Direitos humanos, um compromisso social

Você já parou para pensar por que existe “certidão de nascimento”, “carteira de trabalho” ou contrato em cartório? Que há muitos brasileiros que sonham em ter uma moradia digna com escritura e registro de imóvel? Quando trabalhadores e trabalhadoras puderam reivindicar condições e melhoria de trabalho? Que todos têm direitos à educação e à segurança? Que tortura é crime? Da Antiguidade até meados do século XX, esses direitos não existiam para homens comuns e muito menos para as mulheres, que eram vistas como sem alma! Eles foram conquistados durante muitos séculos, quando pensadores clássicos da Grécia Antiga, por volta do século V a.C., começaram a dar sinais de humanidade para a política da época, surgindo, assim, a “democracia”, isto é, “o poder do povo”. No entanto, o conceito de “povo” como coletividade que vivemos hoje apareceu na França, no século XVIII. De lá para cá, novas conquistas. Além do direito político, surgem os direitos civis e os sociais. A cidadania passa a ser exercida por milhares de indivíduos, conforme a garantia das liberdades individuais de ir e vir, de eleger seus representantes, de organizar-se em partidos, da construção de uma vida digna, como acesso à educação, à saúde, à cultura, ao lazer e à moradia, vai aumentando a qualidade de vida. Infelizmente, em muitos lugares do planeta, nem todas as pessoas gozam desses direitos, por causa das desigualdades sociais, das injustiças, das guerras, resumindo, do poder. Para combater as barbaridades que aconteciam no mundo, surgiu, após a Segunda Guerra Mundial, em 10 de dezembro de 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Há 72 anos, a ONU busca cumprir os 30 artigos da Declaração, com o objetivo de proporcionar o diálogo e impedir conflitos entre os países, devido a questões econômicas, políticas ou culturais. Garantir a vida, a liberdade e o reconhecimento à pluralidade, o respeito mútuo em detrimento a privilégios de grupos particulares, como determina o artigo 1º: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em ralação uns aos outros com espírito de fraternidade”. Mas, por que ainda, no Brasil, há tantas famílias morando debaixo de viadutos? Homens e mulheres analfabetos? Trabalhadores sendo explorados? Jovens que nunca assistiram a uma peça de teatro? Prisioneiros ou religiosos sendo torturados? Milhões de pessoas passando fome? A Declaração Universal dos Direitos Humanos deve ser um compromisso social, em que tráfico de pessoas, discriminação, preconceito, torturas, violências devem ser erradicadas de nossa sociedade bem como de outros países. A maioria dos brasileiros desconhece, ainda, os artigos da Declaração, o que, infelizmente, mantém muitas injustiças e violações quanto aos direitos de crianças e idosos, por exemplo. Procuremos conhecer cada um dos artigos e denunciar quando não são cumpridos por autoridades ou cidadãos. A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi feita para todos “sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição”, conforme o artigo 2º. Ela foi contemplada nos artigos da Constituição Federal, no Estatuto da Criança e do Adolescente, no Estatuto do Idoso bem como no Código Civil em vigor. Cabe a cada um ter a consciência de fazer valer esse compromisso social. Maria Terezinha Corrêa Mestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP e SBPC. Atualmente é professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, membro da Comissão de Prevenção e Combate à Tortura pela ALESC, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, pertencente à Arquidiocese de Florianópolis-SC.
O agronegócio é compatível com a ecologia integral?: compartilhando uma história vivida

“O avião que joga o veneno faz a curva bem ali, em cima da cerca da nossa terra.” Foi o que ouvi de Wagner, jovem liderança do povo Krahô-Kanela, quando cheguei à aldeia, no Tocantins, pouco antes da pandemia. Ele estava falando do vizinho plantador de soja, e seu povo queria conversar sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde. Passarinhos que não se ouvem mais; peixes que aparecem mortos, boiando no rio; pessoas queixando de dor de cabeça ou de irritação nos olhos e na pele… Ao falar sobre isso, estes indígenas nos mostram consequências do modelo produtivo do agronegócio para a saúde do ambiente e das pessoas. Ao mesmo tempo, testemunham a ecologia integral a que nos convida o Papa Francisco, ao mostrar, em seu cuidado com os seres não humanos, que sua cosmovisão vai muito além do antropocentrismo. Os Krahô-Kanela, assim como várias outras etnias e também ribeirinhos, quilombolas e camponeses, há muito tempo, vivem nesta linda e generosa região de florestas alagadas. Saberes e fazeres ancestrais, transmitidos às novas gerações no dia a dia, conformam modos de vida singulares, em estreita relação de respeito e afeto com o ecossistema, onde buscam o peixe, as frutas, as ervas, a palha, a água e o contato com seus encantados. Há algumas décadas, o agronegócio se instalou nestas terras férteis e ricas em água da bacia do rio Formoso, no Sudoeste do Tocantins, assim como em outras regiões do Estado, onde já ocupa cerca de um milhão de hectares para produzir soja e exportá-la para a China (para alimentar os animais confinados que provavelmente participaram do desequilíbrio que originou a pandemia de covid-19). Enquanto isso, diminui a área plantada com mandioca, por exemplo, que é comida de verdade. Enquanto isso, vários povos e comunidades tradicionais, descendentes dos povos originários desta terra, aguardam há anos a demarcação de um pedaço de terra onde possam viver de seu jeito. Modelo químico-dependente Injustiça hídrica é o que fazem os empresários do agronegócio quando constroem barragens no rio e capturam essas águas para canais que vão dar direto em seus monocultivos. À montante, essas barragens geram inundação nas plantações do povo do lugar e até mesmo nos terreiros das aldeias. À jusante, principalmente quando não é tempo de chuva, o leito do rio pode ser usado como estrada, de tão seco, como nos mostrou em fotos a equipe do Regional Goiás-Tocantins do Cimi (Conselho Indigenista Missionário). Os peixes não conseguem fazer a piracema, a mata ciliar vai secando, e todos os seres que precisam da água do rio ficam sem ela. Não seriam as águas um bem comum? Além de hidrointensivo, o modelo produtivo do agronegócio é químico-dependente. Sim, porque, para obter a tal produtividade de que tanto se orgulha, extraindo mais de uma safra por ano, espalha sobre a terra toneladas de fertilizantes químicos, os quais contêm vários metais pesados, tóxicos para a biota e para os seres humanos, e que acabam sendo carreados pelas chuvas para o leito dos rios, contaminando também as águas e atingindo outros territórios. A partir do nitrogênio, geram ainda gases nitrosos que têm efeito estufa e contribuem para o aquecimento global. Depende ainda dos agrotóxicos, já que, ao desmatar extensas áreas, destroem a biodiversidade da qual depende o equilíbrio entre as espécies, através de complexas e delicadas relações ecológicas. Gera, desse modo, o que chama de “pragas” (bactérias, fungos, insetos, ervas). E… dá-lhe veneno! No caso da soja, os estudos mostram que são cerca de 17,7 litros de veneno por hectare. Fazendo a conta, no ano de 2019, foram lançados 19.257.600 litros de veneno nos 1.088.000 hectares de soja plantados no Estado do Tocantins, inclusive na aldeia onde mora Wagner. Responsável por mais de 50% dos venenos usados no Brasil, e especialmente nos monocultivos de soja, é o glifosato (nome técnico do Round-up), produzido pela Monsanto, um herbicida que o povo costuma chamar de “mata-mato”. Além de matar ervas “daninhas”, veja do que ele é capaz: alterar as células reprodutoras e causar más-formações congênitas (defeitos ao nascer); interferir nos hormônios do organismo e levar a infertilidade, abortos, puberdade precoce; e se isso fosse pouco, causar câncer, como estabeleceu a Organização Mundial da Saúde ainda em 2015. E, apesar disso, o governo brasileiro, influenciado pelo poder político (e econômico) dos ruralistas, segue autorizando o uso do glifosato no Brasil. Ecocídio e genocídio Vamos então juntar as peças: tiram a terra dos povos e comunidades tradicionais para produzir commodities, apropriam-se e contaminam as águas que sustentam os ecossistemas e suas vidas, e ainda jogam veneno (às vezes, de avião) sobre seus lugares de vida. Em nome do quê? Do progresso, do desenvolvimento, da balança comercial? Ou esse é um discurso para dourar o lucro de grandes corporações econômicas? Essas vidas não importam? Isso não é racismo? Convido vocês a refletir: esse quadro de ecocídio e genocídio não se restringe ao sudoeste do Tocantins; repete-se, em suas linhas gerais, em todo o cerrado e também em outros biomas, porque o agronegócio está no centro do atual modelo de desenvolvimento, junto com a mineração. Chega a todos nós, através dos alimentos contaminados, das águas contaminadas, das mudanças climáticas, e do comprometimento do futuro da humanidade no Planeta Terra. Como podemos afirmar e dar concretude a nosso compromisso com a vida? Raquel Rigotto é professora Titular da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC). Graduada em Medicina e mestra em Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), doutora em Sociologia pela UFC e pós-doutora em Sociologia pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). É membro da Rede Brasileira de Justiça Ambiental.
A consciência, a caridade e a missão

Se se opuser à paz a guerra, aquela se tem, portanto, distanciado de qualquer cidadão brasileiro por conta desta. Algo distante, considerando o fato de que sua precedência já se perdeu em qualquer memória de cidadão vivo, pois não há guerra por aqui há anos. Se se opuser à paz a violência, aquela se tem apenas pelo espectro da televisão higienizada no conforto dos lares da classe média. Infelizmente distante e, algumas vezes, politicamente incorreta. Se se opuser à paz a “a-pro-atividade” em favor de uma sociedade mais humanizada, talvez se possa discorrer sobre os casos de pessoas comuns e conformadas com o mundo que as cerca. Muitas pessoas aceitaram bem o distanciamento proporcionado pela televisão, ainda que uma lágrima preguiçosa escorra de quem anda sentado no sofá de sua sala climatizada, regozijando seu biscoito recheado. A televisão e suas campanhas encapsulam, cercam e não permitem que a sociedade, nos altos condomínios urbanos, se infecte e se afete das mazelas sociais que, lá de cima, são miradas em distância e com pouco comprometimento. Isso porque há quem crê que a pseudoconsciência de seus compromissos humanitários se encerra com um “obrigada!” da telefonista plantonista dos call-centers de doações. Será que a paz se revela apenas na facilidade de um telefonema para doação aos carentes, motivado por essa mesma televisão que vende o conforto das consciências coletivas? Será que o vidro da janela da sala do apartamento marca o limite entre a minha afetação e a dor do outro, a necessidade do outro, a linguagem do outro, o outro? Por que a caridade deve ser asséptica? Para aqueles que não entendem os vários efeitos de sentido de missão, resta o costumeiro conformismo. Não há como abandonar a caridade, tampouco não se envolver. Não há de se permitir que a televisão reconcilie as ambições que se tenham de justiça na sociedade contemporânea, virtualizando qualquer ação assertiva a favor dos mais necessitados. Veja um caso. Dobri Dobrev tem mais de noventa anos. É búlgaro. Perdeu a audição durante a guerra. Vive em uma modestíssima casa nos arredores de Sófia. Modesta, mas sem a depauperação que os intelectuais sociólogos de favela brasileira chamam de miserável. Ostenta uma grande barba e um certo carisma não ameaçador. Vive da mendicância pelas ruas da capital e uma bolsa-família de oitenta euros. Com seu pulôver grande e religiosidade extrema, arrecadou da “generosidade” búlgara mais de quarenta mil euros em esmolas. Essa pequena fortuna, Dobri doou em sua totalidade, sem pestanejar, à caridade. Quarenta mil euros ao orfanato cuidado pela Igreja que frequenta, num gesto de humildade e desprendimento. Em um gesto de paz. Se se opuser à paz o peso social da consciência, aquela palavra deve ser substituída por Dobri Dobrev e por tudo o que ele representa. Desprendimento, crença e ação em prol do outro. Como na Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios: “Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior de todas é a caridade”. Não é por nada que as irmãs desta Congregação têm a missão no nome. Não é semântica. É linguagem, é ação, é a palavra que se faz verbo e é um verbo que se faz ação: missionárias. A palavra é nossa primeira missão. Nas escolas da Rede, talvez este seja o maior problema enfrentado pela comunidade escolar: não poder ir até os locais dos enfermos, dos idosos, das crianças. A reclusão necessária à saúde também criou um vazio enorme, uma falta. A falta do outro na caridade da afetação. A pandemia amordaçou as mãos de todos nós. Amordaçou, porque era na linguagem do toque que conhecíamos a nós mesmos; vivificamos nossa identidade. Todos fazem parte de tudo. Esteja onde estiver. Todos fazem parte de um todo. Não há paz onde não há consciência. Não há consciência onde só há letargia. Tony Labanca Professor do Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-
Celebre a Páscoa com a gente

A Dimensão Missionária da Rede de Educação das Irmãs Missionárias Servas do Espírito Santo preparou, para os alunos, familiares e educadores dos colégios e centros educativos, três momentos para ajudar a comunidade educativa a pensar, sentir e viver a Páscoa em tempos de distanciamento social. A ideia é trazer a identidade de Rede para este momento tão especial para nós, cristãos. A seguir, apresentamos as três ações e um pouquinho de como cada uma foi pensada. Celebre com a gente e uma feliz Páscoa a todos! Primeira ação Hoje convidamos vocês a refletirem sobre a história da margarida diferente. Todos nós sentimos falta de ouvir histórias, pois elas chegam ao coração, formando imagens com base na experiência sensorial da fala, ajudando-nos a vibrar com quem as narra. Assim Jesus gostava de ensinar. Ouçamos a história e levemos adiante essa ideia! Segunda ação Estamos nos preparando para celebrar o ponto mais alto de nossa fé, a Páscoa. Unamos nossos corações em prece para vivermos juntos este momento especial. Sugerimos que essa ação aconteça no almoço do domingo de Páscoa. Terceira ação Para celebrar a festa da esperança, vamos precisar de pessoas novas para um mundo novo. Para isso, a fé deve ser nosso norte. Fé na vida, fé nas pessoas, fé em dias melhores. Somos todos sementes do amanhã!
Casa Lab: novas perspectivas para as mulheres da periferia

Em 2019, participei como articuladora do projeto Casa Lab: Laboratório de Fazeres da Mulher Periférica, promovido pelo Centro de Direitos Humanos e Educação Popular de Campo Limpo, o CDHEP. A iniciativa foi idealizada e coordenada por Silene Monteiro e, a partir de abril de 2019, eu me juntei a ela para contribuir com a estruturação e execução do projeto. Em seu primeiro ano, o Casa Lab reuniu cerca de 15 mulheres moradoras dos distritos periféricos da Zona Sul de São Paulo-SP (Campo Limpo, Capão Redondo, Jardim Ângela e Jardim São Luís) para reformar uma edícula na sede do CDHEP e transformá-la numa oficina comunitária de fazeres criativos, com ferramentas de marcenaria, construção e artes. Esse processo, com dois encontros semanais, durou cerca de sete meses, com início em junho e encerramento em dezembro. Nesse período, nosso grupo, formado somente por mulheres, construiu bancadas e bancos de trabalho nas oficinas de marcenaria, realizou pequenos serviços de manutenção elétrica e hidráulica, pintou as paredes da casa, fez um grafite coletivo e construiu um banco no jardim do CDHEP. Além das ações práticas, realizamos rodas de conversa sobre os desafios cotidianos da mulher moradora da periferia. Em algumas das atividades, contamos com a ajuda de profissionais mulheres especialistas nas áreas em que estávamos trabalhando. Ao fim do processo, a partir do trabalho coletivo e da criatividade de várias mulheres, a antiga casinha no fundo do terreno do CDHEP estava transformada em oficina, pronta para ser utilizada e apropriada para a realização de novos projetos. “Entendíamos que cada uma ali tinha algum saber para compartilhar com o grupo” O resultado final desse primeiro ciclo do Casa Lab, com diversos produtos executados, é muito interessante. No entanto, mais importante do que isso, foram as trocas e aprendizados que ocorreram ao longo dos sete meses de trabalho. Todas as atividades do Casa Lab foram embasadas na educação popular de perspectiva freiriana e no processo circular. Dessa forma, tínhamos como premissas o diálogo, a horizontalidade, a colaboração e a escuta das diferentes agentes envolvidas no processo. Todos os nossos encontros começavam em roda, na qual cada uma de nós podia compartilhar como estava se sentindo, como estava sendo a semana e qual era a expectativa para a atividade do dia. Além disso, entendíamos que todas ali tinham algum saber para compartilhar com o grupo e, ao longo do projeto, buscamos fazer com que esses saberes fossem externalizados. “Nós nos fortalecíamos para conseguir sair de situações de opressões, como o machismo…” Nosso grupo era bastante diverso, com mulheres de diferentes idades, religiões e graus de escolaridade. Essa diversidade trouxe para o trabalho coletivo alguns desafios, mas, ao mesmo tempo, tornou o processo ainda mais rico. A chegada a um consenso, fosse sobre a cor de uma parede ou sobre o acabamento de um móvel, exigia longos debates e discussões, em que treinávamos nossa capacidade de argumentação e nossa generosidade ao renunciar a uma ideia ou ter de adaptá-la às escolhas do grupo. Nisso, além de construir um mobiliário e pintar uma parede, criávamos laços afetivos e trabalhávamos nossas habilidades socioemocionais, num processo emancipatório, em que nós nos fortalecíamos para conseguir sair de situações de opressão, como o machismo. Com o passar dos meses e todas as nossas conversas e discussões, consolidados um grupo de amigas, em que, mesmo com o encerramento do primeiro ciclo do projeto, continuamos nossas trocas e rede de apoio. “Sementes para a construção coletiva de um novo mundo” O Casa Lab me afirmou o quão potente e transformador é reunir mulheres para conversar em roda e produzir algo coletivamente. Para mim, que sou filha de pais que se formaram politicamente numa comunidade eclesial de base da Igreja Católica, o Casa Lab foi uma maneira de retomar, de certa forma, o trabalho dos grupos de mães, que, nas décadas de 1970 e 1980, reuniam mulheres nas periferias para, a partir da leitura da realidade do bairro e da reflexão crítica em cima disso, traçar ações práticas para transformação do contexto de carência e precariedade. Acredito que ações como o Casa Lab e os clubes de mães, cada uma em seu tempo, são capazes de construir uma nova realidade conduzida por mulheres moradoras das periferias, pobres, negras e indígenas. Cada participante do Casa Lab saiu fortalecida de alguma maneira, mas, mais importante do que a escala individual, talvez tenha sido que, em cada mulher, foram plantadas pequenas sementes para a construção coletiva de um novo mundo. Ana Cristina da Silva Morais Arquiteta e urbanista formada pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP) e moradora de Capão Redondo. Durante a graduação, desenvolveu pesquisa de iniciação científica sobre participação social em um projeto de urbanização de assentamento precário da cidade de Medellín, na Colômbia. Para tanto, realizou estágio de pesquisa na Universidade de Antioquia, em Medellín. Desde 2017, atua em coletivos e ações da periferia da Zona Sul de São Paulo-SP que discutem território. Estagiou na Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo e, em 2019, trabalhou como articuladora do projeto Casa Lab, no Centro de Direitos Humanos e Educação Popular de Campo Limpo (CDHEP).
Centro Missionário abre novos cursos

A formação missionária e pastoral dos leigos e leigas é uma das prioridades do Centro Missionário Cultural Santíssima Trindade, em São Paulo-SP. A instituição está abrindo inscrições para quatro novos cursos, todos marcados para começar em 2020. As formações são direcionadas a catequistas, lideranças paroquiais e de comunidades, agentes de pastoral em geral, mas também a educadores e católicos em geral que desejam aprofundar na fé e nos conhecimentos bíblicos. A duração é de quatro meses, de 5 de março a 2 de julho, às quintas-feiras, das 19h30min às 21h30min, no Centro Missionário. Além de professores muito capacitados, o ambiente do curso é agradável, com salas confortáveis e bem equipadas, rodeadas de varandas e de jardim, uma vez que o Centro Missionário funciona dentro do Convento Santíssima Trindade. Conheça o local… Outra conveniência é a facilidade de acesso ao local. Diversas linhas de ônibus param bem em frente, e a estação Borba Gato, da Linha Lilás do Metrô, fica a apenas sete minutos a pé. Conheça os cursos VAGAS ESGOTADAS – O Curso Perdão e Reconciliação é teórico e vivencial, com dinâmicas que ajudam a lidar com os conflitos em família, nas comunidades ou outros, buscando caminhos de superação e de melhoria dos relacionamentos e alívio do sofrimento. Ver mais… O Curso Bíblico abordará as cartas de São Paulo, revelando sobre a vida do apóstolo e das primeiras comunidades cristãs. Será um mergulho no tempo e uma oportunidade de conhecer o pensamento paulino e a teologia presente nos escritos daquele que é uma das colunas da Igreja. Ver mais… VAGAS ESGOTADAS – Para as pessoas que têm dificuldade de falar em público, o Curso Como Falar em Público oferece a oportunidade de não apenas treinar práticas de retórica e oratória, mas também de conhecer e trabalhar os próprios bloqueios e dificuldades, melhorando a comunicação e a habilidade de falar em público. Ver mais… Para quem trabalha na catequese, pastoral do batismo, crisma e outras pastorais, o Curso de Formação para Catequistas dará a preparação necessária para trabalhar tanto os conteúdos como a didática. É ideal também para quem deseja estar a serviço da evangelização em diferentes situações. Ver mais… Os interessados poderão se inscrever a partir de agora, garantindo sua vaga. O cadastro pode ser feito on-line, acessando o link, pelo WhatsApp (11 98550-0227) ou no próprio local do curso. O endereço é Rua São Benedito, 2146 – Santo Amaro, São Paulo-SP.
À Luz do Evangelho Dominical

Já estamos no terceiro domingo do Advento, chamado “Gaudete”. A liturgia ganha um tom de alegria, dando uma amostra de como será o encontro com o Senhor, que já está perto. O Evangelho de Mateus (11,2-11) coloca próximos Jesus e João Batista, precursor de Cristo e, segundo o Mestre, o maior entre os que já nasceram, mas ínfimo diante do menor no Reino dos Céus. Padre Arlindo Dias, missionário do Verbo Divino, reflete que João teve a missão de anunciar o Cristo que viria libertar o povo. Diante das ações de Jesus, que comunicava paz, vida e esperança aos marginalizados, em vez de um motim, o Precursor parece confuso e busca saber se o ilustre primo era realmente o Ungido que libertaria Israel da opressão. Como resposta, Jesus baseia-se na profecia de Isaías e descreve um pouco de suas ações de resgate da dignidade do ser humano e evangelização dos pobres. “Feliz aquele que não se escandaliza por causa de mim” (Mt 11,6). O espanto que Jesus provoca é o da misericórdia, bem diferente de um “vingador” esperado pelo povo, pelas autoridades e mesmo pelo Batista e discípulos. Assista à produção da Verbo Filmes e saiba mais.
Ensino Religioso nas escolas

Em 2015, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) começou a ser elaborada a partir da análise e da reflexão dos documentos curriculares já existentes. Sua ideia é de apresentar o que se deve aprender nas escolas brasileiras da educação infantil ao ensino médio, garantindo o direito à aprendizagem dos estudantes, de uma formação democrática, inclusiva e integral. Finalidade do Ensino Religioso Uma das grandes novidades apresentadas na BNCC está nas competências que ela oferece e, de forma especial, para o Ensino Religioso. Das competências propostas pela Base Nacional Curricular para o Ensino Religioso, ideias como conhecer diferenças, respeitar manifestações religiosas, diretos humanos e cultura de paz constituem conceitos-chave para serem ensinados, bem como a educação socioemocional que, além de permear todas as áreas, está também muito presente aqui. O objetivo é oferecer aos estudantes conteúdos que fundamentam a perspectiva religiosa do ser humano, despertando para o desenvolvimento da espiritualidade e para um maior compromisso com a construção de um mundo melhor, como lembra a orientação das escolas da Rede das Irmãs Servas do Espírito Santo. Para que isso se torne prática, a formação dos educadores é o caminho. Isso se dá com estudo, leituras, reflexões e participação em simpósios e congressos. Espírito ecumênico e inter-religioso Um grupo de educadores da Rede de Educação marcou presença no X Congresso Nacional de Ensino Religioso (Conere), na PUC Paraná, em Curitiba, entre os dias 18 e 20 de novembro. Além dos temas referentes ao Ensino Religioso, Ciências da Religião e Teologias, o encontro, que reuniu pessoas de diferentes denominações religiosas, provocou os participantes a pensar os desafios do mundo contemporâneo, apresentando perspectivas práticas para a vida cotidiana diante de um mundo que muda a cada instante. Em relação à Casa Comum, uma das reflexões que mais chamaram a atenção foi proferida pelo pastor Werner Fucks. De forma profunda e lúcida, além de levar questões urgentes para repensar um estilo de vida sustentável, salientou o quanto temos de aprender com a natureza sobre sua capacidade de regeneração. Dialogar e ouvir diferentes visões de mundo, que foram das cosmologias religiosas às agnósticas, em clima de harmonia e respeito, foi outra característica marcante do encontro, em sintonia com o conceito de “religare” que nos irmana. Assim, os participantes das escolas da Rede das Irmãs Servas do Espírito Santo retornam para suas realidades ressignificados e comprometidos em multiplicar o conhecimento adquirido, além de levarem a responsabilidade de promover uma educação em que tolerância e respeito andem de mãos dadas. Agostinho Travençolo Júnior, educador e coordenador da Dimensão Missionária da Rede de Educação SSpS. _______
Bibliodrama: uma experiência de vida

Durante o ano de 2019, o grupo de coordenadores missionários da Rede de Educação, de missionários leigos de Deus Uno e Trino e das irmãs missionárias servas do Espírito Santo se reuniu no Centro Missionário Cultural Santíssima Trindade, em São Paulo-SP, para o Curso de Bibliodrama. A formação foi ministrada por irmão Paolo de Lucca, SVD; irmã Maria de Fátima Marques, SSpS; irmã Heloíse Matos, SSpS; e Agostinho Travençolo Júnior, coordenador missionário. O encontro de encerramento foi no fim de semana, entre 29 de novembro e 1º de dezembro. A temática envolveu sonho e missão que perpassam o encontro com a Palavra. Foram dias de crescimento pessoal, vivência em grupo e aprofundamento da fé. A cada encontro, tive a oportunidade de trazer a Bíblia para a centralidade de minha vida, de maneira única, diferente de todas as outras, levada por minhas intuições, emoções, revelando que Deus comunica-se comigo e que o Espírito está em ação, pela escuta, pela transformação. Nem sempre, nos encontros de bibliodrama, foi possível nomear as emoções, mas foi possível vivenciá-las e promover um encontro comigo mesma e com o outro. Tive, em muitos momentos, oportunidade de escutar, ouvir com atenção, ser ouvida, perguntar, responder, compreender a dor do outro que, muitas vezes, era a minha também e não a percebia… Pela dança, um dos elementos do bibliodrama, tive a chance de vivenciar maior interação com o grupo e de deixar pulsar no coração sentimentos vividos na experiência da Palavra. Neste último encontro, fizemos a experiência do bibliodrama completo: estruturação do texto, leituras, esculturas, gestos, “bibliolog”, entrevistas, entre outros. Estes me fizeram crer que é bom olhar para dentro de mim e contar minha história, relembrar meu caminho, percebendo que Jesus me fala também por meio de outras pessoas. Um fim de semana rico de novas experiências que contribuíram para minha própria história e para minha prática como educadora. Um curso que me fez ressignificar o valor das pequenas coisas: sentar-me à mesa com a família, escutar com paciência meus filhos, alunos, amigos, viver intensamente cada momento, descobrir o que há de especial em cada pessoa sem me prender a aparências e rótulos, perdoar para ter a capacidade de amar intensamente e agradecer sempre. _ “Se eu quiser falar com Deus tenho que me aventurar Eu tenho que subir aos céus Sem cordas pra segurar tenho que dizer adeus dar as costas, caminhar“ (Gilberto Gil, “Se eu quiser falar com Deus”) Luciana Marzullo Araujo, coordenadora da Pastoral Missionária no Colégio Stella Matutina, pedagoga e cientista das religiões. ________
À Luz do Evangelho Dominical

Neste segundo domingo do Advento, a Igreja celebra a Solenidade da Imaculada Conceição de Maria. A liturgia destaca o Evangelho de Lucas (1,26-38), que narra o anúncio de dois nascimentos: o de Jesus e o de João Batista, cumprindo as profecias. Padre Arlindo Dias, missionário do Verbo Divino, explica que a mensagem é dada pelo Anjo Gabriel, que significa “A Força de Deus”. No pequeno povoado de Nazaré, Deus encontra Maria e a chama “Cheia de Graça”. O evento é marcado por algumas transgressões às normas religiosas daquele tempo e um alerta contra aquilo que, em nome de Deus, é usado para marginalizar, oprimir. Ao responder “Eu sou a serva do Senhor”, a Mãe de Jesus se identifica com todo o povo que punha em Deus a confiança. Quais situações de hoje pequem que nos tornemos servos, servas do Senhor? Assista à produção da Verbo Filmes e saiba mais.