Domingo de Páscoa

Veja a reflexão bíblica elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o Evangelho proposto para meditação neste Domingo da Páscoa, a principal data cristã. A passagem está em Mateus 28,1-10.

Quinta-feira da Semana Santa

Veja a reflexão bíblica elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o Evangelho desta Quinta-Feira Santa, iniciando o Tríduo Pascal, o centro do calendário litúrgico. A passagem está em João 13,1-15.

Refletindo o Sábado Santo

Veja a reflexão bíblica elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o Evangelho proposto para meditação neste Sábado Santo. A passagem está em Marcos 15,42-47.

Sábado Santo: o Crucificado é depositado no ventre da Mãe-Terra

“José de Arimateia, tomando o corpo de Jesus, envolveu-o num lençol limpo e o colocou num túmulo novo, que mandara escavar na rocha. Em seguida, rolou uma grande pedra na entrada do túmulo e retirou-se” (Mt 27,59-60) Normalmente o Sábado Santo não merece maior atenção de nossa parte; acabada a vivência litúrgica da Sexta-feira Santa, já pensamos no Domingo da Ressurreição. No entanto, o Sábado Santo reivindica uma reflexão e um lugar na nossa vida espiritual. O Sábado Santo é um dia de penumbra: entre a sombra da Sexta-Feira e a luz do Domingo. É o dia da ambiguidade, do luto e da possível boa notícia, da espera e da esperança. É o dia dedicado à solidão de Maria, o “dia não litúrgico”. É o dia em que Jesus “desce” à morada dos mortos, na obscuridade mais absoluta. Ali não há visão de Deus; por isso, a Escritura a chama “inferno”. É o dia do ocultamento de Deus, do silêncio de Deus Pai, da grande solidão de Jesus, do Filho perdido na obscuridade, na “terra de ninguém”. Jesus no túmulo simboliza o silêncio, a volta ao mais íntimo de si mesmo, abraçando a solidão sem se sentir solitário. Sábado Santo é o dia da impotência, da injustiça, da desolação, da solidão; dia em que nos situamos diante da morte injusta imposta pelos “podres poderes”; dia precedido por traições, fugas, gritaria ameaçante, linchamento cruel e mentiroso; dia das esperanças rompidas, do medo que paralisa, do fechar de portas mentais e emocionais; dia incompreensível do silêncio, da “ausência” de Deus. Sábado Santo é também um dia obscuro onde nos custa ver saídas ou futuro, um dia ameaçante carregado de dor e morte; dia das perguntas sem resposta: “por que isso? Como pode estar acontecendo isto? Onde está Deus? Portanto, dia de uma crise radical porque afeta e põe em questão nossas falsas esperanças, nossa onipotência e prepotência, nosso individualismo independente… Podemos expressar três atitudes no Sábado Santo: a) Jerusalém volta à normalidade, nada mudou; b) permanecer no “por quê” isso aconteceu?; c) despertar o “para quê” isso aconteceu? É tempo de deixar-nos abalar pelas perguntas que não suportam respostas fáceis. “O Sábado Santo é aquele intervalo único e irrepetível na história da humanidade e do universo em que Deus, em Jesus Cristo, compartilhou não só nosso morrer, mas também nosso permanecer na morte. Trata-se da solidariedade mais radical” (Bento XVI). A virtude teologal da esperança nos convida a mergulhar no sentido profundo do Sábado Santo: foi o dia do silêncio de Deus Pai e o dia da descida de Jesus, morto e sepultado, “aos infernos da condição humana”. Foi o dia do Espírito Santo que não tinha “onde repousar” e fica como sem alento. O inferno ao qual Jesus desceu é, em primeiro lugar, a morte eterna, a destruição sem saída, o frio cósmico… Mas é, em segundo lugar, a morte histórica que tende a dominar tudo, a morte que vem da injustiça, da indiferença, da prepotência e violência de muitos. Essa morte aparece mais claramente nos ambientes dominados pela cultura do ódio, da intolerância, do preconceito; faz-se visível nos traficantes da vida, na miséria e nos rostos famintos, vítimas de uma estrutura social e política injusta. É a morte dos fabricantes de armas, dos violadores e assassinos…; a morte nos cárceres, nas casas sem pão, nos caminhos sem saída, nos hospitais… O “inferno” está em todos os lugares onde a vida é massacrada pelos prepotentes, onde a Terra é destruída pela ganância de alguns, onde a “lei do mercado” se alimenta do sangue dos mais pobres… Sem a “descida” de Jesus aos infernos da história humana, não existe redenção cristã, não se pode falar de autêntica páscoa. Se não nos comprometemos com os “condenados ao inferno” de nosso mundo, não poderemos entender o mistério do Sábado Santo. Ao longo de toda sua vida, e de um modo especial através de sua morte na Cruz (solidário com os expulsos e condenados da humanidade), Jesus “desceu aos infernos” da pobreza, da exclusão, da violência… Neste “dia de silêncio”, o Crucificado se faz solidário universal; nenhuma situação humana, por mais extrema que seja, ficou excluída dessa presença compassiva. Indo mais além, a vivência do Sábado Santo também nos move a “descer” aos nossos “infernos interiores”, carregados de feridas, sentimentos negativos, traumas, fracassos… e experimentar a redenção no mais profundo de nosso ser. “Nossa época se converteu sempre mais em um Sábado Santo: a obscuridade deste dia interpela a todos aqueles que se perguntam pelo sentido da vida, e de maneira especial nos interpela a nós que cremos. Também a nós nos afeta esta obscuridade” (Bento XVI). O Sábado Santo parece um sábado vazio: cala a liturgia, cala a Igreja, calam os corações. O vazio provocado pela morte de Jesus nos deixa sem alento; sua ausência nos deixa sem palavras. Quando Aquele que é Palavra está ausente, que podem nos dizer as palavras? Mas há um silêncio que está vivo; é o silêncio de quem nos criou no silêncio. Um silêncio entendido como outra forma de presença de Deus. Deus se revela não só na Palavra, também em seu Silêncio, em seu ocultamento. Quando Deus cala e faz calar, fecham-se os lábios, entra-se no mistério, na mística. O silêncio do Senhor nos move a procurar, a escutar, a enxergar… O silêncio de Deus deve ser respeitado, pois a Deus lhe dói a morte de seus fiéis (Sl 116,15): o Pai não estará fazendo luto por seu Filho e por suas criaturas? * Não será que o silêncio do Sábado Santo supõe o direito de Deus se calar? * Que Deus não tem direito de guardar silêncio? * Quem somos nós para exigir de Deus que nos esteja falando continuamente? Além disso, através da passagem do Sábado Santo, realiza-se uma transformação radical de nossa imagem de Deus: não como um Ser Onipotente insensível, que desconhece a dor, senão como Amor vulnerável e vulnerado, que assume como Seu o sofrimento da humanidade. Para que haja uma

Sexta-Feira da Semana Santa: as mulheres junto ao Crucificado

“Junto à Cruz de Jesus, estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas e Maria Madalena” (Jo 19,25) Na vida e missão de Jesus encontramos duas paixões: a primeira é a paixão pela vida, pelo Reino, pelo compromisso em favor dos mais pobres e excluídos. Esta paixão é expressão de uma opção, assumida fielmente por Jesus até o fim. A segunda paixão é a da cruz, imposta pelos poderes religiosos e civis. Ela não é fruto da opção de Jesus e nem faz parte da vontade do Pai. Ela é a visibilização da violência, do ódio, do fechamento frente à proposta de vida revelada por Jesus. No grego, “cruz” é “staurós” e tem dois significados: de um lado, é patíbulo, instrumento de tortura imposta pelos romanos aos rebeldes do império; de outro, significa prontidão, preparado, mobilizado, firme, sólido, estar de pé, ser fiel até o fim… Jesus não buscou a cruz do sofrimento, o patíbulo, a morte violenta… Ele buscou a cruz da fidelidade, da vida comprometida. Nesse sentido, a “staurós-cruz” é vida aberta, expansiva, oblativa, vida descentrada em favor dos outros. Ela não é um evento, mas um modo de viver, pois perpassa toda a vida de Jesus. “Cruz-staurós” é vivida a partir de uma causa: o Reino. Assim entendemos a afirmação de Jesus: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua ‘cruz-staurós’ cada dia e siga-me” (Lc 9,23). Significa esvaziamento do próprio “ego” para viver em sintonia com os outros, sobretudo com os mais sofredores. Infelizmente, a história da espiritualidade cristã confundiu “cruz-patíbulo” com “cruz-fidelidade” e acabou gerando uma espiritualidade do sofrimento, da mortificação, da renúncia… como se isso fosse agradável a Deus. A Paixão e Morte de Jesus foi “desconectada” de sua vida comprometida em favor dos pobres e sofredores, dando a impressão que só a “paixão de Jesus” é salvífica. Toda a vida de Jesus é salvação porque é vida que destrava vidas e abre para elas um novo sentido. Com isso, privilegiou-se a “cruz da dor” desligada da “cruz da vida”, do compromisso com o Reino. Tal concepção desembocou numa vivência cristã intimista, farisaica, alienada, descompromissada… Sabemos que o(a) seguidor(a) de Jesus quando vive a fidelidade à “cruz-staurós”, por causa do Reino, pode encontrar a perseguição, oposição e morte, como o próprio Jesus (a cruz patíbulo). Mas Jesus integra a “cruz patíbulo” e revela sua máxima solidariedade com todos os crucificados da história. Por isso, esta Cruz assumida é também visibilização da salvação. Nos relatos da Paixão de Jesus encontramos a presença das mulheres que vivem a “cruz-staurós”, ou seja, vivem a fidelidade ao seguimento de Jesus desde a Galileia. Enquanto os discípulos fogem, elas permanecem “de pé junto à Cruz”, numa atitude solidária e comprometida. A presença delas, certamente, foi um alívio para Jesus no momento trágico de sua vida: sentiu que não estava sozinho, pois suas amigas caminhavam com Ele, sofriam com Ele, morriam com Ele… Os evangelistas nos falam das mulheres muitas vezes; o relato da crucificação revela suas presenças como testemunhas, mediadoras e verdadeiras discípulas. Os relatos de Mateus, Marcos e Lucas coincidem em indicar que as mulheres “contemplavam a cena de longe”. João, “que vê por dentro”, as coloca junto à cruz. Estão ali, precedendo-nos no caminho, e não dizem nada. É seu corpo, são seus gestos, suas mãos, seus olhos, seu silêncio… que falam por elas. A linguagem delas é a linguagem da relação. Se elas podem permanecer nessas circunstâncias, é porque amaram muito. Elas nos falam de resistência e de fidelidade, de uma presença comovedora. Estão juntas, expostas a outros olhares, como comunidade de discípulas em torno a seu Mestre, que lhes ensina, agora sem palavras, uma sabedoria muito maior. Em meio à impotência, não se afastam da dor experimentada ao ver sofrer a quem mais se ama, senão que se expõem ao olhar d’Aquele cujo rosto foi desfigurado. * Quem são elas? De onde tiraram forças para permanecer ali quando outros se afastaram? * Onde estas mulheres encontraram a força para segui-Lo por este caminho do Calvário? Que faziam elas ali, junto à cruz? Realizam alguma ação eficaz? Vão poder impedir a morte de um inocente? Algumas destas mulheres são chamadas por seu nome próprio, ou são identificadas por vínculos de parentesco, ou ainda por ter gerado e acompanhado outras vidas. São as mesmas mulheres que haviam seguido e servido a Jesus na Galileia, e agora o farão também na sua morte. Sobem com Ele ao lugar do abandono e da ingratidão, levantando uma ponte de proximidade e de solidariedade que cruza a totalidade da vida de Jesus. Nem um só instante afastaram seus olhares d’Ele. E o que para uns é escândalo e para outros é loucura, para estas mulheres é uma força de Deus impressionante. Elas têm a coragem de permanecer ali, acolhendo o acontecimento em toda sua crueldade e profundidade; elas estão de pé, enquanto outros desistiram ou se afastaram assustados. A partir deste momento elas vão aprendendo a conviver com a morte, com a d’Ele, com a sua e com a dos outros. Vão aprendendo, precisamente em meio à morte, a “celebrar a vida”, mesmo intuindo que uma lança também as atravessará. Estas mulheres nos ensinam que “subir a Jerusalém” é assumir o conflito e a rejeição por defender os pobres e pequenos; é encontrar a perseguição devido ao compromisso em favor da vida; é saber que os grãos que caem em terra precisam morrer para germinar e multiplicar a vida. E é, também, subir animando a outros. Neste dia, a presença silenciosa das mulheres junto à Cruz nos ensina a compadecer, a abrir o coração e a despertar a sensibilidade solidária diante do sofrimento e da dor humanas. Nós nos humanizamos quando nos deixamos configurar pela compaixão, afetar por ela, ser tocados por ela. E deixar que a compaixão comande nossos atos e decisões. Compaixão, padecer com: esse é o segredo da vida, vivida em plenitude. Solidarizar-nos com o outro naquela situação

Quinta-Feira da Semana Santa: a refeição de despedida

“Estavam tomando a ceia”; “e começou a lavar os pés dos discípulos…” (Jo 13,2.5) Esta foi a prática de Jesus que mais causou espanto e escândalo: a partilha nas mesas com pobres e pecadores. Literalmente, Jesus foi aquele que “virou mesas” de muitas pessoas e fundou uma outra mesa: mesa da partilha, da festa, mesa da fraternidade onde todos se sentem iguais… Mesa da vida. Trata-se de uma mesa provocativa, questionadora, incômoda… que requer mudança de lugar, de mentalidade, de atitude… Sair da própria mesa e caminhar em direção à mesa dos outros. Comendo e bebendo com todos os excluídos, Jesus estava transgredindo e desafiando as formalidades do comportamento social e das regras que estabeleciam a desigualdade, a divisão, a exclusão… Jesus revelava uma grande liberdade ao transitar por diferentes mesas; mesas escandalosas que o faziam próximo dos pecadores, pobres e excluídos… Ele não só transitou por outras mesas, mas instituiu a grande Mesa para a festa, a intimidade, a memória: a “mesa do Lava-pés e da Última Ceia”. Ali, Ele “despoja-se do manto” (sinal de dignidade de “senhor”) e pega o avental (toalha, “ferramenta” de servidor). Jesus está no meio dos homens como Aquele que serve. “Despojar-se do manto” significa “dar a vida” sob a forma de serviço. Jesus coloca toda a sua pessoa aos pés dos seus discípulos. O Criador põe-se aos pés da criatura para revelar como ela é amada e como deve amar. O texto joanino nos diz que Jesus realizou o “lava-pés” durante a última Ceia. Todas as refeições tinham o “lava-mãos”. Algumas ceias especiais tinham o “lava-pés” no início como sinal de acolhida e de hospitalidade. Jesus realiza seu gesto enquanto a refeição está acontecendo. Certamente Ele estabeleceu uma relação muito estreita entre o comer e o servir, melhor dizendo, entre a refeição e o serviço solidário. Até Jesus, os convidados para a refeição eram servidos e saíam satisfeitos. A partir de Jesus, os convidados para a refeição servem-se uns aos outros e saem da refeição para servir os outros. O dom recebido é partilhado entre os seus; mas isso não basta, ele precisa ser colocado à disposição de todos, a começar pelos mais carentes. O dom é, ao mesmo tempo, graça e missão. O Evangelho de João, portanto, substitui a instituição da Eucaristia pelo Lava-pés. Audaciosa inovação que dirige o gesto eucarístico para a revolução das relações humanas: o poder do Senhor se converte em capacidade para servir; a autoridade não se exerce submetendo o outro, mas possibilitando que o outro “seja”. Com este gesto Jesus desvela uma imagem nova de Deus: o Todo-Misericordioso esvazia toda e qualquer expressão de poder e submissão entre os humanos. Ninguém serve a Deus, a não ser do jeito de Jesus, isto é, lavando os pés, amando até o fim. Nosso Deus não é prepotência, mas condescendência. É o Criador que se põe aos pés da criatura. Nosso Deus é um Deus que “desce”, que se “inclina” para acolher. Mistério da Encarnação: Deus abraçando e sendo encontrado junto aos pés dos seus filhos(as). O “descendimento” do Senhor aos pés dos discípulos e fazendo-se servidor, transforma o status da servidão (“o servo não sabe o que faz seu senhor” – Jo 15,15) em fraternidade (“não vos chamo servos, mas amigos” – Jo 15,15). Deste modo, aqui se revela o verdadeiro senhorio de Jesus: a possibilidade de restabelecer a igualdade entre as pessoas através da superabundância de um amor que se derrama, sem reservas, para todos. Este gesto provocativo de serviço e despojamento d’Aquele que é “Senhor” desperta em cada seguidor(a) o desejo de considerar suas qualidades e capacidades como veículos de doação, não de poder ou de manipulação. A partir deste “ousado gesto” já não se justifica nenhum tipo de superioridade, mas somente a relação pessoal de irmãos(ãs) e amigos(as). O Lava-pés é gesto ousado que quebra toda pretensão de poder. Jesus viu claramente que o perigo mais grave que ameaça seus seguidores é a tentação do poder. Não há dúvida de que isso é o que causa o maior dano a todos, o que mais nos desumaniza, pois alimenta divisão, submissão, obediência infantil… Por isso, com esse gesto, Jesus expressa que nunca quis agir como o superior que se impõe com poder; do mesmo modo, viu em semelhante comportamento uma conduta radicalmente inaceitável entre seus seguidores. A relação que se estabeleceu entre os discípulos e Jesus não foi a de submissão a um poder que manda e dá ordens, mas a do “seguimento” que brota da experiência de sentir-se atraído e seduzido pelo “modo de proceder” do mesmo Jesus. O gesto do lava-pés é repleto da “espiritualidade do cuidado”. O cuidado é um diálogo de presenças, não só de palavras. São seres “vulneráveis” que se encontram. O cuidado é expressão de ternura e delicadeza. É atenção às pessoas; é gesto de inclusão. O cuidado é gesto amoroso para com o outro, gesto que protege e traz serenidade e paz. O amor é a expressão mais alta do cuidado, porque tudo o que amamos cuidamos. E tudo o que cuidamos é um sinal de que também amamos. Cuidar é envolver-se com o outro ou com a comunidade de vida, mostrando zelo e preocupação. Mas é sempre uma atitude de benevolência que quer estar junto, acompanhar e proteger; é ter espírito de gentileza e ternura para captar e sentir o outro como outro, como original, e acolhê-lo na sua diferença. Lava-pés não é teatro, mas modo habitual de proceder e de estar no mundo. “Tal Cristo, tal cristão”: na vivência do serviço evangélico, somos chamados a vestir o “avental de Jesus”. “Vestir o coração” com o avental da simplicidade, da ternura acolhedora, da escuta comprometida, da presença atenciosa, do serviço desinteressado… O que é “tirar o manto?” Para nós o “manto” poderia ser nossa máscara, nossa redoma, nossa capa de proteção que nos distancia dos outros…; é tudo aquilo que impede a agilidade e a prontidão no serviço… “Tirar o manto” é a atitude firme de quem se

Semana Santa: os grandes momentos de Deus em nossa história

A cada Semana Santa que celebramos, revivemos os maiores mistérios de nossa fé. Na Quinta-Feira Santa, entramos no mistério eucarístico. Jesus institui o sacerdócio e a Eucaristia. Como entender em profundidade o mistério que aí se esconde? Jesus toma pão e vinho, e sem mudar suas aparências e características físicas e químicas, transformam-nos em seu corpo e sangue. Quem deles comunga, come e bebe o corpo e o sangue de Cristo, com gosto de pão e de vinho. Se dissesse a uma criança que ali está Jesus, ela talvez não entenderia, porque ela ainda não consegue “ver” com os olhos da fé. Ela poderia dizer que comeu apenas um pãozinho e nada mais. É preciso estar imbuído da Palavra de Jesus, que afirma que ali é Ele quem está presente, em sua realidade plena. Após a consagração, ao ouvir “isto é mistério da fé”, respondemos, com convicção, que nós reconhecemos, afirmando que ali se realiza a morte e a ressurreição, e aguardamos ansiosamente a vinda de Jesus. O celebrante (padre, bispo, Papa) o faz não em seu nome, mas em nome de Cristo. Jesus conferiu esse poder ao sacerdote pelo sacramento da ordem por Ele instituído na Quinta-Feira Santa. “Todas as vezes que o fizerdes, fazei-o em memória de mim” (1 Coríntios 11,24). Eis aí os mistérios da Quinta-Feira Santa. Na Sexta-Feira Santa, celebramos a paixão e morte de Jesus. Também aí se esconde outro mistério de nossa fé. Quem poderia imaginar que o próprio Deus tomasse corpo humano e o oferecesse livremente à morte de cruz, como prova definitiva de amor por nós, num gesto salvífico que atingiu a todos os que vieram antes de dele e os que nasceram depois ou ainda virão enquanto o mundo existir? Não haverá outra redenção; a de Cristo foi definitiva. A força desse gesto ultrapassa séculos e gerações. É todo o Universo redimido nessa cruz salvadora. No Sábado Santo, celebramos o grande mistério da ressurreição. Cristo ressuscita dos mortos. O crucificado se manifesta vivo diante de testemunhas, que se tornam portadoras de sua mensagem para todos os povos, tempos e recantos do mundo. O “aleluia” proclamado manifesta a alegria do mistério aceito, no qual se coloca todo o sentido da vida e da morte. É um eco que ressoa no universo e canta o hino eterno junto com o coro dos anjos e santos. O “Exultet” (exultem) proclama a grande Páscoa, que não é mais uma passagem por águas oceânicas, mas a que vai para além dos níveis terrenos, alçando-se nos albores eternos. No Domingo da Páscoa, a grande festa cristã se estende para um perpétuo “Dia do Senhor”, recordado em cada Eucaristia celebrada em milhares de igrejas, templos, capelas e outros recantos sagrados. Resplandece, nesse dia de Páscoa, o mistério da ressurreição, que selou para sempre a redenção e a salvação. A Semana Santa, que ocorre cada ano, revive esses grandes mistérios que dão sentido à fé cristã e razão de viver para e dos cristãos. Que os mistérios de nossa fé celebrados na Semana Santa encham sua vida de um “aleluia” alegre e festivo, porque, mais uma vez, podem-se viver os grandes momentos de Deus em nossa história humana. Feliz será você quando vivenciá-la nas celebrações de que participar, celebrando os mistérios de nossa fé! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

A mística pascal em nossas madrugadas

Vivemos a mais importante celebração do calendário litúrgico anual: a Páscoa do Senhor. Depois de dois anos sem as celebrações nas igrejas, devido à pandemia, tive a impressão de um povo mais “entusiasmado” (inclusive no sentido original dessa palavra) na Semana Santa. Já nestas primeiras linhas, saúdo os cientistas e os muitos outros profissionais envolvidos na vacinação contra a famigerada covid-19. Sem esse recurso bendito, como estaríamos agora? Uma percepção que tive, pelo menos nas comunidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde sirvo como diácono da Igreja, é a admiração de muitas pessoas, inclusive ministros e agentes de pastorais experientes, diante da liturgia destes dias. Descobri que muitos jamais haviam participado de um Tríduo Pascal completo. Para meu espanto, para dizer pouco, havia até idosos que nunca estiveram numa Vigília Pascal, a mais bela liturgia do ano, realizada na noite do sábado (para a Igreja, já o domingo). Assim, vem a meu coração o Evangelho proclamado na manhã do Domingo de Páscoa (João 20,1-9). Eu gostaria de sublinhar o primeiro versículo: “No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo”. A madrugada pode dizer bem mais que um período do dia. Dependendo do enfoque, ela pode ser ainda a noite, com suas sombras, medos, obstáculos; ou pode ser a antessala da claridade, a expectativa da luz que virá em breve e trará segurança e ânimo. No início do trecho, a madrugada para Maria Madalena é o cenário das trevas. Certamente ainda estão fortes em sua lembrança as imagens bem nítidas da violência cometida contra o Mestre. No interior da discípula, uma tempestade talvez de revolta contra os companheiros de caminhada que abandonaram Jesus numa hora difícil, decepção pela aparente queda do projeto de Cristo devido à injustiça das autoridades do Templo e de Roma, e de espanto ao testemunhar a dor de Maria, a Mãe do Senhor. Eis a assombrosa madrugada! Essas horas, contudo, também são o prenúncio do Sol. Se nosso olhar, nosso espírito está voltado para o nascente, a perspectiva é outra. Isso vale para nossa vida. Nos instantes de escuridão, nossa fé precisa nos levar a acreditar na vitória das luzes. É esse o espírito da Páscoa. Não uma vitória qualquer, mas aquela carregada de crescimento, aprendizado (às vezes, doloroso), libertação daquilo que nos diminui como seres humanos. Madalena, ao identificar o túmulo violado, ainda sob o pavor das trevas, pensa ter havido um roubo. Conforme chega o dia, a esperança começa a vencer ao horror. Por fim, a Apóstola dos Apóstolos tem a experiência do encontro com o Senhor, segundo outras narrativas, amedrontando quem ainda não passa por esse mistério (outros discípulos levam um susto ao ouvir o depoimento das mulheres). O tenebroso véu da pandemia nos deu e ainda nos força a muitas lições. Mas talvez tenhamos aprendido a rever muita coisa, tal como os idosos que se encantaram com a beleza da Vigília Pascal; até este ano, inédita para eles. Quiçá partiriam deste mundo sem a terem festejado. Que Deus nos permita, no próximo ano, termos mais segurança para podermos retomar todos os gestos litúrgicos possíveis e, claro, as doces tradições populares, por ora limitadas pelos cuidados sanitários. Mais pessoas se encantem com uma festa de uma semana de semanas! Páscoa não pode ser uma ideia bem emaranhada da teologia ou mote para consumo, mas experiência bem concreta. Muitos homens e mulheres entre nós permanecem encerrados nos mais diversos túmulos. Que a mão de Deus e nosso testemunho de fé na vida, na justiça e na paz reergam das sombras da morte nossa sociedade. Um santo e feliz Tempo de Páscoa! Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das SSpS.

Páscoa: tempo de renascer! Tempo de despertar para a vida nova!

Muitos de nós, de uma certa idade, lembram ainda quando a Quaresma era observada com muito rigor nas famílias e comunidades cristãs, com especial ênfase em privar-se de algum bem (doces, bebidas, cinema ou algo semelhante). Que alegria quando chegava o Sábado Santo, quando terminava a Quaresma ao meio-dia, pois tudo aquilo terminava! Sem negar o valor das práticas daqueles tempos idos, antes da reforma litúrgica do Papa Pio XII, a celebração da Páscoa foi diminuída em sua importância e quase que desligada da caminhada quaresmal. O ponto alto do ano litúrgico é o Tríduo Pascal. Aqui está resumido todo o mistério de nossa salvação, pela vida, morte e ressurreição de Jesus. Na quinta à noite, comemoramos a Ceia que sintetizou toda a vida de Jesus. “Tendo amado os seus, amou-os até o extremo” (João 13,1), até o último ponto de doação, dando a sua vida. Jesus nos deu o mandamento que deve nortear toda a nossa vida: “Façam isso em memória de mim”. Não fazendo uma lembrança de algo que já passou, mas o memorial, tornando presente tudo o que foi celebrado na ceia derradeira e comprometendo-nos com o seguimento de Jesus hoje, alimentados por seu Corpo e Sangue, com uma vida de amor e solidariedade. Há uma ligação estreita entre todos os elementos do Tríduo, pois a Sexta-Feira foi a consequência lógica da vida de Jesus. Ele não veio para morrer, mas para que “todos tenham a vida e a vida em abundância” (João 10,10). Por isso seu projeto do Reino bateu frontalmente com os projetos de dominação de seu tempo e, por isso, ele foi assassinado. Fiel até o fim, assumiu as consequências da fidelidade à vontade do Pai e foi morto, e morto na Cruz. Desvinculado da Quinta-Feira Santa e do Sábado Santo, Sexta-Feira seria a celebração de uma derrota fragorosa. Por isso, depois de sentirmos a dor e a tristeza da Sexta-Feira, aparente vitória do mal, celebramos, pela Liturgia Pascal, numa explosão de alegria: a vitória de Deus, do bem, na Ressurreição de Jesus, garantia da nossa. Salta aos olhos, mesmo com uma leitura superficial dos relatos evangélicos, que a experiência da Páscoa fez uma reviravolta na vida dos discípulos e discípulas. De um grupo de decepcionados, desiludidos, fracassados, tornaram-se um grupo dinâmico, evangelizador, animado, olhando a vida, com suas alegrias e tristezas, de outra maneira. Isso fica claro no relato dos Discípulos de Emaús, em Lucas (24,13-35). Podemos sentir, no desabar de Cléofas, sentimentos de tristeza, decepção, desilusão, até revolta contra Jesus por, aparentemente, Ele ter fracassado e destruído os sonhos e esperanças deles: “Nós esperávamos (notemos o tempo do verbo) que fosse Ele o libertador de Israel, mas… já faz três dias que tudo isso aconteceu” (Lucas 24,21). De repente, depois de ter feito a experiência da presença de Jesus Ressuscitado, tudo muda: “Então, um disse ao outro: ‘Não estava o nosso coração ardendo quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?’. Na mesma hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém, onde encontraram os Onze, reunidos com os outros” (Lucas 24,32-33). Páscoa era para eles, e tem de ser para nós, “tempo de renascer”. Mas é bom notar: só “renasce” o que morreu! Temos de descobrir em nós o que precisa renascer, o que tem morrido ou está agonizando. Pode ser a fé, a força, o ânimo, a esperança, o engajamento na comunidade, a energia para lutar por um mundo melhor. Todas essas coisas são capazes de renascer se realmente fizermos a real experiência da Páscoa, da ressurreição de Jesus. Não de uma maneira sentimental e aérea, mas realista. Para ressuscitar, Jesus teve de passar realmente pela morte. Mas venceu a morte e continua a viver, e no meio de nós. Lembremos como Paulo dava importância à Ressurreição. Escrevendo aos coríntios, uma comunidade onde alguns “iluminados” negavam ou menosprezavam o fato da Ressurreição, ele brada: “Se os mortos não ressuscitam, Cristo também não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, a fé que vocês têm é ilusória, e vocês ainda estão nos seus pecados… Se a nossa esperança em Cristo é somente para esta vida, nós somos os mais infelizes de todos os homens” (1 Coríntios 15,16-19). Não há dúvida de que não é fácil manter sempre a esperança, a fé e a coragem diante de tantas dificuldades na vida. Sempre foi assim. O autor anônimo de Hebreus, escrevendo na segunda parte do primeiro século a uma comunidade judaico-cristã, sabia disso e falou: “Corramos com perseverança na corrida, com os olhos fixos em Jesus… Para que vocês não se cansem e não percam o ânimo, pensem atentamente em Jesus” (Hebreus 12,1c-3). A celebração da Semana Santa nos dá uma oportunidade de fazer isto: olhar de novo atentamente para Jesus, o Verbo de Deus, “que se fez homem e armou a sua tenda no meio de nós” (João 1,14). Assim podemos reanimar nossa fé, nossa missão, nossa participação na comunidade, olhando, recordando e celebrando o Jesus real, de mão calejada, que se tornou igual a nós em tudo, menos no pecado. Se, apesar de ser abandonado por quase todos e sentindo-se abandonado até pelo Pai, gritando, “Meu Deus, meu Deus! Por que me abandonaste?” (Marcos 15,34), mesmo assim, foi fiel até o fim, foi ressuscitado pelo Pai. Tempo de renovação, tempo de reviver, tempo de ânimo novo, tempo santo; a celebração da vida, morte e ressurreição de Jesus, “autor e consumidor da fé” (Hebreus 12,3). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Uma Páscoa diferente

Neste período de pandemia, em que os alunos estão em casa de férias ou tendo aulas on-line, a Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo está buscando, de muitas maneiras, manter o contato com as famílias e acompanhar os estudantes. Entre as muitas ações que vêm sendo realizadas com as famílias das comunidades educativas dos colégios, o trabalho realizado na Semana Santa merece destaque especial. Foram três passos que culminaram na celebração da Páscoa em família. Aqui vale observar a importância do processo que cada família realizou. Desde a preparação do espaço, a produção dos pães até o momento da celebração em si. Parece até que voltamos a celebrar do mesmo jeitinho que Jesus, na primeira páscoa, em nossas casas. A festa da fé, da esperança e da vida nova vivida na intimidade de nossos lares e em pequenos grupos. Olhando o texto bíblico, é curioso perceber o que fala sobre os preparativos da Páscoa. Aproximava-se a festa da tradição judaica que fazia memória da saída do povo do Egito, e o grupo de Jesus realizaria esse preceito. Surgiu, entretanto, um problema: eles não tinham uma casa para que pudessem se reunir. E Jesus encontrou uma solução: “Enviou então dois dos seus discípulos e disse-lhes: ‘Ide à cidade. Um homem levando uma bilha d’água virá a vosso encontro. Segui-o. Onde ele entrar, dizei ao dono da casa: o Mestre pergunta: ‘Onde está a minha sala em que comerei a Páscoa com os meus discípulos?’. E ele vos mostrará no andar superior uma grande sala arrumada com almofadas. Preparai-a ali para nós.” (Marcos 14,13-15) Os discípulos encontraram aquilo que Jesus havia falado. Seguiram o homem da bilha, entraram na casa, e o dono do lugar disponibilizou uma grande sala, no andar superior. Ali os discípulos prepararam a ceia. Como podemos ler, não aparece o nome do homem que ofereceu a sala para Jesus e os discípulos celebrarem a Páscoa. Nos vídeos, veremos como tudo isso aconteceu nas famílias bem como a relação que a Rede de Educação tem buscado estabelecer com cada uma. Assista. Agostinho Travençolo Júnior, educador e coordenador da Dimensão Missionária da Rede de Educação SSpS.

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