Semana dos Povos Indígenas Sementes de vida, resistência e esperança

Desde 1943, 19 de abril é lembrado, em nosso país, como o “Dia do Índio”. Um olhar sincero e honesto sobre a contínua relação de exploração, violência e preconceitos de vários atores de nossa sociedade com os povos indígenas nos faz questionar qual o sentido remanescente dessa data. Assumir a causa indígena como nossa é uma das mais apreciadas formas de celebrar e colaborar na luta e na resistência desses povos. A Semana dos Povos Indígenas 2020, organizada pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), apresenta a seguinte reflexão e convida todas e todos nós a assumir ações em defesa da vida dos povos originários e de nossa Casa Comum. O que podemos fazer em apoio à causa indígena no Brasil 1 – A defesa da vida dos povos indígenas começa com a defesa de seus territórios e com a ecologia integral que conecta o exercício da justiça, da igualdade e da solidariedade com o exercício do cuidado com a natureza (proposta: trabalhar essas questões em grupos). 2 – O Sínodo para a Amazônia propôs definir e discutir um novo pecado, “O pecado ecológico como uma ação ou omissão contra Deus, contra o próximo, a comunidade e o meio ambiente. É um pecado contra as gerações futuras e se manifesta em atos e hábitos de contaminação e destruição da harmonia do ambiente, em transgressões contra os princípios da interdependência e na ruptura das redes de solidariedade entre as criaturas e contra a virtude da justiça” (DF 82). 3 – Como um novo estilo de vida, uma “sobriedade feliz” (LS 224s), de toda a sociedade está ligado com a defesa da vida dos povos indígenas e com o pecado ecológico? 4 – Fazer um levantamento da presença de grupos indígenas na minha região e visitar o cárcere, para saber se há indígenas presos, quais foram os motivos e se existe proteção jurídica para eles. 5 – Manifestarmo-nos contra qualquer iniciativa jurídica ou legislativa que atentem contra os direitos indígenas assegurados constitucionalmente. Nesse sentido, é importante solicitar junto ao Supremo Tribunal Federal que, ao julgar o Recurso Extraordinário número 1.017.365, caracterizado como sendo de repercussão geral, faça-o tendo como parâmetro os direitos originários dos povos (fato jurídico do Indigenato) contra a tese jurídica do marco temporal, que pretende impor restrições às demarcações de terras, argumentando que os indígenas somente teriam direito a uma terra se nelas estivessem fisicamente, ocupando-a, por ocasião da promulgação da Constituição Federal, em 5 de outubro de 1988. Essa tese é uma aberração jurídica e precisa ser extirpada do sistema de justiça brasileiro. O Cimi (Conselho Indigenista Missionário) preparou dois vídeos para marcar a Semana dos Povos Indígenas: Fonte: folder da Semana dos Povos Indígenas 2020 Ir. Stela Martins, SSpS Coordenadora da Redes Rede de Solidariedade

Declaração de apoio ao Cimi

A Vivat Brasil, rede de congregações religiosas filiadas à Vivat International, fiel à sua missão de: • trabalhar com pessoas e grupos que vivem em qualquer tipo de pobreza e compartilhar seus esforços para a restauração e preservação do bem-estar, dignidade e liberdade; • promover os direitos humanos; promover o desenvolvimento sustentável, a compreensão e a harmonia entre povos, culturas, classes, religiões e crenças; esforçar-se pela criação de uma sociedade mundial e comunidades locais que incentivem a inclusão e participação de todos; • trabalhar pela sustentabilidade ecológica, a proteção da biodiversidade e a preservação da riqueza do planeta para as gerações futuras, Manifesta sua solidariedade aos povos indígenas que, na atual conjuntura do País, estão enfrentando perseguições e desrespeito de seus direitos, com o assassinato de vários de seus representantes; invasão de seus territórios por fazendeiros, grileiros, madeireiros, garimpeiros e hidronegócios, destruição de seu meio ambiente por agrotóxicos e incêndios criminosos, e extinção de políticas públicas favoráveis à preservação ambiental, demarcação de suas terras e órgãos de apoio e proteção. Da mesma forma, a Vivat Brasil apoia o Sínodo da Amazônia como um dos processos participativos em que a Igreja Católica mais se pôs à escuta dos povos indígenas e de seus clamores. Somente poderemos defender a vida, a Amazônia e todos os outros biomas por meio do protagonismo indígena e das comunidades e povos tradicionais, no respeito de sua autodeterminação e aprendendo seu estilo de vida e relação com a inteira Criação. Por isso fazemos nossas as denúncias apresentadas pela XXIII Assembleia-Geral do Conselho Indigenista Missionário – Cimi, realizada de 9 a 13 de setembro de 2019, em Luziânia-GO, com o tema “Em defesa da Constituição, contra o roubo e devastação dos territórios indígenas”. Em âmbito internacional, busquemos também apoiar, como propõe o Cimi, as iniciativas que sancionam produtos brasileiros quando produzidos ilegalmente em terras indígenas e à base de práticas criminosas, como as queimadas, invasões, arrendamentos e grilagens. Portanto, como expressão de compromisso e apoio, solicitamos a todos os membros das congregações filiadas à Vivat International e à Vivat Brasil bem como a seus simpatizantes e apoiadores que divulguem em suas redes sociais e contatos esta Declaração de Apoio e o Documento Final da XXIII Assembleia do Cimi, que transcrevemos a seguir. Participam de Vivat International as seguintes Congregações: • Sociedade do Verbo Divino • Missionárias Servas do Espírito Santo • Congregação do Espírito Santo • Irmãs Missionárias do Espírito Santo • Missionários Combonianos • Missionárias Combonianas • Irmãzinhas da Assunção • Irmãs da Santa Cruz • Missionárias Scalabrinianas • Missionários Dehonianos • Irmãs Adoradoras do Sangue de Cristo • Oblatos de Maria Imaculada • Irmãs do Santo Rosário Veja, na íntegra, o Documento Final da XXIII Assembleia-Geral do Conselho Indigenista Missionário – Cimi.

Guia Prático para o Mês Missionário Extraordinário

A Vivat Brasil, durante o encontro sobre o Sínodo da Amazônia, ofereceu este guia prático com sugestões e indicações de materiais para ser usados em outubro, para as atividades do Mês Missionário Extraordinário. Agora disponibilizamos na versão eletrônica, com os links para os materiais disponíveis na internet. Motivações e sugestões Para uso nas celebrações paroquiais, nas escolas, nos grupos de base e nas diversas instituições sociais das (arqui)dioceses. Motivação para o Mês Missionário Extraordinário (MME) e o Sínodo para a Amazônia (usar também o material do Mês Missionário):a. contextualizar a partir da Vivat Brasil;b. contexto atual do Brasil / importância do Sínodo e sua relação com o MME. 2. Sugestões práticas: Aproveitar o tempo antes das missas ou celebrações dominicais, para uma maior sensibilização a respeito do Sínodo, com vídeos e canções relativos ao tema da ecologia integral. Usar símbolos ecológicos durante a liturgia. Trabalhar a mesma temática nos diversos encontros e atividades da paróquia, escola ou instituição ao longo do mês de outubro. Utilizar atividades escolares para divulgar e discutir as questões relativas à ecologia integral e à realidade da Amazônia. 3. Durante o Mês Missionário Extraordinário, colocar banners com a temática da Amazônia em frente à comunidade ou instituição. 4. Usar Power Point com fotos e canções durante as missas ou encontros de formação e animação. 5. Sugestão prática para os domingos do mês de outubro:Orações do Mês Missionário Extraordinário e do Sínodo da Amazônia para serem rezadas no fim de celebrações e encontros. Dia 29 de setembro – Vídeo: Preparação para o Sínodo Dia 6 de outubro – Abertura solene do MME – Vídeo: Sínodo para a Amazônia Dia 13 de outubro – Canonização da Ir. Dulce – Vídeo: Mãos Carinhosas Dia 20 de outubro – Domingo das Missões – Vídeo: O Mês Missionário e a Amazônia Dia 27 de outubro – Encerramento do Sínodo da Amazônia – Vídeo: Repam – documentário 6. Orações do Mês Missionário Extraordinário e do Sínodo da Amazônia para serem rezadas no fim de celebrações e encontros.

Em defesa dos povos indígenas

Os povos indígenas no Brasil continuam vivendo um tempo de trevas e riscos à sua integridade. São vidas ameaçadas e impedidas de viver dignamente em seu habitat. Estão sendo impedidos de sonhar uma “terra sem males”, como um grito que vem da floresta. Como se diz em tupi-guarani, “Ñande Rekoha” (Terra, nossa morada). O Instituto Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) revela que a vida dos povos indígenas está sendo ameaçada, com o aumento de 54% do desmatamento em janeiro deste ano, comparando-se com janeiro de 2018. Segundo o Greenpeace, em 2018, mais de 1 bilhão de árvores foram perdidas. Esse foi o maior desmatamento dos últimos dez anos! Os cientistas afirmam que estamos muito perto de atingir um ponto que não será mais possível reverter os impactos dessa destruição (1). Por isso, os guardiões da floresta são ameaçados, criminalizados e sofrem graves tipos de violência. Aumentaram as invasões nas terras indígenas e áreas de proteção ambiental. Se não mudarmos essa realidade, como vamos nos justificar com as futuras gerações? O Estado brasileiro deve cumprir seu dever de proteger a Amazônia e todos os seus povos. Infelizmente, a violência na Amazônia brasileira está aumentando, pois, somente em 2015, foram registradas 137 mortes indígenas. A violência atual é o conflito entre indígenas e garimpeiros que reclamam direito sobre as mesmas terras. O governo Bolsonaro favorece a exploração e especulação de áreas indígenas, não fazendo a fiscalização e demarcação de seus territórios (2). O agronegócio na Amazônia avança, com grilagem de terras públicas, monocultura da soja transgênica e agrotóxicos que afetam as populações. E pior, o Ministério da Agricultura autorizou o uso de mais de 200 novos agrotóxicos, somando mais de 500 liberados no Brasil. Estão morrendo os peixes, animais e até as abelhas. As bases de fiscalização não funcionam, permitindo a invasão de fazendeiros, madeireiros, garimpeiros e mineradoras. Essa situação atual da política do governo Bolsonaro repercute negativamente em nível internacional. Exemplo dessa política é o assassinato da liderança Wajãpi, no Estado do Amapá. Segundo a professora da UFRGS, Magali Mendes de Menezes, esse crime não é um fato isolado, mas uma brutal violência contra a vida, pois “a colonização não terminou e segue derramando sangue”. Se o governo federal não intervier nesses conflitos entre os grupos indígenas e as dos garimpeiros, a violência vai aumentar. Os índios afirmam estarem lá há séculos, enquanto os mineradores alegam que são terras desabitadas. As organizações indígenas e não indígenas somam forças para buscar uma solução pacífica para os intensos conflitos na Amazônia. Segundo Nurit Bensusan, no primeiro trimestre deste ano, a Amazônia e o cerrado perderam mais de 80 mil campos de futebol de vegetação nativa. Desse total, estima-se que 90% sejam na ilegalidade. A estrutura de fiscalização e regulação da área ambiental do País foi desmontada. Agendas ligadas à gestão ambiental de território indígena e as unidades de conservação são ameaçadas de extinção ou redução, segundo o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. “Quero explorar a região Amazônica em parceria com os Estados Unidos”, disse o presidente Bolsonaro. São quatro grandes frentes de exploração: a dos recursos madeireiros, que vem sendo feita desordenadamente; a mineração, que causa grandes impactos ao meio ambiente, tendo de 100 mil a 800 mil garimpeiros; as atividades agropecuárias, que fortalecem o agronegócio; e a exploração dos produtos não madeireiros e com potencial cosmético (3). Assim, segundo o INPA (Instituto Nacional de Pesquisa Ambiental), é insustentável a agenda ambiental do presidente, pois viola a Constituição e o acordo de Paris. Nesse sentido, mais de 600 cientistas europeus e duas organizações indígenas brasileiras pediram à União Europeia que vinculasse o acordo a salvaguardas socioambientais. E 340 organizações da sociedade civil organizada pediram suspensão das negociações, pois afeta o meio ambiente e os direitos humanos. A liderança indígena Ailton Krenak se despede de nós e do Sol, que também começa a partir. “Te mum tepó itxá, kren nabã tepó erehé” (“Ó, Sol, você já tá indo? Eu abaixo a minha cabeça para você”) (4). Esse conceito define o que significa um povo indígena. Ouvir o grito da “Mãe Terra”. Por isso, faz-se necessária uma mobilização nacional e internacional em defesa dos defensores dos direitos humanos. É um tempo de buscar a luz do sol e nos enchermos de energia para a marca da resistência, sendo protagonistas na luta permanente em defesa da vida na Terra. A Vivat Internacional soma-se às entidades e movimentos sociais, juntamente com as igrejas, na denúncia de assassinatos de lideranças indígenas e de violações dos direitos humanos, assim como a invasão de seus territórios. Também nos unimos na construção de uma agenda comum de proposições em defesa da Constituição e dos direitos humanos. Não podemos recuar no avanço conquistado da dignidade da pessoa humana em todas as dimensões. Pe. José Boeing, SVD Coordenador da equipe executiva da Vivat Brasil. Desde 1991, atua na Amazônia como religioso missionário do Verbo Divino. Como advogado da CPT e pastorais sociais, sempre atuou junto com várias entidades em apoio aos defensores dos direitos humanos e do meio ambiente. ______ [1] https://www.greenpeace.org/brasil/participe/sem-floresta-sem-vida/povos-indigenas/ [2] https://pt.mongabay.com/2017/03/guerra-recursos-garimpeiros-brasileiros-voltam-povos-indigenas/ [3] Nurit Bensusan, do (ISA) Instituto Socioambiental, no artigo “A arquitetura da destruição”. https://diplomatique.org.br/edicao/edicao-144/ [4] Aílton Krenak. https://expresso.sapo.pt/internacional/2018-10-19-Somos-indios-resistimos-ha-500-anos.-Fico-preocupado-e-se-os-brancos-vao-resistir

Sabedoria indígena em terras amazônicas 

Em preparação ao Sínodo da Amazônia, que será realizado em outubro, estamos publicando uma série de artigos que nos ajudam a conhecer um pouco da realidade pan-amazônica e compreender a importância do sínodo para a Igreja Católica, os povos amazônicos e a sociedade em geral. O documento preparatório “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e uma ecologia integral” está organizado em três partes, seguindo o método “ver, julgar (discernir) e agir”. Já apresentamos uma síntese sobre a primeira parte do ver (https://blog.ssps.org.br/diversidade-cultural-e-ambiental-da-pan-amazonia) e, agora, publicamos sucintamente a segunda parte, que fala sobre a história eclesial, direito dos povos e sua sabedoria. Memória histórica  A presença humana na Pan-Amazônia tem mais de 10 mil anos, quando o território passou a ser habitado por diferentes povos, incluindo as principais civilizações pré-colombianas. Com o processo de ocupação colonial de Portugal e da Espanha, a partir de 1500 d.C., estes povos sofreram “um agigantado processo de dominações”, cheio de “contradições e dilacerações”, conforme reconhece o Documento de Puebla (DP 6). O próprio documento preparatório do Sínodo afirma: “Lamentavelmente, ainda hoje, existem restos do projeto colonizador que criou manifestações de inferiorização e demonização das culturas indígenas”. A consequência disso é o enfraquecimento das estruturas sociais indígenas e o desprezo de seus saberes e de sua expressão. Os 400 anos de missão e evangelização passaram pelas contradições da mentalidade colonizadora e, apesar dos cerca de 200 anos de independência dos países da Pan-Amazônia, “processos semelhantes continuam se alastrando sobre o território e seus habitantes, hoje vítimas de um novo colonialismo feroz com máscara de progresso”. Essa realidade levou o Papa Francisco a afirmar, em Puerto Maldonado, que, “provavelmente, nunca os povos originários amazônicos estiveram tão ameaçados nos seus territórios como estão agora”. Direito dos povos Em visita a Puerto Maldonado, o Papa Francisco falou que a Amazônia é vista como despensa de recursos naturais, sem levar em conta seus habitantes. As relações harmoniosas entre o Deus Criador, os seres humanos e a natureza foram quebradas pelas consequências nocivas do neoextrativismo de recursos como petróleo, gás, madeira e ouro, e pelos megaprojetos, como hidrelétricas, eixos viários e monoculturas agroindustriais. Francisco denunciou o modelo de desenvolvimento anônimo, obcecado pelo consumismo que transforma o “planeta num lixão”. Os novos colonialismos ideológicos, em nome do progresso, destroem as identidades culturais indígenas, portadoras de sabedoria ancestral de relação harmoniosa com a natureza. Além disso, segundo o Papa, há também políticas perversas de conservação da natureza que não levam em conta seus habitantes, que também têm direito ao desenvolvimento social e cultural.  O direito ao território dos povos indígenas, campesinos e outros setores populares ainda gira em torno da falta de regularização de terras e de reconhecimento de suas propriedades ancestrais e coletivas, sem articular a dimensão cultural e a cosmovisão dessas comunidades. Para a Igreja, “Proteger os povos indígenas e seus territórios é uma exigência ética fundamental e um compromisso básico dos direitos humanos”, o que está de acordo com o enfoque da “ecologia integral” da encíclica Laudato Si’ (cf. LS, cap IV). Espiritualidade e sabedoria    Na região amazônica, os povos indígenas buscam a sabedoria do bem viver, o que significa estar em comunhão com as outras pessoas, com o mundo, os seres em seu entorno e com o Criador, o que somente será alcançado “quando se realizar o projeto comunitário em defesa da vida, do mundo e de todos os seres vivos”. Dentro da grande diversidade cultural e religiosa, as comunidades são chamadas a se unir em defesa da vida e cuidar da Casa Comum. As famílias, como instituição social, têm dado uma grande contribuição para manter vivas as culturas. Mas há também a presença de algumas seitas motivadas por outros interesses que nem sempre favorecem uma ecologia integral.

Diversidade cultural e ambiental da Pan-Amazônia

A Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Pan-Amazônia será realizada em Roma, no mês de outubro deste ano, mas já vem sendo preparada por um amplo processo de diálogo e escuta dos povos que vivem na Região Amazônica. Com base no documento preparatório “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”, vamos trazer uma síntese dos principais aspectos da realidade amazônica que nos ajudará a entender a importância do Sínodo e a nos aproximar mais dos povos indígenas e demais comunidades da região. O território pan-amazônico A Pan-Amazônia é composta por nove países (Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname, Venezuela e Guiana Francesa). São mais de 7 milhões e meio de quilômetros quadrados que constituem o bioma amazônico. Além de ser uma das maiores reservas de biodiversidade do mundo, com 30 a 50% da flora e da fauna do planeta, concentra 20% da água doce não congelada e mais de um terço das florestas primárias de todo o planeta. Também é significativa pela captação do carbono. Diversidade sociocultural Na Amazônia convive uma grande variedade de povos. Originariamente, a população indígena vivia às margens dos rios e lagos. Contudo, para se protegerem dos colonizadores que queriam escravizá-los, muitos povos se refugiaram no interior da selva e outros contingentes populacionais vieram habitar essas áreas. Os povos tradicionais vivem em profunda comunhão com a natureza. Caçam, pescam e coletam o que a selva lhes oferece, e cuidam de seus rios e matas. Mas esse equilíbrio vem sendo destruído pelos grandes interesses econômicos, que provocam desmatamento e contaminação dos rios pelo uso indiscriminado de agrotóxicos, derrame de petróleo, rejeitos de mineração e derivados da produção de drogas. As cidades cresceram muito rapidamente e receberam migrantes e deslocados de suas terras, especialmente indígenas, ribeirinhos e afrodescendentes. Essas comunidades formam as periferias, marcadas pela pobreza e desigualdade social. Atualmente, de 70 a 80% da população pan-amazônica vivem nas cidades. Muitos são indígenas sem documentos e sofrem pela discriminação e atitudes de xenofobia. De acordo com o documento preparatório, “O crescimento desmedido das atividades agropecuárias, extrativistas e madeireiras da Amazônia não só danificou a riqueza ecológica da região, de suas florestas e de suas águas, mas também empobreceu sua riqueza social e cultural, forçando um desenvolvimento urbano não ‘integral’ nem ‘inclusivo’ da bacia Amazônica” (n.º 16). Identidade dos povos indígenas A população indígena da Pan-Amazônia é de aproximadamente 3 milhões, oriundos de 390 povos e nacionalidades diferentes. Entre eles há de 110 a 130 “povos livres”, ou “povos indígenas em situação de isolamento voluntário”. Outra situação é a dos povos indígenas que vivem nas cidades e perdem suas características culturais. Para enfrentar as ameaças à sua sobrevivência e manutenção de suas culturas, os povos indígenas e as comunidades amazônicas se organizam e lutam por seus territórios e seus direitos. Essas organizações não apenas buscam o fortalecimento de seus povos e o resgate de seus costumes, tradições e saberes, mas lutam também pela conservação da floresta e do meio ambiente, que é fonte de vida e de sustento. Em muitos desses contextos, a Igreja Católica vem marcando presença ao longo dos séculos, por missionários e missionárias comprometidos com as causas dos povos indígenas e amazônicos. Também busca, baseada em sua presença encarnada e sua criatividade pastoral e social, responder aos desafios da realidade amazônica.

Aprendendo com os povos indígenas

Mesmo tendo uma data especial para comemorar o Dia do Índio, 19 de abril, nossos povos indígenas ainda sofrem as consequências do preconceito e da discriminação. Suas terras são invadidas, sua cultura não é respeitada, e a natureza, da qual dependem, está sendo sistematicamente destruída. No entanto os povos indígenas têm muito a nos ensinar, especialmente sobre a cultura do bem viver e o cuidado com as pessoas e com a natureza. Quem dá testemunho disso é Laudovina Pereira, missionária do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) e uma de suas coordenadoras. Ela trabalha há 20 anos no Regional do Cimi Goiás/Tocantins e têm contato direto com diversas comunidades indígenas, de diferentes povos. No vídeo que apresentamos, Laudovina fala sobre a beleza da cultura indígena e o que podemos aprender com eles. Seu testemunho é um convite para mudarmos o nosso olhar e descobrir que não há culturas superiores ou inferiores, e sim diferentes visões de mundo. Se nos abríssemos para aprender com nossos irmãos e irmãs indígenas, nossa sociedade seria muito mais feliz, pois daria mais valor ao relacionamento entre as pessoas, à vivência comunitária e à harmonia com a natureza.

Sínodo Pan-Amazônico: uma Igreja em diálogo e escuta

“Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral” é o tema do Sínodo para a Amazônia, que será realizado em outubro deste ano. Para compreender sua importância em vista de uma melhor atuação pastoral da Igreja na região e especialmente para os povos indígenas, iniciamos, a partir de agora, a publicação de uma série de artigos. Confira! O convite do Papa Francisco aos bispos da Igreja pan-amazônica, com o objetivo de escutar os povos da floresta, foi precedido por gestos de diálogo, encontro e escuta dele mesmo. Em sua visita apostólica ao Peru, no discurso de acolhida aos povos indígenas em Puerto Maldonado (DISCURSO do Papa Francisco em Puerto Maldonado, 2018), o Papa Francisco, referindo-se à atuação missionária da Igreja em meio aos povos indígenas, fez a seguinte observação: “Quem dera que se ouvisse o grito de Deus perguntando: Onde está o teu irmão?” (Gn 4,9). E concluiu que essa pergunta deve ressoar para toda a Igreja. Nesse seu encontro com várias etnias indígenas, o Santo Padre ouviu os clamores desses povos que precisam de ajuda para continuar cuidando da natureza, pois tal missão tem sido muito árdua devido à destruição causada pela derrubada das florestas, mineração e as companhias petroleiras. Ele também agradeceu aos povos indígenas que, pela sabedoria e conhecimentos de suas culturas, puderam penetrar, por séculos, sem destruir o grande tesouro, os recursos naturais das florestas. Nesse encontro, assim se dirigiu a eles (DISCURSO, 2018): Nós, que não habitamos nestas terras, precisamos de vossa sabedoria e de vossos conhecimentos para podermos penetrar, sem o destruir, o tesouro que encerra esta região, ouvindo ressoar as palavras do Senhor a Moisés: “Tira as tuas sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é uma terra santa” (Ex 3,5). Essas atitudes e gestos de Francisco fortalecem a caminhada de muitos movimentos indígenas para a revitalização de suas próprias culturas, na luta pelo reconhecimento de seus territórios, pela preservação de suas tradições e línguas. A conquistas de seus direitos foi fruto de uma grande mobilização internacional desde a década de 1970, da qual eles foram os protagonistas (PETRONI, 2013, p. 188). As orientações pastorais do Papa Francisco serão assumidas dentro de um caminho da sinodalidade, conforme a Igreja esteja, de fato, disposta ao diálogo e à escuta. Ao convocar a Igreja presente na Região Pan-Amazônica para buscar novos caminhos de evangelização entre os povos da floresta com um rosto indígena, postulam-se novos paradigmas de missão: ouvir e reconhecer as histórias de fé e os saberes que vêm dos povos da periferia. São caminhos novos de evangelização que fortalecem a autonomia e o protagonismo dos povos originários da Pan-Amazônia. É uma evangelização solidária desses povos que vivem num contexto de profundas ameaças aos direitos fundamentais. Assim, a Igreja é chamada a viver, de forma solidária, suas lutas de revitalização de suas culturas, do direito de preservar seus idiomas, de organização social, de uma cosmovisão ecológica que garanta a sobrevivência de seus descendentes (REPAM, 2018, n. 24). O convite para construir uma Igreja com rosto amazônico exige uma reflexão teológica fundamentada na espiritualidade e cosmovisão desses povos originários da Amazônia (REZENDE, 2013, p. 209). Reconhecer que, em suas histórias sagradas, também se encontram as sementes da Boa-Nova. Nesse sentido, o documento preparatório para o Sínodo na Região Pan-Amazônica afirma ser necessário ter uma “espiritualidade intercultural que nos ajude interagir com a diversidade dos povos e suas tradições” (REPAM, 2018, n. 86). A espiritualidade dos povos originários dessa vasta área geográfica foi transmitida com sabedoria pelos líderes carismáticos, pelos sábios de seus povos, benzedores e muitos que contribuíram para a sustentação de suas culturas e de suas línguas. Tal espiritualidade tem os pés no chão, pois esses povos acreditam num Deus criador de tudo que existe na natureza, por isso ela tem, em si, uma força vital. Esses povos acreditam na comunhão de vida da floresta, vida humana das várias etnias que se entrelaçam como se todos fossem parentes (ALMEIDA, 2005, p. 56). Essa comunhão sustenta a terra, a água, as plantas, os animais, os peixes, enfim tudo o que circunda a natureza são vidas dialogantes com os seres humanos. O documento preparatório para o Sínodo dos Bispos, em vista da Assembleia Especial na Pan-Amazônia, que será realizada em 2019, oferece como instrumento de auxílio na tarefa que o precede um amplo questionário elaborado e enviado a todas as Igrejas particulares, a fim de estabelecer um diálogo com todas as suas bases. A comissão organizadora adotou o método ver, julgar e agir, mas sem dar respostas prontas, pois a sinodalidade envolve todos na busca de novos caminhos. O Sínodo está sendo preparado com os protagonistas e sujeitos da Igreja ameríndia. Traçar novos caminhos à evangelização na Pan-Amazônia envolve o zelo pelos territórios, ecologia e culturas das comunidades locais. Portanto, já desde sua preparação, o Sínodo coloca todos os interlocutores na prática concreta da escuta recíproca. Esse exercício é fundamental para fortalecer as bases de uma Igreja sinodal e vencer as enormes distâncias geográficas, pastorais, sociais e culturais. É o sínodo da aproximação, do encontro, do diálogo e da escuta de uma Igreja universal que acredita que a periferia tem algo importante a dizer, a partilhar, enriquecer e a ensinar, sobretudo no cuidado da casa comum e da ecologia integral. Trecho extraído e adaptado do artigo “A escuta e o diálogo com as tradições sagradas do povo ticuna: um testemunho de evangelização na Amazônia”, da autoria da Ir. Izabel Patuzzo e de Boris Augustein Nef Ulloa, publicado na “Revista Caminhos”, Goiânia, v. 17, n. 1, p. 96-108, jan./jun. 2019. Irmã Izabel Patuzzo, missionária da Imaculada (PIME), faz parte da equipe de professores do Curso de Formação Teológica e Missionária para Leigos do Centro Missionário Cultural Santíssima Trindade, em São Paulo-SP.

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