Envelhecimento saudável versus envelhecimento melancólico

A vida, o envelhecimento, é comparável a uma grande viagem. Se nos prepararmos, teremos uma chegada tranquila e poderemos desfrutar da estada final. Se, porém, viajarmos de qualquer jeito, teremos de aceitar o que encontrarmos e até poderemos ficar frustrados e arrependidos de não termos nos preparado devidamente. Então, a canção-tema de nossa viagem para a velhice poderá ser: Devia ter amado mais,ter chorado mais,ter visto o sol nascer.Devia ter arriscado mais e até errado mais,ter feito o que eu queria fazer. […]Queria ter aceitado a vida como ela é.A cada um cabe alegrias e a tristeza que vier” (Titãs, Epitáfio, composição de Sérgio Britto). Nesse sentido, a Psicologia diferencia dois tipos de envelhecimento: o saudável e o melancólico. O envelhecimento saudável é marcado por sentimentos de gratidão e de realização pela vida pessoal, afetiva, familiar, social e profissional. Idosos saudáveis são aqueles que têm um projeto de vida para executar após a aposentadoria; têm apoio da família; têm uma rede de amigos; retomam contatos antigos; viajam; participam de clubes para a terceira idade; estão bem com o corpo, aceitam as perdas, fazem curso, etc. Já o envelhecimento melancólico é marcado pela presença do luto, ansiedade, depressão, suicídio, suicídio lento, apego à doença, solidão, inveja da juventude, lamentações, entre outros sentimentos melancólicos. Desde nossa juventude, é necessário discutir e planejar a fase da velhice, para que o envelhecimento seja vivido de uma maneira saudável. No âmbito socioprofissional, percebe-se a falta de preparação por parte das empresas e do próprio indivíduo para a vivência do momento da aposentadoria. Constata-se: A velhice é um território desconhecido e particular a cada um. O homem vivencia a passagem do tempo com espanto, surpresa, desconcerto. […] Ele não reconhece em si as metamorfoses advindas, passo a passo, com a senescência. Reconhece-as no outro, é o outro que envelhece. Mas, com surpresa, não mais que de repente, ele vê sua velhice no olhar do outro, que tal como um espelho lhe retorna aquele “estrangeiro” em que se tornou (Peres, 2004, apud Candice Roque, 2017). A fase da velhice é uma fase de colheita de frutos do que se plantou na juventude e na adolescência. Para a psicanálise, é um tempo de acertar as contas com o passado, especialmente com a infância. É um tempo de superação, de elaborações e de adaptações. Pesquisas mostram que o tema não é atraente nas discussões cotidianas nem mesmo nas acadêmicas. Nossa cultura ocidental, muito ao contrário da cultura oriental, não dá o valor merecido para as pessoas que estão nessa última fase do desenvolvido. Os idosos sofrem preconceitos. Foi necessário, inclusive, criar um estatuto do idoso para garantir seus direitos. A mídia supervaloriza a juventude, alvo predileto do capitalismo, com o seu consumismo. Ainda estamos muito distantes da cultura indígena, africana e asiática. “A vida é uma peça teatral com um último ato muito mal escrito” (Cícero). Para saber maisROQUE, Candice. A Psicologia pensando o envelhecimento. 2017. 52 f. (Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação em Psicologia) – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí) – Santa Rosa, 2017. Disponível em: https://bibliodigital.unijui.edu.br:8443/xmlui/bitstream/handle/123456789/4931/Candice%20Roque.pdf?sequence=1 Pe. Aparecido Luiz de Souza, SVDCRP 08/149Tel.: (93) 99128-3042

O cuidado efetivo da casa comum exige mudar nosso estilo de vida

Cuidar é envolver-se afetivamente com algo que vai além de nós, abarcando as dimensões da esfera pessoal, social, ecológica e espiritual. O ser humano é o único ser que necessita do cuidado do outro, desde o início de sua vida até seu último suspiro [1]. Na mitologia greco-romana, o Mito do Cuidado já nos apontava isso: “Mas como você, Cuidado, foi quem, por primeiro, moldou a criatura (ser humano), ficará sob seus cuidados enquanto ela viver”. O cuidado é um parâmetro para se compreender o que é humano. O ato de cuidar é um aprendizado contínuo. Seguindo esse mesmo caminho do cuidado como balizador de nossas atitudes, no ano de 2015, o Papa Francisco publicou a encíclica Laudato si’,que, a meu ver, é a mais icônica dos últimos tempos. Nela Francisco entrega a todos o coração do seu pontificado: a ecologia integral, o cuidado da casa comum. Ecologia integral não se refere apenas ao meio ambiente, mas inclui aquelas dimensões já mencionadas no início de nosso texto: pessoal, social, ecológica e espiritual. Para Francisco, tudo está interligado e, assim sendo, propõe a nós uma nova maneira de entender esse entrelaçar de vidas de todas as criaturas do planeta. A proposta do Papa Francisco se aproxima muito da filosofia do bem viver, presente na vida dos povos originários da América Latina: a reciprocidade entre as pessoas, a amizade fraterna, a convivência com os outros seres da natureza e o profundo respeito pela terra [2]. Francisco resgata essa herança que nós, latino-americanos, recebemos dos povos indígenas e a reelabora escrevendo a chamada “Encíclica Verde”. Três anos após publicar a Laudato si’, Francisco lança a encíclica Fratelli tutti, que fala sobre a fraternidade e a amizade social, indicando que primeiro precisamos nos entender como irmãos, habitantes de uma casa comum para, aí sim, trabalharmos juntos e eficazmente pelo bem de todos. E, como já era de se esperar, como um bom jesuíta que é, assumiu e convidou todos nós a abraçar o Pacto Educativo Global, que não é a solução dos nossos problemas, mas é o caminho. Como ele mesmo fala: “Porque toda mudança precisa de um caminho educativo para fazer surgir uma nova solidariedade universal e uma sociedade acolhedora” [3]. A educação é o caminho. Somos chamados a educar o pensar, educar o olhar, educar o sentir, educar o ouvir, educar o falar… Tudo em nós precisa ser educado para podermos atingir a plenitude a que somos chamados. Entre tantos significados sobre educar que encontramos, cito este: “dar (a alguém) todos os cuidados necessários ao pleno desenvolvimento da sua personalidade”. Com o Pacto Educativo Global, o Papa Francisco nos aponta um caminho para que possamos cuidar da educação e passemos a agir. Ele nos convida a uma verdadeira conversão, no sentido mais estrito da palavra, metanoia, mudança de pensamento, de sentimento que leva a uma verdadeira mudança de atitude. Conforme educamos e somos educados, vamos adquirindo novos hábitos, refletindo nossas atitudes e, quando percebemos, estamos mudando nosso estilo de vida. Finalizo com o pensamento de Hannah Arendt sobre a educação: “A educação é o momento que decide se nós amamos suficientemente o mundo para assumir a responsabilidade e assim salvá-lo da ruína, que é inevitável sem a renovação, sem a chegada de novos seres, de jovens. Na educação decide-se também se nós amamos tanto os nossos filhos a ponto de não os desalojar do nosso mundo, deixando-os à mercê de si mesmos, a ponto de não arrebatar de suas mãos a possibilidade de realizar algo novo, algo de imprevisível para nós, e prepará-los, em vez disso, para a tarefa de renovar um mundo que será comum a todos”. Referências[1] Ruth Cavalcante. O afeto e a arte de cuidar.[2] Disponível em: https://cimi.org.br/o-bem-viver-indigena-e-o-futuro-da-humanidade/[3] Mensagem do Papa Francisco para o lançamento do pacto educativo. Alexandre BrittoCoordenador missionário do Colégio Imaculado Coração de Maria, Rio de Janeiro-RJ.

Pôr os pés para fora da cama

Todos os dias, quando nos levantamos da cama em que dormimos, tiramos nossos pés dela e projetamos o corpo para fora. Começamos uma nova jornada. Podemos dizer que ressuscitamos de novo, para um novo dia cheio de atividades. Esse ato tão cotidiano e repetitivo de nossa rotina diária pode ser tomado como simbólico de muita coisa que acontece em nossa vida. Por exemplo, quando passamos por uma grande dificuldade que nos expõe diante de nossos limites, chegando à prostração; se lutamos para superar tal situação, temos a sensação de reviver ou ocasião para “respirar” de novo. Passa o sufoco. É como acordar de novo e retomar a luta. Se olharmos bem, são frequentes situações em que temos de acordar e pôr os pés no chão da vida. Há, porém, pessoas que, por sua postura, parecem continuar permanentemente deitados em “berço esplêndido”, desejando que seja sempre hora de dormir, pois têm preguiça de acordar para a vida e enfrentar, de cabeça erguida, os problemas. Não se preocupam com a luta que exige posturas mais altaneiras. Se é verdade que há pessoas assim, é verdade também que a maioria não é assim e aceita a condição que obriga a pôr os pés para fora da cama. A atitude de recomeçar faz parte de nosso existir, quer queiramos ou não. Ressuscitar para o dia a dia é uma espécie de “treino” para o último ato que pertence a Deus, de nos “levantar” na ressurreição dos mortos, o que professamos na fé cristã. Na verdade, a cada dia que levantamos de nosso leito, fazemos um exercício de fé, mesmo que de modo inconsciente, pois damos como pressuposto que ele vai transcorrer bem, segundo nossas expectativas. Nem precisa pensar muito, o hábito nos condiciona a ligar o “piloto automático” e percorrer as horas segundo programadas em nossos rituais e afazeres, até chegar a hora de ir para a cama novamente, para, na manhã seguinte, pôr de novo os pés para fora dela e reiniciar tudo. A rotina da vida exige de nós “pôr os pés no chão” e encarar a realidade com realismo, sem fantasia demasiada. Sair da nostalgia e abraçar os desafios é a missão de cada um que deseja progredir e viver a vida como ela se apresenta. Ficar em atitude passiva, esperando que as coisas aconteçam ou caiam prontas do céu, é permanecer na “cama”, dormindo, enquanto a vida passa. É necessário “fazer por merecer” o que se deseja, sonhar só não basta; pôr a mão na massa se quiser ver a “construção subir”. Há pessoas sufocadas por problemas e que perdem o ânimo de viver, prostram-se diante deles, e a depressão chega para mantê-las para “baixo”, inclinadas em seu desamparo, num leito de dor. Como em todas as manhãs, é preciso pôr os pés para fora da cama e projetar o corpo para frente. É necessário ressuscitar diante das cruzes e acreditar que sempre é possível seguir em frente, mesmo quando a fragilidade parece ser maior que as forças para superá-la. Acreditar na vida é condição para vivê-la e desfrutar daquilo que ela oferece. Deitar-se, mesmo que seja em “berço esplêndido”, sonhar um pouco para respirar pode ser útil, mas permanecer assim o tempo todo é viver fora da realidade e não saborear o gosto das conquistas avinda da luta que os passos dados realizaram. Jesus, diante de pessoas prostradas que lhe pediam ajuda, dizia-lhes: “Levanta-te, toma teu leito e caminha”. Nunca as aconselhou a ficar se lamentando do passado difícil e sim a retomar o caminho. “Não voltes a teu passado” (não peques mais). Ficar de pé cada manhã é sinal de esperança. É gesto que nos põe em movimento, andando para frente e caminhando para o futuro. Por isso continuemos “pondo nossos pés para fora da cama”. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S

Planeta Terra: nossa casa

“Que tipo de mundo queremos transmitir às gerações vindouras, às crianças que estão nascendo?” (Papa Francisco, Laudato si’, 160). A Terra está sendo cada dia mais explorada pelas ações humanas. As pessoas, ao priorizarem as próprias necessidades, lucros e benefícios, acabam esquecendo que sua própria sobrevivência depende do bem-estar do planeta. A comunidade humana precisa ter consciência de que faz parte do meio ambiente: nós somos o meio ambiente. Sem a natureza em equilíbrio, não temos condições de sobrevivência. Então temos de nos preocupar com as gerações futuras e também com nossa própria geração. Nós, professores do Colégio Santa Maria (Cascavel–PR), buscamos levar nossos alunos a entenderem essa ideia de que precisamos cuidar de nosso planeta. Esse trabalho de conscientização é feito por meio de vários projetos realizados no colégio, pelos quais se enfatizam os cuidados com o planeta Terra. Entre as várias iniciativas, escolhi uma para apresentar neste artigo. O projeto sobre sustentabilidade, intitulado “Uma vida sustentável é possível”, levou alunos das turmas do 6º ano para passar uma manhã em um “sítio-escola sustentável”. A família que vive no lugar visa à sustentabilidade. Os alunos perceberam esse fato no cultivo das plantas, na manutenção da casa, nas estruturas de banheiros e nos demais ambientes do local. As construções são de barro, num sistema chamado “adobe” (tijolo de barro). As plantações, que são orgânicas, alimentam a família e são comercializadas por ela. Os estudantes aprenderam a fazer o tijolo, trataram os animais, alimentaram-se de comidas saudáveis, participaram de várias atividades lúdicas que tinham como objetivo instigá-los a terem a convicção de que podemos viver com o que a natureza nos oferece. Toda a tecnologia é importante, porém nada existiria sem a natureza. Na conclusão das atividades, os alunos conseguiram compreender que dependemos da natureza para sobreviver e que precisamos mudar alguns hábitos para garantir uma vida com mais qualidade para as gerações futuras. Precisamos “descascar mais e desembalar menos”, dar destino adequado para os resíduos que produzimos, reaproveitar, sempre que possível, objetos que utilizamos, dar um destino correto àquele equipamento que não serve mais, ou seja, diminuir o consumo. Assim, podemos reduzir muito os impactos gerados pelas indústrias. Dessa forma, concluo dizendo que, no momento em que nós, seres humanos, entendermos que somos o meio ambiente e que, sem a natureza, não existiríamos, conseguiremos cuidar do nosso planeta, assim como está pedindo o 15º Capítulo-Geral das Irmãs Servas do Espírito Santo e o Papa Francisco, com a frase citada no início do texto. “Despertadas pelo grito da Trindade através da dor e do sofrimento da Mãe Terra e de nossos irmãos e irmãs à margem, a conversão ecológica e a vida sustentável se tornam um compromisso ético inalienável” (15º Capítulo-Geral das Irmãs Missionárias Servas do Espírito Santo, 2022). Simone LazzarottoProfessora de Biologia no Colégio Santa Maria, Cascavel-PR.

Política e violência no Brasil

Estamos em ano de eleições neste 2022. Muitos brasileiros dizem não gostar de política ou não quererem se envolver. Porém o que é política? A palavra “política”, no grego antigo politikós (pólis + ethos) quer dizer “conduta da cidade”, comunidade de vida, dos cidadãos. Alguns exemplos: Petrópolis (cidade de Pedro), Fernandópolis (cidade de Fernando), Rondonópolis (cidade de Rondon), megalópoles (cidade grande). No Período Romano, a palavra “política” passou a equivaler à palavra “cidadania”, do latim antigo (civitas). Portanto as palavras “política” e “cidadania”, em suas origens, querem dizer a mesma coisa. Nesse sentido, desde os tempos da Grécia Antiga, o pensador Aristóteles (século IV a.C.) definiu política como a ciência de bem governar, administrar os conflitos e as necessidades para o bem comum, o que diz respeito aos cidadãos e ao governo de uma cidade. No regime democrático, como acontece no Brasil, os cidadãos capazes participam e tomam decisões nos negócios públicos por meio do voto. Infelizmente, muitos cidadãos brasileiros confundem “política” com “politicagem”, que significa, segundo o dicionário Aurélio, “política mesquinha, de interesses pessoais, desonesta”. Quando ouvimos alguém dizer que dá seu voto a um candidato em troca de cem reais, porque assim ele vai poder comprar dois quilos de carne, isso é politicagem, pois essa pessoa não está pensando na coletividade, na verdadeira política, mas só nela ou só na família dela, em vez de pensar no bem comum. Trocar o voto por um favor (cargos, emprego, dentadura, saco de cimento, etc.) não é correto. Por isso o cidadão deve ser ético, que é a virtude fundamental para combater a corrupção no governo. Cidadão é aquele que cumpre com os deveres e garante seus direitos para com o Estado. O governo, conjunto dos representantes, cobra tributos para o Estado atender às necessidades de sua população. Devemos fiscalizar, no entanto, para onde vai o dinheiro arrecado dos impostos (IPTU, IPVA, IR, ICMS, etc.). Assim, a política tem dimensões: territorial (refere-se ao espaço em que vivemos), social (diz respeito à educação, à saúde, ao transporte, às aposentadorias e outros), econômica (atividades em relação ao trabalho humano), ideológica (abrange o capitalismo e o socialismo) e a partidária (quais partidos representam os grupos da população). Quando o cidadão entende bem o que é política, ele participa, vota conscientemente, acompanha os representantes eleitos do povo e cobra deles posturas diante de reivindicações justas para todos. Daí a necessidade de debates para se conhecerem os projetos de lei apresentados em plenárias, tanto nas câmaras municipais quanto nas assembleias legislativas e no Congresso Nacional. Pode-se participar enviando e-mails ou pelas redes sociais, pelos canais de tevê (Senado, Câmara, Justiça), ou presencialmente. E devem-se denunciar os atos arbitrários à cidadania. Em 2023, muitos representantes do povo, no Poder Legislativo, ocuparão o Congresso Nacional e as assembleias legislativas para elaborarem e votarem projetos de leis que devem ser em benefício de todos os cidadãos, além de fiscalizarem o Poder Executivo. Ainda, há alguns Estados da Federação (governadores) que não foram definidos, e a disputa pela Presidência. Esse Poder tem como função executar o que está previsto em lei e representar o Estado ou o País por quatro anos. Constatamos, todavia, que a política envolve relação de poder. Desde tempos remotos, o fenômeno “poder” está enraizado na natureza do ser humano. Se, por um lado, aparentemente trouxe benefício para uns, por outro, causou e tem causado sequelas para a grande maioria da humanidade, como a miséria. Se o governo não for democrático, volta às ditaduras, aos imperialismos, à exploração dos mais necessitados, causando violência; esta gerada pelas “legitimidades” outorgadas ou promulgadas no discurso dos “direitos”. Quando o filósofo Aristóteles afirmou que o “ser humano é um animal racional, social e político”, percebeu que fazer política exige persuasão, convencimento, saber falar. O ser humano é o único animal que tem como característica a capacidade de distinguir o justo do injusto, o certo do errado, o bem do mal. No Brasil, porém, desde o Período Colonial, segundo o linguista Alfredo Bosi, a linguagem tem sido usada para violentar as mentes dos povos tradicionais, causando o etnocentrismo, a violência dos costumes. Até hoje, são violentados em suas aldeias pelo desmatamento das florestas, pela não demarcação de suas terras, pelo avanço do garimpo e das madeireiras. De acordo também com o pensador Assaman, a linguagem foi e tem sido uma forma de apagar a “memória” de grupos ou do povo. Constatamos isso nos livros de História do Brasil, nos quais não se falava dos heróis e heroínas ameríndios e afrodescendentes de nosso povo, mas somente dos vencedores europeus. A violência econômica, gerada pelo capitalismo, perpassa pela globalização produzida pela mídia, conforme outros estudiosos do assunto, atingindo não apenas a violência física, mas também psicológica diante do bombardeio tecnológico, agora informatizada, tendo os indivíduos de enfrentar problemas político-econômico e religiosos, como já alertava Freud em O mal-estar na civilização. A violência às crenças dos indivíduos, à sexualidade, atualmente controlada pela tecnologia do “metaverso”, dos robôs mal-intencionados é um desafio para a sociedade brasileira, que busca livrar-se da politicagem do egoísmo. É necessário abordar a diversidade, exercer o poder popular por meio do voto consciente, em busca de uma política do convívio social tolerante, justo e fraterno, pela qual todos possam, de fato, gozar dos direitos, sem violência, e o poder ser exercido em favor da vida. Ser cidadão é ser político. Participe conscientemente de seu dever e garanta a vida para todos. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia (USP), especialista em Ensino de Filosofia (UFSCar); graduada em Filosofia (UFJF), Pedagogia (Unitins) e Teologia (Mater Ecclesiae); filiada à ABA, APEOESP, SBPC; professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC; voluntária na Comissão de Prevenção e Combate à Tortura (ALESC) e na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis-SC; membro da diretoria da Aproffib (Associação de Professores de Filosofia e de Filósofos do Brasil).

Educação, fé e política: uma reflexão sobre as ações

Ao observar o cenário político atual, questiono-me sobre o papel exercido pela educação, pela fé e pela política nos dias de hoje. O papel da educação, no decorrer dos tempos, foi se emoldurando de acordo com a sociedade e o objetivo específico desta. Nas sociedades primitivas, o conhecimento era transmitido de forma informal e baseado na busca pela sobrevivência. Com a divisão social, o papel da educação se transformou, uma vez que se adequou à necessidade de determinado tipo de classe. Entendo ser, nesse momento, que a política grita e determina a forma como a educação vai se dar, nesse contexto, para a manutenção das classes sociais. Mas o que, de fato, é a política e o que ela determina na educação? Aqui cabe uma conceituação: estamos falando de política como os procedimentos relativos a uma sociedade e não da política partidária ou de partidarismos. Assim, a política, desde os primórdios, influenciou a forma de transmissão de conhecimento que se desenvolveu ao longo do tempo e da história, como fonte de conhecimento e poder das classes dominantes, cujo objetivo era a perpetuação do poder daqueles que o mantinham. Agora que já falamos sobre o conceito de educação, de política e como eles conversam historicamente, vamos falar sobre fé: o que vem a ser fé? Que diálogo a fé desenvolve com a política e com a educação? Creio que, quando analisamos o contexto social em que nos encontramos hoje, vemos nitidamente a fé explícita em nossas ações. A crença de que tudo vai dar certo, a positividade nos detalhes e, mais ainda e primordialmente, em nossos pensamentos. Você acredita na educação? Você crê que a educação transforma uma sociedade? Pois aí reside o verdadeiro sentido da fé… É a crença, é o crédulo, é a chama que acende e nos faz seguir independentemente de qualquer tipo de obstáculo. O cenário político hoje nos permite entender a educação de modo mais democrático. As informações chegam mais assertivamente. Com o advento da internet, a aprendizagem se tornou um processo mais dialético, visto que o indivíduo se entende como protagonista de seu saber e busca, por si só, o conhecimento. Assim, a criticidade de quem aprende por outras vias, e não somente pela escola, vem ao encontro da forma como hoje a sociedade se desenha: permeada de pluralidade. Hoje a educação se propaga de modo mais libertário e progressista, buscando um meio mais justo e democrático de aprender sobre o mundo. Como na poesia de Vinícius de Moraes, “Não há você sem mim e eu não existo sem você”, a política organiza uma sociedade, a fé nos leva às ações intencionais, porque acreditamos que podemos realizá-las, e a educação nos traz a transformação, aquela que, há tempos, esperamos para ver explicitamente em uma educação democrática. Ver hoje a educação como uma ação transformadora e permeada de intencionalidade denota o real sentido da conversa entre esses três entes inicialmente conceituados individualmente. Educação, política e fé, por sua natureza, caminham de mãos dadas, objetivando a reflexão para a ação, na construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Renata Bastos de Assunção TavaresProfessora do 2º ano do ensino fundamental do Colégio Imaculado Coração de Maria, no Rio de Janeiro-RJ, supervisora educacional da Diretoria de Educação Superior da Rede Faetec no Rio de Janeiro e especialista em Psicopedagogia Institucional e Clínica.

Canoas: voluntários do CES Mãos em Ação minimizam a fome

O Dia Internacional para Erradicação da Pobreza, lembrado em 17 de outubro, busca conscientizar governos e sociedades do mundo inteiro sobre a quantidade de pessoas expostas à miséria e à fome. A data foi instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU), que entende que acabar com a pobreza extrema está no cerne dos esforços mundiais para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, um conjunto de 17 tópicos e um apelo global à ação. Diante desse desafio, cada iniciativa que enxerga a necessidade do outro deve ser valorizada. E um desses esforços é o grupo CES Mãos em Ação, criado no Colégio Espírito Santo, de Canoas-RS, em 17 de agosto de 2021. A iniciativa envolve as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, funcionários, professores, estudantes e famílias da escola, além de motoristas de transporte escolar. O coordenador do CES Mãos em Ação, Sérgio Velasques Garcia, conta que o grupo realiza campanhas permanentes de arrecadação. Com os alimentos doados, são preparadas refeições a serem entregues para pessoas em situação de rua e moradores de comunidades carentes de Canoas e Porto Alegre. “Nossa primeira ação aconteceu em 9 de setembro de 2021, com 150 marmitas”, relembra Marta Angra de Moraes, voluntária e secretária do colégio. Ao longo do primeiro ano de atividades, o grupo preparou e distribuiu 1.952 marmitas. Roupas, calçados e materiais de higiene são outros donativos recebidos pelo grupo, em tarefas de responsabilidade social da gincana da escola. Tudo é distribuído principalmente durante as ações realizadas no inverno. Já os brinquedos doados na gincana são entregues em festividades realizadas pelo Dia da Criança e Natal. Entre os voluntários do CES Mãos em Ação estão estudantes e seus familiares, que são convidados a participar de todas as atividades do grupo, desde a arrecadação de itens, passando pela elaboração das refeições, até a distribuição das marmitas. “É muito gratificante. Quando a gente retorna para casa, a gente pensa muito que as pessoas têm fome e precisam do apoio de todos nós”, afirma Marcia Mirandola, voluntária e mãe de aluna do CES. A diretora do Colégio Espírito Santo, irmã Maria Sônia Muller, elogia a proposta do grupo, que é dar de comer a quem tem fome: “CES Mãos em Ação, eu acho que este nome é muito próprio, por tudo o que está acontecendo aqui. Fico sempre muito edificada quando vejo este grupo silencioso, que se reúne em torno daquele que está com necessidades. Então este gesto, eu tenho absoluta certeza, agrada muito a Deus”. Assista aos vídeos e saiba mais sobre o CES Mãos em Ação. Para saber mais CES Mãos em Ação: https://instagram.com/cesmaosemacao Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: https://brasil.un.org/pt-br/sdgs Marcos Vinícius MerkerJornalista no Colégio Espírito Santo de Canoas-RS, membro da Equipe de Comunicação das SSpS Brasil.

Mal do século: conheça mais sobre o transtorno de ansiedade

De repente, você se encontra irritado com pessoas que você considera lentas de raciocínio e de atitudes. É como se você fosse um carro na estrada com capacidade para correr até 200 km/h, mas tivesse de acompanhar outro carro que está correndo a 30 km/h. Pode ser também que você tenha tido insônias inexplicáveis, muito suor nas mãos e na fronte, o coração tenha acelerado facilmente. A pressão arterial não baixa mais. Surge subitamente um aperto no peito, sem explicação. Uma agonia, um medo irracional, uma tremedeira, náuseas. Talvez nada o satisfaça no dia a dia, e a vida tenha se tornado um tédio. Em casos mais graves, até o cabelo começa a cair. Então a “solução” é descontar na comida para preencher um vazio físico e psicológico. O cigarro surge como um paliativo, assim como a bebida alcoólica e outros vícios. Pode ser ainda que, para amenizar sua dor, você começa a se ferir com objeto cortante. Se você se identificou com muitos dos sintomas acima, é possível que você esteja com o transtorno de ansiedade, em nível médio, moderado ou grave. A princípio, a ansiedade é saudável. Na vida, precisamos de certo nível de ansiedade. Sem ela, seríamos pessoas lentas, entediadas, sem criatividade, passivas, preguiçosas. No entanto, ela se torna um transtorno quando afeta nossa saúde mental e nosso convívio social. A ansiedade tem sido considerada o mal do século. Só no Brasil, cerca de 9,3% da população sofre de algum transtorno de ansiedade, liderando o ranking das nações mais ansiosas do mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Ela pode ainda ser definida como excesso do amanhã e ausência do hoje. “A ansiedade se torna doentia quando assume sintomas psíquicos negativos contínuos e intensos, como irritabilidade, humor depressivo, angústia, baixo limiar para frustrações, fobias, preocupações crônicas, apreensão contínua, obsessão, velocidade exacerbada dos pensamentos”, segundo o psiquiatra, professor e escritor Augusto Cury. Ele atribui as causas da ansiedade a vários elementos: estilo de vida, ambiente, relações sociais, fatores socioeconômicos, etc. Alguns tipos de ansiedade Ansiedade socioprofissional: provocada pelo excesso de trabalho, pressões, cobranças, metas inalcançáveis, ofensas, medo do futuro, crise política, dificuldades financeiras, pressão nas provas escolares. Vivemos frequentemente em famílias ansiosas, empresas ansiosas, escolas ansiosas. Ansiedade causada pelo estilo de vida moderno: decorrente do trabalho intelectual intenso, tempo prolongado diante da tevê, excesso de informações (mas não de formação), excesso de preocupação, excesso do uso de smartphones e da internet, consumismo, necessidade neurótica de poder, de evidência social, de preocupar-se com a estética. Sugestões para amenizar a ansiedade Escreva seus pensamentos e sentimentos (crianças, jovens e adolescentes). Faça uma coisa de cada vez. Abandone a necessidade de controlar tudo. Faça exercícios físicos. Trabalhe a respiração. Concentre-se no presente. Viaje para outro ambiente, interior… (quando possível). Mudança de hábito em relação à comida e à bebida. Sintomas físicos: exercícios físicos, meditação. Psicoterapia: procure o profissional mais adequado para você. Ajuda médica. Desenvolva a assertividade e delegue tarefas. Cultive habilidades sociais de amizade, retomando a vida social. Lembre-se: descanso é diferente do lazer. Conselho de Jesus Sugestão de leitura bíblica do maior psicólogo que já existiu, Jesus Cristo (Mateus 6,24-34): “Ninguém pode servir a dois senhores; pois, ou odiará um e amará o outro, ou será fiel a um e desprezará o outro. Vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro. Por isso eu vos digo: não vos preocupeis com vossa vida, com o que havereis de comer ou beber; nem com o vosso corpo, com o que havereis de vestir. Afinal, a vida não vale mais do que o alimento, e o corpo, mais do que a roupa? Olhai os pássaros dos céus: eles não semeiam, não colhem nem ajuntam em armazéns. No entanto, vosso Pai que está nos céus os alimenta. Vós não valeis mais do que os pássaros? Quem de vós pode prolongar a duração da própria vida só pelo fato de se preocupar com isso? E por que ficais preocupados com a roupa? Olhai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham nem fiam. Porém, eu vos digo: nem o rei Salomão, em toda a sua glória, jamais se vestiu como um deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é queimada no forno, não fará ele muito mais por vós, gente de pouca fé? Portanto, não vos preocupeis, dizendo: ‘O que vamos comer? O que vamos beber? Como vamos nos vestir?’. Os pagãos é que procuram essas coisas. Vosso Pai, que está nos céus, sabe que precisais de tudo isso. Pelo contrário, buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão dadas por acréscimo. Portanto, não vos preocupeis com o dia de amanhã, pois o dia de amanhã terá suas preocupações! Para cada dia bastam seus próprios problemas.” Aparecido Luiz de SouzaPsicólogo (CRP 08/149) e missionário da Congregação do Verbo Divino. E-mail cidosouza1@hotmail.com.

A educação deve conduzir ao acolhimento, à solidariedade e ao compromisso social

Sempre que pensamos na formação básica de nossos jovens e crianças, automaticamente projetamos em nossa imaginação esse momento dentro de uma sala de aula. O fato é que, atualmente, com as necessidades cada vez mais emergentes em nossa sociedade tão fragilizada, a educação precisa sair, e sobretudo agir, para além dos muros da escola. Essa ação, muitas vezes, deve acontecer em ambientes bem diferentes daqueles cenários clássicos com carteira, giz e apagador. Proporcionar ao estudante a sensação de ser um verdadeiro agente de transformação no mundo é também uma responsabilidade dos educadores e da escola do futuro. O problema é que esse futuro já bate à porta, com cenas bem reais e atuais, nos cobrando ações rápidas e eficazes. Como então levar a escola a enxergar os problemas que nos cercam fora dela? Mesmo que esse educador de um futuro tão presente ensine matemática, é possível trazer para perto realidades que aos estudantes sejam distantes, por exemplo, a má distribuição de alimentos ou até mesmo o desperdício desordenado desses alimentos. E por que não visitar uma feira livre com a intenção de conscientizar as pessoas de uma economia doméstica que não abra espaço ao desperdício e possa, de várias maneiras, colaborar com a alimentação de centenas de pessoas que vivem, à própria sorte, nas ruas dos grandes centros urbanos? A educação tem a grandeza de transformar vidas pelo conhecimento ou pelo simples fato de nos mostrar que, sozinhos, não há a possibilidade de aprender e de ensinar nada; esse movimento precisa ser coletivo. Particularmente, tenho tido a experiência de acompanhar os alunos do nono ano do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP, a visitas semanais ao Centro de Integração do Migrante (CIM), também na capital paulista. Essa experiência tem sido enriquecedora aos estudantes, sobretudo por terem a oportunidade de vivenciar realidades tão distintas daquelas que estão acostumados em seu dia a dia. No contato com as crianças atendidas diariamente no CIM, os estudantes estão desenvolvendo, junto da equipe pedagógica, atividades lúdicas e reflexivas com essas crianças. Dessa maneira, modificam não apenas a vida dos pequenos, mas também suas próprias realidades. Quando o estudante retorna de uma visita e, em casa, junto da família, partilha sua experiência, suas visões e sua reflexão pessoal, ele multiplica, dentro do próprio lar, essa ação missionária. Muitas vezes, isso faz com que ela se amplie ainda mais e de diversas outras maneiras. Assim também ocorre nos corredores da escola, onde os estudantes comentam entre si as experiências vividas e planejam, em conjunto, outras ações transformadoras. A semente da solidariedade pela educação, dentro e fora do ambiente escolar, precisa ser plantada e cultivada, para que possa florescer, daqui a um tempo, uma realidade tão clássica na sala de aula como o giz e o apagador. Oxalá podermos contemplar a transformação do mundo a partir do coração puro e generoso das crianças e jovens que vivenciam sua formação humana e acadêmica. Thiago Wolf RaimundoProfessor de Ensino Religioso no Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP.

Mês da Bíblia: o Livro de Josué e os tempos atuais pós-covid-19

O mês de setembro estava começando quando vi, pelas redes sociais, um padre, grande amigo, incentivando sua comunidade de fé a ler, estudar e aprofundar o texto bíblico escolhido pela CNBB para o ano de 2022: o Livro de Josué. Assim, eu me senti tocada a também ler a Escritura, uma vez que já fiz parte do Grupo de Animação Bíblica de minha paróquia e sei que os encontros sobre a Palavra são sempre muito proveitosos, com grandes partilhas e insights enriquecedores. Desta vez, contudo, comecei a ler Josué, apenas eu e meu esposo, em casa, sem material de apoio, apenas a letra seca do texto bíblico. Esta foi uma experiência também muito interessante, que nos trouxe a oportunidade de pensar sobre nosso atual momento. Já na introdução, os biblistas fazem uma salutar colocação: “O livro de Josué olha para duas direções. Para trás, completando a saída do Egito com a entrada em Canaã. Para diante, inaugurando a nova etapa do povo com a passagem para a vida sedentária” (Bíblia do Peregrino, p. 313). Sedentária é uma palavra estranha, mas demonstra bem o fenômeno que levou os hebreus a deixarem de ser nômades e a ocuparem a Terra Prometida. Os escritos de Josué expõem uma grande mudança por que o povo hebreu estava passando. Finalmente, eles chegavam à terra de Canaã, mas esta não foi conquistada de modo fácil, sem adversidades. Ao contrário, para ocupar a “terra que mana leite e mel”, o povo escolhido enfrentou guerras contra várias nações, especialmente os cananeus. Nessa disputa, inclusive, os hebreus contaram com a ajuda de Raab, a prostituta, que, já tendo sabido sobre o Deus daquele povo, decidiu ajudá-los à custa da vida de sua própria gente. A aliança estabelecida é muito forte, e Raab, pelo que fez, por sua fé e coragem, é equiparada a Abraão por grandes exegetas. Ao longo do texto de Josué, descrevem-se algumas disputas com povos que estavam no lugar, o que demonstra que, apesar de “prometida”, a terra não foi ocupada pacífica e facilmente; ao contrário, ela foi conquistada com muito sacrifício, dor, perdas, etc. O povo já havia conseguido fugir do Egito, atravessado o Mar Vermelho, mas, em determinados momentos, descritos categoricamente no livro, é possível ver situações de idolatria bem como de exploração econômica, como as já vividas no Egito, e isso precisava ser logo combatido para haver unidade entre o povo e este não se perder. Para enfrentar a exploração e os desvios, os sábios de Israel se utilizaram das ações memoriais, que tinham o condão de evitar situações que transgredissem o projeto do povo. Esses gestos memoriais iam muito além da recordação. Eles recolocavam os envolvidos dentro do projeto, como senhores e participantes da experiência salvífica, recobrando sua parcela de responsabilidade no objetivo maior de um povo. Nesse texto, é interessante notar a divisão de terra às tribos conduzida por Josué. Cada clã recebeu uma parte, com as descrições físicas e lhe foi explicado o porquê de cada uma receber esta ou aquela porção. Os levitas, que hoje poderiam ser equiparados aos atuais diáconos, não receberam nenhuma área significativa, pois tinham como função o serviço religioso e a propagação da Palavra em todas as tribos. Período pós-covid-19 Ao ler o texto de Josué, agora em setembro, não pude deixar de associá-lo ao momento pós-covid-19 que vivenciamos. Sinto que estamos como o povo hebreu, que olha adiante, mas ainda têm fortes memórias e percepções de tudo aquilo que é seu passado recente e doído. Ao mesmo tempo em que estamos muito felizes com o fim (pelo menos aparente) da pandemia, após tantas idas e vindas, ainda sentimos em nosso peito a dor pelas quase 700 mil mortes em nosso país e as sequelas da doença. Estão latentes o grande empobrecimento coletivo e a falta de perspectiva de muitos em nossas comunidades. Diante desse quadro, tendo a experiência hebreia como ponto de partida, devemos pensar adiante sem nos esquecer de que fazemos parte do grande projeto de Deus. Precisamos nos animar mutuamente e, se for preciso, buscar ajuda profissional e tentarmos, juntos, impulsionar os passos dos irmãos que caminham conosco. Uma verdadeira caminhada sinodal rumo aos novos desafios. Não é fácil, mas também não foi fácil para aquele povo, porém a íntima experiência divina nos leva a continuarmos tentando. Tânia Cecília Cardoso de Oliveira MarquesEntusiasta no conhecimento da Bíblia.

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