Amizade é deixar-se cativar

A amizade é uma das joias mais preciosas que adquirimos no decorrer de nossa vida. Encontrar um amigo não é tarefa fácil. Exige muito. Precisa de cuidados. Demanda atenção. Quem já leu o famoso livro do francês Antoine de Saint-Exupéry encontra, de maneira única, essa realidade no diálogo entre a Raposa e o Pequeno Príncipe.  “— Não – disse o príncipe. – Eu procuro amigos. Que quer dizer “cativar”? — É algo quase sempre esquecido – disse a raposa. Significa “criar laços”… — Criar laços? — Exatamente – disse a raposa. – Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo…” E em tempos de frágeis relações, num mundo que se faz deserto, temos sede de encontrar um amigo. Por esse motivo, no dia em que somos convidados a pensar na importância da amizade e nos nossos amigos, os alunos da Rede de Educação nos ajudam a entender seu real significado.  Para Ana Clara Loredo Miranda, do 9º ano B do Colégio Stella Matutina, em Juiz de Fora-MG, amizade é “ter alguém em que você possa confiar e que te apoie nos bons e nos maus momentos”. Sua opinião é compartilhada pelos seus colegas de classe Caio Goulart e Lucas do Amaral Rosa. Para Caio, “é ter alguém que te acompanhe em qualquer situação que você estiver”. Lucas acrescenta que “amizade é uma conexão entre duas pessoas, em que se precisa de confiança e querer o bem do outro”.  Em São Paulo-SP, os alunos do 9º ano A e B do Colégio Espírito Santo também confirmam o valor da confiança na amizade. Thiago Gonçalves Correia Petri diz que amizade é “ter alguém do seu lado, em que você possa confiar e que vai te ajudar quando necessário”. Já Luiz Felipe Ricobom de Sousa acrescenta que é “compartilhar todos os momentos da vida, é ter confiança, respeito e parceria, é apoiar, é discordar, é estar ao lado, ajudar e, principalmente, dividir sentimentos, alegria, tristeza e saudade…”  Também os alunos do ensino médio do Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG, partilharam o que pensam sobre amizade. Para Antônio Vitor Maluf, da 1ª série A, amizade significa “ter empatia com a pessoa, gostar dela e principalmente confiar nela. Sem confiança não se constrói uma amizade, pois ela é fundamental e faz com que você se abra e conte toda a sua vida, sem se preocupar em ser julgado e nas consequências que isso pode trazer”. Victor Abreu, da 2ª série B, diz que “amizade é quando temos alguém em que podemos confiar, não só nos momentos fáceis da vida, mas, principalmente, nos difíceis, pois são nestes que vemos quais são as verdadeiras amizades. É alguém com quem podemos ser nós mesmos sem medo de sermos julgados. É amar e ser amado na mesma intensidade por essa pessoa”.  Mariana Beirigo de Castro, da 1ª série, confirma que a “amizade é quando você tem uma pessoa para todos os momentos e sabe que ela vai estar sempre lá. Que entende cada momento seu e que sempre fala a verdade”. E complementa: “É a confiança e o amor depositado em outra pessoa”.  E para você? O que é uma verdadeira amizade? Venha dividir conosco, deixando seus comentários pelo Facebook e em nosso blog. Agostinho Travençolo Júnior, educador e coordenador da Dimensão Missionária da Rede de Educação SSpS.

Como é a vida de uma irmã SSpS?

Para você que tem curiosidade em saber como é a vida das missionárias servas do Espírito Santo (SSpS), a Ir. Juliana de Andrade vai contar como é. Neste vídeo, ela fala dos pontos principais da vida missionária: a partilha na comunidade, a oração e intimidade com Deus, e o serviço missionário em diferentes lugares e situações. Aqui você vai ter um resumo bem curtinho do que é a Congregação e como as irmãs vivem sua vocação. Mas se você quiser saber mais, é só entrar em contato conosco e teremos grande alegria em responder às suas perguntas por meio desta série Papo Vocacional. Deixe seus comentários e, se gostou, compartilhe com seus amigos. Aqui vai o regulamento para a publicação dos vídeos: O assunto do vídeo deve ser vocacional. A gravação deve ser feita com o celular na posição horizontal. A duração da gravação deve ter tempo mínimo de dois minutos e máximo de três minutos. Na introdução do vídeo, você deve dizer seu nome e de onde você é. Também pode dizer sua idade e o que você faz. Em seguida, poderá contar o que você quiser sobre suas dúvidas e descobertas vocacionais. Ao nos enviar o vídeo, você estará, de antemão, autorizando a publicação. Serão publicados apenas os vídeos que estiverem de acordo com a proposta e apresentarem boa qualidade de imagem e de som. Os vídeos deverão ser enviados para o link https://drive.google.com/drive/folders/1swzkJJBuDCM-hh__Lrwt_V5VSHSVkHcs?usp=sharing Avisar que enviou pelo e-mail mkt.sede@ssps.org.br

Espiritualidade e ecologia integral

É urgente fortalecer relações comunitárias, cooperativas de produção, trabalho colaborativo, consumo consciente, comércio justo, respeito ao próximo e à diversidade e tantos outros aspectos humanos definitivamente incompatíveis com a lógica de acumulação do capital que “coisifica”, “explora”… Vivemos tempos difíceis, com pessoas adoecidas física e espiritualmente, sistemas social, político e econômico marcados pelo egoísmo do “salve-se quem puder”, corrupção… É preciso identificar o que não convém: “Aprender o caminho do inferno para dele se afastar”, como recomendava, há cinco séculos, Nicolau Maquiavel. Não temos mais tempo a perder. Juntos podemos iluminar alguns caminhos para uma ação cotidiana, silenciosa, que pode provocar mudança para uma vida harmoniosa consigo, com o próximo, com a Natureza e com Deus. A espiritualidade e a ecologia integral nascem da prática libertadora de Jesus que fez e continua fazendo, ainda hoje, o apelo a uma profunda conversão interior e integral para vida em abundância (Jo 10,10), de inter-relação entre pessoa-espiritualidade-natureza. Está em curso uma mudança da “ecologia ambiental” para a “ecologia integral”, incluindo a ecologia político-social, cultural, educacional, ética e a espiritual (Laudato Si’) que nos leva a uma consciência do rosto humano de Deus e nos impele a uma profunda defesa e valorização da vida humana em todas as suas manifestações. Como entender a “ecologia integral” com base na realidade que nos cerca e no momento político que vivemos no Brasil? Nossa proposta oferece uma reflexão baseada em três dimensões: religioso-missionária, comunitária e econômica. Vamos a elas. Dimensão religioso-missionária Na dimensão religioso-missionária, somos provocados a refletir sobre a experiência de fé e o diálogo, os desafios e a promoção da ecologia integral. Essa dimensão caracteriza a nossa relação com Deus, o Criador. Por essa relação, pode-se adquirir uma experiência da fé profunda que deve motivar para a convivência cotidiana na relação interpessoal. A experiência com Deus não é somente para construir uma relação vertical, mas ela fundamenta nossa relação com outros seres, outra criação. Nessa relação cabe um compromisso para que as mensagens e os mandamentos divinos sejam realizados para transformar a vida em mais integrada e harmônica. Por isso a missão é fazer o bem, promover e cuidar da vida em todas as suas manifestações, colaborar e fazer acontecer o que Deus quer e deseja desde a criação o mundo. Algumas provocações para sua reflexão e aprofundamento: Como a experiência de fé ajuda no diálogo e promove uma ecologia integral? Quais os desafios da missão na perspectiva da ecologia integral? Dimensão comunitária Na dimensão comunitária, somos provocados a refletir sobre os desafios que se apresentam no dia a dia nas comunidades, na Igreja, na sociedade. Precisamos ir além das limitações pessoais, sabendo que a missão é o maior tesouro. Como criar unidade nas diferentes maneiras de ser religioso, religiosa, cristão no dia de hoje em diferentes frentes de trabalho, como formação, vivências, visão de Igreja, culturas, partilha dos bens e interesses pessoais e comunitários? Só criando um diálogo de vivências comunitárias com respeito mútuo, interesses comuns e crescimento humano que aproximam o discurso da prática de vida. Cultivar os encontros e relacionamentos onde a vida familiar vai crescendo em exemplo e testemunho de fé como evangelizadores da Família Arnaldina. Cultivar verdadeiras amizades significa buscar valores em comum, aprender a gerenciar conflitos inerentes à convivência humana, um diálogo corajoso em refazer relações, momentos de partilha da fé, cultivar sonhos em comum, celebrar acontecimentos que reforçam a identidade. A figura a seguir propõe a “ecologia integral” como centro das atividades pastorais e comunitárias. Algumas provocações para sua reflexão e aprofundamento: Acredito nos valores de uma comunidade que me faz crescer humanamente? Onde busco alimentar meu espírito comunitário? Qual a relação entre uma vida comunitária bem vivida e a contribuição ao meio ambiente? Dimensão econômica Na dimensão econômica, somos provocados a refletir sobre a urgência de uma articulação estratégica dos diferentes níveis do Poder Público para obtenção de resultados efetivos nas políticas ambientais que precisam estar presentes e articulados com as políticas educacionais, industriais, energéticas… Sabe-se da dificuldade em articular esferas de poder autônomas e com focos específicos, mas, pela ênfase na ecologia integral, pode-se estruturar uma grande transformação na realidade socioeconômica do Brasil. Estratégias para uma solução demandam uma abordagem articulada para combater a pobreza, garantir direitos e proteger a natureza. Não se trata de um documento para avaliar o índice de desenvolvimento humano (IDH), mas que o conceito de “ecologia integral” seja estruturante para todas as políticas públicas, no sentido de colocar o Brasil em outro patamar civilizatório, com geração e distribuição de renda e maior sustentabilidade. Como cidadão e cristão, a vida humana se sobrepõe a qualquer outro interesse de natureza econômica, comercial ou política. Algumas provocações para sua reflexão e aprofundamento: Como as políticas públicas podem promover a ecologia integral (CF 2019)? Como estimular o protagonismo dos cidadãos na intervenção social? Equipe de Espiritualidade Nacional SSpS e SVD: Maria Cristina Maia, Ir. Paolo Delucca e Pe. Matheus Nurak.

À luz do Evangelho dominical

Neste domingo, o Evangelho traz alguns questionamentos sobre o modo com o qual devemos pensar e agir como cristãos. A passagem nos propõe algumas perguntas as quais pedem respostas abertas, muito além de um mero “sim” ou “não”. Entre elas está “Quem é o meu próximo?”. No vídeo deste 15º Domingo do Tempo Comum, a irmã Nelly Boonen, missionária serva do Espírito Santo e especialista em Justiça Restaurativa, conduz uma reflexão baseada na chamada “Parábola do Bom Samaritano”. Na história, Jesus narra a atitude de um samaritano que se detém para socorrer um desconhecido caído à beira do caminho e muito machucado depois de um assalto. A missionária também relata o caso de Kristin Verellen, uma belga cujo marido foi morto em 2016, numa série de atentados terroristas em Bruxelas. Em vez de propagar o ódio e a vingança, ela decidiu promover ações de incentivo ao diálogo e à fraternidade. Assista ao vídeo produzido pela Verbo Filmes.

Arraial do Convento

No Convento, a festa foi “julina”, pois foi celebrada no dia 3 de julho, com muitos doces, pipoca, quentão, bingo, brincadeiras e até música ao vivo. Em vez de quadrilha, fizeram a escolha da “miss caipira”, num clima de muita alegria e participação. ________________ Veja algumas fotos do Arraial

Laudato si’: cuidando de nossa Casa Comum

Neste mês, a Encíclica Laudato si’ (Louvado sejas, meu Senhor) completou quatro anos de existência. Desde que foi lançada, veio ao mundo como uma grande primavera. Trouxe um florescimento, o aflorar do diálogo com todas as sociedades e religiões. O Papa Francisco lança ao mundo um grande apelo: cuidemos da Casa Comum, cuidemos do planeta. A Laudato si’ expôs, de forma clara, como devemos nos preocupar com a Terra. A novidade está em sua formulação: a Casa Comum. Não foi apenas uma preocupação unilateral em torno do meio ambiente, do meio onde se vive. Mas avançou para algo maior e nos fez pensar que o planeta é nossa casa. E sendo a nossa casa, deve ser cuidada, com afeto, esmero e responsabilidade. Uma obrigação de todos e todas que vivem dentro dela. Para tanto, apontou que, para organizarmos a casa, o planeta, precisamos ter em conta alguns pontos: a pobreza e a fragilidade do planeta, a interligação de tudo no mundo, as formas de poder que derivam das novas tecnologias, uma economia e um progresso não predatórios, o sentido humano da ecologia, a busca por diálogos sinceros entre os povos, a responsabilidade e local da política internacional, a cultura do descarte e um novo estilo de vida. Essa organização da casa comum não é fácil. Depende de cada um de nós, desde os pequenos gestos aos grandes feitos, tanto das Igrejas quanto das sociedades. Desses pontos destacam-se três. Primeiro, sobre a economia e progresso. O Papa Francisco, ao longo dos anos, nos adverte o quanto a ganância por riquezas vem gerando, cada vez mais, a pobreza, a miséria e a morte. Se existe a pobreza é porque não ocorre a distribuição justa dos bens e produtos de cada país. A economia está centrada nas mãos de poucos. Outro ponto é a questão política internacional e local que vem demonstrando o quanto desumaniza os povos. Vemos, na América Central, famílias inteiras em grande deslocamento, em busca de uma nova vida. Há alguns dias, presenciamos o quanto a vida vale pouco: um pai e sua filha, ambos da Guatemala, morreram afogados na travessia para os Estados Unidos. Assistimos a tudo isso e a outros casos mundo afora e nos perguntamos para onde vai o sentido da política humanitária do mundo. Para onde caminha o humano nestes tempos? O terceiro ponto nos mostra como tudo nos interliga dentro da Casa Comum. Na Laudato si’, o Papa Francisco nos mobiliza a pensar em outro mundo possível, de amor, solidariedade e partilha, com uma economia que beneficie a todos e todas, e um progresso que nos leve a um futuro de paz e comunhão. Hoje, no Brasil e em muitos países latino-americanos, presenciamos muitos gestos que nos fazem mais humanos e percebemos o quanto estamos interligados. O maior deles, para nós, cristãos e cristãs, é o Sínodo da Amazônia, que ocorrerá de 6 a 27 de outubro, em Roma. O Sínodo da chamada Pan-Amazônia, que compõe a Bacia Amazônica, toda uma área da selva onde estão muitas nações indígenas, quilombolas, reserva nativo-biológica de plantas e sementes que devem ser preservadas, atualmente palco de disputas internacionais por suas riquezas. Além disso, para nós, cristãos e cristãs católicas, de modo especial, traz a triste questão da falta do encontro de muitos cristãos e cristãs com a Eucaristia. Há povos que não recebem o Corpo de Cristo por falta de sacerdotes. Um assunto que nos provoca a refletir sobre o futuro das vocações religiosas no Brasil. Além desse assunto, outros temas serão discutidos no Sínodo. Oremos por nossos bispos, para que sejam iluminados pela luz do Espírito Santo. Que possamos, juntos, cuidar de nossa Casa Comum. O que apresentamos aqui, no plano de anúncio do papado de Francisco, é anúncio de vida e salvação, motivações nascida a partir da Doutrina Social da Igreja. Por isso a Igreja propõe ao mundo um ideal de uma civilização do amor. O amor social que é a chave para um desenvolvimento autêntico entre os povos. Porque tudo está interligado nesta Casa Comum. Nilda Assis Cândido, mestra em Ciências da Religião (UMESP), coordenadora de curso (CESEEP – Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular), professora de Filosofia da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.

O encontro que rompeu minhas correntes (Lc 13,10-17)

A narrativa do encontro entre Jesus e a mulher encurvada se insere na sequência das curas realizadas por Jesus, em dia de sábado. Porém as narrativas trazem suas próprias peculiaridades. Neste pequeno escrito, nós nos deteremos especificamente nas características particulares do episódio da mulher encurvada. “Ora, Ele estava ensinando numa das sinagogas em dia de sábado. E eis que se encontrava lá uma mulher possuída, havia dezoito anos, por um espírito que a tornara enferma; estava inteiramente encurvada e não podia, de modo algum, endireitar-se. Vendo-a, Jesus a chamou e disse ‘Mulher estás livre de tua doença’” (vv. 10-12). É interessante percebermos a estrutura da narração, pois detalha cuidadosamente o contexto e as condições em que se encontrava a mulher à qual Jesus se dirige. Ela estava possuída havia dezoito anos. O número é simbólico e indica muito tempo. É possível, portanto, que ela estivesse por quase toda sua vida sofrendo desse mal. Aliás, ela estava “inteiramente encurvada”. No Antigo Testamento, o estar encurvado é considerado como uma atitude de humilhação (cf. Gn 4,5-6; Sl 57,7). Mas também encontramos vários textos nos quais o mesmo Deus se ocupa dos cegos, dos encurvados, das viúvas e dos órfãos (cf. Sl 146). Deus tem o poder de erguer o ser humano da prostração: “Mulher, estás livre de tua doença”. Entretanto, Ele conta conosco para romper as correntes e libertar da opressão cultural, social e religiosa. Não é por acaso que Jesus exerça sua atividade libertadora justamente no dia do shabbát (sábado). Jesus segue a tradição profética e lembra ao povo de Israel e a nós que o mandamento da assistência vem antes do mandamento do sábado. Salvar e promover a vida tem prioridade sobre a observância (cf. Mc 3,4). Quando queremos controlar e resguardar, acima da vida, as “leis”, caímos na total desumanização. Consequentemente teremos sociedades doentes e encurvadas. Nesse quadro, a degradação do ser humano se reforça. O exemplo claro é a sobre-exploração da vida em todas as suas formas: mortes violentas; fome massiva; deslocamentos forçados; o aquecimento global causando mudanças climáticas que ameaçam a existência de toda a humanidade. E o mais grave é que, diante desse cenário, os acordos comerciais têm prioridade em relação à vida. No entanto, Deus não nos abandona, segue confiando em nós. Ele, em seu Filho Jesus, aproxima-nos, olha-nos com compaixão e nos atrai, endireitando-nos. A mulher estava possuída por um espírito que a tornava enferma. Ou seja, há uma causa da decomposição, e é fundamental reconhecê-la. Observemos que Jesus é quem toma a iniciativa. Ele vê a mulher, a chama e, com sua palavra e seu toque, a cura. A palavra “chamou-a” é usada somente quando Jesus chama os discípulos (cf. Lc 6,13). Será que Jesus a chama como discípula? Mesmo a imposição das mãos, por parte Jesus, é crucial no texto, pois, mais do que um toque de cura, trata-se de um gesto simbólico. Lucas, no Evangelho, somente narra outra imposição em 4,40. Isso reforça a peculiaridade da imposição de mãos além do sanar. Na obra lucana, esse gesto é feito ao se eleger alguém para um cargo (At 6,5-6; 9,10-18). Será que a imposição de mãos na mulher significa que ela foi eleita? A mulher reage, louvando e glorificando a Deus. O verbo (louvar-glorificar) está em gerúndio, o que remete a uma atuação duradoura. Isso significa que a mulher não apenas expressou um breve louvor pela maravilha recebida, mas, com toda a sua vida, glorificava-servia a Deus na comunidade. Além do mais, seguindo as narrativas de Lucas, percebemos que ele usa elementos estilísticos dos duplicados. Portanto o episódio em questão encontra seu paralelo na cura do homem da mão atrofiada (Lc 6,6-11). Conclui-se que o duplicado “homem-mulher” traz a intenção de realçar a igualdade que mulheres e homens têm no Reino de Deus. O evangelista também nos chama a atenção para as reações dos personagens. A mulher reagiu, louvando a Deus por sua vida, por sua Palavra e por suas ações. A fé que demonstra é exemplar e, por isso, mostra-se como verdadeira filha de Abraão. Os dirigentes religiosos reagem aborrecidos. O povo dos “filhos de Abraão” se mostra cheio de assombro por ver realizarem-se as maravilhas de Deus no meio dele. Com a mulher e seu povo, reconheçamos que a salvação de Deus não está condicionada a atos pessoais. Nem a Lei ou o pecado podem coagir sua ação libertadora. Ergamo-nos! Pois o Reino de Deus já está no meio de nós, eis nossa alegria!   Irmã Juana OrtegaMissionária serva do Espírito Santo, teóloga especializada em Bíblia. Nasceu no México, trabalhou em Moçambique e colabora na animação vocacional.

À luz do Evangelho dominical

O Evangelho deste domingo narra a passagem da escolha, por parte de Jesus, dos 72 discípulos. O Senhor os envia em missão, dois a dois, para os lugares aonde Ele mesmo pretendia ir. Jesus prepara os discípulos e também a nós, hoje, sobre as atitudes que devemos cultivar diante do que encontraremos na missão e como devemos ir. No vídeo de hoje, quem nos apresenta a reflexão do Evangelho é a irmã Nelly Boonen, missionária serva do Espírito Santo e especialista em Justiça Restaurativa. Como trabalhadora da cultura da paz, ela aponta as possibilidades que o Evangelho oferece para a construção da paz e a superação de tudo o que pode destruí-la. O Evangelho nos mobiliza a ir ao encontro das pessoas, superando as diferenças, buscando construir relacionamentos de fraternidade e igualdade que fazem o Reino de Deus acontecer. Impulsiona-nos a assumir nossas vulnerabilidades e a nos encantar com a novidade da mensagem de Jesus que transforma a vida.

Rompendo fronteiras para construir a justiça e o bem comum

O fim de semana, de 28 a 30 de junho, foi marcado pelo 2º Encontro dos Alunos das Escolas da Rede de Educação SSpS – a “Missão sem Fronteiras”, que ajudou a juventude a pensar como o Evangelho e o trabalho missionário podem transformar a vida de tanta gente que se encontra à margem da sociedade. Os alunos viveram muitos momentos significativos, como os de reflexão e partilha de vida, além de assumirem um novo compromisso missionário. A missão reuniu jovens e educadores missionários de Belo Horizonte, Juiz de Fora, Rio de Janeiro e São Paulo. A proposta foi ultrapassar fronteiras e construir elos.  Proteção, amor ao próximo, solidariedade e doação foram as palavras inspiradoras que moveram e deram vida ao encontro realizado no Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte. A escola recebeu os alunos com música, reflexão e partilha. Foi uma oportunidade de perceber que o caráter da missão é mais amplo do que se imagina. O coordenador da Dimensão Missionária, Agostinho Travençolo Junior, foi uma das pessoas contagiadas pela experiência. “Foi impressionante ver o envolvimento e o compromisso de cada jovem participante, e tanta gente acreditando nas bases como fermento de transformação das realidades mais sofridas”, partilha.  Outro destaque foi a presença da coordenadora do Colégio Sagrado Coração de Jesus, Simone Fortunato Nunes, que ajudou o grupo a perceber que a missão somente pode dar-se quando as pessoas saem do lugar onde estão para irem ao encontro do outro.  O passo mais marcante vivido pelos alunos durante a experiência foi a visita à Paróquia de São Sebastião, no Município de Brumadinho, um lugar que oferece apoio, orientação e doações às vítimas da tragédia provocada pelo rompimento da barragem de rejeitos da mineradora Vale. Os testemunhos e a troca de experiências transmitiram a mensagem de que todos são discípulos missionários, testemunhando a esperança. O grupo de alunos participou de diversas ações voluntárias. Também ouviu relatos de moradores locais, de indígenas e quilombolas que vivem em locais próximos de onde o crime ambiental aconteceu. O Projeto “Missão sem Fronteiras” foi além de um fim de semana. Tocou o coração dos jovens e contagiou a vontade de continuar o compromisso missionário. Os participantes retornaram para suas cidades com o coração aberto e esperançoso, na certeza de que viveram momentos que ficarão guardados para sempre como inspiração para suas novas ações. Veja as fotos e assista ao relato de alguns jovens. Roberta Pimentel Aouila, professora de Língua Portuguesa do Colégio Stella Matutina, Juiz de Fora-MG; e Agostinho Travençolo Junior, coordenador do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP. Veja os principais momentos da Missão Sem Fronteiras Assista ao testemunho dos jovens

Diaconato permanente: família, missão e trabalho

Em 6 de março deste ano, Quarta-Feira de Cinzas, a Santa Sé divulgou o Anuário Estatístico Eclesial com dados de 2017. Como vinha ocorrendo nos últimos anos, um dos resultados que mais chamaram a atenção dos analistas foi o sempre crescente número de diáconos permanentes no mundo, chegando a quase 50 mil. Por vários motivos, a Arquidiocese de Belo Horizonte, onde sirvo, iniciou tardiamente a formação de seu corpo diaconal. Mesmo que esse ministério tenha sido reestabelecido no Ocidente após o Concílio Vaticano II (1962-1965), apenas em 2011, foram ordenados os sete ministros pioneiros, a exemplo da passagem bíblica da instituição dos primeiros diáconos cristãos (At 6,1-7). Por enquanto, há 75 por aqui, mas esse número deve crescer muito em breve. Apesar de começar depois, a Arquidiocese de Belo Horizonte, por meio de seu arcebispo, Dom Walmor Oliveira de Azevedo, hoje também presidente da CNBB, tratou logo de buscar a vanguarda. Por exemplo: as mulheres têm ampla participação no ministério por aqui, algo preciosíssimo. As esposas são vivamente convidadas a acompanhar os maridos em todas as etapas de formação, inclusive a teológica. Neste ano, elas próprias passaram a organizar os encontros vocacionais, que ocorrem uma vez por mês. Tudo isso sem contar a presença feminina na equipe de psicólogas e professoras. Em tempo, não nos esqueçamos da figura da Virgem Maria, a diaconisa-mor, mulher de fé e serviço, modelo para todos nós. Família, missão e trabalho O equilíbrio entre as vidas familiar, ministerial e profissional é sempre um desafio. Os candidatos casados somente recebem o sacramento da ordem depois da aprovação das esposas. Isso é muito significativo, pois abrem mão de um tempo integral de convivência com os maridos, à qual elas têm direito, para que os diáconos possam se dedicar ao povo. É um desafio e tanto para ambos e para os filhos. Com base nisso, em minha não muito longa experiência como diácono (fui ordenado em 25 de novembro de 2017) e abusando de uma analogia um pouco frágil, digo que o debate sobre se homens casados poderiam ou não ser padres deveria passar antes pela opinião das mulheres. Até agora, praticamente não ouvi ninguém perguntar a elas se gostariam de conviver com homens vivendo um ministério ininterrupto, com as urgências e emergências que a missão exige. Creio que elas poderiam enriquecer bem mais esse discernimento da Igreja. Quanto à vida ministerial, ao ver mais de perto muitos desafios da evangelização, posso dizer que realmente a messe é bem maior do que eu imaginava e os operários são muito menos do que eu pensava. Muitas vezes, eu me vejo como um grão de areia diante da necessidade de anunciar Jesus aos irmãos e irmãs, sobretudo os das fronteiras existenciais. Graças à Providência, contudo, fui um formando verbita, candidato a ser missionário irmão. Aprendi com ótimos religiosos ser sempre o Espírito Santo a ir à frente, abrindo os caminhos; somos apenas servos. Isso é consolador e também chocante. Mesmo tentando fazer o possível para evangelizar, não posso esquecer-me de que continuo com o dever de ter uma fonte de renda, uma das exigências do ministério. No diaconato, tudo é feito voluntariamente. Por isso não é raro, depois de um dia inteiro de missão, eu ter de avançar noite adentro para dar conta do serviço acumulado. Vejo tudo isso, contudo, como uma graça e não como um peso em si. No geral, com a ajuda de Deus, tenho conseguido sair-me até bem. Caridade, Palavra e liturgia Os diáconos, sejam eles permanentes ou transitórios (os que serão padres), são homens ordenados para atribuições bem específicas na Igreja, as quais não podem ser confundidas com as dos presbíteros. Ocupam-se da caridade, da Palavra e da liturgia. A caridade cristã, exercida também pelos diáconos, sinais de Cristo Servo, vai desde oferecer uma sopa, um medicamento ou um agasalho a alguém fragilizado até a perguntar por que há tantos irmãos e irmãs precisando de ajuda e não são atendidos pelo Estado, responsável último por proteger, de modo especial, os mais fracos. Lutar pela justiça é outro modo de exercer a caridade. Ainda nesse campo, acrescento que o “socorro” aos padres foi uma forma de serviço que mais me chamou a atenção. Até agora, deparei-me com muitos presbíteros sobrecarregados, sufocados pelo peso da missão. Se eu já os admirava, ainda mais agora. Por bem mais de uma vez, ao servir nas comunidades, possibilitei que alguns sacerdotes pudessem ter o mínimo de descanso ou até fazer coisas simples, como ir ao médico ou visitar um ente querido. O diácono é o ministro da Palavra por excelência. Todos os dias, temos o doce dever de recitar a Liturgia das Horas. Eu ainda tenho contato com as leituras de cada dia, além de exercer outras práticas espirituais. A Sagrada Escritura é o venerável pão do qual nos alimentamos e ajudamos a distribuir ao povo. É uma responsabilidade, mas também um privilégio. Amar e dedicar-se à Palavra de Deus, para mim, é a fonte do entusiasmo de um diácono. Sem ela, caímos pelo caminho. A liturgia é o campo de atuação mais visível. O diácono, porém, trabalha mais “no varejo”, muitas vezes passando até despercebido. Como é o homem da bênção, ao visitar e celebrar com os enfermos, os encarcerados, os idosos, com as famílias em festa ou enlutadas, com trabalhadores, ele ajuda a consolar e, com isso, é também consolado. Em variadas liturgias, têm atribuições específicas e bem marcadas. Sagrado “caos” Nosso povo ainda tem muitas dúvidas quanto a este primeiro grau do sacramento da ordem. Muitos, até alguns mais experientes na missão, não conhecem bem o ministério diaconal. Até hoje, noto o estranhamento de alguns quando estou com minha esposa, por exemplo. Houve até quem já fosse correndo denunciar a um padre que um irmão diácono estava de mãos dadas com “uma mulher” no shopping. Com paciência e amor, puderam esclarecer ao zeloso e envergonhado irmão. Desta vez, o evento terminou em boas risadas, felizmente. Tudo é o sagrado “caos” do qual se cria a vida

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