Deus Trindade: circularidade-encontro-amor

Veja a reflexão elaborada pelo jesuíta padre Adroaldo Palaoro, comentando o Evangelho proclamado nesta Solenidade da Santíssima Trindade. A passagem bíblica é de João 3,16-18. O coração sempre aquecido em Deus Uno e Trino é a base da espiritualidade de Santo Arnaldo Janssen e de sua família espiritual da qual faz parte a Congregação das Irmãs Missionárias Servas do Espírito Santo.
Novena de Pentecostes – sétimo dia – “Fecundai nossa aridez”

O hino “Vinde, Espírito Santo” apresenta uma imagem do Espírito que lava, que rega, que cura. Estamos no centro da atenção da Trindade. Junte-se a nós para rezar o sétimo dia da Novena de Pentecostes!
“No Espírito, pelo Filho, ao Pai”

Veja a reflexão bíblica elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o Evangelho desta Solenidade da Santíssima Trindade, narrado em Mateus 28,16-20.
“Se tu vês a caridade, vês a Trindade” (Santo Agostinho)

“Deus amou tanto o mundo…” (Jo 3,16) Com a festa da Santíssima Trindade, chegamos ao cume do tempo litúrgico pascal. A revelação nos diz que nosso Deus não é solidão, mas comunhão de Pessoas: Pai-Filho-Espírito Santo. A Trindade não é um problema numérico (três em um), mas um mistério de amor, de salvação e de vida. Deus-Trindade é, portanto, a relacionalidade por excelência; total relacionalidade de cada uma das pessoas divinas com respeito às outras, de tal forma que se implicam e incluem reciprocamente sempre e em cada momento, sem que uma seja a outra. Deus só existe como ser em relação. A grande novidade cristã é que a divindade só existe comunicada, partilhada. Deus é relação. Deus é só relação. Deus é só amor. “No princípio está a relação” (G. Bachelard). Deus é essencialmente relação; e essa relação, “num belo dia”, transbordando de vida, transbordando de gratuidade, pôde abrir-se a nós para nos fazer existir, concedendo-nos o ser e convidando-nos a entrar no fluxo dessa mesma relação trinitária. Jesus não pregou sobre a Trindade, mas abriu o caminho que conduz ao Pai e enviou seu Espírito. A partir de sua própria experiência de Deus, Jesus convida seus seguidores a se relacionarem de maneira confiada com Deus Pai, a seguirem fielmente seus passos de Filho de Deus encarnado e a se deixarem guiar e alentar pelo Espírito Santo. Ele os ensina, assim, a se abrirem ao mistério santo de Deus. Também os primeiros cristãos não elaboraram argumentos sobre a Trindade (nem Pedro, nem Paulo, nem os evangelhos, nem mesmo os chamados Padres apostólicos), mas todos falaram sem cessar do Pai, do Filho Jesus e do Espírito Santo. Só no final do séc. II e princípio do séc. III alguns teólogos audazes começaram a falar da Trindade e descobriram que esse nome era mais cômodo para referir-se, ao mesmo tempo, ao Pai, a Jesus e ao Espírito, de maneira que começaram a empregá-la com certa frequência. A Trindade não é um dogma separado da Bíblia ou da Igreja; no centro da Bíblia e da vida cristã se encontra o mistério de Deus-Pai, que conhecemos por Jesus e compartilhamos pelo Espírito Santo, em sua união e diferenças. Esses Três, que são Um, em amor e vida, constituem o que, com palavra imperfeita, mas talvez imprescindível, chamamos Trindade, para confessar por ela que o Deus dos homens é dinamismo de vida e impulso de amor na mesma história dos homens. Entendida assim, a Trindade constitui, com a Encarnação, o centro do mistério cristão: por ela sentimos e sabemos que Deus é fonte inesgotável e comunhão criadora de amor que anima e sustenta a história dos homens. Conta-se que, certa vez, um homem provocou S. Agostinho dizendo que não podia ver a Trindade. Este lhe respondeu: “Tu vês a Trindade quando vês a caridade” (De Trinitate VIII, 8,2). Esta resposta, tão fulgurante como esclarecedora, nos situa no coração do mistério de Amor que presidiu a Criação, centrou-se na Encarnação e alcançará sua plenitude na Ressurreição. A partir desse Amor vivemos a fé e a comunhão trinitária como a expressão mais adequada da vida única, radiante, irradiadora, do Pai, do Filho e do Espírito Santo que, contemplando-se um ao outro, se revelam como fonte e origem de tudo o que existe. A criação inteira procede das entranhas amorosas das Três Pessoas divinas; não só isso, a Criação é também morada da Trindade; em tudo encontramos “marcas” da ação trinitária e, de maneira especial, onde a caridade é vivida. Assim, à luz da afirmação de S. Agostinho, podemos sentir e “ver” a Presença da Trindade lá onde o amor se expande e se externaliza na prática da caridade. Esta é a nossa credencial como seguidor(a) de Jesus: a vivência do amor, desse amor que contempla a vida e sente o pulsar da Trindade na beleza da criação e na dignidade de cada ser humano. Portanto, o mistério da Trindade não é uma verdade a ser pensada, mas uma presença a ser vivida; presença que perpassa tudo e se faz visível em toda realidade; presença que ultrapassa tudo o que pensamos e refletimos sobre ela. Só quem tem olhos contemplativos vê as “marcas” da presença do Deus Uno e Trino em tudo e em todos. É da essência da Trindade ser “amor em movimento”; por isso, onde há amor e caridade, aí está a Trindade; e só corações solidários são capazes de entrar no fluxo desse amor e adorar o Deus trinitário. Sabemos que “caridade” provém de “cháris” = Graça. Caridade é Graça em ação, é amor incondicional, é dom gratuito, é favor concedido a alguém, é generosidade radical. A caridade é a visibilização da ação trinitária. O ser humano entra no movimento amoroso da Trindade quando sai de si e se revela presença solidária juntos aos mais necessitados; ali ele deixa transparecer o rosto amoroso da Trindade. Aqui está a grandeza do ser humano, criado à imagem e semelhança do Deus Trindade. E é fácil intuir isso: sempre que sentimos o dinamismo de amar e ser amados, sempre que sabemos acolher e buscamos ser acolhidos, quando compartilhamos uma amizade que nos faz crescer, quando sabemos dar e receber vida…, estamos saboreando o “amor trinitário” de Deus. Esse amor que brota em nós tem n’Ele sua fonte. Por isso, quem vive o amor a partir da Trindade aprende a amar a quem não lhe pode corresponder, sabe doar sem esperar recompensa, é capaz de compadecer-se dos mais pobres e excluídos, pode entregar sua vida para construir um mundo mais amável e digno de Deus. Nesse sentido, o melhor caminho para aproximar-nos do mistério da Trindade não são os tratados teológicos que falam dela, mas as experiências amorosas que compartilhamos na vida. Só encontramos e “vemos” a Trindade com o coração. Quem é incapaz de dar e receber amor, quem não sabe compartilhar nem dialogar, quem só escuta a si mesmo, quem resiste relacionar-se com os outros, quem só busca seu próprio interesse, quem só deseja o
No tempo das mentiras, o Espírito Santo nos ensina a verdade

Em um mundo globalizado, marcado pelas inovações tecnológicas, pela propagação de fake news e pela busca incessante, nas redes sociais, de notoriedade e fama a qualquer preço, a Festa de Pentecostes se torna uma oportunidade para a humanidade refletir profundamente não apenas sobre os frutos ou sete dons do Espírito Santo, mas, sobretudo, sobre o amor infinito de Deus diante dos movimentos e cenas que, ultimamente, têm disseminado discursos de ódio, xenofobia, intolerância religiosa em nome da liberdade de expressão, violência e desrespeito aos direitos humanos. Tais acontecimentos, em vários cantos do mundo, devem ser vistos como “sinais dos tempos” em que se faz necessária e imprescindível a presença permanente do Espírito Santo para recriar e renovar a “face da terra”, marcada e maculada pelo feminicídio e derramamento de sangue de inocentes, vítimas de guerras, conflitos armados e pela destruição do meio ambiente ecologicamente equilibrado. A Solenidade de Pentecostes é uma imperatividade do fogo ardente nos corações dos fiéis comprometidos, comprometidas para mudar o mundo e revelar o rosto amoroso do Pai Celeste que, com o Filho, são um: “Eu e meu Pai somos um” (Jo 10,30). O amor da Santíssima Trindade revelado pelo Espírito Santo faz com que os seres humanos (de modo especial, os cristãos) busquem a comunhão sincera e a fraternidade na obediência aos mandamentos. “O que glorifica meu Pai é que deis fruto em abundância; e assim sereis verdadeiramente meus discípulos. Assim como o Pai me amou, Eu, da mesma forma, vos amei. Permanecei no meu amor. Se obedecerdes aos meus mandamentos, permanecereis no meu amor, exatamente como Eu tenho obedecido às ordens do meu Pai e permaneço em seu amor” (Jo 15,8-10). Nesse sentido, vale salientar o pensamento de São José Freinademetz (1852-1908), primeiro missionário verbita na China que, ao lembrar-se dos desafios missionários e da pertinência de se abrir à cultura chinesa, disse que a linguagem do amor é a única língua que todos os povos compreendem. Afinal, quem é o autor de tal abertura às culturas dos outros? Obviamente é o Espírito Santo que nos abre ao conhecimento da divindade do Cristo, mas também congrega todos os povos, todas as raças, línguas e culturas em uma só família, em um só povo, o povo de Deus. Observa-se, nesse caso, a importância da presença do Espírito Santo na vida da Igreja como agente pastoral, como guia dos corações apaixonados por Jesus Cristo, o Mestre, o Bom Pastor, o Rosto amoroso do Pai, de quem procede também o Espírito, o Paráclito (que anima, consola nas dores, nos sofrimentos), o Advogado (que defende, perante as adversidades da vida, nos falsos julgamentos) e o Animador que dá vida e sentido às pastorais e demais atividades eclesiais e sociais. O Espírito da verdade e da vida Vale a pena contextualizar a mensagem do próprio Jesus Cristo quando, na qualidade do enviado do Pai e revelando-se melhor aos discípulos, destacou abertamente sua identidade dizendo “Eu e o Pai somos um”, e a Filipe: “Quem me vê, vê o Pai”. É o Espírito Santo que nos revela esse mistério do amor, da união e comunhão entre o Pai e o Filho. É interessante ressaltar a nobreza da missão do Espírito Santo na sociedade. Em um mundo de mentiras, o Espírito vem nos ensinar pedagogicamente a verdade, pois o Filho de Deus é a Verdade por excelência. Diante da cultura da morte, Ele nos revela o sentido da valoração e valorização da vida. E quando a sociedade oferece vários caminhos que levam à perdição e à morte, o Espírito nos aponta o Caminho que leva ao Pai Celeste e às boas pastagens verdejantes. Em sua homilia de 5 de maio de 2022, o Papa Francisco recordava que o Espírito é o “motor” de nossa vida espiritual, que nos faz ver tudo de maneira nova, segundo o olhar de Jesus. Sabemos, de fato, que o olhar de Jesus é do amor verdadeiro, é compassivo, misericordioso e cheio de ternura para com todos, principalmente para com as pessoas em situação de vulnerabilidade, de exploração e exclusão social. É um olhar transformador. Daí a importância do Espírito Santo que procede do Pai e do Filho como abertura ao amor pleno porque, sem ele, fruto do amor, a vida humana não tem e nunca terá sentido. Vê-se, portanto, a importância do Espírito Santo tanto na vida eclesial como na social, no dia a dia. Nobre lição “O Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, Esse é que vos ensinará tudo e há de recordar-vos tudo o que Eu vos disse” (Jo 14,26). Ensinar o quê? A quem? Como e quando? Revela-se, sobremaneira, que o Espírito transmite o conhecimento do amor que há no Pai e no Filho a toda a humanidade, cumprindo-se, então, a promessa de Jesus. Olhando para a própria etimologia do verbo “ensinar”, percebe-se que o Espírito, tanto na Igreja como na sociedade, age como educador, pois Ele faz com que as pessoas aprendam a amar o Pai e o Filho que o enviaram e revelar o mistério do amor que habita neles. Infelizmente, hoje em dia, há muitos “educadores”, sobretudo no mundo digital, onde muitos são chamados de “influenciadores, influenciadoras”, tornando-se vozes a serem ouvidas no deserto de uma sociedade carecedora de referências e caminhos para muitas pessoas sem bússola, apenas adormecidas por ideologias geradoras de violência, ignorância, intolerância, negatividade e ceticismo com a ciência. É mergulho, aparentemente, sem volta no mundo de incertezas e de relações líquidas. É, justamente, no meio desses desafios da nossa Era que o Espírito ensina e orienta a Igreja a não ter medo, pelo contrário, a seguir o caminho apontado por Jesus, o qual leva ao Pai. Considerando a complexidade da condição humana e sua multidimensionalidade, como diria Edgar Morin, pode-se, no caso da Igreja, com a diversidade de ministérios, dizer que a força do Espírito Santo abre a humanidade a novos horizontes de pensar, ensinar, educar e congregar todos os conhecimentos em um ponto de convergência que é o Cristo. Na Era
Solenidade da Santíssima Trindade

“O Espírito não falará em seu próprio nome”João 16,12-15 Hoje celebramos o mistério insondável de Deus, a Santíssima Trindade. Durante os primeiros séculos de sua existência, a Igreja tinha dificuldade para expressar em palavras o inexprimível: a natureza do Deus em que acreditamos. Chegou à expressão belíssima do Credo Niceno-Constantinopolitano, tão pouco usado nas celebrações de hoje, o qual celebra o Pai “criador de todas as coisas”; o Filho, “Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado’; e o Espírito que “dá a vida e procede do Pai e do Filho”. Mas, mesmo essas expressões tão profundas não conseguem explicar a Trindade, pois, se Deus fosse compreensível à mente humana, não seria Deus. O Quarto Evangelho nos traz formulações muito bonitas referentes à Trindade, especialmente no último discurso de Jesus. Nesses capítulos (13 a 17), Ele é representado como o Paráclito, uma palavra grega que significa, em nossa linguagem, o Advogado da Defesa. Em diversos textos, João expressa a função do Espírito dentro da comunidade pós-ressurrecional. No capítulo 16, de onde se tira o texto de hoje, existe um trecho trinitário: os versículos 13 a 15 se referem ao Espírito; os versículos 16 a 22, a Jesus; os versículos 23 a 27, ao Pai. No texto de hoje, é enfatizada a função do Espírito de ensinar. Como no capítulo 14, num texto paralelo, esse ensinamento não trará nada de novo. Jesus já recebeu tudo do Pai, e o Paráclito recebe tudo de Jesus. Mas o ensinamento dele vai fazer com que os discípulos compreendam melhor o que significa o ensinamento que receberam de Jesus. Vai fazer com que eles “recordem” suas palavras e, assim, consigam colocá-las em prática. O termo “verdade” que se usa nesse trecho tem o mesmo sentido de outros textos do Quarto Evangelho, isto é, a fé em Jesus como a revelação de Deus e quem fala as palavras de Deus (João 3,20.33; 8,40.47). Dentro das limitações da linguagem humana, tentamos expressar o mistério da Trindade como “três pessoas em uma única natureza”. Mais importante do que encontrar fórmulas abstratas para expressar o que, no fundo, é inexprimível é descobrir o que a doutrina da Trindade pode nos ensinar para nossa vida cristã. Talvez o livro de Gênesis possa nos ajudar. Lá se diz que Deus “criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus Ele o criou; e os criou homem e mulher” (Gênesis 1,28). Se somos criados na imagem e semelhança de Deus, é de um Deus que é Trindade, que é comunidade perfeita, na diversidade. Assim, só podemos ser pessoas realizadas conforme vivemos comunitariamente. Quem vive só para si é destinado à frustração e à infelicidade, pois está negando sua própria natureza. O egoísmo é a negação de quem somos, pois nos fecha sobre nós mesmos, enquanto fomos criados na imagem de um Deus que é o contrário do individualismo, pois é Trindade. No mundo pós-moderno, onde o individualismo social, econômico e religioso é tido como critério fundamental da vida, a doutrina da Trindade nos desafia para que vivamos nossa vocação comunitária, criando uma sociedade de partilha, solidariedade e justiça, no respeito do diferente do outro, pois fomos criados na imagem e semelhança desse Deus que é amor e comunhão. A festa de hoje não é de um mistério “matemático” (como pode ter três em um?), mas do mistério do amor de Deus, que nos criou para que vivêssemos comunitariamente na sua imagem e semelhança. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
Solenidade da Santíssima Trindade

“Vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos”Mateus 28,16-20 Hoje celebramos o mistério insondável de Deus: a Santíssima Trindade. Durante os primeiros séculos de sua existência, a Igreja lutou com dificuldade para expressar em palavras o inexprimível: a natureza do Deus no qual acreditamos. Chegou à expressão profunda do Credo Niceno-Constantinopolitano, no qual celebra o Pai “Criador de todas as coisas”, o Filho “Deus de Deus, luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai”, e o Espírito que “dá a vida e procede do Pai e do Filho”. Mas mesmo essas expressões tão profundas não conseguem explicar a Trindade, pois, se Deus fosse compreensível à mente humana, não seria Deus. Dentro das limitações da linguagem humana, tentamos expressar o mistério da Trindade como “três pessoas numa única natureza”. Mas, mais importante do que encontrar fórmulas filosóficas ou teológicas abstratas para expressar o que, no fundo, não é possível definir, é descobrir o que a doutrina da Trindade pode nos ensinar para a nossa vida cristã. Talvez o livro de Gênesis possa nos ajudar. Lá se diz que Deus “criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus Ele o criou; e os criou homem e mulher” (Gênesis 1,28). Se fomos criados à imagem e semelhança de Deus, é de um Deus que é Trindade, que é comunidade, unidade perfeita na diversidade. Assim só podemos ser pessoas realizadas desde que vivamos comunitariamente. Quem vive só para si está destinado à frustração e infelicidade, pois está negando a própria natureza. O egoísmo é a negação de quem somos, pois nos fecha sobre nós mesmos, visto que fomos criados à imagem de um Deus que é o contrário do individualismo, pois é Trinitário. No mundo pós-moderno, onde o individualismo social, econômico e religioso é tido como critério fundamental da vida, a doutrina da Trindade nos desafia para que vivamos nossa vocação comunitária, criando uma sociedade de partilha, solidariedade e justiça, no respeito do diferente do outro, pois fomos criados à imagem e semelhança desse Deus que é amor e comunhão. O texto evangélico nos faz lembrar que somos continuadores da missão da Trindade encarnada em Jesus de Nazaré, a de testemunhar o Reino de Deus, vivendo em comunidade o projeto de Jesus, o missionário do Pai, que nos congregou na Igreja pela ação do Espírito Santo. Conforme criarmos comunidades alternativas de solidariedade, fraternidade, justiça e paz, estaremos vivendo na imagem e semelhança do Deus Uno e Trino, comunidade e comunhão perfeita, que nos convida a participar da sua própria vida. A festa de hoje não é de um mistério matemático (como se fosse possível explicar “três em um”), mas do mistério do amor de Deus, que nos criou para que vivêssemos comunitariamente à sua imagem e semelhança. É, portanto, ao mesmo tempo, celebração e desafio, para que tornemos cada vez mais concreto o projeto de Deus para toda a humanidade, no caminho do discipulado de Jesus. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
A Solenidade da Santíssima Trindade e sua importância na vida de um cristão

Celebramos, no domingo logo após a Solenidade de Pentecostes, a Solenidade da Santíssima Trindade. Por ordem do Senhor Jesus, em Mateus (28,19), cada um de nós foi batizado e consagrado a Deus “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. Fazemos nossa oração diária em sintonia com a Santíssima Trindade. Traçando sobre nosso corpo o sinal da cruz, sinal do amor de Deus por nós, abrimos nosso ser para a Trindade: “Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém!”. Ainda nos braços da mãe, talvez sem entendermos o sentido do gesto ou o alcance das palavras, aprendemos a fazer o sinal da cruz e nossa primeira oração: “Em nome do pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém”. Esse “amém” no fim da oração é um vocábulo hebraico e, explica Catecismo da Igreja Católica (n.º 1026), está ligado à mesma raiz da palavra “crer”, e exprime a solidez, a confiabilidade e a fidelidade de nossa fé. Pode proclamar tanto a lealdade de Deus para conosco como nossa confiança nele. Com o “amém” que pronunciamos, anunciamos ter encontrado Deus e depositamos nele nossa inteira e total confiança. Esse piedoso sinal da cruz, pelo qual se benze o cristão, invocando as Três Pessoas Divinas, prática já comprovada no segundo século, é um costume de sentido profundo e completo: significa consagração, profissão de fé e oração. Em cada oração que fazemos todos os dias, sempre começamos e terminamos com o sinal da cruz. Com esse sinal, entramos na presença da Santíssima Trindade. É uma louvação às Três Divinas Pessoas, porque elas se revelaram na história e nos convidam a participar de sua comunhão divina. A resposta humana à revelação da Santíssima Trindade é o agradecimento e a glorificação. Depois, decoramos a doxologia (a louvação): “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo”. E não demorou para aprendermos, desde crianças, muitas vezes antes da primeira comunhão, a professar com piedade e precisão, mesmo sem entender o que haveríamos de compreender, pouco a pouco, mais e melhor, ensinados por nossa mãe, avó, catequista, com solenes palavras: “Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra […] Creio em um só Senhor, Jesus Cristo […] Deus verdadeiro de Deus verdadeiro […] Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida e procede do Pai e do Filho; e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado”. Esse nosso Credo é, em sua estrutura íntima, uma confissão da Trindade. Na verdade, a atenção e a devoção às Três Divinas Pessoas continuam centrais em nossa vida, e tirá-las de nossa fé causaria não só um irreparável dano, mas acabaria com o próprio fundamento de nossa existência cristã. Por isso, crer na Santíssima Trindade e amá-la com todo o nosso ser tem consequências imensas para toda a vida (cf. o Novo Catecismo nos n.os 223-227): significa reconhecer a grandeza e a majestade de Deus. “Deus é tão grande que supera nossa ciência” (Jó 36,26). Significa viver em ação de graças: se Deus é o Único, tudo que somos e tudo o que possuímos vem dele: “Que é que possuis que não tenhas recebido?” (1Cor 4,7). Significa reconhecer a unidade e a verdadeira dignidade de todos os homens: todos foram feitos “à imagem e à semelhança de Deus” (Gn 1,27). Significa usar corretamente das coisas criadas por Deus, como rezava São Nicolau de Flüe: “Meu Senhor e meu Deus, tirai-me tudo o que me afasta de vós. Meu Senhor e meu Deus, dai-me tudo o que me aproxima de vós. Meu Senhor e meu Deus, desprendei-me de mim mesmo para doar-me por inteiro a vós”. Crer na Santíssima Trindade também significa confiar em Deus em qualquer circunstância, mesmo na adversidade. Uma oração de Santa Teresa de Jesus exprime-o de maneira admirável: “Nada te perturbe, nada te espante. Tudo passa, Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem a Deus tem nada lhe falta. Só Deus basta”. Uma fé completa Crer no Deus bíblico, a partir de Jesus, é necessariamente crer na Santíssima Trindade. O Deus de Jesus, o Deus cristão, é o Pai e o Filho e o Espírito Santo, a Santíssima Trindade. Pai, Filho e Espírito Santo sempre estão juntos: criam juntos, salvam juntos e juntos nos introduzem em sua comunhão de vida e de amor. Na piedade de muitos fiéis, há uma desintegração da vivência do Deus trino. Alguns só ficam com o Pai, outros só com o Filho e outros só com o Espírito Santo. A religião só do Pai é o patriarcalismo. Todos dependem dele, sem qualquer criatividade. A religião só do Filho é o vanguardismo. Jesus é considerado o “companheiro”, “o mestre” e “nosso chefe”, irmão de todos. É um Jesus com apenas relações para os lados, sem uma dimensão vertical, em direção ao Pai. Essa religião cria cristãos vanguardistas. A religião que só se concentra na figura do Espírito Santo é espiritualismo. Eles só cultivam suas emoções interiores e pessoais. Eles esquecem que o Espírito Santo é sempre o Espírito do Filho, enviado pelo Pai para continuar a obra libertadora de Jesus. Não basta a relação interior (o Espírito Santo) nem a somente para os lados (Filho), nem só a vertical (Pai). Importa integrar as três. Que seria de nós se não tivéssemos um Pai que nos aconchegasse? Que seria de nós se esse Pai não nos desse seu Filho para fazer-nos também filhos de Deus? Que seria de nós, se não tivéssemos recebido o Espírito Santo, enviado pelo Pai, a pedido do Filho, para morar em nossa interioridade e completar a nossa salvação? Vivamos a fé completa, numa experiência completa da imagem completa de Deus como Trindade de Pessoas. Entrar no mistério amoroso de Deus Fomos batizados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Batizar em nome de alguém significa estabelecer com ele uma relação pessoal. Pelo batismo, entramos numa relação pessoal com Deus uno e trino. Batizar em nome do Pai e
Solenidade da Santíssima Trindade

“Deus amou tanto o mundo que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna.” (Jo 3,16-18) Hoje celebramos o mistério insondável de Deus, a Santíssima Trindade. Durante os primeiros séculos de sua existência, a Igreja lutou com dificuldades para expressar em palavras o inexprimível: a natureza do Deus em que acreditamos. Chegou à expressão profunda do Credo Niceno-Constantinopolitano o qual celebra o Pai “Criador de todas as coisas”, o Filho “Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial com o Pai”, e o Espírito que “dá a vida, e procede do Pai e do Filho”. Mas mesmo essas expressões tão profundas não conseguem explicar a Trindade, pois, se Deus fosse compreensível à mente humana, não seria Deus! Dentro das limitações da linguagem humana, tentamos expressar o mistério da Trindade como “três pessoas em uma única natureza”. Mas, mais importante do que encontrar fórmulas filosóficas ou teológicas abstratas para expressar o que, no fundo, não é possível definir, é descobrir o que a doutrina da Trindade pode nos ensinar para a nossa vida cristã. Talvez o livro de Gênesis possa nos ajudar. Lá se diz que Deus “criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus ele o criou; e os criou homem e mulher” (Gn 1,28). Se somos criados à imagem e semelhança de Deus, é de um Deus que é Trindade, que é comunidade, unidade perfeita na diversidade. Assim, só podemos ser pessoas realizadas quando vivemos comunitariamente. Quem vive só para si está destinado à frustração e infelicidade, pois está negando a sua própria natureza. O egoísmo é a negação de quem somos, pois nos fecha sobre nós mesmos, enquanto fomos criados à imagem de um Deus que é o contrário do individualismo, pois é trinitário. No mundo pós-moderno, onde o individualismo social, econômico e religioso é tido como critério fundamental da vida, a doutrina da Trindade nos desafia para que vivamos nossa vocação comunitária, criando uma sociedade de partilha, solidariedade e justiça, no respeito do diferente do outro, pois fomos criados à imagem e semelhança desse Deus que é amor e comunhão. O texto evangélico nos faz lembrar que somos continuadores da missão da Trindade encarnada em Jesus de Nazaré: a de testemunhar o Reino de Deus, vivendo em comunidade o projeto de Jesus, o missionário do Pai, que nos congregou na Igreja pela ação do Espírito Santo. Quando criarmos comunidades alternativas de solidariedade, fraternidade, justiça e paz, estaremos vivendo na imagem e semelhança do Deus Uno e Trino, comunidade e comunhão perfeita, que nos convida a participar da sua própria vida. A festa de hoje não é de um mistério matemático (como se fosse possível explicar “três em um”), mas do mistério do amor de Deus, que nos criou para que vivêssemos comunitariamente à sua imagem e semelhança. É, portanto, ao mesmo tempo, celebração e desafio, para que tornemos cada vez mais concreto o projeto de Deus para toda a humanidade, no caminho do discipulado de Jesus. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
Tríduo à Santíssima Trindade

Tríduo – 3º dia: Deus, Espírito da Comunicação Comunicar é criar comunhão – tríduo em preparação à Solenidade da Santíssima Trindade, das missionárias servas do Espírito Santo. Chegamos ao terceiro dia do tríduo em preparação à Solenidade da Santíssima Trindade. Com muita gratidão, invoquemos a Santíssima Trindade, traçando sobre nós o sinal da cruz: Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém. Oração inicial Ó Deus Uno e Trino,Pai, Filho e Espírito Santo,Vós que sois amor, compaixão e bondade,vinde em nosso socorroneste momento de intenso sofrimentopelo qual a humanidade inteira atravessa,por causa da pandemia do coronavírus. Ajudai-nos também a superar a situação de crisepolítica, econômica e social em nosso país,dando-nos a força da uniãoe transformando nosso coração para que,por nossos pensamentos, palavras e ações,sejamos presença de paz, solidariedade e alegriapara todos os que estão a nosso redor. Somente com vossa graça, ó Trindade Santa,podemos encontrar mais vida, amor e esperançae fazer este mundo melhor. Amém. Deus, Espírito da Comunicação (texto do Manual de Comunicação SSpS, pág. 21) “O Espírito Santo é o agente central de comunicação entre as Pessoas Divinas, entre os seres humanos e entre a Trindade e a humanidade, e vice-versa. O Espírito de amor é a fonte da vida que gera comunhão e faz frutificar toda a ação evangelizadora da Igreja. Como batizados, somos chamados a experimentar em profundidade o dom da comunicação como ‘realização’ da missão do Espírito no mundo e na própria Igreja. O Espírito Santo é aquele que nos dá sabedoria e conselho para discernir o que comunicar e de que maneira. Ele nos dá entendimento e conhecimento para revelar o significado das situações e acontecimentos, e sua relação com o plano de Deus. Ele dá piedade e temor do Senhor para nos abrir à vontade de Deus em uma atitude de profundo respeito por sua presença manifesta nas pessoas e em toda a criação. E, finalmente, Ele dá coragem e fortaleza para nos manter fiéis e coerentes com a mensagem que recebemos e professamos, com todas as suas consequências.” Reflexão O momento atual exige de nós resiliência e novas atitudes em nosso ser e agir missionários. Como experimentamos o amor do Espírito Santo em nossa vida pessoal e o comunicamos em nossa família na comunidade e na missão? De que forma Ele nos ajuda a ser resilientes? Preces espontâneas Pai-Nosso Oração final Ante a luz do Verbo e o Espírito da graça, afastem-se as trevas do pecado e a noite da incredulidade. E viva o Coração de Jesus em nossos corações e nos corações de todas as pessoas. Amém. Viva Deus Uno e Trino em nossos corações e nos corações de todas as pessoas!