Redescobrir o Natal em meio ao “natal”

Redescobrir o Natal em meio ao “natal”. Veja a reflexão elaborada pelo jesuíta padre Adroaldo Palaoro, comentando o Evangelho proclamado na liturgia da noite da Solenidade do Natal do Senhor. A passagem está em Lucas 2,1-14.
Dois testemunhos: “Ninguém tire minha fé”, “Vivo de minha fé”

Padre Deolino Pedro Baldissera nos apresenta dois emocionantes exemplos de fé. Ao visitar o seu Camilo e a dona Maria, como parte da preparação para o Natal, ficou impressionado com a forma com que vivem sua missão cristã. Ele partilha conosco um pouco do que viu. O testemunho dos dois idosos seja para nós estímulo para celebrarmos um autêntico Natal.
Natal: tempo de nascimento para um ser-agir mais sustentável

Em 2024, nossos temas de pauta foram os sete objetivos da plataforma Laudato Si’. A professora Marli Teresinha Everling revisita sete pontos que merecem atenção quando se trata de transições coletivas para um ser-agir mais sustentável. Confira!
Celebrar o Natal

De ano em ano, no dia 25 de dezembro, celebramos a festa do Natal. Parece automático: todo mundo planeja fazer festa em família, preparar uma ceia apetitosa ou um almoço festivo. Há até certos produtos que, por tradição, entram no cardápio, como peru, chester; isso vale para quem tem condições de comprar tais ingredientes. Nem todos podem. Alguns se contentam com um franguinho e uma farofinha. São coisas de se fazer na celebração do Natal. Embora seja legítimo e desejável, isso não é celebração do Natal cristão se não vier acompanhado do verdadeiro sentido da festa. Natal cristão, em primeiro lugar, é celebrar a presença de Emanuel, Deus conosco, que se fez pessoa humana em nosso mundo. Armou sua tenda no meio de nós. É a presença inédita de Jesus, o enviado do Pai, que tomou corpo humano. Celebrar seu nascimento significa reconhecê-lo homem-Deus que veio para salvar. Seu nascimento mudou a história em antes e depois. As promessas feitas pelos profetas se cumpriram, e as expectativas foram contempladas. Todos se beneficiaram de seu nascimento, até os que não acreditavam. Ele veio para todos, sem exclusão. A vida, desde então, passa por ele. Tudo se fez novo com ele. É com ele, por ele e nele que tudo recebe sua marca. Nenhuma obra da criação ficou de fora. Tudo foi redimido por Cristo, em sua morte e ressurreição. Seu Natal foi o começo dessa obra realizada em três anos de atividades como Messias entre nós, mas sua ação se perpetuou para sempre. Não virá outro Messias; é Ele e somente Ele por toda a eternidade. Viver o Natal nos reporta aos fundamentos de nossa fé e de nossa esperança. Nas tradições natalinas, relembram-se costumes, repetem-se desejos de feliz Natal, armam-se presépios, enfeitam-se pinheirinhos, dão-se presentes, iluminam-se as ruas e as casas com luzes cintilantes. Há um clima que pervade tudo e todos. Existem diferentes sentimentos e objetivos, mas não se pode negar que tudo indica um tempo novo que convida à convivência familiar, com salutares encontros. Que o espírito de Natal seja o da alegria de celebrar a vinda do Filho de Deus entre nós. Ele veio, morou conosco. Viveu nosso cotidiano, salvou-nos, dando sua vida, e continua conosco, não mais em carne e osso, mas numa presença misteriosa que alimenta a vida cristã, na Eucaristia que celebramos em seu nome. Feliz Natal, dizemos uns aos outros. Que esse desejo se traduza na vida prática, numa convivência sadia, solidária e fraterna, eliminando tudo aquilo que nos afasta uns dos outros. Boas festas e FELIZ NATAL! AMÉM! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S
Deus “é” Encarnação

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14) Nenhuma palavra consegue expressar com profundidade o mistério do Natal que estamos celebrando. Talvez o melhor seria aplicar o provérbio oriental: Se tua palavra não é melhor que o silêncio, cala-te. Só em chave de silêncio podemos compreender a Encarnação e o Nascimento de Jesus. O que devemos descobrir não pode vir de fora, mas deve surgir do mais profundo de nós mesmos. As leituras dos evangelhos indicados pela liturgia para o tempo do Natal certamente farão transbordar em nosso interior os sentimentos mais nobres e elevados. Mas isto não basta para nos situar diante do Mistério e vivê-lo com intensidade. Falamos de uma noite surpreendente, mas para a contemplação. Sem esta contemplação, permanecerá um vazio interior, sem nenhum sentido religioso. O valor desta festa depende de nossa atitude. Nada substituirá o itinerário para o centro de nós mesmo. Só ali acontece o mistério; só no mais profundo de nós mesmos descobriremos a presença de Deus. Celebrar a Encarnação-Nascimento de Jesus pode nos ajudar a encontrar a Deus dentro de nós e no coração dos outros. Jesus nasceu, viveu e morreu em um lugar e um tempo determinado, mas não estamos celebrando um aniversário. Os dados históricos não têm maior relevância: não sabemos onde Jesus nasceu, não sabemos quando, nem em que dia ou mês. Tudo o que digamos d’Ele, a partir do ponto de vista histórico, aponta para o desconcerto. Não se trata de recordar e celebrar o que aconteceu faz dois mil anos, mas de descobrir o que está acontecendo hoje em cada um de nós. Devemos descobrir, celebrar e viver conscientemente essa realidade sublime. Este é o sentido do Natal. O que celebramos, na noite de Natal, é precisamente isso: o sublime Mistério da Encarnação de Deus em cada coração humano e em todo o Universo. Como costuma ocorrer com os grandes mistérios da fé, acabamos adocicando e esvaziando o conceito original de Encarnação. Preferimos dizer natal ou natividade, fazendo referência a um termo latino relacionado com o nascimento. Por isso, nos fixamos em um nascimento – o de Jesus – e colocamos à margem o que realmente significa encarnação. Talvez, no fundo, essa coisa de carne não nos convence muito: é como se fosse algo muito vulgar, material, prosaico…, que se conecta com nossa dimensão corporal-sexual. Afirmar que Deus se fez carne é quase uma heresia. Segundo a mentalidade que foi se propagando no cristianismo Deus é o Absoluto e não pode ser contagiado com a matéria corporal. No entanto, a partir da Revelação bíblica, a Encarnação é Deus dentro de nós e dentro de toda a Realidade existente, sem se confundir ou desaparecer no que é perecível, no transitório. Este é o grande milagre de Deus. O Verbo se faz carne na pessoa de um Menino que, dentro de sua corporeidade e sua realidade como ser humano verdadeiro interioriza Deus na Humanidade. Tão humano, tão humano… só podia ser Deus (L. Boff). Assim, a moral cristã, durante muitos séculos, alimentou uma espiritualidade desencarnada, piegas, cheia de culpas, angústias e remorsos. No fundo, negou-se uma dimensão humana tão nobre: o ser humano é carne. É da sua essência. O mistério da Encarnação-Nascimento vem iluminar e dignificar esta dimensão carnal que foi tão desprezada e gerou tantos conflitos morais. Na Encarnação do Filho, Deus se faz carne, se humaniza; assume e plenifica tudo o que é humano. Nada do humano é considerado como suspeita, fonte de pecado… Afinal, somos obras maravilhosas do Criador. É preciso superar a pobreza do dualismo corpo-alma e retornar à visão antropológica bíblica onde o ser humano não tem corpo nem tem alma. Ele é corpo, é alma, é espírito, é sentimento, é relação, é afeto, é razão… Ele é, nas suas diferentes expressões. A partir da Encarnação do Verbo não dá mais para imaginar um ser humano compartimentado, desintegrado, dividido nas suas dimensões existenciais. Ele é um todo, integrado, unido, pacificado… Quão distante estamos da essência do Mistério da Encarnação! Santo Inácio de Loyola, ao propor a contemplação da Encarnação, nos Exercícios Espirituais, afirma: recordar como as Três Pessoas divinas determinam, em sua eternidade, que a Segunda Pessoa se faça homem, para salvar o gênero humano. A Encarnação é o mistério fundante de nossa fé a ser vivido e não pensado. A Encarnação não é um evento isolado da história. Toda a Criação foi afetada; todos os fatos da história encontram nela seu sentido. A história humana se faz História de Salvação. Assim sendo, Deus não só se encarna; Ele é Encarnação. A Encarnação não é um ato pontual, mas uma atitude eterna de Deus. A Encarnação já começa na criação do mundo: Tudo foi feito por Ele, e sem Ele nada se fez de tudo que foi feito (Jo 1,3); tudo é perpassado pela Sua Presença. Estamos falando do Verbo que tem a ousadia de penetrar as categorias de espaço e tempo, as únicas que nós temos para conhecer em plenitude a realidade de tudo. Deus já veio, está vindo deste sempre; só o esperamos e o celebramos seu Nascimento de um modo simbólico, religioso, fraternal. Por isso, o Natal é tão inspirador e nos enche de paz, por saber que carregamos Deus dentro de nós, embora nem sempre saibamos disso, nem O vejamos. Deus deixa de ser o eterno desconhecido para se tornar Emanuel, Deus conosco. Já estamos salvos porque Deus se encarnou em nós, em todos: sem distinção de credo religioso, raça, língua, época em que se viva, idade que tenhamos, etc. Assim novamente encarnado, nos diz S. Inácio nos EE (n. 109). Encarnação permanente. E por isso nos felicitamos, porque não somos órfãos, nem estamos perdidos em um Universo imenso, mas porque Deus é nosso cúmplice, o melhor avalista de que nossa vida é já Vida n’Ele. Eis o realismo da Encarnação! Cada vez mais nos conscientizamos, com maior evidência, de que a Encarnação do Filho é isto: tomar a carne concreta da humanidade para
Celebração de Natal

Roteiro Leitor 1: Nasceu-nos hoje um menino, Um filho nos foi dado, Grande é este pequenino, Rei da Paz será chamado. Leitor 2: O Natal é a festa da paz e da luz. O mundo e todos nós precisamos de paz. Diz o texto sagrado que “a multidão que andava nas trevas viu uma grande luz” (Isaías 9,1a). Que a luz irradiante do Menino Deus aqueça nosso coração e nos abra para a vivência do amor. [Neste momento, a pessoa responsável pela casa acende uma vela, que pode estar no centro da mesa ou ao lado da árvore de Natal, ou do presépio.] Fazer memória do Nascimento Leitor 3: Vamos agora escutar a narrativa do nascimento de Jesus. A passagem se encontra no Evangelho de Lucas, capítulo 2, versículos 1 a 14. Mais do que uma simples lembrança, a celebração de hoje atualiza esse fato tão marcante da história da humanidade e nos faz testemunhas desse acontecimento. Ouçamos. Leitor 4: Naqueles dias, o imperador Augusto publicou um decreto, ordenando o recenseamento em todo o império. Esse primeiro recenseamento foi feito quando Quirino era governador da Síria. Todos iam registrar-se, cada um na sua cidade natal. José era da família e descendência de Davi. Subiu da cidade de Nazaré, na Galileia, até a cidade de Davi, chamada Belém, na Judeia, para se registrar com Maria, sua esposa, que estava grávida. Enquanto estavam em Belém, completaram-se os dias para o parto, e Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou e o colocou numa manjedoura, pois não havia lugar para eles na hospedaria. Naquela região, havia pastores que passavam a noite nos campos, tomando conta do rebanho. Um anjo do Senhor apareceu aos pastores; a glória do Senhor os envolveu em luz, e eles ficaram com muito medo. Mas o anjo disse aos pastores: “Não tenhais medo! Eu vos anuncio a Boa Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido envolto em faixas e deitado numa manjedoura”. De repente, juntou-se ao anjo uma grande multidão de anjos. Cantavam louvores a Deus, dizendo: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados”. Leitor 5: Neste momento, vamos receber a imagem do Menino Jesus. Que Jesus seja a luz para a nossa caminhada, e que ela nos traga a paz. Enquanto ouvimos a música “Anunciação”, cada um eleve até Deus seus louvores e súplicas. Partilha e preces espontâneas 1. Pedimos ao Menino Deus que sejam possíveis a paz e o perdão para toda a gente, seja aqui, seja do outro lado do mundo, seja numa pequena alameda de cada cidade onde há sede de verdade e de infinito. Jesus, Luz do Mundo e Príncipe da Paz, escuta nossa prece. 2. Pedimos, Menino Deus, por nossas famílias. Que a esperança que recebemos de suas mãos de criança alimente nossos corações e nos ajude a ter fé e perseverança no amanhã. Jesus, Luz do Mundo e Príncipe da Paz, escuta nossa prece. Outras orações… Benção Avós ou pais: A bênção final que vamos receber é inspirada no livro dos Números, capítulo 6, versículos 24 a 26. Que Deus Menino nos abençoe e nos guarde. Que Ele nos mostre o seu rosto e nos conceda a paz e o amor. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Todos: Amém!
“Natal: a festa da família”: roteiro para celebrar no lar o nascimento de Jesus

Partilhamos uma proposta de celebração para antes da confraternização com a sua família. Reúna todos em volta da árvore ou perto do presépio para rezarem juntos. Caso não os tenha, pode ser ao redor da mesa. O mais importante é nosso coração estar orante. As pessoas que moram na casa desejam as boas-vindas a todos. MOMENTO 1: ORAÇÃO Reúna todos ao redor da mesa, da árvore ou perto do presépio para rezarem juntos. Leitor 1: Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Todos: Amém. Leitor 2: Dois dias marcam a história da salvação: a noite do Natal e a manhã da Páscoa. Na noite de Natal, o Filho de Deus nasce pequenino e pobre numa gruta. Na manhã da Páscoa, o Filho do Homem renasce forte e fascinante na glória da ressurreição. Leitor 3: Natal é tempo de confraternização e de reunir as pessoas que amamos. Tempo de alegria e de fé, apesar dos momentos difíceis vividos pela humanidade. Tempo de encher o coração de esperança, como fez Maria e José com a chegada humilde de Jesus menino. Leitor 4: Vamos lembrar a história contada por Lucas, no Evangelho: José subiu da cidade de Nazaré, na Galileia, até a cidade de Davi, chamada Belém, na Judeia, para registrar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. Enquanto estavam em Belém, completaram-se os dias para o parto, e Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles na hospedaria. Naquela região havia pastores que passavam a noite nos campos, tomando conta do seu rebanho. Um anjo do Senhor apareceu aos pastores, a glória do Senhor os envolveu em luz, e eles ficaram com muito medo. O anjo, porém, disse aos pastores: “Não tenhais medo! Eu vos anuncio uma grande alegria, que o será para todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um salvador, que é o Cristo Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um recém-nascido envolvido em faixas e deitado numa manjedoura”. E, de repente, juntou-se ao anjo uma multidão da corte celeste. Cantavam louvores a Deus, dizendo: “Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados”. MOMENTO 2: REFLEXÃO Separe este momento para ouvir as pessoas e trocar experiências. Pergunta-guia: qual a mensagem que essa história revela em seu coração? MOMENTO 3: AÇÃO DE GRAÇAS Neste momento, apresente ao Menino Deus seus motivos de gratidão e pedidos. Acenda uma pequena vela simbolizando a presença de Jesus que nasce e peça que uma criança ou a pessoa mais jovem da família faça a oração. Oração pela família Senhor, diante de teu presépio, venho pedir por minha família.Abençoa as pessoas que amo.Que, dentro de nosso lar, habite a confiança de Maria, o zelo de José, e a inocência do teu rosto de criança.Afasta de nossa casa os que lutam para matar nossos sonhos de paz.Concede-nos a saúde do corpo e da alma, para que possamos cantar teus louvores a cada dia deste novo ano.Que nossas portas estejam sempre abertas para te receber nas visitas que nos fazes em tantos rostos sofridos.Dá-nos a alegria de tua presença em nosso lar: o maior de todos os presentes possíveis.Abençoa nossa família neste Natal. Todos: Amém. MOMENTO 4: CONCLUSÃO Que o Senhor nos abençoe, nos guarde, nos livre de todo mal e nos dê a paz, amém! A todos nós, um feliz Natal! Em seguida, pode-se cantar “Noite feliz” ou outra canção natalina. Noite feliz, noite feliz!O Senhor, Deus de amor,Pobrezinho nasceu em BelémEis na lapa Jesus, nosso bemDorme em paz, ó JesusDorme em paz, ó Jesus Noite feliz, noite feliz!Eis que, no ar, vem cantarAos pastores os anjos do céuAnunciando a chegada de DeusDe Jesus, SalvadorDe Jesus, Salvador Noite feliz, noite feliz!Ó Jesus, Deus da luz,Quão afável é o teu coraçãoQue quiseste nascer nosso irmãoE a nós todos salvarE a nós todos salvar
O presente de Isaías para este Natal

Os últimos anos têm sido muito difíceis em vários aspectos. Mesmo antes da famigerada pandemia de covid-19, nosso país já passava por instabilidades importantes na política, na economia, na segurança pública, na saúde, na educação, nos gestos de gentileza, na religião, nas ideias. Reconheço ser estranho começar um texto de Natal recordando essas mazelas, mas elas vêm ao encontro de um trecho de Isaías que pulsa em meu coração nestes dias. É o início da primeira leitura da liturgia da noite de Natal: “O povo que andava na escuridão viu uma grande luz; para os que habitavam na sombra da morte, uma luz resplandeceu” (Isaías 9,1). Que grande presente esse o de Isaías! Um profeta, uma profetisa de verdade costuma nos tirar do lugar, nos incomodar, seja “puxando nossa orelha”, seja nos animando. Parece que estamos aceitando a vitória das trevas e da morte! Ainda hoje, há pessoas comemorando “apenas” dezenas de mortes diárias causadas pelo covarde coronavírus e seus aliados. Verdadeiramente, andamos à sombra de muitas mortes. Perdemos milhares de nossos irmãos e irmãs devido à pandemia, ao descaso, à violência, à fome e muitos outros males, as também perdemos a esperança, as águas, os animais e as matas. Não deveríamos chegar a esta particular solenidade do Natal do Senhor apenas mandando, via redes sociais, figurinhas pré-fabricadas, quase sempre com as cafoníssimas neve, renas, frases feitas, estrelinhas piscando… Este Natal precisa ser o marco para a ressurreição de muitos vivos e de virtudes como a esperança e a verdade, o valor a trabalhadores, aos pobres e “lascados”, à ciência, a toda a Criação. Jesus já veio como um sofredor. Veio sem as mínimas condições, num curral, e foi colocado num comedouro (eis os verdadeiros termos!), porque não havia lugar para seus pais na hospedaria (Lucas 2,7c). Nessa escuridão experimentada por ele próprio, também foi consolado pela luz do cuidado de Maria, que o enrolou em faixas e o colocou na manjedoura (Lucas 2,7b), talvez o lugar menos inseguro no cenário. Foi visitado por pastores e estrangeiros. Naquelas trevas, a luz da ternura e do amor venceram. Eis a Boa-Nova! Na noite de Natal (dulcíssima, apesar de tudo), não podemos cochilar diante dessas leituras carregadas de vida, santa subversão e ternura, particularmente a esse versículo do profeta. Ele não diz “verá uma grande luz”, mas com a convicção dos grandes na fé, usa outro tempo verbal: o pretérito perfeito. Um fato passado bem delimitado no tempo. Vimos o brilho, mas ouso dizer: continua a surgir diante de nós uma grande luz. Não fechemos nosso coração, nosso olhar para esse resplendor. Deveríamos repetir o trecho como um mantra, a começar de agora até quando julgarmos termos o mínimo de estabilidade e paz. Apesar de tudo, vamos nos permitir um santo e esperançoso Natal. Que as luzes e a vida vençam! Abramos nossos olhos para a glória do Senhor! Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo, membro da Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das SSpS.
Nossa mensagem de Natal

Neste ano, a celebração do Natal está muito diferente das anteriores. Revela-se um contexto que nos conduz a uma comemoração mais silenciosa, restrita a círculos familiares, sob a exigência da distância social. Assista ao vídeo e veja nossa mensagem! blog.ssps.org.br
O tesouro da liturgia doméstica no Natal

A pandemia não trouxe apenas dor, luto, lágrimas. Estamos sendo obrigados a rever várias atitudes, inclusive dentro da prática religiosa. Assim, eu gostaria de deter-me um pouco nesse aspecto. Antes de entrar no tema do Natal, acho bom partilhar algumas considerações. Nestes meses, foram revelados, escancarados alguns problemas que quase sempre existiram, mas andavam meio disfarçados pela correria do cotidiano. Sem querer esgotar a lista, destaco aqui o clericalismo (não apenas de clérigos, diga-se!); o desconhecimento da amplitude litúrgica de nossa Igreja (até hoje, muitos pensam a liturgia apenas como a missa); e o “assistir” passivamente aos ritos, seja pela tevê, seja pelas redes sociais; em resumo, aflorou-se a ignorância ou a omissão quanto às bases existentes desde o início da Igreja e restabelecidas, com louvor, pelo Concílio Vaticano II. Os perigos reais da famigerada covid-19 obrigaram comunidades de fé a terem de respeitar o isolamento, afetando gravemente a vida eclesial. Um dos lados positivos dessa história é a Igreja ter tirado a poeira que escondia um tesouro: as liturgias domésticas. Até pelos séculos IV, V, os seguidores de Jesus se reuniam na chamada domus ecclesiae para celebrarem os sacramentos, serem instruídos, organizarem a caridade e consolarem-se. Muitos de nossos ritos atuais são herança desse tempo. O cristianismo, contudo, passou a ser “religião oficial”, e isso levou os cultos para ambientes públicos, cheios de pompa. A liturgia doméstica valoriza o sacerdócio comum dos batizados. Essas celebrações, devem estar em comunhão com a Igreja, mas não se atrelam a certos protocolos dos ofícios comunitários. O despojamento, a brevidade e, claro, o ar familiar dão o tom. Por isso não é recomendável transferir mecanicamente para o lar o modelo da igreja paroquial. Em tempo: é importante sublinhar que esse formato é “outra liturgia” e não se opõe jamais à comunitária. Ambas podem (e precisam) conviver, mesmo depois da pandemia. Para a liturgia doméstica do Natal O Natal é oportunidade para uma tocante celebração na domus ecclesiae deste início de Terceiro Milênio. Há inúmeras propostas elaboradas por especialistas, quase todas maravilhosas! Vale reforçar: como é uma autêntica liturgia, o presidente é Cristo! Ele está presente, de forma real, na Palavra proclamada e na reunião dos batizados. Ouso sugerir alguns encaminhamentos. Evitarei aqui dar os textos prontos, pois cada Igreja-lar tem sua autonomia para dirigir ao Senhor as próprias orações. Nunca é demais recordar que o povo de Deus, em Cristo, é sacerdote, profeta e rei, e, pelo Espírito Santo, sabe como fazer (cf. Romanos 8,26-27). No que couberem, as orientações são válidas também para quem, devido ao isolamento, tem de celebrar sozinho ou para inúmeros outros contextos, como junto ao leito de um enfermo, por exemplo. Jesus veio para todos! O ambiente Escolha um lugar significativo para sua família. Pode ser em torno do presépio, da mesa das refeições cotidianas, na sala de estar, na varanda, no quintal… Evite ornatos alheios ao espírito cristão, próprio dessa solenidade. Considere como alienígenas figuras do Papai Noel, neve artificial, renas, trenós, duendes e outros penduricalhos. Jesus é o centro! A luz é um elemento significativo do Natal, por isso, se for oportuno, haja pelo menos uma vela. Ela pode ser acessa no início da celebração, na proclamação do Evangelho ou em outro ponto do rito. A Bíblia é outro sinal a estar presente desde o início da oração. Afinal, Cristo é a Palavra que se fez ser humano e veio viver conosco (cf. João 1,14). Em outros contextos, faça as devidas adaptações. Os ministérios Escolha com antecedência alguém para presidir o momento. É recomendável que a leitura bíblica seja proclamada por quem tem mais aptidão para leitura. Também seria muito significativo a pessoa mais idosa conceder a bênção final. Há outros ministérios que podem ser exercidos, como o de música. Como é uma liturgia, repito, haja o devido esmero: a preparação do espaço, o contato prévio com as leituras, o ensaio dos cânticos. Informalidade não significa falta de capricho. As crianças É muitíssimo louvável o envolvimento das crianças. Que tal, após a proclamação do Evangelho, uma delas colocar a imagem do Menino Jesus sobre a manjedoura? Em seguida, as outras podem depositar flores no presépio. O importante é elas se sentirem acolhidas. Essa é uma das heranças não corroídas pela traça (cf. Mateus 6,19-20). Com certeza, levarão por toda a vida uma doce recordação desse dia sagrado e, queira Deus, sigam o exemplo. As leituras Recomendo vivamente que as leituras acompanhem as da liturgia solene. Isso demonstra comunhão com toda a Igreja e ajuda a manter o foco na vinda de Jesus. Jesus está presente também no Pão da Palavra, por isso é uma hora especial. Podem-se proclamar todas as leituras ou apenas algumas delas, porém não se deve deixar de lado o Evangelho. A seguir, as indicações: Para quem celebra na tarde do dia 24 de dezembro: Isaías (62,1-5); Salmo 88/89; Atos dos Apóstolos (13,16-17.22-25); * Evangelho de Mateus (1,18-25). Para a celebração da noite de 24 de dezembro: Isaías (9,1-6); Salmo 95/96; Tito (2,11-14); * Evangelho de Lucas (2,1-14). Para quem celebra na madrugada do dia 25 de dezembro: Isaías (62,11-12); Salmo 96/97; Tito (3,4-7); * Evangelho de Lucas (2,15-20). Para a celebração nas outras horas de 25 de dezembro: Isaías (52,7-10); Salmo 97/98; Hebreus (1,1-6); * Evangelho de João (1,1-18 ou 1,1-5.9-14). Preces Com a família reunida, é salutar dirigir a Deus louvores, pedidos e agradecimentos; interceder por outros familiares, pelos sofredores, pelos vizinhos, pelos falecidos, pelo mundo. Recomendo que as preces sejam breves e bem objetivas. Depois todos rezam juntos o Pai-Nosso. Caso haja membros de diferentes denominações cristãs, pode-se recitar a versão ecumênica. Bênção à mesa Um gesto sacratíssimo é bendizer a Deus por Ele nos nutrir com o Pão da Palavra, da Eucaristia e com o alimento a sustentar-nos o corpo. Seria muito oportuno que todos, juntos, abençoassem a reunião em torno da mesa, um prenúncio do alegre banquete na Casa do Pai e anunciado por Jesus. Outra possibilidade é o membro mais idoso ou quem preparou a ceia