Construir relações de amizade na família

“Em toda ocasião, ama o amigo…” (Provérbios 17,17) O objetivo mais importante na construção das relações familiares é o cultivo da amizade. Trata-se de levar os filhos a compreenderem o que vem a ser a amizade e a distinguir os amigos autênticos, dos falsos, principalmente neste momento de avanço de novas tecnologias, da era das redes sociais, das amizades virtuais. O cultivo da amizade está em aprender a querer bem outras pessoas e, ao mesmo tempo, aprender a conviver com e na família. Essa capacidade de bons relacionamentos vai se desenvolvendo de modo natural na família conforme se aprende que esse é espaço de amor e escola das virtudes da convivência. A amizade no ambiente familiar costuma ser decisiva para o desenvolvimento humano-afetivo, primeiro do comportamento social e dos hábitos de amizade para com outras pessoas. As primeiras experiências sociais, na família, ajudam a desenvolver atitudes de abertura para com os outros e hábitos de convivência harmoniosa, facilitam a socialização e ajudam, fortemente, os filhos a serem ativos, extrovertidos, independentes e curiosos. Vemos, portanto, que uma família é formada não somente pela relação de sangue, mas sim pelos laços de amor, carinho e amizade que se pode estabelecer entre eles. Pois as relações que se constroem entre pais, filhos, irmãos, irmãs, no ambiente familiar, serão pautadas na confiança e, mais ainda, estabelecidas por meio do diálogo, do encontro, do toque, do abraço, das demonstrações de afeto, da troca de experiências, fortalecidas na oração em família. Essa aprendizagem ocorre de forma natural, mútua e espontânea. Percebemos, cada dia mais, a importância de se desenvolver relações saudáveis entre pais, filhos e irmãos, que, consequentemente, vão aparecendo como valor essencial no ambiente familiar. Por isso, é importante a preocupação dos pais em desenvolver relações de verdadeira amizade com seus filhos, de tornarem-se amigos e, com isso, despertar a admiração entre ambos. Precisamos de pais que despertem encantamento em seus filhos e, assim, consigam estabelecer relações de respeito e deixar uma marca profunda e para sempre em seus filhos. A presença em momentos importantes, o acompanhamento no cotidiano escolar, os passeios, as brincadeiras são todas atitudes que nutrem a amizade na família e que são parte das tarefas diárias dos pais, ídolos de seus filhos. É com e na família que aprendemos que a amizade é um vínculo compartilhado em que existe comunicação, ação, sentimentos e interesses. Os amigos de verdade perdoam e, também, ensinam a sermos amigos melhores. A família é o berço do amor, da compreensão, do afeto, é o lugar onde as pessoas devem encontrar apoio, lições e aprendizados, porém, acima de tudo, com a preocupação de construir relações saudáveis e de convivência harmônica no espaço familiar, onde todos se sintam bem com todos. Os nossos melhores amigos devem estar dentro de nossa casa. Nossos amigos mais achegados deveriam ser os membros da nossa própria família. Judith LibanioGraduada em Ciências Contábeis pela UEPG, graduada em Teologia pela PUC, enfermeira especializada em Saúde Pública, agente da Pastoral Familiar Paroquial e na Arquidiocese de Londrina, ministra extraordinária da sagrada comunhão eucarística.

Agroecologia no centro do debate em Santarém

“Roda de conversa sobre homeopatia popular.” Esse é o tema do encontro promovido pela Associação de Defesa dos Direitos Humanos e Meio Ambiente na Amazônia (ADHMA), realizado de 13 a 16 de julho, no Centro de Formação Emaús, localizado na Rodovia Curuaúna, em Santarém-PA. O evento reuniu cerca de cem pessoas, entre agricultores, comunitários e ribeirinhos que praticam a agroecologia e utilizam a homeopatia no solo, no cuidado com o meio ambiente e com os animais. “Tivemos representantes desde Altamira até a Cachoeira do Aruã”, afirma a coordenadora do Projeto Beth Bruno, a irmã Marialva Oliveira da Costa, SSpS, também integrante da comissão organizadora do encontro. O Projeto Beth Bruno foi criado em 2010, com a finalidade de capacitar lideranças comunitárias e agentes multiplicadores de saúde para que atuassem no cuidado de quem vive em comunidades, utilizando as práticas integrativas e complementares. Irmã Marinalva relata que, nos quatro dias, houve debates, troca de experiências acerca do uso da homeopatia na agroecologia. “Quando falamos de agroecologia, temos que pensar na totalidade. Não tem como fazer agroecologia sem pensar na ‘casa comum’ em que nós vivemos: com todos os seres vivos que nela habitam: terra, água, animais e as pessoas. A homeopatia tem essa visão do todo”, explica. O encontro contou com a participação de diversas entidades ligadas a movimentos sociais, entre elas a Associação Brasileira de Homeopatia Popular (ABHP), cuja missão é proporcionar aos agentes populares espaços de formação de educadores em saúde, com o objetivo de apoiar a troca do conhecimento técnico e do produzido no meio popular, para criar novas relações com a natureza, gerando mudanças na sociedade. Além dos debates e das trocas de experiências, os participantes também puderam apreciar apresentações culturais e celebrações religiosas. Lenne SantosDoutora em Jornalismo e Estudos Mediáticos pela Universidade Fernando Pessoa (UFP), jornalista da Universidade Federal do Oeste do Pará (Santarém), colaboradora no Projeto Beth Bruno.

Conservação e preservação de nossa casa comum

As Ciências da Vida diferenciam “conservação” e “preservação” quando associadas à natureza ou discussões ambientais. O primeiro termo está ligado à conservação da biodiversidade e da ecologia. Em tal abordagem, os ecossistemas incluem espécies naturais, permitindo, entretanto, o uso sustentável e a participação humana, desde que orientada para a proteção, o uso racional e as gerações futuras. Já a segunda visão abrange a preservação das espécies, ecossistemas, biomas, diversidade genética, em uma perspectiva na qual o mundo natural não está à disposição dos humanos. Concebe a proteção da natureza para além do valor utilitário e econômico e visa à perenidade e à proteção integral. Ambos os significados são relevantes e pertinentes. Conservação, por possibilitar o uso sustentável, por considerar a participação humana; e preservação, por causa do valor atribuído à biodiversidade para além do utilitário, pelo compromisso com a proteção integral. Para que o cuidado com a conservação e a preservação de condições de vida na terra extrapolasse o campo das Ciências da Vida, foi percorrido um longo caminho. No trajeto, foram publicadas várias obras centradas no tema, especialmente entre as décadas de 1960 e 1970, quando nossa pegada ecológica já se fazia evidente. A hipótese de “Gaia”, tão presente nos textos de Leonardo Boff, foi formulada por Lovelock em 1969 e publicada em 1979. Para ilustrar a delicadeza, a beleza e a fragilidade do planeta, Lovelock valeu-se de uma imagem produzida um pouco antes: o planeta azul imerso no cosmos, registrado do espaço em sua primeira fotografia colorida. A partir de suas investigações sobre a biosfera, o cientista intuiu que todos os seres vivos e elementos materiais da superfície da terra constituíam uma comunidade, um megaorganismo, que, “inconscientemente”, afinava-se para manter o planeta como um sistema viável para a vida. Em sua percepção, nós, humanos, não teríamos direitos especiais, mas obrigações para com a preservação do equilíbrio do sistema, uma vez que nosso destino está conectado com o impacto de nossas ações sobre a terra. O cuidado requerido pela terra, presente em “Gaia”, também foi abordado em conferências sobre o desenvolvimento e meio ambiente, como aquelas sediadas em Estocolmo (1972), Belgrado (1975), Tbilisi (1977), Moscou (1987), Rio de Janeiro (1992 e 2012), além de orientar as conferências climáticas anuais e documentos como a Agenda 21 e a Agenda 2030. Em tais ações, nem sempre a dimensão social e ambiental consegue sobreposição à agenda econômica, o que traz ainda mais relevância à Segunda Encíclica do Papa Francisco (2015), “Laudato si’: sobre o cuidado da casa comum”. A Organização das Nações Unidas instituiu 28 de julho como Dia Mundial de Conservação da Natureza. É mais uma oportunidade para que a Equipe de Comunicação das SSpS Brasil reafirme seu compromisso de missionariedade com o uso sustentável de recursos, a valorização da biodiversidade em uma dimensão não utilitária e o cuidado integral com o planeta e a vida. ReferênciasAGENDA 2030. Plataforma agenda 2030. Disponível em: http://www.agenda2030.com.br. Acesso em: 6 jan. 2021.BOFF, Leonardo. Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela Terra. Petrópolis: Vozes, 1999.EVERLING, Marli; KAHLMEYER-MERTENS, Roberto S. Design, educação ambiental e ser-no-mundo: elementos para uma hermenêutica da complexidade e da sustentabilidade. In: Confluências Culturais; Dossier Nossa vida, nosso planeta, nossa saúde, Joinville, v. 11, n. 2. P. 58-71, 2022. Disponível em: http://periodicos.univille.br/index.php/RCC/article/view/1809/1524. Acesso em: 17 jul. 2023.FRANCO, José Luiz de Andrade. O conceito de biodiversidade e a história da biologia da conservação: da preservação da wilderness à conservação da biodiversidade. História, Franca, v. 32, n. 2, p. 21-48, jul./dez. 2013. Acesso em: 8 jan. 2021.LOVELOCK, James. Gaia: a new look at life on Earth. Oxford: Oxford University Press, 1979.MOREIRA, Catarina. Biosfera. In: Revista de Ciência Elementar,Porto, v. 3, n. 2, jun. 2015. Disponível em: https://rce.casadasciencias.org/rceapp/pdf/2015/113/. Acesso em: 17 jul. 2023.PADUA, Suzana. Afinal, qual a diferença entre conservação e preservação? In: Jornal Eco, 2 fev. 2006. Disponível em: https://www.oeco.org.br/colunas/18246-oeco-15564/#:~:text=Conserva%C3%A7%C3%A3o%2C%20nas%20leis%20brasileiras%2C%20significa,integral%2C%20a%20%E2%80%9Cintocabilidade%E2%80%9D. Acesso em: 15 abr. 2021.PAPA FRANCISCO. Laudato si’: sobre o cuidado da casa comum. In: Vatican.va, 24 maio 2015. Disponível em: https://www.vatican.va/content/dam/francesco/pdf/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si_po.pdf&ved=2ahUKEwjXkvHWspOAAxXKIbkGHTF6ATQQFnoECDoQAQ&usg=AOvVaw2u7wRcx62LzwHk1PDCrwCY. Acesso em: 15 abr. 2021. Marli Teresinha EverlingProfessora nos cursos de Graduação e Pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville (Univille), coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica, colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental (caranguejo.org.br), colaboradora do blog SSpS Brasil para temas ambientais (blog.ssps.org.br), colaboradora das redes sociais do design para temas ambientais. Instagram: @designuniville

Fardos pesados X fardos leves

A psicologia e a religião, historicamente, sempre tiverem embates. O pai da psicologia, Freud, considerava a religião como uma muleta para o ser humano lidar com o medo. Há preconceito dos dois lados. Parte também de religiosos, em geral, em relação à psicologia. No entanto, na história, houve psicólogos cristãos que contrariaram Freud e provaram que é possível usar a espiritualidade como ferramenta de cura. O mais conhecido deles é o neuropsicólogo Victor Frankl, o fundador da logoterapia, contemporâneo de Freud. Ele nasceu em 1905 e faleceu em 1997. Como ele, muitos outros reconhecem, nos ensinamentos de Cristo, elementos da psicologia. O escritor e religioso americano Mark W. Baker tornou-se muito conhecido ao publicar uma obra na qual reconhece a psicologia na atuação de Jesus. A obra, muito conhecida pelos brasileiros, chama-se Jesus, o maior psicólogo que existiu, publicado no País pela Editora Sextante, em 2005. Como psicólogo cristão, eu também encontro, em minhas reflexões dominicais dos evangelhos, elementos que podem ser usados como psicoterapia na busca da cura da alma. Tenho sempre a preocupação de não relativizar nem uma, nem outra: religião e psicologia. Assim, neste artigo, eu gostaria de apresentar minha reflexão sobre uma passagem bíblica que se encontra no Evangelho de Mateus (11,25-30). Esse texto narra que Jesus louva o Pai, Deus, por ter revelado (tirado o véu dos olhos) algumas coisas aos pequeninos, aquilo que os intelectuais da época não puderam compreender, pois estavam cheios da ciência da Lei antiga. Em seguida, Jesus faz um convite: “Vinde a mim, todos vós que estais cansados e fatigados pelo peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso”. Que fardos seriam esses? Sabemos que um fardo de materiais, principalmente cereais e alimentos, conforme os carregamos, tornam-se pesados. Por exemplo, um fardo de algodão ou de arroz, ou de feijão, ou de farinha pode começar pesando 60 quilos, mas, enquanto o carregamos, ele pode dar a sensação de pesar muito mais. Quanto mais tempo o carregarmos, mais pesado pode parecer. Olhando os sofrimentos da alma que as pessoas trazem até ao atendimento de psicoterapia, assim como ao atendimento do confessionário, posso associá-los metaforicamente a esses fardos mencionados por Jesus. Um fardo muito comum que as pessoas carregam por anos é o fardo da mágoa. A falta de perdão e a falta de ser perdoada pesam em tudo o que a pessoa faz. Alguns persistem por anos, até décadas. A doença da alma então se transforma em doenças físicas, somáticas, neuróticas. Tais pessoas se queixam de doenças, no entanto os exames laboratoriais não confirmam os lamentos. Há ainda outro fardo muito presente nos pacientes hoje. Trata-se da ansiedade. Essas pessoas vivem focadas no medo do futuro, do que de ruim possa acontecer. É difícil convencê-las de que o “perigo” é imaginário. Esse fardo se torna tão pesado que se transforma em alergias, quedas de cabelo, taquicardia, tremores, insônias, falta de apetite. Muitas vezes, desencadeiam uma depressão leve, moderada ou grave. Um terceiro fardo que gostaria de mencionar é o fardo da necessidade de visibilidade. Alguns pacientes têm medo de perder admiradores, seguidores, curtidores, etc. Por esse motivo, perdem o sono, perdem a paz. É uma mistura de vaidade, narcisismo e vazio interior. Isso pode evoluir a um quadro de arrogância, prepotência. Alternativa oferecida por Jesus E qual seria o fardo leve que Jesus oferece com alternativa a esses fardos pesados? Para o primeiro fardo, o das feridas produzidas pela mágoa, pela falta de perdão, Jesus propõe o oposto: o perdão. Um perdão sem limites. Ele afirma: “Não perdoe só sete vezes, mas setenta vezes sete vezes” (Mateus 18,21-22). Ensina ainda: “Se seu irmão tiver alguma coisa contra você, deixe a tua oferta e vá se reconciliar com ele enquanto ainda há tempo”. Quem já perdoou sabe a verdade dessas palavras. Após uma reconciliação, um reconhecimento de suas falhas, as pessoas sentem certa leveza. Após uma confissão, por meio do sacramento da reconciliação, a alegria se torna contagiante. Para o fardo da ansiedade, o Mestre propõe o fardo leve: “Por isso vos digo: não andeis cuidadosos quanto à vossa vida, pelo que haveis de comer ou pelo que haveis de beber; nem quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de vestir. Não é a vida maior que o mantimento, e o corpo mais do que o vestuário? A cada dia basta a sua preocupação” (Mateus 6,25-34). Para o terceiro fardo mencionado, o do desejo de visibilidade, Jesus adverte: “Sabeis que os chefes das nações a dominam e os grandes fazem sentir seu poder. Entre vós, não deve ser assim. Quem quiser ser o primeiro entre vós seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o maior entre vós seja o vosso escravo” (Mateus 20,20-28). “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração” (Mateus 11,29). Com esta reflexão, penso que se pode desvelar, revelar, tirar o véu a respeito da importância da espiritualidade e da religião como aliada da psicologia. Revela que a religião não é cafona, antiga, retrógrada, alienada, como muitos críticos o afirmam. Há muitas outras passagens bíblicas em que Jesus convida o ser humano a olhar para dentro de si mesmo, deixando-o livre para segui-lo ou não. Para aceitar sua ajuda ou não. Muitas vezes, ao afirmar “A tua fé te salvou”, ou “O que você quer que eu faça?”, Ele atua como um psicoterapeuta que leva o paciente a elaborar seus conteúdos. Como Ele próprio afirmava sempre, “Não tenha medo”. Faça uma sessão de terapia com o maior psicólogo que existiu. Não custa nada. Pe. Aparecido Luiz de SouzaMissionário do Verbo Divino e psicólogo.

Conectando caminhos: o câncer e a sua interface psicológica e espiritual

“Um buraco sob meus pés.” Foi assim que, por incontáveis vezes, ouvi pacientes descreverem o momento exato em que receberam a notícia de diagnóstico de um câncer. De imediato, o indivíduo rompe com suas convicções até então consolidadas e automaticamente se conecta a uma série de tabus e estigmas que o câncer carrega consigo, principalmente a de estar sentenciado à morte. O medo da morte se apresenta em diferentes facetas. O medo da morte pode conter o medo da solidão, da separação de quem se ama; o medo do desconhecido, da interrupção de planos e sonhos; o medo do que pode acontecer aos que ficam; e, numa visão espiritual, medo do julgamento de seus atos em vida, dependendo de suas concepções religiosas. Cada pessoa teme mais de um aspecto da morte, e isso depende de características intrínsecas ao indivíduo que a enfrenta, seja ele quem esteja morrendo ou uma pessoa a quem estima (Kovács, 1992). Apesar de a notícia carregar o luto pela perda da condição do eu saudável expresso em um intenso sofrimento, a vivência do diagnóstico e tratamento implica em representações totalmente diferentes para cada indivíduo. O impacto não será exclusivo de quem a recebe, mas para todo o seu sistema familiar, exigindo uma reestruturação de planos de todos os envolvidos. É um momento permeado por muito medo da dor, insegurança e muita incerteza. Sentimentos estes, e tantos outros, que raras vezes abandonarão o indivíduo no decorrer de todo o tratamento. A Psicologia, diante da complexidade das demandas emocionais de um paciente oncológico, terá como prioridade a qualidade de vida deste, mas não a terá como exclusividade. É preciso participar ativamente do processo de aceitação e entendimento de todo o caminho que se percorrerá ao longo do tratamento, ajudar para que tenha a percepção acerca de seus recursos internos e estratégias para atenuar o sofrimento, favorecendo o desenvolvimento do conhecimento de suas dimensões psicológicas, sociais e espirituais. É preciso buscar o equilíbrio entre sua condição vulnerável e o gerenciamento de suas emoções adquirindo novas habilidades por meio do estímulo de autonomia e participação ativa diante do tratamento, tornando o indivíduo participativo e apropriado de todo o percurso. Embora o câncer tenha uma forte relação com a ideia de iminência de morte, é preciso favorecer o desenvolvimento de novos significados para o processo mais importante que ocorre no momento: o de viver. Falar sobre a relação e a perspectiva de vida não significa negligenciar a tomada de consciência da proximidade de morte, ao contrário, ao deparar-se com a possibilidade real de finitude, o indivíduo, muitas vezes, é levado a uma reflexão existencial, revendo suas prioridades e ressignificando os valores de sua existência, despertando, em alguns momentos, para o seu desenvolvimento e fortalecimento espiritual. Quando percebemos um indivíduo doente, ele está adoecido em sua totalidade. Não é possível presenciar apenas um corpo doente. É preciso desfocar da doença que tem e considerar toda a sua história de vida, possibilitando uma melhor compreensão da manifestação dos sentimentos relacionados à representação da doença para aquele indivíduo. Ao buscar o desenvolvimento de estratégias de enfrentamento da doença em conjunto com o indivíduo, a abordagem espiritual passa a exercer um papel importante no tratamento. Embora existam fases em que ocorram sentimentos de revolta, tristeza e até mesmo uma sensação de desamparo, os indivíduos tendem a buscar uma aproximação com seus valores e crenças para alívio de dores, perdas e enfrentamento de situações inesperadas. A espiritualidade relaciona a busca por significado e sentido para o adoecimento e sofrimento. Percebe-se a força para a superação, permeada por uma sensação de alívio, coragem e maior aceitação diante das adversidades. Boa parte dos pacientes que vivenciam o câncer demonstram acreditar que sua espiritualidade alimenta a motivação para o enfrentamento ao longo do tratamento. Assim como a espiritualidade, a fé se mostra uma fonte de apoio para conseguir encarar os desafios provocados pelos tratamentos ou até mesmo na possibilidade de conforto diante da proximidade de morte. A fé passa a ser um instrumento não somente para o paciente, mas para a sua família, mantendo uma postura mais positiva diante de todo o sofrimento implicado pela condição da doença. Busca-se, então, não somente o desenvolvimento da espiritualidade do paciente, mas um cuidado pautado naquilo que caracteriza a espiritualidade: humanizar, ouvir, fazer-se presente na dor, sofrimento ou solidão. É acalentar, consolar, flexibilizar e apoiar. Cuidar espiritualmente significa trabalhar com a esperança de cura física, mas se isso não for possível, de reestruturação e resiliência emocional. Cuidar não deve ser um ato técnico e objetivo, estruturado em etapas, procedimentos e técnicas, mas sim uma oportunidade de conduzir seres humanos para melhores direções existenciais. Valorizar constantemente o processo do outro no encontro consigo mesmo e com sua própria finitude. A experiência do adoecer pode se configurar como um acontecimento repleto de sentido, bem como um ganho existencial, pois, quando o homem encontra um sentido para seguir adiante, apesar dos obstáculos inerentes à vida, pode transcender as dificuldades imediatas impostas pelas circunstâncias adversas. Até mesmo na morte o sentido da vida se satisfaz, mobilizado pela ameaça da morte iminente e, consequentemente, pela luta desencadeada em prol da afirmação da vida ao se buscar o sentido da morte e do morrer, contribuindo para enriquecer esse processo com um sentido pleno ante a existência humana (Viktor Frankl). ReferênciasFrankl, V. E. (2003). Psicoterapia e sentido da vida. Quadrante.Kovács, M. J. (1992). Morte e desenvolvimento humano. Casa do Psicólogo. Fernanda Heming Souza MonteiroPsicóloga Clínica e da Saúde, especialista em Oncologia e Hematologia, Porto Alegre-RS.

Perdão em tempos de fragmentação

O que fazer diante do contexto de fragmentação em que vivemos? Sentir-nos afetados por essa situação pode ser um chamado a estar atentos. Isaías nos convida a alargar a tenda de nossa vida, afundando as estacas, para que possam segurar bem a tenda (Is 54,2) Há uma epidemia que silenciosamente se espalha e nos coloca uns contra os outros, criando inimigos e culpados para as crises que vivemos hoje, como humanidade. Essas crises podem chegar a nós como uma ameaça e despertar forças ocultas de violência, movidas pelo medo e instinto de defesa. Por outro lado, temos hoje movimentos que vivem e anunciam o perdão e que também se percebem como uma irradiação que leva cura e transformação ao mundo. O perdão é um deles. Antes de tratar do perdão, olhamos para a vitimização como raiva, ressentimento sedimentado principalmente em nosso inconsciente. No estado de vitimização, a pessoa fica desconectada dos sentimentos da dor e das perdas que sofreu; fica no medo, na baixa autoestima e na repetição de comportamentos compulsivos. Esse ressentimento pode ser projetado para fora de si como vingança em pensamentos, palavras, ações e omissões, achando que isso resolve. Mas a dor reprimida continua pulsando para dentro e para fora de si. A dor não curada atua como um véu através do qual avaliamos, de maneira distorcida, a realidade que nos rodeia e, assim, ficamos projetando condicionamentos de nossa mente, acreditando ter razão e agindo em consequência. É sobre essa energia violenta, alojada em nosso consciente e principalmente em nosso inconsciente, ativada pela manipulação das fake news, dos medos e insegurança de nosso tempo, que pode vir uma das causas das divisões e polarizações que vivemos atualmente. O ressentimento dificulta também aceitar os diferentes modos de ser e viver; dificulta lidar com a pluralidade o que explica a intolerância presente em nossos dias. Estamos ante um chamado a tomar consciência e discernir nossas escolhas. Perdão é uma escolha que pode resgatar nossa profunda dignidade e conduzir-nos ao que realmente somos em nossa essência. Perdão, para Robin Casarjian,1 é uma decisão, um processo e um modo de vida. A palavra “per-dão” significa doar, doar a dor que pede passagem para ser liberada; desapego do que nos prende ao ressentimento. Nas Escolas de Perdão e Reconciliação,2 é oferecida a possibilidade de fazer um exercício sobre esse processo que permite olhar-se como vítima, num espaço seguro onde a dor é reconhecida, acolhida e compreendida. Temos dificuldade de entrar em relação com a dor causada pelas ofensas e expressá-la pela necessidade de aparecer bem, não parecer fraco; por medo, vergonha, pelo viver no automático e na inconsciência. O processo do perdão passa pela expressão da dor e pede a habilidade de olhar para dentro de nós, conhecer-nos, perdoar-nos e amar-nos; um processo que nos leva à autocompaixão conosco e, ao mesmo tempo, com as outras pessoas; um caminho que nos conduz a descobrir quem somos. Essa é uma possibilidade de alargar nossa tenda e fincar mais profundamente as estacas na imagem que nos apresenta o profeta Isaías. É um chamado fundamental diante da ameaça de nos considerarmos bons e projetar no outro, no diferente, o que escondemos de nós mesmos e atribuir aos outros a causa dos males do mundo, e, assim, justificar a violência até em nome de Deus, como estamos vendo em nosso tempo. Perdoar nos permite avançar como humanidade, viver com mais saúde, liberdade e felicidade; permite ser criadores da história no momento presente, único em que podemos escolher a vida e o amor. Recentemente celebramos a Páscoa, passagem da morte para a vida, festa do perdão; grande convite a olhar-nos como Deus nos olha. Notas1 Casarjian, Robin. O livro do perdão. Rio de Janeiro: Rocco, 1994.2 Escolas de Perdão e Reconciliação (Espere). Há vinte anos, nasceram na Colômbia e logo se espalharam por vários países da América Latina, chegando também ao Brasil. Irmã Martina Maria González Garcia, SSpS

Comunicadores SSpS Brasil têm primeiro encontro presencial

As palavras corpo, presença e conexão ganharam novo sentido durante o primeiro encontro da equipe de comunicação SSpS Brasil, realizado de 19 a 22 de maio, no Convento Espírito Santo, em Ponta Grossa-PR. É que, para os integrantes deste grupo de trabalho, consolidado em 2022, esta foi a primeira oportunidade de estarem juntos sem depender de ambientes de reunião on-line. “Quando propuseram que disséssemos uma palavra sobre o encontro, logo me veio ao peito a palavra ‘encarnação’. Até então, nós nos conhecíamos apenas pelas janelinhas das reuniões virtuais ou pelos textos recebidos por e-mail. Ao nos encontrar pessoalmente, percebemos até a diversidade física da equipe. Definitivamente, nada substitui o contato face a face”, comenta o diácono Alessandro Faleiro Marques, revisor da equipe SSpS Brasil. E corpo, presença e conexão também seguiram como uma constante ao longo de toda a programação, não somente como tema nos momentos de formação, mas também em dinâmicas de espiritualidade e nas visitas realizadas nas comunidades missionárias da cidade paranaense. O corpo e a mídia em estudo A participação on-line do missionário verbita irmão Paulo de Lima colocou em prática todos os três tipos de mídia abordados por ele no momento formativo intitulado: “E o verbo se fez mídia”. Com base na teoria das mídias, irmão Paulinho explicou que a mídia primária exige a presença de emissores e receptores em um mesmo espaço físico e em um mesmo tempo. Nesse sentido, a possibilidade de diálogo entre os integrantes da equipe de comunicação SSpS Brasil frente a frente é uma amostra disso. “O corpo é a primeira forma de comunicação entre as pessoas”, afirmou. Já na mídia secundária, a mensagem se desgarra do emissor e fixa-se em um suporte que permite a interação do receptor sem a presença do emissor. No encontro, isso se evidenciou em textos formativos impressos em papel e nas pinturas dos fundadores SSpS e escultura representando a Trindade que decoravam o ambiente. E a presença remota do irmão Paulinho, exibida em telão, ilustrou a grande mídia terciária de nosso tempo, caracterizada pela eletricidade e que abre outras possibilidades de geração, transmissão e conservação de mensagens. Além da teoria das mídias, ele apresentou um resgate histórico das publicações das congregações da Família Arnaldina, evidenciando o papel de Santo Arnaldo Janssen na produção e na divulgação da atividade missionária no mundo. Com isso, provocou a equipe de comunicação SSpS Brasil a articular o testemunho e o anúncio do Evangelho nas mídias digitais, buscando valorizar a interatividade com os públicos e o uso de novos meios. Missão On-line Diretamente de Roma, a irmã Ana Elídia participou remotamente do encontro SSpS Brasil, falando sobre o Manual de Comunicação da Congregação SSpS e o projeto Missão On-line. Ela destacou que o uso de ferramentas comunicacionais melhora a expressão missionária, tendo papel importante na vida da Congregação em todo o mundo. “O Manual de Comunicação SSpS nos convida a estar presentes e a tornar todas as vivências missionárias acessíveis às pessoas”, afirmou. Segundo ela, a comunicação institucional SSpS tem avançado para se consolidar em missão on-line, a fim de provocar uma transformação na prática missionária. “Todo o trabalho de relações humanas traz o testemunho dos valores da Missão. Tudo o que se faz na missão é parte do Evangelho. Por isso, devemos mostrar o sentido de tudo isso por meio dos meios de comunicação”, justificou. A irmã Ana Elídia ainda convidou os comunicadores SSpS Brasil a colocarem em prática quatro palavras-chave: 1) refletir: reservando tempo para pensar o fazer missionário; 2) descobrir: buscando saber como usar novas ferramentas comunicacionais; 3) partilhar: distribuindo a informação de forma consciente e criteriosa; 4) publicar: utilizando-se dos meios de comunicação disponíveis. Planejamento estratégico Uma das atividades realizadas em conjunto, durante o encontro em Ponta Grossa, foi a revisão do Planejamento Estratégico de Comunicação SSpS Brasil. Conduzida pela irmã Fátima Marques, a tarefa buscou avaliar a clareza do texto final formulado com base nos planos originais das províncias Brasil Sul e Brasil Norte. A tônica desse documento único é orientar a forma como a atividade missionária será comunicada aos diferentes públicos com os quais as irmãs SSpS interagem em todo o País. Ainda no encontro, foram revisitados os itens do planejamento já colocados em prática. Um deles é a unificação da identidade visual das províncias Brasil Sul e Brasil Norte como SSpS Brasil, que teve o conceito desenvolvido em conjunto pela irmã Zélia Cordeiro, Agostinho Travençolo Júnior e Gabriel Grecco. “A nova logomarca foi criada usando elementos visuais dos ícones das duas províncias, traduzindo muito bem essa unificação”, avalia Gabriel Grecco, responsável pela criação da arte. As redes sociais de cada Província também já foram consolidadas como SSpS Brasil no Facebook, Instagram e Youtube. A fusão fez com que todos os que seguiam a rede de uma província ou de outra formassem um só público, consumindo o mesmo conteúdo em contexto de Brasil. Isso ampliou o número de seguidores e, consequentemente, também aumentou o engajamento. O blog SSpS Brasil (blog.ssps.org.br) é outro exemplo positivo da unificação da equipe de comunicação e da publicação em um canal único na internet. “O blog reúne vozes diferentes e temas diversos. Hoje temos uma estrutura muito mais sólida, com a colaboração de várias pessoas, que escrevem artigos sobre temas diversos e comentários dos evangelhos. Os acessos ao blog aumentaram cinco vezes em relação aos números antes da fusão”, assinala Gabriel. A formação da equipe de comunicação SSpS Brasil, em abril de 2022, também foi relembrada como um passo importante dentro do planejamento estratégico. Antes disso, cada Província tinha a própria estrutura. “Quando assumi como coordenadora do serviço de comunicação das duas províncias, passamos a ter uma única equipe representada por irmãs e leigos das duas Províncias”, comenta irmã Zélia Cordeiro. Pertencimento e direcionamento O encontro teve a presença de três colunistas do blog SSpS Brasil: Maria Terezinha Corrêa, Marli Teresinha Everling e Maria José Brant, conhecida por Deka. Para elas, o convite para participar dos momentos de formação e de revisão do Planejamento Estratégico de Comunicação SSpS

A revolução da inteligência artificial

A inteligência artificial (IA) tornou-se uma das tecnologias mais importantes e disruptivas de nosso tempo. Desde seu surgimento, a ela evoluiu rapidamente e desempenha um papel importante na transformação de vários setores da sociedade, como educação, saúde, indústria, transporte, comunicação, serviços, entre outros. Essa revolução alavancada pela IA tem o potencial de trazer mudanças significativas na maneira como vivemos, trabalhamos e nos relacionamos, criando uma série de novas oportunidades e desafios em todo o mundo. Uma das principais características da IA é a capacidade de aprender e adaptar-se com base em um grande volume de dados. Algoritmos avançados, como redes neurais artificiais, machine learning e deep learning, permitem que as ferramentas de IA processem grandes volumes de informações, identifiquem padrões e apresentem soluções baseadas em dados, de maneira semelhante aos humanos. Na área da saúde, por exemplo, a IA está revolucionando diagnósticos médicos. Ferramentas de IA podem analisar exames de imagem, como raios X e ressonâncias magnéticas, contribuindo para o diagnóstico precoce de doenças. Na indústria, robôs e sistemas autônomos são utilizados em fábricas e cadeias de suprimentos para executar tarefas repetitivas e perigosas, aumentando a produtividade e reduzindo o risco para os trabalhadores. Além disso, ferramentas de otimização são aplicadas para melhorar o planejamento da produção, reduzir custos e melhorar o uso de recursos. Ela também é usada para prever falhas de equipamentos, permitir manutenção preditiva e evitar interrupções não planejadas na produção. Essas inovações fazem parte de uma nova onda na industrialização, conhecida como “indústria 4.0”. No transporte, os veículos autônomos já são realidade graças aos avanços nos sistemas computacionais e de tomada de decisão, baseados em IA. Esses veículos são capazes de analisar seus arredores, identificar objetos, tomar decisões de direção e evitar colisões. Além disso, ela é usada para melhorar o gerenciamento de tráfego, reduzir o congestionamento e aperfeiçoar sistemas de transporte público. Nas finanças, algumas ferramentas de IA são utilizadas para analisar dados financeiros, identificar padrões de fraude, decidir sobre investimento e gerenciar riscos. Além disso, algumas instituições financeiras usam assistentes virtuais de atendimento e para detectar tendências de mercado, permitindo que prestem serviços mais personalizados e eficientes. Embora a IA proporcione inúmeras oportunidades, também levanta diversas preocupações e desafios. Questões éticas, como a privacidade dos dados e a manipulação, precisam ser abordadas para garantir que a IA seja utilizada de forma responsável e justa. Além disso, a substituição de empregos por ferramentas de IA levantam preocupações sobre o impacto social e a necessidade de requalificação profissional. Observação: parte deste artigo foi elaborada com a ajuda de ferramenta de inteligência artificial. Júlio César StadlerAdministrador, analista de sistemas, estudante de Engenharia Mecatrônica e professor, 25 anos de experiência em tecnologia da informação.

Erradicação da tortura: hora de educar nossas consciências

O artigo 5º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, promulgada em 10 de dezembro de 1948, estabelece que “ninguém será submetido à tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes”, independentemente da cor, do sexo, da religião, do idioma. Mas como identificar a tortura no meio social, ainda hoje? Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), “a tortura é a imposição de dor física ou psicológica a uma pessoa para obter confissões”. A prática da tortura tem vários motivos: sexual, racial, político, religioso ou todos esses juntos. Infelizmente, desde a chegada dos portugueses ao Brasil, em 1500, a tortura é usada como prática para obter uma confissão. A exploração dos indígenas ou povos originários e mais a escravidão do povo negro, forçadamente trazido da África como mercadoria, marca a crueldade histórica do País. Muitos outros países têm histórias de guerras sangrentas desde a Antiguidade, as quais se mantêm hoje, fato a que assistimos pelos meios de comunicação. Diversas instituições legais, tanto nacionais quanto internacionais, utilizaram e ainda usam de violência política, insurreições, atos terroristas, guerrilhas… A guerra da Rússia contra a Ucrânia, que submete a população civil a uma situação lamentável, policiais que abusam do poder contra indivíduos já indefesos, maus-tratos, superlotação nas prisões… Até quando veremos essas situações? Dia 26 de junho é a data instituída pela ONU, em 1997, para celebrar o Dia Internacional de Apoio às Vítimas da Tortura, recordando a Convenção Contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis. Toda violação e ações contrárias à vida podem ser uma submissão à tortura. Para garantirmos a vida humana, é necessário denunciar ao Ministério Pública e ao Conselho Estadual dos Direitos Humanos e demais grupos de combate à tortura. Procuremos educar nossa consciência para erradicar a tortura das relações pessoais e sociais. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, filiada à ABA, APEOESP, SBPC, Sintran e membro da APROFFIB.

Junho e as vozes da ecologia e do meio ambiente

O mês de junho vem acompanhado de várias notas para reverenciar e cuidar da nossa casa comum, a Terra. Além de temas como educação ambiental, meio ambiente, ecologia, oceanos, vida no mar, mudanças climáticas como seca e desertificação, é o mês que demarca o início do inverno, com o dia mais curto do ano, demonstrando delicada relação de equilíbrio como Cosmos que afeta a organização de nosso dia a dia, do vestuário e alimentação até nossas horas de sono. Ao prestigiar o Dia Mundial do Meio Ambiente, dias depois de o Congresso Nacional mutilar o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, a ministra Marina Silva destacou: Hoje é dia de termos consciência de que nosso tempo para agir está se esgotando e assumirmos definitivamente o que a ciência nos diz: ou respeitamos a natureza, e fazemos dela uma aliada, ou inviabilizaremos nosso futuro. Por tudo isso, faço desta data um convite para nos unirmos numa inadiável missão: a de tratar a natureza da forma correta, num esforço em benefício da nossa e das futuras gerações. A voz de Marina não ecoa solitária nesse cenário de crise ecológica. À sua convocação somam-se a sabedoria indígena, representada por Ailton Krenak; a tese do cuidado, defendida escritor e teólogo Leonardo Boff; e as orientações da Encíclica do Papa Francisco (2015), Laudato si’: sobre o cuidado da casa comum. Nesse documento, o Papa convoca: Precisamos de um debate que nos una a todos, porque o desafio ambiental que vivemos e as suas raízes humanas dizem respeito e têm impacto sobre todos nós. O movimento ecológico mundial já percorreu um longo e rico caminho, tendo gerado numerosas agregações de cidadãos que ajudaram na consciencialização. Infelizmente, muitos esforços na busca de soluções concretas para a crise ambiental acabam, com frequência, frustrados não só pela recusa dos poderosos, mas também pelo desinteresse dos outros. As atitudes que dificultam os caminhos de solução, mesmo entre os crentes, vão da negação do problema à indiferença, à resignação acomodada ou à confiança cega nas soluções técnicas. Precisamos de nova solidariedade universal. Como disseram os bispos da África do Sul, “são necessários os talentos e o envolvimento de todos para reparar o dano causado pelos humanos sobre a criação de Deus”. Todos podemos colaborar, como instrumentos de Deus, no cuidado da criação, cada um a partir da sua cultura, experiência, iniciativas e capacidades. É importante destacar, não só no mês de junho, que a Laudato si’ passa por questões urgentes, como poluição, resíduos e cultura do descarte; clima como bem comum; água; perda da biodiversidade; desigualdade planetária; deterioração da qualidade de vida humana e degradação social. Além disso, o Pontífice chama a atenção para a relação tecnologia, criatividade e poder; a fraqueza das reações; a globalização do paradigma tecnocrático; as consequências decorrentes da crise gerada pelo antropocentrismo moderno. A Encíclica situa a ecologia como tema central, relacionando-a com questões ambientais, econômicas, sociais, culturais e a vida cotidiana; defende o princípio do bem comum e da justiça intergeracional. O Papa Francisco apresenta orientações para ação fundamentadas no diálogo e na educação. O diálogo é considerado estratégia para desafios ambientais, política internacional, novas políticas nacionais e locais, transparência nos processos decisórios, interação entre política e economia para a plenitude humana, e relação entre religiões e ciências. Educação e espiritualidade ecológicas, por sua vez, devem guiar para outro estilo de vida, para a conversão ecológica, para a aliança entre a humanidade e o ambiente. O Papa finaliza propondo duas orações: a primeira pela nossa Terra, a segunda pela criação, fechando a Encíclica com as palavras: Deus de amor,mostrai-nos o nosso lugar neste mundocomo instrumentos do vosso carinhopor todos os seres desta terra,porque nem um deles sequeré esquecido por Vós.Iluminai os donos do poder e do dinheiropara que não caiam no pecado da indiferença,amem o bem comum, promovam os fracos,e cuidem deste mundo que habitamos.Os pobres e a terra estão bradando:Senhor, tomai-nossob o vosso poder e a vossa luz,para proteger cada vida,para preparar um futuro melhor,para que venha o vosso Reinode justiça, paz, amor e beleza.Louvado sejais!Amém. ___________________________________ ReferênciasSILVA, M. Pronunciamento da ministra do Meio Ambiente e Mudanças do Clima, Marina Silva, em rede de rádio e televisão, por ocasião do Dia Mundial do Meio Ambiente, em 5 de junho de 2023. Disponível em: https://www.gov.br/mma/pt-br/assuntos/noticias/nosso-tempo-para-agir-esta-se-esgotando-diz-marina-silva-em-pronunciamento-do-dia-mundial-do-meio-ambiente. Acesso em: 13 jun. 2023. DICASTÉRIO PARA O SERVIÇO DO DESENVOLVIMENTO HUMANO INTEGRAL; STOCKHOLM ENVIRONMENTAL INSTITUTE. A nossa casa comum: um guia para cuidar do nosso planeta vivo. Disponível em: https://www.sei.org/wp-content/uploads/2022/11/a-nossa-casa-comum-sei-vatican-20221128.pdf. Acesso em: 14 jun. 2023. __________________________________ Marli Teresinha EverlingProfessora dos cursos de Graduação e Pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville (Univille); coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica; colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental (caranguejo.org.br); colaboradora do blog SSpS para temas ambientais; colaboradora das redes sociais do design para temas ambientais – Instagram (@designuniville).

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