A pessoa e a educação, uma relação profundamente cristã

Ao refletirmos sobre o processo educativo, nossa mente será levada a lembranças de nosso tempo escolar, amizades e tantas aventuras vividas. Não há problema algum em trazer à memória essas lembranças. Estas podem apresentar-se como brecha para refletirmos sobre a relação entre educação e pessoa. Somos seres de relação e construção de cultura, somos seres dependentes e independentes em nossa forma de pensar e existir, e, para que tudo isso tenha sentido, a “educação” tem papel fundamental. Segundo o dicionário Michaelis, educação define-se por ato ou processo de educar(-se), e no caso de uma escola missionária, afirmamos que educar é um ato ou processo de educar a partir de três palavras: escuta, mediação e compreensão. Somos uma instituição que “educa”, não de modo aleatório, mas a partir do Evangelho e de um projeto que tem a pessoa humana no centro. Valorizamos tanto suas potencialidades como suas fragilidades. Nesse processo educativo, faz-se importante “ir além dos muros da instituição de ensino e experienciar as diversas oportunidades presentes no desenho dos territórios educativos em um contexto de crescente singularidade de grupos populacionais de convivência, acelerado pelos processos de globalização, das mobilidades e geridos pelo diálogo multicultural” (Texto-Base da CF 2022, n. 137). Buscamos ensinar de modo a libertar a mente a uma reflexão humanizada, crítica e responsável. O ensino de Jesus é libertador. […] De alguma forma, ele libertou a todos com sua sabedoria e seu amor. Libertou os acusadores de matar aquela mulher e, ao lhes tocar a consciência, ocasionou a consequente revisão da própria vida. Libertou a mulher de ser apedrejada e abriu-lhe nova oportunidade de vida. Partindo de perguntas ao redor de um fato, Jesus ilumina também, com a verdade da misericórdia e do valor da pessoa humana, os membros do povo que ali estavam e assistiam à cena. Tudo nos leva a concluir que ensinar é libertar o ser humano das muitas amarras impostas pelo pecado, pelo legalismo, pela insensatez, pelo ódio, pela falta da fraternidade (Dom João Justino Silva, 2022). Portanto, nós nos perguntamos: como, porém, pensar a humanidade? Pensar a humanidade a partir da educação, a partir da experiência, a partir da solidariedade. Pensar uma nova humanidade que educa olhando para o outro, que estabelece parâmetros de justiça, paz e fraternidade. “Essa é a chave. O novo humanismo deve principiar na ‘relação’, no ‘jogo’ do ser humano com seus iguais, com a natureza e com Deus” (Ercilia Magaldi, 2022). Referências CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL. Campanha da Fraternidade 2022: Fraternidade e Educação: “Fala com sabedoria, ensina com amor” (cf. Pr 31,26): texto-base. Brasília: Edições CNBB, 2022. MAGALDI, Ercilia Simone D. A pandemia e um novo humanismo. Vida Pastoral, São Paulo, a. 63, n. 345, p. 36-43, maio/jun. 2022. Disponível em: https://www.vidapastoral.com.br/edicao/a-pandemia-e-um-novo-humanismo/. Acesso em 13 jun. 2022. SILVA, João Justino de Medeiros. Fraternidade e educação. Vida Pastoral, São Paulo, a. 63, n. 344, p. 4-11, mar./abr. 2022. Disponível em: https://www.vidapastoral.com.br/edicao/fraternidade-e-educacao/. Acesso em 13 jun. 2022. Lucas Fortunato Carneiro é professor de Ensino Religioso e coordenador da Dimensão Missionária no Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG.
Rede de Educação SSpS acolhe diretrizes do Capítulo-Geral

Membros da diretoria e coordenação pedagógica, assessorias e coordenações missionárias se reuniram para refletir e aprofundar o alinhamento de metas que serão explicitadas no Projeto Político Pedagógico Missionário da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo (SSpS). O encontro foi realizado entre os dias 15 e 18 de junho, no Convento da Santíssima Trindade, em São Paulo-SP. Na manhã do dia 15, iniciamos o encontro com os coordenadores missionários dos colégios e os assessores pedagógico e financeiro da Rede. O momento foi conduzido pela Ir. Maria Percila e o assessor Agostinho Travençolo Junior. Nesse primeiro momento, fomos convidados a mergulhar na dinâmica trinitária. A oração nos levou a reconhecer nossa missão diante do mistério de Deus e renovar nosso papel como discípulos e discípulas de Jesus. Em seguida, fomos conhecer um pouco da história do Convento da Santíssima Trindade, para entendermos a missão da Congregação e nossa também. Irmã Maria Percila e Agostinho nos levaram a refletir sobre a pericorese, a dança trinitária, movimento contínuo no qual a Trindade se manifesta ao mundo e nos convida a ser um com eles, como uma ciranda, em que cada um tem seu papel, sua dinâmica pessoal, mas está no todo, sem perder sua identidade. “Por isso vem, entra na roda com a gente…”. Capítulo-Geral e as escolas O grupo refletiu maneiras de incluir nas escolas as diretrizes do Capítulo-Geral das SSpS, realizado em janeiro de 2022. Foi um momento muito rico e intenso. Com base em cada uma das diretrizes do capítulo, foram elaborados objetivos para que facilitem a compreensão e a execução da essência das diretrizes, destacando a importância de se internalizar em todos a identidade missionária de nossas escolas. Na parte da tarde, a equipe missionária se reuniu e se debruçou sobre o Projeto Político Pedagógico Missionário, o marco doutrinal. Foi um momento de muita discussão, aprofundamento e resgate de toda a reflexão feita na parte da manhã. Durante a elaboração do marco doutrinal, foi possível clarear a identidade fundamentada na espiritualidade trinitária e no carisma missionário. Após longas horas, o grupo e as irmãs chegaram a um esboço a ser apresentado, no dia seguinte, para todo o grupo de diretores e coordenadores. No dia 16, já com toda a equipe reunida, no momento da oração da manhã, a orientação para todo o dia de trabalho. Luciana e Lucas, coordenadores missionários dos colégios Stella Matutina e Sagrado Coração de Jesus, conduziram a dinâmica da partilha e da comunhão. Explorando o evangelho da multiplicação dos pães, fizeram-nos refletir sobre a importância de cada um no projeto missionário. Cada um é peça importante na proposta educativa da Rede e, juntos, somos mais fortes. João Carlos, assessor pedagógico, conduziu uma dinâmica de apresentação e nos falou sobre “A gestão educacional no mundo de hoje”. Refletiu sobre o processo da aquisição do conhecimento (significado e sentido) para que possamos (educandos e educadores) ser transformadores da realidade. Em sua fala, abordou também a importância de se compreender e vivenciar a identidade missionária, razão de ser da educação da Rede. Também na ocasião, tivemos um encontro riquíssimo com a professora Aleluia Heringer, que nos trouxe pistas para compreendermos o currículo evangelizador. Trazendo toda a sua experiência como diretora de escola católica, apresentou-nos, com base nos documentos do Papa Francisco, a importância de assumir verdadeiramente a proposta de uma educação evangelizadora nos dias de hoje. Uma educação integradora, que pense o ser humano a partir de uma conversão ecológica, pela qual nos reconheçamos parte, e não “à parte”, da Criação; estamos todos interligados. Projeto Político Pedagógico Missionário À tarde, a equipe da dimensão missionária apresentou para o grupo o esboço do marco referencial missionário e as diretrizes do XV Capítulo-Geral e sua “encarnação” nas escolas: implementar projetos pedagógicos missionários integradores e transversais; cultivar uma linguagem intimamente relacional; promover e agregar ações missionárias; redesenhar processos de gestão para que o novo possa surgir; recriar os vínculos afetivos em nossas comunidades educativas; oportunizar espaços/momentos de vivência holística das espiritualidades; abrir-se a um processo de flexibilização pessoal; experimentar um novo jeito de acolher; sistematizar as ações de conversão ecológica existentes; aderir a um estilo de vida sustentável. Em seguida, foram formados os grupos por segmentos. Cada um começou a discutir e elaborar o novo Projeto Político Pedagógico Missionário, com esse olhar mais voltado para nossa identidade missionária. No dia 17, o dia começou com a oração conduzida por Alisson e Alexandre, coordenadores missionários dos colégios Espírito Santo e Imaculado Coração de Maria. Eles trabalharam com base em palavras inspiradoras para cada participante do encontro. E assim, após a leitura do Evangelho do dia (“Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração”), convidaram os participantes a construírem, juntos, uma linda aquarela a partir do olhar de cada um, valorizando a diversidade. Irmã Fátima trouxe uma bela reflexão sobre “Olhar da Rede sobre as questões educacionais hoje”. Ela, mais uma vez, falou sobre a importância de compreender o que é uma educação missionária. Uma educação que deseja formar cidadãos realmente transformadores na sociedade. Que nosso aluno que começa lá no infantil, ao chegar no ensino médio, consiga perceber o caminho educativo-missionário percorrido por ele. O sucesso desse aluno deve ser sua capacidade de intervir e transformar sua realidade e a realidade daqueles que convivem com ele, cumprindo verdadeiramente o objetivo da educação missionária. Os grupos, divididos por segmentos, apresentaram suas análises para a elaboração do novo Projeto Político Pedagógico Missionário. A discussão levou ao entendimento da necessidade de se pensar a educação missionária permeando todos os segmentos, sendo o fio condutor entre os segmentos e suas propostas. Evitando, dessa forma, a existência de uma escola fragmentada. Outro momento importante foi o de experimentarmos o novo que se faz presente em nossas escolas, o desafio da educação maker. A assessora tecnológica Karla expôs problemas reais que se apresentam em nosso cotidiano escolar e como a proposta maker pode e deve nos ajudar a superar tais dificuldades. Compreendemos que a construção do saber de forma compartilhada é muito mais
Centro Educacional Madre Josefa: o carisma das SSpS no Complexo do Alemão

O Centro Educacional Madre Josefa (CEMJ) é uma creche sem fins lucrativos, localizada no Morro do Alemão, no Rio de Janeiro-RJ. A obra social administrada pelas irmãs missionárias servas do Espírito Santo (SSpS) foi fundada em 20 de maio de 2003, idealizada pela irmã Irmilde (Ana Katharina Smith). A patrona do CEMJ, a bem-aventurada Madre Josefa, cujo nome de batismo era Hendrina Stenmanns (1852-1903), é, ao lado de Santo Arnaldo Janssen, fundadora da Congregação das SSpS. A história de vida da religiosa é marcada pelos cuidados em favor dos mais necessitados. O CEMJ funciona em regime de externato misto, em turno integral. Hoje atende 80 crianças de 2 a 6 anos incompletos e em vulnerabilidade social. Destina-se à educação infantil e creche, e integra a Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo. Como nas outras instituições administradas pelas irmãs, a filosofia de trabalho é inspirada na Santíssima Trindade, modelo de amor e comunhão. O IDH mais baixo A obra está localizada no bairro de Inhaúma, Zona Norte da capital fluminense. O lugar compõe o conjunto de favelas do chamado Complexo do Alemão. Segundo o censo de 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o índice de desenvolvimento humano (IDH) era de 0,711, o 126º e último colocado da cidade do Rio de Janeiro. A pesquisa ainda revelou que a população do bairro era de cerca de 60 mil habitantes, divididos em 21.048 domicílios, numa área de 21.982 km². O Morro emprestou seu nome ao Complexo, embora o personagem que inspirou a alcunha fosse, na verdade, um polonês. Leonard Kacsmarkiewiez, refugiado da Primeira Guerra Mundial e de nome difícil, logo foi apelidado pelos cariocas de “alemão”. Dessa forma, a área que era de sua propriedade passou a ser conhecida como Morro do Alemão. Um dos problemas mais graves na comunidade é a violência. Há uma constante tensão imposta pela disputa armada dos territórios dominados e silenciados pela violência física e psicológica. Mesmo assim, a obra social faz o possível para manter sua presença ao lado do povo, realizado projetos educacionais que visam à perspectiva de uma vida melhor. Desenvolvimento integral O Centro é o braço social do Colégio Imaculado Coração de Maria, também pertencente à Rede de Educação SSpS. Gilmara Solidade, coordenadora, explica que entre os muitos objetivos da ação educativa do CEMJ está o de contribuir para o desenvolvimento das relações interpessoais e da cidadania, por meio de atividades lúdicas. Além disso, a obra social busca enriquecer a autoestima dos educandos e familiares, e favorecer o conhecimento do mundo externo à comunidade, compreendendo e atuando em seu entorno social. Os trabalhos educativos, pastorais e sociais são baseados no patrimônio espiritual das SSpS. Os educandos recebem diariamente quatro refeições, reforçando o desenvolvimento nutricional. O Centro promove atividades pedagógicas e recreativas. Com foco na segurança emocional e no desenvolvimento pleno, as crianças são acompanhadas pelas professoras com formação em Pedagogia e por recreadoras. O grande desafio da obra social é manter toda a estrutura física e modernizar o espaço, para deixá-lo atualizado tecnologicamente e, assim, oferecer qualidade do ensino e aprendizagem. “Encontrei no CEMJ o acolhimento que tanto precisava e aqui descobri a especificidade do meu filho. Portador de TEA (transtorno do espectro autista) e TDAH (transtorno do déficit de atenção com hiperatividade), ele sempre foi incompreendido em outros espaços. O CEMJ me ajudou a aceitar a condição dele e a buscar tratamento. Só tenho a agradecer”, conta Mariman Moraes, mãe do pequeno Davi. Ana Katharina Smith (irmã Irmilde), SSpS, é a idealizadora do CEMJ. Teve atuação marcante no Complexo do Alemão durante mais de 20 anos. Conhecendo os desafios da comunidade, fundou a instituição para dar apoio às famílias que mais precisavam, gerando também emprego aos moradores. Todas as colaboradoras do CEMJ são moradoras do lugar. Em sua maioria, são o aporte financeiro de seu grupo familiar. Elas são incentivadas a estudar e a conquistar seu espaço, respeito e dignidade, assegurando o desenvolvimento de seu potencial.
A missão de acolher quem chega ao Brasil

Três datas na segunda metade de junho nos fazem refletir sobre a movimentação humana no Brasil e no mundo. O Dia Nacional do Migrante (dia 19), o Dia Mundial do Refugiado (20) e o Dia do Imigrante (25) colocam em evidência a realidade dessas pessoas e os papéis que governos e sociedade precisam desenvolver no acolhimento dessa população. Nesse contexto, apresentamos duas frentes de trabalho das irmãs missionárias servas do Espírito Santo e favor de quem chega a nosso País. Ações para os migrantes em Alto Alegre-RR “Nosso serviço consiste em estar onde é mais necessário. Essa é a herança recebida pelos fundadores da Congregação das Irmãs Missionárias Servas do Espírito Santo.” Assim pontua a irmã Aurélia Prihodova sobre a importância das ações desenvolvidas pelas quatro religiosas pertencentes a uma comunidade intercultural e internacional na Paróquia Santo Isidoro, em Alto Alegre, Roraima. Além do apoio à paróquia, sobretudo nas áreas de formação, pastoral e administração, elas participam de ações desenvolvidas pela Diocese de Roraima e da rede de atendimento social no movimento migratório da Venezuela e da Guiana Inglesa. Também oferecem apoio nas demandas dos povos indígenas (Macuxi e Wapichana) em sua luta por direitos fundamentais e territoriais. “É um lugar desafiador, onde a gente passa por uma transformação pessoal e comunitária. Nossa missionariedade oportuniza a disposição e flexibilidade de acolher, atender, aprender e servir a humanidade encontrada e integrá-la para o meio social”, afirma a missionária. A atenção especial aos movimentos migratórios começou em meados de 2018. Naquele ano, foram cadastrados 200 estrangeiros que chegaram a Alto Alegre em busca de uma vida digna. Em 2019, os atendimentos aumentaram, com registro de 285 pessoas acolhidas pelo serviço. Apesar da covid-19, a migração não parou nos anos seguintes, mesmo com o fechamento oficial das fronteiras entre Brasil e Venezuela, devido à pandemia. Em 2020, 150 pessoas buscaram apoio na comunidade de Alto Alegre. Em 2021, foram 170 migrantes. E, em 2022, já são 100 cadastrados. “Eles passam por caminhos perigosos e ilegais, chegando ao Brasil sem nada, somente com a violência e violação dos direitos fundamentais. Atendemos aqueles que permaneceram aqui no Município e os que estão sempre chegando. A média é de 350 a 400 pessoas”, comenta Ir. Aurélia. As religiosas atuam em rede com a Diocese de Roraima e com outras instituições, como a Organização Internacional do Migrante (OIM), o Serviço da Pastoral do Migrante (SPM) e a Cáritas Diocesana e Nacional. Primeiramente, o foco do atendimento é a fome. Depois, a documentação. E, em terceiro lugar, as irmãs oferecem aulas de Língua Portuguesa para favorecer a integração das pessoas, famílias e profissionais que saíram da Venezuela devido à crise. A paróquia criou também um grupo de mulheres imigrantes para promover a troca dos saberes culturais e tradicionais, além de escutá-las e de ser um lugar onde elas possam falar. Uma das ações permanentes são os agendamentos com a Polícia Federal e com o Posto de Interiorização e Triagem (Pitrig) para confecção da documentação de refúgio ou de residência das pessoas, ou ainda a renovação dos documentos daquelas que permaneceram no Município com esperança de retornar à Venezuela. Por meio do projeto de interiorização, já foram encaminhadas 75 pessoas para outros Estados do Brasil. De acordo com Ir. Aurélia, as tratativas com o Poder Público Municipal abrem caminho para o atendimento dos migrantes nos postos de saúde bem como a integração das crianças, adolescentes e jovens para a educação. Valendo-se da plataforma da Receita Federal, a Paróquia Santo Isidoro consegue agilizar também a solicitação do CPF sem que eles tenham necessidade de gastar dinheiro com a viagem até a capital, Boa Vista. A plataforma on-line do Ministério de Trabalho facilita a confecção da carteira de trabalho e acesso a benefícios sociais e do INSS. Porém, o esforço das missionárias em acolher os migrantes também se depara com dificuldades. “O que desafia nossa missão aqui é a xenofobia. No Município (Alto Alegre), não existem alternativas de poder empregatício. A população é formada por pequenos agricultores que lutam pela sobrevivência com um olhar não muito positivo para os migrantes. Escutamos muitas críticas, mas confiamos em Deus Uno e Trino que envia seu dinamismo e coragem para podermos agir com compromisso, responsabilidade e transparência em todas as atividades na missão a nós confiada”, conta Ir. Aurélia. Da parte de quem recebe essa atenção das irmãs, o sentimento é de gratidão. “Para mim, tem existido apoio, principalmente do Serviço da Pastoral dos Migrantes, que não só me ajudou espiritualmente, mas também me deu a oportunidade laboral. No princípio, foi muito difícil para eu me adaptar a uma língua nova. Deixei tudo lá (em Caracas): casa, trabalho, família e formatura. Algumas vezes, eu me sentia muito deprimida. Mas depois começou minha resiliência. Fui começando a me acostumar com as novas formas de vivência, incluindo cultura, língua e outros costumes. Trabalhei como faxineira, babá, ajudante de cozinha e vendedora de din-din. Pouco a pouco, fui me adaptando até me converter em agente pastoral e funcionária humanitária. Hoje ajudo muitos migrantes vulneráveis como eu”, diz Orladys Enriqueta Hernandez, 44 anos, que migrou da Venezuela para o Brasil devido à crise alimentar, saúde, educação e insegurança. Hoje ela vive em Boa Vista. Centro de Integração do Migrante em São Paulo-SP Inaugurado em 12 de dezembro de 2015, o Centro de Integração do Migrante (CIM) é uma iniciativa das irmãs missionárias servas do Espírito Santo que se configura como um espaço de convivência para a integração social, orientação e capacitação profissional de imigrantes que vivem na capital paulista. O trabalho é desenvolvido em conjunto com a Pastoral do Migrante da Arquidiocese de São Paulo e da Paróquia São João Batista do Brás. A atuação das missionárias no CIM tem seu foco na acolhida, proteção, promoção e integração dos migrantes, promovendo a preservação das diversas culturas e, de modo contínuo e respeitoso, apresentando a cultura brasileira. “Em geral, nossa comunidade é composta por três irmãs. No momento, estamos em duas, coordenando o CIM, atendendo, fazendo visitas, ajudando
A educação precisa ser para todos

Acesso? Qualidade? Inclusão? Palavras muito ouvidas e, constantemente, discutidas em nosso convívio. Mas o que tem a educação a ver com isso? Tudo! Atualmente, há como não perceber as inúmeras cenas de mudanças na sociedade global? O campo educacional, particularmente, tem se articulado para garantir o direito à educação de qualidade, fundamental para promover a formação cidadã, o desenvolvimento social dos estudantes e assegurar a dignidade da pessoa humana, valorizando toda a sua diversidade. Quando falamos sobre acesso à educação, não podemos simplificar ao significado pontual da palavra: ingresso, caminho, ato de chegar ou de se aproximar ou usufruir de algo. Não é como ter uma credencial e ter acesso a algum lugar ou a alguma coisa simplesmente. A Lei de Diretrizes e Bases para a Educação Nacional (Lei n.º 9.394/1996) afirma que “é direito de todo ser humano o acesso à educação básica”, assim como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a qual estabelece que “toda pessoa tem direito à educação”. Ter acesso à educação, portanto, é a capacidade de todas as pessoas de terem oportunidades iguais na educação, independentemente da sua classe social, raça, gênero, sexualidade, origem étnica ou deficiência física e mental. Apesar da evidência do direito educacional, entretanto, ainda há uma grande parte da população brasileira que não tem acesso ao ensino público. E, nesse momento, acrescentamos a palavra qualidade à palavra acesso. Há àqueles que, mesmo tendo acesso ao ensino, não adquirem conhecimentos considerados essenciais, seja por insuficientes investimentos na formação dos docentes ou pela quase inexistência de comprometimento dos governantes com essa causa. Desse modo, aquele que tem o acesso não usufrui da qualidade. Corroborando essas afirmações, o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 4, voltado especificamente para educação, visa a assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida, para todos. Conjuntamente ao acesso e à qualidade da educação, temos o desafio de adotarmos uma postura inclusiva nos processos educativos. Postura essa que pressupõe a igualdade de oportunidades e a valorização das diferenças humanas, contemplando, assim, as diversidades étnicas, sociais, culturais, intelectuais, físicas, sensoriais e de gênero dos seres humanos. À vista disso, as práticas escolares não devem ser adaptadas para alguns alunos, e sim transformadas em um ensino diferente para todos. Um ensino que garanta todas e quaisquer condições de aprender, em que as necessidades específicas não sejam ignoradas, mas que os educadores saibam quando e como usar recursos especializados para assegurar que todos aprendam. A educação dentro desse contexto vai muito além de garantir que as crianças e os jovens estejam na escola. Tem a ver com o direito ao desenvolvimento pleno e integral deles, e é nesse ponto que se destaca uma educação de qualidade. É importante mostrar que estando dentro da escola, o aluno será ouvido, valorizado, visto como único e, principalmente, construtor do seu conhecimento, dentro de suas capacidades e necessidades. A escola deve proporcionar oportunidade de desenvolvimento intelectual a todos os alunos, respeitando o tempo de aprendizagem de cada um e o modo como aprendem. Combinar o princípio da igualdade de oportunidades com o princípio da diferença fundamentará os propósitos de uma educação de qualidade, em que todos possam ser vistos com suas particularidades e que elas devem ser consideradas como diversidade e não como problema. “Uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo. A educação é a única solução” (Malala Yousafzai, 2013). Liliane Alves BarcellosPedagoga, psicopedagoga e professora do 1º ano do ensino fundamental no Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG.
Escolas são guardiãs da tradição das festas juninas

No calendário das escolas de todo o Brasil, a chegada de junho vem acompanhada pelo colorido de vestimentas caipiras e das bandeirinhas que enfeitam pátios, salas e corredores. Em alguns casos, o período das festas juninas pode se prolongar até julho, em programações que valorizam a cultura, além de promover a alegria e a integração, sendo tudo isso parte do conteúdo pedagógico. A celebração tem suas origens em festividades da Europa que marcavam a passagem da primavera para o verão no Hemisfério Norte, sendo trazida para o Brasil por influência dos portugueses do século XVI. As danças, músicas e comidas que conhecemos hoje evidenciam a mistura de elementos típicos do interior do País e de tradições sertanejas, forjadas pela mescla das culturas africana, indígena e europeia. “A cristianização da festa está diretamente relacionada ao estabelecimento de comemorações de importantes figuras do catolicismo, entre as quais se destacam Santo Antônio (homenageado em 13 de junho), São João (dia 24) e São Pedro (dia 29)”, informa o portal Brasil Escola. Nas escolas das missionárias servas do Espírito Santo, essa tradição também vem de longa data, sendo um dos eventos mais aguardados por toda a comunidade escolar. Danças de quadrilha junina, as brincadeiras e o casamento caipira são algumas das atividades que ficam na memória de quem participa dessas festas. Saiba como é esta prática nos colégios Imaculado Coração de Maria (Rio de Janeiro-RJ), Santa Maria (Cascavel-PR), Espírito Santo (São Paulo-SP) e Espírito Santo (Canoas-RS). Festejos têm caráter pedagógico Dentro de seu planejamento pedagógico, o Colégio Imaculado Coração de Maria entende que valorizar as tradições culturais deste imenso país junto às gerações mais novas é proporcionar acesso à riqueza, beleza e diversidade dos povos originários, povos africanos e europeus. “O Brasil possui como característica reconhecida a multiculturalidade, o que nos enche de orgulho. E trazer uma festa tipicamente campestre para a cidade é dar visão, valorizar e respeitar os traços e costumes típicos desses brasileiros que transformam, em cores e passos vibrantes, as noites das festas juninas do interior do País”, assinalam os educadores. Por isso, a tradicional festa junina da escola não se resume apenas a ensaios, danças e barraquinhas. Engloba um estudo sobre esse Brasil, aparentemente distante, que colocou em evidência artistas como Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Dominguinhos, Marinês, Elba Ramalho, além de aspectos culturais e a beleza das festas de Caruaru-PE e de Campina Grande-PB, com seu teto colorido de bandeirinhas, quadrilhas, xotes, baiões e a história da força do povo sertanejo. “Esses valores são passados e debatidos com os alunos, durante as aulas em sala, e depois trazidos aos ensaios, quando professor e aluno fazem uma união entre as músicas mais tocadas nas áreas urbanas com as músicas marcadas por zabumbas, triângulos e sanfonas, para daí saírem as danças que abrilhantam nosso evento”, afirmam os professores do Colégio Imaculado Coração de Maria. A coordenadora pedagógica da educação infantil do Colégio Espírito Santo (CES) de Canoas, Elen Zimmermann, ressalta, inclusive, que as festas juninas integram a competência de Repertório Cultural na Base Nacional Comum Curricular: “Na BNCC, entra toda a parte cultural e de festividades que caracterizam cada Estado do País. Fazemos o estudo das regiões para fundamentar a festa com essas informações. Já trabalhamos como temática a biografia de Luiz Gonzaga e Elba Ramalho, por exemplo”. Essa competência da BNCC estabelece como fundamental que os estudantes conheçam, compreendam e reconheçam a importância das diversas manifestações artísticas e culturais, propondo a participação deles em práticas diversificadas da produção artístico-cultural. Outro aspecto pedagógico é a mescla da festa junina com projetos escolares e eventos como a Copa do Mundo, propondo conexões ainda mais amplas. “A festa junina é uma tradição no CES. É uma atividade muito esperada, cheia de alegria, dança, gostosuras e descontração. Aproveitamos a oportunidade para enfatizar o programa Líder em Mim, desenvolvendo os princípios dos sete hábitos trabalhados com os alunos, colocando-os em ação, de forma a desenvolver a proatividade, a estabelecer o que é mais importante, pensando o ganha-ganha, além de criar sinergia na organização, nos ensaios e na apresentação das danças”, comenta Adriana Maciel, coordenadora pedagógica do ensino fundamental I do colégio gaúcho. Também no Colégio Santa Maria, em Cascavel, a professora Rosangela Maria de Oliveira Bueno, do ensino fundamental, conta como a programação envolve todo um trabalho multidisciplinar: “As festas juninas fazem parte do calendário letivo e são momentos para o desenvolvimento de muitas atividades lúdicas, além de uma valiosa oportunidade para que os professores ensinem conteúdos relativos a diferentes disciplinas, como Geografia, História, Artes e Educação Física. O evento contribui para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, principalmente nas crianças, possibilitando a integração entre todos os envolvidos, e estimula competências impactantes para a socialização, como cooperação, paciência e respeito”. Presença da família e da comunidade A alegria das festas juninas é algo que empolga não somente os estudantes, mas também seus familiares e, em alguns casos, ex-alunos e a comunidade vizinha às escolas. “Nossa festa junina é referência no bairro, pois é um momento em que várias gerações do Colégio Imaculado Coração de Maria se reencontram para aproveitar o festejo e participar da tradicional dança de quadrilha dos ex-alunos”, dizem os professores. O evento inicia com uma procissão, tendo a imagem de Nossa Senhora Aparecida à frente, levada por um colaborador, seguida pelos estandartes dos três santos juninos: Santo Antônio, São João e São Pedro. “É lindo ver toda a comunidade escolar atrelada a esse momento em que se celebra também nossa fé. Nós, educadores deste grande colégio, colocamos nosso saber e nosso coração em prol de uma educação verdadeira, que desenvolve a empatia, o respeito e o reconhecimento por esse patrimônio cultural que são as festas juninas”. No Colégio Espírito Santo, na capital paulista, um dos propósitos também é essa integração. “A nossa festa junina significa família, diversão e tradição. É um dia cheio de brincadeiras populares, comidas típicas e danças, que dão um toque de beleza. É um momento no qual as crianças apresentam o que aprenderam e resgatam o que
Apaixonados, nunca precisamos tanto de vocês!

Data criada mais para afagar o comércio, o Dia dos Namorados é celebrado, no Brasil, em 12 de junho, véspera da memória de Santo Antônio de Pádua, o famoso “casamenteiro”. Essa, entretanto, também pode ser uma ótima ocasião de avaliar como nós, cristãos e cristãs, estamos lidando com os casais apaixonados de todas as idades. Adianto: há muito a ser revisto por nós, na vida pastoral, social e familiar. Antes de escrever estas linhas, eu tinha o desejo de dar algumas dicas para os que se preparam para o matrimônio. Elas seriam baseadas em minhas experiências pessoais e de meu ministério de diácono na Arquidiocese de Belo Horizonte. Bem a tempo, dei-me conta de estar caindo na soberba. Melhor mesmo, para quase todos nós, seria suplicar a reconciliação com os próprios casais. Muitas de nossas comunidades de fé têm dívidas importantes com os namorados. Quantos já não tomaram uma bronca simplesmente por estarem de mãos dadas durante alguma liturgia ou circularem abraçados dentro de algumas de nossas instituições? A rispidez costuma vir de um moralismo sem fundamento, sem Evangelho, disfarçado de “zelo pela casa de Deus”. O amor dos namorados sacramentaliza, sim, o afeto de Deus pela humanidade. Em inúmeras passagens da Bíblia, o noivo é alegoria de Deus Pai ou de Cristo, a depender do contexto. A noiva, ora exuberante, ora anônima, ora pecadora a ser perdoada, é figura do povo, da Igreja. A celebração do matrimônio expõe, diante de nossos olhos, o mistério (sacramento) do Senhor que se derrete de amores por sua amada, antecipa-se e vai ao encontro dela no caminho (no corredor da igreja). Admirado por sua beleza, Ele a beija e firma com ela uma aliança. Para quem ainda não o fez, sugiro meditar, nessa ótica, o Cântico dos Cânticos. Assim, será fácil compreender o motivo de esse ser um dos principais textos de mística da história. Namorados, perdoem-nos por, muitas vezes, nós nos esquecermos de vocês em nossas comunidades de fé! Vocês costumam ser colocados de lado até na programação da Semana da Família, imaginem! No Dia dos Namorados, falamos mais contra o comércio aproveitador do que bendizemos a Deus pelo amor de vocês! Relevem nossa negligência, ao privá-los de espaço e tempo para ouvi-los e apoiá-los quando sofrem pelos desafios típicos desse tempo, como as discussões, as dúvidas, as fraquezas. Como perdemos em não lhes preparar um lugar digno em nossas paróquias, para saborearem juntos um sorvete. Queridos, lamentamos pelo descuido com vocês em tantos de nossos encontros vocacionais! Uma lástima! Como ainda temos coragem de falar de uma família cristã sólida sem um olhar carinhoso a vocês? Tenham misericórdia de nós! Nossas famílias também precisam (re)ver como lidam com os relacionamentos de seus filhos. Algumas se omitem, nem querendo saber com quem os seus estão saindo. Outras, por ciúmes ou superproteção, impedem ou embaraçam o desejo de seus filhos e filhas encontrarem a pessoa amada e com esta constituírem uma família. Quantos lares deixaram de surgir por isso! Também existem pais, mães e toda uma sociedade a forçar uma vocação matrimonial inexistente em alguns jovens, levando-os a uma vida de desventura. Uma pena! Vivemos tempos de culto idolátrico (inclusive por parte de “cristãos”) ao poder, à morte, à fome, ao “mercado”, às armas, à guerra. Assim, queridos casais apaixonados, precisamos muito de vocês! Clamamos por seu testemunho de beijos, abraços, conversas longas, ternas e “bobas”! Não se assustem com “D.R.” (no idioma namorês, “discutir a relação”), pois elas são normais na vida, quanto mais nesse tempo de discernimento. Ignorem os que confundem “namoro santo” com amor sem carícias. Quem inventou isso nunca namorou! Posso lhes garantir! Evitem o jejum de afeto! Apesar de tudo, não desanimem! Sejam muitíssimo bem acolhidos, bem-vindos em nossas comunidades de fé, em nossos encontros vocacionais, em nossos centros de apoio e pátios. Mesmo penitentes, ousamos abençoá-los. Louvado seja Deus por vocês! Dedico este texto a Tânia, minha namorada, com quem orgulhosamente sou casado (também, sim, temos nossas “D.R.”!). Obrigado por tudo! Eu te amo! Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das SSpS.
As solenidades de Pentecostes e da Santíssima Trindade para as servas do Espírito Santo

“Cada um de nós deve esforçar-se para amar verdadeiramente o Espírito Santo de todo o coração e trabalhar na promoção de sua glória. Quanto mais o missionário fizer isso tanto mais o grande doador das graças, o Espírito Santo de Deus, abençoará seu trabalho” (Santo Arnaldo Janssen). As solenidades de Pentecostes e da Santíssima Trindade, respectivamente denominadas como festa titular e festa principal de nossa Congregação, têm a recomendação de que sejam celebradas com grande ênfase. Como herança de nossa geração fundante, no mundo inteiro, nós, missionárias servas do Espírito Santo, cultivamos a espiritualidade trinitária, com ênfase no Espírito Santo, vínculo de amor e sinal da unidade entre o Pai e o Filho. Em razão disso, ao aproximarem-se dessas datas, nossas comunidades se enchem de uma profunda alegria com os preparativos para bem celebrar essas festas. Nesta semana, enquanto justamente ajudava na ornamentação de nosso colégio com as chamas de Pentecostes, um aluno (novo no colégio) perguntou-me: “Irmã, por que você está enchendo a escola com esses foguinhos?”. Felizmente nem precisei responder, porque o coleguinha que estava ao lado, sendo um aluno que está conosco há mais tempo, respondeu, dizendo que era porque estávamos na semana de Pentecostes, e continuaram conversando sobre o assunto. Esse pequeno aluno, ao explicar ao outro, transmitia um sentido de pertença. O Espírito Santo é como esse movimento, um coração transmite ao outro, e assim “Nele vivemos, nos movemos e existimos” (At 17,28). Nossas constituições caracterizam Pentecostes como “consumação do mistério pascal, em que, pelo envio do Espírito Santo, a Igreja manifestou-se ao mundo pelo testemunho dos apóstolos”. Nas comunidades de missão onde estamos inseridas, empenhamo-nos ao máximo para quem estiver conosco possa também reconhecer a grandiosidade do amor e da presença do Espírito Santo em nossa vida. Quando retomamos a caminhada e o crescimento espiritual de nosso fundador Santo Arnaldo Janssen, vemos que Ele tinha uma grande preocupação: muitos ainda não conheciam o Espírito Santo. Isso o angustiava. Por isso recomendou às três congregações fundadas por ele que, na missão, fossem fiéis à devoção ao Espírito Santo e nada fazer sem antes o consultar. Ele, o Espírito Santo, é o dinamizador da missão, que constantemente atualiza em nós as moções e os apelos às necessidades que surgem no mundo. No primeiro Pentecostes, o Espírito Santo fez com que caíssem as barreiras da comunicação, permitindo que os apóstolos se comunicassem de maneiras diferentes, com uma linguagem que todos pudessem entender. Uma linguagem acessível, que aproxima, atrai e faz acontecer uma sinodalidade, um caminhar junto, como partícipes de um mesmo mistério de amor. Para nós, o desafio continua o mesmo: manter viva a transmissão da espiritualidade. Espiritualidade aqui quer significar aquela orientação fundamental de uma pessoa diante da realidade global, ou seja, de Deus e da humanidade. A espiritualidade trinitária, à qual me referi no início, é centrada no relacionamento entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Nela, encontramos o modelo de comunidade e de sociedade que somos chamadas a construir a partir do diálogo, da partilha, da comunhão. Assim, uma semana depois de Pentecostes, temos a Solenidade da Santíssima Trindade, chave central da nossa espiritualidade e razão de nosso carisma missionário: “Tornar Deus Uno e Trino conhecido, amado e glorificado por todas as pessoas!”. Viver o amor e a comunhão trinitária é cuidar para que todos os seres humanos possam viver com dignidade e com seus direitos respeitados, de acordo com a vontade de Deus. “Quanto mais venerarmos o Espírito Santo, mais seremos dignos de sua graça” (Santo Arnaldo Janssen). Irmã Roselene Ventura de Oliveira, SSpSProfessora no Colégio Espírito Santo, Canoas-RS.
Adoção: um ato de amor, um sentido para a vida

Em 2002, foi criado no Brasil o Dia Nacional da Adoção, estabelecido para ser comemorado em 25 de maio. Adotar uma criança ou um adolescente é, em primeira instância, um ato de amor. A despeito de todos os trâmites burocráticos e legais, adotar significa abrir nossa vida, nossa casa, nosso amor a um ser humano que precisa de nossa ajuda. Junto a esse status de ato de amor, pode-se dizer que adotar também é um ato de fé. Fé em um mundo melhor, com valores mais sólidos, respeito e dignidade para todas as pessoas. Ao adotar uma criança ou um adolescente, damos o maior passo que alguém pode dar na direção do cuidado com outro ser humano. Há um ditado japonês que fala que vive mais quem encontra um sentido na vida. Muitas vezes, as crianças adotadas passam a ser o sentido da vida dos pais. O legado deixado pelos pais, biológicos ou adotivos, no formato abstrato de ética e moral, é a mais valorosa dádiva que alguém pode receber. Doar seu amor, seu carinho, todas as condições necessárias para que uma pessoa se desenvolva, faz do ato de adotar um grande sentido de vida. No Brasil, as adoções ainda não conseguem dar conta do montante de crianças em abrigos, que esperam por alguém que resolva tomá-las como filhos. Somos um país pobre, que, infelizmente, nos últimos anos, voltou para o mapa da fome. Além das razões financeiras, adotar ainda exige a quebra de paradigmas quanto aos laços sanguíneos. Por mais que os estudos de genética do comportamento e do próprio genoma humano estejam muito avançados, ainda não se pode afirmar, com certeza, que o comportamento se deva somente a influências do meio. Tal fator, somado ao dado de que a maioria das crianças disponíveis para adoção são aquelas cuja história de desestruturação familiar, violência doméstica, morte dos genitores em situação violenta colabora para que as pessoas sejam resistentes à adoção. Mesmo assim, os números são animadores e têm crescido. O Brasil teve aumento de 11,9% nos casos de adoção em 2021, em relação a 2020. Tal dado corrobora a teoria de que, cada vez que a humanidade passa por períodos de grande agitação e estresse, em seguida, aumentam os números de nascimentos e adoções. Foi assim ao fim da II Guerra Mundial, quando a explosão de natalidade foi chamada “baby boom”. A pandemia de covid-19 talvez tenha trazido muitas indagações sobre o sentido da vida para as pessoas que aumentaram os números da adoção em 2021. Afinal, se, segundo Sigmund Freud, o maior medo do ser humano é o medo da morte, um de seus maiores deleites é buscar a felicidade. São inúmeros os casais cujo objetivo principal de se candidatarem à adoção é a busca desse sentido na vida, a oportunidade de amar uma pessoa em crescimento. O aumento da idade da mulher para se ter o primeiro filho também cresceu consideravelmente há mais de 30 anos. A entrada da mulher no mercado de trabalho, consequentemente sua necessidade de formação, tirou-a da linha reprodutiva e construtora de famílias por um tempo. Muitas começam a pensar em formar uma família após os 35 anos. Biologicamente, a mulher tem uma condição que a diferencia consideravelmente do homem na questão reprodutiva. Quanto mais velha, mais difícil se torna a gestação natural. Na falta de condições financeiras para a FIV (fertilização in vitro, processo de reprodução assistida), ou por outras impossibilidades biológicas e patológicas, a adoção acaba sendo a alternativa que mais certamente dará resultados para se ter um filho. Grupos de apoio a adoção estão espalhados pelo Brasil. Fazem reuniões obrigatórias para se entrar na fila da adoção, e os futuros pais aprendem sobre seus filhos, sem os ter ainda. Porém o exercício projetivo mostra pais esperançosos de que, nos meses seguintes, sejam capazes de carregar seu filho e não um boneco realista. Ao contrário de alguns países, como o Japão, por exemplo, que tem elevado índice de adoção de homens adultos, entre 20 e 30 anos, no Brasil, a adoção dos mais jovens é muito mais frequente. Quanto maior a distância temporal do nascimento, mais difícil se torna para a criança ou adolescente ser adotado. No Japão, a prática centenária se deve ao valor que a tradição sanguínea e a hereditariedade de direito têm. A busca de casais por filhos adotivos adultos, principalmente se são possuidores de alguma empresa familiar, é alta. Além de adotá-los como herdeiros, o processo também inclui se casar com a filha herdeira. Nesse caso, o homem herdará o nome da família da esposa para poder perpetuá-lo. Os brasileiros, por sua vez, acreditam que, quanto mais jovem, e mais “sem memórias” for a criança adotada, mais fácil será sua adaptação aos novos pais. Outro fator importante no Brasil é o propósito legal e jurídico de não se separarem irmãos. Ou seja, caso os pais biológicos percam o direito sobre todos os filhos menores de 18 anos, a preferência na adoção é que todos sejam adotados pela mesma família, evitando assim sua separação. Esse fator também acaba por impedir, muitas vezes, que a adoção se realize. Seja a adoção burocrática ou não, fato é que uma criança reacende a chama da vida numa família que pode estar desesperançada. É muito comum que técnicas para “revelação da origem”, ou seja, quando se conta para a criança que ela não é filha biológica, sejam apresentadas argumentações como: “O papai e a mamãe eram muito tristes até o dia em que Papai do Céu trouxe você de presente”; ou ainda, “Você não nasceu da barriga da mamãe! Você veio do meu coração! Por isso você é nosso filho do coração! Porque é no coração que a gente sente que ama uma pessoa. E eu sinto aqui, no meu coração, como eu amo você desde o dia em que você veio para a nossa casa”. Neste Dia Nacional da Adoção, que todos os brasileiros possam parar um minuto e pensar na importância que há em dar a uma criança ou
Dia do Abraço: “O que tiramos de grandes tragédias?”

Em 22 de maio, comemora-se o Dia do Abraço. Esse gesto, às vezes, tão mecânico ou formal, pode ganhar profundos significados conforme o sentimento envolvido. Giovanna Capato Corte Real perdeu, num intervalo de poucos dias, pessoas muito próximas, devido à covid-19. Ela dá um forte testemunho e um conselho que precisa ser ouvido com atenção. Veja a seguir: “Eu me chamo Giovanna, tenho 40 anos e venho falar sobre um assunto ainda muito delicado para mim. Nossa pauta de hoje é o ‘Dia do Abraço’, ou melhor, no meu caso, a falta de alguns desses abraços. Em 2020, no pico da pandemia, o pior ano da minha vida, perdi alguns desses abraços. A covid levou do meu convívio pessoas muito próximas, todos em um intervalo de 12 dias. Foram eles: meu pai, meu avô, minha avó, minha tia e uma prima que se encontrava grávida; perdemos o bebê também. O meu mundo acabou! Eu ainda me encontro em reconstrução, pois foi um baque muito grande e de difícil aceitação. A saudade é muito grande, já que eu tinha convívio diário com essas pessoas. No entanto, o abraço fora reprimido bem antes da partida deles, por conta do isolamento que já acontecia naquele momento. Um abraço que não será substituído! Não houve tempo de viver novos tempos! O que tiramos de grandes tragédias? Na grande maioria, renascemos, a fé fortifica, e o tempo faz com que, de alguma maneira, aceitemos os desígnios de Deus. Amadurecemos. Com isso, passamos a valorizar coisas que antes nos passavam despercebidas, reavaliamos a existência. E a ideia, já que estamos falando de abraço, não é substituir e sim suprir com outros tão importantes abraços. Portanto, hoje, no Dia do Abraço, aconselho: ABRACE!”