Que fizemos com a vinha do Senhor?

Veja a reflexão bíblica elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o Evangelho deste 27º Domingo do Tempo Comum, narrado em Mateus 21,33-43.

Que “trabalheira” ser criança e adolescente.

Crescer é complexo e delicado, e envolve muito trabalho. É um esforço infinito e árduo dar conta de entender o mundo. A infância e a adolescência é o nosso ensaio equilibrista. Nosso TBT hoje revisita o texto de Maria José Brant (Deka). Confira!

Recordando a canonização de Santo Arnaldo Janssen: amor e gratidão

Há 20 anos, nosso Fundador era reconhecido como santo da Igreja. Ao celebrar a canonização de Santo Arnaldo Janssen, em 5 de outubro de 2003, o Papa São João Paulo II o definiu como a imagem profética da Nova Jerusalém, que difunde a luz divina sobre todos os povos. Veja o artigo elaborado por Maria Cristina Maia, da Equipe de Espiritualidade SSpS da Província Brasil Norte.

Missão: fazer-se discípula, discípulo de Jesus

Missão: na perspectiva de envio          O conceito da missionariedade tem mudado de forma significativa nas últimas décadas. As Sagradas Escrituras constituem a fonte e a inspiração dessa mudança, em conexão com a realidade dos povos, a escuta do clamor dos pobres e da Mãe Terra. O sentido bíblico da missão situa-se na perspectiva de envio. Jesus tem consciência de que é enviado de Deus Mãe-Pai. Ele dá continuidade à sua missão, enviando discípulos e discípulas.  No Evangelho de São João (20,21-22), encontramos uma das formas de envio. “Jesus disse de novo para eles: ‘A paz esteja com vocês. Assim como o Pai me enviou, eu também envio vocês’. Tendo falado isso, Jesus soprou sobre eles, dizendo: recebam o Espírito Santo’”. Esse é um texto pascal. Para o evangelista João, a Páscoa e o Pentecostes acontecem no mesmo dia. Trata-se do nascimento da Igreja Missionária, a realização da promessa de Jesus: “Mas o Espírito Santo descerá sobre vocês, e dele receberão a força para serem minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria, até os extremos da terra” (Atos dos Apóstolos 1,8). Jesus reveste os seus seguidores e seguidoras da força do alto, o Espírito Santo, e os envia em missão.  “Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ensinar-vos-á todas as coisas, e vos recordará tudo o que vos tenho dito” (João 14,26). O Espírito Santo é a memória viva de Jesus. Ele revela, no rosto de Jesus ressuscitado, os traços de Deus Mãe-Pai de amor e misericórdia. O Espírito Santo nos capacita para contemplar no rosto dos irmãos e irmãs, desfigurados pelo sofrimento, pela fome, pela injustiça, o rosto de Jesus.  Fazer discípulas e discípulos de Jesus Outro texto relevante de envio: “Jesus se aproximou e falou: ‘Toda autoridade me foi dada nos céus e sobre a terra. Portanto, vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo […].’” (Mateus 28,18-20). A preocupação de Jesus, revelada no Evangelho de São Mateus, é fazer discípulos: “Vão e façam com que todos os povos se tornem meus discípulos”. O termo discípulo aparece trinta e sete vezes nesse Evangelho. Para Mateus, a missão é essencialmente “fazer discípulos”. O verbo grego “mathetéuein” (“fazer discípulos”) é usado quatro vezes no Novo Testamento, três das quais no Evangelho de São Mateus (13,52; 27,57; 28,19). O verbo é usado no imperativo “vão e façam discípulos…”. O núcleo central é “fazer com que todos os povos se tornem discípulos”.  O coração da missão, para Mateus, é fazer e fazer-se discípulos, discípulas de Jesus, num processo vivencial e contínuo e, assim, o evangelho é anunciado. Somos interpeladas, interpelados a fazermo-nos discípulas e discípulos de Jesus, todos os dias, nas mais diversas realidades e contextos. Nota O livro de Atos dos Apóstolos apresenta Pentecostes um tempo depois da Páscoa. Em At 1,2-8 relata como Jesus ensina, orienta e confere instrução aos seus apóstolos até ser elevado aos céus. Seus dos apóstolos permanecem em oração, com Maria, até a vinda do Espírito Santo (At 1,4-8; At 2,1-13).  Irmã Maria de Fátima Kapp, SSpS Integra a Comunidade do Colégio Santos Anjos, em Porto União-SC, na qual atua como coordenadora. Colabora como conselheira provincial e acompanha as irmãs junioristas. Fez graduação em Teologia, mestrado em Teologia Bíblica e especialização em Relação de Ajuda.

A coerência modelada pelo “sim” e pelo “não”

“Qual dos dois fez a vontade do pai?” (Mt 21,31) Em nosso contexto social e religioso reina a diplomacia do “transitar entre o sim e o não”, ou seja, dissimular, não ser claro nem transparente, deixar as coisas numa certa e intencionada ambiguidade. Quando é pedido um “sim” ou um “não”, costuma-se deixar levar pela “covardia do meio-termo”. De fato, há tantos modos de evitar dar uma resposta clara, de não nos comprometer; até usamos desculpas convincentes para ocultar nossa incoerência. Dizer “sim” ou “não” é rotundo, é radical, é ser coerente. É isso que Jesus pede de seus seguidores(as).  O texto do evangelho deste domingo nos convida a entrar no significado do “sim” e do “não” na vivência do seguimento e na nossa vida. Procuremos entender o texto em seu contexto: o povo judeu disse “sim” ao aceitar a Lei de Moisés, mas se negou, através de seus dirigentes, a aceitar a proposta de Jesus. No entanto, os pagãos e os pecadores, que primeiro disseram “não”, ao final são aqueles que aceitaram o Reino, pois se deixaram impactar pelo modo de ser e de agir de Jesus. O “sim” foi sendo modelado a partir do chão da vida e não da Lei. Para Jesus, a fidelidade a Deus não passa pela mera observância da Lei, mas pela prática de um amor incondicional. Ele transforma o modo de nos relacionar com o Pai, fundamentado no modo como Ele mesmo vive, não como o distante Deus do Templo, mas como o Abba próximo e comprometido com a vida. Isto desmonta o pedestal de uma religião superestruturada ao redor das normas e das leis de pureza, de impureza, de sacrifícios como pagamento pelos pecados e que foram determinados pelos hierarcas que imitam a um “deus” distante, frio, a quem é preciso acalmá-lo com oferendas, sacrifícios e mortificações. Para denunciar esta atitude petrificada e dúbia das autoridades religiosas, Jesus utiliza o inteligente e oriental recurso das parábolas. A “parábola dos dois filhos” chamados a trabalhar na vinha do pai está dirigida especialmente à infidelidade dos dirigentes religiosos: dizem, mas não fazem; são fiéis por fora, mas incoerentes por dentro. Jesus nos pede hoje mais valor, mais audácia, mais claridade. Quer que o “sim” esteja acompanhado da obediência. Mas, obediência a quê e a quem? Trata-se de uma obediência filial. O senhor da vinha convida seus próprios filhos para que vão trabalhar nela. Há um filho que tem sempre o “sim” na boca. Encanta-o viver do favor do pai e manter uma boa imagem de filho obediente. Mas, à hora da verdade, não trabalha na vinha; dedica-se a outras coisas. É um hipócrita. O filho que tem um “não” na boca vai e trabalha na vinha. Não se preocupa com sua boa imagem. Trabalha na vinha a partir do anonimato, a partir da não ostentação. Ele é verdadeiramente o filho obediente. O Evangelho deste domingo, usando a imagem de dois filhos chamados pelo pai a trabalhar na vinha, realça o verdadeiro sentido da “obediência”: significa dar audiência a quem merece. Se sabemos que Deus nos mostra um caminho incomparável, então obedecer-lhe é o melhor que podemos fazer; obedecemos por amor e não por medo. Neste caso, a obediência já não pode ser meramente formal, do tipo “sim, senhor”. Ela será um movimento do interior do coração, ela mexerá com o nosso íntimo. A obediência não se restringe a cumprir mandatos, nem a seguir leis, pois ela está profundamente unida ao crer no outro; porque “entregamos o coração”, obedecemos, ou seja, entramos em sintonia com o coração do Outro. Porque “entregamos o coração”, na obediência, nosso coração pulsa no mesmo ritmo do coração de Deus. Tal obediência, inspirada pela obediência de Jesus, não alimenta dependência nem atrofia nossa autonomia; pelo contrário, nos faz mais livres, criativos. A obediência de Jesus brota de um autêntico e pleno exercício de sua liberdade. Por isso, a verdadeira obediência só é possível a partir da autonomia da pessoa e supõe necessariamente o exercício da liberdade. Esta entrega radical só é possível no ambiente do amor e da intimidade. Assim, a obediência pressupõe a liberdade; ainda mais, é uma expressão de ser livre frente à própria liberdade, quando a pessoa reconhece um referente superior que a fundamenta, porque só a partir deste referente chega a encontrar o sentido sobre si mesmo. A originalidade da parábola está na afirmação que Jesus lança aos dirigentes religiosos daquela sociedade: “Eu vos asseguro que os publicanos e as prostitutas entrarão antes de vós no Reino de Deus”.  Sem dúvida, as palavras de Jesus soaram não só provocativas, mas diretamente heréticas e inclusive blasfemas aos ouvidos das pessoas “religiosas” que o escutavam. Afirmar que “publicanos e prostitutas” vão entrar na frente no Reino de Deus causa um profundo incômodo nas pessoas que reduzem suas vidas a cumprir leis, ritos, doutrinas, sem nenhuma sensibilidade solidária com aqueles que são colocados à margem. Para a religião, o valor mais importante costuma ser a crença e a norma, não tanto a atitude nem o comportamento ético das pessoas. Para Jesus não importam as crenças e normas, mas o amor e a bondade, ou seja, aquelas atitudes e ações que são coerentes com a verdade do que somos. No nosso “eu profundo”, temos reservas de bondade, de compaixão, de mansidão… e que devem ser ativadas continuamente. Seguramente nem todos os publicanos e nem todas as prostitutas eram exemplos de amor e de bondade, mas Jesus via em seus corações mais verdade, humildade e humanidade que nos egos inflados dos chefes religiosos. Que podia ver Jesus naqueles homens e mulheres desprezados por todos? Talvez sua humilhação. Quem sabe, um coração mais aberto a Deus e mais necessitado de seu perdão; ou ainda, uma compreensão e uma proximidade maior para com os últimos da sociedade. Talvez menos orgulho e prepotência que a dos escribas e sumos sacerdotes. No entanto, hoje e sempre, vivem a verdadeira vontade do Pai aqueles(as) que traduzem em atos o evangelho de Jesus e aqueles(as) que

Setembro Amarelo: mês de conscientização e prevenção contra o suicídio

É muito importante falar sobre o tema. O Setembro Amarelo teve início inspirado na triste história do norte-americano Mike Emme. Ele era um garoto carinhoso e extrovertido. Habilidoso em mecânica, restaurou um Mustang 68 e o pintou de amarelo. Porém, para a surpresa de amigos e parentes, em 1994, ele cometeu suicídio, aos 17 anos. No funeral, foi homenageado pelos amigos com cartões amarelo e uma fita da mesma cor. Daí nasceu a campanha chamada Setembro Amarelo, com destaque para o dia 10. É preciso diferenciar alguns termos. Há a “ideação suicida”, que compõe um número maior do que o de casos de suicídio de fato. Na ideação suicida, a pessoa tem ideias de autoextermínio que não são consumadas. Há também as tentativas de suicídio, que são os casos em que, felizmente, a morte não acontece. Estas estão mais para um pedido de socorro. Atualmente, no Brasil, cerca de 12 mil pessoas cometem suicídio por ano. No mundo, o número chega a 1 milhão. Os motivos são vários: depressão, ansiedade, transtorno bipolar, esquizofrenia, abuso de drogas, endividamento e solidão. A síndrome do burnout também tem sido causa de suicídios.  Entre os que o cometem estão jovens, adultos e idosos, de todas as faixas etárias. Chama a atenção o crescente número de idosos que desistem de viver. Entre os fatores presentes nesta faixa etária, estão a solidão, o sentimento de inutilidade (quando o envelhecimento é melancólico), o sentimento de ser um peso para a família e a dificuldade de aceitar e lidar saudavelmente com essa fase da vida, e suas perdas e limitações. Nesse caso, há duas formas de suicídio: há o lento, quando o idoso deixa de tomar os remédios e de se alimentar; e há o suicídio fatal, que causa maior perplexidade. Causa perplexidade também quando o suicida é uma pessoa famosa, uma celebridade, uma pessoa que está dentro do padrão de beleza da mídia.  Há muitas polêmicas envolvendo esse tema. O senso comum tem algumas opiniões sobre as causas e a “realidade” dos casos de suicídio. Algumas pessoas afirmam que os jovens, que ocupam a maioria das estatísticas, são frutos de uma geração que não aceita limites e frustrações. Tal opinião é contraditória quando pensamos no grande número de adultos e idosos que também compõem os índices. Afirma-se ainda que a pessoa que comete suicídio não tem fé ou não tem vida de oração. No entanto, em 2021, nove padres tiraram a própria vida.  Outra afirmação generalizada é a de que “quem quer cometer suicídio não avisa, não chama atenção”. A princípio, isso parece verdade, no entanto, após o fato acontecer, é possível fazer conexões com algumas atitudes da pessoa em seus últimos dias de vida: frases de impactos nas redes sociais, postagens de fotos dos tempos em que ela se considerava mais feliz, fechamento, automutilação, objetos deixados à vista dentro de casa, desleixo com o autocuidado, uso mais intensivo de álcool e outras drogas, etc.  É preciso estar sempre alerta. Há várias formas de ajudar: uma boa conversa, o encaminhamento para um profissional da Psicologia ou da área da Psiquiatria. Há também o número de contato (telefone 141), do Centro de Valorização da Vida (CVV), que funciona 24 horas por dia. Quanto a você, ajude a divulgar esta campanha. Lembre-se: se precisar, peça ajuda. Aparecido Luiz de Souza Psicólogo (CRP 08/149) e missionário da Congregação do Verbo Divino. E-mail cidosouza1@hotmail.com.

Mês da Bíblia: homenagens além dos aplausos

A Igreja no Brasil comemora, em setembro, o Mês da Bíblia. Com fundamentos mais ou menos sólidos, alguns teólogos questionam a ideia de meses temáticos, sobretudo quando envolvem a liturgia. Obviamente, sabemos que a Palavra de Deus nos acompanha, todos os dias, ao longo de nossa vida. Ela é sinal da presença do Senhor entre nós (shekinah) e merece toda o nosso carinho. Há algum tempo, contudo, um olhar especial à Sagrada Escritura está consolidado neste período, pelo menos em nosso País.  Lastimo muito (muito mesmo!) que as homenagens à Bíblia, em várias de nossas comunidades de fé, resumem-se a uma automatizada procissão com o livro (quase sempre, a meu ver, realizada na hora errada das celebrações) e a uma “protocolar” salva de palmas. É pouco demais! Assim, quando o mês passa, quase tudo continua na mesma.  Precisamos aproveitar bem este tempo para bendizer a Deus por sua Palavra entre nós e para buscar aprofundar-nos nesse riquíssimo patrimônio espiritual. Ouso dizer: se não for pela fé, pelo menos seja pela importância da Bíblia como patrimônio cultural da humanidade, como a obra mais publicada de todos os tempos.  No propósito de venerar o Sagrado Livro, partilho aqui algumas propostas e experiências de como celebrar bem esse tesouro de nossa fé.  Bíblia para todos Em princípio, um testemunho. Tempos atrás, em uma das queridas comunidades cristãs onde sirvo como diácono da Igreja, o povo, animado pelos catequistas, fez um combinado. Comemorariam o Mês da Bíblia de modo mais missionário.  Decidiram constatar se todas as famílias do lugar tinham em casa um exemplar da Escritura. Para espanto de muitos, descobriram que, até em lares de pessoas que participavam da Igreja, ela não estava presente. Em outros, existia de modo precário, com o livro em frangalhos ou com traduções ultrapassadas.  Animados pelo pároco, o povo assumiu uma campanha de doação de um exemplar a quem precisasse. No fim, dezenas de famílias e indivíduos receberam a Bíblia. A entrega foi realizada em clima de alegria e oração. Algumas na liturgia dominical, outras diretamente nos lares. Um exemplo a ser seguido. O Espírito, a Bíblia e os humildes Em uma paróquia de um bairro humilde, na Região Metropolitana de Belo Horizonte-MG, alguns jovens decidiram, em louvável iniciativa, implantar círculos bíblicos. Para isso, procuraram conhecer essa metodologia e se dividiram em pequenos grupos para atender mais pessoas. Quanta riqueza! O exemplo acabou seguido por outros grupos da Igreja. Por grata experiência, todos nós constatamos: o povo, sim, entende da Palavra de Deus. Conhecê-la não é privilégio apenas de iniciados ou intelectuais (é deles também, claro). Muitas interpretações dadas por donas de casa, jovens, idosos, operários são espetaculares, inspiradíssimas, obra-prima do Espírito Santo. Em suma, a Bíblia é, de fato, uma carta de amor de Deus a seu povo. Na liturgia Colocar a Sagrada Escritura em seu devido e nobre lugar na liturgia é urgente em muitas comunidades de fé. Isso vale para os ministros ordenados, as equipes de liturgia, os ministérios de leitores, de canto, etc.  É importante observar que a Palavra de Deus está presente desde os primeiros minutos das celebrações. As próprias saudações iniciais são geralmente inspiradas em textos bíblicos (quase sempre das cartas paulinas). O ideal seria valorizar as antífonas, o tema do Evangelho do dia, o Evangeliário (principal livro litúrgico da Igreja) e entrar com a Palavra já na procissão inicial. No espaço litúrgico, é preciso compreender o valor do altar da Palavra (chamado também de ambão), conforme as normas da Igreja. É o lugar donde brota a vida, a cura, o conforto aos feridos, a esperança. Deve primar pela nobre simplicidade, ser belo. Desse lugar sagrado devem ser proclamadas as leituras, os salmos, o Evangelho, opcionalmente a homilia e, conforme estipulado pela maioria das dioceses mundo afora, as preces da assembleia. É onde ocorre o diálogo entre Deus e o povo, e se proclama a ressurreição do Senhor. Não deveria ser usado para fins alheios à liturgia da Palavra nem para afixar cartazes.  Presença real de Jesus também no pão da Palavra Este ponto se liga ao anterior, mas merece um destaque. Desde seu início, a Igreja crê e proclama firmemente estar Jesus presente, de forma real, também em sua Palavra. Uma pena, mas muitos batizados, batizadas não conhecem essa áurea base da fé! A prova disso se vê em muitos lugares: os leitores são requisitados de modo precário, mas não se percebe o mesmo desleixo quanto aos que servem o Pão Eucarístico. Ficam aqui alguns questionamentos: se Cristo está no Pão da Palavra e na Eucaristia, por que improvisamos os leitores (chamando inclusive crianças ou pessoas inaptas para proclamar os textos), mas não improvisamos quem distribui a comunhão eucarística? Por que existe o valoroso ministério extraordinário da sagrada comunhão eucarística e, em inúmeras paróquias, faltam os não menos importantes ministérios de leitores, de salmistas e até do canto? Na catequese Catequese e liturgia são “irmãs gêmeas”. Com acerto, os especialistas insistem em não se confundir a instrução para a fé, marcada sobretudo pela experiência de encontro com o Senhor, com o ensino meramente acadêmico. A catequese (para todas as idades) não deveria ser entendida como “aula” nem catequista como “professor”. Mais do que “estudar” sobre a Bíblia, o ideal seria primeiro celebrá-la, experimentá-la. É necessário, antes, formar bem os catequistas para serem próximos da Palavra a qual eles mesmos ecoam com o próprio exemplo.  É claro que esta partilha não abrange todas as possibilidades de celebrar o Mês da Bíblia. É imperativo, no entanto, cristãos e cristãs batizados acolherem com alegria o desejo do Concílio Vaticano II, que “devolveu” para o povo o acesso à Sagrada Escritura. É hora de tirar o pó daquela Bíblia exposta apenas como adorno, é momento de valorizar esse “sacrário” ao qual temos fácil acesso em nossos lares, é tempo de manter os ouvidos e o coração bem abertos para acolher a mensagem de Deus. Assim, nossos aplausos à Palavra poderão ser dados com autêntica alegria e convicção. Alessandro Faleiro Marques Membro das equipes de

Terra: cuidado, justiça, responsabilidade, compromisso de todo cristão

“Nós somos parte da Terra.  A Terra é parte de nós.  Um é a extensão do outro,  nós não vivemos a sós”  (canção “Cuidar da terra” – Grupo Imbaúba). Somos convocados, convocadas a “cultivar e guardar” o jardim do mundo (cf. Gênesis 2,15). No sentido bíblico, “cultivar” quer dizer trabalhar ou lavrar um terreno, enquanto “guardar” significa proteger, cuidar, preservar e velar. Essa forma de relação gera uma reciprocidade responsável entre o ser humano e a natureza. Cada comunidade pode tomar da terra aquilo de que necessita para sua sobrevivência, mas sempre em atenção para garantir e proteger, a partir da bondade da terra, a sobrevivência para as gerações futuras, garantindo a continuidade de sua fertilidade (Laudato si’, n. 67). Rememorando 22 de abril como o Dia Mundial do Planeta Terra, criado em 2009, fazemos desse dia uma reflexão sobre o cuidado e a consciência de que os recursos oferecidos pelo planeta Terra são finitos e depredados de forma imediatista, cujo entender visa, com força, o econômico, a atividade comercial/produtiva (Laudato si’, n. 32). A autoconsciência, neste dia, remete-nos a uma mudança educacional individual e coletiva com relação à Terra. Pequenos gestos que fazem a diferença, como os adultos darem exemplo e ensinarem às novas gerações o cuidado com a natureza; evitar consumismo, apenas o que é necessário; economizar água; reciclar lixo e tudo o que é possível reaproveitar; reduzir consumo de produtos descartáveis; reaproveitar objetos que seriam descartados; refletir sobre os impactos das ações humanas sobre o meio ambiente; evitar queimadas; selecionar o lixo e encaminhá-lo para o local correto.  Como cristãos, não podemos separar nossa espiritualidade da realidade vigente:  “A proteção do meio ambiente deverá constituir parte integrante do processo de desenvolvimento e não poderá ser considerado isoladamente.” […] Por isso não dá para falar de uma atitude apenas opcional, mas de uma questão de justiça, pois a terra que recebemos pertence também àqueles que hão de vir. […] “O ambiente situa-se na lógica da recepção. É um empréstimo que cada geração recebe e deve transmitir a geração seguinte.” A isso chamamos ecologia integral numa perspectiva mais ampla (Laudato si’, n. 141 e 159). “Cada camponês tem direito natural de possuir um lote razoável de terra e estabelecer seu lar, trabalhar para a subsistência de sua família e gozar de segurança existencial.” […] O meio ambiente é um bem coletivo, patrimônio de toda a humanidade e responsabilidade de todos (Laudato si’, n. 94 e 95). “Abusar da natureza significa abusar dos antepassados, dos irmãos e irmãs, da criação e do Criador, hipotecando o futuro.” […] A sabedoria dos povos nativos da Amazônia conclama: “Somos água, ar, terra e vida do meio ambiente criado por Deus. Por conseguinte, pedimos que cessem os maus-tratos e o extermínio da ‘Mãe Terra’. A terra tem sangue e está sangrando. As multinacionais cortaram as veias da nossa ‘Mãe Terra’” (Querida Amazônia, n. 42) Celebrar este Dia da Mãe Terra é um significativo momento de reconciliação e reflexão: como me sinto parte da Terra? O que estou fazendo para preservá-la? Que mudanças preciso fazer em meu pensar e agir no cotidiano? Referências PAPA FRANCISCO. Carta Encíclica Laudato si’, do Santo Padre Francisco, sobre o Cuidado da Casa Comum. Brasília: Edições CNBB, 2015. PAPA FRANCISCO. Exortação Apostólica Pós-Sinodal Querida Amazônia, do Santo Padre Francisco, ao povo de Deus e a todas as pessoas de boa vontade. Brasília: Edições CNBB, 2020. Irmã Ivani Krenchinski Missionária serva do Espírito Santo, naturoterapeuta/nutricionista, pós-graduada em Acupuntura e Fitoterapia.

Gratuidade e generosidade, as atitudes do coração

“Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro” (Mt 20,12) A liturgia deste domingo nos faz encontrar com uma parábola simples, mas reveladora de uma força impactante. Chega até nós como uma Boa Notícia que nos surpreende, nos desloca e pode até provocar em nós algumas reações controvertidas, inclusive resistências.  A parábola começa como muitas outras: “O Reino dos Céus é como a história do patrão…”. Ela vai desvelando o modo provocativo de agir deste personagem, o mistério mais profundo de seu ser, a profundidade e a coerência de sua bondade e de seu amor. Diante deste mistério não podemos permanecer indiferentes. A parábola nos coloca diante de um senhor que sai de sua casa e vai, pessoalmente, buscar trabalhadores para sua vinha, em diferentes horários do dia. A seguir vem o núcleo do relato, o fato que muda o tom e provoca reações diferentes. No fim do dia paga a todos o mesmo valor que lhes havia prometido. E, o mais estranho, é que começa a pagar pelos últimos. Tal atitude provoca reações de protesto nos ouvintes. O dono da vinha parece estar sendo muito injusto. Os primeiros que foram chamados trabalharam várias horas a fio e aturaram o calor do dia. Como, então, o senhor pode dar o mesmo salário àqueles que trabalharam apenas uma hora? Parece que estamos diante de uma tremenda “injustiça”. Vivemos a cultura da meritocracia; cada um deve receber segundo seu esforço ou suas conquistas. Quanta importância é dada aos méritos: na vida, na sociedade, na educação, na religião! Para isso existem as homenagens, premiações, reconhecimentos públicos, livros comemorativos, nomeações honoríficas…  Escutamos com frequência: “mereceu pelo que fez!”; “depois de tanto esforço realizado, era justo que ganhasse o prêmio!”. Cremos que faz parte da justiça “ganhar quem merece, que trabalhou mais, quem se esforçou mais…”. Inclusive, quando fazemos elogio a uma pessoa que faleceu, destacamos sempre seus méritos: o que ela fez, a qualidade de suas obras, o prestígio que foi conquistando, o trabalho que realizou… A ideia do mérito perpassa todas as dimensões da existência, incluída a dimensão religiosa, onde dá lugar a uma “religião mercantilista”, que conduz facilmente ao farisaísmo: o fiel não só presume de suas boas obras, mas se considera “justo”, acima dos outros, e merecedor dos favores divinos (ou com “direitos” diante de Deus). É a “religião do ego”. Porque não é justo que “os últimos sejam os primeiros”. O evangelho deste domingo revela-se desconcertante, porque rompe o sistema vigente da retribuição dos méritos. O Senhor do Universo não é “deus mesquinho” que estabelecer uma “contabilidade” para premiar ou retribuir seus filhos e filhas. “Os primeiros serão os últimos e os últimos serão os primeiros”, afirma Jesus com contundência. “Trabalhar na vinha do Senhor” não é questão de quantidade, mas de qualidade. Já é um privilégio o fato de sermos chamados a colaborar e devemos aproveitar da oportunidade que nos é oferecida. Aqui não há lugar para comparação, competição e inveja. Os trabalhadores da primeira hora revelam que sua vida tem um sentido interesseiro. Eles trabalham e, ao final do dia, recebem um salário adequado: o pagamento combinado de um denário, que, na época, correspondia ao preço justo de uma diária. Mas, assim que começam a se comparar com aqueles que trabalharam menos do que eles, ficam insatisfeitos e pensam: “teria sido mais fácil se tivéssemos começado a trabalhar mais tarde”. Assim confessam que, para eles, o trabalho significa um fardo; e o calor, sofrimento. Há um outro aspecto interessante revelado pela mesma parábola. Aqueles de primeira hora que se queixam do mesmo tratamento dado a todos pelo senhor, mostram-se incapazes de compreender a atitude do dono da vinha. Eles não têm direito a exigir, porque foi combinado um “denário” pela diária, mas se sentem mal que os últimos recebam o mesmo tratamento que eles.  Com esta parábola, o evangelho pretende fazer saltar pelos ares a ideia de um Deus que reparte seus favores segundo o grau de fidelidade às suas leis, ou pior ainda, segundo seu capricho. Salta à vista a novidade da mensagem de Jesus, uma novidade que pode ser resumida numa palavra: gratuidade. Infelizmente, continuamos cultuando a um “deus mesquinho” e que nos interessava manter. Na realidade, nada temos que “esperar” de Deus; Ele já nos deu tudo desde o princípio; basta nos abrir ao seu dom total, que é já uma realidade, embora ainda não tenhamos descoberto isso. A mensagem da parábola é evangelho, boa notícia: Deus é igual para todos: amor, dom infinito. Devemos proclamar isso para todos, sem exceção. Não podemos ter a pretensão de aplicar a Deus nosso conceito de “justiça religiosa interesseira” que consiste em sermos bons para que Deus nos premie ou, pelo menos, para que não nos castigue. No fundo, o que a parábola deixa transparecer é a queixa daqueles que se sentem “injustiçados” porque foram chamados ao amanhecer e receberam o mesmo valor daqueles que foram chamados ao longo do dia. É a queixa que brota da comparação com os outros e que expressa nossa mentalidade estreita e nossos cálculos mesquinhos. Tal atitude nos revela que não conhecemos o nosso Deus. Relacionamo-nos com Ele como o assalariado com seu empregador, ou seja, mais trabalho, mais soldo. A queixa também revela um pecado de raiz, escondido em todos nós: a inveja. Sentimos inveja porque os outros têm algo que não temos, sentimo-nos prejudicados por Deus e pelo destino. Quanto mais nos comparamos com outros, mais insatisfeitos ficamos. Sentimo-nos injustiçados e bloqueamos nossa própria vida. Poucos sentimentos humanos causam tanto sofrimento e interferências nas relações entre as pessoas como a inveja. Essa emoção negativa só serve para produzir lamúrias, queixas, amarguras naquele que é invejoso e provoca desconcerto e incompreensão naquele que é invejado.  A inveja nos corrói por dentro, nos morde, nos faz dobrar sobre nós mesmos. E, ao mesmo tempo, coloca uma barreira entre nós e aqueles a quem invejamos. Assim, nos convertemos

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