Transição, maturidade e autoestima

O ciclo da vida do ser humano ocorre dentro de dois grandes e principais eventos: o nascimento e a morte. Para a psicanálise, entre esses dois eventos, existem quatro fases do desenvolvimento: a infância, a adolescência/juventude, a fase adulta e a velhice. A natureza biológica e psíquica oferecem condições para que a transição entre essas fases ocorra de forma natural e saudável, levando esse ser humano à maturidade e proporcionando a autoestima de cada um. Alguns fatores são importantes para esse processo: ambiente, família, bem-estar físico, entre outros. Neste artigo, veremos como a transição e a maturidade, assim como a autoestima ocorrem em cada fase. Daremos especial atenção às duas primeiras fases do desenvolvimento humano: infância e adolescência/juventude. A fase da infância é uma fase delicada. A vivência saudável (ou não) dessa fase implicará as outras três. O ser humano, desde o nascimento, experimenta um momento importante de afetividade, amor, apego, segurança e confiança, durante a gestação. Após o nascimento, ele explora o próprio corpo e o ambiente externo. Aos poucos, vai se percebendo como indivíduo. O desapego do corpo da mãe proporciona que ele se afirme e se desenvolva de maneira progressiva. Aos poucos, o bebê percebe que há outras pessoas no ambiente, que sua mãe e seu pai não são exclusivos dele, percebe o amor dos irmãos, dos avós, dos tios, enfim, do mundo a seu redor. Em seguida, vêm o lúdico e o ambiente escolar que complementam esse desenvolver-se. Se vivido de maneira saudável, a transição ocorrerá de maneira também saudável. Isso inclui ter tempo para ser criança e para brincar. Se o ambiente familiar e o ambiente externo, no entanto, não forem adequados ao desenvolvimento, é possível que teremos “eternos bebês”. Isso quer dizer que o que era saudável para um bebê ou para uma criança em sua primeira ou segunda infância (egoísmo, egocentrismo, narcisismo, etc.), aos poucos, tem de dar lugar à transição para a outra fase do desenvolvimento: a adolescência/juventude. Caso contrário, teremos adultos egoístas, egocêntricos, narcisistas, inseguros e infantis. O início da adolescência varia quanto a vários fatores: gênero, ambiente e cultura. Isso quer dizer que a idade cronológica, nesse caso, não é tão determinante, mas sim o comportamento. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) (Lei nº 8.069/1990), considera que a adolescência vai dos 14 aos 18 anos. É a fase da despedida do lúdico para assumir algumas obrigações formais, como escola, tomadas de algumas decisões que podem ser pequenas, mas exigentes. A frase aversiva desse tempo é “você não é mais uma criança”. Também nesse tempo, aceleram-se as mudanças físicas: o corpo muda e vai ganhando definições, a produção de hormônios se acelera. Os relacionamentos afetivos marcam a convivência entre pares. O erotismo e a sexualidade são aspectos delicados e, muitas vezes, mal compreendidos pelos adolescentes. São mal compreendidos também por muitos pais e professores. A necessidade de se autoafirmarem como indivíduos, de mostrar personalidade própria pode gerar conflitos com os pais. Muitas vezes, o adolescente não quer ser igual ao pai, ou igual à mãe, como ele fazia na infância. É também um tempo de muita ansiedade e variação de humor passageiro. Isso tudo é muito saudável para a maturação e transição para a próxima fase. No entanto, exige das pessoas do convívio, paciência, compreensão e um pouco de preparo para lidar com as inconstâncias e os conflitos da fase. Algumas lacunas da fase anterior, da infância, tentarão ser preenchidas inadequadamente nessa fase: por exemplo, a falta de atenção dos pais agora será preenchida no comportamento na escola, pela aplicação do bullying e da violência escolar contra colegas, funcionários e professores. Mais ainda, alguns pais, na tentativa de compensar as necessidades da sua própria infância, “deram tudo o que eles mesmos não tiveram” e, com isso, criaram filhos mimados e intolerantes a frustrações. Eles são reconhecidos nos adolescentes e jovens “filhinhos de papai” ou nas “patricinhas mimadas” e até nos jovens abusadores. A fase da juventude é conhecida também como adolescência tardia. Também é conhecida como início da fase adulta. A fase adulta é um tempo marcado pela maturação fisiológica. O corpo completa seu desenvolvimento. Psicologicamente, é um tempo de amadurecimento. Além das responsabilidades novas, colhe-se o que se plantou nas duas fases anteriores. Como afirma Contardo Calligaris (2010): “Numa psicanálise, descobre-se que a vida adulta é sempre menos adulta do que parece: ela é pilotada por restos e rastos da infância”. A fase adulta é marcada por decisões com caráter permanente na vida profissional e afetiva. A última fase, a velhice, é uma fase ainda incompreendida pela sociedade, pela juventude, pelos estudos acadêmicos e pela mídia. Numa cultura capitalista, a sociedade tem pouco a oferecer e pouca inclusão das pessoas que estão nesta faixa etária. Psicologicamente a última fase, a velhice é uma fase também de colheitas do que se plantou na juventude. “Se o envelhecimento ocorre com sentimento de produtividade e valorização do que foi vivido, sem arrependimentos e lamentações sobre oportunidades perdidas ou erros cometidos, haverá integridade e ganhos, do contrário, um sentimento de tempo perdido e a impossibilidade de começar de novo trará tristeza e desesperança” (ERIKSON; ERIKSON, 1998, p. 91). Portanto, a transição, a maturidade e autoestima dependem da dinâmica psíquica de cada indivíduo. Esta tem influência do ambiente cultural e social e principalmente do ambiente familiar. Felizmente, cada indivíduo tem a possibilidade de mudar essas influências. O desenvolvimento humano é como uma viagem com quatro paradas, quatro estações: infância, adolescência/juventude, fase adulta e velhice. Cabe a cada um planejar essa viagem para que ela seja prazerosa e, assim desfrute, da chegada e não tenha de sobreviver com o que sobrou, ou seja, não tenha de sobreviver com o resto ou improvisar uma estada para ser feliz. Pode-se mudar a letra da canção “Epitáfio”, dos Titãs: “Devia ter amado mais Ter chorado mais Ter visto o sol nascer Devia ter arriscado mais E até errado mais Ter feito o que eu queria fazer Queria ter aceitado As pessoas como elas são Cada um
O perdão, uma porta que se abre à vida

“Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18,22) O evangelho deste domingo também faz parte do chamado “discurso comunitário”, onde Jesus insiste na importância decisiva do perdão como atitude permanente para manter unida sua comunidade de seguidores(as). Ele insiste fortemente sobre esta virtude porque esta é uma necessidade vital quando a vida é ferida por ofensas, rupturas, conflitos… O perdão “re-situa” as pessoas na grande corrente da vida; busca restabelecer um vínculo positivo entre vidas feridas, vidas que se ferem e vidas que as rodeiam. Jesus vive comprometido com a vida saudável, e faz a vida crescer de forma integral, sem divisões. Ele devolve às pessoas a saúde em seus corpos, em suas emoções, projetos e relações; ele reconstrói os vínculos quebrados e move sua comunidade a viver o perdão como atitude contínua de vida. De fato, o perdão é uma experiência forte de querer reconectar-se com a vida; quer, para as partes envolvidas no conflito, abrir uma porta à vida; manifesta-se como força capaz de derrubar um muro feito de ódio, de violência, de sentimentos feridos, de agressividade destrutiva. O perdão busca estabelecer uma aposta pela vida. É uma atitude realista, vivida em profundidade e a longo prazo. O perdão não é esquecimento e negação do malfeito, mas recriador e portador de nova vida. A experiência do perdão, mais forte que o mal, alarga o coração e nos convida a ter mais compaixão. Por ser um atributo tão nobre, o perdão configura o ser humano à imagem de Deus. O perdão é divino porque, para o ser humano, ele é verdadeiramente divino em seus efeitos e em seu próprio processo; ele traz em si algo de divino, que significa efetivo recomeço, como um novo momento inaugural (uma nova criação, segundo a Bíblia). O perdão é um dom que abre para uma história nova. Ao se fazer oferta, o perdão se propõe abrir um novo caminho; ele evoca uma nova aliança. Por isso, o perdão não é apenas um ato criador, mas “re-criador”, portador de uma nova vida. Restaura o amor e seu mais belo fruto, a comunhão das pessoas. O perdão abre uma nova história. O perdão não deleta o ato causador do mal; ele toma a iniciativa de uma nova oportunidade de vida. E como houve uma ruptura de continuidade, ele se propõe abrir um novo caminho, virar a página e escrever um novo capítulo. “O perdão não é o esquecimento do passado, é o risco de um futuro diferente daquele que foi imposto pelo passado ou pela memória” (Christian Duquoc). Os recursos do verdadeiro perdão são infinitos. Eles jamais acabam. O perdão é “alargamento do coração humano”, é movimento, é expansão de si, é descentramento… e impulso na direção do outro. O prefixo “per” é o mesmo que encontramos nos verbos “per-correr”, “per-durar”, “per-fazer”…, e leva à plenitude a ação expressa pelo verbo. O prefixo “per” denota intensidade, profundidade. No latim, “per-donum” significa dom levado à perfeição; ou “per-donare”, significa dar prova de uma extrema generosidade. O perdão é um dom que nos permite ir além de nós mesmos; é um dom em excesso. Perdoar é doar-se em plenitude; é dar mais que o ofensor merece. O perdão é o dom realizando-se no supremo grau de sua gratuidade; é uma atitude de quem não se prende ao que o outro merece e nem se escandaliza com sua miséria. “Devemos perdoar como pecadores e não como justos.” A plenitude do dom é a vida. Perdoar é restituir a vida a quem nos ofendeu. Toda ofensa, em qualquer grau, é um atentado contra a vida. O perdão restabelece a ordem da vida. Quem perdoa e quem é perdoado saem mais verdadeiros, mais inteiros, mais humanos depois desse gesto. O perdão realmente transforma vidas. Quando nós vemos o que acontece quando as pessoas se perdoam, nós sabemos que estamos diante de uma das mais eficazes forças na experiência humana. Por isso, segundo Jesus, o verdadeiro perdão não tem limite (77×7). O perdão precisa ser um gesto repetido muitas vezes até se tornar um “hábito do coração”. É um processo voluntário no qual, quando perdoamos, optamos não por revidar, mas, pelo contrário, optamos por responder de maneira amorosa e criativa a quem nos causou danos ou ofensas. Perdoar se revela uma atitude virtuosa porque nos coloca inclusive acima de nós mesmos, do nosso primeiro instinto de vingança; nos situa no melhor de nós mesmos. Em si mesmo, o perdão é um ato não de justiça, mas de amor; sua gratuidade é superior a tudo o que a justiça poderia requerer. Perdoar é ir mais longe que a lei, mais longe que a consciência. O perdão é uma recusa ética de julgar o outro, quer dizer, um “alargamento do coração humano”; em outras palavras, um amar mais. Quem ama gosta de perdoar, porque dessa forma demonstra melhor seu amor. Quanto mais se ama, mais se perdoa, porque a delicadeza do coração permite perceber todas as feridas infligidas à comunhão das pessoas. Perdoar é amar mais. De fato, não perdoar é sempre amar menos, é viver sob o regime da aspereza, da amargura, da tristeza que acabam por se estender aos mais próximos e envenenar as relações dos seres mais queridos. O perdão restaura o amor e seu mais belo fruto, a comunhão das pessoas. Enfim, perdão é amor que reconstrói o passado. Só quem doa amor ao ofensor dá-lhe as condições profundas de contrição, compunção, compaixão e arrependimento, as quatro vias através das quais o ser humano pode renascer de si mesmo e das trevas, trocando a morte pela vida. Por ser o gesto mais difícil e elevado, o perdão é a única forma de permitir ao ofensor a entrada de amor no seu coração. Qualquer forma de cobrança, punição e vingança reforça a crueldade do ofensor e, de certa forma, vai fazê-lo sentir-se justificado. Quem não busca perdoar e quem resiste receber o perdão correm o risco de ficarem com uma liberdade atrofiada e uma
Da sensibilidade na educação ambiental

Comemora-se o Dia Mundial da Educação Ambiental em 26 de janeiro. Com a data, inauguramos nossos textos mensais sobre espiritualidade e preservação de condições de vida na Terra. Duas emoções contraditórias me tomam ao iniciar a escrita: a primeira é de esperança, do verbo esperançar, sempre lembrado por Paulo Freire; a segunda é de temor e reverência pela delicada, provisória e complexa teia que dá sustentação ao equilíbrio do planeta. A narrativa da criação do mundo, em Gênesis (cap. 1), é feita de poesia e contentamento: “E Deus viu que isso era bom”. Aldo Leopold, Rachel Carson e Leonardo Boff assumem a mesma delicadeza para defender a ética da Terra, a ética do cuidado e a integração entre a vida na Terra, no ar e no mar. Vejamos, nas linhas de Boff, quando argumenta a favor de uma educação planetária: Conhecer nossos irmãos e irmãs da comunidade da vida significa reconhecer a importância do Sol, conhecer nossa flora e nossa fauna, a origem das montanhas, dos vales e dos rios e de onde moramos. Mas não só: conhecer a história humana desses lugares, quem foram seus primeiros habitantes, que sinais deixaram, que monumentos nos legaram, que textos literários produziram, que pessoas referenciais geraram como poetas, escritores, escultores, cientistas, músicos e sábios. Isso implica derrubar as paredes das escolas e fazer com que os estudantes entrem em contato direto com a natureza, a organização da cidade, com a distribuição dos espaços, não apenas na forma de curiosidade, mas de reconhecimento e de comunhão com todos os irmão e irmãs que nos circundam (Leonardo Boff. O cuidado necessário, 2012, p. 263). Akira Kurosawa, com igual lirismo, traduziu, em imagens e linguagem cinematográfica, a história de Dersu Uzala, escrita pelo romancista russo Vladimir Arseniev, em 1923. Dersu personifica um caçador que vive numa floresta asiática. Por sua intimidade com o ambiente, guia um grupo de topógrafos e impressiona pela sintonia com as leis naturais e sua relação com os habitantes da floresta, seus fluxos, seu tempo. Para Dersu, a floresta é habitada por muitas “gentes”, como os animais, a Terra e o rio. Estamos em 2023! Precisamos despertar coletivamente para a importância do cuidado de nosso habitat e situá-lo no topo de nossas prioridades. Trata-se de um tempo no qual a fragmentada ciência não dá conta dos complexos desafios que se apresentam; um tempo que pede por outro paradigma de conhecimento: o da sensibilidade, da emoção, da arte e da espiritualidade. Com isso em mente, lembramos o Dia Mundial da Educação Ambiental com pessoas e passagens que educam para a vida, por meio da beleza, de histórias, do ritmo, da experiência e da sutileza. Referências BÍBLIA SAGRADA. Gênesis. Revisada por Frei José Pedreira de Castro. São Paulo: Ave-Maria. p. 49-50 BOFF, Leonardo. O cuidado necessário. Petrópolis: Vozes, 2012. KUROSAWA, Akira. Dersu Uzala. Studio Mosfilm. 1975. Marli Teresinha Everling Professora nos cursos de graduação e pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville/Univille; coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica; colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental.
Setembro Amarelo: “Onde está o teu irmão?”

Em Êxodo, capítulo 4, versículo 9, Deus pergunta a Caim: “Onde está o teu irmão Abel?”. Caim responde: “Não sei. Acaso sou guarda do meu irmão?”. Este é o mês conhecido como “Setembro Amarelo”, tempo de campanha de prevenção e discussão sobre o suicídio e as tentativas de suicídio. Neste artigo, vamos refletir sobre o cuidado com o outro, tendo como referência a orientação bíblica, visto que este também é o mês dedicado à Bíblia. Nossa cultura moderna tem nos acostumado a não interferir na vida do outro, em seus problemas. Algumas frases repetidas no cotidiano traduzem essa ideia: “não se meter onde não é chamado”, “o problema é dele”, “cada um cuide de sua vida”, “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”, “cada um com seus problemas”, etc. No entanto, contraditoriamente, quando acontece um suicídio, muitas vezes, ouve-se: “por que ele/ela não pediu ajuda?”, “ah! Se eu tivesse prestado atenção aos sinais”, “como eu não percebi!?”… Aí é tarde demais. No fim de semana de 10 de setembro, dia especial da prevenção ao suicídio, coincidentemente, as leituras bíblicas da celebração da Palavra e da missa na Igreja Católica tinham como tema o cuidado com o irmão. Um trecho da primeira leitura, tirada do livro de Ezequiel (33,8), afirmava: “Se eu disse ao ímpio que vai morrer, e tu não lhe falares, advertindo-o a respeito da sua conduta, o ímpio vai morrer por própria culpa, mas eu te pedirei contas de sua morte”. Semelhante a isso, no Evangelho do dia, em Mateus (18,15-20), Jesus falava da correção fraterna. Para ganhar o irmão (não ganhar do irmão), há três passos: chamá-lo em particular; depois pedir a ajuda de outras pessoas; depois ainda, da comunidade, com o objetivo de alertá-lo a respeito da maneira como está conduzindo a vida. Antes de excluí-lo ou condená-lo, tentar, de forma criativa, recuperá-lo. Esgotadas todas as tentativas, respeita-se o princípio do livre-arbítrio. Apesar de a mensagem do profeta Ezequiel não dever ser levada ao pé da letra, pois o contexto da leitura é o cuidado com a nação, com o comportamento do povo de Israel, dos exilados e dos que ficaram em Jerusalém; embora não se possa reduzi-la e direcioná-la a uma pessoa específica, ainda assim, ela nos ajuda a refletir sobre o cuidado com o próximo. Nossa postura diante dos problemas do irmão, de acordo com as reflexões bíblicas, não tem o caráter de invasão de privacidade ou de intromissão, como pode parecer à primeira vista. Isso porque a iniciativa, nesse caso, tem como objetivo ganhar o irmão para o convívio harmonioso com a comunidade, com a família e com a sociedade, ajudá-lo a superar o sofrimento. O problema é que se confunde essa ajuda com outros interesses maléficos. Há pessoas que se aproximam dos outros com “a melhor das intenções”. No entanto, revelam-se com interesses egoístas, narcisistas, dominadores. Muitas vezes, o conteúdo do outro vira objeto de fofoca, intrigas e exposição do próximo. Pessoas se apresentam como modelos a serem seguidos. Muitas vezes, há ainda cobranças, comparações, pressões, humilhações. Daí surge a barreira em pedir ou aceitar ajuda. Embora os grupos de terapia como alcoólicos anônimos, de dependentes químicos e a psicoterapia exigem que a iniciativa de pedir ajuda tenha de partir de cada pessoa, devemos encontrar uma forma de estarmos atentos ao cuidado com o próximo. Afirma o grande Mestre: “Se dois de vocês estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que quiserem pedir, isso lhes será concedido por meu Pai que está nos céus” (Mateus 18,19). Ainda: “Irmãos, não fiqueis devendo nada a ninguém, a não ser no amor mútuo, pois quem ama o próximo está cumprindo a Lei” (Romanos 13,8). Aparecido Luiz de Souza, SVD
Amazônia, rios de histórias

Em 5 de setembro, celebra-se o Dia do Estado do Amazonas e o Dia Internacional da Mulher Indígena. Não há como falar do Amazonas sem incluir toda a Região Amazônica. Em cada igarapé, cada rio, há muitas histórias vivenciadas e construídas tanto por povos indígenas quanto por famílias ribeirinhas. Veja o artigo de Maria Terezinha Correa!
Boletim Congregacional – Agosto de 2023 – Nº 200

Dos Diálogos Amazônicos à “Declaração de Belém”

Belém do Pará foi palco dos Diálogos Amazônicos, da Cúpula dos Povos Indígenas e da Cúpula da Amazônia. Entre outros resultados, foram produzidos documentos como a “Declaração de Belém”.Os diálogos amazônicos ocorreram entre 4 e 6 de agosto e antecederam a Cúpula da Amazônia. Reportagem de Cícero Pedrosa apurou que os debates sinalizaram a contribuição dos povos indígenas e das comunidades tradicionais para a proteção do território e a conservação da floresta. Valorizaram também os conhecimentos ancestrais para a manutenção da biodiversidade. Os produtos e serviços da sociobiodiversidade e a forma de produção das comunidades tradicionais foram considerados como importantes para o fomento de economias locais sem comprometer os ecossistemas. O repórter criticou, no entanto, a prevalência da visão da Amazônia como repositório de recursos e a ausência do reconhecimento mais enfático da participação dos povos originários assim como das comunidades tradicionais.O mesmo repórter relatou que, no segundo dia dos Diálogos Amazônicos, ocorreu um evento separado com 600 participantes: a Cúpula dos Povos Indígenas. A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) contribuiu com a estruturação do encontro, e seu representante destacou o simbolismo em excluir os principais conhecedores das florestas dos Diálogos Amazônicos e da Cúpula da Amazônia. Cícero apontou que os resultados da Cúpula dos Povos Indígenas vislumbram a Amazônia em um futuro com terras demarcadas, livre do garimpo, das hidrelétricas, da agricultura industrial, das ferrovias e de outros projetos dessa natureza. Foram criticadas intenções como a exploração de petróleo, o crédito de carbono e a bioeconomia, e foi reafirmada a luta pela demarcação dos territórios. Algumas questões criticadas pela Cúpula dos Povos Indígenas estiveram em pauta na Cúpula da Amazônia, que ocorreu entre os dias 8 e 9 de agosto, contando com representações de oito países vinculados ao bioma amazônico e a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA). Os países representados foram Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela. O encontro visou a debater assuntos relevantes para a manutenção da Floresta Amazônica espalhada pelos territórios desses países. Da Cúpula resultou a agenda conjunta aos países denominada “Declaração de Belém”. O documento destacou como pontos principais: As decisões envolveram 18 temas desdobrados em 113 itens. Autores consultados não isentam nem o evento, nem o documento de críticas. Os temas mais polêmicos são a ausência de menções ou sanções à exploração de petróleo; a origem de recursos e de medidas concretas em longo prazo. Por outro lado, a Cúpula e a Declaração foram consideradas importantes estratégias de preparação para a Conferência do Clima das Nações Unidas (COP-30), prevista para ser realizada em Belém do Pará, em 2025. Os eventos do Pará e a votação do marco temporal (em curso) estão profundamente conectados quando consideramos os biomas, os territórios e a natureza para além de repositório de recursos transformáveis em artefatos artificiais alienantes da experiência humana em meio natural. As consequências da aprovação do marco temporal foram abordadas com muita clareza por Cícero Pedrosa, Carlos Marés, Felipe Milanez: restringindo o reconhecimento de terras indígenas ao ano da promulgação da atual Constituição (1988), famílias estarão em situação de vulnerabilidade, e nosso planeta também. Carlos menciona estudo do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, estimando que a aprovação do marco pode resultar no desmatamento de até 550 mil quilômetros quadrados de áreas nativas, ampliando a emissão de carbono e afetando um sistema, hoje considerado de captura de carbono, mas já afetado pelas mudanças climáticas, de acordo com a ONU. Refletir acerca dessas importantes questões atende aos princípios da equipe de comunicação da Rede SSpS Brasil, que considera acompanhar, debater e atuar sobre o que acontece à nossa volta como parte da missão. Também está em conformidade com a plataforma Ação Laudato si’ e com o apelo do Papa Francisco para o cuidado da nossa casa comum. Referências Nota: foram realizadas várias leituras, incluindo textos disponibilizados por: Instituto Humanitas Unisinos (https://www.ihu.unisinos.br/) Declaração de Belém – disponível no Portal do Ministério das Relações Exteriores (https://www.gov.br/planalto/pt-br/assuntos/cupula-da-amazonia/documentos-da-cupula) Justino Sarmento Resende – antropólogo, padre e indígena em entrevista para o IHU (https://www.ihu.unisinos.br/categorias/188-noticias-2018/584953-cosmovisao-indigena-criacao-encarnacao-e-saida-desse-mundo) Cícero Pedrosa – Repórter para o Portal Amazônia Real (https://amazoniareal.com.br/cupula-dos-povos-indigenas/) Tainá Aragão – Jornalista do Instituto Socioambiental – ISA (https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/dialogos-amazonicos-colocaram-sociobiodiversidade-no-centro-do-debate-para) Felipe Milanez – Jornalista para Carta Capital (https://www.ihu.unisinos.br/570680-marco-temporal-um-argumento-racista-para-legitimar-massacres) Carlos Marés – Professor de Direito Socioambiental para Revista Pub (https://www.ihu.unisinos.br/categorias/610997-marco-temporal-marca-do-atraso) Carta Encíclica Laudato si’ do Santo Padre Francisco sobre o Cuidado da Casa Comum (https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20150524_enciclica-laudato-si.html) Plataforma de Ação Laudato si’ (https://plataformadeacaolaudatosi.org/objetivos-laudato-si/) Nações Unidas Brasil (https://brasil.un.org/pt-br/137094-decl%C3%ADnio-na-captura-de-carbono-na-amaz%C3%B4nia-%C3%A9-abordado-por-ag%C3%AAncia-da-onu-em-estudo) Marli Teresinha Everling Professora dos cursos de Graduação e Pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville (Univille); coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica; colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental (caranguejo.org.br); colaboradora do blog SSpS Brasil para temas ambientais (https://ssps.org.br/posts); colaboradora das redes sociais do design para temas ambientais – Instagram @designuniville
Quando a Cruz deixa de ser “peso morto”

“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga” (Mt 16,24) A paixão-morte de Jesus foi, para os primeiros cristãos, o ponto mais impactante de suas vidas. Seguramente, o primeiro núcleo dos evangelhos foi constituído pelo relato da paixão-morte de Jesus. Não nos deve estranhar que, ao relatar o restante de sua vida, se faça a partir dessa perspectiva. Por isso, até quatro vezes Jesus anuncia sua paixão e morte no evangelho de Mateus. Não era preciso ser profeta para dar-se conta de que a vida d’Ele corria sério perigo. O que Ele dizia e o que fazia ia contra a religião oficial, e os encarregados de sua custódia tinham o poder suficiente para eliminar uma pessoa tão perigosa para seus interesses. Até seus familiares mais próximos quiseram impedi-lo, forçando-o a levá-lo para sua casa, porque havia escolhido um caminho de loucos. Pedro se rebela só de imaginar Jesus Crucificado. Não quer vê-Lo fracassado; só quer seguir a Jesus vitorioso e triunfante. Também nossa sociedade, marcada pelo imediatismo, competitividade, busca de resultados e rejeição a todo tipo de fracasso, a presença da Cruz é um escândalo inaceitável. De fato, nela mesma, a Cruz não tem sentido. Se a Cruz é de tal modo exaltada, fazendo com que a vida e a ação de Jesus fiquem reduzidas a ela, então acontece que ela se torna angustiante e aflitiva, incapaz de motivar ao seguimento ou de acender a esperança. Jesus não morre na cruz para buscar o sofrimento, mas por ser consequente até o fim com sua mensagem: o amor incondicional do Deus da vida. Ele não fugiu, não contemporizou, não deixou de anunciar e testemunhar, embora isso o levasse a ser crucificado. Nesse sentido, a Cruz de Jesus não permanece confinada em si mesma; ela se insere no interior da paixão dolorosa do mundo e seu sentido mais profundo reside em sua solidariedade para com todos os crucificados da história. Com a Cruz “descemos” com Jesus até à cruz da humanidade. A solidariedade com os pobres, a fidelidade à vida evangélica nos fazem descer aos porões das contradições sociais e políticas, às realidades inóspitas, aos terrenos contaminados e difíceis, às periferias insalubres das quais todos fogem e onde os excluídos deste mundo lutam por sobreviver. Ali nos encontramos com o Crucificado, identificado com os crucificados da história. Como diz Jon Sobrino, não podemos crer no Crucificado de um modo coerente se não estamos dispostos a fazer descer da Cruz aqueles que estão dependurados nela. A cruz e a morte só são dignas quando são consequência da luta contra a “cruz” e a “morte” impostas às pessoas e quando expressam solidariedade com os crucificados. Aqui há espaço de transformação. A cruz se ilumina quando requer o abraço de uma situação inevitável. Se a enfermidade não tem cura, se a morte de um ser querido nos arrebata, se uma catástrofe natural nos deixa impotentes, se a denúncia profética de uma injustiça acarreta perseguições etc., crescemos quando abraçamos essa cruz e a superamos espiritualmente. A Cruz liberta quando não termina nela mesma, mas na ressurreição. Enquanto a carregamos é leve se ela aponta para um horizonte de esperança. “Vinde a mim, vós todos que estais cansados sob o peso do vosso fardo e eu vos darei descanso… Porque meu jugo é suave e meu fardo é leve” (Mt 11,28-30). Mas, para carregar a Cruz como Jesus, é preciso passar por um processo de esvaziamento de nosso “falso eu” que, continuamente, busca seus interesses, alimenta vaidades, quer ser o centro das atenções, sem nenhuma sensibilidade solidária com os sofredores e vítimas de uma sociedade que violenta e exclui. O chamado de Jesus a “renunciar a si mesmo” é um convite ao descentramento, a não viver girando obsessivamente sobre o próprio eu. Os místicos falam com frequência da “morte do próprio eu”, e da felicidade que brota do interior quando a pessoa se deixa possuir pelo amor de Deus. Há uma forma de viver agarrada ao próprio eu, que é fonte permanente de sofrimento. Muitas vezes, o que mais sofrimento gera na pessoa é precisamente esse modo de viver apegado a ela mesma, buscando cegamente e acima de tudo o próprio êxito, a boa imagem, a aprovação e a estima dos demais. Esse cultivo equivocado do ego inflado se converte em fonte de preocupação e sofrimento. Inconscientemente, a pessoa pode alimentar falsamente seu “ego” e inclusive agigantando-o de forma desproporcional, organizando todo seu entorno a partir dele: minha pátria, meu partido, minha igreja, minha ideologia; o ego vai então ficando cada vez mais seduzido e mais exposto a toda sorte de problemas. A atitude mais saudável está em tomar consciência de que a origem de tanto sofrimento inútil está no indivíduo mesmo, nesse coração cheio de egoísmo, de apegos, de invejas, de falsas ilusões, de sede de poder, de ressentimento, de vazio interior… Da mesma forma que a dor física é um sinal de alerta que avisa que algo funciona mal no organismo, existe todo um conjunto de sofrimentos que revelam modos equivocados de viver: apegos, servidões, contradições e incoerências que impedem um desenvolvimento sadio da pessoa. Este sofrimento não é uma cruz que devemos carregar, mas uma carga que devemos “soltar”, se quisermos viver com o espírito de entrega de Jesus. No que se refere à experiência específica de seguimento, deveríamos retomar o sentido da mensagem de Jesus referente ao “negar-se a si mesmo” para poder viver. “A negação de si” enquanto negação daquilo que nega a vida. “Negar-se a si mesmo”é deixar de identificar-nos com a tirania das mensagens de nossos pequenos “eus”, que se refletem em nossa própria linguagem. “Negar-se a si mesmo” é um conselho sábio: significa negar o que na realidade “não somos”, despertar da ilusão e do engano, deixar de girar em torno de um suposto “eu” que não existe, para viver a unidade de todos e de tudo em Deus e agir assim de um modo coerente na vida. Não somos
Boletim Congregacional – Julho de 2023 – Nº 199

Aprofundando a complexidade divina

Agostinho de Hipona, também conhecido como Santo Agostinho, foi um dos mais influentes teólogos e filósofos cristãos da história. Sua contribuição para a compreensão da doutrina da Trindade é inestimável, trazendo uma perspectiva rica e profunda sobre a natureza de Deus. A doutrina da Trindade é central para a teologia cristã e busca compreender a natureza de Deus como um Deus “triuno”: um único Deus que existe em três Pessoas distintas, o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Agostinho abordou essa complexidade divina com uma mente analítica e um coração cheio de devoção, com base nos textos sagrados e refletindo sobre sua experiência de fé. Em sua obra De Trinitate (Sobre a Trindade), Agostinho empreendeu a tarefa desafiadora de desvendar o mistério da Trindade, reconhecendo a limitação da mente humana diante da grandeza de Deus. Ele destacou a importância da revelação divina e da fé na busca por compreender a Trindade, ressaltando nossa compreensão intelectual limitada e incompleta, e ressaltando a capacidade humana de conhecer a Deus pela experiência do amor. Agostinho enfatizou que a Trindade é um mistério a ser vivido, mais do que apenas compreendido intelectualmente, destacando a importância da relação entre as Pessoas divinas e descrevendo o Pai como fonte eterna, o Filho como a Palavra encarnada e o Espírito Santo como amor mútuo entre o Pai e o Filho. Três Pessoas divinas distintas, inseparáveis e coeternas. Ao abordar a relação entre as Pessoas da Trindade, também destacou a ideia de que o amor é o vínculo que une as três Pessoas, entendendo o amor como o princípio dinâmico e vivificante da Trindade, um amor que transborda para a criação e para a vida de cada ser humano. Agostinho enfatizou que somos chamados a participar desse amor divino, por meio da comunhão com Deus e de uns com os outros. Para Agostinho, a doutrina da Trindade não é apenas uma especulação teórica, mas uma verdade com implicações práticas em nossas vidas. Enfatizou a importância de buscar a unidade na diversidade, refletindo a natureza da Trindade, apresentando-a como um modelo à comunidade cristã, na qual as diferenças individuais são honradas e celebradas, e o amor mútuo é cultivado. Embora tenha feito grandes contribuições à compreensão da Trindade, ele mesmo admitiu que seu conhecimento era limitado, reconhecendo que o mistério trinitário está além da compreensão plena da mente humana e que, diante de tal grandeza, devemos abordá-la com humildade e reverência. Assim, a abordagem do pensador de Hipona nos ensina que devemos nos engajar com mente aberta e coração adorador diante da grandeza do mistério. Embora possamos nos esforçar para compreender melhor a Trindade, devemos sempre nos lembrar de que Ela permanecerá um mistério divino, que nos desafia a buscar um relacionamento mais profundo com Deus, vivendo em amor e comunhão com os outros e com tudo que nos envolve. Agostinho Travençolo JuniorEducador e assessor da Rede de Educação SSpS.