2º Domingo da Quaresma

“Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutai o que ele diz!” Lucas 9,28-36 O nosso texto de hoje vem logo após o diálogo com Pedro e os discípulos, na estrada de Cesareia de Filipe, a respeito de quem era Jesus e como deveria ser seu seguimento: “Se alguém me quer seguir, renuncie a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e me siga” (Lucas 9,23). Começando a passagem com as palavras: “Oito dias após dizer essas palavras”, Lucas quer ligar estreitamente o texto com a mensagem anterior, sobre o seguimento de Jesus até a cruz. É notável também que os três discípulos que Ele levou consigo são os mesmos que o acompanhariam no Jardim de Getsêmani (Mateus 26,37). O texto destaca um aspecto de Jesus que é muito caro a Lucas: Ele era um homem de oração. Nesse momento, Ele “subiu à montanha para rezar” (vers. 28). Durante a oração, aparecem Moisés e Elias, símbolos da Lei e dos Profetas, duas das figuras mais importantes do Antigo Testamento. Assim, Lucas mostra que Jesus está em continuidade com as Escrituras, isto é, o caminho que Jesus segue está de acordo com a vontade de Deus. Os dois personagens, tanto Moisés como Elias, eram profetas rejeitados e perseguidos em seu tempo. Lucas aqui vislumbra o destino de Jesus, de ser rejeitado, mas também de ser vindicado por Deus. Pedro, ao despertar do sono, faz uma sugestão descabida: “Mestre, é bom ficarmos aqui. Vamos fazer três tendas: uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias” (vers. 33). Claro, era bom ficar ali, em um momento místico, longe do dia a dia, da caminhada, das dúvidas, dos desentendimentos, da luta. Quem não o quereria? Mas não era uma sugestão que Jesus pudesse aceitar. Terminado o momento de revelação, “Jesus estava sozinho” e, no dia seguinte, “desceram da montanha” (vers. 37). Por tão gostoso que fosse ficar no Monte Tabor, seria preciso descer para enfrentar o caminho até o Monte Calvário. A experiência da Transfiguração está intimamente ligada com a experiência da Cruz. Quem sabe, a experiência do Tabor tenha dado a Jesus a coragem necessária para aguentar a experiência bem dolorida do Calvário? Aplicando o texto e a sua mensagem a todos os cristãos, podemos deduzir que todos precisam subir o Monte Tabor para serem transfigurados, para depois descerem para “lavar os pés” dos irmãos e irmãs. Todos nós, seja qual for nossa vocação, precisamos de momentos de oração profunda, de união especial com Deus. Isso se torna cada vez mais importante no mundo atual, de ritmo quase frenético, de estresse e correria. Temos de descobrir como criar tempo para respirarmos mais profundamente a presença de Deus, para renovarmos nossas forças e nosso ânimo. Essas experiências não devem ser “intimistas”; pelo contrário, devem aprofundar nossa fé e nosso seguimento, para podermos seguir o exemplo daquele que lavou os pés dos discípulos: “Eu, que sou o Mestre e o Senhor, lavei os seus pés; por isso vocês devem lavar os pés uns dos outros” (João 13,14). Esse trecho pode nos ensinar a valorizar os momentos de “Tabor”, os instantes de paz, de reflexão, de oração. Pois, se formos coerentes com nossa fé, teremos muitas vezes de fazer a experiência de “Calvário”. Somos fracos demais para aguentar essa experiência contando somente com nossas próprias forças e recursos. Por isso, busquemos forças na oração, na Palavra de Deus, na meditação sempre, para que possamos retomar o caminho, como fizeram Jesus e os três discípulos. Para os momentos de dúvida e dificuldade, o texto nos traz o conselho melhor possível, através da voz que saiu da nuvem: “Este é o meu Filho, o Escolhido. Escutem o que ele diz!” (vers. 35). Façamos isso e venceremos nossos calvários. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

1º Domingo da Quaresma

“Adorarás o Senhor teu Deus e só a ele servirás”Lucas 4,1-13 O texto expressa a luta interna de Jesus (que, na realidade, deu-se ao longo de sua vida pública) para discernir o caminho a seguir, após assumir sua missão no batismo. Jesus era totalmente humano e assim enfrentava sempre as tentações de seguir o caminho de um messianismo falso, que não fosse o caminho do Servo de Javé. A experiência de Jesus é como a nossa: entre nosso compromisso com o projeto de Deus e sua vivência prática, existem muitas tentações. Jesus estava “repleto do Espírito Santo” e era “conduzido pelo Espírito através do deserto”. O Espírito Santo não o conduz à tentação, mas é a força sustentadora do Filho de Deus durante suas tentações. Como o Espírito dava força a Jesus, Lucas ensina às suas comunidades que elas também poderão contar com esse apoio nos momentos difíceis da vivência de sua fé. As tentações são as mesmas que enfrentamos em nossa caminhada da fé hoje. Primeiramente, Jesus é tentado a mandar que uma pedra se torne pão. Aqui é a tentação do “prazer”, logo que enfrente sofrimento e sacrifício por causa de sua missão, Jesus é tentado a escapar. Uma tentação das mais comuns hoje, em um mundo que prega a satisfação imediata de nossos desejos, em uma sociedade que cria necessidades falsas por meio de sofisticadas campanhas de propaganda. Uma sociedade de individualismo, na qual a regra é “se quiser, faça!”, em que o sacrifício, a doação e a solidariedade são considerados como ladainha dos perdedores. Jesus é contundente: “Não só de pão vive o homem” (vers. 4). Vivemos de pão, mas não só. Jesus não é contra o necessário para viver dignamente, mas salienta que não é somente a posse de bens que traz a felicidade e sim a busca de valores mais profundos, como a justiça, a partilha, a doação, a solidariedade com os sofredores. Não faz contraste falso entre bens materiais e espirituais; precisa-se de ambos para que se tenha a vida plena. Jesus desautoriza tanto os que buscam sua felicidade na simples posse de bens como os que dispensam a luta pelo pão de cada dia para todos. Nada de materialismo e nada de uma religião que não inclui o compromisso com a solidariedade, a justiça social e uma sociedade mais fraterna, justa e igualitária. A segunda tentação pode ser vista como a do “ter”. Algo atual! Vivemos na sociedade pós-moderna da globalização do mercado, do neoliberalismo, do “evangelho” do mercado livre. Diariamente, a televisão traz para dentro de nossas casas a mensagem de que é necessário “ter mais” e que não importa “ser mais”. A tentação vem em forma atraente. Até a Igreja pode cair na tentação de achar que a simples posse de bens, que podem ser usados em favor da missão, garantirá uma atuação mais evangélica. Somos tentados a não acreditar na força dos pobres, das “pessoas comuns”, dos leigos e leigas, dos “fracos” aos olhos da sociedade, ou seja, de não seguir o caminho do carpinteiro de Nazaré. Jesus também enfrentou essa tentação. Ele, que veio para ser humano com a humanidade, pobre com os pobres, para mostrar o Deus que opta preferencialmente pelos marginalizados, é também tentado a confiar nas riquezas. Para o diabo, e para nosso mundo que idolatra o bem-estar material e o lucro, mesmo às custas da justiça social, Jesus afirma: “Tu adorarás o Senhor teu Deus e somente a ele servirás” (vers. 8). A terceira tentação pode ser entendida como a do “poder”. Uma tentação permanente na história das Igrejas e dos cristãos. Quantas vezes, para “evangelizar”, as Igrejas confiavam mais no poder secular do que na fragilidade da cruz… Quanta aliança entre a cruz e a espada; a América Latina que o diga! Ainda hoje, enfrentamos esta tentação: não de ter poder para servir, mas de confiar no poder deste mundo, mais do que na fraqueza aparente de Deus, assim contradizendo o que Paulo afirmava: “A fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1 Coríntios 1,25) e “Deus escolheu o que é fraqueza no mundo para confundir o que é forte” (1 Coríntios 1,27). Jesus, que veio para servir e não para ser servido, que veio como o Servo de Javé e não como dominador, teve de clarear sua vocação e despachar o diabo com a frase: “Não tentarás o Senhor teu Deus”. Podemos agradecer o exemplo do Papa Bento XVI, que soube abrir mão do poder para o bem da Igreja. Nesse gesto profético, talvez tenha proferido sua melhor pregação: o poder existe somente para servir o bem comum. Realmente podemos nos encontrar nas tentações de Jesus. São as do mundo moderno: o ter, o poder e o prazer. Todas as coisas são boas em si, mas altamente destrutivas quando tomam o lugar de Deus em nossas vidas. Jesus teve de enfrentar o que nós enfrentamos: o “diabo” que está dentro de nós, o tentador que procura nos desviar de nossa vocação de discípulos-missionários, discípulas-missionárias. O texto nos coloca diante da orientação básica para quem quer vencer: “Adorarás o Senhor teu Deus e somente a ele servirás” (vers. 8). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

8º Domingo do Tempo Comum

“A boca fala do que o coração está cheio”Lucas 6,39-45 Um dos principais sinais de fidelidade dados por um verdadeiro discípulo ou discípula de Cristo é a coerência entre discurso e gestos. Esse é o tema central do Evangelho na liturgia deste 8º Domingo do Tempo Comum. Por várias vezes, a Palavra de Deus nos alerta para a tentação de sermos meros adeptos de uma filosofia, uma ideologia, uma teologia estéril. Nossa missão é seguir os passos de uma pessoa: Jesus. Originalmente, a palavra “hipócrita”, de origem grega, referia-se, entre outros significados, a “ator”. Esse artista “transforma-se” em um personagem, quase sempre bem diferente da pessoa que o interpreta. No maravilhoso mundo das artes, é algo comum, mas não o deveria ser para a realidade de um batizado, batizada. A passagem contemplada neste domingo é a conclusão do ensinamento do Nazareno aos recém-chamados discípulos, conhecido como o “Discurso da Planície”, característico do Evangelho de Lucas (em Mateus, ocorre na montanha). Após escolher os que o ajudariam pastorear o povo, o Senhor lhes dá várias instruções e advertências as quais valem também para nossos tempos (veja os evangelhos dos dois últimos domingos). A primeira é estar de olhos abertos para conhecer os caminhos e orientar os irmãos e irmãs confiados a nós. É necessária a vigilância do discipulado, obtido sobretudo na escuta atenta, na oração, no estudo. Caso contrário, tudo se torna apenas discurso, levando à ruína os “guias-personagens”, os guiados e a própria mensagem, que se torna vã (vers. 39). A outra é reconhecer quem é o verdadeiro mestre, não nos colocando em seu lugar. Cada um, à sua maneira, é chamado, chamada a colaborar na obra do Senhor (e não a nossa), por isso devemos ter o cuidado de não falar por nós mesmos, ocultando o exemplo e lições do próprio Filho de Deus. O legítimo discípulo deve ter a humildade de colocar-se aos pés de Jesus para receber a boa instrução e, assim, agir como o Mestre (vers. 40) (veja também Lucas 10,38-42). O terceiro alerta diz respeito à hipocrisia, ou seja, ser um discípulo apenas na aparência, cometendo os mesmos erros das autoridades religiosas judaicas daquele tempo. Quem age assim é levado a achar-se superior aos outros. Essa era uma fraqueza daquele povo que, com soberba, sabia-se o escolhido de Deus, mas se esqueceu de ser luz das nações (Isaías 42,6; 49,6). Infelizmente, muitos dos primeiros seguidores de Jesus herdaram esse raciocínio, por isso o Mestre os adverte para esse perigo. Vestir-se desse personagem leva a pessoa a ignorar as próprias falhas e a julgar e condenar o próximo, muitas vezes com fraquezas bem menores. A hipocrisia é a trave a prejudicar a visão. Nestes nossos tempos de julgamentos rápidos, superficiais, quase sempre sem a devida base, nesta era de curtidas, “descurtidas” e “cancelamentos” em um clique, as palavras do Senhor soam atualíssimas. É um grande contratestemunho saber de cor rubricas e cânones, mas não ter sequer ideia de quantos irmãos e irmãs estão feridos pelos arredores, ter destreza para buscar os “abusos litúrgicos” e os “relativistas”, mas ser conivente com situações de miséria e injustiça. Em nome de um “zelo” pela Igreja, ser lobo e não ovelha. Nunca é demais recordar: o sermão da planície foi dirigido antes aos discípulos e discípulas, de ontem e de hoje. Uma das revoluções do cristianismo foi dirigir o olhar também para nossa essência, figurada como o “coração”. O que fazemos ou falamos deve refletir o profundo de nosso ser. Não há espaço para encenação, mas para uma sacratíssima autenticidade. “Toda árvore é reconhecida pelos seus frutos” (vers. 44). De nós deve emanar o bem, mesmo nos desafios (veja a primeira leitura deste domingo: Eclesiástico 27,5-8), pois somos convocados a aprender com o Mestre, o Senhor da Vida. Iluminados pelo Evangelho, esta é uma ocasião para nos ver no espelho, avaliando se nossas ações condizem com nossas palavras e fé. Quais frutos nós e nossas comunidades têm produzido? Com que credibilidade anunciamos o reinado de Deus? Estejamos despertos e peçamos a força e a graça de pregarmos, com nossa própria vida, o verdadeiro Evangelho. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das SSpS.

7º Domingo do Tempo Comum

“Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso”Lucas 6,27-38 O Evangelho na liturgia deste 7º Domingo do Tempo Comum nos traz a proposta de Jesus para uma verdadeira revolução. Mais do que ensinar, o Senhor nos convoca a quebrar as espirais do mal e reforça: o ódio definitivamente não é sua proposta, e sim o amor e o perdão. É importante recordar: a passagem se dá no contexto do famoso sermão das bem-aventuranças, proclamado no domingo anterior, o mais sublime manual de santidade. Os ensinamentos destacados na passagem de hoje foram guardados com muito carinho pelos primeiros cristãos, vítimas principais da intolerância religiosa e política de seu tempo. Se eles tivessem agido na mesma medida de seus perseguidores, provavelmente a proposta de Jesus não teria tido a mesma força. Os cristãos seriam apenas mais um grupelho, pois dariam um contratestemunho e estariam desacreditados ao dizerem “Deus é amor” (cf. 1Jo 4,8b). Vale como nunca, porém, o chamado ao perdão e ao amor, sobretudo hoje, no cenário de polarização, julgamentos rasteiros e gratuitos, muros e intolerância em que nossa sociedade vive. O amor e o perdão sem exigir contrapartida devem ser iniciativa dos discípulos do Senhor. Os seguidores de Cristo são aqueles, aquelas que precisam interromper em si correntes de ódio, quebrar os círculos de maldade. Não se deve esperar isso de senhores da guerra, de idólatras cultuadores da morte, do dinheiro, do ódio, da injustiça, e até daqueles cuja fé é cambaleante ou egoísta. Quem caminha com o Senhor deve se preparar para a grande chance de o perdão e outros gestos de amor não serem caminhos de mão dupla. O afeto do próprio Deus em relação a seus filhos e filhas é assim. É concedido a nós gratuitamente, pois temos poucas condições de retribuir, mesmo numa proporção aproximada, o amor do Pai por nós. Ainda assim, Jesus nos aponta o Pai do Céu como modelo, pois espera que tenhamos o mesmo espírito uns para com os outros. A sentença do Mestre, “Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso” (Lucas 6,36), presente na passagem contemplada neste domingo, é considerada uma espécie de resumo do Evangelho de Lucas. Jamais essa expressão deveria ser pronunciada distraidamente pelos batizados e batizadas. Colocá-la em prática nos exige coragem e, ao mesmo tempo, ela nos conforta. Jesus nos revela um Deus companheiro (ou seja, partilha conosco do mesmo pão) do ser humano e que não se deixa deter por regras de morte e preconceitos, mas acalenta seus filhos e filhas; e pede de nós o mesmo em favor do próximo. Orar pelos inimigos e até poupá-los quando a vingança é oportuna (veja a primeira leitura deste domingo) são gestos dificílimos, mas podem ser portais para a perfeição cristã. Grande parte dos especialistas de vários campos da psique afirmam que atitudes nobres como o perdão, a gratidão e a solidariedade beneficiam primeiramente quem os pratica. Talvez não se espere um perdão amnésico, mas feito na concretude de nossos limites, até não se abrindo mão da legítima justiça. Já faz algumas décadas, somos bombardeados por programas policiais pseudojornalísticos, cuja especialidade é difundir o ódio. Não apresentam propostas sérias de diminuição da violência, ignoram as reais causas do mal, tentam vincular os pobres com a delinquência, virando as costas para os grandes malfeitores. Nisso, somos levados a participar de julgamentos precipitados, feitos sob as rédeas de nossos instintos e não na serenidade. Numa sociedade livre, esses arautos do sangue têm o direito de mostrar o que querem, mas isso não significa que tenhamos a obrigação de dar audiência ou perder nosso tempo com esse tipo de conteúdo. Passou da hora de colocar o ódio para fora de nossas casas, de nossa sociedade, questionar a respeito de quem ganha com o medo e a ira. É dever dos cristãos fomentar boas ideias de paz (a justiça restaurativa, por exemplo, cultivada pelas irmãs servas do Espírito Santo), praticar ações de socorro a sofredores de todas as classes, instaurar um mundo que seja sinal do reinado de Deus. Que o mundo volte a admirar-se ao reconhecer os discípulos e discípulas de Cristo que evangelizam pelo exemplo. “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (João 13,35). Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das SSpS.

6º Domingo do Tempo

“O Reino de Deus lhes pertence”Lucas 6,17.20-26 As pessoas que buscavam Jesus eram o retrato de um povo que sofria as consequências de uma sociedade injusta (pobre, abandonado, sem saúde). Mas, além de buscar a cura, Lucas salienta que eles foram “ouvir Jesus”. Foram porque a mensagem dele falava a seus corações, animava-os, dava-lhes coragem, fazia com que eles se sentissem valorizados e experimentassem, de perto, a presença do Deus que ama os pobres. Acostumados com o desprezo, o abandono, o legalismo religioso, achavam em Jesus um aconchego, uma aceitação, a dignidade, o ânimo. Hoje será que se acham esses elementos em nossas celebrações e pregações? Jesus olhou para seus discípulos e falou: “Felizes de vocês, pobres, porque o Reino de Deus lhes pertence. Felizes de vocês que agora têm fome, porque serão saciados. Felizes de vocês que agora choram, porque hão de rir. Felizes de vocês se os homens os odeiam, se os expulsam, os insultam e amaldiçoam o nome de vocês por causa do Filho do homem. Alegrem-se nesse dia, pulem de alegria, pois será grande a recompensa de vocês no céu, porque era assim que os antepassados deles tratavam os profetas” (Lucas 6,20-23). Enfatizando o termo “vocês”, Lucas salienta que as qualidades dos que são considerados “bem-aventurados” devem existir nos discípulos, nas discípulas. Diante de um grupo de pobres, famintos, tristes, sem-terra, sem-teto, teríamos coragem, a partir de nosso bem-estar, de pronunciar estas palavras: “Felizes de vocês, os pobres, os famintos, os aflitos, os odiados”? Não seria uma ofensa aos sofredores? Sim, seria, a não ser que proclamadas por alguém que, como Jesus, estivesse realmente empenhado na luta por um mundo mais justo, onde os injustiçados fossem libertados das correntes de opressão. Seria ofensiva, a não ser que pronunciadas por alguém que realmente sentisse compaixão diante de seu sofrimento (e não somente “pena”). Jesus podia pronunciar essas palavras, pois tinha assumido a condição de um pobre, estava solidário com eles e se dedicava a eles. Devolvia-lhes seu valor e sua dignidade e revelava-lhes o verdadeiro rosto do Deus da libertação, ofuscado pela religião legalista oficial do tempo. Ele não romantizava a pobreza: os pobres não são felizes por serem pobres (a miséria, a falta do necessário para uma vida digna nunca é coisa boa), mas porque o Reino de Deus é deles. O verbo aqui está no tempo presente (nas outras bem-aventuranças, está no futuro). O Reino já é deles, pois sua única esperança, em sua pobreza, em sua impotência, é Deus e, diante de seu sofrimento, Ele opta por eles. Mas, a palavra de Jesus não é somente para confortar os aflitos; é também para afligir os confortáveis. Ai de nós, os discípulos, se nós somos acomodados, fechados no egoísmo e na fartura, elogiados e aceitos por uma sociedade injusta, porque não a questionamos nem a incomodamos: “Mas ai de vocês, os ricos, porque já têm a sua consolação! Ai de vocês, que agora têm fartura, porque vão passar fome! Ai de vocês que agora riem, porque vão ficar aflitos e vão chorar! Ai de vocês, se todos os elogiam, porque era assim que os antepassados deles tratavam os falsos profetas.” (Lucas 6,24-26). Não é negativo ter o suficiente, ter alegria, mas se torna pecado quando nos fechamos em nosso mundo de autossuficiência e ficamos insensíveis diante do sofrimento alheio. Nas bem-aventuranças, Lucas é mais contundente que Mateus. Não dá trégua; quer que fique claro que o seguimento de Jesus exige opção pelos pobres e marginalizados, independentemente de sua condição moral, religiosa ou legal, e também desligamento da sociedade materialista e consumista, que procura esconder a realidade da opressão e exclusão, anestesiando a consciência. Ai de nós, os discípulos, se isso acontecer! Teria eu coragem para proclamar esse trecho diante de pobres e diante de ricos? Como diz a Bíblia Pastoral: “Não é possível abençoar o pobre sem libertá-lo da pobreza. Não é possível libertar o pobre da pobreza sem denunciar o rico para libertá-lo da riqueza”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

5º Domingo do Tempo Comum

“Senhor, afaste-se de mim, porque sou um pecador”Lucas 5,1-11 A porta de entrada desse texto, que nos traz a versão lucana da “pesca milagrosa” (João 21,1-14), é o primeiro versículo: “Certo dia, Jesus estava na margem do Lago de Genesaré. A multidão se apertava a seu redor para ouvir a Palavra de Deus”. Lucas deixa bem claro que o motivo de tanta gente buscar Jesus foi para “ouvir a Palavra de Deus”. Não para ver milagre, não para receber esmola nem cura, mas simplesmente para “ouvir a Palavra de Deus”. E só se busca o que é agradável, o que faz bem. A Palavra de Deus encorajava a multidão, fazia com que as pessoas se sentissem amadas, aceitas, valorizadas. A Palavra de Deus era realmente “Boa Notícia” para os humildes e sofridos. Nada deve (ou pode) substituir essa Palavra. A Igreja ainda corre atrás do prejuízo de ter privado o povo, durante séculos, do alimento da Palavra. Um recente sínodo dos bispos tratou do tema significante “O lugar da Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja”, e temos em mãos a Exortação Pós-Sinodal “Verbum Domini”, do Papa Bento XVI. Felizmente, muitas dioceses já têm seus planos de evangelização, com destaque para a formação bíblica do povo. Cumpre fortalecer cada vez mais a animação bíblica de toda a pastoral. Resta o desafio de criarmos ferramentas para que isso realmente ocorra. Nenhuma palavra humana, por mais eloquente ou edificante que seja, pode igualar-se à Palavra de Deus. Oxalá não repitamos os erros do passado! Que saibamos ver a ação do Espírito Santo na grande procura da Bíblia entre as comunidades, especialmente entre os mais pobres. Devemos levar a sério o que proclamou o Concílio Vaticano II, em seu documento dogmático Dei Verbum: “A Igreja sempre venerou as Sagradas Escrituras da mesma forma como o próprio Corpo do Senhor” (DV 21). Infelizmente, nem sempre se verifica a prática dessa declaração. Terminada a pregação, Jesus pede que Simão “avance para águas mais profundas” (vers. 4), para lançar as redes, pois barca à beira-praia pesca nada! Como é tentador para nós (a Igreja, as comunidades, os indivíduos) ficarmos seguros nas águas rasas que não apresentam perigo, mas tampouco frutos! Se quisermos ser realmente “pescadores de homens” (vers. 10), teremos de enfrentar as águas profundas da vida, com todas as incertezas e inseguranças que isso acarreta. O mundo globalizado, pós-moderno, urbanizado exige novas respostas pastorais, como tão bem reconheceu o Documento de Aparecida. Não é mais possível continuarmos em nossas comunidades somente com uma “pastoral de manutenção”, mas precisamos ousar dialogar com novas situações e com o pluralismo de nosso mundo. Muito mais cômodo é ficar nas águas calmas e tranquilas, sem risco, mas fazer assim seria trair nossa vocação batismal. Poderemos nos perguntar: o que quer dizer, para mim, para minha comunidade, movimento ou pastoral, “avançar para as águas mais profundas”? O que nasceu de novo entre nós nestes últimos anos, desde a Conferência de Aparecida? Estamos aprendendo do exemplo do Papa Francisco, que ousa agir de uma maneira nova, sempre buscando modos mais eficazes de demonstrar o amor de Deus para todos os povos? Simão não se mostra muito entusiasmado diante do convite do Senhor, pois ele, pescador profissional, sabe muito bem que não se lançam as redes naquela hora do dia. Parece loucura. Assim, muitas vezes, é hoje: o que Jesus nos pede parece loucura aos olhos da sociedade consumista e excludente. Pois, como diz Paulo, “A loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens” (1 Coríntios 1,25). Mesmo assim, Simão lança a rede “em atenção à sua palavra” (vers. 5). Aqui está o nó da questão: a atenção à Palavra de Deus. O Salmo 95(94), versículo 7, reza: “Oxalá vocês escutem hoje o que Ele diz”, pois Deus nos fala todos os dias. Uma fala exige atenção para que seja captada. Deus nos fala sempre, mas, se não tivermos as antenas ligadas, não o ouviremos. Continuaremos acomodados nas águas rasas e tranquilas, enquanto a missão exige que nos lancemos para águas profundas. Pedro reage já: “Senhor, afaste-se de mim, porque sou um pecador!” (vers. 8). Como a luz cria a sombra, a proximidade da santidade põe em relevo o pecado humano. O que parece normal, segundo critérios humanos, fica claramente negativo diante dos critérios do amor divino. Mas Jesus não atende o pedido de Pedro; foi exatamente porque somos pecadores que Ele veio! Pelo contrário, fala para Pedro não ter medo (nem de sua fraqueza, nem de sua natureza pecaminosa, nem de suas falhas). Jesus o chama tal como ele é. Ele nos ama, não como gostaríamos de ser, mas como somos de fato. Não devemos ter medo de nossa realidade humana e pecadora, pois todos nós carregamos “um tesouro em vaso de barro” (2 Coríntios 4,7), mas podemos caminhar com confiança porque, “se Deus está a nosso favor, quem estará contra nós?” (Romanos 8,1). Somos chamados a segui-lo como somos. Porém isso não pode nos acomodar, pois o Evangelho deixa claro que, quando os apóstolos foram chamados, deixaram tudo para segui-lo. O seguimento de Jesus sempre exige que deixemos algo. Resta perguntar a nós mesmos: o que o seguimento de Jesus exige que eu deixe neste momento na minha caminhada de discípulo, discípula? Como é que eu devo lançar-me para “águas mais profundas” como discípulo-missionário, missionária do Senhor? Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

4º Domingo do Tempo Comum

“Nenhum profeta é bem recebido na sua pátria”Lucas 4,21-30 Não é fácil entender o desfecho da visita de Jesus a Nazaré, logo após seu batismo. É muito violenta a mudança de atitude dos nazarenos: da admiração à fúria. Talvez Lucas tenha unido dois acontecimentos em uma só história. Mas, seja como for, alguns pontos importantes saltam aos olhos. Em primeiro lugar, “todos aprovavam Jesus, admirados com as palavras cheias de encanto que saíam de sua boca” (vers. 22). Com certeza, essa reação não foi causada pela oratória de Jesus nem porque soubesse usar “artifícios para seduzir os ouvintes” (1 Coríntios 1,4), como fazem tantos pregadores midiáticos e políticos hoje. Não, foram palavras cheias de encanto porque brotaram de sua intimidade com o Pai, de sua espiritualidade profunda, de sua capacidade de compaixão, de coerência entre sua fala e sua vivência. Aqui há um desafio para todos nós: de deixar que sejamos tomados pela Palavra de Deus, de tal maneira que nossa palavra não seja mais a nossa, mas a manifestação do Espírito que habita em nós. Só assim nossas palestras e pregações surtirão efeito. Ao contrário, por tão eloquente que possa ser nossa fala, seremos “sinos ruidosos ou símbolos estridentes” (1 Coríntios 13,2): chamam a atenção, mas não deixam frutos. Como disse em uma ocasião o Papa Bento XVI, “A Igreja não vive de si, mas do Evangelho e encontra sempre, e de novo, sua orientação nele para seu caminho. É algo que cada cristão tem de ter em conta e aplicar-se a si mesmo: só quem escuta a Palavra pode converter-se depois em seu anunciador. Não deve ensinar sua própria sabedoria, mas a sabedoria de Deus, que, com frequência, parece estupidez aos olhos do mundo”. A reação dos vizinhos de Nazaré encontra eco, muitas vezes, nas comunidades de hoje. É o pobre que não acredita no pobre! Jesus é rejeitado por ser considerado o filho de José, um simples carpinteiro de Nazaré. Quantas vezes, hoje, ocorre que, em lugar de incentivar nossas lideranças das bases, os próprios companheiros de comunidade os rejeitamos por não serem “doutores”, por não saberem “falar bonito”, como o sabem muito bem nossos exploradores. Parece, às vezes, que há gente que sente prazer em destruir as lideranças. Mas as coisas vão mudar somente quando o pobre começar a acreditar no pobre. Outro motivo para tal reação, com certeza, era o fato de Jesus desafiar os preconceitos e comodismo da comunidade nazarena, usando os exemplos da ação de Deus em favor de um estrangeiro (Naamã, o sírio) e uma estrangeira (a viúva de Sarepta). Pois Jesus era um profeta, e o profeta sempre incomoda, porque nos desafia a sair de nossas fronteiras e a olhar o mundo como Deus o vê. É difícil que alguém goste de ser incomodado, e por isso preferimos, com frequência, criar uma religião de ritos e rituais, com certezas absolutas que nos confirmam em nossa visão do mundo. Mas a verdadeira religião não é apenas de ritos (embora estes tenham grande importância na celebração de nossa fé). É o seguimento de Jesus, que veio “para que todos tenham a vida e a vida plenamente” (João 10,10), vivenciando a solidariedade e a fraternidade entre todas as pessoas, sem preconceitos nem exclusões. É triste ver, em tantos lugares hoje, que a maior preocupação de muitas Igrejas parece ser com as minúcias rituais, com um número cada vez maior de normas, decretos e rubricas, enquanto se ignoram as grandes questões da humanidade, como a violência, a exploração, a destruição da natureza, o extermínio de indígenas, e assim por diante. Dificilmente se pode imaginar Jesus de Nazaré agindo assim. Por isso talvez se fale tanto nos programas religiosos dos meios de comunicação apenas do Cristo glorificado e tão pouco de Jesus de Nazaré, profeta perseguido por causa de suas opções concretas em favor dos sofredores, sem levar em conta sua raça, religião ou situação social. Jesus nos dá o exemplo de como enfrentar estes problemas, diante de críticas e rejeição, quando realmente tentamos ser coerentes com o Profeta de Nazaré. Ele “continuou seu caminho” (Lucas 4,20). É isso mesmo! Apesar das críticas, da não aceitação, das gozações, o cristão tem de “continuar seu caminho”. Jesus sofreu com isso, mas não se abalou, pois sua convicção não se baseava na opinião, aprovação e aceitação dos outros, mas na oração, na interiorização da Palavra. Oxalá todos nós cresçamos nesse sentido, seguindo o exemplo do Mestre! Como recomenda a Carta aos Hebreus (12,3): “Para que vocês não se cansem e não percam o ânimo, pensem atentamente em Jesus, que suportou contra si tão grande hostilidade por parte dos pecadores”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

3º Domingo do Tempo Comum

“O Espírito do Senhor está sobre mim”Lucas 1,1-4; 4,14-21 O texto relata a primeira experiência da vida pública de Jesus. Deu-se em sua terra de criação: Nazaré. Na linguagem de hoje, Jesus foi para a capela da comunidade e foi convidado a fazer parte da equipe litúrgica, para fazer a segunda leitura. Naquela época, o culto da sinagoga tinha duas leituras: a primeira, tirada da Lei; a segunda, dos Profetas. Jesus, abrindo o livro do profeta Isaías, encontrou a passagem que diz: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me consagrou para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e, aos cegos, a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar um ano da graça do Senhor” (Lucas 4,18-19). Não que Ele encontrasse essa passagem por acaso. Pelo contrário, Jesus a procurou até achar, pois Ele identificava sua missão com aquela descrita pelo profeta. Por isso, na hora da homilia, começou com a frase chocante: “Hoje se cumpriu essa passagem da Escritura que vocês acabaram de ouvir” (Lucas 4,21). Jesus identificou sua missão com a do capítulo 61 de Isaías. Nós, como discípulos dele, temos a mesma missão. Olhemos os elementos: a) “Anunciar a Boa Notícia aos pobres”: o evangelho é “Boa Notícia”, não uma série de leis nem uma lista de práticas rituais, nem uma moral (embora tenha todos esses elementos), mas uma experiência de Deus que traz alegria, felicidade (para os pobres). Portanto, Ele toma posição; o que é boa notícia para uns é má notícia para outros. O que é boa notícia para o oprimido é má notícia para o opressor. Não existe uma Boa Notícia neutra, igualmente boa para todos. E não devemos diluir o termo “pobre”: aqui não é o pobre de espírito nem de coração, nem de fé… É o pobre mesmo, aquele, aquela que não tem o necessário para uma vida digna (Lucas usa o termo grego ptochois, que significa, mais ou menos, “indigente”). Com certeza, em nossa sociedade, abrange todos os excluídos. b) “Proclamar a libertação aos presos”: não apenas aos na cadeia, mas que estão sem a liberdade dos filhos de Deus, presos hoje pelas consequências do neoliberalismo, do desemprego, do salário mínimo; pelas correntes de racismo, machismo, clericalismo e tudo o que oprime. Também aos presos em seu próprio egoísmo, pois o assumir dos valores evangélicos vai libertá-los. Porém essa libertação passa pela mudança radical em sua maneira de viver. c) “Aos cegos, a recuperação da vista”: quanta gente cega hoje! E não por doença dos olhos, mas cegada pela ideologia dominante, que não deixa ver a realidade do mundo e dos sofridos; pelas falsas utopias alienantes e pela manipulação de informação pelos meios de comunicação, dominados pela elite, que “fazem a cabeça”; quantos cegos diante da possibilidade de mudança por meio da força histórica dos oprimidos! Vale a pena notar que o texto enfatiza a “recuperação” da vista, não a doação dela. Ou seja, trata-se de ajudar os que, uma vez, viram a realidade com os olhos de Deus, mas foram cegados pela ideologia dominante, a ponto de não enxergarem mais a verdade. d) “Libertar os oprimidos”: aqui há o eixo fundamental de toda a Bíblia: o Êxodo como processo permanente. No livro do Êxodo, Deus se identificou como o Deus que liberta os oprimidos (Êxodo 3,76-10). Jesus se coloca (e coloca todos os seus seguidores) nesse mesmo compromisso. Hoje a época é diferente, mas a opressão continua, e Deus nos conclama para que todos nós nos empenhemos nessa luta para concretizar a libertação dos oprimidos. e) “Proclamar o ano de graça do Senhor”: o Ano da Graça (o ano jubilar!), memória da proposta de Levítico 25, o ano do perdão das dívidas, da libertação dos escravos, da devolução das terras a seus donos originais. Como concretizar, na realidade do Brasil de hoje, essa visão? O que significa hoje o perdão das dívidas, a libertação dos escravos e a devolução das terras? Questões evangélicas da fé, que têm fortes consequências políticas e econômicas, e desafiam a tendência a uma religião intimista, individualista e desencarnada da realidade. Pois júbilo, alegria, não pode ser decretado. Tem de brotar de algum motivo profundo. Aqui o próprio Jesus fala de sua missão, que é também a nossa. Pois fomos todos “consagrados com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; para proclamar a libertação aos presos e, aos cegos, a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar o ano da graça do Senhor” (Lucas 4,18-21). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

2º Domingo do Tempo Comum

“Façam tudo o que ele lhes disser”João 2,1-11 A primeira parte do Quarto Evangelho é comumente chamada “O Livro dos Sinais”, pois o evangelista relata uma série de sete sinais que, passo por passo, revelam quem é Jesus e qual é sua missão. Embora algumas bíblias traduzem o termo grego que João usa por “milagre”, a tradução mais acertada é “sinal”. O primeiro desses sinais se deu no contexto das Bodas de Caná, o Evangelho de hoje. Como todo o Evangelho de João, o relato está carregado de simbolismo, em que pessoas, números e eventos funcionam simbolicamente para nos levar além da aparência das coisas, numa caminhada de descoberta sobre a pessoa de Jesus. Um dos temas centrais do Quarto Evangelho é o da “hora” de Jesus. A “hora” não se refere à cronometria, mas a hora de glorificação de Jesus, por sua morte e ressurreição. Em resposta ao pedido feito por Maria (João nunca se refere a Ela pelo nome, mas pelo título “Mulher”), usando de uma maneira até estranha esse termo para sua mãe, João quer indicar que Jesus rejeita uma esfera meramente humana de ação para Maria, para reservar a ela um papel muito mais rico, ou seja, o da mãe de seus discípulos. Maria somente vai aparecer mais uma vez neste Evangelho: ao pé da Cruz, onde Ela e o Discípulo Amado assumem um relacionamento de Mãe e Filho. Devemos lembrar que o Discípulo Amado simboliza a comunidade dos discípulos do Senhor, ou seja, nós hoje. Apesar de nossa tradição piedosa mariana, é importante não reduzir a ação de Maria no texto à de uma incomparável intercessora. Embora seja comum essa interpretação na devoção popular, não se sustenta do ponto de vista exegético. É melhor ver Maria aqui como discípula exemplar, pois embora a resposta de Jesus indique um distanciamento entre sua expectativa e a visão dele, Ela continua com confiança no Filho e leva outros a acreditar nele. O simbolismo da água tornada vinho é também importante. Não é qualquer água, é a água da purificação dos judeus. Com essa história, João quer mostrar que, doravante, os ritos judaicos de purificação estão superados, pois a verdadeira purificação vem por Jesus. Podemos entender isso como a mudança de uma prática religiosa baseada no medo do pecado (uma prática que exclui muita gente), para uma nova relação entre Deus e a humanidade, a partir de Jesus. Assim, em Caná, Jesus começa a substituir as práticas do judaísmo do Templo, que vai continuar ao longo do Evangelho de João. A quantia do vinho chama a atenção: 600 litros! O vinho em abundância era símbolo dos tempos messiânicos e, na tradição rabínica, a chegada do Messias seria marcada por uma colheita abundante de uvas. Assim, João quer dizer que a expectativa messiânica se realiza em Jesus. As talhas transbordantes simbolizam a graça abundante que Jesus traz. A figura do mestre-sala é também simbólica, bem como a dos serventes. Aquele que devia saber a origem do vinho da festa não sabia, enquanto estes, sim. Assim, o mestre-sala representa os chefes do Templo que não sabiam a origem de Jesus, enquanto os servos representam os discípulos que acreditaram nele. Fazendo comparação entre o vinho antigo e o novo, João quer reconhecer que a Antiga Aliança era boa, mas a Nova a superou. Os ritos e práticas judaicos, ligados à purificação e ao sacrifício, não têm mais sentido, pois uma nova era de relacionamento entre a humanidade e Deus começou em Jesus. O ponto culminante do relato está no versículo 11: “Foi em Caná que Jesus começou seus sinais, e os seus discípulos acreditaram nele”. A fé deles não é intelectual ou teórica, mas o seguimento concreto do Mestre, na formação de novos relacionamentos de amor. Passo por passo, o autor vai revelando Jesus por meio de sinais, para que nós, os leitores, possamos “acreditar que Jesus é o Messias, o Filho de Deus. E para que, acreditando, tenhamos a vida em seu nome” (João 20,31). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Festa do Batismo do Senhor

“Este é meu Filho amado, que muito me agrada”Lucas 3,15-16.21-22 Hoje, domingo seguinte à Solenidade da Epifania, celebra-se a Festa do Batismo do Senhor. O batismo de Jesus por João Batista, no rio Jordão, é tão importante teologicamente que é tratado em cada um dos Sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas), cada qual de sua maneira, dependendo da situação de sua comunidade e de seus interesses teológicos. A história logo se tornou um problema para os primeiros cristãos, pois levantava a questão de como Jesus, sem pecado, podia ter sido batizado num ritual de purificação dos pecados. Por isso, Mateus deixa fora a referência de Marcos (1,4) ao perdão dos pecados e adiciona os versículos 14 e 15. Para João, o batismo era tão difícil de ser harmonizado com sua cristologia que omite qualquer referência ao atual evento. Em seu lugar, faz com que João Batista indique Jesus como o “Cordeiro de Deus” (João 1,29-34). O texto já nos apresenta o programa da vida e missão de Jesus. Lucas se destaca pela insistência em situar Jesus como membro de seu povo, identificando-se com aquela camada do povo marginalizada e menosprezada como “impuro” pela teologia oficial, atrelada ao poder político das elites. Como disse o saudoso padre Alfredinho, fundador da Fraternidade do Servo Sofredor: “No dia do seu batismo, Jesus entrou na fileira dos excluídos para nunca mais sair dela”. Com o seu batismo, Jesus assume a fidelidade radical à vontade de Deus. O significado disso será mostrado ao longo do Evangelho. Também Jesus, unindo-se aos pecadores, já está, desde o começo, rejeitando a visão de um messianismo triunfalista. Os Sinóticos ressaltam o fato de que “o céu se abriu”. Marcos é o mais contundente quando enfatiza que “os céus se rasgaram”. É uma maneira simbólica de expressar que, em Jesus, se dá a união definitiva entre o céu e a terra (João 1,51; Atos dos Apóstolos 7,56; 10,11-16) e uma revelação celeste (Isaías 63,19; Ezequiel 1,1; Apocalipse 4,1; 19,11). A revelação maior é a confirmação da identidade de Jesus como o Servo de Javé. Mateus, escrevendo num ambiente de polêmica contra o judaísmo formativo do fim do primeiro século, muda a tradição original (Marcos 1,9-11), mantida por Lucas, na qual as palavras do Pai se dirigem a Jesus para dirigi-las aos ouvintes: “Este é meu Filho muito amado, aquele que me aprouve escolher” (vers. 17). Em ambas as tradições, essas palavras associam a terminologia do Salmo 2,7, que repete a profecia de Natã em 2 Samuel 7,14 (“Tu és meu filho…”) e Isaías 42,1 (“Meu bem-amado que me aprouve escolher”). A passagem de Isaías apresenta o Servo que não levanta a voz (42,2) nem vacila, nem é quebrantado (42,4) (a tradução grega da Septuaginta usou uma palavra que podia expressar tanto os termos hebraicos para “filho” quanto para “servo”). Fazendo fusão desses trechos do Antigo Testamento, o texto une, em Jesus, duas figuras proféticas: a do Filho da descendência real davídica e a do Servo de Javé. Assim, prevê que o messianismo de Jesus implica a vocação do Servo Sofredor e rejeita pretensões messiânicas triunfalistas. Podemos dizer que o batismo é, para Jesus, o assumir público de sua missão como Servo de Javé. A voz do céu confirma sua opção de vida. O Pai confirma que Ele reconhece Jesus, desde o início de seu ministério público, como seu Filho (Salmo 2,7), seu bem-amado, objeto de sua predileção. Um dos sentidos mais importantes de nosso batismo também é nosso compromisso público com a vontade do Pai. Todos nós podemos sentir a veracidade da mesma frase usada pelo Pai diante de Jesus: cada um de nós também é verdadeiramente filho(a) do Pai celeste (1 João 3,1), a quem aprouve escolher-nos. Nada pode fazer com que o Pai abandone esse amor incondicional e gratuito, nem nossa fraqueza, nem o pecado (Romanos 8,39). Importante é reconhecer que Deus nos amou primeiro, incondicionalmente, e nos cabe responder a esse amor gratuito por uma vida digna de filhos e filhas do Pai, no seguimento de Jesus (1 João 4,10-11). Jesus não achou privilégio ser o amado do Pai, mas assumiu as consequências: uma vida de fidelidade, que o levou até a Cruz, e a ressurreição (Filipenses 2,6-11). Celebrando essa festa litúrgica, renovemos o compromisso de nosso batismo, comprometendo-nos com o seguimento do Mestre, no esforço de contribuir à criação do mundo que Deus quer, onde reinam o amor, a justiça e a verdadeira paz. Nosso batismo confirma que somos parceiros de Deus no ato permanente de criação, fazendo crescer o Reino dele, que “já está no meio de nós” (Marcos 1,14). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.Pe. Tomaz Hughes, SVD

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