Amazônia, rios de histórias

Em 5 de setembro, celebra-se o Dia do Estado do Amazonas e o Dia Internacional da Mulher Indígena. Não há como falar do Amazonas sem incluir toda a Região Amazônica. Em cada igarapé, cada rio, há muitas histórias vivenciadas e construídas tanto por povos indígenas quanto por famílias ribeirinhas. Veja o artigo de Maria Terezinha Correa!
Dos Diálogos Amazônicos à “Declaração de Belém”

Belém do Pará foi palco dos Diálogos Amazônicos, da Cúpula dos Povos Indígenas e da Cúpula da Amazônia. Entre outros resultados, foram produzidos documentos como a “Declaração de Belém”.Os diálogos amazônicos ocorreram entre 4 e 6 de agosto e antecederam a Cúpula da Amazônia. Reportagem de Cícero Pedrosa apurou que os debates sinalizaram a contribuição dos povos indígenas e das comunidades tradicionais para a proteção do território e a conservação da floresta. Valorizaram também os conhecimentos ancestrais para a manutenção da biodiversidade. Os produtos e serviços da sociobiodiversidade e a forma de produção das comunidades tradicionais foram considerados como importantes para o fomento de economias locais sem comprometer os ecossistemas. O repórter criticou, no entanto, a prevalência da visão da Amazônia como repositório de recursos e a ausência do reconhecimento mais enfático da participação dos povos originários assim como das comunidades tradicionais.O mesmo repórter relatou que, no segundo dia dos Diálogos Amazônicos, ocorreu um evento separado com 600 participantes: a Cúpula dos Povos Indígenas. A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) contribuiu com a estruturação do encontro, e seu representante destacou o simbolismo em excluir os principais conhecedores das florestas dos Diálogos Amazônicos e da Cúpula da Amazônia. Cícero apontou que os resultados da Cúpula dos Povos Indígenas vislumbram a Amazônia em um futuro com terras demarcadas, livre do garimpo, das hidrelétricas, da agricultura industrial, das ferrovias e de outros projetos dessa natureza. Foram criticadas intenções como a exploração de petróleo, o crédito de carbono e a bioeconomia, e foi reafirmada a luta pela demarcação dos territórios. Algumas questões criticadas pela Cúpula dos Povos Indígenas estiveram em pauta na Cúpula da Amazônia, que ocorreu entre os dias 8 e 9 de agosto, contando com representações de oito países vinculados ao bioma amazônico e a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA). Os países representados foram Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela. O encontro visou a debater assuntos relevantes para a manutenção da Floresta Amazônica espalhada pelos territórios desses países. Da Cúpula resultou a agenda conjunta aos países denominada “Declaração de Belém”. O documento destacou como pontos principais: As decisões envolveram 18 temas desdobrados em 113 itens. Autores consultados não isentam nem o evento, nem o documento de críticas. Os temas mais polêmicos são a ausência de menções ou sanções à exploração de petróleo; a origem de recursos e de medidas concretas em longo prazo. Por outro lado, a Cúpula e a Declaração foram consideradas importantes estratégias de preparação para a Conferência do Clima das Nações Unidas (COP-30), prevista para ser realizada em Belém do Pará, em 2025. Os eventos do Pará e a votação do marco temporal (em curso) estão profundamente conectados quando consideramos os biomas, os territórios e a natureza para além de repositório de recursos transformáveis em artefatos artificiais alienantes da experiência humana em meio natural. As consequências da aprovação do marco temporal foram abordadas com muita clareza por Cícero Pedrosa, Carlos Marés, Felipe Milanez: restringindo o reconhecimento de terras indígenas ao ano da promulgação da atual Constituição (1988), famílias estarão em situação de vulnerabilidade, e nosso planeta também. Carlos menciona estudo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, estimando que a aprovação do marco pode resultar no desmatamento de até 550 mil quilômetros quadrados de áreas nativas, ampliando a emissão de carbono e afetando um sistema, hoje considerado de captura de carbono, mas já afetado pelas mudanças climáticas, de acordo com a ONU. Refletir acerca dessas importantes questões atende aos princípios da equipe de comunicação da Rede SSpS Brasil, que considera acompanhar, debater e atuar sobre o que acontece à nossa volta como parte da missão. Também está em conformidade com a plataforma Ação Laudato si’ e com o apelo do Papa Francisco para o cuidado da nossa casa comum. Referências Nota: foram realizadas várias leituras, incluindo textos disponibilizados por: Instituto Humanitas Unisinos (https://www.ihu.unisinos.br/) Declaração de Belém – disponível no Portal do Ministério das Relações Exteriores (https://www.gov.br/planalto/pt-br/assuntos/cupula-da-amazonia/documentos-da-cupula) Justino Sarmento Resende – antropólogo, padre e indígena em entrevista para o IHU (https://www.ihu.unisinos.br/categorias/188-noticias-2018/584953-cosmovisao-indigena-criacao-encarnacao-e-saida-desse-mundo) Cícero Pedrosa – Repórter para o Portal Amazônia Real (https://amazoniareal.com.br/cupula-dos-povos-indigenas/) Tainá Aragão – Jornalista do Instituto Socioambiental – ISA (https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/dialogos-amazonicos-colocaram-sociobiodiversidade-no-centro-do-debate-para) Felipe Milanez – Jornalista para Carta Capital (https://www.ihu.unisinos.br/570680-marco-temporal-um-argumento-racista-para-legitimar-massacres) Carlos Marés – Professor de Direito Socioambiental para Revista Pub (https://www.ihu.unisinos.br/categorias/610997-marco-temporal-marca-do-atraso) Carta Encíclica Laudato si’ do Santo Padre Francisco sobre o Cuidado da Casa Comum (https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html) Plataforma de Ação Laudato si’ (https://plataformadeacaolaudatosi.org/objetivos-laudato-si/) Nações Unidas Brasil (https://brasil.un.org/pt-br/137094-decl%C3%ADnio-na-captura-de-carbono-na-amaz%C3%B4nia-%C3%A9-abordado-por-ag%C3%AAncia-da-onu-em-estudo) Marli Teresinha Everling Professora dos cursos de Graduação e Pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville (Univille); coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica; colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental (caranguejo.org.br); colaboradora do blog SSpS Brasil para temas ambientais (https://blog.ssps.org.br/posts); colaboradora das redes sociais do design para temas ambientais – Instagram @designuniville
Aprofundando a complexidade divina

Agostinho de Hipona, também conhecido como Santo Agostinho, foi um dos mais influentes teólogos e filósofos cristãos da história. Sua contribuição para a compreensão da doutrina da Trindade é inestimável, trazendo uma perspectiva rica e profunda sobre a natureza de Deus. A doutrina da Trindade é central para a teologia cristã e busca compreender a natureza de Deus como um Deus “triuno”: um único Deus que existe em três Pessoas distintas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Agostinho abordou essa complexidade divina com uma mente analítica e um coração cheio de devoção, com base nos textos sagrados e refletindo sobre sua experiência de fé. Em sua obra De Trinitate (Sobre a Trindade), Agostinho empreendeu a tarefa desafiadora de desvendar o mistério da Trindade, reconhecendo a limitação da mente humana diante da grandeza de Deus. Ele destacou a importância da revelação divina e da fé na busca por compreender a Trindade, ressaltando nossa compreensão intelectual limitada e incompleta, e ressaltando a capacidade humana de conhecer a Deus pela experiência do amor. Agostinho enfatizou que a Trindade é um mistério a ser vivido, mais do que apenas compreendido intelectualmente, destacando a importância da relação entre as Pessoas divinas e descrevendo o Pai como fonte eterna, o Filho como a Palavra encarnada e o Espírito Santo como amor mútuo entre o Pai e o Filho. Três Pessoas divinas distintas, inseparáveis e coeternas. Ao abordar a relação entre as Pessoas da Trindade, também destacou a ideia de que o amor é o vínculo que une as três Pessoas, entendendo o amor como o princípio dinâmico e vivificante da Trindade, um amor que transborda para a criação e para a vida de cada ser humano. Agostinho enfatizou que somos chamados a participar desse amor divino, por meio da comunhão com Deus e de uns com os outros. Para Agostinho, a doutrina da Trindade não é apenas uma especulação teórica, mas uma verdade com implicações práticas em nossas vidas. Enfatizou a importância de buscar a unidade na diversidade, refletindo a natureza da Trindade, apresentando-a como um modelo à comunidade cristã, na qual as diferenças individuais são honradas e celebradas, e o amor mútuo é cultivado. Embora tenha feito grandes contribuições à compreensão da Trindade, ele mesmo admitiu que seu conhecimento era limitado, reconhecendo que o mistério trinitário está além da compreensão plena da mente humana e que, diante de tal grandeza, devemos abordá-la com humildade e reverência. Assim, a abordagem do pensador de Hipona nos ensina que devemos nos engajar com mente aberta e coração adorador diante da grandeza do mistério. Embora possamos nos esforçar para compreender melhor a Trindade, devemos sempre nos lembrar de que Ela permanecerá um mistério divino, que nos desafia a buscar um relacionamento mais profundo com Deus, vivendo em amor e comunhão com os outros e com tudo que nos envolve. Agostinho Travençolo JuniorEducador e assessor da Rede de Educação SSpS.
Tempo Novo: a influência do ciclo da natureza na vida do Povo Guarani

O mês de agosto apresenta uma série de datas ambientais comemorativas. Entre elas, destacamos o aniversário do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) (dia 28), o Dia do Patrimônio Histórico Nacional (17), o Dia Nacional dos Direitos Humanos (12) e o Dia Internacional dos Povos Indígenas (9). Por conta da convergência de temas deste mês, apresentamos o relato de uma experiência que deu visibilidade ao cotidiano indígena. A iniciativa foi uma ação conjunta entre a aldeia Ka’aguy Mirim Porã, localizada na Terra Indígena Tarumã, em Araquari-SC, e a Universidade da Região de Joinville (Univille). Trata-se da exposição fotográfica Ara Pyau, que, na língua guarani, significa “Tempo Novo”. As fotografias foram produzidas na aldeia Ka’aguy Mirim Porã, com base em duas perspectivas: a indígena, pelo olhar de Mari Djachuka, importante liderança do Povo Guarani, que vive na aldeia Ka’aguy Mirim Porã; e a não indígena, pelo olhar de Miguel Cañas Martins, arquiteto e criativo, que frequenta a aldeia e convive com a comunidade indígena. A curadoria da exposição Ara Pyau ocorreu de forma coletiva e colaborativa. Contou com a participação de Alessandra Mansur, do campo do Design e do Patrimônio Cultural, e Cauê Boeing, do Design. A realização também recebeu suporte do Comitê de Educação em Direitos Humanos (CEDH) e de dois programas de pós-graduação: em Design e em Patrimônio Cultural e Sociedade. O texto que acompanha a exposição, elaborado por Alessandra Mansur, e alguns registros fotográficos realizados por Mari Djachuka e Miguel Cañas Martins, são apresentados a seguir. Ara Pyau – Tempo Novo Para o Povo Guarani, o mês de agosto marca o início do Ara Pyau (Tempo Novo). Diferentemente dos não indígenas, essa data não é marcada por um único dia, mas por um longo período de seis meses. O Ara Pyau é uma celebração ancestral, em que se conta e canta o renascimento do corpo e do espírito. É o tempo de renovação e de muitas atividades. É o momento de construir as casas, de fazer a roça e de plantar as sementes sagradas do Povo Guarani. É o tempo de consagração dos alimentos e batismo, tempo no qual as crianças guaranis recebem o “nome-alma” dado pelo Xeramõi (liderança espiritual). A concepção de tempo é percebida pelos guaranis em dois momentos: Tempo Novo e Tempo Antigo. No Ara Pyau (Tempo Novo), de agosto a janeiro, dedica-se ao trabalho. O Ara Ymã (Tempo Antigo), de fevereiro a julho, é o tempo do descanso físico e espiritual. No Ara Ymã, a natureza também descansa, perde as folhas, por isso os Guarani descansam junto com ela. A sabedoria guarani acompanha o ciclo da natureza. A exposição Ara Pyau pretende aproximar a sociedade não indígena de alguns elementos do Tekoá Guarani (modo de ser e estar no mundo). Agricultura, Arquitetura, Educação Indígena, Espiritualidade e Corpo-Território são temáticas que perpassam essa exposição. Os Guarani habitam o bioma Mata Atlântica, mais conhecido por eles como Nhe’ê ry (onde os espíritos se banham). Nhe’ê ry é uma floresta viva. Nela se encontram os remédios que curam, e nela estão os saberes e fazeres ancestrais. É na floresta que reside a verdadeira escola! É na floresta que os conhecimentos são transformados na prática do bem-viver. Por fim, é importante ressaltar que, embora a ONU (Organização das Nações Unidas) tenha “criado”, por decreto, o Dia Internacional dos Povos Indígenas, essa ação é resultado de muita luta, resistência e atuação de representantes dos mais diversos povos indígenas de todo o mundo. Alessandra MansurDoutora em Patrimônio Cultural e Sociedade (Univille), mestra em Saúde e Meio Ambiente (Univille), especialista em Poéticas Contemporâneas no Ensino da Arte (UTP), graduada em Design de Produtos (Univille). Pesquisa na Literatura Indígena Contemporânea a Paisagem Cultural das Comunidades Indígenas, com ênfase no Patrimônio Ambiental e no Patrimônio Alimentar. Experiência com Projetos Interdisciplinares na área de Arte-Educação-Ambiental, Direitos Humanos, Meio Ambiente, Questões Étnico-Raciais, Responsabilidade Socioambiental.
Escuta, fala, pensamento na prática educativa e pastoral

Como articular pensamento, escuta e fala na prática educativa e pastoral? Vamos tecer algumas ideias e considerações que, certamente, terão como destinatárias aquelas pessoas que orbitam os ambientes formais da educação: a escola com seus educadores e estudantes. Iniciamos, contudo, propondo o tema do “silenciar”. Ponto de partida para o exercício do conhecimento de si mesmo, fonte de todo o conhecimento, segundo antiga tradição filosófica. Silenciar é uma autêntica sabedoria, atestada no tesouro herdado de culturas milenares e tradições religiosas: silenciar é uma via que nos permite, mesmo quando ainda é algo simples e superficial, dar-nos conta de nós mesmos. Não há oração (pessoal ou comunitária), prática espiritual ou de meditação e contemplação (e, por que não dizer, não há aula ou produção e aquisição de conhecimentos) que se iniciem sem um gesto e convite ao silêncio interior. Pelo silenciar a si mesmo, as sensações que transitam por nosso corpo, concatenadas ao ritmo da respiração e aos numerosos pensamentos que nos habitam e passeiam pela mente são percebidos, possibilitando uma acolhida serena dessas moções e movimentações interiores, aceitando-as e mesmo as serenando. Não à toa, no espaço educativo da sala de aula, professores e estudantes sabem com clareza: a aula só começa, o conhecer só se torna viável de ser partilhado com o ambiente adequado para tal, com corações e mentes minimamente atentos, com o pensamento e a vontade situados no momento e espaço presentes, corpos relativamente confortáveis, ocupando espaços apropriados e geralmente assentados. Com essas condições preenchidas, a aula começa, os saberes são partilhados e geram-se novos pensamentos, conexões e reflexões. Caso contrário, restam os barulhos, ruídos, distrações, conversas paralelas e resultados aquém das expectativas, além de muita energia despendida sem uma direção acertada. É útil a todo estudante começar o dia de estudos verificando sua agenda, colocando-se de modo consciente em relação às matérias, conteúdos, aulas do cronograma ou, numa linguagem mais atualizada, passando a limpo o check-in daquilo que está previsto para o dia. Isso já introduz certa sintonia com os afazeres, trazendo foco e atenção, favorecendo a presença atenciosa aos temas, conceitos, atividades propostas, predispondo a vontade e a determinação em tomar parte ativamente do momento presente, com suas informações novas e conhecimentos construídos e adquiridos no conjunto das atividades em aula. Estudar é um ato da vontade! Criando as condições favoráveis para essa vontade autodeterminada, o pensamento se orienta melhor e adere com mais ênfase aos objetivos do conhecimento, evitando ficar à deriva de distrações diversas que sempre se apresentam ao longo das atividades escolares e são, de certo modo, algo normal e comum, com os quais lidamos diariamente. O exercício e a prática do silêncio interior, como fonte de conhecimento de si mesmo, ampliam e favorecem, de algum modo, a capacidade de escuta do outro. Fala-se muito em “comunicação não violenta” ou comunicação empática, entendendo-se, com isso, que há modos de nos comunicarmos, utilizando palavras, expressões, tons de voz e atitudes que favorecem a comunicação entre as pessoas e salvaguardam o respeito e até mesmo a compreensão e sensibilidade necessárias entre os interlocutores. Mais que uma técnica ou escolha de palavras, a comunicação tem empatia quando considera que as pessoas afetam umas às outras e elas estão, portanto, inseridas num círculo ético e afetuoso. Podemos dizer tudo, considerando a necessidade de compreender que aquilo que foi dito seja comunicado com responsabilidade própria (sem culpabilizar o outro), considerando o interlocutor como um agente da comunicação, transmitindo as ideias com respeito, honestidade e verdade. Promover a escuta e a comunicação com empatia constitui prática imensamente valiosa no âmbito da educação e das ações pastorais. Aliás, pode-se afirmar que escutar e se comunicar com empatia são práticas, em si mesmas, de teor pastoral, pois se situam e seguem a inspiração de Jesus, que falava às multidões e a cada um utilizando-se de uma comunicação que fazia “arder os corações”. Suas palavras eram ditas com autoridade, reconhecidas e atestadas por sua prática e seu jeito de ser. Jesus se colocava voluntariamente à disposição e atitude de escuta de quem se aproximava dele, quer seja para pedir por saúde e bem-estar, ou a partir de um gesto de conversão. Igualmente escutava aqueles que se aproximavam por curiosidade em vista dos chamados milagres realizados por ele, ou até mesmo quando o interrogavam apenas para testar seus conhecimentos e sua fidelidade à Lei de Moisés e aos costumes do Templo. Invariavelmente, Jesus ouvia/escutava as pessoas, dedicando-lhes tempo e atenção. Por diversas vezes, é dito sobre ele nos evangelhos: sentia compaixão dessas pessoas, alegrava-se com elas por acolherem o evangelho e as exortava, procurando e até encontrando nelas algo de melhor, alguma abertura para acolherem a si mesmas, o outro e à própria experiência de Deus por ele revelada. Por fim, ainda vale dizer: saímos há pouco de uma pandemia global de covid-19, cujos efeitos continuam sendo estudados e compreendidos. Ela nos afetou a todos, de modos diferentes. Passamos por medos, dúvidas, perdas, restrições e muitas sensações e sentimentos contundentes e confusos. A pandemia, como fenômeno biológico, passou, mas seus efeitos ainda são sentidos nos espaços de convivência e aprendizagens (famílias, escolas, igrejas, grupos de amizades e interações sociais). Pais e mães, crianças, adolescentes e jovens, professores e demais profissionais das escolas, agentes de pastoral nas comunidades e igrejas ainda lidam com esses efeitos. Temos ansiedades e fragilidades diversas ainda atuantes nas vidas de tantas pessoas. Dificuldades econômicas, emocionais e até mesmo correlacionadas à saúde do corpo e da mente. Um tempo que nos convida ao cuidado com a vida e com o bem-estar de si mesmo e do outro. Um tempo, portanto, de escuta redobrada das palavras que são ditas e que saem das bocas vindas diretamente dos corações, como um pedido de solidariedade, e até mesmo daquelas que não são proferidas, mas se manifestam nos sinais, comportamentos, lacunas e vazios que esperam ser preenchidos com afeto, empatia, solidariedade e compaixão. Que nossas palavras e escutas, que nossos pensamentos nos movam na mesma direção, fazendo-nos aptos a acolher os que
Santa Dulce dos Pobres: inspiração para a verdadeira caridade

Em 26 de maio de 1914, nasceu o “Anjo Bom da Bahia”, batizada como Maria Rita de Souza Brito Lopes, mais tarde irmã Dulce. Desde cedo, já dava mostras de seu grande amor por Jesus que se revela sobretudo nos marginalizados, excluídos pela sociedade, pois os abrigava e deles cuidava em sua própria casa. Ao encontrar no irmão o rosto do “Cristo sofredor”, ela viveu plenamente o Evangelho em sua plenitude, dedicando sua vida à causa dos pequeninos do Senhor. Para isso, irmã Dulce erigiu escolas, hospitais, asilos. Conta-se que até um galinheiro antigo ela o transformou, por seu amor a Jesus que tudo transforma e renova, em um hospital para atender os desvalidos da sociedade. O amor a Jesus é capaz de mudar muitas realidades. Para isso, contudo, é necessário viver a misericórdia com o outro, e isso se faz no contato com o outro, compadecer-se da dor do outro, sentir junto, ser o próximo do outro; talvez o único evangelho, o evangelho vivo, que alguém possa ter contato… O Papa São João Paulo II recordava o dito “as palavras convencem, mas os exemplos arrastam”. Isso significa que um gesto vale mais que mil palavras. Precisamos acolher mais, sermos mais humanos, menos individualistas, olhar para a dor do outro, ter empatia. Isso vale mais do que mil discursos teóricos… Santa Dulce dos Pobres, como é chamada, é um sinal que indica o caminho seguro para Deus: o próximo. Que seu exemplo de vida e missão inspire nossa sociedade de hoje, cada vez mais materialista e apressada, individualista e competitiva, para que possamos viver o que o Evangelho ensina. Como diz o Papa Francisco, precisamos de mais santos nos dias de hoje, pessoas que ajam com misericórdia e sejam portadoras da “alegria do Evangelho”, Evangelho que, além de ser anunciado, é preciso ser vivido. Santa Dulce dos Pobres, rogai por nós! Diácono Luciano Ferreira SilvaDiocese de Ponta Grossa-PR. _______________________________________ O serviço da caridade “A natureza íntima da Igreja exprime-se num tríplice dever: anúncio da Palavra de Deus (kerygma-martyria), celebração dos sacramentos (leiturgia), serviço da caridade (diakonia). São deveres que se reclamam mutuamente, não podendo um ser separado dos outros” (Papa Bento XVI, Encíclica Deus caritas est, 25). A caridade é um dever do cristão, uma ação que expressa a experiência da solidariedade em relação ao outro que se encontra impossibilitado de garantir sua condição mínima de sobrevivência e, sobretudo, sua dignidade humana. Muitas pessoas confundem o significado de assistencialismo e caridade, utilizando-as por vezes como sinônimos. Assistencialismo: consiste no conjunto de ações em prol do outro, porém não se preocupa com a erradicação das causas sociais. Como doutrina, defende que não há nada a fazer para resolver os problemas, age somente em ações paliativas, ou seja, no efeito. Caridade: a caridade, por sua vez, identifica-se com o amor de Deus, portanto fazer caridade é ter as mesmas atitudes, as mesmas ações que Deus teria diante da miséria e pobreza. É a prática do Evangelho. O amor a Deus jamais vem desvinculado do amor ao próximo. Não é somente um sentimento de querer bem as pessoas. O amor cristão se manifesta em gestos e atitudes que promovem o bem e a felicidade do outro. Não se pode imaginar um seguidor de Jesus que não se revista dos gestos de amor e de caridade, marcas da vida do Mestre no meio de nós. Ele amou os pobres e os pecadores, acolheu quem era marginalizado pela sociedade da época. Cristo fez-se amigo dos excluídos e cuidou dos famintos. A caridade do Mestre Jesus era presente em cada uma de suas atitudes e ações de promoção da vida e da dignidade da pessoa humana. As obras de caridade estão presentes na Igreja Católica, desde sua fundação. Um exemplo foi o surgimento do diaconato. Para que os apóstolos se dedicassem integralmente à pregação, criou-se a função diaconal para suprir a necessidade de servir as pessoas mais necessitadas da época: as viúvas e os órfãos (cf. Atos dos Apóstolos 6,1-7). Os santos também foram aqueles que dedicaram suas vidas em prol da caridade, como Santa Dulce dos Pobres, Santa Tereza de Calcutá, São Vicente de Paulo, e milhares de outros santos e beatos da Igreja. As pastorais sociais em conjunto com as Cáritas diocesanas são a expressão da caridade e da solicitude da Igreja com as situações nas quais a vida está ameaçada. São atividades pelas quais a Igreja realiza a sua missão de continuar a ação de Jesus Cristo junto a diferentes grupos e realidades. No capítulo 25, versículos 31 a 46, de São Mateus, encontramos o texto conhecido como a “parábola do juízo final”. Para nós, cristãos, deve ser, acima de tudo, assumir a causa dos que mais precisam. Essa foi a escolha de Deus, essa foi a causa nobre de Jesus, que decidirá a participação ou não participação do Reino. A bondade gratuita revela-se quando a gente se dedica aos que não podem retribuir. É na doação ao “último dos filhos de Deus”, o faminto, que damos provas de uma misericórdia evangélica e divina. Façamos da caridade um estilo de vida, uma regra de ouro. Diácono Joanir OliveiraDiocese de Ponta Grossa-PR.
Injúria racial: uma violação dos direitos humanos e um desafio para a sociedade

A injúria racial é caracterizada como uma ofensa verbal, escrita ou gestual direcionada a uma pessoa ou grupo, com base em sua raça, cor, etnia, religião ou origem. Essa forma de discriminação é prejudicial e contribui para a perpetuação de estereótipos negativos, além de criar um ambiente de ódio e exclusão. É um crime que afeta não apenas a vítima, mas toda a sociedade e tem causado grande impacto, gerando discussões sobre igualdade, respeito e diversidade. No Brasil, houve avanços na garantia dos direitos humanos ao longo dos anos, no entanto, nosso País ainda é uma terra de desigualdade e violações à vida humana. É importante ressaltar que a injúria não se baseia apenas em ofensas verbais, mas também pode ocorrer por meio de gestos, escritos, desenhos ou qualquer outra forma de manifestação discriminatória. Desde 12 de janeiro de 2023, com a sanção da Lei n.º 14.532, a prática de injúria racial passou a ser expressamente uma modalidade do crime de racismo, tratada conforme o previsto na Lei n.º 7.716/1989. Até então, a injúria racial estava prevista apenas no Código Penal, com penas mais brandas e algumas possibilidades que agora deixam de existir. A mudança foi importante por reconhecer que a injúria racial também consiste em ato de discriminação por raça, cor ou origem, que tem como finalidade, a partir de uma ofensa, impor humilhação a alguém. Consequências As vítimas de injúria racial sofrem não apenas danos emocionais, mas também psicológicos e sociais. Essa forma de violência pode abalar a autoestima, gerar ansiedade, depressão e até mesmo levar à exclusão social. Além disso, a injúria racial afeta negativamente a qualidade de vida das vítimas, prejudicando seu desenvolvimento pessoal e profissional. Impacto na sociedade Não é apenas um problema individual, mas também uma questão social. Ela contribui para a criação de um ambiente hostil e desigual, em que a dignidade e a igualdade de todos os indivíduos são violadas. Além disso, alimenta a discriminação e o preconceito, dificultando a construção de uma sociedade inclusiva e justa. Combate Para combater a injúria racial, é necessário um esforço coletivo e abrangente. Algumas medidas que podem ser adotadas incluem: – educação: promover a educação antirracista nas escolas e comunidades, visando a desconstruir estereótipos e promover a valorização da diversidade; – sensibilização: realizar campanhas de conscientização sobre a importância do respeito à igualdade racial, destacando as consequências negativas da injúria racial para toda a sociedade; – fortalecimento da legislação: garantir leis robustas e eficazes que combatam a injúria racial, com punições adequadas e mecanismos acessíveis de denúncia; – apoio às vítimas: estabelecer redes de apoio às vítimas de injúria racial, oferecendo suporte emocional, jurídico e psicológico. Conclui-se que a injúria racial é uma violação dos direitos humanos. Ela afeta a vida de muitas pessoas e prejudica o desenvolvimento de uma sociedade justa e inclusiva. É nosso dever combater essa forma de discriminação, promovendo a conscientização, fortalecendo a legislação e apoiando as vítimas. Somente assim poderemos construir um futuro em que a igualdade e o respeito sejam valores fundamentais para todos, independentemente de sua raça ou origem. Jociane da Silva PereiraProfessora no Colégio e Faculdade Sant’Ana, Ponta Grossa-PR.
Escutar com o ouvido do coração

O Papa Francisco propõe, em sua mensagem para o 56º Dia Mundial das Comunicações, que fixemos a atenção no “escutar”, atitude decisiva na comunicação para um diálogo autêntico. Estamos perdendo, no dia a dia, a capacidade de ouvir a pessoa que está à nossa frente. Ao mesmo tempo, damo-nos conta de que vivenciamos um novo e importante desenvolvimento no campo comunicativo e informativo (podcast e chat áudio), evidenciando que a escuta continua essencial para a comunicação. Ao ser perguntado a um terapeuta qual a maior necessidade do ser humano, respondeu: “O desejo ilimitado de ser ouvido”. O desejo de escutar é o que interpela a todos os que se sentem chamados a ser educadores, formadores, pais, professores, agentes de pastoral… Escutar com o ouvido do coração Na Bíblia, a “escuta” está intimamente ligada à relação dialogal entre Deus e a humanidade: “Shemá, Israel = escuta, Israel” (Deuteronômio 6,4). São Paulo, na Carta aos Romanos (10,17), afirma que “a fé vem da escuta”. A iniciativa é de Deus, que nos fala, e a ela correspondemos escutando-o. Entre os cinco sentidos, parece que Deus privilegia o ouvido, talvez por ser menos invasivo, mais discreto, deixando o ser humano mais livre. A escuta corresponde ao estilo humilde de Deus. Deus ama a pessoa: por isso lhe dirige a Palavra, “inclina o ouvido” para escutar. Nós, seres humanos, tendemos a fugir da relação, a virar as costas, “fechar os ouvidos” para não ter de escutar. Essa recusa de ouvir pode, muitas vezes, transformar-se em agressividade sobre o outro. O Senhor nos chama a uma aliança de amor, para que nos tornemos, plenamente, imagem e semelhança de Deus na capacidade de ouvir, acolher, dar espaço ao outro. A escuta é uma dimensão do amor. Por isso Jesus convida seus discípulos e nós a verificarmos a qualidade da escuta: “Vede, pois, como ouvis” (Lucas 8,18), sugerindo que não basta ouvir, é preciso fazê-lo bem. Só quem acolhe a Palavra com o coração “bom e virtuoso” e a guarda fielmente é que produz frutos de vida e salvação (cf. Lucas 8,15). Somente prestando atenção a quem ouvimos, àquilo que ouvimos, como ouvimos, cresceremos na arte de nos comunicar bem. É a “capacidade do coração que torna possível a proximidade” (Papa Francisco, Evangelii gaudium, 171). A escuta não tem a ver apenas com o sentido do ouvido, mas com a pessoa toda. A verdadeira sede da escuta é o coração. Santo Agostinho convidava a escutar com o coração (corde audire), a acolher as palavras, não exteriormente nos ouvidos, mas no coração: “Não tenhais o coração nos ouvidos, mas os ouvidos no coração”. A escuta como condição da boa comunicação O que torna boa e plenamente humana a comunicação é precisamente a escuta de quem está à nossa frente, face a face, a escuta do outro, com abertura leal, confiante e honesta. Na realidade, em muitos diálogos, efetivamente não comunicamos; estamos simplesmente à espera de que o outro acabe de falar para impor nosso ponto de vista. Na verdadeira comunicação, o eu e o tu encontram-se, ambos, “em saída”, tendendo um para o outro. A escuta é o primeiro e indispensável ingrediente do diálogo e da boa comunicação. Antes de se comunicar, é preciso escutar. O cardeal Agostinho Casaroli, perito da Santa Sé, falava de “martírio da paciência”, necessário para escutar e fazer-se escutar. A escuta requer sempre a virtude da paciência, juntamente com a capacidade de deixar-se surpreender pela verdade da pessoa a quem escutamos. Escutar-se na Igreja O ato de escutar é o dom mais precioso e profícuo que podemos oferecer uns aos outros. Nós, cristãos, esquecemo-nos de que o serviço da escuta nos foi confiado por Aquele que é o ouvinte por excelência e em cuja obra somos chamados a participar. “Devemos escutar através do ouvido de Deus, se quisermos falar através de sua Palavra. O primeiro serviço na comunhão que devemos aos outros é prestar-lhes ouvidos. Quem não sabe escutar o irmão, bem depressa, deixará de ser capaz de escutar o próprio Deus” (Bonhöfffer). Na ação pastoral, a obra mais importante é o “apostolado do ouvido”. Devemos escutar antes de falar, como exorta o apóstolo Tiago (1,19): “Cada um seja pronto para ouvir, lento para falar”. Oferecer gratuitamente um pouco do próprio tempo para escutar as pessoas é o primeiro gesto de caridade. Para saber mais: Mensagem para o 56º dia Mundial das Comunicações Sociais – Papa Francisco. Roma, 24 de janeiro de 2022. [LINK: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/communications/documents/20220124-messaggio-comunicazioni-sociali.html] Irmã Hermelinda Maria Ruschel, SSpSCoordenadora do Comidi (Conselho Missionário Diocesano) – Diocese de Ponta Grossa-PR, membro da Equipe de Comunicação SSpS Brasil.
Traços, sons, cores e formas na vivência da espiritualidade com a criança

Quando as crianças experimentam a espiritualidade na infância, isso ajuda a desenvolver a mente, as emoções e os relacionamentos delas. A espiritualidade pode ser sentida de muitas maneiras, por meio de coisas como sons, cores e formas. Este texto fala sobre como esses elementos são importantes para as crianças experimentarem a espiritualidade e como isso pode ajudá-las a se sentirem conectadas a algo maior. Os traços, ou seja, as linhas que compõem uma imagem, podem despertar a curiosidade e a imaginação da criança, proporcionando uma maneira tangível de se conectar com o mundo espiritual. Desenhos, símbolos e representações visuais de conceitos espirituais podem ajudar a criança a compreender e internalizar essas ideias abstratas. Por exemplo, mandalas, que são desenhos circulares utilizados em algumas tradições espirituais, podem auxiliar a criança a desenvolver um senso de equilíbrio e harmonia. Os timbres têm um efeito profundo na experiência humana, e vivenciar a espiritualidade com uma criança não é diferente. Música, canto, mantras e rituais sonoros podem criar um ambiente propício à introspecção e à conexão espiritual. As canções, por exemplo, podem transmitir valores e ensinamentos, além de gerar um sentimento de pertencimento a uma comunidade. Além disso, a criança pode se expressar musicalmente, criando timbres que refletem sua própria experiência e compreensão de espiritualidade. As cores têm um impacto poderoso em nossas emoções e percepções. Na vivência com crianças, elas podem ser usadas para representar conceitos e estimular a criatividade. Diferentes tradições atribuem significados simbólicos a cores específicas, como azul para serenidade e confiança, e amarelo para alegria e energia. Ao explorar esses significados, a criança pode desenvolver uma compreensão mais profunda de sua própria espiritualidade e expressá-la por suas escolhas de cores. As formas e traços têm papel importante na vivência espiritual com crianças. A geometria sagrada, que usa formas como círculo, triângulo e quadrado, está presente em várias tradições espirituais. As crianças podem explorar essas formas para entender padrões universais e a ordem cósmica, e expressar sua espiritualidade criando mandalas, formas geométricas complexas que representem a totalidade e a conexão com o divino. A experiência da espiritualidade na infância é valiosa para o desenvolvimento pleno da criança. Sons, cores, formas e traços têm um papel importante nessa vivência, permitindo explorar, de maneiras palpáveis, o mundo e suas diversas espiritualidades. Ao proporcionar experiências sensoriais e simbólicas, despertam a imaginação, a criatividade e a conexão com algo maior. É crucial que pais, educadores e cuidadores reconheçam sua importância e criem um ambiente acolhedor e estimulante para a expressão espiritual da criança. Lucas Fortunato CarneiroProfessor e coordenador da Dimensão Missionária no Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG.
Como envelhecer com saúde

“Debaixo dos caracóis dos seus cabelos /Uma história pra contar de um mundo tão distante /Debaixo dos caracóis dos seus cabelos /Um soluço e a vontade de ficar mais um instante…”(Erasmo Carlos e Roberto Carlos) Saudades? O tempo está passando, os filhos vão crescendo, os amigos vão se distanciando, lembranças dos lugares da infância e da juventude voltam à memória. Após anos trabalhando, o corpo não é mais o mesmo. O cansaço vai chegando… Aposentar ou não? Eis a questão. O que está acontecendo? Pode ser o tempo do envelhecer chegando. Estudos do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), publicados em 2023, revelam que existem mais de 33 milhões de pessoas idosas no Brasil. A pesquisa também mostra que, com o avanço da medicina, aumentou o número de pessoas de idade acima de 60 anos. Envelhecer (sênior) não é cair na melancolia nem procurar clínica de estética para tirar rugas (risos). Cuidar-se bem é o segredo da longevidade! Fazer o check-up anual para que a saúde fique em dia. Tomar as vacinas nos prazos certos, alimentar-se de modo saudável. Praticar atividade física é necessário. Ler faz bem para a mente, mexe com a imaginação e, ou, enriquece o conhecimento adquirido ao longo dos anos. Para que trabalhar tanto? Para pagar a faculdade daquela filha, daquele filho que mais tarde sairá de casa e nem terá tempo para visitar você? Sem falar naqueles pais que, quando chegam a uma idade, passam o nome do imóvel (doam) para os filhos e depois sentem o desagradável sentimento da ingratidão quando são abandonados por eles. Ou vira babá de netos? Muitas pessoas idosas, por causa da frustração, têm praticado o suicídio, infelizmente. Então, como envelhecer com saúde e dignidade? As dicas são: manter a interação social, aprender coisas novas e praticar atividades físicas. Estimular a cognição afasta depressão e demências. Como diz a canção: “As luzes e o colorido que você vê agora / Nas ruas por onde anda, na casa onde mora / Você olha tudo e nada lhe faz ficar contente / Você só deseja agora voltar pra sua gente”. Sobre a interação social, participe de eventos sociais, culturais e religiosos, não pare de encontrar com os amigos, visite algum conhecido ou doente, trabalhe como voluntário em alguma instituição, conheça lugares novos, faça parte de algum grupo, seja de estudo ou de excursão, pratique uma religião. O importante é não se sentir só, pois os pais falecem, filhos crescem e se vão pelo mundo, ter amigos de bocha ou de chá, de baralho ou de bazar, você não verá o tempo passar. Outra dica é aprender sempre coisas novas. Faça cursos de idiomas, toque um instrumento, dance, cante, aprenda informática, escreva um poema, um artigo, um livro. Cora Carolina começou a escrever seus poemas quando tinha 70 anos. Isso significa que nunca é tarde para começar. Gosta de jardinagem? Aproveite e procure cultivar plantas, flores, crie um jardim. Há vários cursos na internet. Faça palavras-cruzadas, caça-palavras. Aprenda sobre primeiros socorros. Tudo que for bom para estimular a mente é importante. A terceira dica é praticar atividades físicas. Caminhada, natação, Pilates, musculação, aeróbica, hidroginástica, alongamento, subir e descer escadas; enfim, movimente-se! Não deixe os joelhos e as pernas ficarem sem circulação; procure sempre uma atividade adequada à sua saúde. Para isso, é necessário primeiramente uma avaliação médica. Há os alpinistas, os ciclistas, os surfistas, os que gostam de trilhas. Não permita que a ostopenia ou a artrose atrofie a vontade de recuperar os movimentos. Se for cadeirante, não desanime. Uma orientação fisioterapêutica faz muito bem. O importante é não ficar parado, parada. Ah! Não se esqueça de ler o Estatuto do Idoso e demais leis, pois somos sujeitos de direitos. Que todos sejam respeitados, colocando-nos no lugar do outro. Afinal, todos um dia vão envelhecer. Maria Terezinha CorrêaMestranda em Filosofia e mestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, filiada à ABA, à Apeoesp, à SBPC, à Aproffib e Sintram; membro da Comissão de Prevenção e Combate à Tortura (ALESC), voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis.