Eis o tempo de conversão!

Instituições importantes emitem um grande sinal de alerta. É preciso converter-nos agora para garantir a vida do planeta. Há um mês, o Papa Francisco presidia a última sessão do Sínodo da Amazônia, na qual foi aprovado o documento final dessa grande reunião. No texto, a palavra que mais se destaca é “conversão”, tanto que o termo aparece nos títulos de todos os capítulos, indicando claramente que a humanidade precisa mudar de rumo. O alerta não vem apenas da Igreja, mas é o que também aponta o novo relatório lançado na terça-feira, 26 de novembro, pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. O clima é de urgência! De acordo com a ONU, se não houver uma diminuição da emissão de gases de efeito estufa de 7% ao ano entre 2020 e 2030, as temperaturas sofrerão um aumento de 3,2º C, o que acarretará impactos climáticos mais destrutivos. A conclusão do relatório mostra que, ainda que todas as metas do Acordo de Paris sejam implantadas, as temperaturas continuarão a subir. Para permanecer abaixo de 2º C ou 1,5º C (que é a meta do Acordo de Paris), os objetivos precisam ser cinco vezes mais ambiciosos na próxima década. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas diz que, se a temperatura for além de 1,5º C, as ondas de calor e as tempestades serão mais frequentes e intensas. Quando a Igreja afirma que temos uma Casa Comum, significa também sustentar que somos todos corresponsáveis por ela. O futuro desse grande lar, e consequentemente o nosso, depende da ação de cada ser humano. Que nesse Advento, tempo de conversão, possamos repensar nossos estilos de vida e nos comprometer com a vida do planeta. Ir. Stela Martins, SSpSCoordenadora da RedesRede de Solidariedade
À Luz do Evangelho Dominical

Chegamos ao último domingo do ano litúrgico, ocasião em que a Igreja celebra a Solenidade de Cristo, Rei do Universo. O Pe. Raimundo da Silva, CRL, da equipe do Centro Bíblico Verbo, comenta o Evangelho de Lucas (23,35-43), proclamado nesta liturgia. O texto narra a passagem em que Jesus, já crucificado, é escarnecido por aqueles que não o consideravam o rei esperado. Na cena, os presentes pedem ao Senhor um sinal de sua realeza, numa ligação com a passagem das tentações (Lc 4,1-23). Pelo poder, violência e mentira, respectivamente, os chefes, os soldados e um dos bandidos dão sinais de que assimilaram o espírito do diabo. O Reino anunciado por Jesus, contudo, é de misericórdia, e assim Ele o demonstra ao perdoar o outro malfeitor, este arrependido. Com o gesto, Cristo confirma que veio buscar e salvar o que estava perdido (Lc 19,10). O bandido, ao contar com o perdão do Senhor, é o único a reconhecer que o reinado de Deus não é deste mundo. E, segundo Pe. Raimundo, a salvação é para agora, refutando um futurismo incerto, utópico. Os pecadores, os pobres, os sofredores têm a capacidade de reconhecer a verdadeira majestade de Jesus, exercida do trono da Cruz e não em realismos triunfalistas. Assista à produção da Verbo Filmes e veja mais.
Música: a arte que transforma

“Se fosse ensinar a uma criança a beleza da música, não começaria com partituras, notas e pautas. Ouviríamos juntos as melodias mais gostosas e lhe contaria sobre os instrumentos que fazem a música. Aí, encantada com a beleza da música, ela mesma me pediria que lhe ensinasse o mistério daquelas bolinhas pretas escritas sobre cinco linhas. Porque as bolinhas pretas e as cinco linhas são apenas ferramentas para a produção da beleza musical. A experiência da beleza tem que vir antes.” (Rubem Alves) No dia 22 de novembro, celebramos o Dia da Música, dos Músicos e também o Dia de Santa Cecília, conhecida como a padroeira dos músicos. Por isso aproveitamos a data para conversarmos sobre o efeito transformador da música na vida da criança. A música é a mais completa das artes, e sua linguagem vem sendo apontada, por especialistas de todo o mundo, como uma das áreas do conhecimento mais importantes a serem estudadas no desenvolvimento da criança. Segundo o psicopedagogo, arte-educador e mestre em educação João Beauclair, “A música não é só uma questão de interferência na educação da criança, é uma necessidade, que deve ter espaço consagrado e rotineiro, por possibilitar a melhoria da sensibilidade, beneficiar os processos de aquisição da leitura e da escrita, e auxiliar na melhoria da capacidade de memorização e de raciocínio”. Musicalizar uma criança é despertá-la para esse universo rico que a música é capaz de proporcionar. Por meio das cantigas de ninar, de roda, brinquedos e histórias cantadas, exploração dos sons do ambiente e de instrumentos da bandinha rítmica, estimulamos habilidades como a socialização, afetividade, concentração, coordenação motora, desenvolvimento da fala e vocabulário pelo canto, memória, acuidade auditiva, pela qual ela aprende a apreciar os diversos sons que estão à sua volta, criatividade, raciocínio lógico, entre tantas outras mais específicas. Quando colocamos a criança em contato com diferentes gêneros musicais, despertamos nela emoções diversas que podem ir da gargalhada às lágrimas. Também percebemos variações em sua expressividade corporal, como movimentos delicados e até mesmo mais brutos. Essa exposição a diversos estilos musicais, além de promover contato com outras culturas, é uma excelente forma de estimular seu campo cerebral. Como afirmou Teca Alencar de Brito, educadora musical, doutora e mestra em Comunicação e Semiótica, “A educação musical não deve visar à formação de possíveis músicos do amanhã, mas sim à formação integral das crianças de hoje”. Por isso devemos trabalhar com a música de uma forma que esta influencie no desenvolvimento global das crianças, fazendo com que elas se interessem por música, pelos vários gêneros musicais, pelas diferentes culturas. O objetivo é formar crianças autônomas e críticas mediante a influência do trabalho musical realizado com elas. A música é uma arte completa, não necessariamente para formar músicos, mas por ser capaz de transformar crianças em seres humanos melhores, mais felizes, sensíveis, mais confiantes em si, além de proporcionar um enriquecimento cultural imenso! E viva a Música! Anna Paula Bruno Behrend, professora de Música do Colégio Imaculado Coração de Maria, Rio de Janeiro-RJ. _________
Participação e solidariedade marcam assembleia

Todos os anos, as missionárias servas do Espírito Santo se reúnem em assembleia para aprofundar o ser missionário, partilhar e avaliar como estão vivendo a missão e crescer no benquerer e na comunhão. Neste ano, de 14 a 17 de novembro, elas se reuniram no Centro Missionário Cultural Santíssima Trindade, em São Paulo-SP, com essa finalidade. Encontraram-se as irmãs das comunidades do Tocantins, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, num total de 59 participantes presenciais. As que não podiam viajar se uniram às outras pela oração. A Parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37) perpassou todas as atividades e serviu de inspiração para as principais decisões da assembleia. O primeiro dia foi dedicado à formação, convivência e aprofundamento do texto bíblico. Marcou a jornada a celebração eucarística presidida pelo padre Lucas Herkt, missionário do Verbo Divino. Para enriquecer a reflexão do Evangelho, as irmãs Maria de Fátima Marques e Heloise Matos, com o coordenador da Dimensão Missionária, Agostinho Travençolo, utilizaram dinâmicas de bibliodrama. Uma das irmãs representou o homem da parábola, agredido por bandidos. Todas foram convidadas a fazer a experiência de estar no lugar do sacerdote que viu o sofredor e não fez nada, do levita, que também passou adiante, e do samaritano que cuidou do homem ferido. Depois, em grupos, refletiram sobre a atitude do personagem escolhido, confrontando com a própria vida. Depois, no ato penitencial, cada grupo apresentou seu pedido de perdão. À tarde, foi a liturgia eucarística. Em grupos, as irmãs prepararam as ofertas, refletindo sobre o amor que leva à solidariedade. Cada grupo esculpiu ou desenhou na areia o que queria ofertar e depois partilhou com a assembleia. Padre Lucas deu prosseguimento com o rito eucarístico. Tudo está interligado No momento da ação de graças, a assembleia expressou sua busca por alargar o círculo da comunhão com Deus, com a criação, com os marginalizados e excluídos, com os outros povos e culturas, e também entre as próprias irmãs. Para isso cantaram a música “Tudo está interligado”, composta pelo Pe. Cireneu Kuhn, inspirada na encíclica Laudato Si’. Com fitas coloridas, vivenciaram a união entre todas. Nos três dias seguintes, a assembleia seguiu a metodologia do “ver, julgar e agir”. Para o “ver”, foram apresentados os relatórios das entidades religiosa, educacional e social: Instituto Trinitas, SEB e Redes. Também as equipes de Espiritualidade, Missionários Leigos de Deus Uno e Trino, Animação Vocacional, Comunicação e Centro Missionário partilharam o que estão fazendo. Migrantes e indígenas Um destaque foi a participação de alguns leigos e leigas que fazem parte da missão. O Centro de Integração dos Migrantes relatou a abrangência do trabalho realizado e a necessidade de um espaço maior e mais adequado para o acolhimento das crianças. As irmãs que trabalham com o povo xerente, no Tocantins, expuseram os desafios que enfrentam. Também cada uma das comunidades partilhou como está vivendo a comunhão, suas atividades missionárias e perspectivas de futuro. Para o julgar, as irmãs se reuniram em grupos. Com base no estudo que fizeram nas comunidades, sobre justiça socioambiental e Psicologia na vida religiosa, destacaram a importância do cuidado com o meio ambiente, a solidariedade com os pobres e a busca de políticas públicas que respeitem a dignidade humana. Refletiram ainda sobre as atitudes que ajudam a crescer na comunhão, como o perdão, a justiça, a liberdade, o amor, o relacionamento, o desapego e a gratidão. Outro tema foi o discernimento comunitário em preparação à eleição da delegada que participará, junto com a coordenadora provincial, Ir. Maria Percila Vieira, do 15º Capítulo-Geral da Congregação, marcado para o próximo ano, na Holanda. Irmã Maria de Fátima Marques foi eleita a delegada. Irmã Maria Percila Vieira avalia: “Crescemos na comunhão entre nós, no benquerer, no respeito e, como somos de diferentes países, também na interculturalidade. Experimentamos que é possível conviver e respeitar o diferente”. Destacou que procuram fazer a diferença nos locais onde estão e viver seu ser missionário hoje, na realidade de Brasil. “Crescemos na solidariedade e estamos mais abertas aos excluídos e descartados pela sociedade. Junto com outras congregações, apoiando os grupos que precisam mais”, afirma Ir. Maria Percila. Segundo a coordenadora, ficou bem clara na assembleia a solidariedade com projetos concretos, especialmente com os migrantes e com os indígenas. Irmã Ana Elídia Caffer Neves, SSpSJornalista, membro da Equipe de Comunicação Congregacional e coordenadora de Comunicação da Província Stella Matutina (BRN) ________
O encontro que me fez escutar e proclamar (Mc 7,31-37)

O relato da cura do surdo gago (ler o texto Mc 7,31-37) está estrategicamente inserido logo após o diálogo de Jesus com a mulher siro-fenícia (Mc 7,24-30) e antes da segunda multiplicação dos pães (Mc 8,1-10). Provavelmente o autor quer mostrar aos leitores que é por meio de Jesus que os ouvidos dos gentios podem ser abertos à escuta da boa notícia divina, e suas línguas podem ser desatadas para proclamar a Palavra de Deus. A narrativa começa descrevendo uma interessante viagem, pois Jesus está indo de Tiro ao território que rodeia o mar da Galileia. Quer dizer que, de Tiro, no Norte, dirige-se à Galileia, no Sul. À primeira vista, parece uma travessia ilógica, entretanto pode ser que essa longa viagem seja proposital. O que permitiria a Jesus ter um tempo mais prolongado para preparar seus discípulos antes do fim iminente. A trama desenvolve-se na seguinte sequência: descrição do itinerário geográfico (v. 31); os mediadores apresentam o surdo gago e imploram a imposição das mãos (v. 32); Jesus de quem se espera que ponha a mão sobre o surdo; o ritual da cura (vv. 33-34); o efeito curativo do ritual (v. 35); o encargo por parte de Jesus e a reação do povo (vv. 36-37). É interessante, porém, que não é novidade que as personagens “mediadoras” sejam inominadas, pois isso ocorre também em outras passagens (Mc 1,32; 2,3; 6,55-56; 10,13-16). Compreende-se, portanto, que o interesse do autor, mais que destacar os mediadores, é evidenciar que o mal em questão é de caráter coletivo. Quer dizer, a enfermidade desse homem está afetando todo o grupo. Portanto mediar é uma disposição de buscar o bem da comunidade. Anteriormente dizemos que esse percurso foi um tempo de instrução aos discípulos, por isso chama nossa atenção que, subitamente, eles desaparecem da trama. É provável que sua ausência queira expressar uma atitude de incompreensão com seu mestre. Os discípulos reaparecem no texto quando Jesus os chama (cf. Mc 8,1). Por sua vez, o enfermo encontra-se numa situação de passividade e isolamento, pois nem recebe, nem comunica. A condição de surdez e gagueira o priva da palavra. Dessa forma, ele está condenado às margens da história de uma vida recriada por Deus. Se bem que o verbo μογιλάλον não indica surdez, mas sim dificuldade para falar. Provavelmente isso seja indício de que nem sempre ele foi surdo. Algo deve ter acontecido em sua vida que o tornara surdo. Vivemos numa sociedade global, em que as mídias sociais têm atingido amplos níveis, encurtando distâncias. Porém, nesse novo cenário, a visão das pessoas se ofusca ante a vastidão de informação. Além disso, quando as mídias estão atreladas ao sistema hegemônico, distorcem a informação para garantir domínio do sistema. A consequência é que quase não mais conseguimos distinguir o bem do mal. De alguma forma, ficamos surdos e gagos. Quase ninguém mais escuta os gritos dos pobres; dos que têm fome; dos que são injustiçados, escravizados; o grito das crianças e mulheres violentadas; o grito da terra e da natureza explorada. Para contrariar esse sistema de morte, é imperativo que se abram nossos ouvidos e se solte nossa língua. É mister ser curados por Jesus para recuperar o poder da palavra. No Oriente Antigo, a palavra tinha um poder que chegava a repercutir nas realidades das coisas da vida. Era como se tivesse uma força de destruição e uma força de vida. Isso nos ajuda a compreender o que os evangelhos querem dizer quando neles se indicam a força e a eficácia que tinha a palavra de Jesus. Em Jesus, o dizer e o fazer se identificavam e se fundiam de tal forma e tal extremo que o que Ele dizia e o que fazia dava vida e libertava as pessoas de seus males. A unidade da palavra e da ação consiste em que Jesus mesmo é a “Palavra de Deus” (Jo 1,1). Em Jesus Deus se expressa e se dá a conhecer. Por isso nele se manifesta a força de vida, de saúde, de plenitude da existência. “Colocou os dedos nas orelhas dele e, com a saliva, tocou-lhe a língua. Depois, levantando os olhos para o céu, gemeu e disse: ‘Effatha’, que quer dizer ‘Abre-te!’” (vv. 33-34). O gesto de Jesus, segundo alguns estudiosos, é ritual simbolizando o processo de cura do surdo gago. As ações realizadas por Jesus (Ele o levou à parte, colocou os dedos nas orelhas, com saliva lhe tocou a língua, levantou olhos ao céu, gemeu e falou) devem ser compreendidas no marco bíblico e sociocultural da época. A expressão idiomática “a sós” ocorre frequentemente em Marcos, em cenas nas quais os discípulos estão a sós com Jesus (cf. Mc 4,34; 6,31-32; 9,2-28; 13,3). Nesse trecho, é a única vez que essa expressão é usada com outra pessoa. Naquela época, atribuía-se poder curativo à saliva, sobretudo a saliva das pessoas influentes. Por isso, cuspir nas partes enfermas era algo comum naquela época. O gesto de levantar os olhos é realizado quando Jesus quer estabelecer um diálogo com o Pai (Mc 6,41). O gemido é sinal de quem está em profunda oração. Além dos gestos, Jesus pronuncia uma palavra “Effatha”, que o autor traduz como “Que se abra”. Pelo fato de o verbo aramaico effatha estar no singular, acredita-se que a expressão esteja dirigida à totalidade do homem e não somente aos órgãos da palavra e audição. A expressão “e falava corretamente” confirma a inserção dele no grupo com o qual se poderia comunicar. Porém, agora que o homem podia se comunicar, Jesus pediu às testemunhas não falar. Porém eles, ao invés de calarem-se, apregoam maravilhas que Jesus realizava: “Ele fez tudo bem…”. Nessa afirmação, encontra-se o reconhecimento do cumprimento da profecia anunciada em Isaías 35,5. O interessante é que, nesta ocasião, a proclamação é feita pelos gentios e não pelo povo da Aliança. Dessa forma, Marcos dá um giro ao exclusivismo isaiano. A difusão da boa notícia sobre Jesus não é exclusividade de um grupo seleto e não pode ser contida; ela
À Luz do Evangelho Dominical

Já estamos no 33º Domingo do Tempo Comum. No vídeo produzido pela Verbo Filmes, o Pe. Raimundo da Silva, CRL, da equipe do Centro Bíblico Verbo, fala sobre o trecho do Evangelho de Lucas (21,5-19), destacado na liturgia deste penúltimo domingo do ano litúrgico. A passagem relata a revolta de Jesus contra as arbitrariedades cometidas no Templo de Jerusalém. A imponência do lugar, em vez de revelar, esconde o verdadeiro rosto de Deus. Diante desse cenário, o Senhor afirma que tudo será destruído. Jesus não nos quer amedrontar, mas avisar que o mundo passará por uma grande mudança: do reinado dos homens para o reinado de Deus. E essa transição exigirá muita coragem, pois não será nada fácil. As tribulações advindas do fim de estruturas de privilégios serão sinais de que o Reino de Deus se aproxima. Jesus nos chama a confiarmos nele e promete que a vida prevalecerá. Nestes nossos tempos, é urgente que assumamos logo um mundo novo, marcado pelo amor. Assista ao vídeo!
“Estive preso, e fostes me visitar” (Mt 25,36)

Irmã Helena Suzana Christo optou pela missão com os encarcerados. Desde 2014, dá cursos de “Fundamentos de Perdão e Justiça Restaurativa” para os presos, em parceria com a Pastoral Carcerária e o Centro de Direitos Humanos de Campo Limpo, o Cedhep. Nos últimos anos, a formação está sendo oferecida no presídio de Parelheiros, na Zona Sul de São Paulo-SP. “O curso exige muita disponibilidade, sem preocupação com resultados”, conta Ir. Helena, convencida de que vale a pena. “São seres humanos que precisam ser ouvidos e enxergados”, explica. Como missionária serva do Espírito Santo, ela se sente gratificada. “Nossa missão é estar com as pessoas mais excluídas, e esse é um grupo totalmente esquecido e desprezado pela sociedade”, justifica. Neste semestre, ela e a missionária leiga Miriam Bernadete de Souza já deram dois cursos de 40 horas. A formação, segundo Ir. Helena, é uma boa didática de recuperação. Cada vez, são 20 homens que participam, a maioria jovem. O conteúdo sobre perdão e justiça restaurativa ajuda a trabalhar o que aconteceu com eles, tanto como vítimas de uma sociedade excludente, mas também como agressores. “Muitos afirmam que, se tivessem feito o curso antes, teriam evitado alguns erros”, comenta ela. As dinâmicas dão oportunidade de se verem, trabalharem os sentimentos, adquirirem autoconhecimento e tomarem consciência para assumir o que fizeram. Eles mesmos dizem que a Justiça, do jeito que é, não o favorece, mas o curso ajuda, especialmente em relação ao perdão. Quando conseguem perdoar, algo se transforma dentro deles e, com isso, conseguem ir se trabalhando. “Se a justiça punitiva realmente resolvesse o problema, não teria tanta gente que volta ao presídio”, desabafa Ir. Helena. Ela está convencida de que o sistema carcerário como está estruturado não favorece a recuperação nem a reinserção na sociedade. A justiça restaurativa, por outro lado, dá oportunidade para o agressor se responsabilizar pelo que fez e, junto com a pessoa que sofreu o dano e a própria comunidade, buscar uma forma de reparar o mal que cometeu. Quando os presos entendem a diferença entre a justiça punitiva e a restaurativa, surge uma nova perspectiva para eles. Prova disso é que não perdem o curso e participam com gosto. Irmã Helena conta que sempre há uma fila de espera e, se houvesse mais gente para dar a formação, mais presos poderiam ser atendidos. Nova possibilidade A missionária leiga Miriam teve seu irmão assassinado e diz que até hoje ninguém sabe bem o motivo do crime. Apesar disso, sente-se feliz em participar da Pastoral Carcerária e estar junto com os presos. Ela afirma que, quando vai ao presídio, nem pensa nisso, porque, para quem matou seu irmão, “faltava Deus no coração, faltava uma formação melhor, um acolhimento da sociedade…”. Ela partilha sua experiência: “Para mim, o trabalho no presídio é uma experiência espiritual, de viver o Evangelho com aqueles que estão à margem da sociedade. Fico imaginando Jesus Cristo entrando naquele lugar. Como ele se relacionaria com todos aqueles 1600 homens que vivem ali? O desemprego, o racismo, a droga, o tráfico são fatores causadores dessa situação. Não vejo quem está lá dentro como responsável total; a sociedade tem uma grande parcela de contribuição para levar essas pessoas para lá. Quando trabalhamos o perdão, o autoperdão, a reconciliação, a revisão de vida, é muito importante para eles se verem diante de sua realidade, de sua fragilidade e descobrirem uma nova possibilidade. Eles se sensibilizam e acreditam que há uma chance de mudança. Pelo lado do Evangelho, vejo que precisaria haver mais agentes de pastoral com esse povo. A maioria dos cristãos consideram aquelas pessoas violentas, perigosas e não querem nem chegar perto. O Evangelho não prega isso. Se Jesus estivesse aqui, tenho certeza de que muitas cadeias já não existiriam mais. Sinto-me feliz em doar a minha vida, principalmente dentro do presídio, porque é um caminho para mostrar que existe outra possibilidade, não só o crime. Para mim, é mais que um trabalho social, é um trabalho evangélico, que me realiza e me torna uma pessoa mais útil para a sociedade e para a Igreja.” E o que dizem os presos? Aqui relatamos alguns breves depoimentos, sem dizer os nomes: “Queria que todos os juízes enxergassem dessa forma que o curso passou e que, em vez de pegar uma pessoa e abandonar atrás das grades, pudesse usar dessa técnica da justiça restaurativa. Se tivessem feito isso comigo e com outras pessoas, creio que teriam salvado muitas pessoas de ter voltado um dia para este lugar.” “Comecei a enxergar que a vida é bonita e que, me perdoando, como aprendi, consigo agora levar uma vida em paz, com harmonia. Quero reconstruir minha vida quando eu sair.” “Hoje, aos 43 anos, enxergo as coisas muito diferente. O curso me mostrou o que a vida não ensina. Só depois de muito errar é que se aprende a importância de ser bom e de fazer o bem.” Irmã Ana Elídia Caffer Neves, SSpSJornalista, membro da Equipe de Comunicação Congregacional e coordenadora de Comunicação da Província Stella Matutina (BRN)
Gentileza: crianças enviam cartas para idosos

Consideradas um dos meios de comunicação mais antigos do mundo, as cartas perduraram como principal veículo de informações a distância por muitos séculos. Entretanto, a chegada do telefone, em 1870, provocou mudanças na cultura da escrita de cartas, mesmo que continuassem a contribuir para que as pessoas se comunicassem e expressassem seus sentimentos, desejos, projetos e desabafos. No entanto, no século XXI, com a internet e a divulgação das redes sociais, o que era escrito em folhas de papel passou a ser digitalizado em telas dos smartphones, tablets e computadores, e as pessoas que viveram grande parte de suas vidas fora da Era Digital e hoje moram em lares de idosos viram-se, muitas vezes, impedidas de escrever e receber cartas, aumentando, por exemplo, a solidão e sensação de abandono. Assim, a Prefeitura de Belo Horizonte-MG, em parceria com o Movimento Gentileza, lançou, no dia 22 de outubro, o projeto “Cartas para você”. O objetivo é promover um intercâmbio geracional entre crianças, jovens e idosos, além de permitir o desenvolvimento de um elo afetivo por meio de cartas manuscritas. O Colégio Sagrado Coração foi convidado a participar da iniciativa, representando as escolas privadas de Belo Horizonte. Assim, 413 crianças e adolescentes dedicaram um tempo para escrever uma carta para uma idosa ou idoso, compartilhando histórias, sentimentos e sonhos. As mensagens, por sua vez, foram entregues pelos correios, reacendendo nos idosos residentes em 28 lares da capital mineira as memórias dos tempos em que as cartas eram esperadas ansiosamente, pois traziam notícias de pessoas amadas e que viviam longe. Cerimônia de lançamento Os alunos Maria Luiza Vanucci Ferreira, Rafaela Andrade Alves, Nicole Cunha Ribeiro e João Freire Villela participaram da cerimônia de lançamento do projeto, no salão nobre da Prefeitura. “Abro meu coração quando escrevo uma carta”, revelou a aluna Maria Luiza, em depoimento ao Jornal Estado de Minas. Em paralelo a esse depoimento, recordarmos um dos pensamentos de Madre Josefa, uma das fundadoras da Congregação da Missionárias Servas do Espírito Santo que norteia a filosofia dos colégios: “Nossa missão é abrir os corações ao amor”. Com isso, esperamos que as cartas levem ânimo, alegria e carinho aos corações dos idosos e idosas dos 28 lares, como os residentes do Lar Nossa Senhora da Saúde. Assim nos escreveu a assistente social Juliana Moreira: “Recebemos as cartas aqui no lar, e os idosos adoraram. Ficaram muito felizes e interessados ao abrir a carta e poder ter contato com essas crianças maravilhosas do Colégio Coração de Jesus, do 6º ano”. Escrever uma carta é um gesto significativo de gentileza, mas existem muitos outros. Nossos alunos fizeram a parte deles. Agora é sua vez de também espalhar gentileza, cumprindo o que Madre Josefa nos deixou como legado: “Abrir os corações ao amor”! Simone Fortunato NunesCoordenadora da Pastoral Missionáriado Colégio Sagrado Coração de Jesus ________ Assista ao vídeo publicado pelo Jornal Minas:
Mês Missionário Extraordinário: desafio agora é manter viva a chama

Dioceses, paróquias, congregações e outras comunidades católicas de todo o mundo continuam a apurar os frutos do Mês Missionário Extraordinário, celebrado em outubro deste ano, depois de convocação do Papa Francisco. A proposta foi recordar os cem anos da Carta Apostólica “Maximum illud”, publicada pelo Papa Bento XV, que tratava da atividade desenvolvida pelos missionários no mundo, e reforçar o dever que todo cristão tem de anunciar Cristo. Com o tema central “Batizados e enviados: a Igreja de Cristo e missão no mundo”, o Mês Extraordinário Missionário não se tratou de uma mera estratégia de propaganda. A intenção era de incentivar que cada batizado pudesse primeiramente experimentar um novo e apaixonado encontro com Jesus, para só então transmitir a Boa-Nova aos outros. Ações foram desenvolvidas em todos os continentes. Em alguns lugares, no Brasil e no exterior, falou-se em “Ano Extraordinário Missionário”, pois as reflexões e atividades ocorreram ao longo de meses. A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) ainda faz um balanço das ações, mas Dom Odelir José Magri, presidente da Comissão Episcopal para a Animação Missionária e Cooperação Intereclesial, adianta que a iniciativa foi bem-sucedida. Para ele, o Mês Missionário foi abraçado pelas dioceses, paróquias e comunidades do País e ajudou a aumentar a consciência missionária na Igreja. Em saída Falou-se, mais do que nunca, em “Igreja em saída”. A expressão foi usada pelo Papa Francisco na Exortação Apostólica “Evangelii gaudium”, publicada em 2013, mesmo ano em que assumiu a cadeira de Pedro. Diferentemente do que logo se possa pensar, a expressão vai muito além do ir de porta em porta realizando atividades pastorais. Cada batizado é representante legítimo da Igreja, parte de seu corpo. Por isso, agir como Jesus, seja em qualquer lugar, é um importante modo de evangelizar, de ser Igreja. Pais e mães de família, trabalhadores, jovens, mulheres, idosos e mesmo as crianças podem anunciar Cristo por onde passam, tanto em palavras, quanto e principalmente em atitudes. As ações organizadas de evangelização, contudo, têm papel importante. Ao longo do Mês Missionário Extraordinário, diversos grupos visitaram famílias, comunidades carentes, hospitais, escolas, presídios e até empresas para conhecer as diferentes realidades e levar a mensagem cristã. O mesmo ocorreu nas comunidades animadas pelas missionárias servas do Espírito Santo e por outros ramos da Família Arnaldina. A preocupação agora, segundo Dom Odelir, é manter vivo o fogo aceso no Mês Missionário. Discípulo com os discípulos Na homilia proferida na missa pelo Dia das Missões, em 20 de outubro, o Papa Francisco recordou o mandado de Jesus de fazer discípulos. “Mas, atenção! Discípulos dele, não nossos. A Igreja só anuncia bem se viver como discípula. E o discípulo segue dia a dia o Mestre e partilha com os outros a alegria do discipulado”, advertiu. O Santo Padre também disse que fazer discípulos não é conquistar, obrigar, fazer prosélitos. Para ele, deve-se colocar ao mesmo nível, discípulo com os discípulos, oferecendo amorosamente o amor recebido de Deus. “Esta é a missão: oferecer ar puro, de alta quota, a quem vive imerso na poluição do mundo; levar à terra aquela paz que nos enche de alegria, sempre que encontramos Jesus no monte, na oração; mostrar, com a vida e mesmo com palavras, que Deus ama a todos e não se cansa jamais de ninguém”, declarou Francisco. O Santo Padre, recordando a “Evangelii gaudium”, também pediu coragem aos fiéis: “Vá com amor ao encontro de todos, porque a sua vida é uma missão preciosa: não é um peso a suportar, mas um dom a oferecer. Coragem! Sem medo, vamos ao encontro de todos!”. Diácono Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor de Língua Portuguesa de aspirantes e verbitas estrangeiros na Província Brasil Norte, revisor de textos para as irmãs servas do Espírito Santo.
Jornada Mundial dos Pobres

“A esperança dos pobres jamais se frustrará” (Sl 9,19) é a inspiração bíblica para a III Jornada Mundial dos Pobres, que se realizará de 10 a 17 de novembro deste ano. Mas o que é essa jornada e o que ela pretende? O Papa Francisco, após o encerramento do Ano da Misericórdia, em 2016, teve a inspiração de convocar a Jornada Mundial dos Pobres para incentivar as comunidades cristãs e as pessoas de boa vontade a levarem esperança e conforto aos mais necessitados. A jornada é um convite à solidariedade humana e a ações concretas. Na mensagem divulgada pelo Papa, ele afirma que “A opção pelos últimos, por aqueles que a sociedade descarta e lança fora é uma escolha prioritária que os discípulos de Cristo são chamados a abraçar para não trair a credibilidade da Igreja e dar uma esperança concreta a tantos indefesos”. Apesar de todos os avanços tecnológicos que permitem a superação da escassez e a produção de alimentos suficientes para que ninguém passe fome, a pobreza ainda atinge inúmeras pessoas em grande parte de nosso país, pois a riqueza está concentrada em uma quantidade cada vez menor de pessoas. Aumento da pobreza no Brasil De acordo com os dados do Cadastro Único do Ministério da Cidadania, a pobreza extrema no Brasil aumentou e já atinge 13,2 milhões de pessoas. Nos últimos sete anos, mais de 500 mil pessoas entraram em situação de miséria. O Nordeste tem os piores índices, especialmente Piauí, Maranhão e Paraíba. Do ano passado para cá, a extrema pobreza vem aumentando em torno de 10,5% em Roraima e no Rio de Janeiro. No Distrito Federal, o total de famílias inscritas no Cadastro Único, até junho de 2019, era de 158.280, entre as quais 71.091 com renda familiar per capita de até R$ 89,00 por mês. O Brasil já tinha saído do Mapa da Fome em 2014, mas se a situação não melhorar, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) poderá incluí-lo novamente entre os países em que mais de 5% da população consome menos calorias do que o recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2016 e 2017, a pobreza no Brasil passou de 25,7% para 26,5% da população. O número dos extremamente pobres, aqueles que vivem com menos de R$ 140,00 mensais, saltou, no período, de 6,6% para 7,4% dos brasileiros. O que fazer diante disso? Quando a vida está ameaçada, é necessário buscar providências concretas, como dar comida a quem tem fome e ajudar a satisfazer as necessidades básicas, que garantam a sobrevivência. Isso é essencial, mas não o suficiente. Precisamos buscar caminhos para que as pessoas possam viver dignamente. Aí vem o papel das políticas públicas que, de acordo com o texto-base da Campanha da Fraternidade 2019, “São ações discutidas, aprovadas e programadas para que todos os cidadãos possam ter uma vida digna, além de serem soluções específicas para as necessidades e problemas da sociedade. É a ação do Estado que busca garantir a segurança, a ordem, o bem-estar, a dignidade por meio de ações baseadas no direito e na justiça”. O governo, de modo geral, não consegue atender às necessidades da população em extrema pobreza e nem sempre tem políticas públicas adequadas. Por isso inúmeras organizações não governamentais (ONG) e instituições religiosas buscam dar atendimento aos mais pobres. As missionárias servas do Espírito Santo, nos países onde atuamos e, de modo bem concreto, no Brasil, desenvolvemos diferentes projetos na linha da superação da pobreza, entre eles a manutenção de creches em bairros pobres, para que as mães possam trabalhar. Mas também atuamos em nível sistêmico em organizações como a Vivat Internacional e, recentemente, a Vivat Brasil, que tem como uma de suas metas a superação da pobreza. Mas cada pessoa pode fazer a sua parte e encontrar formas concretas de ajudar os pobres: “dando o peixe” quando a fome aperta e “ensinando a pescar”, para que a fome não volte. Combater as causas estruturais que geram a pobreza é o melhor caminho para que todos tenham uma vida digna. Irmã Ana Elídia Caffer Neves, SSpSJornalista, membro da Equipe de Comunicação Congregacional e coordenadora de Comunicação da Província Stella Matutina (BRN) _______