão tenha sido declarada em maio de 1888, muitos ainda vivem uma vida escrava. Historicamente, no período do Brasil Colônia, muitos indígenas foram escravizados, tendo de fazer trabalhos forçados, o que causou muitas mortes por doenças e maus-tratos, mesmo com a resistência de alguns. O comércio de escravos negros, vindos do continente africano, passou a ser um comércio inumano. Mesmo com a Abolição, não houve indenização a essas vítimas. A mão escrava passou a ser a mão de obra explorada pelos grandes latifundiários e indústrias. Com a Proclamação da República, muitos imigrantes também passaram a ter uma vida escravizante nas lavouras. Esses fatos causaram novas formas de escravidão contemporânea. Hoje, situações degradantes tornaram-se as novas formas de escravidão em nossa sociedade. Isso devido ao analfabetismo, à falta de qualificação, à consequência de muitos escravos não terem recebido instrução e nenhum pedaço de terra para plantar, à exploração do trabalhador em jornadas exaustivas, à exploração do trabalho infantil, ao trabalho por dívida, à exploração sexual. Como combater esses problemas que vão contra os direitos humanos, a dignidade humana? Lutemos pelo cumprimento de leis trabalhistas conquistadas por vários movimentos sindicais e sociais, denunciemos situações de injustiças, evitemos preconceitos e discriminação, respeitemos cada um, independentemente de sexo, cor, língua, religião. Que possamos erradicar a pobreza, conforme um dos objetivos que constam na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, cobrando políticas públicas nos Municípios onde a camada social menos favorecida é mais atingida. O compromisso político, a empatia, a solidariedade e a fraternidade devem fazer parte das relações sociais, não apenas das pessoais. Procure, neste novo ano de 2022, promover momentos de instrução social para que os menos favorecidos conheçam seus direitos, pois muitos são iludidos com promessas de melhoria de vida, mas, por ingenuidade, acabam caindo em situações sub-humanas. Promova cursos para aqueles que necessitam de orientação não somente técnica, mas também jurídica. Ensine a ler, a escrever, a ter acesso a novas oportunidades, enfim, a educação deve ser o caminho para a libertação da escravidão contemporânea. Unamos forças em ideias novas. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia (USP), especialista em Ensino de Filosofia (UFSCar), graduada em Filosofia (UFJF) e Pedagogia (Unitins), em Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP e SBPC, atualmente, professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, membro da Comissão de Prevenção e Combate à Tortura, pela ALESC, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis, membro da diretoria da Aproffib (Associação de Professores de Filosofia e de Filósofos do Brasil).

Educação: alavanca para o presente e para o futuro…

Desde a presença da Coroa Portuguesa, da Companhia de Jesus (religiosos jesuítas) e, muito antes, com a presença dos povos originários, a educação se faz presente na transmissão e na construção de conhecimentos no Brasil. Foram trajetórias de consensos e dissensos, mas com uma unanimidade: a educação é imprescindível. É alavanca para transformação social, para encontrar caminhos de cultura e de paz e para fortalecer o compromisso com a dignidade da vida. É elemento fundante, aquele ponto de apoio que faz mover até a Terra. Nutriente certeiro para promover relações de pertencimento, proximidade, justiça e paz, contribuindo para o desenvolvimento integral e para o cuidado com a Casa Comum. A educação tem muitas faces que dão conta da diversidade de seu alcance, seja em ambientes formais ou não. Para ilustrar, cito algumas: educação ambiental, educação pública, educação patrimonial, educação digital, educação a distância, educação financeira, educação tributária, educação profissional, educação urbanística, educação para o consumo, educação para inclusão, educação para diversidade, educação humanista, educação solidária, educação católica. Nossa esperança está depositada toda vez que nos encontramos numa relação educativa, que privilegia a formação para vida fraterna e para a cidadania. Apesar dos esforços de universalização, temos um gargalo no acesso inicial e ainda temos um funil quando se trata de garantir a permanência. Esse cenário da educação precisa ser revertido com oportunidades e ações assertivas, considerando especialmente as desigualdades territoriais, para garantir o acesso e a permanência, desde a mais tenra idade até quando a pessoa queira seguir estudando. Educação é “locus” da reflexão e do debate, e deve estar a serviço da comunidade, buscando caminhos criativos para os desafios de seu tempo e contribuindo para formar uma nova humanidade. Nas palavras do Papa Francisco, é necessário nos reunir em torno do desafio de educar, “reavivando o compromisso em prol e com as gerações jovens, renovando a paixão por uma educação mais aberta e inclusiva, capaz de escuta paciente, diálogo construtivo e mútua compreensão. Nunca, como agora, houve necessidade de unir esforços numa ampla ‘aliança educativa’ para formar pessoas maduras, capazes de superar fragmentações e contrastes e reconstruir o tecido das relações em ordem a uma humanidade mais fraterna”. É claro que, sozinha, a educação não transforma a sociedade. Que as palavras de Paulo Freire sigam nos inspirando: “Educação não transforma o mundo. Educação muda as pessoas. Pessoas transformam o mundo”. Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.

Educar para o direito à liberdade religiosa

No Brasil, o direito à liberdade de religião ou crença é previsto pela Constituição Federal. A legislação garante o livre exercício de cultos religiosos e a proteção aos locais de culto e suas liturgias. Em nosso país, também celebramos anualmente, em 21 de janeiro, o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, com o objetivo de promover o diálogo inter-religioso, a tolerância e o respeito, além de alertar as pessoas sobre esse problema gerado pelo desrespeito às diversas crenças existentes no mundo. Apesar das incessantes lutas pelo direito à liberdade religiosa e a garantia de direitos constitucionais, a desinformação e a falta de educação acerca da diversidade religiosa da sociedade brasileira é o principal fator gerador da intolerância religiosa. O preconceito nada mais é do que um juízo preconcebido de algo que se desconhece, e é dessa forma que a intolerância religiosa cresce na sociedade. Por meio do conhecimento, é possível romper essas barreiras. A educação é a mais eficaz forma de combate às diversas formas de intolerância e preconceito. O indivíduo que for educado e conscientizado acerca da importância do respeito ao próximo e à diversidade religiosa do País seguramente contribuirá para a construção de uma sociedade mais inclusiva e justa. Pela educação religiosa, é possível promover o diálogo entre as mais diversas crenças e religiões na percepção de que, independentemente das formas diferentes de expressarem a fé, existe um elo que as une, seus princípios de bondade, liberdade e amor. O outro é diferente, tem certamente outras referências e experiências culturais, porém, pelo encontro e o diálogo, é possível eliminar as distâncias e condicionamentos que levam ao isolamento, indiferença ou irresponsabilidade, para harmonizar as diferenças e interagir. Evidenciada a urgente necessidade de uma cultura do encontro, o Papa Francisco exorta a educação católica a promovê-la, de modo que possa ser uma proposta de esperança e confiança para nosso tempo. Em um de seus discursos, enfatiza que “as mentes e os corações devem estar em harmonia na busca do bem comum universal e na busca do desenvolvimento integral de cada pessoa, sem exceções ou injustas discriminações”. Essa reflexão do Santo Padre diz muito sobre a importância de uma formação integral dos educandos, para que estejam comprometidos com a realidade social, os valores, a moral e a ética. Nesse sentido, o Ensino Religioso se destaca na promoção de uma educação aberta à transformação sociocultural que forma cidadãos que compreendem os processos sociais, desenvolvendo atitudes de escuta, respeito e serviço na perspectiva de uma formação que contemple a cultura do diálogo e do encontro. Esse diálogo deve ser amplo e aberto com todas as pessoas: o diálogo ecumênico, inter-religioso, com os não crentes, com as ciências, com a economia, a política, a arte, etc. O Ensino Religioso tem esse importante papel de encontrar-se com aqueles que têm outras opiniões e diferentes opções, sem abdicar os próprios princípios, valores e convicções. Proporciona um encontro autêntico que não coloca em risco a própria identidade, mas a enriquece com aquilo que o outro oferece. Pela dinâmica do diálogo (que requer falar e ouvir, receber e dar), dá-se o reconhecimento do outro como alguém valioso, que tem algo a oferecer. Diante dos desafios e incertezas enfrentados pela humanidade, o Ensino Religioso busca novos e criativos caminhos que conduzam ao diálogo e ao encontro, olhando para o próximo como irmão. É fundamental educar crianças e jovens sobre todas as doutrinas religiosas e, principalmente, sobre a relevância do respeito a todas. O saber é fundamental para a liberdade dos indivíduos. É a educação que, de forma eficaz, combaterá esta grave “doença” social, a intolerância religiosa, que fere e desrespeita tantos direitos fundamentais, e construirá o respeito à diversidade religiosa existente no País. Mariana Botelho CoimbraProfessora de Ensino Religioso do Colégio Imaculado Coração de Maria, no Rio de Janeiro-RJ.

Habilidades emocionais: irmãs SSpS conduzem atividade em abrigo

Entre os dias 22 e 26 de novembro, as irmãs Martina Gonzalez e Petronella Boonen, ambas missionárias servas do Espírito Santo, realizaram um trabalho sobre habilidades emocionais com 36 funcionários do abrigo Recanto Feliz, no Município de Aracruz-ES. A obra é parte da Associação Beneditina de Educação e Assistência Social. No período mais agudo da pandemia, devido à necessidade de isolamento, o abrigo teve de reduzir espaços de convivência e atividades escolares, esportivas, entre outras. A medida provocou uma sobrecarga emocional em crianças, jovens, famílias e nos próprios agentes educacionais. Com a estabilização da pandemia, os trabalhadores solicitaram um acompanhamento para que pudessem recuperar as energias e prosseguir na missão. Com diligência, a direção da entidade atendeu ao pedido dos colaboradores. As irmãs contam que ficaram impressionadas com o alto nível de estresse dos agentes educacionais. Ajudaram a agravar a situação as tensões intrafamiliares, a insegurança por medo do desemprego e a infecção de membros das famílias. Além disso, foi constatado, ao longo das atividades, o trauma por mortes prematuras causadas pela covid-19, por outras doenças ou por homicídios. Ao longo da semana, foi possível criar um ambiente seguro que permitiu a partilha e a acolhida dessas tensões. Por meio de psicodrama, expressões com argila, desenhos, exercícios físicos, conversas, leituras, exercícios de respiração e algumas exposições teóricas, foi possível oferecer ferramentas para as pessoas expressarem os sentimentos. Fazendo o percurso proposto, o grupo foi achando um caminho para aliviar a tensão, avaliar suas respostas às demandas externas e treinar novas possibilidades. Outra proposta foi abordar o perdão como uma forma de lidar com situações difíceis do passado. Grande parte das metodologias empregadas foram inspiradas pela Escola de Perdão e Reconciliação (Espere), metodologia de educação popular desenvolvida na Colômbia e articulada pela Rede Espere no Brasil. Os participantes agradeceram o apoio e o consideraram positivo. Os agentes, como destacaram nas avaliações, aprenderam o valor de ouvir o outro, transformar o olhar de vítima, para ter mais qualidade de vida e, assim, diminuir o estresse. Ir. Petronella Maria Boonen (Nelly) é co-fundadora da linha de Perdão e Justiça Restaurativa do CDHEP e doutora e mestra em Sociologia da Educação pela USP.)

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