6º Domingo da Páscoa

“Eu lhes dou a minha paz”João 14,23-29 A porta de entrada do texto é o versículo anterior, em que Judas (não o Iscariotes) pergunta a Jesus, durante a Última Ceia, “Por que vais se manifestar a nós e não ao mundo?” (vers. 22). Jesus dá a resposta: o Pai vem morar no cristão que guarda sua Palavra, pois suas palavras são as do Pai. O mundo (aqui entendido como o antirreino, não o mundo físico) não ama a Deus. A presença de Deus somente pode ser experimentada por quem o ama. Não é possível amar Deus sem guardar sua Palavra. O versículo 26 traz a segunda predição no Último Discurso da vinda do Paráclito (João 14,15). Aqui se focaliza mais seu papel de ensinamento, um ensinamento que clarifica o que Jesus ensinou. Ele vai fazer com que os discípulos “lembrem” tudo o que Jesus disse. Aqui, “lembrar” significa a capacidade de entender o verdadeiro sentido das palavras e ações de Jesus, depois da ressurreição (João 2,22; 12,16). O Espírito Santo, aqui descrito como Paráclito (no sistema judicial grego, o Paráclito era o advogado da defesa), não trará ensinamento que seja independente da revelação de Jesus. Ele vai preservar os discípulos de erro e guardá-los perto de Jesus. Com esse dom, Jesus deixa sua paz a sua comunidade. Ele usa a palavra tradicional dos judeus para a paz: shalom. É uma paz baseada na vinda do Espírito, que será atualizada na noite de Páscoa, quando dirá “A paz esteja com vocês! Recebam o Espírito Santo” (João 20,21-22). Enfatiza que não é a paz como o mundo a entende, muitas vezes simplesmente como a ausência de briga. Com frequência, a paz que o mundo dá é aquela falsa, que depende da força das armas para reprimir as legítimas aspirações do povo sofrido, como tantos países experimentaram durante as ditaduras de direita e de esquerda. O shalom é tudo o que o Pai quer para seu povo. Somente existe quando reina o projeto de vida de Deus. Implica a satisfação de todas as necessidades básicas da pessoa humana, da libertação da humanidade do pecado e de suas consequências. Como dizia o saudoso Papa São Paulo VI, “Justiça é o novo nome da paz!”. O shalom dos discípulos não pode ser perturbado pelo fato de sua partida, pois é pela volta do Filho para o Pai que o shalom vai se instalar. A verdadeira paz, o shalom, é um dom de Deus, mas precisa da colaboração humana. Diante de tantas barbaridades hoje, de tanta violência no campo e na cidade, da exploração do latifúndio, da impunidade, qual deve ser a atitude do cristão? Se nós acreditamos no shalom, nunca podemos compactuar com sistemas repressivos ou elitistas que tiram da maioria (ou de uma minoria) os direitos básicos que pertencem a todos os filhos e filhas de Deus. Às vezes, esse shalom convive ao lado do sofrimento e perseguição por causa do Reino, mas quem experimenta na intimidade a presença da Trindade, também experimenta a verdade da frase do texto de hoje: “Não fiquem perturbados nem tenham medo” (vers. 27), pois, disse Jesus, “Eu venci o mundo”. Por isso devemos sempre “fazer a memória de Jesus” (aqui se destaca o momento privilegiado da celebração eucarística), de sua pessoa e de seu projeto, para que tenhamos critérios certos para verificar a presença (ou ausência) do shalom em nossa sociedade e nos comprometemos com a criação do mundo mais justo que Deus quer. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

5º Domingo da Páscoa

“Amem-se uns aos outros”João 13,31-33a.34-35 O texto situa-se no contexto do último discurso de Jesus, na Ceia Pascal. Começa logo após a saída de Judas para trair o Senhor, depois que Jesus lhe disse “o que você pretende fazer, faça-o logo” (João 13,27). Com a licença oficial dada ao agente de Satanás para iniciar o processo que iria matá-lo, Jesus começa o processo de sua glorificação. Sua fidelidade ao projeto do Pai vai levá-lo à cruz, que, no Quarto Evangelho, não é um sinal de derrota, mas da vitória última e permanente de Deus. Por isso, a morte de Jesus, aparente vitória do mal, será a glorificação de Jesus e, nele, do Pai. O anúncio de sua partida, para os judeus uma ameaça (vers. 33), é, para a comunidade de seus discípulos, um momento de emoção e carinho. Sua última dádiva a eles é um novo mandamento: “Eu dou a vocês um novo mandamento: amem-se uns aos outros. Assim como eu amei vocês, vocês devem se amar uns aos outros” (vers. 34). O que há de novo nesse mandamento? O que diferencia a proposta de amor de Jesus e de seus seguidores de outras propostas já conhecidas? O mundo do tempo de Jesus, tanto na sociedade pagã como na judaica, conhecia propostas de amor mútuo. O mandamento de Jesus é novo, em primeiro lugar, porque ele se impõe como exigência essencial para entrar na comunidade “escatológica”. Essa é a comunidade que já experimenta a presença do Reino de Deus, mesmo que ainda espere sua plena realização, ou seja, uma comunidade que experimenta a salvação já realizada em Jesus enquanto ainda experimenta sua situação permanente de fraqueza. Também é novo porque não se fundamenta nas leis sobre o amor, da tradição judaica (por exemplo: Levítico 19,18 ou os documentos do Qumran), mas na entrega de si, de Jesus. O modelo desse amor é o exemplo do próprio Jesus: “Assim como eu vos amei!”. E como Ele nos amou? Entregando-se até a morte, para que todos pudessem “ter a vida, e a vida plenamente” (João 10,10). Esse amor não é sinônimo de simpatia ou sentimento de atração. Exige humildade e a disposição para o serviço que leva a morrer pelos outros. Esse “morrer” normalmente não se expressa por uma morte física, mas morrendo diariamente ao egoísmo e à busca do poder dominador, para que sejamos servidores, especialmente dos mais humildes, a exemplo do Mestre que “não veio para ser servido, mas para servir” (Marcos 10,45). Esse amor é tão fundamental para a comunidade dos discípulos de Jesus que deve se tornar seu sinal característico: “Assim todos reconhecerão que vocês são meus discípulos” (vers. 35). Mais do que uma lista de doutrinas, mais do que práticas litúrgicas ou rituais, embora essas tenham seu lugar, é o amor mútuo e concreto que deve distinguir os discípulos de Jesus. Os Atos dos Apóstolos (11,26) nos lembram que “foi em Antioquia que os discípulos receberam, pela primeira vez, o nome de ‘cristãos’”. Receberam uma nova designação, da parte dos outros, porque sua maneira de viver era marcadamente diferente das outras comunidades religiosas da cidade: era marcada pelo amor mútuo. O Evangelho de hoje nos convida para que honestamente nos examinemos a nós mesmos, para verificar se esse amor-serviço ainda é a marca característica de nós, discípulos e discípulas de Jesus, em nossa vida individual e comunitária. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.Pe. Tomaz Hughes, SVD

4º Domingo da Páscoa

“O Pai e eu somos um”João 10,27-30 O texto de hoje se situa no contexto duma polêmica nos arredores do Templo, entre Jesus e as autoridades judaicas, na ocasião da Festa da Dedicação do Templo. Nos versículos anteriores, estas desafiaram Jesus para que se declarasse abertamente como sendo o Messias. Ele respondeu que já tinha mostrado isso muitas vezes, por meio de suas obras, mas que eles não queriam acreditar, pois não eram suas ovelhas. Assim, fica claro que as ovelhas são os discípulos, pois o verdadeiro discípulo ouve a palavra do Senhor e o segue. São conhecidos por ele; e aqui cumpre lembrar que, na linguagem bíblica, a palavra “conhecer” tem conotações mais profundas do que em nosso uso comum. Significa não tanto um saber intelectual, mas uma intimidade profunda do amor. A Bíblia, muitas vezes, até usa o verbo “conhecer” para significar relação sexual. Assim, Maria questiona o anjo, pois ela “não conhece” homem (Lucas 1,34). O verdadeiro discípulo é aquele ou aquela que realmente tem um relacionamento de intimidade com Deus e que põe em prática sua palavra. E quem conhece Jesus conhece o Pai, pois “o Pai e eu somos um”, como diz Jesus em nosso texto. O versículo 28 afirma que Jesus dá a vida eterna a seus seguidores. Esse é um tema típico de João, e outros textos do Evangelho podem nos ajudar a aprofundá-lo. No Último Discurso, Jesus explica em que consiste a vida eterna: “A vida eterna é esta: que eles conhecem a ti, o único Deus verdadeiro, e aquele que tu enviaste, Jesus Cristo” (João 17,3). Mais uma vez, liga o conceito da vida eterna ao de “conhecer”. Mas em que consiste “conhecer” Deus? O profeta Jeremias pode esclarecer. Em um trecho contundente, no qual ele enfrenta o rei Joaquim e o condena por não pagar os salários de seus operários na construção de seu palácio, Jeremias diz o seguinte, referindo-se ao falecido rei justo Josias: “Ele julgava com justiça a causa do pobre e do indigente; e tudo corria bem para ele! Isso não é me conhecer? – oráculo de Javé” (Jeremias 22,16). Conhecer Deus não é, em primeiro lugar, um exercício intelectual, mas uma atitude de vida: a prática da justiça, especialmente em favor do oprimido e fraco. Segundo João, a vida eterna é, portanto, o prêmio de quem pratica a justiça de Deus (proposta dos discípulos de Jesus) e não dos que “sabem” muita coisa sobre Deus, mas que não praticam a justiça (representados, no texto de hoje, pelas autoridades do Templo). Nosso texto nos traz motivo de muita coragem, pois afirma que ninguém vai arrancar da mão de Jesus o verdadeiro discípulo (vers. 28). Também nos desafia a verificarmos se somos realmente discípulos verdadeiros, se conhecemos Jesus e o Pai, isto é, se praticamos a justiça de seu projeto. Pois a prova de ser verdadeiro discípulo está na prática das obras do Pai e não no conhecimento teórico de religião. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

3º Domingo de Páscoa

“É o Senhor!”João 21,1-19 Quase todas as traduções da Bíblia intitulam o capítulo 21 de João como “Apêndice” ou “Epílogo”. Realmente, em uma primeira edição, o Evangelho terminava no capítulo 20. Mas, devido a uma situação nova nas comunidades, tornou-se necessária a adição do último capítulo. Essa situação era a fusão de dois tipos de comunidades cristãs: as de tradição sinótica ou apostólica e as de tradição da comunidade do Discípulo Amado. Essa fusão ocorreu pelo fim do primeiro século e é simbolizado nos versículos 15 a 18, em que Pedro recebe a primazia e a missão de pastor dos discípulos; mas somente após ter afirmado, por três vezes, que amava Jesus (lembrando que, na paixão, ele tinha negado o Senhor por três vezes). A comunidade do Discípulo Amado aceita a função apostólica de Pedro, mas insiste que, antes de ser apóstolo, é mais fundamental ser discípulo, ou seja, amar Jesus. A primeira parte do texto (vers. 1 a 14) tem grandes semelhanças com a história da “pesca milagrosa” de Lucas (5,1-11), mas o contexto pós-ressurrecional é diferente. Como sempre, no Quarto Evangelho, devemos prestar atenção aos símbolos, sejam eles pessoas, eventos ou números. Chama a atenção que, embora seja a terceira aparição de Jesus, os discípulos não o reconhecem. Isso demonstra que a presença de Jesus depois da ressurreição, embora real, não é igual à sua presença durante sua vida terrestre. Quem o reconhece primeiro é o Discípulo Amado, pois só quem vê com olhos de amor reconhece e vê além das aparências. Como foi o amor que o levou a correr mais depressa do que Pedro ao túmulo, no capítulo 20, é o amor que faz com que ele seja o primeiro a reconhecer a presença de Jesus ressuscitado. Ele é o Discípulo Amado e que ama; Pedro vai sê-lo somente depois de sua profissão de amor (vers. 15 a 17). A pesca simboliza a missão dos discípulos. Segundo muitos estudiosos, o número de 153 peixes se baseia no fato de que os zoólogos gregos da Antiguidade achavam que existiam no mundo 153 espécies de peixe. Então o Evangelho está dizendo que a Igreja (simbolizada pela rede) pode abraçar o universo inteiro: todos os povos e culturas. É interessante que, diferentemente da história em Lucas, a rede não se rompe. A diversidade de culturas, tradições e povos constitui uma riqueza para a Igreja e não deve levar a rompimento da unidade, sem que se imponha a uniformidade (a palavra grega que João usa para “romper” é schisma). Certamente essa visão deve desafiar e questionar tantas tendências de centralização e rigidez que existem na Igreja hoje. O nó da questão está na entrega da missão a Pedro. Ele deve ser o bom pastor das ovelhas e dos cordeiros; dos membros das comunidades. As ovelhas, contudo, não são dele, ele é apenas o pastor. As ovelhas pertencem ao Senhor. Aqui Pedro recebe essa grande missão; nos sinóticos, isso ocorre na estrada de Cesareia de Felipe. Mais importante, porém, do que sua função é sua vocação de discípulo, aquele que ama e segue o Senhor. Só quem ama Jesus profundamente poderá pastorear seus seguidores. Se, no primeiro capítulo do Evangelho, Pedro veio a Jesus por mediação de seu irmão André (João 1,40-42), agora recebe o convite do próprio Mestre: “Siga-me”, pois, no amor, ele fez a opção pelo discipulado. Todos nós recebemos o mesmo convite: “Siga-me”. Seja qual for nossa função e missão na Igreja, somente terá sentido conforme realmente amamos Jesus, um amor que só é autêntico se amamos os outros, na luta comum em favor da construção de um mundo onde todos, todas possam “ter vida e vida em abundância” (cf. João 10,10), pois “Se Deus nos amou a tal ponto, também nós devemos amar-nos uns aos outros” (1 João 4,11). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

2º Domingo da Páscoa

“A paz esteja com vocês!”João 20,9-31 No texto anterior ao de hoje, Maria Madalena trouxe a notícia da ressurreição aos discípulos incrédulos. Agora é o próprio Jesus que aparece a eles. Não há reprovação nem queixa em suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles, mas somente a alegria e a paz as quais Ele já havia prometido no último discurso. Por duas vezes, Jesus proclama seu desejo para a comunidade de seus discípulos: “A paz esteja com vocês”. O tema da paz, do shalom, é importante na vida de Jesus. No Discurso de Despedida, na tradição da Comunidade do Discípulo Amado, no contexto de uma certa angústia humana e da insegurança, junto com a promessa do dom do Paráclito, Jesus deixa com os seus o grande dom da paz: “Eu deixo para vocês a paz, eu lhes dou a minha paz. A paz que eu dou para vocês não é a paz que o mundo dá” (João 14,27). Ele usou a palavra tradicional dos judeus para a paz: shalom. É uma paz baseada na vinda do Espírito, que será atualizada no texto de hoje: “A paz esteja com vocês! Recebam o Espírito Santo” (João 20,21-22). Enfatiza que não é a paz como o mundo a entende; muitas vezes, simplesmente como a ausência de briga. Frequentemente, a paz que o mundo dá é aquela falsa, que depende da força das armas para reprimir as legítimas aspirações do povo sofrido, como tantos países experimentaram e continuam a experimentar hoje, durante as ditaduras de direita e de esquerda. O shalom é tudo o que o Pai quer para seu povo. Só existe quando reina o projeto de vida de Deus. Implica a satisfação de todas as necessidades básicas da pessoa humana, da libertação da humanidade do pecado e de suas consequências. O shalom dos discípulos não pode ser perturbado pela partida de Jesus, pois é pela volta do Filho para o Pai que o shalom vai se instalar. O shalom, a verdadeira paz, é um dom de Deus, mas também um desafio para nós, seus discípulos e discípulas. Pede a colaboração humana. Diante de tantas barbaridades hoje, de tanta violência no campo, da exploração do latifúndio, do tráfico de drogas e de pessoas, da impunidade, qual deve ser a atitude do cristão? Se nós acreditamos no shalom, nunca podemos compactuar com sistemas repressivos ou elitistas que tiram da maioria (ou mesmo de uma minoria) os direitos básicos que pertencem a todos os filhos de Deus. Às vezes, esse shalom convive ao lado do sofrimento e perseguição por causa do Reino; mas quem experimenta, na intimidade, a presença da Trindade também experimenta a verdade da frase de Jesus: “Não fiquem perturbados nem tenham medo” (João 14,27), pois disse Ele, “Eu venci o mundo” (João 16,33). Com frequência, uma leitura fundamentalista do Evangelho, fortemente influenciada por ideologias da direita, insistia que Jesus veio trazer a “paz”, entendido como “ordem e progresso”, na visão positivista das elites dominantes. Mas o próprio texto do Evangelho indica que esse tipo de paz estava longe da mente de Jesus. Ele mesmo diz com todas as letras, em Mateus 10,34: “Não pensem que eu vim trazer paz à terra; eu não vim trazer a paz, e sim a espada”. Obviamente, Jesus não diz que veio trazer a violência; pelo contrário, veio desmascarar uma paz imposta pela força, com base ideológica numa falsa imagem de Deus, e que essa ação profética dele revelaria as divisões já existentes na sociedade, nas religiões, no coração das pessoas. Pois sua prática e pregação exigiram uma tomada de posição diante da violência, ostensiva ou ocultada. A não violência não é sinônima à não ação. Pelo contrário, levou Jesus a lançar-se em uma vida dedicada aos valores do Reino, entre os quais o shalom tinha lugar premente; por isso Ele foi morto pelos interesses ameaçados por essa pregação do verdadeiro shalom, uma aliança de poderes religiosos, políticos, judiciais e econômicos. Por isso devemos sempre “fazer a memória de Jesus”, de sua pessoa e de seu projeto, para que tenhamos critérios certos para verificar a presença (ou ausência) do shalom em nossa sociedade e nos comprometermos com a criação do mundo mais justo que Deus quer. O Reino de Deus não é algo escrito em uma tábua rasa. Já existe a força contrária: a do antirreino. Assim também o shalom não nasce em um vácuo: cria-se em oposição à realidade dura da violência, mesmo quando disfarçada como paz. Por isso será sempre conflituoso, pois necessariamente provocará a reação dos que oprimem e violentam. A dedicação a ele exigirá uma mística profunda. Uma vida dedicada à construção do shalom tem como fundamento uma profunda experiência de Deus. A luta pela paz, pelos oprimidos, por um mundo de igualdade e solidariedade, para nós, cristãos, não pode nascer de uma simples análise de conjuntura nem de uma indignação ética, por tão necessários que esses elementos possam ser. A inspiração última de nossa luta pelo shalom tem de ser enraizada em nossa fé: por ser coerente com o Deus em quem nós acreditamos, o Deus que vê a miséria de seu povo, vítima da violência, que ouve seu clamor em favor da verdadeira paz, que conhece seus sofrimentos e que desce para libertá-lo de todas as formas de violência que atentem contra a vida (Êxodo 3,7-10). É coerência com o seguimento de Jesus, o Verbo Divino que se fez carne e armou sua tenda no meio de nós (João 1,1.14), vindo para que todos tenham a vida e a tenham plenamente (João 10,10). Por isso, devemos ouvir, de novo, a voz profética de Jesus que conclama todos nós à conversão: “Convertam-se e acreditem na Boa Notícia” (Marcos 1,14). As raízes da violência, do antirreino, estão dentro de todos nós, como indivíduos e comunidade. Quando compactuamos com qualquer discriminação, quando defendemos a violência contra qualquer pessoa ou grupo, quando aplaudimos os maus-tratos contra quem quer que seja, quando interpretamos a vida a partir dos opressores, quando nos entregamos à inveja

Domingo da Páscoa da Ressurreição

“Ele viu e acreditou”João 20,1-9 Os quatro evangelhos relatam os acontecimentos do Dia da Ressurreição, cada um de acordo com suas tradições. Certos elementos, no entanto, são comuns a todos: o fato do túmulo vazio, de que as primeiras testemunhas eram as mulheres (embora divirjam quanto a seu número e identidade, e o motivo de sua ida ao túmulo: para ungir o corpo ou para vigiar e lamentar), que uma delas era Maria Madalena. Podemos tirar disso a conclusão de que as mulheres tinham lugar muito importante entre o grupo dos discípulos de Jesus e que elas eram mais fiéis do que os homens, seguindo Jesus até a cruz e além dela. Infelizmente, outras gerações fizeram questão de diminuir a importância das discípulas na tradição (e a Igreja sofre até hoje as consequências). Lendo os relatos, um fato salta aos olhos: ninguém esperava a ressurreição. Para os discípulos, a cruz era o fim da esperança, a maior desilusão possível. Se somamos a isso o fato de que todos eles traíram Jesus (ou por dinheiro, ou por covardia), podemos imaginar o ambiente pesado entre eles na manhã do domingo. Nesse meio, chega Maria com a notícia de que o túmulo estava vazio; e ela, naturalmente, pensa que o corpo havia sido roubado. Ressurreição, nem pensar! Em nosso texto, Pedro (com um papel importante nos textos pós-ressurrecionais) e o Discípulo Amado (anônimo, mas quase certamente não um dos Doze) correm até o túmulo. O texto deixa entrever a tensão histórica que existia entre a comunidade do Discípulo Amado e a comunidade apostólica (representada por Pedro). Pois o Discípulo Amado espera por Pedro (reconhece a sua primazia), mas, enquanto Pedro vê sem acreditar, o Discípulo Amado acredita. No Quarto Evangelho, Pedro só realmente vai conseguir amar Jesus no capítulo 21, enquanto o Discípulo Amado é o tal desde o capítulo 13. Só quem olha com os olhos do coração, do amor penetra além das aparências. Como em Lucas 24, na história dos Discípulos de Emaús, o texto demonstra que nossa fé não está baseada num túmulo vazio. Não é o túmulo vazio que fundamenta nossa fé na ressurreição, mas o contrário: é a experiência da presença de Jesus ressuscitado que explica por que o túmulo está vazio. Cuidemos de não procurar bases falsas para nossa fé no Ressuscitado! Hoje em dia, quando olhamos para o mundo a nosso redor, é fácil não acreditar na vitória da vida sobre a morte. Há tanto sofrimento e injustiça: guerra, violência, corrupção endêmica, miséria, a saúde e a educação sucateadas! Só uma experiência profunda da presença de Jesus libertador no meio da comunidade poderá nos sustentar na luta por um mundo melhor, com fé na vitória final do bem sobre o mal, da luz sobre as trevas, da graça sobre o pecado. Nós todos somos discípulos e discípulas amados, pois “nada nos separa do amor e Deus em Jesus Cristo” (Romanos 8), mas será que somos discípulos amantes? Será que amamos Jesus e o próximo? E lembramos que o ágape, o amor proposto pelo Evangelho, não é um sentimento, mas uma atitude de vida, de solidariedade, de partilha, de justiça? “O amor consiste no seguinte: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou, e nos enviou seu Filho como vítima expiatória por nossos pecados. Se Deus nos amou a tal ponto, também nós devemos amar-nos uns aos outros” (1 João 4,10-11). Que a mensagem da ressurreição, da vitória da vida sobre a morte nos anime e nos dê força, nestes dias da aparente (mas somente aparente!) vitória da arrogância e prepotência dos países hegemônicos, e especialmente quando a cruz pesar muito em nossas vidas. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Domingo de Ramos

“Bendito aquele que vem em nome do Senhor!”Lucas 19,29-40 (Como seria impossível fazer jus ao Evangelho da Paixão em uma reflexão tão curta, refletiremos sobre o Evangelho da procissão.) Quase não há comunidade católica no Brasil que não comemore hoje, com muita alegria, a entrada de Jesus em Jerusalém. São organizadas procissões, o povo abana ramos, celebram-se encenações do evento. Pessoas que dificilmente pisam em uma igreja nos domingos comuns fazem questão de não perder a procissão hoje. Porém, para não reduzirmos a comemoração a mero folclore, é importante estudar o que significava esse evento para Jesus e para o evangelista. Dificulta nosso entendimento da passagem nossa pouca familiaridade com o Antigo Testamento. Cumpre relembrar um trecho do profeta Zacarias (9,9-10): “Dance de alegria, cidade de Sião; grite de alegria, cidade de Jerusalém, pois agora seu rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado num jumento, num jumentinho, filho duma jumenta… Anunciará a paz a todas as nações, e o seu domínio irá de mar a mar, do rio Eufrates até os confins da terra”. Esse era um trecho muito importante na espiritualidade do grupo conhecido como “os pobres de Javé”, que esperavam a chegada do Messias libertador. Nesse grupo, encontravam-se Maria, José e os discípulos de Jesus. Foi dentro dessa espiritualidade que Jesus foi criado. Zacarias traçava as características do messias: seria um rei “justo e pobre”, não de guerra, mas de paz. Viria estabelecer uma sociedade diferente da sociedade opressora do tempo de Zacarias (e de Jesus, e nosso), em que os poderosos e violentos oprimiam os pobres e pacíficos. Seria uma sociedade na qual, entre outros elementos, a economia estaria a serviço da vida. Um rei jamais entraria numa cidade montado em um jumento, o animal do pobre camponês, mas num cavalo branco, de raça. Jesus, entrando assim, fez uma releitura de Zacarias e se identificou com o rei pobre, da paz, da esperança dos pobres e oprimidos. Por isso, muitas vezes, perdemos totalmente o sentido da entrada de Jesus em Jerusalém. Celebramos o evento como se fosse a entrada de um governante de nossos tempos: com pompa, imponência e demonstração de poder e força. Na verdade, houve uma procissão assim em Jerusalém, no mesmo dia da entrada de Jesus: a entrada do procurador romano Pôncio Pilatos, com toda a pompa, chegando de Cesareia Marítima, com uns cinco mil soldados, para ostentar o poder repressor do Império. À tarde, pela porta oriental, Jesus fez o contrário. Entrou como o Servo de Javé, na simplicidade que é própria de Deus e de seus enviados. Chamamos o evento da “entrada triunfal de Jesus”, e realmente o foi, mas como triunfo do Deus que se encarnou entre nós como o Servo Sofredor. Nada mais longe do sentido original desse evento do que manifestações de poderio e pompa, mesmo (ou especialmente) quando feitas em nome da Igreja e do Evangelho de Jesus. O poder e a pompa seduzem. Devemos ficar eternamente gratos ao Papa Bento XVI pelo desapego que ele demonstrou em renunciar, pelo bem da Igreja. Uma atitude digna de um verdadeiro discípulo do Mestre do Domingo de Ramos. O texto convida todos nós a revermos nossas atitudes. Seguimos Jesus, mas será que é o Jesus real, o Jesus de Nazaré, o Jesus rei dos pobres e humildes, o Jesus cumpridor da profecia de Zacarias? Ou inventamos outro Jesus: poderoso nos moldes de nossa sociedade, com força, poder e prestígio, conforme o mundo entende esses termos? Aquela semana foi o ponto culminante de toda a vida e missão de Jesus, de suas opções concretas em favor dos oprimidos, de seu desafio à religião oficial que escondia o verdadeiro rosto de Deus, das consequências políticas e econômicas de sua proposta de uma sociedade justa e igualitária, manifestação concreta da chegada do Reino de Deus. Tudo isso levou os poderosos, romanos e judeus, a tramarem sua morte. É importante lembrar que a paixão e morte de Jesus foram consequência de sua vida. É impossível entender o que significa a Semana Santa sem a ligar com o resto da vida de Jesus e com sua proposta para a sociedade e para seus seguidores. Jesus não morreu, mas foi morto porque incomodava, como continua a incomodar, ainda hoje, os que mantêm o sistema opressor, que é a expressão do antirreino, mesmo quando disfarçado com discurso religioso, como se fazia no Templo. Adverte-nos um canto usado nas celebrações de hoje: “Eles queriam um grande rei, que fosse forte, dominador. E por isso não creram nele e mataram o Salvador”. Realmente acreditamos no rei dos pobres e oprimidos ou apenas fazemos um folclore no Dia de Ramos, bonito, mas totalmente desvinculado da mensagem verídica e profunda do profeta Zacarias e do Evangelho de hoje? Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

5º Domingo da Quaresma

“Quem não tiver pecado, atire nela a primeira pedra”João 8,1-11 Essa história parece muito mais semelhante aos temas do Evangelho de Lucas do que do Evangelho do Discípulo Amado. De fato, ela não aparece nos manuscritos mais antigos de Lucas e somente surge, pela primeira vez, em versões do século terceiro. Por isso, a maioria dos estudiosos acha que, originalmente, essa história circulava nas comunidades como uma tradição independente. O copista que a inseriu talvez fizesse por achar que ilustrasse duas frases do Quarto Evangelho: “Eu julgo a ninguém” (João 8,15) e “Quem de vocês pode me acusar de pecado?” (João 8,46). O tema do perdão de uma mulher pecadora é tipicamente lucano. Alguns manuscritos situam esse texto no Evangelho de Lucas, durante as controvérsias da Semana Santa, o que parece ser um contexto mais adequado. O problema apresentado a Jesus pelos fariseus é semelhante àquele do imposto em Lucas (21,27-38). A Lei judaica prescreveu a pena de morte para uma mulher casada, pega em adultério (Deuteronômio 22,23-24). Mas, segundo João (18,31), os romanos tinham retirado dos judeus o direito de condenar alguém à morte. Portanto, se Jesus dissesse que ela deveria ser apedrejada, ele contrariaria a lei civil dos romanos; se ele negasse essa pena, estaria contra a lei religiosa mosaica. Era uma cilada semelhante ao dilema sobre o imposto a César ou a questão sobre o divórcio em Mateus (19,3-9). Que os seus interlocutores não se interessassem pela Lei se manifestou pelo fato de apenas acusarem a mulher e não seu parceiro. Uma atitude machista tão comum ainda em nossa sociedade. Não se esclarece o que foi que Jesus escreveu no chão. Alguns autores veem uma referência a uma frase em Jeremias: “Aqueles que se afastam de ti terão seus nomes inscritos na poeira, porque abandonaram Javé, a fonte de água viva” (Jeremias 17,13). Assim, seria uma indicação de que os verdadeiros culpados eram aqueles que se davam o direito de condenar a mulher. Perguntando à mulher se seus acusadores não a haviam condenado, Jesus deixa claro que ele não se identificava com eles. Ele não veio para condenar, mas para salvar. Por isso, a mulher estava livre para ir, mas não para pecar de novo. O texto ilustra, mais uma vez, o recado central que vimos no Evangelho do último domingo: Deus é um Deus de misericórdia e não de condenação. Ele condena o pecado, o mal, mas não a pessoa. Como em Lucas 15,1-2, também no texto de hoje, as pessoas que mais deveriam se dedicar em manifestar o rosto misericordioso do Pai se preocupavam mais em condenar, com base em um legalismo que desconhecia a misericórdia. Jesus, do outro lado, valorizava a Lei (pede que a mulher não continue a pecar), mas teve compaixão diante da fraqueza humana. Aliás, é notável que, nos Evangelhos, Jesus nunca era duro ou rígido com as pessoas que manifestavam, em suas vidas, sinais da fraqueza humana, mas era contundente com os que não tinham compaixão nem misericórdia, e que, por seu legalismo e autossuficiência, escondiam o verdadeiro rosto de Deus. Quantas vezes, nas Igrejas (até hoje), manifesta-se muito mais a dureza de uma mentalidade legalista do que a compaixão de um Deus que é “rico em misericórdia”? Neste tempo quaresmal, preocupemo-nos em sermos manifestação do Deus verdadeiro, misericordioso e compassivo, a exemplo de Jesus, que soube distinguir bem entre o pecado e o pecador. “Nem eu te condeno, vá e não peques mais!” (vers. 11). Lembremo-nos das palavras sábias e profundas do Documento de Aparecida, em seu número 147: “O discípulo-missionário há de ser um homem ou uma mulher que torna visível o amor misericordioso do Pai, especialmente para com os pobres e pecadores”. Jesus nos dá o exemplo no texto de hoje. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

4º Domingo da Quaresma

“Teu irmão estava morto e tornou a viver”Lucas 15,1-3.11-32 O Evangelho de Lucas prima por sua ênfase na misericórdia de Deus. Se fosse para classificar em uma só palavra o rosto de Deus em Lucas, poderíamos, sem hesitação, assinalar “misericórdia”. Talvez nenhum capítulo salienta essa convicção tanto como o 15. A parábola aqui relatada está entre as mais conhecidas da Bíblia, geralmente chamada de “O Filho Pródigo”. Devemos ter um pouco de cuidado com esse título, pois já sugere que a figura central da parábola é o Filho Pródigo, o que não necessariamente é a interpretação mais adequada. Para sermos fiéis ao Evangelho, precisamos interpretá-lo dentro de seu esquema teológico e literário. Para isso, temos de dar muita atenção aos primeiros três versículos. Pois nos dão o motivo pelo qual Jesus contou as três parábolas do capítulo, uma chave valiosa de interpretação. São como um gancho sobre o qual se pendura o resto do capítulo: “Todos os cobradores de impostos e pecadores se aproximavam de Jesus para escutá-lo. Mas os fariseus e os doutores da Lei criticavam a Jesus, dizendo: ‘Esse homem acolhe pecadores e come com eles!’” (versículos 1 e 2). Depois vem a chave de interpretação: “Então Jesus contou-lhes esta parábola” (vers. 3). Ou seja, Jesus contou as parábolas deste capítulo porque os chefes religiosos o criticavam por associar-se com gente de má fama. Então a chave de interpretação é a atitude dos fariseus e doutores, contestada pelo ensinamento de Jesus. O problema de fundo não é só a prática de Jesus, mas a experiência de Deus. Para os oponentes de Jesus, Ele não pode ser de Deus, agindo assim, pois Deus não acolhe pecadores. Para Jesus, Deus é exatamente o oposto: Ele é compaixão e misericórdia, e, por isso, corre atrás dos pecadores. Quantas vezes, falando de Deus, nós cristãos demonstramos um Deus como o dos escribas e não o Deus de Jesus. Assim também a parábola nos interpela hoje. Podemos ler esse texto a partir do filho perdido ou do pai, ou do irmão mais velho. O título tradicional implica uma leitura a partir do “pródigo” (pródigo significa “esbanjador”). Assim, ressaltaria o processo de conversão: sentir a situação perdida, decidir a pedir reconciliação, ser aceito pelo pai, reativar os relacionamentos perdidos e estragados. Sem dúvida, uma leitura válida do texto como tal, mas, diante dos primeiros dois versículos do capítulo, talvez não a interpretação primária que Lucas quisesse dar. Outra possibilidade é de ler a história a partir do pai. Sem dúvida, também válido. Assim, o pai representa o próprio Deus, que, em primeiro lugar, respeita a liberdade de decisão do filho, não impedindo que ele seja “sujeito” de sua vida; depois não espera a volta do “pródigo”, mas corre a seu encontro, numa atitude não “digna” de um fidalgo oriental idoso, pois o pai está preocupado mais com a reconciliação do que com o prejuízo, e se alegra com a volta de quem estava morto. Mais uma vez, uma leitura mais do que aceitável. O contexto do capítulo, contudo, à luz dos primeiros versículos, sugere uma leitura diferente: a partir do irmão mais velho. Pois Jesus conta a parábola para contestar a atitude dos fariseus e doutores da Lei, que o reprovam, porque ele acolhe os pecadores. Então, o filho mais velho é a imagem dos fariseus: “gente boa”, fiel na observância da Lei, mas cujo coração está fechado, ao ponto de ser incapaz de alegrar-se com a volta de um irmão perdido. Assim, embora observem minuciosamente todas as prescrições da Lei, a atitude deles contradiz claramente a de Deus, demonstrada pela ação do pai misericordioso. Essa diferença de gesto se resume claramente nos termos que ambos usam, referindo-se ao filho mais moço. Enquanto o filho mais velho o chama de “este teu filho” (vers. 30), o pai fala “este teu irmão” (vers. 32). Aqui Jesus quer questionar todos nós que somos “praticantes”. Somos capazes de reconhecer nossa própria fraqueza e miséria espiritual, como fez o “pródigo”? Somos capazes de correr ao encontro de um irmão perdido, como fez o pai? Ou somos como o irmão mais velho: “gente boa”, gente de “observância”, mas gente incapaz de ter um coração de misericórdia, de alegrar-nos com a volta ao estado original, de um irmão ou uma irmã perdidos? Podemos até dizer que este capítulo de Lucas é o coração do Evangelho. Pois Deus, o Deus de Jesus e o de Lucas, é o Deus que não se alegra com a perda de quem quer que seja, mas com a volta do pecador. É o Deus que se encarnou em Jesus de Nazaré, para salvar quem estava perdido. É o Deus da misericórdia e do perdão. Como traduzimos essa visão de Deus em nossas vidas? Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

3º Domingo da Quaresma

“Se vós não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo”Lucas 13,1-9 Essa passagem somente se encontra no Evangelho de Lucas e ensina os discípulos que Jesus é compassivo com as falhas, fraquezas e limitações humanas; mas que também tem exigências para quem quer segui-lo. Ele nos convida à conversão, antes que seja tarde demais. O trecho começa com o relato feito por algumas pessoas, referente ao fato ocorrido em Jerusalém, quando Pilatos matou um grupo de galileus durante o sacrifício no Templo (não temos informações de outras fontes sobre esse acontecimento). Na época, sofrer desgraças como doença, pobreza ou morte prematura era visto como castigo de Deus por ser pecador. Podemos lembrar a pergunta feita a Jesus sobre o homem cego de nascença, no Evangelho de João (9,2): “Os discípulos perguntaram: ‘Mestre, quem foi que pecou para que ele nascesse cego? Foi ele ou os pais dele?’”. É a “teologia da retribuição”, pela qual Deus premia ou castiga segundo os méritos da pessoa, ou melhor, segundo o que o sistema vigente entende por mérito. Assim se anula a gratuidade e a bondade misericordiosa de Deus; e os excluídos da sociedade são vistos como culpados de seu próprio sofrimento. Infelizmente essa teologia, tão antievangélica, está muito presente hoje, quando a prática religiosa ou o dízimo são entendidos como “investimento” para receber retornos de Deus. É claro que também essa teologia funcionava, e funciona, em favor da elite dominante, pois sua riqueza é explicada como proveniente da bênção de Deus e não como, frequentemente, resultado da exploração e, ou, de um sistema econômico injusto. Jesus não autoriza tal interpretação, e falando também de outro acidente em Jerusalém que matou dezoito (vers. 4), mostra que Deus não castiga assim. Esses acontecimentos trágicos podem servir para que todos pensem na insegurança da vida e na urgência de conversão, enquanto ainda há tempo. Todos nós precisamos estar preparados para enfrentar o julgamento de Deus, mediante uma vida digna de discípulos. Os versículos 6 a 9 formam a parábola da figueira. Muitas vezes, as parábolas comportam mais do que uma explicação válida. A parábola de hoje tem dois lados: como parábola de compaixão e como parábola de crise. Na primeira interpretação, Deus sempre dá ao pecador (simbolizado no texto pela figueira que não dava fruto) mais uma chance. Assim, toca em um tema central de Lucas, que é a misericórdia e a compaixão de Deus. Na segunda interpretação, mexe com os acomodados e desligados entre os discípulos, que só “esgotam a terra” (vers. 7), ou seja, estão na comunidade como peso morto, sem contribuir nada para ela. Tais pessoas devem converter-se para dar os frutos de uma vida do discipulado ou correrem o risco de serem cortadas da vinha do Senhor. A Quaresma é um tempo oportuno para uma reflexão sobre nossa vida cristã, tanto como indivíduos como participantes de uma sociedade, cujas estruturas, muitas vezes, também não estão de acordo com a vontade de Deus, destruindo a nossa “casa comum”, o nosso planeta, por exemplo. É claro que todos nós somos pecadores e, então, em permanente necessidade de conversão. A parábola nos anima diante de nossas fraquezas, pecados e tropeços na caminhada, pois Deus é compassivo, e Jesus sempre nos convida a voltar ao bom caminho. Por outro lado, a Quaresma também deve nos estimular para que busquemos na verdade os caminhos de conversão, descobrindo onde e como somos “figueiras sem frutos”, buscando o “adubo” (vers. 8) da oração, da Palavra de Deus, dos sacramentos, da Campanha da Fraternidade, para que voltemos a produzir os frutos devidos a verdadeiros discípulos e discípulas de Jesus. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

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