2º Domingo do Advento

“Começo do Evangelho de Jesus, o Messias, o Filho de Deus”Mc 1,1-8 O Evangelho de Marcos foi o primeiro dos quatro evangelhos canônicos a ser escrito, provavelmente pelo ano 70, na Síria ou em Roma. Marcos tem o grande mérito de ser o criador desse gênero literário, hoje tão conhecido, chamado “evangelho”, o que literalmente significa “boa-nova” ou “boa notícia”. Porém, no primeiro versículo de sua obra, quando ele se refere ao “começo do Evangelho”, ele não diz sobre o gênero literário, mas à própria Boa-Nova, que é a mensagem de salvação em Jesus, “o Messias, o Filho de Deus”. Pois o escrito é somente uma das maneiras viáveis para comunicar a experiência dessa boa notícia, tanto que Paulo, que nunca leu um dos quatro Evangelhos (pois morreu pelo ano 66,), pôde falar aos Gálatas do “Evangelho por mim anunciado” (Gl 1,11). Por isso devemos sempre levar em conta que os quatro Evangelhos do Novo Testamento não se propõem a nos dar uma biografia de Jesus, nem de fazer um relatório sobre a vida dele. Eles são a “boa notícia” de Jesus. Dessa forma, a pergunta que devemos ter em mente ao ler ou ouvir um trecho evangélico não é “aconteceu assim ou não?”, mas “onde está a boa notícia de Jesus neste texto?”. Como parte de nossa preparação para o Natal, o texto de hoje nos apresenta a pessoa e a mensagem de um dos grandes personagens do Advento: João Batista. Usando uma mistura de citações do Antigo Testamento, tiradas do profeta Malaquias (3,20), Isaías (40,3) e Êx (23,20), Marcos enfatiza o papel de João como Precursor, aquele que prepara o caminho do Senhor. O fato de João estar vestido com pele de camelo faz uma ligação entre ele e o “pai do profetismo”, Elias. Assim, João é a última voz profética da Antiga Aliança, anunciando a chegada da Boa-Nova na pessoa e atividade de Jesus de Nazaré. O batismo de João era um rito conhecido naquele tempo. Significava o reconhecimento dos pecados e a conversão aos caminhos de Deus. Embora o Advento não seja primariamente tempo de penitência, mas de preparação, o texto nos lembra de que não será possível a preparação para a vinda do Senhor no Natal sem que passemos pelo processo de arrependimento, conversão e experiência da gratuidade de Deus no perdão dos pecados. Mas a ênfase mesmo está na aceitação não somente do batismo de João, mas de quem viria depois dele, literalmente como ele disse, “atrás de mim”. A expressão, que denota a dignidade, como num cortejo, põe toda a importância na pessoa que vem, pois tirar as sandálias era serviço de um escravo. Jesus é o mais importante, pois, com a vinda dele, inaugura-se o tempo de salvação, esperado naquela época, por muitas pessoas e grupos (como os essênios), somente para o fim dos tempos. A voz de João ressoa de novo hoje, nos primeiros anos do novo milênio, convidando a todos nós, pessoalmente e em comunidade, Igreja e sociedade, a preparar os caminhos do Senhor, endireitando suas veredas. A preparação para o Natal implica a necessidade de um empenho de todos para que os males, individuais ou sociais, sejam tirados, para que o Natal seja experiência real da vinda do Salvador e não somente uma festinha, vazia de sentido. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Irmãs em preparação para votos perpétuos conhecem missão no Brasil

Cinco irmãs em preparação para os votos perpétuos (probanistas) na Congregação das Missionárias Servas do Espírito Santo aprenderam mais sobre os diversos campos de missão das SSpS na Província Brasil Norte. Elas também participaram de encontros formativos e conheceram outras religiosas da congregação. As visitas foram realizadas em novembro, mas o trabalho de preparação durou nove meses. Em março, elas já haviam visitado a missão das SSpS na Província Brasil Sul, em Ponta Grossa-PR. Ao longo de toda a atividade, as cinco irmãs, cada qual de uma nacionalidade, foram acompanhadas pelas irmãs Nilva Moro, formadora, e Ir. Rosil Ferreira Bueno. As probanistas contam como foram a experiência e a formação intercultural. Assista também ao vídeo, no fim da reportagem. Aprendizados “Aprofundar na experiência de oração, experiência de Deus. Foram os momentos de oração, deserto e o grande retiro de trinta dias que me ajudaram a renovar minha vida espiritual. Também tivemos aulas que nos ajudaram a integrar na área humana e pessoal, na espiritualidade e na vida comunitária, que foi tanto no conteúdo como na prática, nos momentos comunitários, avaliações e momentos de crescimento comunitário.” (Irmã Marcela Margarita Robles Vasquez, 30, México) “Despertou e me fez me apaixonar ainda mais por nossa missão. Também aprofundar os sonhos de nosso fundador e de nossas cofundadoras.” (Irmã Salud Osornio Garcia, 43, Estados Unidos) “A vida comunitária. Para mim, foi uma experiência que enriquece a vida intercultural, ajuda a aprender sobre a cultura das outras irmãs.” (Irmã Natália de Carvalho, 32, Timor Leste) “Para mim, se tornou mais claro e concreto meu caminho como missionária serva do Espírito Santo, seguindo Jesus. Confirmou que é isso que eu quero. Fui descobrindo através dos conteúdos, da vida de oração, sobre quem estou seguindo e a nossa missão.” (Irmã Mitilene Chihombo Chivanja, 34, Angola) “As celebrações culturais. Fizemos a proposta de celebrar a independência de cada país de onde vieram nossas irmãs. Por exemplo, celebramos a Independência do Brasil, e cada irmã teve a oportunidade de contar sobre a cultura de seu país, culinária, danças típicas, tradições, roupas, etc.” (Irmã Roselene Ventura de Oliveira, 32, Brasil) Dificuldades “Eu era a única que chegou quase na hora. Vim de um ambiente totalmente diferente, do México, e encontrei um programa cheio de muitas atividades que eu não tinha conhecimento. Depois fui me adaptando à nova realidade.” (Ir. Salud, sobre os primeiros três meses de integração.) “O idioma, no início, foi difícil. Embora sejam parecidos com espanhol, não é tão fácil se expressar em outra língua. Também as atividades, ritmos, comida, trabalhos, tudo foi muito diferente. Foi um desafio fazer algo novo, mas me enriqueceu. Por causa da pandemia, não tínhamos uma pastoral, mas aprendemos a fazer coisas simples, como bordado, costura. No início, foi desafiante, mas depois me adaptei.” (Ir. Marcela) Convivência “O que me deu mais prazer foram os momentos de recreação que tivemos, nos quais cada uma podia se expressar de uma outra forma, e as comemorações dos aniversários.” (Ir. Mitilene) “A possibilidade de fazer uma caminhada com um grupo, ter um grupo para compartilhar, escutar outras experiências. Isso me marcou muito, porque, antes, eu estava mais sozinha na formação.” (Ir. Rosilene) Experiências para a vida “Saber lidar com o diferente.” (Ir. Mitilene) “Estar aberta às novas realidades, tanto na vida comunitária como na missão.” (Ir. Marcela) “O valor da partilha e da acolhida do ser, da pessoa de cada um.” (Ir. Rosilene) “Estou levando a vida partilhada com minhas coirmãs. Elas me ensinaram as riquezas de suas vidas como também as dificuldades e que, juntas, podemos ir mais longe.” (Ir. Salud) Visita à Província Brasil Norte “Para mim, está sendo uma experiência de acolhida, de pertença à nossa Congregação e de conhecer as irmãs desta Província e também o lugar onde estão.” (Ir. Marcela) “Para mim, uma experiência de partilha, no sentido de conteúdos, mas também da vivência ou convivência com as irmãs.” (Ir. Mitilene) “Ajudou a estar em sintonia com nossas irmãs, sobretudo que têm a mesma missão que eu, e conhecer a realidade onde elas estão vivendo.” (Ir. Salud) “Pra mim, foi comunhão com as irmãs da Província e também conhecer a missão das irmãs.” (Ir. Natália) “Vir até aqui foi difícil. Primeiro, queríamos conhecer Aparecida. Era um desejo forte do grupo. Então expressaram o desejo. Havia a previsão de ter encontros on-line com as irmãs Maria Percila Vieira e Ana Elídia Caffer Neves. Não queria voltar para meu país sem conhecer as irmãs e ir ao Santuário de Aparecida. Conversamos com a irmã Nilva Moro. Começamos a rezar, porque não havia nada certo. Depois deu certo e foi uma bênção.” (Ir. Marcela) Assista ao vídeo com os depoimentos das irmãs.

Aids: problema não pode ser esquecido

A pandemia do novo coronavírus está em destaque desde o fim de 2019. Outros problemas graves, no entanto, não podem ser deixados de lado. Um deles é a aids, sigla inglesa para “síndrome da imunodeficiência adquirida”. Em 1º de dezembro, comemora-se o Dia Mundial de Luta contra a Aids. As estatísticas continuam assustadoras. Segundo a Unaids Brasil, entidade ligada à Organização das Nações Unidas (ONU), no ano passado, houve 1,7 milhão de novas infecções. Até o fim de 2019, aproximadamente 38 milhões de pessoas em todo o mundo viviam com o HIV, mas o aceso à terapia antirretroviral abrangia bem menos pessoas: cerca de 25,4 milhões (dados de junho de 2019). Nos últimos anos, as pesquisas têm avançado muito. Já há casos de cura comprovada pelos cientistas, o que era algo impensável até há pouco tempo. A medicação está mais eficiente e menos agressiva. Algumas chagas, contudo, continuam a latejar, como políticas públicas deficientes em vários países, descuido na prevenção, abandono e até o famigerado negacionismo, que começa a surgir também em relação à aids. Talvez o preconceito seja a dor mais forte, presente desde os primeiros registros de casos, no início da década de 1980. Não somente as pessoas mais vulneráveis e os infectados pelo vírus HIV são estigmatizadas. Além das dificuldades comuns de quem tem de cuidar de um ente querido, as famílias dos enfermos também são obrigadas a conviver com a discriminação. Seres humanos preciosos Os números são importantes, mas frieza deles, como em outras pandemias, esconde histórias de seres humanos preciosos. Em 26 de setembro de 1994, um ano após ser diagnosticada com o HIV, falecia Leda Grecco Duarte Oliveira. Ela tinha três filhos e trabalhava como instrumentadora cirúrgica no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo-SP. Quem conta um pouco sobre Leda é Neyde Grecco, a mãe, e o filho, Gabriel Grecco. Pessoa linda “Meu nome é Neyde Grecco, tenho 86 anos. Há 26, perdi minha única filha para essa terrível doença. O céu ganhou uma pessoa linda por dentro e por fora. Leda era uma pessoa muito boa, caridosa, trabalhadora. Ela era instrumentadora cirúrgica no Hospital Sírio Libanês, local onde ficou por diversas vezes, aos cuidados do dr. Davi Uip, referência no tratamento da aids. Na época, quando foi diagnosticada a doença, o tratamento era muito agressivo, e não havia muita resposta positiva. A recuperação era impossível, e a morte era quase rápida. Havia muitos efeitos colaterais dos remédios. Minha filha ficou cega de um dos olhos. Foi assim se debilitando até o momento final, sendo atendida no momento da morte, recebendo sangue. Mas foi tudo em vão. O dr. Davi deu uma previsão de sobrevida negativa e calculou que a evolução do tratamento para essa doença levaria mais de dez anos. Leda tinha 42 anos quando nos deixou. Até hoje eu curto meus 3 netos e meus 5 bisnetos.” Desprezo com o restante da família “Meu nome é Gabriel Grecco. Perdi minha mãe quando eu tinha 14 anos. De quando ficamos sabendo da doença até o dia em que ela nos deixou, foi coisa de um ano; muito rápido. Foi um ano muito difícil, pois ver a evolução da doença foi triste, fora que tinha muito preconceito naquela época. Eu mesmo sentia desprezo de alguns vizinhos com o restante da minha família. Eu rezava para aparecer um tratamento eficaz o quanto antes ou que Deus a levasse, para ela não sofrer mais. Só quem estava do lado viu o quanto foi difícil e doloroso tudo isso. Sempre vou lembrar dela como uma guerreia, uma supermãe, carinhosa, educada, inteligente e aventureira, que vivia como ninguém. Viajávamos muito, moramos em muitos lugares legais, na cidade, na montanha, nas praias. Dos meus amigos, todos os que tiverem a oportunidade de conhecê-la sabem do que estou falando.” Para saber mais Unaids Brasil Ministério da Saúde Grupo de Incentivo à Vida (GIV)

1º Domingo do Advento

“Digo a todos: fiquem vigiando!”Mc 13,33-37 Com a celebração do 1º Domingo do Advento, a Igreja inicia um novo ano litúrgico, um ciclo que celebra todos os principais eventos da vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Advento é um tempo, não tanto de penitência, mas de expectativa e preparação para a vinda do Senhor no Natal. Três figuras muito importantes da liturgia do Advento são o profeta Isaías; o Precursor, São João Batista; e Maria de Nazaré, a Mãe do Senhor. Um tema constante no Advento é o da vigilância. “O que digo a vocês digo a todos: fiquem vigiando”. Obviamente, não no sentido de vigiar os outros, mas da vigilância evangélica, uma atitude constante de compromisso com o seguimento de Jesus. É preciso vigiar a nós mesmos, para que não deixemos de pôr em prática as mesmas atitudes e opções concretas de Jesus de Nazaré. É vigiar para que façamos sempre o que Jesus faria se estivesse no meio de nós hoje. É vigiar para que o comodismo não tome conta de nós, reduzindo nossa vivência cristã às práticas externas, que são indispensáveis, mas que seja uma concretização nas nossas realidades das atitudes e ações de Jesus de Nazaré. O convite à vigilância não é somente pessoal, mas também comunitário. Pois, com o decorrer dos anos, é possível que tanto os indivíduos como as instituições eclesiais (paróquias, congregações religiosas, pastorais específicas, movimentos de espiritualidade e até as próprias Igrejas) caiam na rotina cômoda, perdendo de vista a finalidade última da sua atuação, o Reino, e contentando-se com uma prática meramente externa de uma moral ou ética. O recente Sínodo ouviu muitas vezes do Papa um apelo nesse sentido, para que os prelados (e, na verdade, todos nós) saíssem de suas “torres de marfim” para sentirem as alegrias e as dores, as angústias e experiência do povo em geral. O texto de hoje convida a todos nós para que façamos do discernimento um modo de viver, sempre vigilantes para que nosso modo de ser, atuar e falar esteja coerente com as opções concretas de Jesus de Nazaré, em favor do Reino de Deus, da justiça, solidariedade e fraternidade. Daqui a quatro semanas, celebraremos o Natal. Para muitos, será simplesmente uma festa comercial ou uma oportunidade de festejar e alegrar-se. Para outros, mergulhados na miséria e na fome, endêmicas em muitas regiões do planeta, será sem sentido. A qualidade de nosso Natal dependerá, em grande parte, da qualidade de nosso Advento. Se fizermos desse tempo um verdadeiro momento de discernimento, avaliação, vigilância e renovação, então teremos realmente um Natal, um renascimento de Jesus na nossa vida. Caso contrário, somente teremos uma festa no dia 25 de dezembro, que logo acabará e passará sem deixar rastros, a não ser dívidas a pagar ou ressacas. Atendamos o convite de Jesus! Façamos do Advento deste ano um tempo de avaliação, de oração, de renovação e teremos a imensa alegria de um verdadeiro Natal, um reencontro verdadeiro com Jesus, o Emanuel, o Deus-Conosco! “O que digo a vocês digo a todos: fiquem vigiando.” Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Advento: preparar-se para a chegada do noivo

Com o Tempo do Advento, que começa quatro domingos antes do Natal, iniciamos um novo ano litúrgico. Nessa espiral do calendário, vamos celebrando as ações de Deus (chamadas “mistérios”) na vida de seus filhos. A palavra “advento”, originária do latim, referia-se à espera da visita de um imperador. Como ocorreu com outros termos, o conceito foi apropriado pelos cristãos, aqui significando, desde o início, a expectativa pela volta de Jesus, no fim dos tempos (Mt 24,27). O correspondente grego é a palavra parusia (a forma sem acento é a mais usada no Brasil) ou parúsia. Nós, latino-americanos, normalmente somos muito calorosos e acolhedores, por isso nos é fácil entender o espírito desta época. O Advento equivale ao que sentimos quando recebemos a notícia de que uma pessoa muito querida, e a qual não vemos há muito, virá nos fazer uma visita. Quanta alegria! Limpamos a casa, trocamos os lençóis e as toalhas, preparamos deliciosos quitutes. É muito limitado dizer que este período é uma preparação para o Natal. Nestas quatro semanas, de fato, celebramos as três possibilidades do encontro com o Senhor, segundo São Bernardo de Claraval: o primeiro, o intermediário e o último. O primeiro é o da encarnação do Senhor no seio de Maria e nascido como um pobre, num estábulo. Deus, em Jesus, tornou-se um de nós, portanto divinizando nossa condição humana. É o Deus que se fez pobre e rei (este não como pensa o mundo, diga-se!). Não é uma mera lembrança, mas um memorial solenemente celebrado no Tempo do Natal, que começa ao anoitecer do dia 24 de dezembro e vai até a Festa do Batismo de Jesus. São dias em que, pela sagrada liturgia, colocamo-nos diante da manjedoura e testemunhamos a manifestação (epifania) do Messias à humanidade. O encontro intermediário é aquele que ocorre a qualquer hora, a depender de nossa disposição em se deixar abraçar por Deus. O Senhor vem a nosso encontro no Pão da Palavra, nos sacramentos, na oração, nos irmãos e irmãs, em especial nos mais fracos e excluídos. A vinda futura de Jesus é o foco maior do Advento, pelo menos esse foi o intento dos cristãos dos primeiros séculos, ainda antes de uma formulação litúrgica deste período. Nos Evangelhos, o Senhor nos alerta para a necessidade de estarmos acordados para o encontro definitivo com Aquele que, sem qualquer aviso, vem a nós. Diferentemente de certos pensamentos ingênuos e ultrapassados, esse dia terá o tom da alegria, pois a Igreja (a grande comunidade dos batizados), a noiva, será beijada com muito carinho pelo Amado, que virá correndo a seu encontro. Essa linda noiva deve estar bem preparada para esse dia: vestida de justiça, adornada pelas joias da oração e do cuidado com os mais necessitados, trazendo o anel da misericórdia e o ramalhete do amor. Serenidade na liturgia O Tempo do Advento tem algumas particularidades interessantes quanto à liturgia. As leituras envolvem personagens admiráveis, com destaque a três figuras: o profeta Isaías, alimentando-nos com magníficos textos sobre a esperança (nunca precisamos tanto dela como agora!); São João Batista, que veio preparar os caminhos do Senhor; e a Virgem Maria, com seu “sim” ao projeto de Deus, mulher corajosa e modelo para todos nós. Os hinos, costumeiramente muito bonitos quando os ministros do canto seguem o espírito da celebração, levam-nos ao recolhimento e nos chamam à conversão (volta ao caminho seguro). Não se canta o “Glória”, exceto nas solenidades e festas que caem nesse período. O chamado “Hino Angélico” é entoado com toda a alegria a partir da celebração da noite de 24 de dezembro (já no Natal). Ao contrário do que ocorre na Quaresma, a expressão “aleluia” pode ser entoada. Os ornamentos são sóbrios, mas não com a austeridade quaresmal. A cor roxa nos recorda que a casa de nosso coração está sendo preparada para a festa do encontro. No meio do Advento, no terceiro domingo, os paramentos róseos anunciam que a hora da grande alegria está chegando. Esse domingo é chamado Gaudete (alegrai-vos), devido à antífona de entrada: “Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo: alegrai-vos! O Senhor está perto!” (cf. Fl 4,4s). O ideal é que os enfeites natalinos sejam expostos do dia 24 até o fim do ciclo do Natal (que, reforço, não se encerra em 6 de janeiro). Desde o primeiro domingo, as igrejas são adornadas com a coroa do Advento. Esse costume pagão foi ressignificado pelos seguidores de Jesus. A ideia é mostrar que, a cada vela acesa conforme avançam os quatro domingos, a luz do Senhor vai vencendo as trevas. É importante que o nascer dessas chamas seja visto por toda a comunidade, mesmo num momento de silêncio. A partir de 17 de dezembro até o entardecer do dia 24, temos o que alguns chamam de “Semana Santa do Natal”. As leituras enfocam mais a primeira vinda do Salvador e insistem nas profecias sobre o cuidado de Deus para com seu povo. É impossível falar desses dias sem mencionar as dulcíssimas “Antífonas do Ó”. São breves versos cristológicos entoados sobretudo nas orações das Vésperas, na Liturgia das Horas, cuja beleza todo o povo é convidado a conhecer. As manifestações populares de fé também têm vez nestes dias, a depender da cultura de cada lugar. A mais famosa em nosso país é a “novena de Natal”, um tesouro que tem produzido abundantes frutos espirituais em nosso povo. Ocasião indispensável para reunir a família, vizinhos e amigos em torno da Palavra e em espírito de fraternidade. É muito louvável que as crianças participem dessa prática. Qualidade do Advento e do Natal Há de se lamentar que um tempo tão frutuoso para nossa caminhada seja ofuscado pela correria às lojas, pela má preparação das liturgias ou mesmo pela ignorância a respeito do que se celebra. Nos dias em que “arrumamos a casa” para uma visita tão preciosa, ganhamos mais um convite de Deus a abandonarmos velhos costumes, caminhos tortuosos e voltarmos à estrada segura de Cristo. Concluo com um trecho do saudoso verbita

Dia de Ação de Graças

O Dia de Ação de Graças, celebrado sempre na quarta quinta-feira de novembro, é o momento de elevar nossas preces e agradecer ao Deus da Vida os dons e graças vivenciados neste caminhar de 2020. Um caminhar novo, cheio de desafios, que nos pegou de surpresa, exigindo de nós uma recuada e o isolamento desde o mês de março. Vidas foram ceifadas e partiram para a Casa do Pai, sozinhas, num leito de hospital, long do aconchego da família, na calada da noite escura; até a sepultura, sem qualquer despedida. Este tempo exigiu de nós muitas renúncias, repensar da vida que estávamos vivendo, na correria, sem tempo para a família, para nós mesmos e para um encontro pessoal com Deus. Trabalhos, encontros, reuniões infinitas, viagens, passeios ocupavam todo o nosso tempo. De repente, tudo parou! Tudo parou! E só os serviços emergenciais continuaram. Tivemos de aprender, reaprender, redescobrir como nos fazer presentes onde precisaríamos estar presentes. E tivemos de refletir: como estávamos vivendo nossa vida? Aonde queríamos chegar com o que estávamos buscando? Que espaço Deus ocupava nessa grande correria de que fomos paradas, parados. Para nós, não foi fácil parar com as atividades. Quantos ignoraram o que estava acontecendo, outros negaram, revoltaram-se ou ficaram dominados pelo medo, solidão e desesperança. Mas nosso Deus é o Deus da esperança, que nos manteve firmes, acreditando no possível. Apesar da dor, a vida. Apesar da doença, a cura. Por isso seguimos caminhando e queremos, no Dia de Ação de Graças, dar graças a Deus por nossa vida, vivida durante todo este ano. Graças a Deus, que nos manteve de pé, com saúde, para seguir nossos projetos de cuidar também de outras vidas a nós confiadas. Viver o Dia de Ação de Graças é retomar cada vivência, cada encontro e ter um coração agradecido, pleno do amor de Deus e que, apesar de todo o sofrimento por que passou a humanidade, confia, entrega e vive a gratidão. Mesmo no silêncio deste grande sofrimento, Deus nos toma pela mão, dando-nos coragem e forças para prosseguir a vida, confiantes na alegria de viver o essencial que aprendemos deste tempo desafiador. E como aprenderemos se tivermos aproveitado esta oportunidade! Seguimos agradecidas, agradecidos porque nosso Deus é o Deus da compaixão. Agradecidas, agradecidos a Ele por todas as graças, dons e bênçãos que nos proporcionou durante todo este ano. O Salmo 91,2 expressa bem nossa ação de graças pela vida. Em cada manhã, a alegria de viver e cantar para nosso Deus que é bom, tudo faz para nós que, agradecidas, agradecidos, seguimos aguardando a cura da covid-19. Ir. Maria Gislaine Pereira, SSpS, é graduada em Pedagogia pela UGF-RJ, pós-graduada em Psicopedagogia pela UCB-JF e Ciências da Religião pela UFJF. Atualmente é voluntária no Centro Educacional Madre Theresia, em São Paulo-SP.

Inteligência emocional: espiritualidade no comportamento

Diante das constantes e vastas mudanças sofridas pela sociedade pós-moderna, abordar o tema da inteligência emocional é de grande urgência e necessidade social. Entre as várias mutações dos hábitos sociais, percebe-se inúmeras pessoas sendo desafiadas a “evoluir” para um lugar de intensa liberalidade em seu ato de ser. Isto é, livres de qualquer amarra ou comprometimento comportamental com o outro, são obedientes à não obediência. Tornaram-se reféns de suas emoções. O que sentem tendem a dar vazão ou recalcar. Mas é sobre o equilíbrio entre essas duas margens do mesmo rio que devemos nos importar. A disciplina das ações pode ser entendida como uma grave ofensa aos deuses da Modernidade que tecem o dogma do “tudo pode”, promovendo uma grande revolução socioemocional das novas gerações em conflito com as regras das gerações que nos precederam. Tradicionalmente, a inteligência emocional foi entendida como controle das emoções individuais: raiva, medo, desespero, pânico ou qualquer outro exemplo que tipifique uma euforia. No entanto, a inteligência emocional se detém no trato do comportamento pessoal quando essas tais emoções surgem. Não dá para fugir das emoções. Quando elas vêm, é possível controlar o comportamento diante delas, o que se denomina tecnicamente de autocontrole. Sentir medo na presença de um animal feroz foi o que possibilitou aos seres humanos, no período da caça, por exemplo, desenvolverem sua inteligência espacial e analítica para sobreviverem nos territórios tão hostis, passando de seres caçados para caçadores. Paralisar-se diante do perigo seria, sem dúvida, o comprometimento mais autodestrutivo da espécie humana. Em brevíssimo tempo, seria extinta pelos outros animais, pelo clima e a fome. As emoções são reações rápidas ao meio observado, apura as estratégias diante do fato sentido. Ficar chateado por alguma ofensa recebida no trânsito, por exemplo, é natural. No entanto, o que se faz com ela se reserva ao amadurecimento ou não da inteligência emocional. Ora, se o comportamento do indivíduo diante de suas emoções é a linha divisória entre as brigas, ofensas, intolerâncias e tudo o que desune e a possibilidade de evitá-las, notar-se-á, portanto, que cada ser humano estará na bifurcação de uma escolha fugaz: fazer ou não fazer, falar ou não falar, agir ou não agir. Aperfeiçor o comportamento é fruto de uma luta interior, intensa e constante. Uma espiritualidade que coloque o indivíduo diante das consequências de suas ações é o poder que a educação tem. Fazer o honroso esforço de perceber-se diante da vida e de todos os seus desafios necessita de uma rigidez psicoemocional constante. Ou seja, unir os afetos à razão e a razão aos afetos torna-se o antídoto à vida excessivamente voltada à aprovação dos outros bem como à preservação da vida indiferente à necessidade dos que precisam. A espiritualidade conduz o indivíduo para dentro de si, podendo encontrar, na intimidade de sua existência, os outros, Deus e toda natureza que o cercam, garantindo a vida. Espiritualidade e autopercepção são sinônimas. Por outro lado, muitos homens e mulheres tendem a emitir um juízo sobre os seus feitos após os executar. É nesse sentido que toda espiritualidade, baseada no silêncio, na percepção das emoções e no autoconfronto com as consequências que as atitudes individuais trazem bem como em sua interferência coletiva, poderá curar as feridas de uma sociedade cada vez mais doente, quando não pensa nas consequências de suas ações antes de agir. Conversar, instruir, ensinar, educar seriam ferramentas poderosas para instruir o indivíduo na posse de si e refletir sobre seu comportamento. Em síntese, essa espiritualidade do quotidiano pede a homens e mulheres uma atenção generosa aos efeitos de suas ações. Controlando o comportamento, as emoções darão lugar à tão cara paz interior. Sentir todos sentem, porém como sentimos é o que nos diferencia dos outros animais. Perceber o outro é perceber-se; perceber-se é perceber o outro. Assista ao bate-papo sobre inteligência emocional, publicado no canal da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo, no Youtube. William John Martins é professor de Ensino Religioso no Colégio Imaculado Coração de Maria, Rio de Janeiro-RJ. “Escola Viva: vê, sente e cuida.”

34º Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

“Quando fizeram isso a um dos menores dos meus irmãos, foi a mim”Mt 25,31-46 Hoje encerramos as celebrações dominicais do ano litúrgico com a Solenidade de Cristo Rei. O evangelho deste domingo é o famoso texto de Mateus 25, sobre o Juízo Final. Nesse texto, enfatiza-se a sorte eterna dos que optaram ou não pela vivência da “justiça do Reino dos Céus”. O primeiro discurso do Evangelho, o Sermão da Montanha, enfatizou que quem vivesse essa justiça seria perseguido (5,12); o segundo discurso, o missionário, insistiu que os discípulos não deveriam ter medo diante dessas perseguições, sofrimentos e rejeição (10,23.28.31); o terceiro, as parábolas do Reino, ensinou a paciência e a perseverança diante do lento crescimento do Reino e da fraqueza da comunidade (13); o quarto, o discurso eclesiológico (ou da comunidade da Igreja), traçou as características da comunidade dos que procuram essa justiça. Agora, o último discurso, o escatológico (ou do fim último das coisas), mostra que a vivência dessa justiça será o critério de Deus para o julgamento final. Ilustra-se, de uma maneira viva, o sentido da frase lapidar do Sermão da Montanha: “Se a justiça de vocês não for superior à dos doutores da lei e dos fariseus, não entrarão no Reino do Céu” (5,20). Jesus, o Rei, não pergunta sobre o cumprimento das leis de ritual e de pureza, tão caras aos doutores da lei e fariseus, mas sobre a prática da justiça do Reino, diante do sofrimento de tanta gente: famintos, sedentos, migrantes, esfarrapados, doentes e presos. A prática de solidariedade com os oprimidos é a única prova de uma verdadeira fé em Jesus e do seguimento fiel dele. Esse texto não pode deixar de nos questionar, vivendo como estamos em uma sociedade cada vez mais excludente. Celebramos hoje Jesus como “Rei do Universo”. Mas Ele se torna rei da nossa vida somente conforme fazemos essa opção real pelos oprimidos e vivenciamos “a justiça do Reino do Céu”, tema central do Evangelho de Mateus. Em um mundo que nos apresenta tantas outras opções “régias”, ou seja, opções que regem nossa vida e manifestam o que são nossos valores últimos, o texto nos leva a verificar se realmente Jesus é o Rei de nossa vida; se é o Evangelho dele que nos rege ou se o título não passa de mais um dos rótulos vazios, sem consequências práticas, tão queridos dos arautos de uma religião intimista, sentimentalista e individualista, tão em voga em nossos tempos. Será que a utopia do Reino de Deus, o seguimento de Jesus até a Cruz, a prática da justiça do Reino são os elementos que norteiam as nossas práticas, individuais e comunitárias? Se não, então Jesus Cristo ainda não se tornou o Rei de nosso universo pessoal e eclesial. É o questionamento do texto de hoje, que nos lembra que Jesus não é rei conforme os padrões deste mundo, mas o Rei pobre e justo, tão esperado pelos oprimidos de todos os tempos. A proposta de Jesus para a sociedade não é a confirmação de uma estrutura piramidal, conforme os modelos históricos, mas sua mudança radical para que o mundo seja regido por princípios de solidariedade e justiça, de partilha e fraternidade. Ele é Rei, no sentido da esperança dos “pobres de Javé” do Antigo Testamento, tão bem retratada pelo profeta Segundo Zacarias: “O seu Rei está chegando, justo e vitorioso. Ele é pobre, vem montado num jumento, num jumentinho, filho de uma jumenta. Ele destruirá os carros de guerra de Efraim e os cavalos de Jerusalém, quebrará o arco de guerra. Anunciará paz a todas as nações, e o seu domínio irá de mar ao mar, do Rio Eufrates até os confins da terra” (Zc 9,9ss). Jesus será o nosso rei conforme vivermos esses valores da verdadeira shalom, que inclui a paz, a não violência, a partilha e a justiça. A crise atual no sistema financeiro mundial, com suas cifras astronômicas de apoio a bancos e banqueiros falidos, enquanto somente migalhas são destinadas aos bilhões de famintos e sofridos do mundo, demonstra bem como a sociedade atual é dominada pelos interesses do lucro e do capital, mesmo em países que se dizem cristãos. Estamos longe de um mundo onde Jesus Cristo seja realmente o Rei, regido pelos valores que Jesus encarnou em sua pessoa, projeto, ensinamento e opções, e que nós herdamos como discípulos, discípulas dele. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Eu vos chamei a serviço da justiça (Is 42,6)

Vivemos numa sociedade repleta de diversidade. A cultura, a educação, a religião, a família, a política, a economia… E é nessa pluralidade que o leigo cristão vive sua vocação. O leigo comprometido com uma sociedade mais humana começa, em sua própria família, a exercer seu chamado ao seguimento de Jesus, na vivência do respeito mútuo e numa relação de justiça e fraternidade na sociedade. É também a família cristã que descobre os meios de fortalecer sua fé na partilha dos desafios encontrados ao longo do dia, no trabalho, na escola ou com os amigos e, na oração, colocar tudo nas mãos do Deus da Vida. Especialmente neste ano de 2020, quando fomos surpreendidos pela pandemia do novo coronavírus, a qual nos levou a mudar tantos hábitos e rever tantas atitudes em nossas vidas, nós, cristãos leigos e leigas, assumimos os mais variados desafios junto à Igreja de Cristo e à sociedade. Isolamento social, igrejas fechadas, comércio com horário reduzido, desemprego, hospitais com 100% de ocupação pela covid-19 e, ao mesmo tempo, pessoas desejosas de um coração solidário que lhes ofereça conforto, cesta básica e esperança. Em meio a tudo isso, como leiga numa paróquia no Rio de Janeiro, membro da Pastoral da Comunicação, vi a Igreja se abrir a uma nova perspectiva que poderia levar Jesus a todos os que dele necessitassem, de um jeito novo. Uma Igreja que se mostrou tão viva como nas missas de domingo, uma Igreja que fazia Jesus presente em cada casa, pela transmissão da santa missa, e misericordiosa nas confissões em drive-thru ou nas missas celebradas no pátio de um hospital aqui no bairro. Quero compartilhar com você algumas experiências neste tempo de pandemia que marcaram meus dias e minha vida. Tenho vivo em minha memória o dia em que eu e Alessandra, cristãs leigas da Pascom, transmitimos o cortejo de Jesus Eucarístico, no dia de Corpus Christi. As ruas vazias de gente, mas as casas abençoadas por Jesus. Era ali que Ele estava… Em cada casa, em cada coração, nos hospitais por onde passamos. Os comentários nas redes sociais por onde transmitíamos eram cheios de emoção pela dor da perda de um ente querido ou pelo conforto de Jesus estar passando na sua porta. Uma música ficou impressa em nós… “Aonde mandar, eu irei. Seu amor eu não posso ocultar. Quero anunciar, para o mundo ouvir, que Jesus é o nosso Salvador!” (“Nossa missão”, de Adriana Arydes). Vivenciamos um tempo que precisou e precisa de divulgação, das formas mais inovadas, para pedir doações, usando a tecnologia para continuar atendendo as famílias assistidas pela Pastoral Social. Todas as semanas, continuam chegando alimentos, material de higiene e limpeza. E todo aquele que doa não somente entrega os donativos, mas ajuda os irmãos necessitados a viverem com dignidade. Creio ser esta a vocação do cristão leigo: “Em toda a sua ação no mundo, é necessário que o cristão saiba discernir as condições em que se encontra e a busca dos meios mais coerentes e eficazes de agir. Isto é tarefa permanente que solicita a atitude profunda de fé e o aprofundamento da razão” (Cristãos Leigos e leigas na Igreja e na sociedade, CNBB, Doc. 105, n. 244). Para o cristão leigo, a conversão ocorre diariamente. “Esta conversão comporta várias atitudes que se conjugam para ativar um cuidado generoso e cheio de ternura. Em primeiro lugar, implica gratidão e gratuidade, ou seja, um reconhecimento do mundo como dom recebido do amor do Pai, que consequentemente provoca disposições gratuitas de renúncia e gestos generosos, mesmo que ninguém os veja nem agradeça” (Laudato Si’, n. 220). Feliz e desafiador Dia Nacional dos Cristãos Leigos e Leigas! Nanci Regis Queiroz Afonso, educadora, membro da Pascom na Paróquia São Marcelino Champagnat, Rio de Janeiro-RJ, Missionária Leiga de Deus Uno e Tino.

Consciência negra confronta a lógica do capital

A diáspora dos povos africanos, vivida de maneira traumática há 350 anos, desde a rota escravagista em direção às Américas, atingiu uma etapa crucial para os rumos da história em 2020. Este é o momento em que as populações afro-americanas se organizam em torno de uma agenda reivindicatória contra a violência policial, em favor de medidas reparadoras para acesso ao mercado de trabalho e por uma saúde que barre a dizimação do povo negro pela covid-19 nas periferias do mundo. Talvez surpreendendo seus pares, a historiadora Lilia Schwarcz chegou a publicar que este é o “verdadeiro ano em que estamos terminando o século XX e iniciando o XXI”,1 tamanhos são os impactos sentidos nas pressões sociais pelo fim de privilégios salvaguardados em estruturas de poder excludentes. No Brasil, um dos gestos concretos de inconformismo com a sociedade da exclusão poderá terminar em uma representação junto ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em setembro, a Educafro, uma das organizações mais representativas do movimento antirracista e pioneira na defesa das cotas raciais nas universidades, enviou carta à Bolsa de Valores de São Paulo, questionando o fato de que as empresas ingressantes na chamada B3 não assumiam nenhum compromisso em favor da inclusão racial e de gênero, como explica o diretor executivo da Educafro, frei Davi Santos: “Toda empresa é obrigada a cumprir uma série de regras para ter suas ações negociadas no mercado de capitais. Porém, curiosamente, a Bolsa de Valores, fundada logo depois da Abolição da Escravatura, em 1890, não tem nenhuma regra que estabeleça a prática de políticas de inclusão dos mais pobres como condição para que as empresas operem na B3.” Até agora, passados mais de dois meses em que a carta foi protocolada, a Educafro ainda aguarda o posicionamento da Bolsa de Valores. Neste mês em que se comemora o Dia Nacional da Consciência Negra, mesmo sem o feriado, “retirado” pela Prefeitura de São Paulo, que o antecipou para maio, a Educafro poderá entrar com uma ação de inconstitucionalidade no STF, contra a Bolsa de Valores. “A instituição, que é uma concessionária do direito de explorar o mercado de capitais, não cumpre o artigo 192 da Constituição brasileira”, afirma frei Davi. “Este artigo assinala que é obrigação do sistema financeiro promover o desenvolvimento equilibrado do país e servir aos interesses da coletividade.” Na carta endereçada à B3, uma das reivindicações da Educafro, em sintonia com as vozes do Movimento Negro, tem grande potencial para mexer com a lógica do mercado no Brasil: a entidade quer criar o “índice de equidade racial e de gênero” que dê visibilidade às empresas com maior comprometimento com esses temas. Para frei Davi, a luta é contra o racismo estrutural que também está enraizado no mercado de ações. Não por acaso, a designação de “racismo estrutural” é uma das mais recorrentes nos turbulentos tempos em que vivemos. É também o título do livro do filósofo Silvio Luiz de Almeida.2 Silvio define o racismo estrutural como um fenômeno sistêmico, entranhado às estruturas do poder, que atinge somente grupos étnico-raciais subalternizados. No racismo estrutural, a cor da pele e as práticas culturais são dispositivos materiais para gerar privilégios, vantagens políticas, econômicas e afetivas em favor do grupo hegemônico. As demissões seletivas de negros durante a pandemia é um exemplo de racismo estrutural, como lembra frei Davi: “As empresas começaram a onda de demissões pelos empregados negros. Recebemos dezenas de denúncias nesse sentido”. O fundador da Educafro pede mais atenção por parte da Igreja, “para que coloque em prática o vigor da proposta do Deus Criador, que é o vigor da integração, do acolhimento e da valorização de todo ser humano, sem distinção de cor, classe social e aparência”. 1 SCHWARCZ, Lilia Moritz. Quando acaba o século XX. São Paulo: Companhia das Letras, 2020. E-book gratuito disponível em https://www.blogdacompanhia.com.br/conteudos/visualizar/E-book-gratuito-Quando-acaba-o-seculo-XX-de-Lilia-Moritz-Schwarcz2 ALMEIDA, Silvio Luiz de. O que é racismo estrutural. Belo Horizonte: Letramento, 2018. (Coleção Feminismos Plurais.) José Manoel Rodrigues é jornalista e educomunicador.

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