Páscoa: da estrada para a casa, da casa para a mesa

“Quando se sentou à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, partiu-o e lhes distribuía” (Lc 24,30) Todos temos experiência que o passado carrega lembranças de fatos e de vivências negativas: crises, fracassos, decepções, rejeições, erros, pecados… Os desencontros, quebras e rupturas… costumam deixar feridas. Tudo isso pesa na memória e continua influenciando negativamente no presente.  Com isso, ela se torna “memória mórbida, doentia”: depósito de rancores, ressentimentos, hostilidades…; ao se fixar no passado, a “memória mórbida” alimenta remorsos, sentimentos de culpa, desânimo, angústia…, embotando a vida, queimando energias, paralisando a pessoa e não abrindo futuro de sentido. Pessoa doente na memória é doente no seu coração, na sua afetividade, nos seus sentimentos… Se a memória não é “evangelizada”, ela continua remoendo aquilo que aconteceu, num desgaste muito grande de energia. Não há mudança e conversão se não houver mudança e conversão da memória. Somente através da “memória redentora”, a pessoa será capaz de se colocar diante do passado, de modo livre e aberto, dando-lhe um novo significado. A memória sadia não muda o passado, mas “re-corda” (visita com o coração) de modo novo e inspirador. A memória resgata referências, cura feridas, reconcilia-se com a vida e consigo mesma, com as próprias riquezas e fraquezas, com o próprio passado; ela tem sua função de lugar santo do louvor e da gratidão, pois ajuda a tomar consciência dos benefícios recebidos e possibilita ter acesso às recordações não neutras, mas aquelas que têm um significado para o presente. Ela é capaz de tirar proveito de todas as vivências pessoais (nada é descartado, tudo é integrado); abre possibilidade para rever a própria história e lê-la como História de Salvação. A cena do encontro de Jesus Ressuscitado no caminho de Emaús nos revela um longo diálogo amigável, que certamente ficou marcado na memória dos dois discípulos que fugiam de Jerusalém, após o evento da Paixão. Tudo o que havia acontecido com Jesus continuava presente na memória e no coração dos dois discípulos. Conversavam sobre o que significou para eles o encontro com Jesus, a convivência com Ele, o fascínio exercido sobre eles pelo anúncio do Evangelho e pela esperança da libertação de Israel. Conversavam e discutiam também sobre a crucifixão e a morte de Jesus. No fundo do coração dos discípulos, havia um grande vazio que, inconscientemente, queriam preencher “conversando”. Estavam confusos e desorientados, mas não se separaram; não conseguiam entender-se, mas continuavam a caminhar lado a lado e a conversar; uma conversa carregada detristeza, sem sentido, um diálogo de fracassados que não levava a lugar nenhum. Foi justamente no meio desta “conversação”, triste e sem esperança, que o Ressuscitado se fez presente. O Forasteiro, ao juntar-se a eles no caminho, ajudou-os a recontar a história, gentil e gradualmente. Partindo dos relatos bíblicos, o Ressuscitado foi aquecendo o coração dos dois discípulos para que eles pudessem reinterpretar e ressignificar os fatos que tinham “acontecido em Jerusalém” até surgir uma nova perspectiva. Lentamente, eles foram fazendo a “travessia” de uma memória pesada, triste, doentia… a uma memória saudável, curativa e aberta ao futuro. As viagens que fazemos em direção à reconciliação com nosso passado, muitas vezes, se parecem com a viagem dos discípulos de Emaús. Na maioria das vezes, procuramos fugir da dor do passado e não sabemos para onde nos dirigimos. A viagem torna-se tediosa e pesada, marcada pelo fracasso e carregada de culpa, pois parece que não chegamos a lugar algum, embora nos movimentemos o tempo todo. É como estar preso a um moinho que nos mantém em movimento, mas não nos faz sair do lugar. Reler o passado à luz de um horizonte maior de sentido é altamente libertador; novos recursos internos são mobilizados e a vida começa se movimentar, saindo do “fatal ponto morto”. As lembranças e os pesadelos dos relatos traumáticos sempre reaparecem e, apesar da passagem do tempo, permanecem tão nítidos e incontroláveis. No entanto, é preciso iluminá-los e situá-los no contexto dos relatos da História da Salvação. Só assim tudo adquire novo sentido, a história pessoal deixa de ser inimiga que alimenta culpa e torna-se companheira de estrada. Quando alcançamos uma nova perspectiva sobre determinada experiência traumática ou frustrante, a esperança e o entusiasmo por viver vem habitar nosso interior. Trata-se de um momento tão fortalecedor e jubiloso que estremecemos reverentes diante do que vemos. A narrativa de Emaús é um dos melhores exemplos de como podemos colocar nossas histórias dentro da História maior da paixão, morte e ressurreição de Jesus. “A Páscoa ocorre quando encontramos em Jesus não um amigo morto, mas um forasteiro vivo” (Rowan William).  Na narrativa de Emaús, o Forasteiro cria um círculo de amor em que os discípulos contam sua história em segurança e começam a reconstruir a confiança. Foi criado um ambiente de hospitalidade e acolhida. Nesse círculo, a memória manifesta-se paulatinamente e revela suas feridas; lentamente, acontece uma “passagem” da memória mórbida à memória redentora. A experiência do encontro com o Senhor e de seu reconhecimento transforma radicalmente a vida dos dois discípulos. O itinerário da fé pascal é longo e penoso, mas realiza uma verdadeira reviravolta nos pensamentos e sentimentos, nos ideais e na conduta daqueles que o percorrem até o fim. Por meio da benção e do ato de partir e compartilhar o pão, os discípulos fazem a ligação com o passado. Chega o momento do reconhecimento, e eles se transformam. Cheios de estímulo e esperança, e também de um novo propósito, apressam-se a voltar para Jerusalém, a fim de partilhar a nova descoberta. Que representa para nós a experiência de Emaús?  É na estrada que essa história começa a se desenrolar. O nó do problema não é a situação de fracasso de Jesus, como os discípulos pensam; o que está verdadeiramente em foco é a situação deles. Não é Jesus que desaparecera, eles é que ainda não conseguem vê-Lo e reconhecê-Lo, prisioneiros de uma tristeza e de uma cegueira tal que os impediam de aceitar a condição pascal de Jesus. Também eles precisam passar pela experiência de

Domingo de Páscoa: “… e a pedra tinha sido removida”

Domingo de Páscoa: “… e a pedra tinha sido removida” “A pedra da entrada do túmulo é removida” e amanhece um novo tempo, uma nova consciência planetária, uma nova espiritualidade, uma nova maneira de viver o mistério de Deus, uma concepção inspiradora do ser humano, uma nova mentalidade, uma nova maneira de ser Igreja… Amanhece um novo mundo, heterogêneo, descentralizado; um novo humanismo, um novo movimento cultural. Brota um novo despertar a partir de uma maior lucidez e consciência dos problemas mundiais e uma escuta afinada diante do clamor unânime de que outro mundo é possível. Em Jesus ocorre algo totalmente novo. Sua ressurreição traz uma nova maneira de viver que não cabe em nossos esquemas, que não se encaixa em nossos hábitos, sempre limitados e estreitos. O “mistério pascal” é o salto para a novidade, para a beleza, para a transcendência. Imersos na história e na natureza, a Ressurreição nos faz descobrir a verdadeira extensão da Vida. Não encontramos o Ressuscitado no sepulcro, mas na vida. Não encontramos o Ressuscitado enfaixado e paralisado pela morte, mas livre como a brisa da vida. Não “vemos” a Ressurreição contemplando os restos da morte; só podemos contemplar o Ressuscitado no mistério da vida. E “Jesus ressuscitou de tanto viver”. Aquele que viveu tão intensamente não podia permanecer na morte. Por isso, só no compromisso com a vida é que podemos encontrá-Lo. A Ressurreição nos revela: só existe a Vida; só nos resta viver intensamente. Somos seres visceralmente “pascais”, somos potencialidade de vida. Há um dado constante nos relatos das Aparições do Ressuscitado: Ele se faz presente no meio do fracasso, da dor, da tristeza, da ferida…, e, aos poucos, vai iluminando a situação dramática de cada pessoa ou do grupo, vai reconstruindo vidas despedaçadas, vai abrindo horizonte de sentido e confirmando a missão de prolongar o “movimento de vida” iniciado na Galileia. Os relatos de suas Aparições nos revelam como Ele foi reconstruindo as pessoas, amigas e amigos, quebrados(as) pelo fracasso, pela tristeza, pela decepção… Foram ressuscitados por dentro, despertando a vida bloqueada e abrindo o horizonte da missão. Na ressurreição, a vida emerge de forma misteriosa; ela se impõe, simplesmente. Tal realidade desperta fascinação, provoca admiração e veneração…, porque a vida é sempre sagrada. Diante dela ficamos extasiados, boquiabertos, escancarados os olhos e afiados os ouvidos. Ela nos atrai por sua força interna. Portador de uma vida inesgotável, revelada na madrugada pascal, o ser humano vive para mergulhar em algo diferente, novo e melhor. A vida, desde o mais íntimo da pessoa humana, deseja ser despertada e iluminada em plenitude. Amar é romper a casca para que a vida se expanda na doação. A morte do falso eu é a condição para que a vida se liberte. Vida plena prometida por Jesus: “Eu vim para que tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10). “Viver como ressuscitado” implica esvaziar-se do “ego”, para deixar transparecer o que há de divino. Quem se experimenta a si mesmo como “Vida” é já uma pessoa “ressuscitada” e isso faz a grande diferença, pois tem um impacto no seu modo de ser e de viver. Marcadas pela ressurreição, as pessoas captam muitos detalhes que antes não haviam percebido, vivem intensamente, amam com mais paixão, prestam atenção a muitas coisas que antes passavam desapercebidas. Tem um comportamento diferente para com os outros; há, nestas pessoas, mais ternura, são mais sensíveis à dor e à injustiça. Ao saborear o presente da vida, vivem como se fossem ressuscitadas. Creem que, amando mais a vida, se afastarão mais da morte e resistirão às hostilidades do mundo presente. E, no entanto, continuam vivendo na mesma casa, no mesmo trabalho, fazendo as mesmas coisas…, mas seu olhar audacioso desperta as consciências, sacode as velhas estruturas, derruba os muros da exclusão. A Ressurreição não só “dá o que pensar”, mas sobretudo, “dá o que fazer”. “Olhar o ofício de consolar que Cristo nosso Senhor exerce” (EE. 224). Santo Inácio utiliza esta expressão quando apresenta, na 4ª Semana dos Exercícios, a contemplação das aparições do Ressuscitado. Consolar é o que define a ação do Ressuscitado, transformando a situação dos seus discípulos e discípulas: a tristeza se converte numa alegria contagiosa, o medo em valentia e audácia, a negação de Jesus em profissão de fé e martírio… Não se trata de um ato pontual, senão de um “ofício” que definirá para sempre a atividade de seu Espírito no mundo. Nas cenas evangélicas das aparições, o efeito da presença do Ressuscitado sobre os discípulos termina sempre em reconhecimento, em chamado e envio, em restauração de uma vocação e missão. Jesus ressuscitado exerce sobre eles um específico “ofício de consolar”, cujo efeito é iluminar o caminho pelo qual, em seu nome e com Ele, eles hão de percorrer. O “ofício de consolar” é a marca do Ressuscitado, é força recriadora e reconstrutora de vidas despedaçadas. Jesus “ressuscita” cada um dos seus amigos e amigas, ativando neles(as) o sentido da vida, reconstruindo os laços comunitários rompidos, e sobretudo, oferecendo solo firme a quem estava sem chão, sem direção… Essa nova Vida é capacidade de amar como Jesus amou; é “passar pela vida fazendo o bem”. Somos seres ressuscitados quando vivemos os mesmos critérios e valores de Jesus, engajados em seu mesmo projeto. A “vivência pascal” leva a querer algo mais. É “antecipação criadora”; ela tem “rosto novo”. É o futuro que ainda pode ser convertido em “história nova”; é vida vivida com encantamento. A “pedra pesada” da nossa impotência diante da dor, do fracasso e da morte, foi tirada pelo Mestre, que, diante de nós, chama-nos pelo “nome” e nos desafia a viver como ressuscitados. Nossa vida é uma experiência a acolher, uma aventura a amar e um mistério a celebrar. Rompido o túmulo, removida a pedra, resta caminhar… Deixemo-nos iluminar, levemos a Luz da Ressurreição nas nossas pobres e frágeis mãos, iluminando os recantos do nosso cotidiano. Pois vida é um contínuo despedir-se e partir; é inútil permanecer junto ao túmulo. Porque o ausente “aqui” está

Páscoa: acontecimento iluminado e sempre novo

Celebramos novamente a Páscoa, nossa principal festa cristã. Celebramos a ressurreição de Cristo. Esse é o fato mais importante da história da humanidade, embora muitos não o reconheçam. Na verdade, trata-se de um mistério de nossa fé. O fato de ser mistério não significa ser incompreensível. Nós conseguimos entender até onde nossa inteligência é capaz e nossa fé alcança. O mistério sempre ultrapassa os horizontes humanos e se insere na esfera do divino. A ressurreição de Jesus é um fato histórico testemunhado não apenas pelos discípulos de Jesus, mas por muita gente; como São Paulo diz, mais de quinhentos. Não somente as aparições do Ressuscitado são testemunhas de sua ressurreição, mas também o que ocorreu depois dela na vida dos apóstolos e de outros seguidores. Prova ainda da ressurreição de Cristo é o fato de ela ter acontecido há mais de 2 mil anos e continuar presente nos corações dos milhões que hoje creem sem ter visto. Não podemos imaginar que tantas pessoas que acreditam na ressurreição sejam tolas ou ignorantes, com mentalidade arcaica. Pelo contrário, há pessoas, desde as mais simples até as mais cultas, que professam a fé na ressurreição e pautam suas vidas por essa verdade. A ressurreição de Cristo trouxe uma esperança de que a vida não termina no cemitério. Sua palavra transmitida pelos evangelhos e cartas dos apóstolos nos falam que “quem com Cristo morre com ele ressuscita”. Nós professamos na oração do creio “Creio na ressurreição da carne…”. Diante disso, faz sentido rezar pelos nossos falecidos, recomendando-os à misericórdia de Deus; caso contrário, seria vã e mesquinha nossa crença e esperança. Quando celebramos a festa da Páscoa a cada ano, não é apenas uma recordação do fato histórico. Celebramos um acontecimento novo que irradia luz nova, renova nossa vida e estimula a vivermos de acordo com o que professamos. Nós costumamos desejar uns aos outros “feliz Páscoa”. Nesse desejo, está implícita a alegria de nos sentirmos salvos pela morte e ressurreição de Cristo. Esse desejo proclama a certeza da vida eterna no ressuscitado. A Páscoa, simbolizada no círio pascal, aceso e presente nos batismos de novos cristãos, lembra-nos de que ela é luz para nossa vida e, em sua luz, somos convidados a ser também luz no mundo. Celebremos a Páscoa com a mente e o coração. A mente que nos faz aceitar o mistério que nela está presente, o coração que nos faz experimentá-la como realidade profunda que preenche nossos espaços íntimos e direciona nosso agir cotidiano. Que tenhamos todos uma “feliz Páscoa” permanente e jubilosa, reacendendo nossa fé e esperança. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

A mística pascal em nossas madrugadas

Vivemos a mais importante celebração do calendário litúrgico anual: a Páscoa do Senhor. Depois de dois anos sem as celebrações nas igrejas, devido à pandemia, tive a impressão de um povo mais “entusiasmado” (inclusive no sentido original dessa palavra) na Semana Santa. Já nestas primeiras linhas, saúdo os cientistas e os muitos outros profissionais envolvidos na vacinação contra a famigerada covid-19. Sem esse recurso bendito, como estaríamos agora? Uma percepção que tive, pelo menos nas comunidades da Região Metropolitana de Belo Horizonte, onde sirvo como diácono da Igreja, é a admiração de muitas pessoas, inclusive ministros e agentes de pastorais experientes, diante da liturgia destes dias. Descobri que muitos jamais haviam participado de um Tríduo Pascal completo. Para meu espanto, para dizer pouco, havia até idosos que nunca estiveram numa Vigília Pascal, a mais bela liturgia do ano, realizada na noite do sábado (para a Igreja, já o domingo). Assim, vem a meu coração o Evangelho proclamado na manhã do Domingo de Páscoa (João 20,1-9). Eu gostaria de sublinhar o primeiro versículo: “No primeiro dia da semana, Maria Madalena foi ao túmulo de Jesus, bem de madrugada, quando ainda estava escuro, e viu que a pedra tinha sido retirada do túmulo”. A madrugada pode dizer bem mais que um período do dia. Dependendo do enfoque, ela pode ser ainda a noite, com suas sombras, medos, obstáculos; ou pode ser a antessala da claridade, a expectativa da luz que virá em breve e trará segurança e ânimo. No início do trecho, a madrugada para Maria Madalena é o cenário das trevas. Certamente ainda estão fortes em sua lembrança as imagens bem nítidas da violência cometida contra o Mestre. No interior da discípula, uma tempestade talvez de revolta contra os companheiros de caminhada que abandonaram Jesus numa hora difícil, decepção pela aparente queda do projeto de Cristo devido à injustiça das autoridades do Templo e de Roma, e de espanto ao testemunhar a dor de Maria, a Mãe do Senhor. Eis a assombrosa madrugada! Essas horas, contudo, também são o prenúncio do Sol. Se nosso olhar, nosso espírito está voltado para o nascente, a perspectiva é outra. Isso vale para nossa vida. Nos instantes de escuridão, nossa fé precisa nos levar a acreditar na vitória das luzes. É esse o espírito da Páscoa. Não uma vitória qualquer, mas aquela carregada de crescimento, aprendizado (às vezes, doloroso), libertação daquilo que nos diminui como seres humanos. Madalena, ao identificar o túmulo violado, ainda sob o pavor das trevas, pensa ter havido um roubo. Conforme chega o dia, a esperança começa a vencer ao horror. Por fim, a Apóstola dos Apóstolos tem a experiência do encontro com o Senhor, segundo outras narrativas, amedrontando quem ainda não passa por esse mistério (outros discípulos levam um susto ao ouvir o depoimento das mulheres). O tenebroso véu da pandemia nos deu e ainda nos força a muitas lições. Mas talvez tenhamos aprendido a rever muita coisa, tal como os idosos que se encantaram com a beleza da Vigília Pascal; até este ano, inédita para eles. Quiçá partiriam deste mundo sem a terem festejado. Que Deus nos permita, no próximo ano, termos mais segurança para podermos retomar todos os gestos litúrgicos possíveis e, claro, as doces tradições populares, por ora limitadas pelos cuidados sanitários. Mais pessoas se encantem com uma festa de uma semana de semanas! Páscoa não pode ser uma ideia bem emaranhada da teologia ou mote para consumo, mas experiência bem concreta. Muitos homens e mulheres entre nós permanecem encerrados nos mais diversos túmulos. Que a mão de Deus e nosso testemunho de fé na vida, na justiça e na paz reergam das sombras da morte nossa sociedade. Um santo e feliz Tempo de Páscoa! Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das SSpS.

Domingo da Páscoa da Ressurreição

“Ele viu e acreditou”João 20,1-9 Os quatro evangelhos relatam os acontecimentos do Dia da Ressurreição, cada um de acordo com suas tradições. Certos elementos, no entanto, são comuns a todos: o fato do túmulo vazio, de que as primeiras testemunhas eram as mulheres (embora divirjam quanto a seu número e identidade, e o motivo de sua ida ao túmulo: para ungir o corpo ou para vigiar e lamentar), que uma delas era Maria Madalena. Podemos tirar disso a conclusão de que as mulheres tinham lugar muito importante entre o grupo dos discípulos de Jesus e que elas eram mais fiéis do que os homens, seguindo Jesus até a cruz e além dela. Infelizmente, outras gerações fizeram questão de diminuir a importância das discípulas na tradição (e a Igreja sofre até hoje as consequências). Lendo os relatos, um fato salta aos olhos: ninguém esperava a ressurreição. Para os discípulos, a cruz era o fim da esperança, a maior desilusão possível. Se somamos a isso o fato de que todos eles traíram Jesus (ou por dinheiro, ou por covardia), podemos imaginar o ambiente pesado entre eles na manhã do domingo. Nesse meio, chega Maria com a notícia de que o túmulo estava vazio; e ela, naturalmente, pensa que o corpo havia sido roubado. Ressurreição, nem pensar! Em nosso texto, Pedro (com um papel importante nos textos pós-ressurrecionais) e o Discípulo Amado (anônimo, mas quase certamente não um dos Doze) correm até o túmulo. O texto deixa entrever a tensão histórica que existia entre a comunidade do Discípulo Amado e a comunidade apostólica (representada por Pedro). Pois o Discípulo Amado espera por Pedro (reconhece a sua primazia), mas, enquanto Pedro vê sem acreditar, o Discípulo Amado acredita. No Quarto Evangelho, Pedro só realmente vai conseguir amar Jesus no capítulo 21, enquanto o Discípulo Amado é o tal desde o capítulo 13. Só quem olha com os olhos do coração, do amor penetra além das aparências. Como em Lucas 24, na história dos Discípulos de Emaús, o texto demonstra que nossa fé não está baseada num túmulo vazio. Não é o túmulo vazio que fundamenta nossa fé na ressurreição, mas o contrário: é a experiência da presença de Jesus ressuscitado que explica por que o túmulo está vazio. Cuidemos de não procurar bases falsas para nossa fé no Ressuscitado! Hoje em dia, quando olhamos para o mundo a nosso redor, é fácil não acreditar na vitória da vida sobre a morte. Há tanto sofrimento e injustiça: guerra, violência, corrupção endêmica, miséria, a saúde e a educação sucateadas! Só uma experiência profunda da presença de Jesus libertador no meio da comunidade poderá nos sustentar na luta por um mundo melhor, com fé na vitória final do bem sobre o mal, da luz sobre as trevas, da graça sobre o pecado. Nós todos somos discípulos e discípulas amados, pois “nada nos separa do amor e Deus em Jesus Cristo” (Romanos 8), mas será que somos discípulos amantes? Será que amamos Jesus e o próximo? E lembramos que o ágape, o amor proposto pelo Evangelho, não é um sentimento, mas uma atitude de vida, de solidariedade, de partilha, de justiça? “O amor consiste no seguinte: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou, e nos enviou seu Filho como vítima expiatória por nossos pecados. Se Deus nos amou a tal ponto, também nós devemos amar-nos uns aos outros” (1 João 4,10-11). Que a mensagem da ressurreição, da vitória da vida sobre a morte nos anime e nos dê força, nestes dias da aparente (mas somente aparente!) vitória da arrogância e prepotência dos países hegemônicos, e especialmente quando a cruz pesar muito em nossas vidas. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

6º Domingo da Páscoa

“Amem-se uns aos outros”João 15,9-17 Poucos trechos do Evangelho de João são tão conhecidos como o de hoje, pelo menos pelas diversas frases lapidares tecidas dentro dele. Sobressai o tema básico do “amor” como a característica que deve distinguir os discípulos e discípulas de Jesus. O amor é um dos temas preferidos da sociedade atual, como mostram os nossos cantos, poemas e novelas, mesmo que seja mais na fala do que na prática. Por isso, torna-se necessário recuperar o sentido profundo do amor nos evangelhos. Até um estudo rápido mostra que o termo tem outro sentido do que aquele que a nossa sociedade liberal e consumista lhe atribui. Na sociedade atual, o amor não passa de um sentimento agradável, uma emoção, quando não de um egoísmo disfarçado. Tendo como base a emoção, torna-se temporário, volúvel, sem consistência, descartável. Passado o sentimento, termina o amor. Uma das consequências dessa visão pós-moderna é o alto índice de divórcios, de separações, de desistências de tudo que é compromisso, pois a base é como areia movediça, não sustenta o peso do dia a dia. O amor ao qual Jesus nos conclama tem outro sentido: é o amor “como eu os amei”. Como foi que Ele nos amou? Dando sua vida por nós. O amor se torna uma atitude de vida e não um sentimento. A comunidade dos discípulos e discípulas (a Igreja) deve ser uma comunidade de pessoas comprometidas com o projeto de Jesus, que veio “para que todos tivessem a vida e a vida plenamente” (João 10,10). A comunidade cristã deve ser muito mais do que um grupo de amigos e companheiros (oxalá fosse isso também, pois frequentemente nem isso é!), deve ser uma comunidade enraizada no amor de Jesus, que é a encarnação do Deus da vida, animada pelo seu Espírito e dedicada a criar o mundo que Deus quer. A pedra de toque de uma comunidade cristã então não será o sentimento e a emoção, mas os frutos que ela dá, frutos que devem permanecer (vers. 16) e que não devem evaporar com a instabilidade dos sentimentos. Tal comunidade vai ser comunidade de vida e partilha, da justiça e solidariedade, da verdadeira paz e dedicação. Saberá ultrapassar os limites da mera simpatia e atração para assumir a vida de cada irmão e irmã como expressão do amor do Pai. É interessante que, embora o trecho se situe no contexto da véspera da Paixão, Jesus fala da alegra, e da alegria completa. É impressionante como, em um mundo que propõe a satisfação imediata pessoal e a “felicidade já” como metas, garantidas pelo consumo e pelas posses, há tanta gente desanimada, triste, insatisfeita e deprimida. Quantos jovens, mesmo (ou talvez especialmente) nas classes mais abastadas, irrequietos e perdidos na vida! Pois a alegria não vem somente das posses e dos bens materiais, e uma vida baseada sobre eles vai necessariamente elevar à frustração. Mas também há muita gente, muitas vezes com uma vida sofrida e difícil, que irradia a verdadeira alegria e profunda paz, pois as suas vidas são alicerçadas sobre a rocha: uma vida de amor verdadeira, na doação de si, na busca de uma vida digna para todos. A sociedade do consumo nos aponta um caminho para a felicidade: sempre ter mais, em uma busca individualista de felicidade, que só pode nos levar à alegria falsa dos shows de Faustão ou Sílvio Santos. Jesus nos aponta o caminho para a verdadeira alegria: uma vida de amor-doação, de busca da justiça e solidariedade, que tem a alegria não como meta, mas que a traz como consequência. Não há nenhum mandamento “simpatizai-vos uns com os outros”, mas há o mandamento do amor. Para isso precisamos de uma vida fortemente fundamentada no Evangelho e no seguimento de Jesus, pois, se não a temos, será impossível sustentá-la. Jesus nos quer como “amigos” e não servos, ou seja, pessoas que livremente assumem seu projeto. Assim assinala que a religião não deve ser simplesmente o cumprimento de uma série de leis e regulamentos, mas o seguimento de um projeto de vida, continuadora de sua missão no mundo atual. Um projeto além de nossas forças humanas, pelo qual precisamos do dom sempre renovado do Espírito Santo, um dom que nos é garantido, pois, como diz o texto: “O Pai dará a vocês qualquer coisa que vocês pedirem em meu nome” (vers. 16). É um projeto que nos coloca na contramão da sociedade atual, mas que nos garante uma vida realizada e plena, que os falsos ídolos do consumismo são incapazes de nos dar. “O que mando é isto: amem-se uns aos outros” (vers. 17). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

2º Domingo da Páscoa

“A paz esteja com vocês!”João 20,19-31 No texto do Domingo da Páscoa, Maria Madalena trouxe aos discípulos incrédulos a notícia da Ressurreição. Agora é o próprio Jesus que aparece a eles. Não há reprovação nem queixa em suas palavras, apesar da infidelidade de todos eles, mas somente a alegria e a paz, que já tinha prometido no último discurso. Por duas vezes, Jesus proclama seu desejo para a comunidade de seus discípulos: “A paz esteja com vocês”. O tema da paz, do shalom, é importante na vida de Jesus. No Discurso de Despedida, na tradição da comunidade do Discípulo Amado, no contexto de uma certa angústia humana e da insegurança, junto como a promessa do dom do Paráclito, Jesus deixa com os seus o grande dom da paz: “Eu deixo para vocês a paz, eu lhes dou a minha paz. A paz que eu dou para vocês não é a paz que o mundo dá” (João 14,27). Ele teria usado a palavra tradicional dos judeus para a paz: “Shalom”. É uma paz baseada na vinda do Espírito, que será atualizada no texto de hoje: “A paz esteja com vocês! Recebam o Espírito Santo” (João 20,21-22). Enfatiza que não é a paz como o mundo a entende; muitas vezes, simplesmente como a ausência de briga ou até com repressão policial. Frequentemente, a paz que o mundo dá é aquela falsa, que depende da força das armas para reprimir as legítimas aspirações do povo sofrido, como tantos países experimentaram e continuam a experimentar hoje, durante as ditaduras da direita e da esquerda. O shalom é tudo o que o Pai quer para seu povo. Inclui tudo o que é necessário para uma vida digna: saúde, escolaridade, lazer, lar, moradia, emprego, etc. Só existe quando reina o projeto de vida de Deus. Implica a satisfação de todas as necessidades básicas da pessoa humana, da libertação da humanidade do pecado e de suas consequências. O shalom dos discípulos não pode ser perturbado pelo fato da partida de Jesus, pois é pela volta do Filho para o Pai que o shalom vai se instalar. O shalom, a verdadeira paz, é um dom de Deus, mas também um desafio para nós, seus discípulos e discípulas. Pede a colaboração humana! Diante de tantas barbaridades hoje, de tanta violência no campo, da exploração do latifúndio, do tráfico de drogas e das pessoas, da impunidade, qual deve ser a atitude do cristão? Se nós acreditamos no shalom, nunca podemos compactuar com sistemas repressivos ou elitistas que tiram da maioria (ou mesmo de uma minoria) os direitos básicos que pertencem a todos os filhos de Deus. Às vezes, esse shalom convive ao lado do sofrimento e perseguição por causa do Reino, mas quem experimenta na intimidade a presença da Trindade também experimenta a verdade da frase de Jesus: “Não fiquem perturbados nem tenham medo” (João 14,27), pois disse Ele: “Eu venci o mundo” (João 16,33). Frequentemente, uma leitura fundamentalista do Evangelho, fortemente influenciada por ideologias da direita, insistia que Jesus veio trazer a “paz”, entendido como “ordem e progresso”, na visão positivista das elites dominantes. Mas o próprio texto do Evangelho indica que esse tipo de paz estava longe da mente de Jesus. Ele mesmo diz, com todas as letras, em Mateus (10,34): “Não pensem que eu vim trazer paz à terra; eu não vim trazer a paz, e sim a espada”. Obviamente, Jesus não diz que veio trazer a violência, pelo contrário, veio desmascarar uma paz imposta pela força, com base ideológica numa falsa imagem de Deus, e que essa ação profética dele revelaria as divisões já existentes na sociedade, nas religiões, no coração das pessoas. Pois sua prática e pregação exigiram uma tomada de posição diante da violência, ostensiva ou ocultada. A não violência não é sinônima de não ação. Pelo contrário, levou Jesus a lançar-se em uma vida dedicada aos valores do Reino, entre os quais o shalom tinha lugar premente. Por isso, por uma aliança de poderes religiosos, políticos, judiciais e econômicos, Ele foi morto pelos interesses ameaçados por essa pregação do verdadeiro shalom. Por isso devemos sempre “fazer a memória de Jesus”, de sua pessoa e de seu projeto, para que tenhamos critérios certos para verificar a presença (ou ausência) do shalom em nossa sociedade e nos comprometermos com a criação do mundo mais justo que Deus quer. O Reino de Deus não é algo escrito em uma tábua rasa. Já existe a força contrária, a do antirreino. Assim também o shalom não nasce em um vácuo, cria-se em oposição à realidade dura da violência, mesmo quando disfarçada como paz. Por isso será sempre conflituoso, pois inevitavelmente provocará a reação dos que oprimem e violentam. A dedicação a ele exigirá uma mística profunda. Uma vida dedicada à construção do shalom tem como fundamento uma profunda experiência de Deus. A luta pela paz, pelos oprimidos, por um mundo de igualdade e solidariedade para nós cristãos não pode nascer de uma simples análise de conjuntura, nem de uma indignação ética, por tão necessárias que esses elementos possam ser. A inspiração última de nossa luta pelo shalom tem de ser enraizada em nossa fé, por ser coerente com o Deus em que nós acreditamos, o Deus que vê a miséria do seu povo, vítima da violência, que ouve o seu clamor em favor da verdadeira paz, que conhece os seus sofrimentos, e que desce para libertá-lo de todas as formas da violência que atentam contra a vida (cf. Êxodo 3,7-10). É coerência com o seguimento de Jesus, o Verbo Divino que se fez carne e armou sua tenda no meio de nós (João 1,1.14), vindo para que todos tenham a vida e a tenham plenamente (João 10,10). Por isso devemos ouvir de novo a voz profética de Jesus, que conclama todos nós à conversão: “Convertam-se e acreditem na Boa Notícia” (Marcos 1,14). As raízes da violência, do antirreino estão dentro de todos nós, como indivíduos e comunidade. Quando compactuamos com qualquer discriminação, quando defendemos a violência contra

Aleluia! É a ressurreição de Jesus!

Neste drama em que vive o mundo, com o crescente número de vítimas da covid-19, talvez a cena pascal com a qual mais nos identificamos é a dos discípulos de Emaús, que abandonam Jerusalém e voltam para casa tristes e desiludidos. Com a morte do Mestre, aquele casal vê seus sonhos se desfazerem e um grande vazio se apossar deles. Uma dor sufocante na garganta e, no peito, uma sensação de fracasso e de perda irremediável fazem-nos ver apenas insegurança e medo em relação ao futuro. Assim caminham eles, assim caminhamos nós, conversando pelo caminho os infortúnios da pandemia. Um estranho se aproxima, apressa o passo e os alcança. Um diálogo se inicia… Partilham seus sofrimentos, desafogam as mágoas do coração, mas não reconhecem Jesus. O sol está se pondo quando chegam em casa e convidam o peregrino para entrar. Sentam-se à mesa e, ao partir o pão, imediatamente reconhecem Jesus, o ressuscitado, que desaparece diante de seus olhos. Então tudo muda! O cansaço desaparece, a noite se ilumina, a alegria jorra do coração, o medo se transforma em coragem, e uma nova força toma conta deles. Voltam correndo a Jerusalém para contar aos outros discípulos que encontraram Jesus ressuscitado. Que, nesta Páscoa, possamos permitir que a presença de Jesus ressuscitado nos transforme. Deixemos que Ele se aproxime, converse conosco e nos pergunte: “Por que estão tristes e abatidos? Onde está a sua fé, a sua esperança? Como são lentos para entender que tudo o que está acontecendo tem uma razão de ser, algo a ensinar e um caminho novo a mostrar!”. Sintamos nosso coração arder, nossos olhos se abrirem e nossas forças se renovarem. Coloquemo-nos de novo a caminho, restaurados no amor, na fé e na esperança. Vamos ao encontro de todos aqueles que sofrem e anunciemos: Jesus ressuscitou! O amor é mais forte do que a morte, e a vida é eterna! Estamos de passagem, aprendendo como construir uma nova terra para poder viver o céu. Um dia, vamos todos nos reencontrar na partilha do pão e nos reconhecer como realmente somos! Feliz Páscoa! Irmã Ana Elídia Caffer Neves, SSpSJornalista, Coordenadora de Comunicação Congregacional e membro da Equipe Editorial do site vivatdeus.org

Domingo da Páscoa

“Ele viu e acreditou”João 20,1-9 Os quatro evangelhos relatam os acontecimentos do dia da ressurreição, cada um de acordo com suas tradições. Certos elementos são comuns a todos: o fato do túmulo vazio, de que as primeiras testemunhas eram as mulheres (embora divirjam quanto a seu número e identidade, e o motivo de sua ida ao túmulo – para ungir o corpo ou para vigiar e lamentar) e que uma delas era Maria Madalena. Podemos tirar disso a conclusão de que as mulheres tinham lugar muito importante entre o grupo dos discípulos de Jesus e que elas eram mais fiéis do que os homens, seguindo Jesus até a Cruz e além dela. Infelizmente, outras gerações fizeram questão de diminuir a importância das discípulas na tradição (e a Igreja sofre até hoje as consequências). Lendo os relatos, um fato salta aos olhos: ninguém esperava a ressurreição. Para os discípulos, a Cruz era o fim da esperança, a maior desilusão possível. Se somarmos a isso o fato de que todos eles traíram Jesus (ou por dinheiro, ou por covardia), podemos imaginar o ambiente pesado entre eles na manhã do domingo. Nesse meio, chega Maria Madalena com a notícia de que o túmulo estava vazio (e ela, naturalmente, pensa que o corpo tinha sido roubado). Ressurreição… Nem pensar! Em nosso texto, Pedro (que tem um papel importante nos textos pós-ressurrecionais) e o Discípulo Amado (anônimo) correm até o túmulo. A passagem deixa entrever a tensão histórica que existia entre a comunidade do Discípulo Amado e a comunidade apostólica (representada por Pedro). Pois o Discípulo Amado espera por Pedro (reconhece a sua primazia), mas, enquanto Pedro vê sem acreditar, o Discípulo Amado acredita. No Quarto Evangelho, Pedro só realmente vai conseguir amar Jesus no capítulo 21, enquanto o Discípulo Amado é o tal desde capítulo 13. Só quem olha com os olhos do coração, do amor penetra além das aparências. Como em Lucas 24, na história dos Discípulos de Emaús, o texto demonstra que nossa fé não está baseada no fato de um túmulo vazio. Não é o túmulo vazio que fundamenta a nossa fé na Ressurreição, mas o contrário: é a experiência da presença de Jesus Ressuscitado que explica por que o túmulo está vazio. Cuidemos de não procurar bases falsas para nossa fé no Ressuscitado! Hoje em dia, quando olhamos para o mundo a nosso redor, é fácil não acreditar na vitória da vida sobre a morte. Há tanto sofrimento e injustiça: guerra, violência, corrupção endêmica, miséria, a saúde e a educação sucateadas. Só uma experiência profunda da presença de Jesus libertador no meio da comunidade poderá nos sustentar na luta por um mundo melhor, com fé na vitória final do bem sobre o mal, da luz sobre as trevas, da graça sobre o pecado. Nós todos somos discípulos, discípulas amados e amadas, pois “nada nos separa do amor e Deus em Jesus Cristo” (Romanos 8), mas será que somos discípulos “amantes”? Realmente amamos Jesus e o próximo? Lembramos que o “ágape”, o amor proposto pelo Evangelho, não é um sentimento, mas uma atitude de vida, de solidariedade, de partilha, de justiça. “O amor consiste no seguinte: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi Ele que nos amou, e nos enviou o seu Filho como vítima expiatória por nossos pecados. Se Deus nos amou a tal ponto, também nós devemos amar-nos uns aos outros” (1 João 4,10-11). Que a mensagem da Ressurreição, da vitória da vida sobre a morte, nos anime e dê força todos os dias de nossa vida, mas especialmente quando a Cruz pesar muito. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

Páscoa: tempo de renascer! Tempo de despertar para a vida nova!

Muitos de nós, de uma certa idade, lembram ainda quando a Quaresma era observada com muito rigor nas famílias e comunidades cristãs, com especial ênfase em privar-se de algum bem (doces, bebidas, cinema ou algo semelhante). Que alegria quando chegava o Sábado Santo, quando terminava a Quaresma ao meio-dia, pois tudo aquilo terminava! Sem negar o valor das práticas daqueles tempos idos, antes da reforma litúrgica do Papa Pio XII, a celebração da Páscoa foi diminuída em sua importância e quase que desligada da caminhada quaresmal. O ponto alto do ano litúrgico é o Tríduo Pascal. Aqui está resumido todo o mistério de nossa salvação, pela vida, morte e ressurreição de Jesus. Na quinta à noite, comemoramos a Ceia que sintetizou toda a vida de Jesus. “Tendo amado os seus, amou-os até o extremo” (João 13,1), até o último ponto de doação, dando a sua vida. Jesus nos deu o mandamento que deve nortear toda a nossa vida: “Façam isso em memória de mim”. Não fazendo uma lembrança de algo que já passou, mas o memorial, tornando presente tudo o que foi celebrado na ceia derradeira e comprometendo-nos com o seguimento de Jesus hoje, alimentados por seu Corpo e Sangue, com uma vida de amor e solidariedade. Há uma ligação estreita entre todos os elementos do Tríduo, pois a Sexta-Feira foi a consequência lógica da vida de Jesus. Ele não veio para morrer, mas para que “todos tenham a vida e a vida em abundância” (João 10,10). Por isso seu projeto do Reino bateu frontalmente com os projetos de dominação de seu tempo e, por isso, ele foi assassinado. Fiel até o fim, assumiu as consequências da fidelidade à vontade do Pai e foi morto, e morto na Cruz. Desvinculado da Quinta-Feira Santa e do Sábado Santo, Sexta-Feira seria a celebração de uma derrota fragorosa. Por isso, depois de sentirmos a dor e a tristeza da Sexta-Feira, aparente vitória do mal, celebramos, pela Liturgia Pascal, numa explosão de alegria: a vitória de Deus, do bem, na Ressurreição de Jesus, garantia da nossa. Salta aos olhos, mesmo com uma leitura superficial dos relatos evangélicos, que a experiência da Páscoa fez uma reviravolta na vida dos discípulos e discípulas. De um grupo de decepcionados, desiludidos, fracassados, tornaram-se um grupo dinâmico, evangelizador, animado, olhando a vida, com suas alegrias e tristezas, de outra maneira. Isso fica claro no relato dos Discípulos de Emaús, em Lucas (24,13-35). Podemos sentir, no desabar de Cléofas, sentimentos de tristeza, decepção, desilusão, até revolta contra Jesus por, aparentemente, Ele ter fracassado e destruído os sonhos e esperanças deles: “Nós esperávamos (notemos o tempo do verbo) que fosse Ele o libertador de Israel, mas… já faz três dias que tudo isso aconteceu” (Lucas 24,21). De repente, depois de ter feito a experiência da presença de Jesus Ressuscitado, tudo muda: “Então, um disse ao outro: ‘Não estava o nosso coração ardendo quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?’. Na mesma hora, eles se levantaram e voltaram para Jerusalém, onde encontraram os Onze, reunidos com os outros” (Lucas 24,32-33). Páscoa era para eles, e tem de ser para nós, “tempo de renascer”. Mas é bom notar: só “renasce” o que morreu! Temos de descobrir em nós o que precisa renascer, o que tem morrido ou está agonizando. Pode ser a fé, a força, o ânimo, a esperança, o engajamento na comunidade, a energia para lutar por um mundo melhor. Todas essas coisas são capazes de renascer se realmente fizermos a real experiência da Páscoa, da ressurreição de Jesus. Não de uma maneira sentimental e aérea, mas realista. Para ressuscitar, Jesus teve de passar realmente pela morte. Mas venceu a morte e continua a viver, e no meio de nós. Lembremos como Paulo dava importância à Ressurreição. Escrevendo aos coríntios, uma comunidade onde alguns “iluminados” negavam ou menosprezavam o fato da Ressurreição, ele brada: “Se os mortos não ressuscitam, Cristo também não ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, a fé que vocês têm é ilusória, e vocês ainda estão nos seus pecados… Se a nossa esperança em Cristo é somente para esta vida, nós somos os mais infelizes de todos os homens” (1 Coríntios 15,16-19). Não há dúvida de que não é fácil manter sempre a esperança, a fé e a coragem diante de tantas dificuldades na vida. Sempre foi assim. O autor anônimo de Hebreus, escrevendo na segunda parte do primeiro século a uma comunidade judaico-cristã, sabia disso e falou: “Corramos com perseverança na corrida, com os olhos fixos em Jesus… Para que vocês não se cansem e não percam o ânimo, pensem atentamente em Jesus” (Hebreus 12,1c-3). A celebração da Semana Santa nos dá uma oportunidade de fazer isto: olhar de novo atentamente para Jesus, o Verbo de Deus, “que se fez homem e armou a sua tenda no meio de nós” (João 1,14). Assim podemos reanimar nossa fé, nossa missão, nossa participação na comunidade, olhando, recordando e celebrando o Jesus real, de mão calejada, que se tornou igual a nós em tudo, menos no pecado. Se, apesar de ser abandonado por quase todos e sentindo-se abandonado até pelo Pai, gritando, “Meu Deus, meu Deus! Por que me abandonaste?” (Marcos 15,34), mesmo assim, foi fiel até o fim, foi ressuscitado pelo Pai. Tempo de renovação, tempo de reviver, tempo de ânimo novo, tempo santo; a celebração da vida, morte e ressurreição de Jesus, “autor e consumidor da fé” (Hebreus 12,3). Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.

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