Criada Conferência Eclesial da Amazônia

Na segunda-feira, 29 de junho, a Igreja ganhou a Conferência Eclesial da Amazônia. O anúncio foi feito após dois dias de deliberações a distância, devido à pandemia do covid-19. O comunicado foi assinado por Dom Miguel Cabrejos Vidarte, presidente do Celam (Conselho Episcopal Latino-Americano), e pelo cardeal Cláudio Hummes, presidente da Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam) e eleito presidente da nova conferência. O novo órgão eclesial responde, como afirma a mensagem, à proposta dos padres sinodais, no Documento Final (DF) do Sínodo da Amazônia (realizado de 6 a 27 de outubro de 2019), pedindo um rosto amazônico da Igreja e a continuação da busca de novos caminhos para a missão evangelizadora (cf. DF 115). A necessidade foi reforçada pelo Papa Francisco na Exortação Apostólica Pós-Sinodal Querida Amazônia. A Conferência Eclesial Amazônica vai fomentar iniciativas de evangelização na área que abrange nove países da América Latina. A ideia é que o organismo aumente o intercâmbio e mobilidade de missão entre religiosos, leigos e padres dentro da mesma região, independentemente de cada país. “Nestes tempos difíceis e excepcionais para a humanidade, quando a pandemia do coronavírus afeta fortemente a região Pan-Amazônica, e as realidades de violência, exclusão e morte contra o bioma e os povos que o habitam clamam por uma conversão integral urgente e iminente, a Conferência Eclesial da Amazônia quer ser uma boa notícia e uma resposta oportuna aos gritos dos pobres e da irmã mãe Terra”, diz o texto. A nova Conferência Eclesial será formada por um bispo de cada país da Pan-Amazônia, com exceção do Brasil, que terá dois. Também farão parte representantes da Cáritas da América Latina e do Caribe, da Confederação Latino-Americana de Religiosos (CLAR) e da Repam, além de três representantes dos povos originários. Por ser um órgão oficial da Igreja, também será composto por autoridades vaticanas, como o secretário-geral do Sínodo dos Bispos, do prefeito da Congregação dos Bispos, do prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos e o subsecretário do Dicastério para o Serviço Integral de Desenvolvimento Humano. Veja a íntegra do comunicado no link abaixo: Com informações da CNBB e Vatican News.

Coronavírus: uma oportunidade

Estamos sob os impactos que o coronavírus trouxe. O mal atingiu todo mundo e o mundo todo. Ninguém, com o mínimo de sanidade, desejou que esse vírus aparecesse. Contudo a realidade está aí, e todos estamos envolvidos nesta tragédia, por um lado, mas também em grandes oportunidades, por outro. Ninguém ignora o mal que o vírus causou e está causando, mas ele nos obrigou a revermos muitas coisas em nossa vida. Descobrimos o quanto somos criativos para nos livrar de alguns efeitos deletérios que ele causou. Vejam-se, por exemplo, quantos gestos de solidariedade ocorreram. Quantas formas novas de comunicação e entreajuda! O vírus obrigou os governos a repensarem muito de suas políticas e projetos. Em nível de educação, com os alunos em casa, fazendo suas lições e descobrindo suas próprias capacidades, antes ignoradas ou pouco usadas. Deu oportunidade para cada um encontrar maneiras novas para preencher seu tempo. Em nível de convivência familiar, quantas vivências novas os pais fizeram estando com os filhos! Quantas renúncias tivemos de fazer e, apesar disso, continuamos vivos! Muitas coisas supérfluas, das quais antes não se abria mão, agora se vive sem elas, numa boa, como se diz. Em nível de relacionamentos, quantos jeitos novos de se comunicar e uma nova percepção da importância dos outros em nossa vida! Todos aprendemos que somos dependentes uns dos outros. Sentimos falta das pessoas mais próximas, com as quais ficamos temporariamente sem encontrar pessoalmente, mas nem por isso deixaram de participar e ser importantes para nós. O vírus nos obrigou a olhar para os rumos que a vida estava seguindo! Todos estamos fazendo uma experiência inédita; ninguém havia passado por isso. Todos sofremos com as ausências de tantas coisas que antes faziam parte de nosso cotidiano. Sair à hora que se quisesse, sem preocupação de se ter uma máscara em mãos; de ir ao supermercado sem ninguém à porta orientando as entradas; de comprar nas lojas sem observar distanciamentos. De ir às igrejas e participar das celebrações. Quantas pessoas estão com saudades desses encontros da fé celebrada na comunidade cristã! Tudo isso nos diz que estamos num tempo diferente, não somos mais livres para fazer como antes. Agora somos obrigados a obedecer a condutas novas. O vírus virou o mundo de ponta-cabeça! Quer queiramos ou não, ele afetou o modo de viver de muitas maneiras. No aspecto econômico, tivemos de repensar como gastar o dinheiro. Aliás, quanta luta e desespero de muita gente para sobreviver, para conseguir os benefícios oferecidos pelo governo! Apesar do drama humano vivido por tantos, ficamos surpresos e indignados com a maldade de muitos que se aproveitam para enganar, roubar, fazer falcatruas para se beneficiar em cima do sofrimento alheio. Tivemos notícias de gente usando de artimanhas para se aproveitar do alheio, falsificando documentos, desviando recursos, superfaturando compras de respiradores, medicamentos, obras de emergência. O vírus está revelando as duas faces humanas. Uma da solidariedade e do compromisso com a vida e com a dor e sofrimento das pessoas; a outra, da maldade, que explora e aumenta o sofrimento sobretudo dos mais carentes. Eis uma oportunidade de as pessoas mostrarem se têm ou não caráter, se são do bem ou do mal, se são ou não humanas! Ninguém vai sair dessa experiência igual ao que era antes. Todos fomos afetados por ela. Depois que ela passar, vamos medir melhor as consequências as quais agora ainda não sabemos avaliar. A grande maioria espera que o mundo seja diferente. Para melhor ou pior? Ainda não sabemos, tomara que seja para melhor! Aliás, esse desejo está presente naqueles que já se convenceram de que vão ser diferentes, porque aprenderam, com a experiência, aquilo que é essencial à vida e aquilo que é relativo. Nesse sentido o vírus nos trouxe uma oportunidade de viver de um modo diferente, mais solidário e mais humano. Pensando bem, então, apesar do mal que o coronavírus provocou, trouxe também algum bem. Às vezes, é preciso que a morte nos ameace para aprendermos a cuidar melhor da vida! É preciso que alguém morra para se dar o valor que a vida tem. A “morte e ressurreição” continuam indicando o “caminho” e as opções que cada um pode escolher. Ninguém sai neutro desta pandemia. Se assim é, então aproveitemos a oportunidade de novos aprendizados, permitindo que a vida continue com um sentido mais profundo nos novos horizontes que estão se abrindo. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

Solenidade de São Pedro e São Paulo: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”

Neste domingo, a Igreja celebra a solenidade de dois grandes apóstolos, Pedro e Paulo: este, grande evangelizador dos pagãos ou gentios; aquele, de seu próprio povo. Como evangelho do dia, escolheu-se a história do caminho de Cesareia de Filipe (Mt 16,13-19). O relato mais antigo está no Evangelho de Marcos (8,27-38), o qual se tornou o pivô de todo o Evangelho. A estrutura de Mateus é diferente, mas o relato tem a mesma finalidade, ou seja, ajudar os ouvintes e leitores a clarificarem quem é Jesus e o que significa ser discípulo ou discípula dele. A pedagogia do relato é interessante. Primeiro, Jesus faz uma pergunta bastante inócua: “Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?”. Assim, vem muita resposta, pois responder a essa pergunta não compromete, pois é o “dizem que”. Mas a segunda pergunta traz a “facada”: “E vocês, quem dizem que eu sou?”. Agora não vêm muitas respostas, pois quem responde em nome pessoal, e não dos outros, compromete-se. Somente Pedro se arrisca e proclama a verdade sobre Jesus: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Aparentemente Pedro acertou, e realmente, em Mateus, Jesus confirma a verdade do que proclamou. Afirmou que foi por meio de uma revelação do Pai que Pedro fez sua profissão de fé. Mas, para que entendamos bem o trecho, é necessário que continuemos a leitura, pelo menos, até o versículo 25. Pois o assunto é mais complicado do que possa parecer. Após afirmar, pois, que Pedro tinha falado a verdade, Jesus logo explica o que significa ser o Messias (ou, em grego, o Cristo). Não era ser glorioso, triunfante e poderoso, conforme os critérios deste mundo. Muito pelo contrário: era ser fiel à sua vocação como Servo de Javé, era ser preso, torturado e assassinado, era dar a vida em favor de muitos. Jesus confirmou que ele era o Messias, mas não da maneira que Pedro esperava e queria. Ele, conforme as expectativas do povo de seu tempo, queria um Messias forte e dominador, não um que pudesse ir, e levar seus seguidores também, até a Cruz! Por isso Pedro reluta com Jesus, pedindo que nada disso acontecesse. Como recompensa, ganha uma das frases mais duras da Bíblia: “Afaste-se de mim, Satanás, você é uma pedra de tropeço para mim, pois não pensa as coisas de Deus, mas dos homens!” (v. 23). Pedro, cuja proclamação de fé mereceu ser chamada a pedra fundamental da Igreja (v. 18), é agora chamado de Satanás (o Tentador por excelência) e “pedra de tropeço” para Jesus. Pedro usava o título certo, mas tinha a compreensão errada! Usando os nossos termos de hoje, de uma forma um tanto anacrônica, podemos dizer que ele tinha ortodoxia, mas não ortopraxis. Assim, Jesus usa o equívoco de Pedro para explicar o que significa ser seguidor dele: “Se alguém quer me seguir, renuncie a se mesmo, tome sua cruz, e siga-me” (v. 24). Ter fé em Jesus não é, em primeiro lugar, um exercício intelectual ou teológico, mas uma prática, o seguimento dele, na construção de seu projeto, até as últimas consequências. Hoje, enquanto celebramos os nossos dois grandes missionários, a pergunta de Jesus ressoa forte (a segunda pergunta). Para nós, quem é Jesus? Não para o Catecismo, não para o Papa ou o bispo, mas para cada de nós, pessoalmente. No fundo, a resposta se dá não com palavras, mas pela maneira em que vivemos e nos comprometemos com o projeto de Jesus; Ele que veio para que todos tivessem a vida e a vida plenamente (Jo 10,10). Cuidemos para que não caiamos na tentação do equívoco de Pedro, a de usar termos corretos, mas com a compreensão errada. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Covid-19: socorro aos mais vulneráveis é luz em meio à tragédia

A pandemia causada pelo covid-19 aterroriza o mundo inteiro. As vítimas são contadas em centenas de milhares. A economia de muitos países sofre fortes golpes, e as relações sociais estão sendo transformadas como nunca. Não foi poupada nem a própria religião, com suas teologias, dogmas, métodos. Vai demorar muito tempo para que todas as lições advindas do fenômeno sejam assimiladas por esta e as futuras gerações. A doença deixou às claras ou mesmo acentuou muitos problemas sociais, ambientais, científicos, econômicos, espirituais que já existiam e, por ignorância ou má-fé, eram omitidos. No início, pensava-se que o vírus seria “democrático”. Todos corriam o mesmo risco de serem contaminados e de se tornarem vítimas. Aos poucos, contudo, as estatísticas mostram que as populações mais pobres, os excluídos, as minorias são os mais vulneráveis. Sem acesso pleno a políticas públicas de saúde, moradia, emprego, educação, alargam o subnotificado índice de atingidos. Entre os mais frágeis está o povo em situação de rua. Muitos sequer foram informados da gravidade da pandemia, como se queixou um homem que dormia sob uma marquise, em Belo Horizonte-MG. Ele reclamou que agentes de segurança chegaram e deram ordem para que ele e os companheiros não se aglomerassem, porém não lhes disseram o motivo. “Não sei o que fazer”, protestou. Nem tudo, porém, são trevas neste cenário de caos. Várias iniciativas de apoio à população mais vulnerável se destacam. Algumas já o fazem há muito tempo, outras surgiram como resposta aos danos causados pelo covid-19. Conheça três desses projetos. Rede Rua Em São Paulo-SP, a Rede Rua participa da ação “S.O.S. povo da rua contra o covid-19”, que envolve outras organizações. Numa das atividades, realizada no início de junho, foram distribuídos às famílias da região do Brás 46 cestas básicas, kits de higiene, máscaras e sabonetes. Os atendidos foram os que se encontram em situação de rua ou em ocupações. A equipe da Rede Rua acompanhou cada caso e redirecionou os alimentos aos que têm espaço para cozinha. A prioridade foi dada a mulheres chefes de família, desempregados e pessoas que ainda não tiveram acesso ao benefício emergencial, precariamente concedido pelo governo federal. A iniciativa não se reduziu apenas à entrega de donativos. Os agentes também deram dicas de como se proteger do covid-19 e organizaram atividades de recreação. A rua também é memória Na segunda-feira, 22, a ação de apoio foi com as pessoas que vivem debaixo do Viaduto Governador Roberto Abreu Sodré. No local, há uma comunidade de coletores de materiais recicláveis. Apesar de contribuírem para o desenvolvimento econômico e sustentável da maior metrópole da América do Sul, não são reconhecidos como trabalhadores. Não têm direitos e lutam cotidianamente pela sobrevivência. Eles receberam dos agentes 11 cestas de alimentos e produtos de limpeza. O viaduto em si já diz muito sobre a realidade da população pobre e injustiçada. A via é batizada com o nome de um dos políticos eleitos indiretamente à época da ditatura civil-militar (1964-1985). “Pode parecer bobagem, mas nomes de ruas e monumentos carregam uma carga de preconceito e desumanidade, a rua também é monumento, a rua também é memória”, diz uma nota do movimento. “A dor mais profunda da pessoa de rua é ter o olhar furtivo, evitado, não ser visto. Penso que o primeiro passo é este: dar visibilidade, dizer que são importantes”, afirma a irmã Maria Inês, missionária serva do Espírito Santo e membro da diretoria da Rede Rua. Alta demanda faz Inova pedir socorro Também em São Paulo, o Instituto Novos Valores (Inova) é especializado em atender famílias em situação de vulnerabilidade social e em conflitos. A obra existe há dois anos e está localizada na Vila Nova das Belezas, na Região do Campo Limpo, extremo sul da capital paulista. Normalmente, o Inova acompanha 300 famílias cadastradas, as quais recebem cestas básicas, material de limpeza e higiene pessoal. O socorro, contudo, começa a ser insuficiente para atender a uma demanda cada vez maior. Rosita da Cruz, que é assistente social e presidente da entidade, afirma que mais de 500 famílias foram socorridas entre os dias 26 e 29 de maio, em parceria com a organização não governamental Banco de Alimentos. Rosita assinou um comunicado, pedindo doações de cestas básicas e de outros itens de que as famílias necessitam. Ela relata que, até o dia 23 de junho, não houve resposta, nem mesmo do Poder Público. A diretora afirma que toda contribuição é bem-vinda. “Não vamos permitir que nenhuma família fique sem o alimento de cada dia”, convoca. No fim desta reportagem, veja como doar. Canto da Rua Emergencial Em Belo Horizonte, foi organizado o Canto da Rua Emergencial, um conjunto de ações de garantia e defesa dos direitos da população em situação de rua e dos catadores de materiais recicláveis. A iniciativa, prevista para durar dois meses, foi inaugurada em 13 de junho. Atende pessoas da capital mineira e de outros municípios da região metropolitana. Segundo dados do CadÚnico, em fevereiro deste ano, a capital mineira tinha 9.060 pessoas vivendo nas ruas. Já se sabe que, como ocorre na maior parte do Brasil, esse número tem aumentado rapidamente. Além de não terem onde se abrigar, essas pessoas são vítimas de várias violações de direitos, entre elas o pouco acesso a políticas públicas. O Canto da Rua Emergencial é uma parceria da Pastoral de Rua da Arquidiocese de Belo Horizonte e do Instituto Unibanco. O projeto envolve também outras entidades dos setores público e privado, como Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, Vicariato para a Ação Social, Política e Ambiental, Movimento Nacional da População de Rua, Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), Faculdade Arnaldo, Arcelor Mittal, Fiat Automóveis, Localiza, Transforma BH, Inaper e Colégio Santo Antônio. Cada uma, à sua maneira, busca fazer sua parte para dar suporte aos socorridos. Entre as ações está a articulação de um espaço, organizado na histórica e emblemática Serraria Souza Pinto, localizada no Centro da capital, onde os destinatários são acolhidos. No lugar, há serviços de escuta, alimentação, higiene pessoal e encaminhamentos diversos, como saúde

Resposta ao “Perseverança On-Line” surpreende professor

O professor Max de Oliveira Faria, do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP, apresenta a “Perseverança On-Line”. A proposta busca não deixar esfriar a fé de crianças e adolescentes e valoriza o encontro entre alunos e professores. Max recorda que todos têm necessidade do outro, desejo da companhia, assim surgiu o desejo de, no ambiente virtual, suprir essa demanda. “Estamos vivendo tempos de mudanças e renovações, dentro e fora de nossas casas, dentro e fora dos nossos corações, quando toda a sociedade foi ‘convidada’ a valorizar e explorar novos espaços, por isso não tivemos dúvidas em iniciar a ‘Perseverança On-Line’”, explica Max, que leciona Ensino Religioso e é responsável pelo grupo da Perseverança. A calorosa acolhida da ação surpreendeu o professor. “Quando fizemos a proposta desse formato, esperávamos alguma resistência por conta da demanda que hoje nossos alunos tiveram de assumir, porém, logo que receberam o convite, percebemos a alegria em cada mensagem de resposta, pois o reencontrar quem amamos é motivo de muita alegria”, conta.No primeiro encontro da “Perseverança On-Line”, foi pedido que os alunos apresentassem um símbolo que representasse a alegria e a esperança. “Ficamos impressionados com as partilhas e depoimentos, pois todos os alunos reconheceram na família, na escola e nos momentos com os amigos como os mais significativos e importantes, e já estavam morrendo de saudades”, relata Max. Ao fim do encontro, o professor confessa que percebeu a importância que os educadores e catequistas têm na vida de crianças e adolescentes. “Nós nos tornamos referências para boas práticas, ocupamos um espaço na vida deles que poucas profissões ocupariam, galgamos um lugar dentro da história e no coração desses jovens, mudamos perspectivas e os ajudamos na construção dos seus projetos de vida”, declara. “Nossa prática não se resume à sala de aula, mas vai além dos muros, dos conteúdos e avaliações. Somos responsáveis por regar sementes, descobrir tesouros e lapidar pedras preciosas.” O professor vê com esperança o futuro. “Tenho fé que sairemos deste momento transformados e com a certeza de que o melhor lugar do mundo é dentro de um coração amigo”, conclui. Assista ao vídeo que a turma do “Perseverança On-Line” preparou declamando o poema “Recomece” de Bráulio Bessa. Veja também a letra do poema. RECOMECE – Bráulio Bessa Quando a vida bater fortee sua alma sangrar,quando esse mundo pesadolhe ferir, lhe esmagar…É hora do recomeço.Recomece a LUTAR. Quando tudo for escuroe nada iluminar,quando tudo for incertoe você só duvidar…É hora do recomeço.Recomece a ACREDITAR. Quando a estrada for longae seu corpo fraquejar,quando não houver caminhonem um lugar pra chegar…É hora do recomeço.Recomece a CAMINHAR. Quando o mal for evidentee o amor se ocultar,quando o peito for vazio,quando o abraço faltar…É hora do recomeço.Recomece a AMAR. Quando você caire ninguém lhe aparar,quando a força do que é ruimconseguir lhe derrubar…É hora do recomeço.Recomece a LEVANTAR. Quando a falta de esperançadecidir lhe açoitar,se tudo que for realfor difícil suportar…É hora do recomeço.Recomece a SONHAR. Enfim, É preciso de um finalpra poder recomeçar,como é preciso cairpra poder se levantar.Nem sempre engatar a résignifica voltar. Remarque aquele encontro,reconquiste um amor,reúna quem lhe quer bem,reconforte um sofredor,reanime quem tá tristee reaprenda na dor. Recomece, se refaça,relembre o que foi bom,reconstrua cada sonho,redescubra algum dom,reaprenda quando errar,rebole quando dançar,e se um dia, lá na frente,a vida der uma ré,recupere sua fée RECOMECE novamente. Fonte: www.tudoepoema.com.br/braulio-bessa-recomece

“Não tenham medo!” (Mt 10,26-33)

Reflexão do Evangelho do 12º Domingo do Tempo Comum “Não tenham medo!” Essa orientação de Jesus ressoa três vezes neste curto trecho! Esse tipo de conselho indica que o contrário era realidade na comunidade para a qual o evangelho se dirigia. Como somente se toma remédio quando se tem uma doença, também somente se enfatiza tanto a mesma coisa quando é para combater um perigo na vida de uma comunidade. Então parece que o medo era um problema para os membros das comunidades mateanas. Medo de quê? O trecho que antecede o de hoje deixa bem claro. Nos versículos 16 a 25, Jesus fala das perseguições que seus discípulos terão de enfrentar. Inclui perseguição por parte do poder civil (“Entregarão vocês aos tribunais”), perseguição pela autoridade religiosa judaica (“Açoitarão vocês nas sinagogas deles”) e até perseguição e rejeição pelos membros das próprias famílias (“Irmão entregará à morte o próprio irmão; o pai entregará os filhos; os filhos se levantarão contra os pais e os matarão”). Quando Mateus escreve essas palavras, esse cenário já era conhecido no meio de suas comunidades. Pois, enquanto nos primeiros anos da Igreja, os cristãos eram tolerados dentro da comunidade dos judeus como uma seita não muito diferente das outras seitas judaicas, e eram, portanto, aceitos pelo Império Romano, que dava ao judaísmo o status de “religião lícita”, nos anos seguintes a 85, tudo mudou. Um grupo de rabinos fariseus, liderados pelos mestres Yohannan ben Zakkai e Gamaliel II tentava reerguer o judaísmo, sem Templo, sem sacerdócio, sem Jerusalém, ao redor da estrita observância da Lei. Era urgente reagrupar os judeus depois da destruição de Jerusalém e dar-lhes uma nova identidade. Para isso, aparecia-lhes necessário insistir na Lei, em sua interpretação farisaica. Assim, o “desvio” cristão parecia algo que poderia minar esse projeto, e os judeu-cristãos começaram a ser expulsos das sinagogas. Isso implicava ser rejeitados em sua identidade religiosa, familiar e cultural, e vistos como traidores por sua comunidade tradicional. Famílias se rachavam, e os judeus-cristãos eram denunciados pelos próprios familiares. Expulsos das sinagogas, não mais pertenciam a uma religião lícita e corriam o risco de serem perseguidos também pelo poder imperial. Como então não entrar em crise, ter medo? Mateus enfrenta o problema dando-lhes uma mística. Se assim aconteceu com o Mestre, como não acontecerá com o discípulo? A perseguição não era sinal de fracasso, mas de fidelidade no seguimento de Jesus. Por isso não deveriam ter medo, pois o Pai jamais iria abandoná-los. O grande perigo era deixar que o medo os paralisasse ou os levasse a mudar de opção de vida, escolhendo a aprovação humana em lugar da fidelidade do discipulado. Hoje, em geral, não somos perseguidos por causa de nossa religião, pelo menos enquanto limitamos a religião à esfera privada (na verdade, há mais cristãos perseguidos no mundo hoje do que nos tempos do Império Romano; outra realidade do que a do Brasil). O mundo nosso até aprova a religião como opção particular, uma vez que não tenha consequências sociais e econômicas. Mas persegue a religião que ousa tirar as conclusões práticas do seguimento de Jesus, que veio “para que todos tenham a vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Temos presenciado isso nas ameaças sofridas por líderes nossos, bispos, padres religiosos, religiosas, e leigos e leigas, especialmente no Norte do País. O mundo globalizado do neoliberalismo excludente, que prega o “evangelho” da competitividade e o paraíso do consumo, rejeita a religião que prega a justiça, a partilha, o cuidado dos mais fracos e indefesos, a solidariedade. Religião dentro do templo, sim, mas ai de quem procura concretizá-la na luta por terra, teto, salário, direitos humanos, etc. Por isso devemos levar a sério o que Jesus nos adverte quando diz “Não tenham medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma”. Devemos temer, sim, a tentação de nos conformarmos com as exigências duma sociedade egoísta e idolátrica, que ameaça matar a alma das Igrejas, deixando-as com seu “corpo” (templos, festas, honras, prédios, etc.), mas matando sua “alma” (a prática da opção evangélica pelos oprimidos). O Brasil também tem os seus mártires (e a lista é comprida), que deram a vida nas perseguições lançadas pelas ditaduras, latifundiários e elites. É sinal duma Igreja viva. Mas não é fácil manter-se firme diante das seduções da sociedade consumista, aliadas às ameaças dos detentores do poder. Assim soa atual a última advertência do trecho: “Quem me renegar diante dos homens, eu também renegarei diante do meu Pai”. Mas também deve nos animar para a luta e a coerência a frase anterior, “Quem der testemunho de mim diante dos homens, também eu darei testemunho dele diante do meu Pai”. Tanto o testemunho como a renegação normalmente não se fazem com a boca, mas com as opções concretas em favor dos oprimidos ou dos opressores, no nível individual e eclesial. Lembremo-nos do canto que tantas vezes cantávamos nas missas e encontros: “Não temais os que tudo deturpam pra não ver a justiça vencer; tende medo somente do medo de quem mente pra sobreviver”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

“Viva o coração de Jesus no coração de todas as pessoas”

Sou de uma pequena província do nordeste da Argentina, Missiones, que deve esse nome às missões jesuítas entre os guaranis. A região ainda é caracterizada por uma religiosidade muito profunda, expressa nas devoções e festividades do povo ao longo do ano. Desde a infância, lembro-me de ver, em muitas casas, uma pintura emoldurada da imagem do Sagrado Coração de Jesus. Na casa de minha bisavó paterna, essa imagem adornava uma parede pintada de azul claro, como se estivesse indicando a transparência do céu e refletida pelos que moravam naquela casa; eles eram muito religiosos. Quando vim para a África, especialmente quando trabalhava na Tanzânia, a imagem do Sagrado Coração de Jesus estava adornada com uma parede de barro, no interior de uma vila, ou em um belo gesso, em uma casa da cidade. Ainda mais para minha surpresa, encontrei a mesma imagem nos lares de irmãos e irmãs de outras denominações cristãs. Uma imagem muito doce de Jesus com o peito aberto, mostrando um coração ardente, saindo dele um raio de luz, perfurado por lanças, cercado por espinhos. Um coração que une e não se divide, um coração ecumênico, que reúne, numa grande família, aqueles que estão dispersos, o que leva a descobrir o outro não como inimigo, mas como irmão ou irmã. Que todos sejam um, esse foi um dos desejos e sonhos mais profundos de Jesus, antes de seu coração ser transpassado na cruz pela crueldade dos homens. O que o Coração de Jesus tem que tantas pessoas lhe prestam homenagem em várias culturas? Eu acho que uma das respostas para essa pergunta, e ainda mais no contexto global de pandemia que enfrentamos, é que a devoção proporciona conforto e incentiva a não perder a esperança, confiando em que sempre há uma saída, mesmo nas piores situações da vida. As dificuldades, desafios que tantas pessoas enfrentam no dia a dia, devido a dificuldades econômicas, problemas de saúde, deterioração dos relacionamentos familiares, isolamento, solidão e muitos outros, levam muitas pessoas a serem fascinadas e atraídas pelo Sagrado Coração de Jesus e a depositarem em Cristo suas aflições. De coração aberto, Ele espera cada um para dar conforto, descanso e encorajamento. O coração transpassado de Jesus sofre em cada pessoa que sofre e se alegra em cada ser humano que encontra um sopro de vida para a jornada. “Viva o coração de Jesus no coração de todas as pessoas.” É uma das orações e lema do nosso fundador, Santo Arnaldo Janssen, que era um grande devoto do Coração de Jesus e um fiel divulgador dessa devoção, antes mesmo de iniciar o trabalho missionário de Steyl. Não há dúvida de que nosso fundador descobriu o coração vivo de Jesus em todo ser humano que se dirigiu à graça divina. Ele sonhava que esse coração, que é a presença próxima de Deus, pudesse viver em todos os seres humanos e em todas as culturas. Por esse motivo, seu sonho era que seus missionários pudessem alcançar os lugares mais remotos do planeta para anunciar a boa-nova de consolo e esperança. Para os membros da Família Arnaldina, a oração de Santo Arnaldo é muito eloquente. Nós a recitamos muitas vezes, talvez, em várias ocasiões, com alguma complacência e um pouco de desdém, levando a rezá-la sem pensar em sua profundidade. Geralmente não há reunião ou sessão de oração em que essa prece não faça parte do repertório. Se formos um pouco mais longe com a nossa reflexão, fica claro que, sem o coração, não podemos existir. Segundo as Ciências Biológicas, o coração é o primeiro órgão que se forma e começa a bater apenas alguns dias após nossa concepção no útero. Quando o coração para de bater, a vida termina, um ciclo termina. O coração é o começo e o fim, é a fonte que permite que a vida flua para o corpo. Portanto podemos concluir que a vida de quem crê emana do Coração de Jesus e volta para ele quando sua missão termina. Além disso, o que queremos dizer quando falamos de um coração sagrado? Não podemos deixar de lado a referência à Bíblia. A palavra “coração” é mencionada mais de oitocentas vezes e não se refere apenas a um tecido muscular que bombeia sangue para o corpo. Em uma linguagem profunda e poética, é a morada de atitudes, emoções e inteligência. “Acima de tudo, vigie seu coração, pois aqui estão as fontes da vida” (Pr 4,23), “Pois onde quer que esteja o seu tesouro, também estará o seu coração” (Mt 6,21), “O homem bom tira coisas boas do bom tesouro de seu coração, mas o homem mau tira de seu mal coisas más, porque a boca fala daquilo de que o seu coração está cheio” (Lc 6,45), “Você deve amar o Senhor seu Deus com todo o seu coração, com toda a sua alma e com toda a sua mente” (Mt 22,37). Esses textos bíblicos, entre outros, deixam bem claro que todo coração é criado como fonte da vida e motor do amor. É por onde ocorrem os sentimentos e pretensões mais profundas do ser humano, mas também é lá que se originam ressentimentos e violência de todos os tipos. O coração é sagrado, mas está contaminado com as sementes do mal. Em Jesus isso não ocorre, porque seu coração não está contaminado com o pecado que mancha e degenera o coração do ser humano. Jesus diz: “Venham a mim todos vocês que trabalham e estão sobrecarregados, e eu lhes darei descanso. Aceitem meu jugo e aprendam comigo, pois sou manso e humilde de coração”(Mt 11,28-29). Em um mundo dividido e dilacerado por todas as formas de miséria e tormento, longe de ser uma devoção antiquada, o Sagrado Coração de Jesus é mais válido do que nunca. Somos convidados a focar e guiar nossas vidas de e para Ele. Ele é a fonte pela qual nos entregamos no trabalho missionário com zelo ardente e coração apaixonado. Somente quando for focado nele, o nosso serviço missionário será mais eficaz, próximo dos

Missão com migrantes durante a pandemia

O Centro de Integração do Migrante (CIM) é um espaço alternativo de formação e orientação para migrantes, localizado no bairro do Brás, na região central da cidade de São Paulo. A obra está a caminho de seu quinto aniversário, em dezembro próximo. O CIM é uma das frentes de missão das irmãs missionárias servas do Espírito Santo na cidade de São Paulo. Hoje somos três irmãs aqui: irmãs Lucilene Soares, Nadir Pereira e Malgarete Conte. O CIM realiza sua missão em parceria com outras instituições, como Missão Paz (padres escalabrinianos), Caritas, Veredas (USP), Mary Knoll, Colégio Espírito Santo, Congregação dos Missionários do Verbo Divino (SVD). O centro também conta com a contribuição de muitos outros voluntários e voluntárias que dedicam seu tempo e seus talentos para acolher, servir e ser solidário com nossos irmãos migrantes, diante do quadro de mobilidade em que vivemos na cidade. As ações realizadas no CIM são diversificadas, buscando atender às necessidades e demandas dos migrantes que aqui chegam. Para crianças, as atividades são diárias: brincadeiras, reforço escolar, inglês, artes, educação física, computação. Para adolescentes e adultos, há atendimentos e suporte com a documentação, plantão psicológico, jurídico, assim como aulas de português, informática, manutenção de computadores, bolos e salgados, empreendedorismo e espanhol. O CIM também oferece atendimento em geral ao público durante a semana, como o Bazar da Solidariedade. As roupas obtidas em doação são vendidas a preço simbólico para quem mais necessita. Também o CIM é o lugar do encontro, da acolhida, da partilha do conhecimento cultural. Aqui nos reunimos para celebrar as festas das culturas, dias de festa, e celebrações. Um espaço de vida e alegria. Com toda essa demanda, e com a participação de muitos migrantes, percebemos a necessidade de um espaço maior para poder atender melhor e com mais condições a cada pessoa que vem até o CIM. Com isso, neste ano, foi adquirido um novo espaço, no mesmo bairro. O local é maior e com mais possibilidades de trabalho e integração com os migrantes. Precisa passar por um processo de restruturação, para já podermos encaminhar os novos trabalhos. De coração aberto e portas fechadas Faz mais de dois meses que, por conta da pandemia, tivemos de fechar o atendimento, assim como todas as atividades que realizávamos em conjunto com outros amigos e parceiros do Centro de Integração do Migrante. Hoje socorre muitos migrantes e brasileiros que perderam sua renda por falta de trabalho, e vivem em uma realidade de fome e de necessidades básicas. Impelidas diante dessa nova situação, somos chamadas a realizar algo, mesmo com as portas fechadas. E assim, com a colaboração generosa de tantos amigos e pessoas de boa-fé, de organizações, Igrejas que realizaram doações com cestas básicas de alimentos, higiene pessoal e limpeza, podemos garantir ao menos o básico para tantos irmãos e irmãs nesta grande cidade de São Paulo. Temos a oportunidade hoje de ser “ponte” e realizar a “entrega” dessas doações. Com isso, podemos abrir as portas ao menos uma vez por semana e realizar a doação desse material que, com alegria, recebemos. Por este tempo de pandemia, é assim que realizamos a missão a qual Deus confia a nós, valorizando a solidariedade do povo que oferece com alegria generosa. “A pandemia mudou a minha vida” Para os migrantes que frequentam o CIM, a pandemia está somando dificuldades ainda maiores àquelas que normalmente enfrentam. A boliviana Dionísia explica: “Eu me sinto triste porque não sabemos quanto tempo mais vai durar, quando vai terminar. Parece que esta pandemia veio para ficar conosco. Gostaria de sair com minha família, mas não posso”. Para a menina Annalia Boliva, de 8 anos, e seu pai Abel Boliva, 39, a situação é crítica. Eles são da Venezuela e moram num pequeno quarto alugado no bairro do Belenzinho, em São Paulo-SP. A mensalidade consome dois terços do salário de Abel, que está no Brasil há cerca de 2 anos e meio. Annalia chegou há 11 meses e conta: “A pandemia mudou a minha vida. Agora estou estudando na minha casa, que é um quartinho pequeno. Eu estudo, assisto à tevê, leio a Bíblia e fico aguardando o meu pai, que vai trabalhar das 5 da madrugada até 5 horas da tarde”. Antes ela ia para a escola de manhã e, depois, para o Educandário São José, no bairro do Belém. Frequentava as aulas de informática do CIM. Annalia diz que sente saudades das irmãs, do vovô Angel (um dos voluntários que precisou ser hospitalizado por causa do covid-19 e que está se recuperando), dos coleguinhas e dos brinquedos. Abel relata que não estão fáceis estes três meses de confinamento. “Graças a Deus, continuo trabalhando, mas minha filha, minha companheirinha de 8 anos, não pode mais ir à escola nem ao Centro do Migrante. Está confinada em um quarto onde vivemos só ela e eu, passa 24 horas aqui… Mas estamos vivos, temos saúde e seguimos lutando”, diz. Antes da pandemia, Abel complementava o salário fazendo bicos à noite e nos fins de semana. Dessa forma, ele conseguia se manter e enviar alguma coisa para ajudar a família na Venezuela. Agora mal consegue pagar as despesas. Ele também sente falta do Centro de Integração do Migrante, que considera um grande apoio e do qual tem prazer em participar. Irmã Lucilene Ferreira Soares é missionária serva do Espírito Santo, está concluindo o Curso de Teologia e faz parte da equipe do CIM.

Lives de São João e São Pedro

As soluções tecnológicas entram de maneira inusitada nos festejos de São João e São Pedro neste ano. Nos centros urbanos do Sudeste do Brasil, as danças juninas estão sendo adaptadas à realidade do isolamento social, forçado pela pandemia do covid-19. Restringiu-se a participação ao máximo de quatro a cinco pessoas (e somente dentro da convivência familiar), em ambientes que em nada lembram os velhos arraiais: apartamentos e salões de festas de condomínios. Algumas escolas em São Paulo-SP orientam professores e estudantes a ensaiarem em casa a quadrilha, com a separação dos participantes em duplas. Quando ocorrerem as apresentações, acessíveis pelas redes sociais, cada família filmará sua performance, e as imagens vão compor o mosaico de dezenas de duplas dançando alegremente. Um dos colégios que adotam um protocolo específico para as brincadeiras juninas é o Objetivo Saint Lucas, na Zona Leste de São Paulo. Inicialmente, a direção da escola pensou em realizar lives com as apresentações de alunos e professores, mas essa mudança na tradição do arraial ainda traz insegurança. “E se a internet estiver instável e, no meio da quadrilha, sair do ar a apresentação?”, pergunta a diretora Leila Cury. Diante do risco, o colégio deve editar um vídeo com as danças e até mesmo as receitas da culinária junina, sob coordenação da professora de Artes. A produção será publicada nas redes sociais. A intenção dos realizadores é evitar o adiamento dos festejos, opção escolhida pela Prefeitura de Campina Grande-PB, onde as comemorações serão em outubro. Em Salvador-BA e Aracaju-SE, o feriado de São João foi antecipado para maio, justamente para esvaziar (!) a festa e impedir aglomerações. No seu celular, os antigos arraiais Mesmo que as tecnologias “façam sua parte” e diminuam o impacto do isolamento social, a vivência da cultura popular e da religiosidade estará sob a influência do uso que se faz dos “facebooks” e dos “whatsapps”. A função mais humana que se pode esperar de ambos é que reconectem pessoas e suas comunidades. Já pensou se as redes sociais forem usadas, neste mês de junho, para aproximar você de quem fez a alegria dos antigos “arraiais” em sua escola ou paróquia? Lembre-se de que, com um simples celular, é possível falar com aqueles, aquelas que já prepararam iguarias deliciosas (quentão, bolo de milho, paçoca) ou que se destacaram por conseguir prendas inestimáveis, ou que, ainda melhor, organizaram, muitas vezes, a novena de São João ou a de São Pedro e trabalharam nas barraquinhas até tarde. Em 2020, os prédios não estarão embandeirados, as ruas perderão as cores dos vestidos estampados das moças caipiras, as quermesses que enchiam as paróquias de calor humano estarão canceladas… Mas aqueles voluntários e voluntárias continuam por perto. Talvez estejam dentro de nossas casas. E o contato com eles, com elas pode acender a fogueira da gratidão e da caridade, e não deixar morrer São João e São Pedro neste junho de noites frias e de pandemia que nos assusta. José Manoel Rodrigues é jornalista e educomunicador. Há três anos, atua na área de captação de recursos. É cofundador da Radar Consultoria de Projetos para Organizações Sociais.

Junho, mês dos santos populares

Junho é um mês que se caracteriza pela comemoração de santos populares: Santo Antônio, São João, São Pedro, São Paulo. São recordados e homenageados pela piedade que seus devotos nutrem em sua fé. Muitos o fazem sem mesmo ter razões profundas para isso. Fazem porque é tradição e é motivo de festa. Em algumas regiões, com mais intensidade e com grandes eventos. Que reflexão se pode fazer sobre isso? Por um lado, podemos dizer que essa fé na proteção vinda do santo traz para o crente um sentimento de ser cuidado, amparado nas horas difíceis. O santo é uma certa garantia para a vida, pois crê que, fazendo suas rezas, suas promessas, pedindo sua ajuda, vai preservá-lo de perigos ou ajudá-lo a sair de dificuldades. Há um fundo religioso transmitido pelos ancestrais e que gera uma certeza de que esse é o caminho para sua crença. A pessoa encontra no santo algumas virtudes que admiram e estimulam a imitá-lo. Por outro lado, para muitos, a celebração do santo é apenas uma expressão cultural, pouco religiosa, uma ocasião para fazer festa e divertir-se. Não conhecem nada a respeito da vida do santo e muito menos por que este é santo e por que se tornou popular. O importante é que, em seu dia, há festa, comidas típicas, danças e outras manifestações culturais. E o que é ser santo? Segundo a fé cristã, a vocação à santidade é própria de todo batizado. É algo inerente do ser cristão. Todos são chamados a viver buscando cotidianamente a santidade. Ela está ao alcance de todos. Consiste na prática diuturna de uma vida correta, honesta, em que se respeitam os valores humanos fundamentais e os valores religiosos do amor a Deus e ao próximo, bem como uma conduta moral e ética congruente com os princípios cristãos. Os santos canonizados pela Igreja tiveram uma vida comprovada por virtudes heroicas que servem de modelo para todos. Não é necessário, contudo, ser canonizado ou beatificado para ser santo. Há muitos santos anônimos. Pessoas que viveram praticando o bem, deixando um testemunho de vida admirado por aqueles que o conheceram. Quando nós recordamos a vida de santos dos quais somos devotos, eles passam a fazer parte de nossa piedade. Significa então que damos um reconhecimento àqueles valores vividos por eles e se tornam referenciais para a vida. Na verdade, é uma necessidade humana apoiar-se em modelos que estimulem as vivências, pois eles nos dão certa segurança naquilo que estamos fazendo. Atribuímos, às vezes, até poderes mágicos que dispensam o empenho pessoal. É como se pensasse “confio em tal santo, e por isso estou protegido, não preciso fazer nada a não ser uns ritos para ter a certeza de sua proteção”. E, nesses ritos, muitos deles bizarros, esconde-se uma fé pouco profunda e comprometida, mas que serve de alívio e diminui as tensões. Podemos pensar que, dentro disso tudo, há também algo de misterioso. Isto é, coisas que são aceitas ou feitas sem conhecimento profundo de suas razões, mas que exercem um poder condicionante no modo de pautar a própria a vida. Isso também nos revela que somos carentes e necessitados de certezas que vão além da lógica. Não nos bastamos sozinhos. Precisamos de suportes para nossa vida e nossa crença. Os santos de nossa devoção exercem esse duplo papel de assegurar um aliado nosso mais forte, com poder de interceder a nosso favor e dar uma legitimação a nossos modos de viver. Mês de junho, mês de santos populares. Que sua popularidade nos ajude a viver os valores que pautaram suas vidas. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

Política de Privacidade

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações de cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.

Mais informações sobre: Política de Privacidade