Gentileza: crianças enviam cartas para idosos

Consideradas um dos meios de comunicação mais antigos do mundo, as cartas perduraram como principal veículo de informações a distância por muitos séculos. Entretanto, a chegada do telefone, em 1870, provocou mudanças na cultura da escrita de cartas, mesmo que continuassem a contribuir para que as pessoas se comunicassem e expressassem seus sentimentos, desejos, projetos e desabafos. No entanto, no século XXI, com a internet e a divulgação das redes sociais, o que era escrito em folhas de papel passou a ser digitalizado em telas dos smartphones, tablets e computadores, e as pessoas que viveram grande parte de suas vidas fora da Era Digital e hoje moram em lares de idosos viram-se, muitas vezes, impedidas de escrever e receber cartas, aumentando, por exemplo, a solidão e sensação de abandono. Assim, a Prefeitura de Belo Horizonte-MG, em parceria com o Movimento Gentileza, lançou, no dia 22 de outubro, o projeto “Cartas para você”. O objetivo é promover um intercâmbio geracional entre crianças, jovens e idosos, além de permitir o desenvolvimento de um elo afetivo por meio de cartas manuscritas. O Colégio Sagrado Coração foi convidado a participar da iniciativa, representando as escolas privadas de Belo Horizonte. Assim, 413 crianças e adolescentes dedicaram um tempo para escrever uma carta para uma idosa ou idoso, compartilhando histórias, sentimentos e sonhos. As mensagens, por sua vez, foram entregues pelos correios, reacendendo nos idosos residentes em 28 lares da capital mineira as memórias dos tempos em que as cartas eram esperadas ansiosamente, pois traziam notícias de pessoas amadas e que viviam longe. Cerimônia de lançamento Os alunos Maria Luiza Vanucci Ferreira, Rafaela Andrade Alves, Nicole Cunha Ribeiro e João Freire Villela participaram da cerimônia de lançamento do projeto, no salão nobre da Prefeitura. “Abro meu coração quando escrevo uma carta”, revelou a aluna Maria Luiza, em depoimento ao Jornal Estado de Minas. Em paralelo a esse depoimento, recordarmos um dos pensamentos de Madre Josefa, uma das fundadoras da Congregação da Missionárias Servas do Espírito Santo que norteia a filosofia dos colégios: “Nossa missão é abrir os corações ao amor”. Com isso, esperamos que as cartas levem ânimo, alegria e carinho aos corações dos idosos e idosas dos 28 lares, como os residentes do Lar Nossa Senhora da Saúde. Assim nos escreveu a assistente social Juliana Moreira: “Recebemos as cartas aqui no lar, e os idosos adoraram. Ficaram muito felizes e interessados ao abrir a carta e poder ter contato com essas crianças maravilhosas do Colégio Coração de Jesus, do 6º ano”. Escrever uma carta é um gesto significativo de gentileza, mas existem muitos outros. Nossos alunos fizeram a parte deles. Agora é sua vez de também espalhar gentileza, cumprindo o que Madre Josefa nos deixou como legado: “Abrir os corações ao amor”! Simone Fortunato NunesCoordenadora da Pastoral Missionáriado Colégio Sagrado Coração de Jesus ________ Assista ao vídeo publicado pelo Jornal Minas:

Mês Missionário Extraordinário: desafio agora é manter viva a chama

Dioceses, paróquias, congregações e outras comunidades católicas de todo o mundo continuam a apurar os frutos do Mês Missionário Extraordinário, celebrado em outubro deste ano, depois de convocação do Papa Francisco. A proposta foi recordar os cem anos da Carta Apostólica “Maximum illud”, publicada pelo Papa Bento XV, que tratava da atividade desenvolvida pelos missionários no mundo, e reforçar o dever que todo cristão tem de anunciar Cristo. Com o tema central “Batizados e enviados: a Igreja de Cristo e missão no mundo”, o Mês Extraordinário Missionário não se tratou de uma mera estratégia de propaganda. A intenção era de incentivar que cada batizado pudesse primeiramente experimentar um novo e apaixonado encontro com Jesus, para só então transmitir a Boa-Nova aos outros. Ações foram desenvolvidas em todos os continentes. Em alguns lugares, no Brasil e no exterior, falou-se em “Ano Extraordinário Missionário”, pois as reflexões e atividades ocorreram ao longo de meses. A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) ainda faz um balanço das ações, mas Dom Odelir José Magri, presidente da Comissão Episcopal para a Animação Missionária e Cooperação Intereclesial, adianta que a iniciativa foi bem-sucedida. Para ele, o Mês Missionário foi abraçado pelas dioceses, paróquias e comunidades do País e ajudou a aumentar a consciência missionária na Igreja. Em saída Falou-se, mais do que nunca, em “Igreja em saída”. A expressão foi usada pelo Papa Francisco na Exortação Apostólica “Evangelii gaudium”, publicada em 2013, mesmo ano em que assumiu a cadeira de Pedro. Diferentemente do que logo se possa pensar, a expressão vai muito além do ir de porta em porta realizando atividades pastorais. Cada batizado é representante legítimo da Igreja, parte de seu corpo. Por isso, agir como Jesus, seja em qualquer lugar, é um importante modo de evangelizar, de ser Igreja. Pais e mães de família, trabalhadores, jovens, mulheres, idosos e mesmo as crianças podem anunciar Cristo por onde passam, tanto em palavras, quanto e principalmente em atitudes. As ações organizadas de evangelização, contudo, têm papel importante. Ao longo do Mês Missionário Extraordinário, diversos grupos visitaram famílias, comunidades carentes, hospitais, escolas, presídios e até empresas para conhecer as diferentes realidades e levar a mensagem cristã. O mesmo ocorreu nas comunidades animadas pelas missionárias servas do Espírito Santo e por outros ramos da Família Arnaldina. A preocupação agora, segundo Dom Odelir, é manter vivo o fogo aceso no Mês Missionário. Discípulo com os discípulos Na homilia proferida na missa pelo Dia das Missões, em 20 de outubro, o Papa Francisco recordou o mandado de Jesus de fazer discípulos. “Mas, atenção! Discípulos dele, não nossos. A Igreja só anuncia bem se viver como discípula. E o discípulo segue dia a dia o Mestre e partilha com os outros a alegria do discipulado”, advertiu. O Santo Padre também disse que fazer discípulos não é conquistar, obrigar, fazer prosélitos. Para ele, deve-se colocar ao mesmo nível, discípulo com os discípulos, oferecendo amorosamente o amor recebido de Deus. “Esta é a missão: oferecer ar puro, de alta quota, a quem vive imerso na poluição do mundo; levar à terra aquela paz que nos enche de alegria, sempre que encontramos Jesus no monte, na oração; mostrar, com a vida e mesmo com palavras, que Deus ama a todos e não se cansa jamais de ninguém”, declarou Francisco. O Santo Padre, recordando a “Evangelii gaudium”, também pediu coragem aos fiéis: “Vá com amor ao encontro de todos, porque a sua vida é uma missão preciosa: não é um peso a suportar, mas um dom a oferecer. Coragem! Sem medo, vamos ao encontro de todos!”. Diácono Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor de Língua Portuguesa de aspirantes e verbitas estrangeiros na Província Brasil Norte, revisor de textos para as irmãs servas do Espírito Santo.

Jornada Mundial dos Pobres

“A esperança dos pobres jamais se frustrará” (Sl 9,19) é a inspiração bíblica para a III Jornada Mundial dos Pobres, que se realizará de 10 a 17 de novembro deste ano. Mas o que é essa jornada e o que ela pretende? O Papa Francisco, após o encerramento do Ano da Misericórdia, em 2016, teve a inspiração de convocar a Jornada Mundial dos Pobres para incentivar as comunidades cristãs e as pessoas de boa vontade a levarem esperança e conforto aos mais necessitados. A jornada é um convite à solidariedade humana e a ações concretas. Na mensagem divulgada pelo Papa, ele afirma que “A opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e lança fora é uma escolha prioritária que os discípulos de Cristo são chamados a abraçar para não trair a credibilidade da Igreja e dar uma esperança concreta a tantos indefesos”. Apesar de todos os avanços tecnológicos que permitem a superação da escassez e a produção de alimentos suficientes para que ninguém passe fome, a pobreza ainda atinge inúmeras pessoas em grande parte de nosso país, pois a riqueza está concentrada em uma quantidade cada vez menor de pessoas. Aumento da pobreza no Brasil De acordo com os dados do Cadastro Único do Ministério da Cidadania, a pobreza extrema no Brasil aumentou e já atinge 13,2 milhões de pessoas. Nos últimos sete anos, mais de 500 mil pessoas entraram em situação de miséria. O Nordeste tem os piores índices, especialmente Piauí, Maranhão e Paraíba. Do ano passado para cá, a extrema pobreza vem aumentando em torno de 10,5% em Roraima e no Rio de Janeiro. No Distrito Federal, o total de famílias inscritas no Cadastro Único, até junho de 2019, era de 158.280, entre as quais 71.091 com renda familiar per capita de até R$ 89,00 por mês. O Brasil já tinha saído do Mapa da Fome em 2014, mas se a situação não melhorar, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) poderá incluí-lo novamente entre os países em que mais de 5% da população consome menos calorias do que o recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2016 e 2017, a pobreza no Brasil passou de 25,7% para 26,5% da população. O número dos extremamente pobres, aqueles que vivem com menos de R$ 140,00 mensais, saltou, no período, de 6,6% para 7,4% dos brasileiros. O que fazer diante disso? Quando a vida está ameaçada, é necessário buscar providências concretas, como dar comida a quem tem fome e ajudar a satisfazer as necessidades básicas, que garantam a sobrevivência. Isso é essencial, mas não o suficiente. Precisamos buscar caminhos para que as pessoas possam viver dignamente. Aí vem o papel das políticas públicas que, de acordo com o texto-base da Campanha da Fraternidade 2019, “São ações discutidas, aprovadas e programadas para que todos os cidadãos possam ter uma vida digna, além de serem soluções específicas para as necessidades e problemas da sociedade. É a ação do Estado que busca garantir a segurança, a ordem, o bem-estar, a dignidade por meio de ações baseadas no direito e na justiça”. O governo, de modo geral, não consegue atender às necessidades da população em extrema pobreza e nem sempre tem políticas públicas adequadas. Por isso inúmeras organizações não governamentais (ONG) e instituições religiosas buscam dar atendimento aos mais pobres. As missionárias servas do Espírito Santo, nos países onde atuamos e, de modo bem concreto, no Brasil, desenvolvemos diferentes projetos na linha da superação da pobreza, entre eles a manutenção de creches em bairros pobres, para que as mães possam trabalhar. Mas também atuamos em nível sistêmico em organizações como a Vivat Internacional e, recentemente, a Vivat Brasil, que tem como uma de suas metas a superação da pobreza. Mas cada pessoa pode fazer a sua parte e encontrar formas concretas de ajudar os pobres: “dando o peixe” quando a fome aperta e “ensinando a pescar”, para que a fome não volte. Combater as causas estruturais que geram a pobreza é o melhor caminho para que todos tenham uma vida digna. Irmã Ana Elídia Caffer Neves, SSpSJornalista, membro da Equipe de Comunicação Congregacional e coordenadora de Comunicação da Província Stella Matutina (BRN) _______

Presença missionária em Papua-Nova Guiné

Papua-Nova Guiné, país da Oceania, é um mundo desconhecido para a maioria dos brasileiros, mas foi um dos primeiros campos de missão das missionárias servas do Espírito Santo (SSpS). Elas estão lá desde 1899. Com uma cultura riquíssima, o país tem três idiomas oficiais e mais de 800 línguas indígenas locais, para se ter uma ideia da variedade de grupos nativos. A população enfrenta problemas sociais, como pobreza, violência, mortalidade infantil, falta de acesso à educação, entre outros. Por isso, além do trabalho pastoral e de anúncio do Evangelho que as irmãs realizam, elas também atuam nas áreas em que há maior necessidade, como escolas, hospitais, maternidades, clínicas itinerantes, atendimento a pessoas com HIV/Aids, promoção da mulher, projetos de desenvolvimento social e de formação nas aldeias. A presença das irmãs em Papua-Nova Guiné motivou os alunos do 2º ano do ensino médio do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP, a produzirem uma peça de teatro sobre a realidade daquele país e encená-la durante a II Semana Sem Fronteiras, realizada no início de outubro. Dada a qualidade do trabalho, os alunos foram convidados para se apresentarem no Centro Missionário Cultural Santíssima Trindade, para o encerramento do Mês Missionário Extraordinário. Encerramento do Mês Missionário No dia do aniversário de nascimento de Santo Arnaldo Janssen, 5 de novembro, o Centro Missionário promoveu um evento para encerrar o Mês Missionário Extraordinário. Estiveram presentes os alunos do Curso de Formação Teológica e Missionária, as irmãs da Comunidade do Convento Santíssima Trindade e Santana, e o grupo de alunos do Colégio Espírito Santo, acompanhados dos professores, para assistir ao teatro sobre Papua-Nova Guiné. A peça, toda montada pelos alunos, apresentou uma jovem que, ao chegar em casa, liga a televisão e assiste a diferentes gêneros de programação, todos sobre Papua-Nova Guiné. Os alunos encenam os programas, mostram danças típicas e incluem documentários, entrevistas e até o depoimento em vídeo de uma missionária brasileira, Ir. Lourdes Hummes, que trabalhou 18 anos naquele país. Depois de uma hora de apresentação, uma terra até então longínqua e desconhecida passou a fazer parte do coração dos que assistiram à peça. Souberam do drama que as mulheres enfrentam, uma vez que, por causa da cultura machista, são vítimas constantes de violência doméstica, estupro e outros crimes. Somente há poucos anos, o país adotou uma legislação que as protege, mas mudanças culturais são lentas, e os homens continuam violentos. Mas o público também viu a beleza de sua natureza, de suas danças e de seus povos. É um país exótico, cheio de mistérios e com muitos desafios. Os 120 anos de presença missionária naquele país certamente estão contribuindo para que as pessoas tenham melhor qualidade de vida, educação, saúde e a oportunidade de conhecer os valores do Evangelho. Irmã Ana Elídia Caffer Neves, SSpSJornalista, membro da Equipe de Comunicação Congregacional e coordenadora de Comunicação da Província Stella Matutina (BRN) _______

O encontro que me enviou em missão (Mateus 28,1-10)

O Sínodo da Amazônia tem despertado grande interesse nos cristãos e na sociedade em geral. A cada dia, assistimos a inúmeros comentários e reflexões sobre a busca, a partir da Amazônia, de novos caminhos para a Igreja. O grito dos pobres, dos indígenas, da natureza e das mulheres marcou pautas de debate no Sínodo. Além disso, o tema da possível ordenação de diaconisas repercutiu no mundo com vozes a favor e encontra. Não nos cabe analisar aqui esse tema, basta-nos apenas refletir o trecho de Mateus 28,1-10, buscando compreender, à luz da Palavra, a grande confiança que Jesus teve nas mulheres que o seguiam e o seguem. Confiança que, no dia de sua ressurreição, ele mesmo confirmou: Ide anunciar a meus irmãos… 1Após o sábado, no início do primeiro dia da semana, Maria de Mágdala e a outra Maria foram ver o sepulcro. 2E eis que produziu um grande terremoto: o Anjo do Senhor desceu do céu, veio rolar a pedra e sentou-se em cima. 3Seu aspecto era de relâmpago, e sua veste, branca como a neve. 4Com o medo que tiveram dele, os guardas ficaram estarrecidos e como mortos. 5Mas o anjo, dirigindo-se às mulheres, disse: “Não tenham medo! Sei que vocês procuram Jesus, que foi crucificado. 6Ele não está aqui, porque já ressuscitou, como havia dito”. 7Depois, “Ide depressa dizer a seus discípulos: ‘Ele ressuscitou dos mortos’. E eis que ele vai adiante de vós para a Galileia; ali o vereis. É o que tenho a vos dizer”. 8Deixando às pressas o sepulcro, com medo e grande alegria, elas correram para levar a notícia a seus discípulos. 9E eis que Jesus veio a seu encontro e lhes disse: “Alegrai-vos”. Elas se aproximaram dele e abraçaram-lhe os pés, e, prostrando-se, o adoraram. 10Então Jesus lhes disse: “Não temais. Ide anunciar a meus irmãos que eles devem ir à Galileia. Lá é que eles me verão”. Depois da narrativa da morte de Jesus, segue-se o relato da ressurreição. Lembremos que Jesus foi julgado e condenado à morte acusado de crime de blasfêmia (Mt 26,65). Isso ocorreu durante o governo de Herodes (Mt 27,2.14) e quando Caifás era o sumo sacerdote de Jerusalém (Mt 26,3). Era uma sexta-feira quando Jesus foi crucificado. É, portanto, significativo que os relatos da ressurreição comecem com o shabbat. Isso é um aviso de que o grande acontecimento da ressurreição ocorreu no primeiro dia da semana. No pano de fundo das narrativas, há uma chamada de atenção aos leitores para “algo novo” que está acontecendo. E dele as Marias foram as primeiras testemunhas. Elas tinham ido ao sepulcro, segundo o evangelista Marcos, com o objetivo de embalsamar o corpo (Mc 16,1). Ora bem, mesmo que Mateus refira-se somente a duas mulheres, Maria Madalena e a outra Maria, como as primeiras a inteirar-se da alegria da ressurreição (v. 1), é obvio que elas estariam junto com outras (cf. Mc 15,40; Mt 27,55; Lc 23,49). Tratava-se daquelas que tinham seguido Jesus desde a Galileia, tinham-no acompanhado em sua paixão e crucifixão, e estado presentes quando o puseram no sepulcro (Mc 15,47; Mt 27,61; Lc 23,55). E, desta vez, recebiam a alegre surpresa: Jesus estava vivo! Embora parecesse muito belo para ser verdade, era verdade! Depois dessa bela experiência, coube a essas mulheres reunir de novo os discípulos e levar a eles a Boa Notícia da ressurreição (Mc 16,1-8; Mt 28,1-10; Lc 24,1-8; Jo 20,11-17). O relato mateano está ornado de imagens: “grande terremoto”, “um anjo com aspecto como de relâmpago” e “vestes brancas como a neve”. São imagens que simbolicamente revelam o sentido escondido dos acontecimentos. Trata-se duma linguagem apocalíptica, própria dessa época. Com certeza, quer-se destacar e assegurar a veracidade da grande descoberta: o sepulcro estava vazio. Jesus havia ressuscitado! Estudiosos concordam que o “grande terremoto” pode estar rememorando o acontecido na sexta-feira. Porém, agora, em vez de avisar a morte de Jesus, mostrava a completude de sua missão. Notemos que esse terremoto era de maior proporção que o da crucificação, pois, por meio dele, era comunicada a nós a vitória divina, a prova da nova vida e a confirmação das promessas (Mt 17,9.22; Mc 8,31; 9,31; Lc 9,22). Além disso, o Anjo vindo do céu surgiu pela primeira vez fazendo uso de um poder assustador, vindo do Senhor. Em outras passagens, os anjos aparecem somente como mensageiros da Palavra de Deus (Lc 1,12.19.26; Mt 1,20; 2,13), mas sem usar do poder. O anjo tinha a aparência de um relâmpago, e suas vestes eram brancas como a neve. Isso remete à cena da transfiguração no monte (Mt 17,1-2; Mc 9,2-3; Lc 9,28-29). O anjo falou às mulheres usando dois imperativos: Não tenham medo! Falem! As mulheres que tinham chegado ao sepulcro se deparavam com duas barreiras: a grande pedra que fechava o túmulo e os guardas que tinham sido colocados pelas autoridades para resguardar o lugar. Mas, em vez de lutar contra as barreiras, ficaram perplexas: a pedra fora removida, os guardas ficaram como mortos, e o Anjo, radiante de luz, explicou-lhes a razão. O caminho estava livre, mas Jesus não estava lá, porque havia ressuscitado. As discípulas não tinham entendido que era necessário que tudo aquilo acontecesse para que a promessa de ressuscitar dos mortos se cumprisse. O Anjo as convidou a olhar o sepulcro, para que seu coração se acalmasse e pudessem logo contar aos outros discípulos: Falem! A promessa de ir diante deles à Galileia logo iria cumprir-se. As Marias, com medo e grande alegria, puseram-se a caminho. Tratava-se do medo de quem não estava ainda preparado para ver que aquele que morrera na cruz vivia! Pois bem, indo avisar aos discípulos, encontraram-se com Cristo. Ele as saudou: “Alegrai-vos”. As mulheres corresponderam à saudação, prostrando-se e adorando-o. O fato de adorar é sinal do reconhecimento de que Jesus é “verdadeiro Deus e verdadeiro homem”. Cristo repete às mulheres o que o Anjo lhes tinha dito, mas, no diálogo, existe uma mudança importante: em vez de os chamar de meus “discípulos”, Ele os chamou

À luz do Evangelho Dominical

A Igreja dedica este domingo à Solenidade de Todos os Santos, transferida, no Brasil, do dia 1º de novembro. O Evangelho proclamado na liturgia é a versão de Mateus (5,1-12a) sobre as “Bem-Aventuranças”. O padre Raimundo da Silva, CRL, explica que o texto apresenta o ideal de santidade. A primeira bem-aventurança, “Feliz os pobres em espírito, porque deles é o Reino do Céu” (v. 3), é a principal, inspirada na profecia de Sofonias (3,11-13), falando do resto de Israel que busca refúgio no nome do Senhor. As outras, segundo o Pe. Raimundo, derivam desta. Não basta ser pobre, é preciso humildade para entrar na dinâmica do Reino. Os aflitos, mencionados por Jesus, representam os sofredores, os injustiçados, os que choram o mal causado a si e a outros. Jesus lhes dá esperança, dizendo que serão consolados. Já no contexto do Salmo 37, a palavra “manso” refere-se ao impotente, ao humilhado. Essas pessoas são exortadas a confiar em Deus e a não fazer justiça com as próprias mãos. As bem-aventuranças ainda falam daqueles que têm fome e sede de justiça, dos que praticam a misericórdia, de quem é puro de coração, dos promotores da paz e dos perseguidos por seguir o Senhor. Em hebraico, “bem-aventurança” significa “colocar-se em movimento”. A infelicidade é estar imobilizado, parado no tempo, estático diante das injustiças. Por isso, segundo Pe. Raimundo, o trecho bíblico é um convite a colocar-se em marcha. Assista ao vídeo produzido pela Verbo Filmes e veja o conteúdo completo.

O encontro com a felicidade (Mt 5,1-12) (2ª parte)

Tal como já vimos, no trecho das bem-aventuranças, condensam-se os ensinamentos que Jesus dá a seus discípulos (Mt 5,1-12). Dessa forma, em cada dito, encontra-se muita riqueza de conteúdo. Por esse motivo, neste breve escrito, daremos continuidade à reflexão publicada em setembro. Entretanto aqui nos deteremos especificamente nos versículos 5 a 12. Quando refletimos a primeira bem-aventurança, vimos que não podemos conceder importâncias às coisas, mas sim a Deus e, portanto, às pessoas. O caminho da felicidade que Jesus nos propõe nos impele a levantar os olhos à “Montanha”, impele-nos a olhar, sem medo, o presente e assumir, com alegria, o compromisso com nossa casa comum. Nesse sentido, a terceira bem-aventurança, “Felizes os que choram, porque serão consolados” (v. 5), não deixa de nos surpreender. Pois ninguém espera pelo sofrimento, mas, com certeza, desejam que as relações o façam sentir-se feliz. Contudo reconhecemos que as relações humanas, quando sustentadas na ótica patriarcal, androcêntrica e mercantil, desumanizam-nos. O risco é acreditar que é “normal” ser forte, dominador e intolerante com os outros. Diante dessa realidade, Jesus nos diz “que felizes são os que choram…”, porque, ao não concordarem com essa forma cruel de entender as relações, sofrem. Mas a dor que se padece buscando outras formas de se relacionar conduz às profundezas da vida. E é tocando nossas profundezas que ressurgimos mais humanos. Dessa forma, essa bem-aventurança de felicidade podemos interpretá-la em nossa atualidade com o seguinte significado: que felizes os que choram diante da dolorosa realidade de exclusão, marginalização, violência, pobreza, injustiça e destruição da casa comum. Porque quem sente a dor do mundo não aceita sua degradação. Que felizes são eles porque não se conformam com os sistemas injustos, os devaneios mercantis e a crescente violência. Porém ousam denunciar e buscar alternativas de vida digna. A partir desse choro é que se encontra a alegria de Deus. Essa bem-aventurança descreve muito bem a Jesus, por isso quem quer ser seu discípulo terá de abraçar esse mesmo caminho de felicidade. As palavras não existem no vazio. Têm uma história inscrita nas experiências de quem as usa: “Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados” (v. 6). Os evangelhos narram que Jesus ia de um lugar a outro, pregando a Boa-Nova. Nessas viagens, com certeza, experimentou a fome e a sede. Além do mais, na Palestina antiga, as condições geográficas e econômicas propiciavam estados de fome e sede extremas. Algo incompreensível nas sociedades atuais, sobretudo as de cunho ocidental. De modo que a fome dessa bem-aventurança não se pode compreender como aquela que se sacia comendo um petisco ou bebendo um refrigerante. Pois se trata daquela fome de quem, durante toda a sua vida, não comeu o suficiente para satisfazer-se. Essa bem-aventurança nos coloca, assim, diante da pergunta: qual é a intensidade real do desejo de justiça que nos anima? Até que ponto estamos dispostos a assumir o compromisso que a justiça demanda Entretanto nos cabe arriscar a diferença entre o conceito antigo e atual de justiça. No antigo Israel, a justiça concebia-se como sendo o valor mais elevado da vida. Sobre tal valor toda a vida se sustentava. Desse modo, a justiça era a base da paz e da benção. Na sociedade atual, porém, a justiça se resume em dar a cada parte o que as leis determinam. Notemos que essa bem-aventurança é exigente e radical, uma vez que não fala de desejar um pouco de justiça atual, mas de desejar a total justiça bíblica. A bem-aventurança em sequência, “Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (v. 7), requer pouca explicação, pois suas palavras são já um grande ensino. Dessa forma, basta-nos dizer que a misericórdia é muito mais que sentir piedade do outro. Trata-se da capacidade de nos adentrar no outro, a tal ponto de podermos ver com seus olhos, pensar com sua mente e sentir com seu coração. Numa sociedade individualista, essa bem-aventurança é uma grande luz, pois nos desafia a sair da falsa bondade e do conforto para identificar-nos com o outro. Dessa forma, podemos interpretar essa bem-aventurança como “que feliz é a pessoa capaz de entrar nos outros e sentir com eles, pois sentirá o mesmo dos outros e de Deus!”. “Felizes os puros de coração, porque verão a Deus” (v. 8). Entendemos que ser puro de coração é aquele que não pratica o mal e cujas intenções são íntegras. Advirtamos que não se trata de viver numa falsa modéstia, mas de identificar-se com Deus e seu projeto. De tal modo, podemos ler essa bem-aventurança assim: “que feliz é a pessoa cujas motivações são completamente puras, porque ela verá a Deus!”. Em consonância está a seguinte bem-aventurança: “Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (v. 9). No hebraico, paz (shalom) significa tudo aquilo que contribui ao bem-estar integral do ser humano. Portanto essa bem-aventurança não é a aceitação passiva de qualquer situação; antes, é denúncia do mal e promoção da paz. A seguir, temos duas bem-aventuranças cujo tema é a perseguição por causa de Cristo: “Felizes os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. Felizes sois quando vos injuriarem e vos perseguirem e, mentindo, dizerem todo o mal contra vós por causa de mim” (vv. 10-11). Como se pode perceber, os seguidores de Jesus estão sempre em conflito com um mundo que rejeita sua mensagem (Jo 16,2-4.8-11.20.33;17,14-16). Jesus não oculta a conflitividade de quem assume o projeto do Reino, porém procura transmitir um modo de vida que produz alegria e prazer: “Alegrai-vos e regozija-vos, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois foi assim que perseguiram os profetas que vieram antes de vós” (v. 12). A dinâmica egocêntrica leva a acumular e possuir para, assim, resistir à insegurança da vida. Entretanto, o dom de Deus inspira e motiva a pessoa para que esta se assemelhe a Ele e apreenda a relacionar-se gratuita e generosamente, como Jesus o fez. Pois quem vive para os outros vive para Deus. Enfim, o

À Luz do Evangelho Dominical

No Evangelho deste domingo (Lc 12,32-48), Jesus nos adverte que onde está nosso tesouro aí está também nosso coração. Se nosso tesouro são as coisas de Deus, então nossa vida estará direcionada para Deus. Mas se colocamos nossa vida em função do dinheiro, não estamos ajuntando tesouros no céu. Assista ao vídeo e descubra o que Jesus pensava a respeito do dinheiro e como podemos nos tornar verdadeiramente ricos para Deus.

Perseguição de cristãos acontece ainda hoje

Em nosso País e na América Latina, temos muitos mártires que foram assassinados por defenderem os direitos dos pobres e excluídos ou por abraçarem causas sociais, como consequência de seu compromisso de fé e valores humanos. Entre os cristãos assassinados aqui no Brasil, temos o operário Santo Dias da Silva, a sindicalista Margarida Maria Alves, a religiosa Ir. Dorothy Stang, o padre Josimo Tavares e tantos outros que perderam a vida por defender a justiça e o direito dos mais vulneráveis. Mas, além desse tipo de perseguição que atinge lideranças, ativistas e pessoas que se tornam conhecidas por suas lutas, há uma às vezes disfarçada, outras vezes escancarada que atinge cidadãos comuns, famílias e comunidades inteiras em diversos países do mundo. A perseguição se apresenta de diferentes formas. Vai desde o preconceito e a perda de direitos políticos e sociais, como emprego, direito à educação e outros públicos, até prisão e assassinato. Dia Internacional de Oração pelos Cristãos Perseguidos Em solidariedade aos cristãos que sofrem perseguição, a fundação pontifícia “Ajuda à Igreja que Sofre” (ACN) criou o Dia Internacional de Oração pelos Cristãos Perseguidos. Em 2019 a data é comemorada em 4 de agosto. Com o apoio da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), a ACN está realizando uma campanha que inclui cartazes, orações e o vídeo a que você vai assistir a seguir. O Dia de Oração pelos Cristãos Perseguidos é uma resposta ao que aconteceu na noite de 6 de agosto de 2014, quando milhares de cristãos fugiram do norte do Iraque, expulsos pelos extremistas do grupo Estado Islâmico. A região concentrava 25% dos cristãos do país e algumas minorias muçulmanas ameaçadas. A fuga ocorreu à noite, com milhares de pessoas caminhando pelas estradas em direção às cidades curdas de Erbil e Dohuk. “Cerca de 100 mil cristãos, aterrorizados e em pânico, fugiram de suas casas sem nada, somente com as roupas do corpo, a pé, rumo às cidades curdas. Entre eles, havia doentes, idosos, crianças e mulheres grávidas, precisando de água, comida, medicamentos e um lugar para ficar”, declarou na ocasião o patriarca Louis Raphael Sako, chefe da Igreja Católica Caldeia. Assim que recebeu as primeiras informações, na manhã do dia 7 de agosto daquele ano, a ACN mobilizou os benfeitores e iniciou campanhas e projetos para socorrer materialmente e espiritualmente os perseguidos e refugiados. Desde então, a Fundação Pontifícia já realizou mais de 2 mil projetos no Oriente Médio, direcionando esforços para alimento, abrigo e educação dos refugiados. Segundo a ACN, o ano de 2019 é um dos mais sangrentos para os cristãos. No Domingo de Páscoa, o Santuário de Santo Antônio, no Sri Lanka (foto), foi alvo de um dos ataques que tiraram a vida de mais de 200 pessoas. Reze conosco esta oração em favor dos cristãos perseguidos Senhor Jesus Cristo, Vós nos ensinastes a rezar ao Pai em vosso nome e nos assegurastes que tudo o que pedíssemos nós receberíamos. Por isso, nós nos dirigimos a vós com total confiança, pedindo-lhe a graça e a força de perseverar nesta tempestade, para alcançar a paz e a segurança, antes que seja tarde demais. Esta é a nossa oração e, embora pareça impossível para nós, confiamos a vós a nossa sobrevivência e nosso futuro. Ajude-nos, Pai, em nome de seu Filho crucificado e ressuscitado, Jesus, para continuarmos a trabalhar juntos; para sermos livres, responsáveis e amorosos; para encontrarmos a vossa vontade e fazê-la com alegria, zelo e coragem. Em Caná, a Mãe de Jesus foi a primeira a notar que não havia vinho. Pela intercessão de Maria, pedimos-lhe, Pai, para mudar a nossa situação – como vosso Filho transformou a água em vinho – da morte para a vida. Amém. † Patriarca Caldeu Louis Raphael Sako

O encontro entre a casa e o sicômoro

No relato ( Lc 19,1-10) do encontro entre a casa e o sicômoro (espécie de figueira), nós nos deparamos com uma unidade bem estruturada. Sua introdução encontra-se na unidade anterior (o cego na entrada de Jericó). Ambos os relatos trazem a palavra “ver” como chave para o discipulado. Nos dois textos, também nos deparamos com dois homens tidos como pecadores, no entanto possibilitados por Jesus para a salvação. A trama inicia-se com as ações de Zaqueu, seguidas pelo diálogo com Jesus. Logo Zaqueu toma uma decisão, pois a salvação se torna ação em bem do Reino. E Jesus conclui, relatando sua missão: “O Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (v. 10). A salvação de Deus irrompe sem que ninguém possa controlá-la: “E, tendo entrado em Jericó, ele atravessava a cidade. Havia lá um homem chamado Zaqueu, que era rico e chefe de publicanos. Por ele ser de baixa estatura, procurava ver quem era Jesus, mas não o conseguia, por causa da multidão. Correu então à frente e subiu num sicômoro para ver Jesus que passava por ali. Quando Jesus chegou ao lugar, levantou os olhos e disse-lhe: ‘Zaqueu, desce depressa, pois hoje devo ficar em tua casa’. Ele desceu imediatamente e recebeu-o com alegria. À vista do acontecido, todos murmuravam, dizendo: ‘Foi hospedar-se na casa de um pecador!’. Zaqueu, de pé, disse ao Senhor: ‘Senhor, eis que dou a metade de meus bens aos pobres…’” (v. 1-8). Zaqueu é símbolo da marginalização, pois, pelo fato de ser chefe de publicanos, é tido como “pecador”. Mas, depois de vivenciar a salvação de Deus, torna-se modelo de identificação, sobretudo para os ricos. Cabe destacar que, na obra lucana, avalia-se a riqueza de acordo com o motivo que se tem. Assim, egoísmo, cobiça e avareza são reprovados. Mas se a riqueza for partilhada com as pessoas necessitadas, é considerada boa (cf. Lc 12,33-34; 16,19-31; 18,18-23; At 2,44-46; 4,32-37). No pano de fundo, o autor mostra-nos que a riqueza, em si mesma, embora possa sê-lo, não é o obstáculo para encontrar-se com Jesus e nem impede a salvação. Nos tempos atuais, ainda ficam resquícios do pensamento que justificava a dominação imperial. Exemplo disso são os discursos maçantes dirigidos sobretudo para manter uma ordem social injusta. Nessa dinâmica perniciosa, faz-se acreditar que estão certos o egoísmo, a cobiça e a avareza; logo a partilha dos bens fica designada apenas a alguns. A inversão dos valores tem levado sociedades a mergulhar no absoluto egoísmo. Os resultados estão se mostrando nas barbáries cometidas contra o ser humano e todo o planeta. Diante dessa realidade, a Palavra salvadora de Deus nos impele a tomar posturas evangélicas de justiça e partilha, como Zaqueu o fez. Sobre esse tema, ainda há muito a ser dito. A nós, porém, é interessante nos advertir de interpretações reducionistas da Palavra de Deus, pois não podemos seguir sustentando a ideia de que Deus quer pessoas resignadas ao sofrimento, à pobreza e à violência, à espera de, um dia, alcançar recompensa no céu. E, por outro lado, justificar o egoísmo, a cobiça, em detrimento da vida. No encontro com Zaqueu, Jesus ratifica, mais uma vez, que a salvação de Deus começa já nesta vida: “Jesus levantou os olhos e disse-lhe: ‘Zaqueu, desce depressa, pois hoje devo ficar em tua casa’”. O olhar e a palavra jazem atrelados e são imperativos para colocar-nos em movimento rumo à nossa casa. Portanto, para melhor compreender o encontro que muda a vida de Zaqueu e mudará a nossa, se o permitirmos, cabe-nos observar algumas expressões-chave do texto: “é preciso”, “pressa”, “descer”, “aprimorar”, “hoje”, “ficar”, “receber”, “alegria”. Na Bíblia, essas palavras referem-se especificamente ao plano salvífico de Deus, que deve ser cumprido e, de fato, já está se realizando no decorrer da história. A expressão “ficar” denota duração, isso significa que Zaqueu experimenta a salvação não como um ato isolado, mas como algo que permanece sempre. A partir de então, Zaqueu, como justo, relaciona-se com Deus e com os outros. É interessante notar o contraste entre o rótulo com o qual Zaqueu é chamado (“Foi hospedar-se na casa de um pecador!”) e seu nome, pois Zaqueu significa “o que é puro”, “o que é inocente”. Jesus se dirige a ele designando-o como filho de Abraão. Quer dizer que o reconduz à condição de eleito de Deus que até então lhe estava negada. “Hoje a salvação entrou nesta casa, porque ele também é um filho de Abraão” (v. 9b). Observemos que a palavra “hoje” está unida duas vezes à palavra casa, e casa remete à família ou geração. Compreende-se então que a salvação é experimentada também pela família e geração de Zaqueu, ou seja, os filhos de Abraão. A alegria de Zaqueu, ao sentir-se perdoado e acolhido por Jesus, é tal que reage tomando a firme decisão de partilhar seus bens e fazer justiça: “Senhor, eis que dou a metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei a alguém, irei restituir-lhe o quádruplo” (v 8). O amor misericordioso de Deus faz Zaqueu enxergar, e também a cada um que se sinta verdadeiramente amado, a real necessidade dos pobres e como poder ajudar. Entre o sicômoro e a casa, encontramo-nos com a superação da ideia de que o pecador é alguém rejeitado por Deus. Isso gerou e segue gerando uma reviravolta nos corações, pois verdadeiramente a graça de Deus não tem limites: “Com efeito, o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”. Irmã Juana Ortega, SSpS, é teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e colabora na Animação Vocacional.

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