Colégio Stella Matutina celebra 120 anos de história

A história do Colégio Stella Matutina tem início em 8 de setembro de 1902. Nessa data, as primeiras missionárias servas do Espírito Santo se estabeleceram em Juiz de Fora-MG, dando origem à Província Stella Matutina. E foi assim que, há 120 anos, surgiu o Colégio Stella Matutina. Na história de Juiz de Fora, a escola foi um marco da educação feminina, valorizando-a e abrindo espaço para a mulher no contexto social da época. Somente na década de 1970, o colégio passou a ser misto. Nessa mesma época, as novas instalações do Stella Matutina foram inauguradas na Avenida Independência, atual Avenida Presidente Itamar Franco, permanecendo nesse local até hoje. Com entusiasmo, as irmãs que chegaram ao Brasil tinham o propósito de escrever uma história que gerasse orgulho para muitas gerações, e assim tem sido. Muitas pessoas guardam com carinho as lembranças de quando estudaram no colégio. Os alunos de hoje podem contar com um ensino atualizado, que engloba o que é necessário para o comprometimento de uma educação integral. A escola conta com profissionais competentes que trazem no coração o prazer de educar. Durante estes anos, o colégio passou por muitas transformações, tanto nas melhorias estruturais quanto no projeto político-pedagógico. Todo o esforço busca auxiliar os alunos na construção do conhecimento, no desenvolvimento de habilidades e competências, formando cidadãos comprometidos com a transformação social, aliado à modernidade e à tradição construída ao longo de 12 décadas. Em conjunto com as famílias, a instituição busca o incentivo ao espírito crítico, inovador e cooperativista no trabalho pessoal e nas relações interpessoais mediadas pelo compromisso com a espiritualidade e a fé. Celebração eucarística No dia 8 de setembro, a escola acolheu a missa que marcou a comemoração pelos 120 de história. A liturgia, realizada na quadra da escola, foi presidida pelo arcebispo metropolitano de Juiz de Fora, Dom Gil Antônio Moreira. Também participaram o Pe. Expedito Lopes de Castro, membro da Pastoral do Colégio, e o Pe. Carlos Vieira Lima, missionário do Verbo Divino e superior da Província Brasil Norte, além de educadores, alunos, familiares e amigos do Stella Matutina. Veja algumas imagens da celebração.
A floresta como símbolo: reverência à vida ou ao capital?

Moro no Sul do Brasil. No dia 9 de setembro de 2022, a cidade amanheceu cinzenta e, à noite, a lua estava escondida atrás de um véu. Chegava a fumaça das queimadas no Norte do País. Quatro dias antes, no episódio Agosto incendiário na Amazônia, do podcast Assunto, a jornalista Renata Lo Prete recebeu a geógrafa Ane Alencar e o jornalista Alexandre Hisayasu para escutá-los sobre a relação entre as árvores derrubadas, o fogo e a fumaça. Alexandre destacou o modo destemido, de total impunidade, em que se encontravam os autores dos incêndios. Ane observou que agosto e setembro são, historicamente, meses incendiários, mas que a média de 2022 está acima da curva. A geógrafa previu que setembro seria tão ou mais incendiário que agosto por causa do volume de mata no chão. Em seguida, analisaram causas e motivações. Em uma perspectiva de processo, a fumaça que escurece o dia e o fogo que clareia a noite se constituem na última etapa da floresta devastada. A jornada do fogo que extingue a vida dos seres se inicia com a abertura de estradas ilegais em reservas ou florestas públicas não destinadas e passa pela extração de madeira. Em cinzas, essas áreas são transformadas em pastos para a “produção de proteína animal”, sendo assim uma lógica sistematizada de ocupação de terras. Se o fogo e a fumaça são indícios desse processo, metade das ocorrências acontece em terras públicas constituídas de áreas indígenas, unidades de conservação, áreas e florestas públicas não destinadas. As últimas representam 30% do desmatamento na região, o que pressupõe a usurpação de terras públicas. Essa situação deve ser respondida não com omissão, mas com ação. Assim como Renata, Ane e Alexandre se engajam para investigar, analisar, compreender, documentar e publicar informações, há outras iniciativas que podem ilustrar o movimento requerido. Uma delas é a plataforma Sumaúma, idealizada pela escritora Eliane Brum e o jornalista Johnathan Watts. A intenção é fazer uma cobertura centrada na Amazônia a partir de um dos epicentros da crise: Altamira, no Pará. O conselho editorial conta com lideranças da floresta e seu propósito é a “defesa da natureza, da democracia e da vida”. O outro chamado para ação está muito mais próximo de nós e está descrito no 15º Capítulo-Geral – Direções Congregacionais, que orienta, pelos próximos seis anos, a Congregação das Irmãs Missionárias Servas do Espírito Santo. A direção que nos interessa destacar aqui e trazer para nossa discussão é a de número 2, que prescreve: “Despertadas pelo grito da Trindade, através da dor e do sofrimento da Mãe Terra e de nossos irmãos e irmãs à margem, a conversão ecológica e a vida sustentável se tornam um compromisso ético inalienável”. Esse chamado para a ação que ecoa das árvores no chão transformadas em cinzas, esse grito dos habitantes da floresta precisa ressoar no divino que habita em nós e despertar compromisso ético para com a vida antes dos imperativos econômicos. A árvore no chão ou em floresta (de pé) também é dotada de um aspecto simbólico das escolhas que fazemos: de reverência ao capital ou à vida. Referências LO PRETE, Renata; ALENCAR, Ane; HISAYASU, Alexandre. Agosto incendiário na Amazônia. Assunto [podcast], 5 set. 2022. Disponível em: https://open.spotify.com/episode/3YjWXcVs0jrzCkok1nShqp?si=2w4he_HbQdeusNlyelAwyQ&utm_source=whatsapp. Acesso em: 13 set. 2022. MISSIONÁRIA SERVAS DO ESPÍRITO SANTO. Meio ambiente e XV Capítulo-Geral das SSpS. Disponível em: https://www.mssps.org.br/single-post/meio-ambiente-e-xv-cap%C3%ADtulo-geral-das-mission%C3%A1rias-servas-do-esp%C3%ADrito-santo-ssps. Acesso em: 19 set. 2022. SUMAÚMA. Sumaúma: jornalismo do centro do mundo. Disponível em: https://sumauma.com/. Acesso em: 13 set. 2022. Marli Teresinha EverlingProfessora nos cursos de Graduação e Pós-Graduação em Design da Universidade da Região de Joinville/Univille. Coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica. Colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental.
“É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”

O provérbio africano que diz que “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança” é bem conhecido. O que realmente, no entanto, pode se aplicar dessa afirmação em nosso contexto educacional? Faz parte do senso comum a afirmação de que a formação das crianças e jovens é extremamente importante para a sociedade e que, por isso, a educação deve ser valorizada. Porém as práticas escolares pedagógicas dentro dos “muros” da escola e a educação que “vem de casa”, ou seja, o que é compartilhado no ambiente familiar, bastam para o processo de formação integral de nossas crianças? Para responder a essas questões, precisamos entender as transformações pelas quais a sociedade passou e como ela se encontra, hoje, no século XXI. As exigências econômicas e de trabalho carecem, cada vez mais, da força de trabalho dos adultos das famílias, e, com isso, o envolvimento entre família, escola e comunidade se torna cada vez mais urgente. O ambiente da sala de aula já é, hoje, insuficiente para dar conta das demandas das crianças e adolescentes que já têm acesso ao mundo a partir de um clique. Educar no mundo contemporâneo é uma tarefa que deve ser abordada de modo amplo e irrestrito. O entendimento de maneira fragmentada do ser humano é ultrapassado, e a escola não pode ser apenas o espaço para ensinar os conteúdos pedagógicos. Dessa forma, entendemos e nos posicionamos, como escola viva, como espaço que, em parceria com a família e com a comunidade, favoreça experiências que contribuam com a forma como nossos alunos vão se posicionar no mundo. Assumir a responsabilidade de garantir às nossas crianças ambientes acolhedores, que permitam, ao mesmo tempo, o desenvolvimento da autonomia e facilitem vínculos afetivos é imprescindível para formar indivíduos que sabem se colocar no mundo, conscientes de suas responsabilidades sociais. Para as crianças e adolescentes, é fundamental a convivência com seus pares e também com adultos, e a escola favorece esses relacionamentos. Além disso, é importante que a escola favoreça e estimule o contato e envolvimento social para além de seu espaço físico. Em nossas escolas, incentivamos momentos que possibilitam o contato de nossos alunos com pessoas diferentes de seu convívio familiar e escolar, tais como estudos do meio, palestras com profissionais de diferentes áreas para conversar sobre as relações de trabalho e diferentes carreiras a serem seguidas para os alunos do terceiro ano do ensino médio; trabalho da pastoral com a participação dos alunos em serviço às pessoas em situação de vulnerabilidade; entre tantas outras ações. Entendemos que expandir as trocas sociais e fornecer experiências como as citadas acima traz sentido para o provérbio que mencionamos no início deste texto e permite um olhar sensível para a educação e, principalmente, para os educandos. Sim, somos seres relacionais, e a alteridade nos é intrínseca. Portanto, hoje, mais do que nunca, é preciso de uma aldeia inteira para educarmos nossas crianças e fazemos isso em parceria: escola, família e comunidade. Beatriz Von Lasperg Careli é professora do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP.
Revitalizando a Vida Religiosa Consagrada através do Autoconhecimento

Introdução O presente artigo visa refletir sobre a temática do autoconhecimento na Vida Religiosa Consagrada aprofundando elementos que constituem um percurso de entrega radical no serviço ao Reino, isto é, como o consagrado conhece a si mesmo, se aceita e se reconcilia com a sua própria história, reconhecendo o dom de si e orientando-o para à humanidade. Partimos da premissa de que o caminho do conhecimento de si, nem sempre é fácil, e isto é verdade, pois, é um percurso que exige ruptura com uma falsa imagem de si mesmo, no intuito de olhar-se com realismo, o qual, diante de tantos desafios apresentados pelo mundo atual, se faz necessário para todas as pessoas, e mais ainda, se faz imprescindível para aqueles que se sentem chamados à consagração total no seguimento de Cristo[1]. O autoconhecimento é uma passagem basilar para a maturação da própria vocação, para a autoaceitação das próprias emoções e a integração do indivíduo na sua totalidade, sobretudo para se configurar Àquele a quem se segue. Na realidade, a vida consagrada precisa de pessoas que tenham atingido um nível de autoconsciência madura e uma transparência que lhes permitam administrar suas relações interpessoais com uma certa liberdade, de modo a gerar vida e liberdade ao seu redor, como afirma Rulla: “Deus chama a profundidade de nosso ser, nosso coração, à liberdade para a autotranscendência do amor” (1985, p. 256). O autoconhecimento objetivo, coloca cada indivíduo em contato com o profundo mistério de si, com suas lutas, dores, necessidades, suas resistências que dificultam seu crescimento e os desejos que habitam no coração humano. Conhecê-los, aceitá-los e orientá-los para o que se escolheu é um dos principais desafios na formação[2] à vida religiosa consagrada a fim de acolher e compreender a vontade de Deus na própria vida, sem negar a realidade. Comprometer-se com a proposta de Deus requer tempo, vida de oração assídua, discernimento, corresponsabilidade, abertura as mediações, porque esta enfatiza os elementos a serem amadurecidos e purificados no caminho de crescimento vocacional. Sem um verdadeiro e sincero conhecimento de si, a ser desenvolvido face ao ideal e, portanto, aos critérios objetivos do crescimento da própria vocação cristã, seria quase impossível compreender o que há realmente para ser purificado, revitalizado e amadurecido. Portanto, faz-se indispensável cultivar um profundo e gradual percurso de acompanhamento psicoespiritual. 1 Autoconhecimento como percurso de autoaceitação Amedeo Cencini[3] em seus escritos, destaca que o conhecimento verdadeiro e realista, leva cada indivíduo ao contato com o que se vive no eu atual: limites e valores. Permite com que reconheça os dons e talentos recebidos de Deus e os seus pontos a serem melhorados; faz com que reconheça a sua própria realidade e negatividade dando-lhe um nome preciso; ajudá-o a compreender onde se é particularmente frágil, para identificar as áreas da própria escravidão e vulnerabilidades. Finalmente, levá-o a conhecer as suas incoerências e as áreas da personalidade que estão fechadas à ação do Espírito, num nível consciente e inconsciente. A partir daí, quanto mais precisa a identificação, mais eficaz pode ser então o trabalho de purificação, conversão, integração para alcançar essa consciência em viver a verdade, a sinceridade de uma forma autêntica, sem exaltação ou degradação. Conforme o autor, o autoconhecimento requer outro passo importante que é a autoaceitação, em outras palavras, olhar para si próprio com um olhar benevolente, sem a autocondenação. Aceitar-se como se é, com falhas e qualidades, para que a autoaceitação o ajude a administrar as suas necessidades, a superar seus limites, e acima de tudo não pretendendo eliminar o seu componente negativo, mas reconhecendo-o como um sinal inerente de humanidade. Atualmente, é comum encontrar consagrados incertos da própria identidade, de quem realmente são, ou com a sensação de que a parte mais profunda de si está submersa por uma autoimagem plena de convicções, regras, preconceitos, medos, ansiedades que, realmente nem sequer o conseguem reconhecer. Muitos, às vezes, por falta de tempo, de instrumentos ou até mesmo por desinteresse nunca tiveram a oportunidade para descobrí-lo. Com o intuito de superar desconfortos, falta de sentido, insatisfações, perda do encanto inicial da própria vocação e bloqueios interiores, faz-se necessário aventurar-se em um percurso sistemático e perseverante de conhecimento de si, a fim de compreenderem suas limitações e fragilidades, bem como, redescobrir seus talentos e potenciais inexpressivos. Desta forma, e, graças à exploração de sua verdadeira identidade como pessoa, será possível construir uma boa autoestima e sentirem-se realizados, integrados e sobretudo livres nas relações consigo mesmo, com os outros e com Deus. 2 Cultura do acompanhamento psicoespiritual A cultura do acompanhamento psicoespiritual ainda é muito escassa ou quase inexistente na vida religiosa consagrada e comunitária, de um modo geral. Muitos, ainda vivenciam a mentalidade de que um processo psicoterapêutico seria apenas para pessoas “problemáticas” ou que possuem um determinado nível de “patologia”, resultando por viver uma vida medíocre, como fotocópias, inconsistente ou sem uma identidade estruturada no total desconhecimento de si. Certamente, somente após revisitar um passado por vezes desconhecido, mas, que continua muito vivo dentro de cada indivíduo, que desperta a cada vivência de suas memórias afetivas, será possível uma resposta responsável, livre e autêntica em sua opção fundamental. No que diz respeito ao consagrado, além de entrar em um mundo interior para conhecer as suas incongruências, bem como suas potencialidades, o percurso de autoconhecimento faz-se crucial para assimilar os dons recebidos de Cristo, para identificar-se com Sua vida e ser configurado com Ele. Para além das mãos humanas, o acompanhador com uma particular preparação, embora conduzido pelo Espírito, caminha junto, mas não alcança, pela pessoa, um verdadeiro e transformante “entrar no próprio mundo interior” sem as mãos de Deus, pois Deus que habita em cada ser, o conhece em profundidade. Neste árduo itinerário, cada passo, cada descoberta, sentimento, incoerência revelada, ferida aberta, são integralmente envolvidos no manto de amor e misericórdia d’Aquele que conhece cada pessoa como nenhum outro e a acolhe, conforta, ilumina, cuida, cura, fortalece, ressignifica, revitaliza e finalmente, faz nova todas as coisas (cf. Ap 21,25). Através de um percurso sistemático poderão dizer como o salmista, que se maravilhou com o mistério da origem humana e louvou
Ponte para que diferentes mundos se encontrem

Juan Tapia Contreras é um jovem chileno, missionário do Verbo Divino (verbita). A congregação, conhecida pela sigla SVD, é um dos ramos da Família Arnaldina, a primeira a ser fundada por Santo Arnaldo Janssen. Atualmente, João, como quis ser chamado no Brasil, estuda filosofia no Instituto Santo Tomás de Aquino (ISTA), em Belo Horizonte-MG. Apoia os trabalhos das Casas do Homem de Nazaré e, nos fins de semana, colabora com a pastoral na Paróquia São Gabriel, no bairro Taquaril, na capital mineira. Na entrevista concedida ao também verbita Pe. Arlindo Pereira Dias, da Rede Rua, o missionário partilha um pouco de sua experiência junto ao povo da rua, em 2021. João participou em um projeto de distribuição de alimentos realizado em São Paulo-SP, durante a pandemia de covid-19, coordenado pela Rede Rua. Rede Rua: Quem é Juan René Tapia Contreras? João: Chegando aqui no Brasil, eu quis ser conhecido como João, para facilitar um pouco a vida de todos e também a minha. Percebi que ajudaria no nosso relacionamento. Eu acredito profundamente que, quanto mais familiar e mais próximo eu estiver das pessoas, mais ajudará minha vida pastoral, minha caminhada. Falo assim porque eu sou um religioso da Congregação do Verbo Divino. Sou chileno e estou aqui no Brasil há quase quatro anos. Cheguei em 2019, para fazer uma etapa que nós chamamos de noviciado. Depois de um ano de experiência muito profunda na oração, na contemplação e no conhecimento da Congregação do Verbo Divino, comecei a estudar Teologia em São Paulo. Nessa caminhada, na Teologia, pude também conhecer as pessoas em situação de rua. Então comecei a fazer uma pastoral muito bonita nessa área. Rede Rua: Por que você decidiu continuar no Brasil? João: Eu fiquei no Brasil, depois do noviciado, por uma razão muito prática, e que também tem raízes bem profundas. Na prática, é que, no Chile, eu não tinha mais a possibilidade de estudar Teologia. A nossa Congregação estava para fechar a casa de Teologia. Portanto eu não teria condições para voltar para o Chile. Diante dessa situação, eu fiquei como “sem-casa”, sem pátria para poder continuar minha formação. Mas aí eu vi também a vontade de Deus em poder decidir livremente o lugar que eu poderia ficar. Na verdade, eu tinha opções, porém eu decidi pelo Brasil devido à necessidade de continuar uma busca que eu tinha iniciado lá no noviciado. A busca de estar ao lado, de estar junto aos menos favorecidos da sociedade. Vi essa possibilidade aqui no Brasil, como poderia ser em qualquer parte do mundo, mas eu tinha tido a experiência aqui no Brasil, a qual era muito mais forte e muito mais dilacerante em relação à realidade do povo. Por isso eu decidi fazer minha formação aqui, transformando em prática o que entendia por Teologia. Rede Rua: Como você foi ao encontro do povo da rua? João: Conhecer as pessoas em situação de rua, o povo da rua, era um anseio bem profundo que começou a surgir na mesma época do noviciado. No Chile, eu morava em Santiago e, durante minha formação, havia muitas pessoas em situação de rua, que sofriam bastante. Mas, para mim, isso era uma realidade paralela, uma realidade que não me tocava. A partir da experiência que eu vivi no meu primeiro ano aqui no Brasil, isso me transformou. Era uma experiência espiritual que tinha que se concretizar. Uma experiência que surgiu da oração e tinha que se fazer ação, que tinha que se fazer vida. Eu me lembro de que a experiência mais marcante para chegar à rua, depois dessa experiência de oração, experiência mística, foi conhecer um casal na rua, que se aproximou de mim. Eu mal falava o português e, pior ainda, não entendia quando eles me falavam. Porém eu tive uma atitude de escuta para com esse casal que encontrei na Chapelaria Social da Rede Rua, em 2019. Eles estavam passando e, por acaso, a mulher começou a contar um pouco da vida dela, das perdas que teve, dos filhos e de como chegou à rua. Isso me tocou tanto que, mesmo não compreendendo tudo o que ela me falou, ficou em minha memória e coração. Quando a gente se despediu, foi com um abraço. Ela falou que iria orar por mim, ele também. Isso me marcou bastante, porque, apesar de não nos conhecermos, não ter entendido muito do que eles me falaram, eu tive uma atitude de abertura para com eles. Eu senti que eles também se entregaram para mim. Isso mudou a minha compreensão das pessoas e do mundo daqueles que vivem em situação de rua. Rede Rua: A pandemia o aproximou da população de rua? Como? João: A pandemia, para todos, foi uma situação bem complexa e bem difícil, que nos levou a entrar em nós mesmos. No meu caso, a pandemia me ajudou a pensar mais em mim, coisa que eu normalmente não fazia. Isso teve um efeito contrário. Eu entrei e comecei a pensar mais em mim, comecei a me preocupar mais comigo. Lá dentro, eu percebi que eu tinha que sair de mim mesmo. É interessante, porque, antes da pandemia, eu fazia muita atividade, muita ação social. Mas hoje, olhando para trás, eu vejo que tudo isso é ativismo, que faz bem para muitas pessoas, que são ajudadas, mas, para mim, não era o melhor. Então, quando veio a pandemia, fiquei muitos meses fechado, trancado em casa. Eu percebi que eu precisava sair de mim mesmo. Então foi um duplo movimento: um de entrada e um de saída de mim. Nesse movimento de saída, eu percebi que muitas pessoas precisavam de alguém que as escutasse, de alguém que estivesse perto. Eu sabia que, entrando na rua, chegando à rua, eu não iria mudar a vida ou a realidade que eles estavam vivendo, e que ainda continuam vivendo. No entanto, eu sabia que, pelo menos, iria tocar ou atingir o coração de uma pessoa, ou de algumas pessoas. Isso me motivou, no contexto da pandemia, a
A família é indispensável no processo de formação integral do ser humano

Que a família é o pilar da sociedade nós já sabemos. Que ela é a base e a primeira escola na vida de qualquer ser humano, também. Mas por que a família é tão importante para a formação de crianças e adolescentes? A família é a cellula mater responsável pela educação das crianças. Assim, assume relevante função na formação integral do ser humano, pois é seu primeiro espaço de convivência. É a primeira escola que proporciona grandes aprendizados, sendo um referencial de extrema importância para as crianças, na qual são experimentadas as afetividades, juízos e esperança. No mundo em que vivemos, família e escola são os dois pilares na formação do ser humano. Desse modo, a família favorece a educação informal (não sistematizada), também conhecida como socialização primária, que forma a base do indivíduo, que se inicia no nascimento, no lar. A educação formal (secundária) é a ofertada pela escola, onde se aprendem outras culturas e conhecimentos. Ao compreendermos que a criança está apta a aprender a todo instante, nos distintos âmbitos que a vida lhe oportuniza, percebemos que a família desempenha função primordial de mostrar os caminhos da vida, dar suporte nos momentos de necessidade, orientando sobre vivência no mundo, que, a cada instante, muda, renova-se. As conexões familiares são razões significativas para o aprimoramento da criança. Porém a inclusão da criança no universo escolar, com a socialização com outras crianças, professores, demais pessoas que compõem a comunidade escolar e acesso aos conteúdos acadêmicos, focados no aprimoramento das variadas áreas de conhecimento, consiste numa causa para a formação global da criança. Desse modo, tanto a família quanto a escola desempenham papéis fundamentais nos aspectos cognitivos, afetivos e sociais dos indivíduos. Assim, são necessários e fundamentais, na educação integral, a cooperação, a divisão de responsabilidades e o compartilhamento de experiências nas ações educativas e formativas dos educandos. Conforme é explicitado na introdução da BNCC (Base Nacional Comum Curricular): Este documento normativo aplica-se exclusivamente à educação escolar, tal como a define o § 1º do Artigo 1º da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB, Lei nº 9.394/1996), e está orientado pelos princípios éticos, políticos e estéticos que visam à formação humana integral e à construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva, como fundamentado nas Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Básica. No momento em que essa parceria é fortalecida, alcança-se o significado de que, juntas, escola e família, formarão indivíduos mais responsáveis, sensatos, espiritualizados e conscientes de sua missão no mundo. O Papa Francisco, de uma forma bem clara, valida esse pensamento: Uma das formas fundamentais para melhorar a qualidade da educação a nível escolar é alcançar uma maior participação das famílias e das comunidades locais nos projetos educativos. Elas fazem parte desta educação integral, oportuna e universal (discurso do Papa Francisco aos participantes do seminário com o tema “Education: The Global Compact”, promovido pela Pontifícia Academia das Ciências Sociais, em 7 de fevereiro de 2020). Durante o lançamento do “Pacto Educativo”, o Papa Francisco fez a seguinte assertiva: “Nunca, como agora, houve necessidade de unir esforços numa ampla aliança educativa”. Diante dessa afirmação do Pontífice, é imperioso que se restaure o “Pacto Educativo” entre a família e a escola. Ao implementar essa ação, tendo a efetiva participação da família na rotina escolar, respeitadas todas as possibilidades de ensino ofertadas pela escola, fica claro o importante papel desempenhado pela família na formação integral do indivíduo. Compreende-se como essencial, portanto, o papel da família e da escola na estruturação educacional do ser humano. Para que isso ocorra de fato, é necessário que as duas instituições se complementem, priorizando sempre o aluno. Ambas têm seu dever no processo educativo, cada uma com suas atribuições, observado suas particularidades, contudo carecem uma da outra. Desse modo, a família desempenha um papel intransferível de formação, pois no seio da família é que crianças e adolescentes realizam suas primeiras conexões e continuam a fortalecê-las, o que definirá seu desenvolvimento no futuro. Adriane Gonçalves GuedesPedagoga, psicopedagoga e coordenadora pedagógica do ensino fundamental, anos finais, no Colégio Stella Matutina, em Juiz de Fora-MG.
Ser estudante em meio a diversidade

O dia 11 de agosto, no Brasil, é considerado o Dia Nacional do Estudante. Foi a partir de 1927 que essa data passou a ser significativa por comemorar dois cursos implantados por D. Pedro II, cem anos antes. O que seria de um país se não tivesse estudantes? Ser estudante, naquela época, era para poucos. Hoje é uma forma de comemorar o direito e a importância da formação do cidadão. Nessa mesma data, dez anos depois, em 1937, foi criada a União Nacional dos Estudantes (UNE), entidade que serve para proteger e garantir os direitos dos estudantes. Em 20 de novembro de 1959, a UNICEF promulgou a Declaração Universal dos Direitos da Criança, em que destaca a necessidade da Educação, independentemente da cor, da raça, do sexo, da religião, e os cuidados com sua capacidade intelectual (princípios V e VII). No Brasil, em 13 de julho de 1990, entrou em vigor a Lei nº 8.069, conhecida como Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), cujo artigo 4º estabelece a prioridade à educação, além de outros direitos fundamentais. Em 2013, a Lei de nº 12.852, o Estatuto da Juventude, reforça os direitos e as condições necessárias para o estudante continuar seus estudos. Documentos que priorizam a educação. Ser estudante hoje, portanto, é uma conquista relevante para uma sociedade democrática, de direitos, para ambos os sexos, pois em épocas remotas, esse direito era somente para o sexo masculino. Em tempos normais, não é fácil estudar. Com a pandemia, esse ato tão valoroso ficou mais complicado para os estudantes de baixa renda. Antes, dependendo de onde moram, é preciso tomar uma condução ou andar muito a pé. Se tiverem um dinheirinho, comprarão um lanche; caso contrário, levam-no de casa. E quando não têm nada em casa, passam vontade. Há alguns privilegiados que os pais transportam de carro ou pagam para uma van pegar e levar, e têm dinheiro para gastar na cantina. Os jovens universitários têm de gastar muito com transporte ou combustível. Enfim, ser estudante em um país cheio de desigualdades é desafiador. Além das dificuldades pessoais e financeiras, há vários tipos de situação que os estudantes enfrentam, como o preconceito racial ou de gênero, ou social, entre outros. É preciso saber lidar com a diversidade de sotaques, de etnias, de estilos, de crenças e costumes. As diferenças somente enriquecem nossa cultura e nossa humanidade. A questão das cotas é uma das ações afirmativas que buscam reparar a desigualdade que ainda existe na educação brasileira, entre escolas públicas e privadas, urbanas e rurais. Ser estudante é aprender, é ser atento, é ser curioso, além de ser empático com os demais colegas. O que une todo estudante é o conhecimento. A educação autêntica tem como objetivo fazer todos se autoconhecerem e transformarem o mundo a seu redor, para percebermos que somos essencialmente iguais. Talvez por isso há grupos na sociedade que não investem na qualidade do ensino para todos, como se deveria, mas criam mecanismos meramente tecnicistas, sem a preocupação de uma educação realmente integrada do ser com o fazer. Assim, o desafio do estudante é ser perseverante, ser criativo, solidário, além de disciplinado. Ser estudante é ocupar seu espaço mental, social e profissional, demonstrando suas habilidades e capacidade de servir a sociedade e transformar o mundo para melhor, renovando ideias e desenvolvendo uma nova forma de se viver. Sejamos todos eternos aprendizes. Ser estudante é sempre aprofundar o que se sabe e buscar novos conhecimentos. Feliz Dia do Estudante! Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia (USP), especialista em Ensino de Filosofia (UFSCar); graduada em Filosofia (UFJF), Pedagogia (Unitins) e Teologia pelo Mater Ecclesiae; filiada à ABA, APEOESP e SBPC; atualmente, professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC; membro da Comissão de Prevenção e combate à tortura, pela ALESC; voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis-SC.
Amor-doação: o testemunho de dois pais

A experiência da paternidade é dom e talento ao mesmo tempo. Nela se encontram as alegrias e os desafios de uma missão que é necessariamente vocação e doação. Ao nos aproximarmos do dia dedicado aos pais, trazemos aqui o depoimento de dois “super-homens” que abraçaram essa missão. É na fala de Eduardo Villalpando, pai de Antônio, e de Anderson Raiça Silva, pai de Miguel, Maria Clara e Mateus, que sentiremos a emoção dessa dádiva. Amor através dos tempos “Uma impressão digital cujos veios vão sendo desenhados pelo amor que nasce e cresce em dois corações, a cada instante em que interagimos ao longo da vida. Não há definição mais próxima que consigo imaginar agora que procuro traduzir em palavras o que é ser pai para mim. Uma emoção indescritível me invade a cada vez que olho para meu filho e reflito sobre o sentimento que nos une. É como se nele se realizasse o milagre de eu me propagar; além de mim mesmo, além do tempo em que ainda estarei por aqui. Ao mesmo tempo em que vejo muito de mim nele, sinto muito dele em mim… Observo seus gestos, suas preocupações, seu modo de falar, suas dúvidas, anseios, desejos, curiosidades, mudanças… Viajo no tempo lembrando coisas que vivi e sentindo preocupação sobre que escolhas ele fará, de que forma ele vai encarar os desafios, superar as dificuldades, relacionar-se com as pessoas… Ser pai é educar, aconselhar, oferecer oportunidades de crescimento, diversão, lazer, aprendizado, convivência com família e amigos, incentivar a lutar por seus sonhos, a ajudar e respeitar as outras pessoas, mas, acima de tudo, ser exemplo e referência; grande responsabilidade. Ser pai é também saber pedir desculpas quando errar, ensinar que ninguém é perfeito, mas que sempre podemos melhorar. Sei que, além de parecenças, temos diferenças, e elas possibilitam que eu também aprenda muito com ele. Vivendo essa emoção da troca e superando os conflitos, assim vamos construindo uma parceria de vida e aprendendo com as adversidades, pois são elas que nos inspiram a buscar e encontrar nosso ponto de equilíbrio. Que meu filho se lembre de mim como eu me lembro de meu pai, e que seus filhos possam se lembrar da mesma forma dele, sinal de que o amor prosseguirá através dos tempos, através da vida. E que o amor do Pai nos envolva em toda sua plenitude.” Eduardo Villalpando é pai do aluno Antônio Carlos Villalpando, estudante do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP. “Mostrar o caminho” “Ser pai é deixar a zona de conforto. Levantar à noite quando o filho chora, segurar a mão quando ele cai, mostrar o caminho quando estiver perdido, puxar conversa quando estiver calado, ouvir quando quiser falar. Ser pai é mostrar os valores e princípios em que acreditamos, orientar, educar, falhar e aprender com erros, mostrar que, na vida, somos eternos aprendizes. Ser pai é, acima de tudo, amar; muitas vezes, agir contra suas vontades, parecer irracional, superar suas barreiras em razão dos filhos, tendo como recompensa simplesmente um sorriso, um abraço, um papai, um ‘eu te amo’. Criar e educar três filhos é desafiador, ainda mais quando se tem a surpresa de ter gêmeos. Digo sempre que é intenso. São idas e vindas, altos e baixos, muitas responsabilidades e, no fim do dia, exausto e satisfeito, agradecer a Deus a dádiva e a alegria de ser pai. Como ser pai? Não há uma regra, não há uma graduação. Ser pai é uma missão, uma responsabilidade, uma realização pessoal em deixar um legado para as próximas gerações.” Anderson Raiça Silva é pai de Miguel e dos gêmeos Maria Clara e Mateus, estudantes do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP. Feliz Dia dos Pais!
“Vocação: graça e missão”

A 58ª Assembleia-Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), por unanimidade, aprovou a realização do terceiro Ano Vocacional da Igreja no Brasil, que deverá ser celebrado de 20 de novembro de 2022 a 26 de novembro de 2023, com a temática “Vocação: graça e missão”. A ideia é celebrar os 40 anos do primeiro ano dedicado à reflexão, oração e promoção das vocações no Brasil. O objetivo é promover a cultura vocacional em todas as instâncias, isto é, nas comunidades eclesiais, nas famílias e na sociedade, para que sejam ambientes favoráveis ao despertar das vocações, como graça e missão, a serviço do Reino de Deus. O texto-base do Ano Vocacional intui aprofundar o tema e o lema, respectivamente, “Vocação: graça e missão”, “Corações ardentes, pés a caminho” (Lc 24,32-33). É uma motivação para cada pessoa acolher o chamado de Jesus Cristo como graça, para que, assim, mais corações ardentes e pés se coloquem a caminho, assumindo e se comprometendo com a missionariedade na Igreja, que vive esse processo contínuo de “estar em saída”. A iniciativa almeja refletir que toda a comunidade cristã é responsável pela animação, cultivo e formações das vocações. Ressaltando os inúmeros esforços e frutos que surgiram com a dinamização dos serviços de animação vocacional, da Pastoral Vocacional e produção de subsídios. Também evidencia o forte anseio de uma Igreja sinodal, missionária, mais próxima e fraterna das realidades em seu entorno. Deus continua a passar pelos diversos caminhos e realidades, e chama, pelo nome, à vocação pessoal e de ser Igreja, vivendo uma vida de fé atuante e comprometida com o projeto salvífico de seu Filho. Nesse sentido, a “vocação: graça e missão” se fundamenta na afirmação de que “a vocação aparece realmente como um dom de graça e de aliança, como o mais belo e precioso segredo de nossa liberdade”, conforme o Documento Final de nº 78. Jesus chamou e enviou os que Ele mesmo quis (cf. Mc 3,13-19), portanto esta é a centralidade e a meta de toda a vocação e missão: a pessoa de Jesus Cristo. Queremos fazer memória aqui dos principais eventos vocacionais da Igreja do Brasil e do continente, para que nos inspire e nos motive neste momento histórico e celebrativo: – 1983: 1º Ano Vocacional do Brasil, com o tema e lema “Vem e segue-me” (Mt 19,21; Mc 10,21; Lc 18,22).– 1994: 1º Congresso Continental Latino-Americano de Vocações (Brasil), com o tema “A Pastoral Vocacional no Continente da Esperança”.– 1999: 1º Congresso Vocacional do Brasil, com o tema “Vocações e ministérios para o Novo Milênio”, e o lema “Coragem! Levanta-te, Ele te chama” (Mc 10,49b).– 2003: 2º Ano Vocacional do Brasil, com o tema “Batismo, fonte de todas as vocações” e o lema “Avancem para águas mais profundas” (Lc 5,4).– 2005: 2º Congresso Vocacional do Brasil, com o tema “Igreja, Povo de Deus a serviço da vida” e o lema “Ide também vós para a minha vinha” (Mt 20,4).– 2010: 3º Congresso Vocacional do Brasil, com o tema “Discípulos missionários a serviço das vocações” e o lema “Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações” (Mt 28,19).– 2011: 2º Congresso Continental Latino-Americano e Caribenho de Vocações (Costa Rica), com o tema “Chamados a lançar as redes para alcançar a vida plena em Cristo” e o lema “Mestre, em teu nome lançarei as redes” (Lc 5,5).– 2014: Simpósio Vocacional do Brasil, com o tema “Ide e anunciai! Vocações diversas para uma grande missão”.– 2019: 4º Congresso Vocacional do Brasil, com o tema “Vocação e Discernimento” e o lema “Mostra-me, Senhor, os teus caminhos” (Sl 25,4). Fonte: https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2021-07/ano-vocacional-brasil-cnbb.html Concluímos nossa reflexão convencidas de que este Ano Vocacional será um grande momento de acender e reacender o ardor da entrega vocacional de cada cristão católico em nosso País. Convidamos você, que lê esta postagem, para participar dos eventos deste 3º Ano Vocacional, que serão promovidos, ao longo do ano, pelas redes sociais da CNBB. A seguir, confira algumas datas já estabelecidas:– lançamento do hino, em 31 de agosto de 2022, por meio de uma live promovida pela CNBB;– a abertura nacional do Ano Vocacional será em 19 de novembro de 2022, na missa das 18h, no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida;– o encerramento nacional acontecerá em 23 de novembro de 2023. Irmã Adriana Regina da Silva e Irmã Crislaine M. Lopes PereiraServiço de Animação Vocacional, SSpS
Sete considerações sobre o dom da acolhida

“Jesus acolheu as multidões, falava-lhes sobre o Reino de Deus e curava todos os que precisavam” (Lucas 9,11b). Assim começa a passagem da “multiplicação” dos pães, uma das mais notáveis catequeses eucarísticas do Evangelho. Tudo começa com o Mestre a receber as pessoas, um gesto sacramental a ser praticado também em nosso tempo. A pandemia de covid-19 acabou dando destaque a duas pastorais que, em muitas comunidades, tiveram de ser criadas ou reforçadas às pressas. No isolamento sanitário mais rígido, a Pastoral da Comunicação (a querida “Pascom”) fez chegar a muitos lares as celebrações ou, pelo menos, uma palavra dos evangelizadores a seus irmãos e irmãs. Quando a participação do povo começou aos poucos a ser permitida, foi a vez de a “Pastoral” da Acolhida agir para receber bem e dar segurança a quem chegava, seguindo os protocolos sanitários. Como ocorreu em outros contextos da Igreja, a pandemia revelou algumas coisas soterradas pela poeira da rotina. Em minhas andanças pelas comunidades de fé, noto deficiências importantes quanto à acolhida. Isso tanto da equipe responsável por receber aqueles que se constituirão em assembleia litúrgica, o Corpo Místico de Cristo, quanto de outros servidores e servidoras. Proponho sete considerações sobre esse essencial gesto cristão. 1 – Quem acolhe também celebra Vez ou outra, ouço alguém reclamar não se sentir presente de fato na liturgia logo porque exerceu nela alguma função. Participa, sim, quem fica responsável por higienizar, distribuir algum subsídio, providenciar assentos aos idosos, anotar os pedidos de oração, cantar, organizar o som, a luz e as flores, e muito mais. A palavra “liturgia” indica algo semelhante a “serviço público”, “mutirão”. Pressupõe ação de cada um, conforme o que lhe couber. Assim, não é necessário ir a outra celebração “para valer”. 2 – Acolher é missão de todos A responsabilidade pela acolhida não é apenas dos ministros e ministras encarregados de receber as pessoas. Todos os que se unem para celebrar são sinais do Cristo acolhedor das multidões. Como é incoerente estar de cara fechada logo na hora de celebrar a vitória da vida sobre a morte! Não é preciso ficar “mostrando os dentes” em sorrisos falsos, mas, pelo menos, dar e responder, com delicadeza, a um simples cumprimento. 3 – Curar feridas Tempos atrás, antes de uma celebração dominical, um coroinha advertiu-me que uma senhora, sentada no fundo da igreja, estava em prantos, muito abalada. Recomendou-me ir ver aquela irmã. Assim o fiz. Fiquei muito impressionado ao saber que ela estava ali com seu resto de ânimo. A mulher se culpava dolorosamente, pois, por ter desrespeitado regras sanitárias, afirmava ter contaminado e matado de covid-19 os tios e irmãos. Mesmo com o pouco tempo para o início da liturgia, consegui ouvi-la. Prometi rezarmos por ela e, com convicção, com base no bom exemplo do coroinha, disse-lhe que ela poderia contar conosco. Aquele servidor adolescente teve grande sensibilidade e bendigo a Deus por ele. Aqui também lastimo não existir um serviço de escuta sistematizado (e, se necessário, aconselhamento) em todas as paróquias (todas!). 4 – Contar até dez Um cristão acolhe porque Jesus o fazia. Não é para ganhar, satisfazer ou “fidelizar clientes”, mas porque todo ser humano é precioso. Cada irmão ou irmã é membro importante do Corpo de Cristo. Neles, pelo batismo, há o divino e o humano do Senhor. Isso vale para os mais assíduos, os visitantes, os “fichas-sujas” e mal-afamados, os curiosos, os profissionais que atuam em cerimônias, os pseudoiniciados, os frequentadores eventuais de sétimo dia, formatura, casamento e batismo, etc. Acolher dá trabalho e exige muitas contagens até dez antes de reagir a qualquer coisa. Às vezes, pede inclusive alguma misericordiosa “vista grossa” para os mascadores de chicletes e trajados com deficiente decoro. Com certeza, a rispidez não resolverá esses problemas. Vale a correção fraternal e discreta na hora oportuna. 5 – Acolher quem acolhe Quem não gosta de gente não deveria se candidatar a qualquer ministério eclesial, seja laico, seja consagrado ou ordenado. A palavra Igreja já pressupõe plural. É impossível ser cristão sozinho. Se Deus quisesse que as coisas fossem quase perfeitas, Ele chamaria seus próprios anjos para servir. O Senhor, contudo, entende que temos nossas limitações, e nós já deveríamos saber disso. Como é constrangedor (no mínimo) ver algum servidor, servidora chorando porque tomaram um “pito” de alguma liderança! É preciso acolher a humanidade do outro, corrigindo fraternalmente. Numa celebração da vida, não há espaço para diminuir seja lá quem for. 6 – “Mais água no feijão” Podemos cair na tentação de praticar a “falsa acolhida”, aquela que, no fundo, impede o Espírito Santo de agir. Por exemplo, uma paróquia organiza um almoço na festa do padroeiro vende todos os convites, mas não deixa uma “reserva de coração” para quem não frequenta a comunidade. Ou um evento para jovens ou casais o qual tem regras engessadas e não prevê a chegada “de surpresa” dos tocados e enviados de última hora pelo Senhor. “Pôr mais água no feijão” faz parte do acolher em Cristo. 7 – Coração aberto Para se falar em acolhida, o primeiro requisito, claro, é ter o coração aberto. E isso vale para todos os contextos. Diante de tanta intolerância, “bolhas” sociais e desconhecimento da riqueza da diversidade humana, é preciso aqui reafirmar o óbvio: não somos iguais. Quando nos abrimos a conhecer, a dialogar, a buscar compreender respeitosamente diferentes culturas, jeitos de lidar como o Sagrado, de conviver, começamos a praticar a acolhida. Em troca, crescemos como seres humanos, cidadãos, batizados e batizadas. Isso compõe a legítima evangelização. Ouvir mais do que falar é um bom começo. Admitir o próximo é um valor humano-divino muito prezado por Jesus, a quem seguimos. Acolher, portanto, é mais do que jogar álcool na mão de quem chega ou aferir temperatura. Possam nossas comunidades de fé de fato abraçar, iluminar a vida e curar as feridas de irmãos e irmãs. Receber bem, em todos os sentidos, é um dom, e este já nos foi dado pelo Mestre. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de