5º Domingo do Tempo Comum

“Foi para isso que eu vim”Mc 1,29-39 O texto de hoje pode ser dividido em três partes: a cura da sogra de Pedro (versículos 29 a 31); curas em Cafarnaum (versículos 32 a 34); Jesus reforçando sua vocação e missão pela oração (versículos 35 a 39). O conjunto forma uma unidade que nos ensina coisas importantes para nossa vida de cristãos. A cura da sogra de Pedro faz contraste com a cura no trecho anterior (1,23-28). Aquela cura se dava num lugar considerado “sagrado”, a sinagoga, enquanto a de hoje, num lugar “profano”, a casa. Aquela era de um homem; de hoje, de uma mulher. A primeira, num lugar público; a da sogra, num lugar privado. Assim, Marcos enfatiza que a missão libertadora de Jesus abrange tudo e todos, sem distinção de gênero, condição social ou local. A sogra, quando curada, levanta-se e começa a servir os discípulos, ou seja, quem é libertado, libertada por Jesus não se satisfaz com isso, mas, em resposta, coloca-se a serviço da comunidade. O encontro com Jesus nunca é algo somente intimista, como querem tantos grupos e movimentos hoje, mas sempre leva à comunidade e à missão. A cura das multidões de doentes nos mostra a situação do povo no tempo de Jesus: muitos enfermos de todos os tipos, por falta de recursos. Muito semelhante ao Brasil de hoje. Jesus expulsa os demônios, o que significa, na linguagem daquela época, de tudo o que oprimisse a pessoa humana, todas as manifestações do mal. Como o texto anterior, o atual também nos convida a descobrir quais manifestações do mal devem ser afugentadas de nossa sociedade de hoje, as que deixam tantas pessoas sem saúde, sem recursos, sem uma vida digna dos filhos e filhas de Deus. O Evangelho de hoje nos convida a lutar, não por meio de exorcismos teatrais e chocantes, mas por uma luta permanente e firme em favor dos que sofrem. A terceira parte do texto nos traz o segredo da missão de Jesus. Mesmo esgotado com o trabalho em favor do povo, Ele se levanta de madrugada para ficar na intimidade com o Pai. Na solidão do sertão, em oração, Ele reza sua missão e se abastece com a força do Pai. Na solidão do mato, Jesus achou a força para poder fracassar, humanamente falando. A atitude de Pedro e dos companheiros é outra: “Todos o estão procurando”. Isso significa, “Você está fazendo sucesso em Cafarnaum! Volte para lá, faça mais sucesso ainda”. A tentação permanente do poder e da fama, em que, no fundo, busca-se mais a autorrealização e o prestígio do que a vontade de Deus. Tentação muito atual para os tele-evangelizadores e para todos nós. Mas Jesus não cai. A resposta dele é contundente: “Vamos para outros lugares, pois foi para isso que eu vim”. Jesus não deixa que a fama e o prestígio o tirem do caminho do Servo de Javé. Ele anda pelas aldeias da Galileia, no “fim da picada”, para levar a compaixão de Deus aos mais abandonados e sofridos, nos becos sem saída de Israel. Esse trecho demonstra a dinâmica interna da vida de Jesus, que deve ser a de cada vida cristã. Quanto mais Ele trabalha na missão, mais sente a necessidade de rezar. Mas, quanto mais Ele reza, mais tem força para voltar à missão. Jesus não está a serviço dele mesmo nem de uma estrutura, mas do Pai e do povo, dois aspectos da mesma missão. O texto nos adverte contra duas tentações comuns na Igreja de hoje: a de só trabalhar, sem aprofundar a vida íntima com Deus; e a de só “rezar” de uma maneira individualista e intimista, sem dedicação à missão. Jesus mostra que a missão leva à oração e a oração leva à missão, e não a qualquer missão, mas à da libertação do povo sofrido e oprimido. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
O desafio do combate ao tráfico de pessoas

Estamos vivendo uma profunda mudança de época, como menciona o número 44 do Documento de Aparecida. São alterações tão profundas, tão globalizadas que afetam os critérios de compreender e julgar a própria realidade, em todos os sentidos. Entre as violações aos direitos humanos está o crime do tráfico de pessoas, que já se analisa como a terceira modalidade de crime mais lucrativa no mundo, ficando atrás apenas do tráfico de armas e drogas (no Estado do Pará, temos uma quarta modalidade criminosa, que é a grilagem de terra, ou melhor, a falsificação de documentos de terras públicas, passando-as para particulares). Por isso vamos falar do tráfico de pessoas que envolve a privação de liberdade, a exploração, a violência e, em muitos casos, finaliza com a morte, caso as vítimas se neguem cumprir as regras estabelecidas pelos aliciadores. É muito difícil fiscalizar ou combater esse crime, devido à falta de leis claras de proteção às vítimas, principalmente na Amazônia brasileira, onde não há fiscalização nas longas distâncias geográficas. Na maioria dos casos, as vítimas são surpreendidas com ofertas espetaculares de sucesso e projeção na vida. No ano de 2000, foi aprovado o Protocolo contra o Crime Organizado Transnacional, Relativo ao Combate ao Contrabando de Migrantes por Vias Terrestre, Marítima e Aérea. Em 2003, o Protocolo entrou em vigor. Essa luta deve ser de todos para garantir a proteção dos direitos humanos, a liberdade, a dignidade e a vida. O Protocolo define bem, no artigo 3º, alínea “a”, o que é tráfico de pessoas: A expressão “tráfico de pessoas” significa o recrutamento, o transporte, a transferência, o alojamento ou o acolhimento de pessoas, recorrendo à ameaça ou uso da força ou a outras formas de coação, ao rapto, à fraude, ao engano, ao abuso de autoridade ou à situação de vulnerabilidade ou à entrega ou aceitação de pagamentos ou benefícios para obter o consentimento de uma pessoa que tenha autoridade sobre outra para fins de exploração. A exploração incluirá, no mínimo, a exploração da prostituição de outrem ou outras formas de exploração sexual, o trabalho ou serviços forçados, escravatura ou práticas similares à escravatura, a servidão ou a remoção de órgãos. No Brasil, com grande pressão de entidades e da sociedade civil organizada, foi aprovada a Lei 13.344, de 6 de outubro de 2016, de prevenção e repressão ao tráfico interno e internacional de pessoas. No artigo 3º, define as diretrizes no enfrentamento ao tráfico de pessoas, que envolvem todas as categorias sociais, governamentais e não governamentais. Contudo, mesmo que haja uma legislação mais rígida, ainda estamos longe de abolir esse crime. No entanto, as diversas modalidades de tráfico de pessoas tornam sua atividade ilegal como uma das mais lucrativas do mundo. É um crime totalmente articulado e organizado nacional e internacionalmente. Na exploração sexual comercial, mulheres, travestis e crianças do sexo feminino são as principais vítimas. Ao longo destes 30 anos em que vivo e cumpro minha missão como religioso missionário da Congregação do Verbo Divino e advogado em defesa da vida e das causas sociais na região do baixo Amazonas, no Oeste do Pará, nós nos deparamos com essa triste realidade. Existem várias rotas de tráfico, principalmente ao longo do rio Amazonas, tendo uma conexão em Manaus, Santarém, Belém, Ilha de Marajó, Macapá, Guiana Francesa, seguindo para Europa ou outros países. A Comissão de Justiça e Paz da CNBB, no Regional Norte II (Pará e Amapá), representada pela irmã Marie Henriqueta Cavalcante, tem atuado incansavelmente no combate ao tráfico de pessoas e em solidariedade e proteção das vítimas. Frequentemente, ela assessora as lideranças das dioceses de Óbidos, Santarém, Xingu e Prelazia de Itaituba. Um trabalho de prevenção e também análise de estratégias de risco, pois ela mesma e outras pessoas já foram ameaçadas. Por isso Ir. Henriqueta afirma: Ao longo destes anos, o que venho percebendo, através do contato direto com a realidade na região da Amazônia, e em outras localidades do nosso país, é que precisamos avançar enquanto rede e sermos mais velozes para fazer acontecer a política de enfrentamento e de atendimento às vítimas desse crime. O relatório da Comissão de Justiça e Paz (Pará e Amapá) de 2018 afirma que foram recebidas 5 denúncias de tráfico de pessoas e 398 casos de exploração sexual. A valorização das ações de prevenção no enfrentamento ao tráfico de pessoas é a grande mudança que os atores brasileiros devem reconhecer, priorizando as pessoas mais vulneráveis, atingindo e protegendo para que não caiam nas redes de traficantes. É importante a implantação de políticas públicas e políticas sociais para que o ser humano tenha a sua dignidade respeitada, evitando, assim, o sofrimento humano, e os colocando como indivíduos de direitos e merecedores de igualdade e respeito. Os direitos humanos têm um papel fundamental na orientação de programas, ações e de medidas de prevenção ao combate ao tráfico de pessoas, protegendo e reparando as vítimas. Veja mais Quem são essas mulheres? – a relação entre grandes projetos e a exploração sexual na Amazônia Padre José Boeing é missionário do Verbo Divino, advogado, mestre em Direito Ambiental e, há três décadas, atua no Estado do Pará.
A diversidade nos enriquece, e o respeito nos une

Aos poucos, nossas escolas estão retomando e ganhando vida novamente. Porque escola só tem vida e alegria quando tem gente. Gente com G maiúsculo, aberta às possibilidades e que goste de gente. Por esse motivo, após viver oportunamente, em 2020, o tema “Escola viva, vê, sente e cuida”, em meio a um confinamento involuntário e necessário, nós nos tornamos mais resilientes e resistentes. Agora, abrindo este novo ano, ainda com muitos cuidados e protocolos, apresentamos o novo tema: “A diversidade nos enriquece, e o respeito nos une”. Antes de continuar, pare e pense um instante: o que esse tema provoca em você? A cada ano, inspirados pela Campanha da Fraternidade, os educadores da Rede de Educação, juntamente com as irmãs, participam do processo de elaboração e de escolha do tema transversal. O tema escolhido e lançado no início do ano letivo é responsável por permear e inspirar todas as ações pedagógicas e as vivências em nossas comunidades educativas. Falar em diversidade, respeito e unidade é sempre genial e desafiador. Genial porque diz respeito ao que buscamos como humanidade e pelas conquistas já realizadas. Desafiador por compreender que temos ainda um grande caminho a ser trilhado, em que a educação tem um papel fundamental. É fundamentalmente na escola que, além de pensar este e outros temas, temos a possibilidade de conviver com pessoas tão diferentes da gente, construindo relações harmoniosas e de respeito. Por isso ainda precisamos aprender muito sobre a diversidade. Precisamos entender que muitas são as visões de mundo, não uma única, e que somente com essa compreensão poderemos entender o outro em sua individualidade. Cada cosmovisão tem seu valor. Para isso, precisamos nos colocar em atitude de bons ouvintes e observadores, deixando de lado nossas formas impositivas. Pelo diálogo, conseguimos entender que todos cabem neste mundo, cada qual do seu jeitinho. Não por acaso, quando comecei a pensar e escrever sobre este tema, caiu em minhas mãos o livro Ideias para adiar o fim do mundo, o qual recomendo a você. Segundo Ailton Krenak, vivemos uma lógica atual que “suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existências e de hábitos. Oferece o mesmo cardápio, o mesmo figurino e, se possível, a mesma língua para todo mundo”. Talvez porque estejamos ainda condicionados a uma única ideia de ser humano e a um único tipo de existência possível. Por isso somos convidados a desconstruir essa concepção e fazer novas escolhas. Afinal, “definitivamente não somos iguais, e é maravilhoso saber que cada um de nós é diferente do outro, como constelação. O fato de podermos compartilhar esse espaço, de estarmos juntos viajando não significa que somos iguais, significa exatamente que somos capazes de atrair uns aos outros pelas diferenças, que deveriam guiar nosso roteiro de vida”. Com essa última ideia do líder indígena Krenak, deixo aberta nossa reflexão para o ano de 2021, convidando você e sua escola para ampliar nosso círculo de reflexão, a fim de contribuir na construção da sociedade que buscamos. Agostinho Travençolo JúniorEducador e coordenador da Dimensão Missionária da Rede de Educação SSpS
Uma pipa no céu

Estava eu numa cidade do interior de São Paulo. Era meia-tarde! Caminhava num jardim cercado de muros da casa onde me hospedava. Olhei para o céu e logo vi duas pipas (papagaios, pandorgas). Não vi quem as empinava. Era alguém que estava na rua. O céu estava ensolarado, com um azul de arrancar suspiros de tão bonito estava! O vento não era forte, mas refrescante. Parecia que a natureza, naquela hora, convidava a elevar o pensamento. Foi o que fiz. Comecei a observar as pipas, ziguezagueando no ar. Elas subiam e desciam. Suas caudas se espraiavam no ar, fazendo como uma onda suave, balançando, despertando em mim uma vontade de voar. Distraidamente, quase sem querer, comecei a pensar. Quem estaria lá na ponta da linha, manobrando com tanta maestria aquelas pipas? Poderiam ser umas crianças; elas gostam de brincar com pipas. Mas há também adultos que o fazem. Comecei a imaginar que aquelas pipas poderiam ser, além de objetos para brincar, símbolos daquilo que vai no coração das crianças e também da gente adulta. Subir para o céu e lá permanecer, num balancear suave, é um anseio do coração humano que não se contenta nem se satisfaz com aquilo que é só da terra! A alma humana precisa de algo que seja mais sublime, mais transcendente, mais eterno! Que mora lá no céu! Quando me veio esse pensamento, comecei a imaginar mais coisas. Por exemplo, não é todo dia nem toda hora que se empinam pipas! Se não houver vento, se o dia estiver chuvoso, se for noite, a pipa não sobe! Assim também na vida! Se ela não tiver “alma” que a eleve além dos horizontes que as mãos alcançam, ela fica sem graça e sem beleza. Se ela for como dia chuvoso, cheia de problemas, o sol não brilha, fica sem sentido, afundada no lamaçal das dificuldades. Se ela for como a noite escura, vivendo nas sombras, nos subterfúgios, ninguém a verá. A pipa é para viver no céu. Para ela ir lá e ficar, precisa de alguém que a manobre, alguém que lhe dê direção, alguém que a controle. Se a deixar ao léu, ela some, cai! É necessário um fio que a mantenha ligada à terra e, ao mesmo tempo, a conduza para o céu! Nossa vida também é assim. Tem sentido se vive para transcender-se, mantendo-se com os pés na realidade. Seu sentido está em alcançar o céu, mas não pode desligar-se daquilo que está na terra. Para manter o equilíbrio entre o céu e a terra, a linha tem de ser boa e flexível. Contudo há quem empine pipas e se veste de más intenções. Pode querer cortar a linha do outro. Passa cerol, e a linha fica perigosa. Quando se encosta à outra, corta, rompe, e a pipa se perde do rumo, e começa despencar. Um bando de crianças corre atrás, desesperado para agarrar a pipa que vai trambolhando sem lugar certo para cair. Quem a pega continua correndo, com medo de que alguém a tome, e assim, aquilo que era pura diversão e beleza torna-se competição, agressão. Não devia ser assim, pois, na vida, cada um tem o direito de cuidar da sua, levá-la para onde quiser, sem ameaças e sem medo de que o outro lhe roube o prazer de viver. As pipas só descem quando quem a empina enjoou da brincadeira ou quando cai a noite. A vida fica enjoada quando perde seu encanto ou quando fica escura, vazia, quando não se sabe mais o que fazer com ela. Aí é como o empinador de pipa: enrola sua linha, e ela fica amontoada em algum canto. A vida assim é ruim, fica sem sua graça e sem sua beleza. A vida é bela quando cada dia pode realizar seus sonhos, ficar com um pé na terra e outro no céu. Só na terra perde o sentido. Pior fica quando alguém, com o fio com cerol, encosta nela não para brincar junto, mas para cortar a linha. Este não só rouba o prazer da vida do outro como lhe tira as chances de continuar no céu e de lá voltar quando quiser. Tira-lhe a liberdade de escolher. Fere o prazer de viver seu momento de alegria. Quando a vida se torna isso, um derrubando o outro, alegrando-se com a desgraça alheia, ela perde o encanto e a poesia. Pipa é bonita no céu, balanceando sua cauda sem pressa para voltar e sem sofreguidão para subir demais! Só até onde a linha permite. Uma pipa no céu é sinal de uma criança (adulto) na terra feliz, é lá que a alma humana um dia quer morar para sempre! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.
4º Domingo do Tempo Comum

“O que é isso? Um ensinamento novo, dado com autoridade”Mc 1,21-28 O evento relatado no texto de hoje demonstra um dos temas básicos do Evangelho de Marcos (e de todos os Evangelhos): o confronto entre o Reino de Deus, concretizado na pessoa e projeto de Jesus, e do Mal, expressado, na linguagem e mentalidade daquele tempo, na imagem de um homem doente, “possuído por um espírito impuro”. Marcos vai seguindo a caminhada de Jesus, sempre com essa luta como pano de fundo, até o conflito definitivo no Calvário, que leva, não por meio de milagres, mas da Cruz, até a vitória definitiva na Ressurreição. Tipicamente, Marcos enfatiza que Jesus ensinava; mas, como é costume dele, não nos explicita o que ele ensinava. Ilustra, contudo, o conteúdo do ensinamento do Mestre, relatando uma ação dele: a cura de um homem “possesso”, ou seja, libertando alguém do domínio do mal. Aqui não devemos nos fixar na cosmovisão da época, que tratava toda doença como expressão de um espírito mau, mas em que o evangelista quer nos mostrar. Na chegada do Evangelho do Reino, acontece a libertação verdadeira, em que o Mal, o pecado, com todas as suas expressões, está derrotado pelo Bem. No relato de hoje, com as imagens usadas, os dois poderes estão frente a frente; o Bem contra o Mal. No texto, o Mal, falando por meio do homem, reclama contra a chegada do Bem: “O que queres de nós, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir?”. O Mal, mesmo quando disfarçado, nunca aceita a chegada de um projeto alternativo; o poder, que aliena e domina nunca aceita um ensinamento ou prática que liberta e conscientiza. Isso continua até hoje: enquanto as igrejas se contentam com ações paliativas e assistenciais (sem negar o seu valor e urgência) diante do sofrimento das massas, ninguém vai reclamar; mas, quando as atividades eclesiais começam a conscientizar sobre as verdadeiras raízes do sofrimento do povo, as igrejas e seus agentes são perseguidos. Como dizia o saudoso Dom Helder Câmara: “Quando eu fazia campanhas em prol dos pobres, me diziam ‘o senhor é um santo’, mas quando comecei a perguntar por que existiam tantos pobres, me falaram ‘o senhor é um comunista!’”. Sabemos o quanto o santo Dom Helder foi perseguido pelo poder dominador aqui no Brasil. Então o relato nos ensina que, com a chegada de Jesus (portanto, também pela ação das comunidades dos seus discípulos e discípulas), algo essencialmente diferente acontece. Marcos sublinha isso pela reação do povo: “O que é isso? Um ensinamento novo, dado com autoridade”. A diferença do ensinamento de Jesus não estava tanto em seu conteúdo, pois isso foi profundamente enraizado no Antigo Testamento, mas em sua maneira de ensinar. Ele não dependia de citar autoridades, como faziam os escribas, mas falava com base em sua própria experiência de Deus, do Deus da vida e não do Deus que estava ofuscado por tantas leis e discussões legalistas e teológicas. Jesus devolveu ao povo sua autonomia de consciência, libertou-o da dependência dos escribas e revelou o verdadeiro rosto de Deus, que é partidário dos sofredores, demonstrando que é a vontade de Deus que toda força que aliena, domina e oprime (aqui representada pela força demoníaca) seja derrotada pela mensagem libertadora do Evangelho. Cabe a nós, seus seguidores, seguidoras, achar meios para praticar esse projeto em nossa situação concreta, não correndo atrás de milagres, de falsos messias, de uma teologia de retribuição ou de prosperidade, mas seguindo o projeto do Nazareno, construindo uma sociedade, uma economia, uma política de solidariedade, compaixão, justiça e fraternidade; manifestação do projeto de Deus para seus filhos e filhas. Essa ação começa no “micro” (em nossa família, comunidade, bairro, Igreja), pois a opção entre os dois projetos de vida se dá a cada dia, em cada opção e ação nossa. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
A simples observação

Pensar na estrutura da escola de hoje nos faz refletir sobre os grandes desafios da Educação. Vivemos numa era digital, com uma economia globalizada, tendo informações rápidas, em tempo real e em grande escala. Chamo a atenção para um pequeno, mas fundamental exercício: a observação dos alunos. Ter vários jovens, com diferentes aspirações e criações distintas, em um mesmo ambiente sempre foi um desafio. Mantê-los atentos por um longo período, então, é uma árdua missão. Os educadores têm de lidar não só com as questões comportamentais das crianças e dos adolescentes, mas também acompanhar e aprimorar-se com o uso das inovações metodológicas. Há pouco tempo, a preocupação de pais e professores era deixar os aparelhos celulares fora das salas de aula, hoje a cultura digital é uma das competências estabelecidas pela Base Nacional Comum Curricular. Essas inovações obrigam os docente a terem uma nova postura em sala de aula, utilizando recursos mais dinâmicos, atraentes e desafiadores para despertar a atenção de seus alunos. A cultura digital propõe compreender, utilizar e criar novas tecnologias educacionais que aprimorem a comunicação, o acesso e a produção de novos conhecimentos, além da resolução de problemas, o exercício da cidadania e tornando os alunos protagonistas da própria aprendizagem. Com todas essas mudanças, temos observado que muitas escolas priorizam cada vez mais a tecnologia e esquecem o que é essencial na formação do estudante: a criação de uma cultura que proporcione o diálogo, o respeito e a empatia para uma convivência fraterna. Estabelecer um vínculo baseado no acolhimento e em valores sólidos auxilia na criação de uma relação saudável em trocas frutíferas entre professor, aluno e família. Um dos desafios dos educadores é, portanto, perceber o comportamento de seus alunos, pela simples observação. Esse é um trabalho contínuo que ocorre em todos os espaços escolares. Não é possível, na sociedade contemporânea, abrir mão da discussão dos fenômenos tecnológicos, uma vez que as metodologias de ensino tradicionais não atendem mais às expectativas dos alunos do século XXI, mas sem perder de vista o desenvolvimento da pessoa humana. Lílian Correia SedlmayerDiretora Educacional do Colégio Stella Matutina, Juiz de Fora-MG.
Sobre cultura de paz

Meus olhos passeiam sobre uma linda paisagem, enquanto estou retirada para alguns dias de descanso, após um ano de trabalho intenso ao redor do tema “cultura de paz”. Cultura de paz é inseparável de ambiente saudável, garantia alimentar, educação universal e acesso a instituições eficazes e gratuitas. Assim, refletir sobre a cultura de paz desperta as mais diversas possibilidades de explorar o tema. Poderia ser via Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 16 da ONU, 1 que rege sobre “Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis”. Ou com base no Relatório de Desenvolvimento Humano (IDH), publicado no início de dezembro de 2020 pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento). Segundo esse estudo, o Brasil é o sétimo país mais desigual do mundo, ficando atrás apenas de nações do continente africano. O último relatório do IDH introduziu uma novidade, ao incluir emissões de dióxido de carbono e quantidade de recursos naturais utilizados nas cadeias produtivas de países, proporcionalmente às suas populações. Esse novo índice, chamado de Índice de Desenvolvimento Humano Ajustado às Pressões Planetárias (IDHP), mostra a necessidade de ligar o desenvolvimento ao bem-estar das pessoas e à integridade do planeta. Para se ter uma ideia do peso desse indicador, observa-se que, quando incluídos a pressão planetária e os maus-tratos ao meio ambiente, a Noruega, que lidera a lista do IDH, perde 16 posições, e os Estados Unidos perdem 45. 2 Assim, o trabalho pela cultura de paz tem muitas facetas. Minha contribuição ao longo de 2020 foi na coordenação do projeto Rede Justiça Restaurativa, uma parceria entre o Centro de Direitos Humanos e Educação Popular (CDHEP), o PNUD, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e o Departamento Penitenciário. O objetivo é implantar uma política de justiça restaurativa em dez Estados, por meio dos Tribunais, na Justiça Criminal e no Sistema Socioeducativo. O foco das ações restaurativas está no assumir responsabilidade e reparar danos, mais do que na criminalização de condutas e no encarceramento. Foi uma grata satisfação aprofundar, junto com a equipe do CDHEP, a justiça restaurativa nesses Estados. Ao longo de muitas horas de formação, todos crescemos no conhecimento e no diálogo com novas possiblidades que o arcabouço jurídico existente oferece, também em matéria criminal. Justiça restaurativa é uma possibilidade para todos os crimes, pois a cada pessoa é oferecida a oportunidade de refletir sobres seus atos, assumir responsabilidade de reparar, na medida do possível, os danos causados. No entendimento do CDHEP, a justiça restaurativa também é uma possiblidade de restaurar vítimas de violências estruturais, o que pede uma abordagem ampla, complexa e ainda pouco usual. Quando o PNUD inclui a pressão e os danos sobre o meio ambiente de países que parecem ou pareciam ser modelo em muitos aspectos, essas novas informações fazem com que perdem algo de seu encanto. São chamados a olhar para essa verdade, que mancha sua reputação, e reparar o dano que estão causando. É assim também a justiça restaurativa, quando olha para a desigualdade social e pede que a Constituição seja aplicada em favor de todos, de forma igual. Restaurar o justo e instaurar o direito, no Brasil que ocupa a sétima posição de nação mais desigual do mundo, é um desafio para a cultura de paz. Ao mesmo tempo, trabalhar pela justiça e a paz é parte integral do mandato missionário das servas do Espírito Santo. Ir. Petronella Maria Boonen (Nelly) é co-fundadora da linha de Perdão e Justiça Restaurativa do CDHEP e doutora e mestra em Sociologia da Educação pela USP.) ______________________________1 Instituto Aurora 2 Agência Brasil
3º Domingo do Tempo Comum

“Sigam-me, e eu farei vocês se tornarem pescadores de homens”Mc 1,14-20 O texto trata da vocação dos primeiros discípulos, conforme a tradição sinótica, em contraste com o do último domingo, que nos trouxe a tradição da comunidade do Discípulo Amado. Marcos logo destaca e situa concretamente o momento de Jesus lançar-se em sua vida pública: “Depois que João Batista foi preso”. Não é uma indicação meramente cronológica, mas causativa, no sentido de que Jesus começou a pregar porque João foi preso. Assim, Ele se coloca na tradição profética de João Batista, uma vocação que levaria Jesus, como levou João, ao martírio. O texto encapsula, no versículo 15, todo o conteúdo do Evangelho, na frase lapidar “O tempo já se cumpriu, e o Reino de Deus está próximo. Convertam-se e acreditem na Boa Notícia”. O Reino de Deus irrompeu no meio da humanidade de uma maneira definitiva, por meio da pessoa e ação de Jesus de Nazaré. Esse Reino exige resposta da parte das pessoas: a conversão que nasce da fé na Boa Notícia da salvação, da justiça e da paz que Jesus trouxe. Mas Deus quis precisar das pessoas para concretizar seu plano. Por isso o primeiro passo de Jesus foi formar uma comunidade de discípulos. É importante notar a atividade dos primeiros chamados: dois estavam “lançando a rede ao mar”, e dois estavam “consertando as redes”. Significa os dois aspectos da vida cristã: a missão (lançar as redes) e a comunhão (consertar as redes). Como as redes se rasgam de tanto serem lançadas, assim acontece com nossa vida, com nossas comunidades. Por sermos frágeis, facilmente se rompem nossa comunhão e unidade. Por isso temos também de dar tempo para “consertar” (fortalecer nossa união, nossa vida interior, nossa vivência comunitária). Rede rompida pega nada; e rede consertada, por tão bonita que possa ser, se não for lançada, também pega nada. É assim com a vida cristã. Se rompermos nossa unidade e comunhão, não traremos pessoas para o Reino. Mas, se cairmos em uma religião intimista e individualista, não nos lançando na missão, tampouco seremos “pescadores de homens”. O unilateralismo deve ser evitado. Também é de notar que tanto os dois que estavam lançando as redes como os que as estavam consertando tiveram de deixar algo para seguir Jesus: ou as redes (símbolo da segurança profissional) ou o pai e os empregados (símbolo da segurança afetiva). Não é possível seguir Jesus sem deixar algo. Uma religião de seguranças humanas, que não exige compromissos concretos e opções, às vezes, difíceis, não é a religião de Jesus. O Evangelho é como “espada de dois gumes” (Hb 4,12). Incomoda e desinstala-nos hoje, da mesma maneira do que os primeiros discípulos. Perguntemo-nos: “O que é que o seguimento de Jesus exige que eu deixe neste momento concreto de minha caminhada de discípulo ou discípula-missionário, missionária de Jesus e do Reino? Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
Religião não se discute?

“Você acredita em Deus?” Essa é uma pergunta comum em escola ou mesmo em rodas e redes sociais. “Não aponte o dedo para a estrela”, acreditam alguns. Tem gente que se benze quando passa diante de um cemitério ou de uma igreja, e até um despacho na curva de uma esquina, às vezes, é motivo de medo ou desprezo. Enfim, qual é sua religião? Ou você é agnóstico? As pessoas que creem deveriam ser mais tolerantes e testemunhas da justiça e da paz, mas, infelizmente, não é sempre assim. Há muitos estudiosos que afirmam que a maioria das guerras que ocorreram no mundo (e ainda acontecem) têm motivos religiosos. Até hoje, existe quem profana algo sagrado de uma religião, o que é um desrespeito e crime. Isso tem causado julgamentos e terrorismo entre nações. Há um ditado que diz que “futebol, política e religião não se discutem”, o que não é verdade. Já faz tempo que religião tem sido uma discussão mundial para educarmos nosso bom senso, a ponto de termos 21 de janeiro como Dia Mundial da Religião. Essa data foi criada em dezembro de 1949, em uma Assembleia Espiritual Nacional dos Bahá’ís, com o objetivo de promover o respeito, a tolerância e o diálogo entre as diversas religiões existentes no mundo. Após as Guerras Mundiais, a Organização das Nações Unidas (ONU) proclamou, em 10 de dezembro de 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Entre os 30 artigos, o de número 18 estabelece: Todo ser humano tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; esse direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença pelo ensino, pela prática, pelo culto em público ou em particular. O Brasil, por ser um Estado republicano e democrático, também é um Estado laico, isto é, um país onde toda crença deve ser respeitada, inclusive quem professa ser ateu. Conforme a Constituição Federal de 1988, art. 5º, “É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias”. Assim, todos podem manifestar sua religiosidade dentro dos limites do respeito e da fraternidade, pois o importante é que todos promovam a paz. Por que ainda há casos de preconceito religioso em nossa sociedade? Por que há disputa por adeptos entre as igrejas? Jesus disse que “Na casa de meu Pai, há muitas moradas” (Jo 14,2). E por que há pessoas que menosprezam aqueles grupos religiosos menores, de influência africana ou indígena? Jesus, um dia, afirmou à Samaritana que “Os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade” (Jo 4,5-42). Sabemos que a experiência mística é algo subjetivo. Somente na intimidade do ser, pode-se expressar a vivência transcendental. Muitas figuras bíblicas, como Moisés, José do Egito, profetas, José da Galileia, testemunharam a presença divina em suas vidas. O mesmo ocorreu e ocorre com homens e mulheres em tempos contemporâneos. Assim, não nos cabe julgar a revelação intrínseca daquele que crê. No entanto, a melhor maneira de combater a intolerância religiosa é com a prática do bem, observada pelo filósofo Immanuel Kant (1724-1804), ao escrever sua obra Crítica da razão prática. A data 21 de janeiro é também o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. Foi instituído pela Lei n.º 11.635/2007, para que possamos viver fraternalmente em sociedade, promovendo, assim, a empatia, estudos sobre a diversidade religiosa e a paz entre todos aqueles que creem. Atos ecumênicos são uma boa forma de expressar o respeito pelo outro, de unir adeptos de diferentes credos e doutrinas, palestras, orações em comum. Independentemente da crença, somos todos seres humanos que necessitam melhorar nossas relações interpessoais.Pense nisso! Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP e SBPC, atualmente professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, membro da Comissão de Prevenção e combate à tortura pela ALESC, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, pertencente à Arquidiocese de Florianópolis-SC.
Venha, 2021

Venha, mas chegue de mansinho! Venha, 2021, mas não me venha com metas e promessas particulares que abranjam apenas o universo particular! Dois mil e vinte e um será nosso ano-missão. Foi o que aprendemos no ano passado, no fatídico 2020: dar sentido profundo ao que fazemos. Isso é estar em missão. O acaso, o inesperado, o surpreendente, o encantador, o desalentador, as linhas tortas do Criador precisam nos encontrar em missão, plenos em atitudes e propósitos. Então… Venha, 2021! Mas chegue nos trazendo a esperança da vacina! Venha, 2021! Brinde-nos com a sabedoria daqueles cinco segundos de silêncio e discernimento antes de cada reação verbal, física e emocional! Venha, 2021! Renove nossas esperanças na construção de um mundo fraterno e inclusivo! Venha, 2021! Mova-nos para ações solidárias e sustentáveis! Venha, 2021! Amplie nosso olhar e nosso entendimento diante da dor do outro e de nossas próprias dores! Venha, 2021! Que nossa missão, ao longo dos 365 dias, seja marcada de afeto, espiritualidade e sensibilidade! Venha, 2021! Que tenhamos tempo livre para ser presença criativa mesmo em tempos de uma pandemia que se arrastará! Venha, 2021! Que nossa declaração de amor à humanidade continue sendo nosso zelo ao usar máscaras, lavar as mãos e manter a segurança do distanciamento social, sempre que possível! Venha, 2021! Que nossa fé seja também plena de obras e ações solidárias! Venha, 2021! E que, neste ano, o amor no cotidiano seja pleno e intenso na família, no trabalho, na escola, na comunidade! Venha, 2021! Que nossa ira também seja plena, sempre que preciso for! Venha, 2021! Pode chegar! Estaremos em missão nos 365 dias do ano. Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.