Reflexões sobre o Advento

Iniciamos um novo ano litúrgico. É um tempo especial que a Igreja nos oferece para avaliarmos o caminho que percorremos até aqui. Da janela do meu carro, parado no sinal, observo as luzes que iluminam e inspiram. Um clima de solidariedade, de cooperação se torna realidade. Crianças que antes se isolavam em seus quartos, com seus jogos eletrônicos, agora vêm pra rua, em busca de afeto e do contato humano. Neste cenário, uma certeza: precisamos tirar de nossos corações as trevas que não permitem Deus chegar até nós. Devemos tirar os obstáculos que nos atrapalham e as estruturas que nos condicionam. Renovação interior de cada pessoa e de nossa sociedade são condições para que o Reino aconteça entre nós. Na simplicidade de uma criança, a grandeza de Deus se revela. O sentimento de que o Reino se faz presente não apenas nos traz uma profunda alegria como também um novo tipo de relacionamento com o próximo. O cristão não apenas tem alegria, mas é uma alegria para quem o encontra no caminho. Amor e serviço! O amor de Deus para com os seres humanos ultrapassa todo nosso entendimento. Por isso o Verbo se faz carne e veio armar a sua tenda entre nós. Os céus fecundam a terra. Assim, todas as criaturas, todos os seres viventes, transformam-se, impregnados pelo amor que se revela no espírito que invade e aquece todos os corações dos homens de boa vontade. Tudo o que move se torna sagrado e sacramento do amor de Deus. Assim, o Advento se torna um tempo apropriado para refletirmos sobre o mistério da Encarnação e mergulharmos em nossa humanidade. Meditarmos sobre o sentido profundo de sairmos de nós para irmos ao encontro do outro. Sobre o significado de aceitarmos nossa fragilidade e, consequentemente, as de nosso semelhante. Sobre a importância de alimentarmos nossa espiritualidade numa esperança histórica. E, finalmente, sustentarmos nosso coração na generosidade e gratidão. Desejamos, portanto, que este Advento e Natal sejam momentos de encontro, proximidade e convivência amorosa e fraterna, fecundas de compromisso com a vida em todas as suas expressões. Geraldo Célio Andrade e Jonas José Santana, professores de Ensino Religioso.
Este é um texto que vai falar de Natal.

♫♪♫♪ Bato à porta antes de entrar, porque tudo o que for dito em relação a aproximar o Natal de sua essência em nada quer comprometer a fantasia que povoa nosso imaginário. ♫♪♫♪ Buscar a essência, sim. Perder a magia, jamais! Já que não tem chaminé! Toc… toc… toc… Posso entrar? Natal é uma festa de aniversário, do nascimento de Jesus Cristo que veio ser mensagem viva de paz e esperança para a humanidade. Para muitos, esse sentido cristão da fé segue intacto… Para outros tantos, nem tanta fé, mas permanece o sentido da celebração, do encontro, da família, da alegria, da partilha, da ceia, da troca de presentes, da magia do Bom Velhinho. De maneira geral, ainda permanecem valores cristãos que precisam ser ressignificados e revigorados. Uma pista é não perder no consumismo o sentido desse ritual natalino de partilha. Junto do presente do Papai Noel, deixe uma mensagem de paz. Para as pessoas queridas e que estão distantes, façam cartões natalinos em família e enviem sem ser de forma virtual. Se não puderem fazer cartões, comprem cartões artesanais. Na árvore de Natal, coloque recadinhos de otimismo para convidados poderem colher na noite de Natal. Pense em pessoas que, pelas circunstâncias da “vida como ela é”, tenham se afastado por tropeços ou desentendimentos, e convide-as para a ceia. Se não tiver ceia, faça um bolo especial, uma receita daquelas de família, e faça brindes na simplicidade do cotidiano. Presenteie e seja presença na vida de crianças e adolescentes que possam não ter tido sucesso escolar e tenham vivido cenas de desavenças. Seu presente deve ser símbolo de esperança na mudança que sempre vai acontecer onde houver amor e fraternidade. Valorize e compre direto do artesão. Se não tiver dinheiro, faça uma seleção de músicas e disponibilize-as em alguma mídia digital. Não se endivide e não faça do Papai Noel a centralidade do Natal. Para crianças, ainda são passageiros desse voo mágico num trenó, junto ao presente, deixe um bilhetinho para uma meta solidária para o próximo ano. Mapeie em sua cidade endereços que privilegiem a comercialização da produção de mulheres e jovens empreendedores. Presenteie arte. Presenteie presença. Se der, celebre sua fé em comunidade. Enfeite sua casa com produtos reciclados e alternativos. Reaproveite os enfeites do ano passado. Crie uma atmosfera especial de luminosidade para acolher, de forma especial, quem vem se juntar a você. Independentemente de sua confissão religiosa ou até mesmo de ter convicção de fé e espiritualidade, leia uma reflexão qualquer na noite de Natal. Se for passar a noite de Natal sozinho, por opção ou circunstância, dê a si uma declaração de amor, mesmo que silenciosa. Faça uma prece pela paz no mundo. Compre um presente feito à mão e faça um lindo embrulho para você abrir, em sintonia natalina. Para quem vai se reunir em família e entre amigos, faça dessa oportunidade de celebração um encontro que marque a vida de cada pessoa presente. Traga a lembrança de entes queridos que já se foram e seguem irmanados nesse momento de celebração natalina. Não entregue um presente sem uma mensagem escrita à mão e cheia de afeto. Não exagere nem na comida, nem na bebida, nem nos presentes. Cumpra as promessas de presentes que talvez possam ter ficado inadequadas a partir desta leitura e capriche na simplicidade essencial no Natal do ano que vem. Afinal, “não são coisas” o que mais importa nessa vida. FeLUZ Natal para todos! Maria José Brant (Deka) Assistente social, estudante de Antropologia Analista de Políticas Públicas no Programa Bolsa Família Mestre em Gestão Social Mosaicista nas horas vagas
Natal feliz sem estresse

De repente, saímos à rua e vemos os enfeites de Natal, e só então nos damos conta de que mais um ano se passou e já estamos com tudo atrasado para as festas de fim de ano. Passado o susto inicial, vêm reflexões como “mais um ano que termina, e não fiz um terço do que tinha me proposto”; “o Natal e as férias estão chegando, e não organizei nada; jurei que este ano seria diferente!”, e assim vai. Frustrações, ansiedades, expectativas se mesclam com lembranças, saudades e sentimentos de solidão para alguns. Tudo isso é sinônimo de estresse. Importantíssimo lembrar que só podemos mudar efetivamente o que depende de nós. E, para isso, precisamos mudar paradigmas. Assuma, por exemplo, que aquela prima que sempre diz que ajudará você a preparar a festa e sempre se atrapalha não mudará, então pare de esperar pela ajuda dela e assuma o que apenas depende de você fazer. Assuma também que o dia somente tem 24 horas e que você tem limites de ação. Aprenda a delegar coisas e, se não fizerem, não se fez e pronto. Simplifique sua vida. De nada adianta fazermos tudo o que cremos que deve ser feito e chegarmos exaustos ao Natal. A palavra crise vem do grego krisis, que significa julgar, selecionar. Então avalie e selecione o que você tem como prioridade e o que pode fazer sem se exaurir. Santo Agostinho já recomendava as reflexões diárias como método de autoaprimoramento e evolução da consciência, então vamos lá. Sem a consciência da necessidade da mudança de atitudes e paradigmas, nada muda. Em Programação Neurolinguística (PNL), dizemos que “loucura é fazermos sempre a mesma coisa esperando resultados diferentes”. Fomos criados numa sociedade que nos cobra acertarmos sempre, fazermos tudo sempre perfeito, sermos sempre vencedores, e a realidade da vida não é essa; somos apenas seres humanos com possibilidades e limites. A cada vez que um leão sai para caçar, sete vezes volta com fome. A vida é assim, e precisamos encarar as realidades. Observe a si mesmo e verifique o que lhe traz conforto e desconforto. Use isso como referência de autorrespeito. Não é egoísmo, é autorrespeito. O dinheiro está curto? Então não comprarei presentes e já avisarei a todos. Estou muito cansado, cansada? Então não farei aquele peru que preparo todos os anos e todos adoram, vamos comprar pronto, por exemplo. Simplifique, faça essa experiência. Você vai se surpreender com os resultados. Deixemos então falsas expectativas de lado, sejamos realistas e selecionemos o que é possível e prioritário. Também em PNL aprendemos que o cérebro se organiza melhor quando fazemos planos por escrito. Não é lista no celular, é escrever mesmo, num papel, e se dando prazos. Como “até dia tal, estarei com tais coisas resolvidas e, para isso, preciso priorizar isso e aquilo”. Outra coisa que ajuda muito no gerenciamento do estresse, em qualquer época, é o ato de prestarmos atenção em nós, em cada momento, intencionalmente, especialmente observarmos nossa respiração. Essa simples e eficaz técnica faz parte do repertório de atitudes orientais para a saúde, que são as chamadas práticas meditativas. Há milênios que a sabedoria oriental tem muitas práticas para a saúde e que, apenas há poucas décadas, o Ocidente vem olhando e aproveitando. Você pode parar para fazer essa observação de sua respiração regularmente, todos os dias, durante cinco a dez minutos, sempre no mesmo horário, de preferência; por exemplo, ao acordar ou antes de dormir, ou no intervalo do almoço, e então simplesmente observar a respiração, o ar que entra e que sai e, muito importante, observar as sensações que vêm enquanto você observa a respiração. Quando os pensamentos vierem, deixe que passem como nuvens levadas pelo vento e volte a prestar atenção na respiração, apenas isso. Fique nessa prática enquanto estiver confortável ou pelo tempo que você tiver disponível, também em qualquer momento do dia em que você estiver muito ansioso, irritado, estressado, como na enorme fila do supermercado. Você pode se desligar do entorno e simplesmente, por um ou dois minutos, observar sua respiração com atenção. Essas pequenas pausas ao longo do dia acalmarão sua mente e melhorar todo o funcionamento cerebral. Assim você ficará mais produtivo, produtiva. Experiente e verá. Quando puder, faça também planos para o ano que virá, faça isso por escrito, olhando um calendário, escrevendo o que quer, como agirá para chegar lá, ou seja, quais estratégias usará, quais recursos já tem para alcançar a meta, quais lhe faltam e que prazos terá. Isso também aliviará o estresse que surge ao pensar no novo ano que está chegando. Se, nesta época, você se sente nostálgico, solitário, então é hora de se engajar em uma obra filantrópica e levar seu carinho e atenção aos que precisam mais que você, exercendo assim o mais puro espírito cristão. E por falar em espírito cristão, lembremo-nos sempre da finalidade essencial do Natal, que é o nascimento do Cristo. Pense: como posso, nesta época, sintonizar minha alma com o Cristo? Que práticas espirituais diárias podem ser feitas para cultivar o espírito cristão diariamente até a chegada do Natal? Cinira A. PalottaBióloga, pós-graduada em Cuidados Integrativos (Departamento de Neurologia da Unifesp), professora de Ioga, mestra em PNL e terapeuta em florais de Bach.
À Luz do Evangelho Dominical

Já estamos no terceiro domingo do Advento, chamado “Gaudete”. A liturgia ganha um tom de alegria, dando uma amostra de como será o encontro com o Senhor, que já está perto. O Evangelho de Mateus (11,2-11) coloca próximos Jesus e João Batista, precursor de Cristo e, segundo o Mestre, o maior entre os que já nasceram, mas ínfimo diante do menor no Reino dos Céus. Padre Arlindo Dias, missionário do Verbo Divino, reflete que João teve a missão de anunciar o Cristo que viria libertar o povo. Diante das ações de Jesus, que comunicava paz, vida e esperança aos marginalizados, em vez de um motim, o Precursor parece confuso e busca saber se o ilustre primo era realmente o Ungido que libertaria Israel da opressão. Como resposta, Jesus baseia-se na profecia de Isaías e descreve um pouco de suas ações de resgate da dignidade do ser humano e evangelização dos pobres. “Feliz aquele que não se escandaliza por causa de mim” (Mt 11,6). O espanto que Jesus provoca é o da misericórdia, bem diferente de um “vingador” esperado pelo povo, pelas autoridades e mesmo pelo Batista e discípulos. Assista à produção da Verbo Filmes e saiba mais.
Bibliodrama: uma experiência de vida

Durante o ano de 2019, o grupo de coordenadores missionários da Rede de Educação, de missionários leigos de Deus Uno e Trino e das irmãs missionárias servas do Espírito Santo se reuniu no Centro Missionário Cultural Santíssima Trindade, em São Paulo-SP, para o Curso de Bibliodrama. A formação foi ministrada por irmão Paolo de Lucca, SVD; irmã Maria de Fátima Marques, SSpS; irmã Heloíse Matos, SSpS; e Agostinho Travençolo Júnior, coordenador missionário. O encontro de encerramento foi no fim de semana, entre 29 de novembro e 1º de dezembro. A temática envolveu sonho e missão que perpassam o encontro com a Palavra. Foram dias de crescimento pessoal, vivência em grupo e aprofundamento da fé. A cada encontro, tive a oportunidade de trazer a Bíblia para a centralidade de minha vida, de maneira única, diferente de todas as outras, levada por minhas intuições, emoções, revelando que Deus comunica-se comigo e que o Espírito está em ação, pela escuta, pela transformação. Nem sempre, nos encontros de bibliodrama, foi possível nomear as emoções, mas foi possível vivenciá-las e promover um encontro comigo mesma e com o outro. Tive, em muitos momentos, oportunidade de escutar, ouvir com atenção, ser ouvida, perguntar, responder, compreender a dor do outro que, muitas vezes, era a minha também e não a percebia… Pela dança, um dos elementos do bibliodrama, tive a chance de vivenciar maior interação com o grupo e de deixar pulsar no coração sentimentos vividos na experiência da Palavra. Neste último encontro, fizemos a experiência do bibliodrama completo: estruturação do texto, leituras, esculturas, gestos, “bibliolog”, entrevistas, entre outros. Estes me fizeram crer que é bom olhar para dentro de mim e contar minha história, relembrar meu caminho, percebendo que Jesus me fala também por meio de outras pessoas. Um fim de semana rico de novas experiências que contribuíram para minha própria história e para minha prática como educadora. Um curso que me fez ressignificar o valor das pequenas coisas: sentar-me à mesa com a família, escutar com paciência meus filhos, alunos, amigos, viver intensamente cada momento, descobrir o que há de especial em cada pessoa sem me prender a aparências e rótulos, perdoar para ter a capacidade de amar intensamente e agradecer sempre. _ “Se eu quiser falar com Deus tenho que me aventurar Eu tenho que subir aos céus Sem cordas pra segurar tenho que dizer adeus dar as costas, caminhar“ (Gilberto Gil, “Se eu quiser falar com Deus”) Luciana Marzullo Araujo, coordenadora da Pastoral Missionária no Colégio Stella Matutina, pedagoga e cientista das religiões. ________
O encontro que me fez escutar e proclamar (Mc 7,31-37)

O relato da cura do surdo gago (ler o texto Mc 7,31-37) está estrategicamente inserido logo após o diálogo de Jesus com a mulher siro-fenícia (Mc 7,24-30) e antes da segunda multiplicação dos pães (Mc 8,1-10). Provavelmente o autor quer mostrar aos leitores que é por meio de Jesus que os ouvidos dos gentios podem ser abertos à escuta da boa notícia divina, e suas línguas podem ser desatadas para proclamar a Palavra de Deus. A narrativa começa descrevendo uma interessante viagem, pois Jesus está indo de Tiro ao território que rodeia o mar da Galileia. Quer dizer que, de Tiro, no Norte, dirige-se à Galileia, no Sul. À primeira vista, parece uma travessia ilógica, entretanto pode ser que essa longa viagem seja proposital. O que permitiria a Jesus ter um tempo mais prolongado para preparar seus discípulos antes do fim iminente. A trama desenvolve-se na seguinte sequência: descrição do itinerário geográfico (v. 31); os mediadores apresentam o surdo gago e imploram a imposição das mãos (v. 32); Jesus de quem se espera que ponha a mão sobre o surdo; o ritual da cura (vv. 33-34); o efeito curativo do ritual (v. 35); o encargo por parte de Jesus e a reação do povo (vv. 36-37). É interessante, porém, que não é novidade que as personagens “mediadoras” sejam inominadas, pois isso ocorre também em outras passagens (Mc 1,32; 2,3; 6,55-56; 10,13-16). Compreende-se, portanto, que o interesse do autor, mais que destacar os mediadores, é evidenciar que o mal em questão é de caráter coletivo. Quer dizer, a enfermidade desse homem está afetando todo o grupo. Portanto mediar é uma disposição de buscar o bem da comunidade. Anteriormente dizemos que esse percurso foi um tempo de instrução aos discípulos, por isso chama nossa atenção que, subitamente, eles desaparecem da trama. É provável que sua ausência queira expressar uma atitude de incompreensão com seu mestre. Os discípulos reaparecem no texto quando Jesus os chama (cf. Mc 8,1). Por sua vez, o enfermo encontra-se numa situação de passividade e isolamento, pois nem recebe, nem comunica. A condição de surdez e gagueira o priva da palavra. Dessa forma, ele está condenado às margens da história de uma vida recriada por Deus. Se bem que o verbo μογιλάλον não indica surdez, mas sim dificuldade para falar. Provavelmente isso seja indício de que nem sempre ele foi surdo. Algo deve ter acontecido em sua vida que o tornara surdo. Vivemos numa sociedade global, em que as mídias sociais têm atingido amplos níveis, encurtando distâncias. Porém, nesse novo cenário, a visão das pessoas se ofusca ante a vastidão de informação. Além disso, quando as mídias estão atreladas ao sistema hegemônico, distorcem a informação para garantir domínio do sistema. A consequência é que quase não mais conseguimos distinguir o bem do mal. De alguma forma, ficamos surdos e gagos. Quase ninguém mais escuta os gritos dos pobres; dos que têm fome; dos que são injustiçados, escravizados; o grito das crianças e mulheres violentadas; o grito da terra e da natureza explorada. Para contrariar esse sistema de morte, é imperativo que se abram nossos ouvidos e se solte nossa língua. É mister ser curados por Jesus para recuperar o poder da palavra. No Oriente Antigo, a palavra tinha um poder que chegava a repercutir nas realidades das coisas da vida. Era como se tivesse uma força de destruição e uma força de vida. Isso nos ajuda a compreender o que os evangelhos querem dizer quando neles se indicam a força e a eficácia que tinha a palavra de Jesus. Em Jesus, o dizer e o fazer se identificavam e se fundiam de tal forma e tal extremo que o que Ele dizia e o que fazia dava vida e libertava as pessoas de seus males. A unidade da palavra e da ação consiste em que Jesus mesmo é a “Palavra de Deus” (Jo 1,1). Em Jesus Deus se expressa e se dá a conhecer. Por isso nele se manifesta a força de vida, de saúde, de plenitude da existência. “Colocou os dedos nas orelhas dele e, com a saliva, tocou-lhe a língua. Depois, levantando os olhos para o céu, gemeu e disse: ‘Effatha’, que quer dizer ‘Abre-te!’” (vv. 33-34). O gesto de Jesus, segundo alguns estudiosos, é ritual simbolizando o processo de cura do surdo gago. As ações realizadas por Jesus (Ele o levou à parte, colocou os dedos nas orelhas, com saliva lhe tocou a língua, levantou olhos ao céu, gemeu e falou) devem ser compreendidas no marco bíblico e sociocultural da época. A expressão idiomática “a sós” ocorre frequentemente em Marcos, em cenas nas quais os discípulos estão a sós com Jesus (cf. Mc 4,34; 6,31-32; 9,2-28; 13,3). Nesse trecho, é a única vez que essa expressão é usada com outra pessoa. Naquela época, atribuía-se poder curativo à saliva, sobretudo a saliva das pessoas influentes. Por isso, cuspir nas partes enfermas era algo comum naquela época. O gesto de levantar os olhos é realizado quando Jesus quer estabelecer um diálogo com o Pai (Mc 6,41). O gemido é sinal de quem está em profunda oração. Além dos gestos, Jesus pronuncia uma palavra “Effatha”, que o autor traduz como “Que se abra”. Pelo fato de o verbo aramaico effatha estar no singular, acredita-se que a expressão esteja dirigida à totalidade do homem e não somente aos órgãos da palavra e audição. A expressão “e falava corretamente” confirma a inserção dele no grupo com o qual se poderia comunicar. Porém, agora que o homem podia se comunicar, Jesus pediu às testemunhas não falar. Porém eles, ao invés de calarem-se, apregoam maravilhas que Jesus realizava: “Ele fez tudo bem…”. Nessa afirmação, encontra-se o reconhecimento do cumprimento da profecia anunciada em Isaías 35,5. O interessante é que, nesta ocasião, a proclamação é feita pelos gentios e não pelo povo da Aliança. Dessa forma, Marcos dá um giro ao exclusivismo isaiano. A difusão da boa notícia sobre Jesus não é exclusividade de um grupo seleto e não pode ser contida; ela
“Estive preso, e fostes me visitar” (Mt 25,36)

Irmã Helena Suzana Christo optou pela missão com os encarcerados. Desde 2014, dá cursos de “Fundamentos de Perdão e Justiça Restaurativa” para os presos, em parceria com a Pastoral Carcerária e o Centro de Direitos Humanos de Campo Limpo, o Cedhep. Nos últimos anos, a formação está sendo oferecida no presídio de Parelheiros, na Zona Sul de São Paulo-SP. “O curso exige muita disponibilidade, sem preocupação com resultados”, conta Ir. Helena, convencida de que vale a pena. “São seres humanos que precisam ser ouvidos e enxergados”, explica. Como missionária serva do Espírito Santo, ela se sente gratificada. “Nossa missão é estar com as pessoas mais excluídas, e esse é um grupo totalmente esquecido e desprezado pela sociedade”, justifica. Neste semestre, ela e a missionária leiga Miriam Bernadete de Souza já deram dois cursos de 40 horas. A formação, segundo Ir. Helena, é uma boa didática de recuperação. Cada vez, são 20 homens que participam, a maioria jovem. O conteúdo sobre perdão e justiça restaurativa ajuda a trabalhar o que aconteceu com eles, tanto como vítimas de uma sociedade excludente, mas também como agressores. “Muitos afirmam que, se tivessem feito o curso antes, teriam evitado alguns erros”, comenta ela. As dinâmicas dão oportunidade de se verem, trabalharem os sentimentos, adquirirem autoconhecimento e tomarem consciência para assumir o que fizeram. Eles mesmos dizem que a Justiça, do jeito que é, não o favorece, mas o curso ajuda, especialmente em relação ao perdão. Quando conseguem perdoar, algo se transforma dentro deles e, com isso, conseguem ir se trabalhando. “Se a justiça punitiva realmente resolvesse o problema, não teria tanta gente que volta ao presídio”, desabafa Ir. Helena. Ela está convencida de que o sistema carcerário como está estruturado não favorece a recuperação nem a reinserção na sociedade. A justiça restaurativa, por outro lado, dá oportunidade para o agressor se responsabilizar pelo que fez e, junto com a pessoa que sofreu o dano e a própria comunidade, buscar uma forma de reparar o mal que cometeu. Quando os presos entendem a diferença entre a justiça punitiva e a restaurativa, surge uma nova perspectiva para eles. Prova disso é que não perdem o curso e participam com gosto. Irmã Helena conta que sempre há uma fila de espera e, se houvesse mais gente para dar a formação, mais presos poderiam ser atendidos. Nova possibilidade A missionária leiga Miriam teve seu irmão assassinado e diz que até hoje ninguém sabe bem o motivo do crime. Apesar disso, sente-se feliz em participar da Pastoral Carcerária e estar junto com os presos. Ela afirma que, quando vai ao presídio, nem pensa nisso, porque, para quem matou seu irmão, “faltava Deus no coração, faltava uma formação melhor, um acolhimento da sociedade…”. Ela partilha sua experiência: “Para mim, o trabalho no presídio é uma experiência espiritual, de viver o Evangelho com aqueles que estão à margem da sociedade. Fico imaginando Jesus Cristo entrando naquele lugar. Como ele se relacionaria com todos aqueles 1600 homens que vivem ali? O desemprego, o racismo, a droga, o tráfico são fatores causadores dessa situação. Não vejo quem está lá dentro como responsável total; a sociedade tem uma grande parcela de contribuição para levar essas pessoas para lá. Quando trabalhamos o perdão, o autoperdão, a reconciliação, a revisão de vida, é muito importante para eles se verem diante de sua realidade, de sua fragilidade e descobrirem uma nova possibilidade. Eles se sensibilizam e acreditam que há uma chance de mudança. Pelo lado do Evangelho, vejo que precisaria haver mais agentes de pastoral com esse povo. A maioria dos cristãos consideram aquelas pessoas violentas, perigosas e não querem nem chegar perto. O Evangelho não prega isso. Se Jesus estivesse aqui, tenho certeza de que muitas cadeias já não existiriam mais. Sinto-me feliz em doar a minha vida, principalmente dentro do presídio, porque é um caminho para mostrar que existe outra possibilidade, não só o crime. Para mim, é mais que um trabalho social, é um trabalho evangélico, que me realiza e me torna uma pessoa mais útil para a sociedade e para a Igreja.” E o que dizem os presos? Aqui relatamos alguns breves depoimentos, sem dizer os nomes: “Queria que todos os juízes enxergassem dessa forma que o curso passou e que, em vez de pegar uma pessoa e abandonar atrás das grades, pudesse usar dessa técnica da justiça restaurativa. Se tivessem feito isso comigo e com outras pessoas, creio que teriam salvado muitas pessoas de ter voltado um dia para este lugar.” “Comecei a enxergar que a vida é bonita e que, me perdoando, como aprendi, consigo agora levar uma vida em paz, com harmonia. Quero reconstruir minha vida quando eu sair.” “Hoje, aos 43 anos, enxergo as coisas muito diferente. O curso me mostrou o que a vida não ensina. Só depois de muito errar é que se aprende a importância de ser bom e de fazer o bem.” Irmã Ana Elídia Caffer Neves, SSpSJornalista, membro da Equipe de Comunicação Congregacional e coordenadora de Comunicação da Província Stella Matutina (BRN)
Gentileza: crianças enviam cartas para idosos

Consideradas um dos meios de comunicação mais antigos do mundo, as cartas perduraram como principal veículo de informações a distância por muitos séculos. Entretanto, a chegada do telefone, em 1870, provocou mudanças na cultura da escrita de cartas, mesmo que continuassem a contribuir para que as pessoas se comunicassem e expressassem seus sentimentos, desejos, projetos e desabafos. No entanto, no século XXI, com a internet e a divulgação das redes sociais, o que era escrito em folhas de papel passou a ser digitalizado em telas dos smartphones, tablets e computadores, e as pessoas que viveram grande parte de suas vidas fora da Era Digital e hoje moram em lares de idosos viram-se, muitas vezes, impedidas de escrever e receber cartas, aumentando, por exemplo, a solidão e sensação de abandono. Assim, a Prefeitura de Belo Horizonte-MG, em parceria com o Movimento Gentileza, lançou, no dia 22 de outubro, o projeto “Cartas para você”. O objetivo é promover um intercâmbio geracional entre crianças, jovens e idosos, além de permitir o desenvolvimento de um elo afetivo por meio de cartas manuscritas. O Colégio Sagrado Coração foi convidado a participar da iniciativa, representando as escolas privadas de Belo Horizonte. Assim, 413 crianças e adolescentes dedicaram um tempo para escrever uma carta para uma idosa ou idoso, compartilhando histórias, sentimentos e sonhos. As mensagens, por sua vez, foram entregues pelos correios, reacendendo nos idosos residentes em 28 lares da capital mineira as memórias dos tempos em que as cartas eram esperadas ansiosamente, pois traziam notícias de pessoas amadas e que viviam longe. Cerimônia de lançamento Os alunos Maria Luiza Vanucci Ferreira, Rafaela Andrade Alves, Nicole Cunha Ribeiro e João Freire Villela participaram da cerimônia de lançamento do projeto, no salão nobre da Prefeitura. “Abro meu coração quando escrevo uma carta”, revelou a aluna Maria Luiza, em depoimento ao Jornal Estado de Minas. Em paralelo a esse depoimento, recordarmos um dos pensamentos de Madre Josefa, uma das fundadoras da Congregação da Missionárias Servas do Espírito Santo que norteia a filosofia dos colégios: “Nossa missão é abrir os corações ao amor”. Com isso, esperamos que as cartas levem ânimo, alegria e carinho aos corações dos idosos e idosas dos 28 lares, como os residentes do Lar Nossa Senhora da Saúde. Assim nos escreveu a assistente social Juliana Moreira: “Recebemos as cartas aqui no lar, e os idosos adoraram. Ficaram muito felizes e interessados ao abrir a carta e poder ter contato com essas crianças maravilhosas do Colégio Coração de Jesus, do 6º ano”. Escrever uma carta é um gesto significativo de gentileza, mas existem muitos outros. Nossos alunos fizeram a parte deles. Agora é sua vez de também espalhar gentileza, cumprindo o que Madre Josefa nos deixou como legado: “Abrir os corações ao amor”! Simone Fortunato NunesCoordenadora da Pastoral Missionáriado Colégio Sagrado Coração de Jesus ________ Assista ao vídeo publicado pelo Jornal Minas:
Presença missionária em Papua-Nova Guiné

Papua-Nova Guiné, país da Oceania, é um mundo desconhecido para a maioria dos brasileiros, mas foi um dos primeiros campos de missão das missionárias servas do Espírito Santo (SSpS). Elas estão lá desde 1899. Com uma cultura riquíssima, o país tem três idiomas oficiais e mais de 800 línguas indígenas locais, para se ter uma ideia da variedade de grupos nativos. A população enfrenta problemas sociais, como pobreza, violência, mortalidade infantil, falta de acesso à educação, entre outros. Por isso, além do trabalho pastoral e de anúncio do Evangelho que as irmãs realizam, elas também atuam nas áreas em que há maior necessidade, como escolas, hospitais, maternidades, clínicas itinerantes, atendimento a pessoas com HIV/Aids, promoção da mulher, projetos de desenvolvimento social e de formação nas aldeias. A presença das irmãs em Papua-Nova Guiné motivou os alunos do 2º ano do ensino médio do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP, a produzirem uma peça de teatro sobre a realidade daquele país e encená-la durante a II Semana Sem Fronteiras, realizada no início de outubro. Dada a qualidade do trabalho, os alunos foram convidados para se apresentarem no Centro Missionário Cultural Santíssima Trindade, para o encerramento do Mês Missionário Extraordinário. Encerramento do Mês Missionário No dia do aniversário de nascimento de Santo Arnaldo Janssen, 5 de novembro, o Centro Missionário promoveu um evento para encerrar o Mês Missionário Extraordinário. Estiveram presentes os alunos do Curso de Formação Teológica e Missionária, as irmãs da Comunidade do Convento Santíssima Trindade e Santana, e o grupo de alunos do Colégio Espírito Santo, acompanhados dos professores, para assistir ao teatro sobre Papua-Nova Guiné. A peça, toda montada pelos alunos, apresentou uma jovem que, ao chegar em casa, liga a televisão e assiste a diferentes gêneros de programação, todos sobre Papua-Nova Guiné. Os alunos encenam os programas, mostram danças típicas e incluem documentários, entrevistas e até o depoimento em vídeo de uma missionária brasileira, Ir. Lourdes Hummes, que trabalhou 18 anos naquele país. Depois de uma hora de apresentação, uma terra até então longínqua e desconhecida passou a fazer parte do coração dos que assistiram à peça. Souberam do drama que as mulheres enfrentam, uma vez que, por causa da cultura machista, são vítimas constantes de violência doméstica, estupro e outros crimes. Somente há poucos anos, o país adotou uma legislação que as protege, mas mudanças culturais são lentas, e os homens continuam violentos. Mas o público também viu a beleza de sua natureza, de suas danças e de seus povos. É um país exótico, cheio de mistérios e com muitos desafios. Os 120 anos de presença missionária naquele país certamente estão contribuindo para que as pessoas tenham melhor qualidade de vida, educação, saúde e a oportunidade de conhecer os valores do Evangelho. Irmã Ana Elídia Caffer Neves, SSpSJornalista, membro da Equipe de Comunicação Congregacional e coordenadora de Comunicação da Província Stella Matutina (BRN) _______
À luz do Evangelho Dominical

Neste 30º Domingo do Tempo Comum, a liturgia traz o Evangelho de Lucas (18,9-14), que conta a parábola do fariseu e do cobrador de impostos (chamado também de publicano). O padre Fábio Pires, missionário do Verbo Divino e especialista em Bíblia, reflete sobre o trecho. O cenário é o templo, lugar de oração. Cada personagem relaciona-se com Deus de uma maneira completamente diversa. Jesus chama a atenção daqueles que instrumentalizam a religião e a usam para afirmar a si próprios. Essas pessoas são representadas, na parábola, pelos fariseus. Do outro lado, está o publicano. Este se põe afastado, reconhece sua fraqueza e a necessidade do perdão de Deus. Quem demonstra humildade em sua relação com o Pai volta para casa justificado, atendido em sua prece. Jesus nos ensina que precisamos de uma oração tal como a dos pobres, de total confiança em Deus, conhecedor das limitações humanas. “Quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado” (v. 14). Assista ao vídeo produzido pela Verbo Filmes e saiba mais.