Uma pequena maleta é suficiente

Ao ler um texto que publiquei, uma pessoa reagiu com um comentário que dizia no contexto, “Uma pequena maleta é suficiente”, referindo-se ao que é necessário para viver. Isso me provocou pensar no acúmulo de coisas que guardamos sem necessidade. Se olharmos para nosso armário de roupas, há aquelas que não saem do cabide faz mais de ano. Certamente, essa é supérflua, não precisamos dela, mas está lá, guardada, apertando-se entre as outras, ocupando espaço inutilmente. Nesses dias, alguém sugeriu, que, neste tempo de frio, fosse levada no carro uma blusa que estivesse sobrando e a entregasse a alguém que se encontrasse passando frio pelo caminho. Gostei da sugestão e já consegui alocar no ombro de desconhecidos duas blusas que faziam parte de meu “supérfluo”. Tenho outra para o próximo que encontrar. Não me fazem falta, mas estavam fazendo falta para alguém. Assim são camisas, calças e outras bugigangas. Há muito supérfluo em nossa casa que são úteis para quem não tem e precisa dele. Então doe, não fique pensando “ah pode ser que eu venha a precisar…”. Se não precisou até agora, você tem outros recursos para suprir o que vai doar. Como disse o comentarista de meu texto, “Uma pequena maleta é suficiente” para nossa “viagem” nesta vida. Aliás, como disse o Papa Francisco, nunca se viu, atrás de um cortejo fúnebre, algum caminhão de mudança levando seus pertences. Nós temos a mania de guardar tudo e acumular muito. O medo de passar necessidade nos faz guardar até alimentos demais. Ficam lá na prateleira, até vencer o prazo de validade, para depois jogá-los fora, porque não se pode consumi-los. Esquecemo-nos de imitar os pássaros, que não acumulam nada para o dia seguinte e saem cantando de manhã para encontrar o necessário para o novo dia. Nesse sentido, confiamos pouco na Providência. Jesus, numa ocasião, enviou seus discípulos e disse-lhes que não levassem duas túnicas nem sacolas, nem dinheiro… Ele foram. Nenhum voltou reclamando que passou fome. Pelo contrário, voltaram felizes, contando as proezas que haviam feito. Pensando bem, quanto mais presos ficamos às coisas, menos livres para viver. Não estou sugerindo ser leviano, irresponsável ou despejar sobre os outros aquilo que é de nossa responsabilidade. Estou apenas dizendo que, por vezes, guardamos tranqueiras demais (digo por mim). Quando damos algo que é nosso, libertamo-nos um pouco de nosso egoísmo, experimentamos um pouco de alegria diferente daquela que sentimos quando compramos ou ganhamos uma roupa. É uma alegria mais prazerosa e duradoura. Além de tudo, abate um pouco de nossa “dívida”, porque aquilo que está demais em nossa casa é o que está faltando na vida de alguém. Façamos uma vistoria em nossa casa e vejamos quanto supérfluo há por lá. Coloquemos numa caixa para doação o que não precisamos. Enquanto fazemos isso, podemos também examinar nossa vida que, às vezes, está também cheia de coisas inúteis de outra espécie. Refiro-me aqui a bagulhos que não estão em armários, mas que atrapalham a vida mais livre também. São aqueles que sufocam a alma, o psíquico. Por exemplo, nossas lamúrias, nossos ódios, nossos rancores, nossos vícios, nossa mente poluída, nosso olhar cobiçoso, invejoso, ciumento. Esses adereços não enchem gavetas de armários, mas espaços psíquicos dentro de nós. Isso não é para doação, mas para liberar espaço para uma vida mais sadia. Livrar-se deles também é um alívio não somente para a consciência, mas também para o emocional, que se desgasta com esses “infantilismos” alimentadores de nossas imaturidades e apegos que impedem de viver nossas relações com mais amabilidade e solidariedade. Vamos, então, ao trabalho, vasculhar nossas gavetas e armários, tirando o supérfluo para doação e prescrutar o coração, liberando mais espaço nele para viver a solidariedade e a compaixão em nossas relações fraternas. Continuemos nossa “viagem” com “uma maleta menor”, carregando o indispensável, sem ambições que nos levem a acumular demais e nos cansar da vida antes da hora. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S
17º Domingo do Tempo Comum

“Pegou os pães, agradeceu a Deus e os distribuiu”João 6,1-15 A liturgia de hoje interrompe as leituras do Evangelho de Marcos e insere um trecho tirado do capítulo sexto de João, o que comumente chamamos o milagre da “multiplicação dos pães”. Logo, vale lembrar que esse é o único milagre contado pelos quatro evangelhos, tanto pela tradição sinótica como da comunidade do Discípulo Amado. Isso mostra claramente que, para as primeiras comunidades cristãs de diversas tradições, a história hoje relatada tinha um grande valor e uma mensagem muito importante. Os quatro relatos seguem basicamente o mesmo fio da meada, com as divergências próprias a cada tradição e teologia. O enfoque mais “sacramental” ou “eucarístico” é de João, mostrando, mais uma vez, uma das características da comunidade do Discípulo Amado: a de ter uma teologia eucarística mais desenvolvida. Embora seja um dos relatos mais conhecidos dos evangelhos, vale a pena sublinhar um elemento que talvez possa parecer estranho: embora nós sempre nos refiramos ao milagre da “multiplicação dos pães”, em nenhum dos quatro relatos, usa-se o verbo “multiplicar”. Usam-se outros termos nos quatro evangelhos: “pegar”, “benzer”, “distribuir”, “partilhar”. Não é o caso de discutir aqui o que foi que Jesus fez! Nem teríamos condições de descobrir. O enfoque é outro. Se os evangelistas tivessem colocado a ênfase sobre o “multiplicar”, ou seja, sobre o estritamente milagroso, então a história não teria grandes consequências para nós hoje, pois nós não temos o poder de fazer milagres. Mas, colocando a ênfase sobre o “partilhar” e o “distribuir”, os evangelistas nos desafiam hoje. Pois as ações de partilhar e distribuir estão a nosso alcance. No Brasil, com tanta gente assolada pela injustiça e miséria, não precisamos multiplicar nada. O Brasil não precisa multiplicar terras (somos um dos maiores países do mundo) nem precisa multiplicar a renda (somos uma das maiores potências econômicas do mundo). Não! O que precisamos é de uma partilha e uma redistribuição das terras e da renda. O que precisamos é uma mudança de mentalidade, de coração e das estruturas, e não milagres paliativos. A história de João e dos outros evangelistas insiste que a solução para a carência se acha na solidariedade, na partilha e na redistribuição, a partir de nossa fé no Deus da Vida. Outro elemento importante no relato joanino do evento é a atuação do menino que tinha cinco pães de cevada e dois peixinhos, era seu lanche. Mesmo sendo suficiente somente para ele, o jovem dispõe dos pães e peixes, por meio de André. Esse gesto de partilha, abençoado por Jesus, faz com que todos se fartem. O relato ressalta que foram pães de cevada, a comida do pobre. Também aqui há uma releitura de um evento na vida do profeta Eliseu, que também “multiplicou” pães de cevada (2 Reis 4,42-44). Sem a colaboração desse rapaz simples, oferecendo o pouco que tinha, Jesus não poderia ter alimentado essas pessoas. Assim, o texto nos desafia a descobrirmos quais são os “cinco pães de cevada” que cada um tem e a colocá-los a serviço da comunidade. Quando todos partilham o pouco que têm, sobrará. Quando cada um que tem algo o segura para si, falta para muitos. Já mencionamos que João, colocando o relato no capítulo sexto, no qual há o discurso do Pão da Vida, focaliza o aspecto eucarístico. Participar da Eucaristia é comprometermo-nos com o mundo de solidariedade e partilha, onde os bens materiais (mais do que suficientes) serão distribuídos e partilhados, criando, assim, de uma maneira real entre nós, o Reinado de Deus. Como diz um canto de comunhão, “Comungar é tornar-se um perigo, viemos pra incomodar”. A mensagem da “multiplicação” dos pães incomoda, e muito, pois aponta para as consequências da nossa participação na Eucaristia. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
Maria Madalena: apóstola de Jesus e líder entre os apóstolos

Acredito que todos nós já ouvimos falar sobre as principais histórias bíblicas e seus personagens na vida de Jesus. Maria Madalena esteve à frente de seu tempo e não era uma prostituta. Se ela não era prostituta, quem era de fato Maria Madalena? E o que sabemos dela? Para responder a essas perguntas e falar sobre essa mulher, vamos colocar dois pontos importantes: a proximidade com Jesus entre os apóstolos e sua busca no episódio da ressurreição do Senhor. Analisemos primeiramente o próprio nome. Maria é Míriam, o qual é um substantivo composto de duas raízes, uma egípcia (myr), que significa “a amada”, e (yam), uma abreviação de Yavhé, ou Deus. Assim, Maria significa “amada de Deus”. Seu “sobrenome”, Mágdala, vem do nome da cidade onde ela nasceu, ligado a substantivo hebraico (migdal), que significa “torre”. Então, Maria Madalena é “a mulher da torre”, é aquela que guarda os ensinamentos de Cristo. No mundo antigo, a torre era o lugar que mais se sobressaía nas cidades, e Maria Madalena também foi aquela que se distinguia diante dos apóstolos. Seu papel na história do cristianismo está nos quatro Evangelhos e no Evangelho de Maria Madalena. Ela foi a mulher que tanto amou, mas, com o tempo, foi menosprezada por causa da aversão à liderança feminina na vida da Igreja. A Igreja Ocidental desenvolveu algumas tradições nas quais Maria Madalena foi identificada com a mulher pecadora que está em Lucas (7,36-50). No entanto, não há qualquer indício histórico que dê suporte a essa ideia. Na verdade, as evidências dos Evangelhos canônicos demonstram argumentos contra tal identificação. As interpretações apresentadas ilegitimamente a colocaram num processo de “fusão” de atributos inverídicos que culminaram por macular suas virtudes, e essas fraquezas não estariam relacionadas com liderança ou mesmo com a questão de profetizar. Nos Evangelhos, encontramos muitas mulheres que seguiam Jesus desde a Galileia, e uma delas é Maria de Mágdala ou Maria Madalena. Nos quatro Evangelhos (Mateus, Marcos, Lucas e João), Maria Madalena foi mencionada três vezes. Na primeira (Lucas 8,1-3), relata-se que ela fazia parte do grupo de mulheres que seguiam Jesus e o serviam, isto é, supriam as necessidades de seu grupo e o assistiam financeiramente no curso de sua missão. Assim, Lucas enumera Maria Madalena como a primeira mulher que acompanhou Jesus em seu caminho. Lucas também afirma que dela saíram sete demônios (Lucas 8,2), dos quais Jesus a libertara. Se refletirmos mais profundamente o contexto, ela se livrou de seu desapego interior, do distanciamento de si mesma; ela saía de si para encontrar sua verdadeira força de amar. Assim Maria Madalena se tornou capaz de amar com base naquilo que se encontrava dentro de si. Ela amava Jesus com sua recém-desperta força de amar. Na segunda vez, no Evangelho de João, encontramos Maria de Mágdala junto com Maria, mãe de Jesus e com outra Maria, dita de Cléofas, aos pés da Cruz (João 19,25). Esse dado foi citado também em Mateus (27,55ss), que mostra como Maria Madalena acompanhou Jesus desde seu caminho da Galileia até a crucificação no Gólgota. Em seguida, em João, nós a encontramos de novo, no túmulo de Cristo, na manhã da ressurreição, aonde ela fora para completar o embalsamamento de Jesus com aromas. Ela descobriu a tumba vazia, como está nos textos dos evangelistas: Mateus (28,1), Marcos (16,1ss) e Lucas (24,1), que mostra sua procura por Cristo crucificado. João descreve Maria Madalena como a primeira mulher que se levantou pela manhã, foi até o túmulo e viu Cristo ressuscitado. E ela se tornou a Apostola Apostolorum (“Apóstola dos Apóstolos”), nas palavras de Santo Agostinho. João escreve uma cena em que Maria se dirige ao túmulo e encontra o Ressuscitado, como uma história do encontro de amor. Com isso, percebermos que Maria Madalena vivencia uma transformação de seu amor em Jesus ressuscitado. E ela é a apóstola de Jesus e líder entre os apóstolos quando da ressurreição de Cristo. Ela é mulher que esteve à frente de seu tempo e a liderança na primeira hora do cristianismo. Por fim, das menções dos quatro evangelistas, conseguimos ver e refletir a busca da proximidade de Maria Madalena com seu Mestre desde a Galileia até a ressurreição. A proximidade que vem de seu interior, que se leva num encontro e quer abrir-se e mostrar seu ser, quem ela é. A proximidade que leva a uma libertação interior de sua dor profunda dos sete demônios. A proximidade que a leva ao encontro com o Cristo ressuscitado e a ser testemunha da ressurreição do Mestre. Assim, Maria Madalena, a santa, celebrada em 22 de julho, apresenta-nos a proximidade de amor com Jesus e nos leva à busca do encontro com Nosso Senhor ressuscitado. E “eu”? Como está minha busca para aproximar-me de Deus em minha vida hoje? Qual atitude de Maria Madalena presente nos Evangelhos preciso levar para minha busca do meu Senhor? Irmã Maria Adelina Naat, SSpSJuniorista na Congregação das Irmãs Missionárias das Servas do Espírito Santo, estudante de Teologia na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
SSpS do Brasil alertam para situação da Amazônia

Com base na Encíclica Laudato si’, publicada pelo Papa Francisco, e no Sínodo da Amazônia, as irmãs missionárias servas do Espírito Santo (SSpS) no Brasil assumiram o compromisso de defender a Casa Comum. Assim, elas denunciam as violações ao meio ambiente e alertam para o caso específico da Floresta Amazônica. No manifesto Todos pela Amazônia, as irmãs alertam que a questão amazônica deve interessar ao mundo inteiro, não apenas às comunidades locais. Para as SSpS, o coração do planeta está ameaçado. “Não importa se você mora longe ou perto da floresta: a vida como é hoje só é possível por causa dela. E a Amazônia precisa de você. É hora de fazer escolhas”. As missionárias justificam que a Amazônia é o coração pulsante do planeta, que regula o sistema climático global e espalha chuva para outras regiões do Brasil, em nuvens que funcionam como veias, bombeando sangue para o restante do corpo. Elas recordam que o bioma tem uma incrível variedade de plantas, animais e é a casa de diversos de povos, entre eles indígenas e populações tradicionais, um legítimo tesouro humano. As comunidades se destacam pelas cores, saberes, cantos e mistérios. “Um lugar regido pela imensidão e força da natureza; um lugar único, diverso e plural.” Ataque à maior floresta tropical o planeta As irmãs servas do Espírito Santo denunciam o plano do governo Jair Bolsonaro de abrir a Amazônia para exploração, entregando o patrimônio ambiental de todos os brasileiros para empresas de mineração, de energia e para o agronegócio. Para elas, é um ataque final à maior floresta tropical do mundo. Só em 2020, a cada minuto, uma área maior do que dois campos de futebol foi desmatada ilegalmente. “Mais de mil árvores derrubadas a cada minuto! Isso mesmo: mil árvores por minuto!”, alertam. Para as missionárias, se a agenda de destruição for em frente, todo o delicado tecido de vida guardada pela floresta pode se desfazer para sempre. “A Amazônia não guarda apenas um tesouro; ela guarda nosso futuro comum. Sem ela, o planeta não é capaz de sustentar a vida”, afirmam. A ameaça, segundo as SSpS, não é apenas à Amazônia e ao povo brasileiro. “Este é um golpe fatal na esperança de um futuro possível para toda a humanidade, uma batalha que não podemos perder.” Assim, elas convocam para uma mobilização mundial em defesa da natureza e dos povos amazônicos. “Para cada voz de brasileiro ou brasileira que se erguer, milhares de outras se somarão até nos transformarmos em uma ampla rede de proteção ao redor da Amazônia e seus povos. Estamos aqui. E somos todos um.”Para incentivar a mobilização, as missionárias prepararam um vídeo. A produção apresenta depoimentos de pessoas que acompanham de perto a vida de um dos biomas mais importantes do mundo. Assista! #TodosPelaAmazônia Veja também Irmãs renovam compromisso de proteger a Casa Comumhttps://blog.ssps.org.br/irmas-renovam-compromisso-de-proteger-a-casa-comum
Espiritualidade do (no) trânsito: por que não?

Em poucas palavras, a base da prática cristã, ouso dizer, é seguir os passos de Jesus, em todos os lugares e situações em que estamos. Assim não nos deveria estranhar dizer de uma espiritualidade do trânsito. No dia 25 de julho, os católicos celebram São Cristóvão, o padroeiro dos motoristas, como é conhecido em nosso País. A Igreja oficial não dá mais tanto destaque a esse santo, mas a coloridíssima fé popular cuida de louvar aquele que “carregou Cristo nos ombros”. O nome Cristóvão vem de Cristóforo (o portador de Cristo), e os cristãos e cristãs batizados precisam ser Cristóforos, Cristóvãos, levando Jesus a todos os destinos e sendo um sinal, um sacramento do Senhor, nas diversas rotas desta vida. Sobretudo no Brasil, o trânsito é um ambiente complicado para condutores, pedestres e autoridades. Não obstante o maior rigor das leis, continuamos sendo um país em cujas ruas e estradas são feridas ou mortas muitas pessoas diariamente. Em milésimos de segundo, podemos passar do céu ao inferno, dependendo de uma série de fatores, inclusive no profundo de nós. Num descuido, podemos ostentar o que temos de pior e mais nebuloso de nosso espírito, mas recordemos: “todos vós sois filhos da luz e filhos do dia. Não somos da noite nem das trevas” (1 Tessalonicenses 5,5). Nessa espiritualidade, tudo deve partir do entendimento de que jamais devemos compreender o tráfego como algo individualista. Pensar comunitariamente é o começo. Mesmo se estamos sozinhos numa via, nossas boas ou más atitudes influenciam a jornada de quem vem depois de nós ou cruza nosso caminho. Um objeto jogado na estrada, por exemplo, por mais “inofensivo” que pareça, pode, em graus diferentes, colocar em risco outras pessoas ou até prejudicar a natureza ao redor. Isso se acentua quando desobedecemos à sinalização, abusamos da velocidade ou, hipnotizados pelo celular, atravessamos distraídos uma rua. O trânsito também é um ambiente propício à prática da misericórdia. O cansaço, a inexperiência, a imprudência, a imperícia ou a negligência de um podem prejudicar o caminho de outros, causar prejuízo ou ferir alguém. Os melhores motoristas e pedestres erram vez ou outra. Aqui recorro ao óbvio: somente Deus é perfeito. Quem nunca aprontou alguma, mesmo que sem querer? É um grande exercício cristão relevar as falhas e, à maneira dos desportistas, procurar seguir o caminho. Sei que não é tão simples, mas quem disse que seguir os passos de Jesus seria fácil? Partilho outras experiências de estrada pelas quais fui agraciado com lições de vida. Ainda sobre o relevar as falhas dos outros, conto o que aprendi de meu pai. Certa vez, fui com ele em viagem de caminhão ao Alto Paranaíba, no Oeste de Minas Gerais. À noite, já voltando para Belo Horizonte, no meio de uma serra, local reconhecidamente perigoso, um carro pequeno veio com os faróis muito altos e, ignorando os avisos, ofuscou minha vista e, pior, a de meu pai. Na carroceria, umas boas toneladas de carga (levávamos outro caminhão). Na imaturidade de minha adolescência, pensei que meu pai jogaria nos olhos do outro condutor todas as luzes do “bruto” (eram muitas). Mas não houve revide à barbeiragem. Eu quis saber o motivo. Meu pai respondeu que seria melhor apenas um dos motoristas estar “cego” no mesmo lugar (repito, perigosíssimo) do que os dois. A possibilidade de tragédia estaria reduzida pela metade. E então, já com a vista recuperada, seguimos em paz o trecho. Um ensinamento a valer para outros desafios da vida. Outra vez foi quando, ao voltarmos de Brasília, sentimos um forte cheiro de diesel. Ao olharmos para o assoalho da cabine, tudo estava encharcado com o combustível. Tivemos de parar imediatamente no meio da estrada, em lugar isolado. Pensei que meu pai, meio “sangue quente”, começaria a esbravejar, mas outra surpresa! Com serenidade enorme, ele desceu do caminhão, tomou logo a providência de sinalizar o caminho, para dar segurança a quem pudesse passar (ninguém veio), e procurou reparar o veículo. Não aguentei e perguntei-lhe a razão de estar tão calmo. E a resposta: se temos fé, compreendemos até os imprevistos; talvez Deus poderia estar nos libertando de algo pior à frente. Mais uma da estrada que serve para a vida! Inicialmente, a Igreja, a grande comunidade dos seguidores de Jesus, era conhecida como “O Caminho”. E o caminho se faz percorrendo-o, já diz o ditado. A estrada tem seus altos e baixos, seguranças e obstáculos. Não podemos é desanimar da jornada ou deixar de socorrer, como o fez Jesus muitas vezes, aqueles que estão caídos às margens. Seguir as veredas do Senhor é compreendê-lo como o “Caminho, a verdade e a vida” (João 14,6a), e como companheiro de viagem, ávido por entrar na pousada de nosso coração e cear conosco (cf. Apocalipse 3,20). Seja como pedestres, seja como condutores, condutoras ou outros responsáveis pelo tráfego, tenhamos em nosso peito que o trânsito é, sim, lugar para a santidade, para nosso testemunho cristão. Oremos com as palavras do Salmo 24(25): “Mostrai-me, ó Senhor, vossos caminhos e fazei-me conhecer a vossa estrada! Vossa verdade me oriente e me conduza, porque sois o Deus de minha salvação”. São Cristóvão, São Rafael e Nossa Senhora da Estrada, abençoai e protegei todos os que são e estão no trânsito. Amém! Dedico estas linhas a meu pai, Luiz Gracildo Rodrigues Marques, que, após cumprir por aqui suas muitas jornadas, agora descansa nas paragens de Nosso Senhor. Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor, editor de textos para as irmãs missionárias servas do Espírito Santo.
16º Domingo do Tempo Comum

“Jesus teve compaixão”Marcos 6,30-34 Até uma leitura superficial do texto de hoje faz saltar aos olhos um tema muito central: o da “compaixão” de Jesus. Os evangelhos todos (especialmente Lucas) enfatizam esse aspecto da pessoa e missão de Jesus. Ele demonstrou a quem o encontrasse a verdadeira natureza de Deus: de ter compaixão por todos os que sofrem. Os versículos de hoje demonstram esse traço de Jesus em seu relacionamento com os discípulos e com as multidões. Com os discípulos, Ele ressalta a necessidade de descanso depois das tarefas apostólicas. Quando voltam empolgados com os resultados da missão, a primeira reação do Mestre é convidá-los para uma retirada, para que possam refazer as forças. Jesus tem critérios que não correspondem ao grande critério da nossa sociedade: o da eficácia. Para Ele, os apóstolos não eram máquinas, mas pessoas humanas que necessitavam de serem tratadas como tal. O trabalho (mesmo o trabalho missionário) não é o absoluto. Jesus reconhece a necessidade de um equilíbrio entre todos os aspectos da vivência humana. Aqui há uma lição para muitos cristãos engajados hoje: embora precisemos nos dedicar ao máximo pelo apostolado, não devemos descuidar de nossas vidas particulares, do cultivo de valores espirituais, da saúde e do relacionamento afetivo com os outros, especialmente no seio da família. Caso contrário, estaremos esgotados em pouco tempo, meras máquinas ou funcionários do sagrado, que não mostram ao mundo o rosto compassivo do Pai. Mais ainda, o texto ressalta a compaixão de Jesus para com o povo sofrido. Era tão procurado pelo povo, rejeitado e desprezado pelos chefes político-religiosos de então que nem tinha tempo para comer. Quando Ele se retirava, o povo ia atrás dele. O que atraía tanta gente? Com certeza, não foi em primeiro lugar a doutrina nem os milagres, mas o fato de irradiar compaixão, de demonstrar concretamente o amor compassivo de Deus. Jesus não teve “pena” do povo, não teve “dó” dos sofridos. Teve “compaixão”. Literalmente, entrava no sofrimento deles e tinha uma empatia pelos sofredores, que se transformava numa solidariedade afetiva e efetiva. Esse traço da personalidade de Jesus desafia as Igrejas e seus ministros hoje, para que não sejam burocratas do sagrado, mas irradiadores da compaixão do Pai. Não é sem motivo que o Papa Francisco nunca se cansa de enfatizar a misericórdia e a compaixão, pois a fidelidade ao Mestre exige isso. Infelizmente, a frieza humana frequentemente marca nossas atitudes, pregações e cuidado pastoral. Em um mundo que exclui, que marginaliza e que só valoriza quem consome e produz, o texto de hoje nos desafia para que nos assemelhemos cada vez mais a Jesus, irradiando compaixão diante das multidões, hoje, como 2 mil anos atrás, semelhantes a “ovelhas sem pastor”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
Parabéns às famílias agricultoras, cultivadoras da terra

Você já pensou o que seria da população urbana se não tivéssemos o trabalho dos agricultores e agricultoras? Você se lembra de agradecer àqueles que cultivam a terra toda vez que come um alimento ou bebe um suco? Pois é, muitas vezes, damos importância aos trabalhos oriundos da tecnologia, mas esquecemos que todos nós dependemos dos lavradores e lavradoras que, com suas famílias, todos os dias, acordam e trabalham com a terra, arando, semeando, colhendo, etc. Trabalhar numa indústria fabricando coisas, numa loja ou mesmo como funcionário em um órgão público não nos faz melhores que quem trabalha no campo. O dia 25 de julho é dedicado aos agricultores e agricultoras familiares, pois merecem ser homenageados nos quatro cantos do planeta Terra. Mas, o que significa ser agricultor? Segundo o dicionário Aurélio, “Aquele que agriculta, lavrador”. E o que é agricultura? Conforme o mesmo autor diz, “Arte de cultivar os campos; cultivo da terra; lavoura; cultura. Conjunto de operações que transformam o solo natural para produção de vegetais úteis ao homem”. O livro de Gênesis (ou Bereshit, na língua hebraica) narra a criação do mundo, quando tudo foi preparado para o homem ter alimento. “Que as águas debaixo do céu se ajuntem num só lugar e apareça o chão seco. E assim foi. Ao chão seco Deus chamou ‘terra’ […] E Deus disse: ‘Que enverdeça a terra de vegetação, ervas que semeiem semente e árvores que deem frutos sobre a terra, frutos que contenham semente por espécies. E assim foi. E a terra fez sair a vegetação, ervas que semeiam semente por espécies, e árvores que dão fruto com a semente por espécies” (Gn 1,9-12). Mas a narrativa apresenta o ser humano tendo de tratar a terra para manter-se, pois, ao conhecer o Jardim do Éden, também conheceu sua capacidade de dominar e reproduzir. Ora, a partir daí, Deus disse: “Você comerá o pão com o suor do seu rosto…” (Gn 3,17-19). Embora parecesse um castigo divino, após o cultivo, as bençãos surgem na colheita dos frutos. E, como gratidão, o ser humano procura ofertar o melhor para o Criador, por meio de doação em um determinado período do ano; antes ofertado como sacrifício, depois passou a ser em forma de festa, como a festa das batatas, da uva, da mandioca, da melancia, do pinhão, entre outras. Embora a terra tenha sido feita para todos, infelizmente, há bastante tempo, ela passou a ser cercada por uns que se achavam donos, provocando, assim, a desigualdade social. A miséria, a disputa e a ganância por explorar território, construir castelos, mansões, indústrias causam violências, assassinatos e muitas injustiças, como ainda hoje vemos ou ouvimos nas reportagens. Muitos líderes que defenderam os pobres sem-terra foram assassinados em nosso Brasil. Podemos citar Pe. Josimo, Pe. Ezequiel, Margarida Alves, Ir. Dorothy, entre outros tantos que deram a vida em prol dos agricultores e agricultoras expulsas de suas terras, por causa de latifundiários ou empresas multinacionais. Atualmente, há alguns projetos na Câmara ou no Senado que ameaçam a vida de muitas famílias agricultoras bem como as comunidades indígenas e quilombolas que também dependem e vivem da natureza. Em nosso país, o campesinato amazônida tem muito a ensinar ao campesinato de influência europeia, contudo ambos os grupos de agricultores do campo, seja na terra ou na várzea, todos buscam respeitar o ritmo da mãe terra que, generosamente, ainda nos oferece o alimento através das mãos cultivadoras. Parabéns a todas as famílias agricultoras! Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP, SBPC e APROFFIB, atualmente, professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, voluntária na Comissão de Prevenção e Combate à Tortura pela ALESC e na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis.
A importância da educação escolar para a sexualidade

Imaginem um grupo de adolescentes no pátio da escola, uns de cabelos coloridos, curtos ou longos, lisos ou encaracolados, tênis com cadarços desamarrados ou não, calças rasgadas porque é estilo! Celulares na mão, trocando ideias, conversando pelos aplicativos e buscando as novidades e postagens dos colegas, ou simplesmente ouvindo suas músicas prediletas. Uma diversidade de cores, sons, pensamentos e particularidades. Jovens que passam por muitos questionamentos, incertezas e indefinições, mas que estão procurando a felicidade, com certeza. Na busca de informações sobre as mudanças físicas, biológicas e psíquicas da puberdade, bem como procurando sua aceitação pelo grupo de amigos. Os mais tímidos evitam perguntas, e os mais despachados conversam sobre assuntos íntimos, e a maioria faz aquela pesquisa em sites às vezes não muito confiáveis. É função da família e da escola assistir esses jovens no percurso para a vida adulta, de forma saudável, com respeito à diversidade, para que eles atuem numa sociedade inclusiva, baseada nos direitos humanos.Vale a pena mencionar a diferença entre educação sexual e educação para a sexualidade. A educação sexual inclui todo o processo informal pelo qual aprendemos sobre a sexualidade ao longo da vida, por meio da família, religião, comunidade, livros ou mídia. Já a educação para a sexualidade é um processo curricular de ensino e aprendizagem sobre os aspectos cognitivos, emocionais, físicos e sociais da sexualidade, contribuindo para a formação de cidadãos e cidadãs, e a garantia de seus direitos. A UNESCO do Brasil sugere que “A educação em sexualidade pode ser entendida como toda e qualquer experiência de socialização vivida pelo indivíduo ao longo de seu ciclo vital, que lhe permita posicionar-se na esfera social da sexualidade. O sistema educacional tem a tarefa de reunir, organizar, sistematizar e ministrar essa dimensão da formação humana”. Cumprir essa importante tarefa é, antes de tudo, buscar a interação família-escola, como mencionado anteriormente, pois as primeiras abordagens sobre o tema ocorrem no âmbito familiar e, nesse sentido, a escola vai ampliar o conhecimento e o acesso a informações qualificadas e cientificamente corretas. Também vai orientar os jovens sobre a transição da infância para a vida adulta e sobre os desafios físicos, sociais e emocionais que enfrentam nesse processo. Sabemos que é na educação que podemos encontrar esse caminho para a formação integral dos jovens, a fim de conduzi-los a uma vida adulta plena, com respeito à diversidade e portadores de atitudes inclusivas. “As manifestações da sexualidade afloram em todas as faixas etárias. Ignorar, ocultar ou reprimir são respostas habituais dadas por profissionais da escola, baseados na ideia de que a sexualidade é assunto para ser lidado apenas pela família. Na prática, toda família realiza a educação sexual de suas crianças e jovens, mesmo aquelas que nunca falam abertamente sobre isso. O comportamento dos pais entre si, na relação com os filhos, no tipo de ‘cuidados’ recomendados, nas expressões, gestos e proibições que estabelecem, são carregados dos valores associados à sexualidade que a criança e o adolescente apreendem.”BRASIL. Ministério da Educação. Parâmetros Curriculares Nacionais: orientação sexual. Brasília: Ministério da Educação, 1997. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/pcn/orientacao.pdf Inara GonçalvesProfessora de Ciências e Biologia no Colégio Sagrado Coração de Jesus, Belo Horizonte-MG. ReferênciasUNESCO BRASIL. Orientações técnicas de educação em sexualidade para o cenário brasileiro: tópicos e objetivos de aprendizagem. Brasília: UNESCO, 2013. Disponível em: http://www.unesco.org/new/fileadmin/MULTIMEDIA/FIELD/Brasilia/pdf/Orientacoes_educacao_sexualidade_Brasil_preliminar_pt_2013.pdf BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: pluralidade cultural e orientação sexual. (v. 8). Brasília: Ministério da Educação, 1997.
15º Domingo do Tempo Comum

“Dava-lhes poder sobre os espíritos maus”Marcos 6,7-13 Esses versículos dão início ao terceiro e último bloco da primeira parte do Evangelho de Marcos (6,6b-8,21) à qual podemos intitular “a cegueira dos discípulos”. É a continuidade dos primeiros dois blocos que tratavam da cegueira das autoridades e dos parentes de Jesus. Nosso texto trata da missão dos discípulos. Vale a pena examinar mais de perto as frases que Marcos usa. O primeiro elemento é que a missão de Jesus, a de construir o Reino de Deus, continua na missão dos discípulos. A base da missão é o compromisso com Jesus e seu projeto. Em nossos termos hoje, cumpre lembrar que a origem da missão está em nosso batismo. Todos somos discípulos-missionários. Se somos clero, religiosos ou leigos, é secundário. A missão comum vem do batismo comum de todos nós. A maneira de vivenciarmos a missão pode ser diferente e variar, mas a missão é fundamentalmente igual. Ele os enviou dois a dois. Uma maneira bonita de mostrar que a missão cristã é comunitária. Não existe um cristianismo individualista. Nossa fé tem consequências profundas comunitárias. Um alerta para que não caiamos na tentação de criarmos uma religião individualista e intimista, tão comum em nosso mundo de competitividade e Pós-Modernidade. Jesus lhes dava poder sobre os espíritos imundos. Claro, aqui se expressa uma realidade importante nos termos da cosmovisão da época. “Espíritos imundos” significam tudo o que pudesse se opor ao Reino. Tudo aquilo cujos valores fossem diferentes do Reino. Infelizmente, ainda hoje, muitos interpretam essas palavras ao pé da letra e criam uma religião que sataniza e demoniza quase tudo, uma religião de exorcismos e diabos (mas sempre no nível intimista e individual). Devemos nos perguntar: quais os espíritos imundos em nós, em nossas comunidades, em nossa sociedade, que precisam ser expulsos? Não é difícil achá-los: tudo o que se opõe à vida, à dignidade humana, à justiça e à solidariedade. Onde se vive o Evangelho, não há lugar para o espírito de individualismo, de competitividade, de exclusão, que é característica de nossa sociedade neoliberal, nossa sociedade de morte. O cristão não pode compactuar com tal sociedade e com suas estruturas. Nossas celebrações não são para nos refugiarmos nelas, mas para nos fortalecermos no esforço da criação de um mundo novo, diferente, pela utopia de Jesus. Por isso, em primeiro lugar, os discípulos tinham de se libertar do espírito de acúmulo: não levar coisas, como sinal da chegada do Reino. Em nosso caso, teríamos de examinar se, mesmo sem notar, não estamos vivendo o espírito de consumismo e materialismo, e acumulação e supérfluo, que marca a ideologia na sociedade hoje. Jesus os adverte que nem todos iriam acolher sua mensagem, pois a mensagem de Jesus necessariamente entra em conflito com o espírito do egoísmo, enraizado na sociedade. Vale para nossos tempos: uma Igreja comprometida com os valores do Evangelho será uma Igreja rejeitada pelos poderes deste mundo. Quando somos bem-aceitos por todos, é porque não questionamos, porque perdemos nossa voz profética. A Igreja verdadeira suscita mártires (literalmente, testemunhas) e não acomodados. Que alegria celebrar a beatificação de Dom Oscar Romero e testemunhar o início dos processos de beatificação de Dom Helder Câmara e Dom Luciano Mendes de Almeida, arautos e testemunhas da vida que Deus almeja! Nosso texto nos convida a um exame de consciência sobre a “missionariedade” de nossa vida. Minha vida, a de minha comunidade se resumem na vivência interna das estruturas da Igreja ou nos levam a ser testemunha no meio da sociedade, profetizando e demonstrando a chegada do Reino, não tanto pelas palavras, mas pelos valores que vivencio? Uma Igreja que não seja missionária (que não significa ser prosélita) é uma Igreja morta. Lembremo-nos de que, pelo batismo, somos todos discípulos-missionários, missionárias, continuadores da missão de Jesus. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
Trabalho voluntário: compromisso com a práxis de Jesus

Jesus Cristo veio ao mundo para anunciar uma boa-nova aos pobres. Ele veio para ensinar as pessoas que a vida somente ganha real sentido quando estamos dispostos a sair de nós mesmos e olhar à nossa volta, de forma a compreender as necessidades de nosso próximo. Nessa perspectiva, viver a espiritualidade do Evangelho exige de nós um triplo exercício: olhar e compreender o que a realidade nos clama. Não nos basta olhar, pois essa ação se torna vã se não vier somada a uma disposição real de nosso coração de compreender o que é preciso ser feito. O terceiro passo é o agir, ou seja, arregaçar nossas mangas e concretizar aquilo que foi visto e compreendido. Inspirados por esse ensinamento de Jesus, podemos vislumbrar caminhos para concretizar nossa espiritualidade, de forma que se torne vida em nosso dia a dia e não apenas uma reflexão bonita, mas sem uma atitude de compromisso. Ao olharmos nossa realidade, encontramos inúmeras facetas que nos instigam a pensar: o que tem acontecido com nossa sociedade? Por que vemos tanto sofrimento? São tantos os problemas sociais e ambientais que é impossível não nos sentirmos incomodados. A não ser que estejamos com nossos olhos fechados e nossos ouvidos tampados… A pandemia do novo coronavírus eclodiu uma realidade que estava latente, mas que já fazia parte de nossa sociedade há tempos: a pobreza, a miséria, o abandono, a falta de oportunidade, e por aí vai. Hoje vemos estampado nos jornais e noticiários o que já há muito tempo existia em nosso País e no mundo: a fome, o descaso do Poder Público, as injustiças sociais. Em meio a tantas situações de tristeza, podemos encontrar exemplos de inúmeras pessoas que, deixando suas próprias preocupações de lado, conseguem encontrar caminhos para ajudar aqueles menos favorecidos. São homens e mulheres que, voluntariamente, partilham de seu tempo e esforços para colaborar na construção de uma sociedade mais justa, igualitária e fraterna, onde haja melhores condições para aqueles que tanto necessitam. O trabalho voluntário ecoa neste contexto como uma luz num túnel cada vez mais escuro e fechado; um túnel marcado pelas desigualdades, mas que, com a ajuda de pessoas de bem, tem se alargado sempre mais. Iluminado pela práxis de Jesus, o trabalho voluntário ganha um sentido mais pleno e profundo: ser a expressão do amor ao próximo, concretizado em ações cotidianas que inspiram e nos fazem acreditar que um mundo novo é possível. Nossa sociedade clama por pessoas que sejam capazes de assumir o compromisso de Jesus: ser anunciadores da Boa-Nova, concretizando, no hoje de nossa existência, o compromisso que assumimos com nosso Deus: o de ser a expressão de seu amor junto aos menos favorecidos. Por esse motivo, em nosso jeito de educar, trazemos para nossas escolas o compromisso de despertar em nossos estudantes o desejo e o compromisso do trabalho voluntário diante de um futuro que pedirá cada vez mais que saiamos de nossas “bolhas”, nosso mundo particular, e vivamos como família humana; afinal, “quem vive para si empobrece seu viver”. Que sejamos capazes de assumir esse compromisso de amor ao próximo, realizando nossas ações voluntárias e inspirando outras pessoas, crianças, jovens e adultos a também eles se comprometerem com essa ação. Somente assim conseguiremos ser anunciadores da Boa-Nova, somente assim concretizaremos o sonho de Deus para nossas vidas. Erica da Silva Carneiro é professora de Ensino Religioso no Colégio Espírito Santo, em São Paulo-S