As missionárias são como as buganvílias do mundo

As buganvílias são flores lindas, delicadas e, apesar de estarem no mundo todo, identificaram-se com a luz latina, o sol e o calor de nossa região. Fazem presença em muitos lares brasileiros, em nosso jardim. E por mais discretas que sejam, não passam despercebidas: são fortes, destemidas e trazem uma potência em cor. A metáfora é perfeita: uma flor missionária, irmãs missionárias. Em 2002, o Santo Padre João Paulo II escreveu às missionárias servas do Espírito Santo por ocasião de seu Capítulo-Geral: “O mundo tem necessidade de testemunhas”. Essa frase sintetiza a necessidade e a importância de que essa obra ganhasse o mundo, tomasse o globo, levando a Palavra de Deus em forma de missão: fortes, destemidas e com uma grande presença. Como as buganvílias, metaforizando a experiência da missão, a experiência marcante entre a discrição e a presença. Presença essa em todo o País, cujo tempo, ao longo dos anos, marcou datas emblemáticas que precisam ser comemoradas como uma graça ao duplo encontro: encontro das missionárias com a própria missão. Esse é o caso de uma das mais importantes obras no Brasil: o Colégio Sagrado Coração de Jesus de Belo Horizonte, Minas Gerais. Um augusto baluarte das terras mineiras, testemunha, como disse o Santo Padre, da história de uma cidade que nasceu planejada, elegeu presidentes e transborda buganvílias durante todo o ano. Dia 8 de dezembro de 2021. Nós, mineiros, belo-horizontinos e missionários, comemoramos juntos os 110 anos deste importante Colégio. Com preparativos que se estenderam durante todo um ano, os festejos desse marco histórico, dessa importante data, mais uma vez, lumiaram, em boas lembranças e afeto, uma manhã de quarta-feira. Banda da Polícia Militar, missa na capela, bênçãos e pedidos fervorosos para mais que o dobro de anos. Ex-alunos, ex-professores, ex-funcionários em congraçamento com o tempo de quem foi e o tempo de quem está. Irmãs de mãos dadas com crianças, cantando a música de Milton Nascimento: “E me fala de coisas bonitas que eu acredito que não deixarão de existir: amizade, palavra, respeito, caráter, bondade, alegria e amor”. Uma manhã especial, uma data especial! Havia, porém, uma sala dentro do colégio. Um lugar chamado, como escrito na plaquinha da porta, “túnel do tempo”. E como um filme, foi possível revisitar as fichas de alunos, as fotos, as agendas, as imagens, as turmas, os professores, as irmãs, os lugares, as salas de aula das décadas de 1950, 1960, 1970, 1980… Um compêndio de histórias de vida que se regulavam em um único local: as escadarias e sala do centenário colégio. Esses registros nos permitiram considerar que a História não tem seu efeito de sentido acerca da memória, ela bate suas estacas na precisão de documentos. O documento inspira, apesar dos seus limites, o fazer historiográfico, contudo, carrega uma pretensão em si, pois a História vai muito além dele. Por perseguir uma universalidade, o documento subjuga a memória. Isso quer dizer que o estatuto próprio da historiografia passa por procedimentos e análises próprias. Posso compreender que, em cada rosto de cada um dos alunos que encerrou este ano letivo de 2021, aqui, conosco, há um reconhecimento de cada um daqueles que por aqui passaram, em um legado subjetivo e grandioso, cujo tempo, documento e história se fizeram presentes e se (re)encontram em sorrisos muito parecidos no túnel do tempo dos 110 anos. Entre esses documentos, há alguns que me chamaram a atenção… Um deles foi um certificado de conclusão ginasial de 1965. Um certificado em que a alegria estampada na foto registra um elemento incomum para retratos 3×4 da época: fotos com sorriso. Isso pode nos dizer muito mais da passagem de Elizabeth pela história do Colégio Sagrado do que o conhecimento que temos hoje da história dessa personagem que aqui representa toda uma geração. Um lugar, um colégio, um tempo em que o sorriso foi capaz de atravessar 56 anos de história e nos atopetar com o êxtase de que a missão, desde então, vem sendo cumprida: significar na vida das pessoas! Cinquenta e seis anos depois, estamos aqui, juntos e comemorando uma passagem de tempo que nos atravessou em orgulho e satisfação por uma conquista verdadeira, um trabalho honesto e um furor pela continuidade. São 110 anos de exemplo e transformação em uma comunidade que não se vê mais sem a presença das irmãs missionárias servas do Espírito Santo, como não se vê mais sem buganvílias no jardim. Tony Charles LabancaProfessor no Colégio Sagrado Coração de Jesus desde 2014.
Doação de sangue: do biológico ao social, um gesto que salva vidas!

Dentro da Série Ciência, você vai conhecer mais sobre o sangue, um tecido precioso de nosso corpo. As alunas Aisha Victoria Silva Pereira e Maria Fernanda Pires Quitério, ambas do Colégio Espírito Santo, de São Paulo-SP, apresentam aspectos técnicos e reforçam a importância da doação, um gesto que pode ser decisivo para salvar vidas. Doação de sangue: do biológico ao social, um gesto que salva vidas! O sangue é um tecido vivo e renovável, composto por glóbulos brancos (leucócitos), glóbulos vermelhos (hemácias), plasma e plaquetas. É a partir da proteção sanguínea que uma vida nasce, pois é o sangue materno em volta do bebê que garante que o feto receba oxigênio, nutrientes e se beneficie das defesas adquiridas pela mãe contra as doenças. Uma pessoa tem, em média, 25 bilhões de glóbulos vermelhos. Num indivíduo saudável, os glóbulos e outras células regeneram-se constantemente. Sangue é um tecido primordial para a existência e manutenção da vida. Neste ensaio biológico e social, será apresentado tecnicamente esse tecido para que os leitores possam conhecer suas peculiaridades biológicas. Em seguida, o ato de doar será desdobrado em sua importância única, a de salvar a vida do próximo. Da célula à gota de sangue O plasma representa os 55% restantes do volume total de sangue. É a parte líquida do sangue, de coloração amarelo-palha, composto de água (90%), proteínas e sais. Os glóbulos vermelhos são responsáveis pelo transporte do oxigênio tanto em sua absorção quanto na expulsão do gás carbônico. Os glóbulos brancos têm a função de defender o corpo contra as doenças. Eles produzem anticorpos e combatem as infecções. As plaquetas ajudam a controlar os sangramentos. O sangue é produzido na medula dos ossos chatos (vértebras, costelas, quadril, crânio e esterno). Nas crianças, o sangue também é produzido nos ossos longos, como o fêmur. Os grupos sanguíneos são o “A”, “B”, “O” e “AB”. No Brasil, existe a predominância do grupo “O” com fator RH positivo (O+) (36% da população), seguido pelo grupo A com fator RH positivo (A+) (34%). Em seguida, aparece o grupo B com RH positivo (B+) (8%) e, por último, o grupo AB com fator RH positivo (AB+) (2,5%). Destaca-se, a seguir, a dinâmica de transfusão e doação de sangue. Fonte: https://www.infoescola.com/sangue/sistema-abo/. Da gota de sangue para o ser humano e humana Ouvimos, em nossa vida inteira, sobre a importância de ajudar em causas sociais, atitudes relacionadas com a solidariedade e empatia, mas nós realmente praticamos ações em prol dessas questões? Se você refletiu sobre essa pergunta e agora procura participar efetivamente em causas sociais, por que não doar sangue? A doação de sangue é um ato de solidariedade, e esse gesto voluntário pode salvar muitas vidas. Cada doação feita pode salvar a vida de quatro pessoas, e vale ressaltar que, quando se doa sangue, seu próprio organismo repõe a quantidade doada. São empregados procedimentos seguros e higiênicos para nunca arriscar a vida do doador. Assim, não há mais desculpas para não doar sangue. Ao doarmos sangue, fornecemos um produto essencial para a sobrevivência de um indivíduo. Em algumas situações médicas, a transfusão de sangue é inevitável, sendo de extrema necessidade que haja sangue em estoque, o qual é conseguido exclusivamente por doação. As histórias relacionadas aos doadores e aos recebedores do sangue são certamente emocionantes. Esse foi o caso do senhor Adalto Carvalho, que deu ao Ministério da Saúde seu depoimento como doador. Ele relatou que pôde presenciar a gratidão de uma família após ele ajudar a salvar a vida de uma criança. “Estava trabalhando e me ligaram, pedindo que eu doasse, pois tinha uma criança que necessitava. Estava completando três meses e dois dias que eu tinha doado pela última vez. A família me agradeceu muito. Queriam até me pagar, mas a doação é um ato voluntário, e eu tenho muito orgulho em fazer isso”, disse. Maria Fernanda Pires QuitérioEstudante do 9º ano, Colégio Espírito Santo, São Paulo-SP. Aisha Victoria Silva PereiraEstudante do 3º ano do ensino médio, Colégio Espírito Santo, São Paulo-SP.
3º Domingo do Advento

“Ele é quem batizará vocês com o Espírito Santo e com fogo”Lucas 3,10-18 A passagem trata da pregação de João Batista, que “Percorria toda a região do rio Jordão, pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados” (vers. 3). O início do texto (vers. 10 a 14, que constam somente em Lucas) mostra bem sua teologia e contexto: não são os líderes religiosos que estão prontos para arrepender-se, mas o povo comum e até pessoas que estão à margem da sociedade, como cobradores de impostos e soldados. Mais adiante, no Evangelho, são essas as pessoas que responderão positivamente diante da pregação do próprio Jesus. Escrevendo para as comunidades pelos anos 80 a 85 d.C., Lucas quer lembrar aos cristãos que eles também devem estar abertos para achar sinceridade e bondade fora das vias “aceitáveis”, como o fizeram João e Jesus. A frase lapidar do trecho é a pergunta que os diversos grupos formulam a João: “O que devemos fazer?”. Essa interrogação aparece mais vezes no Terceiro Evangelho, em Lucas 10,25 (na boca de um doutor da Lei) e 18,18 (uma pessoa importante); e também nos Atos dos Apóstolos 2,37 (os judeus, depois da pregação do Pedro), 16,30 (o carcereiro gentio de Filipos), 22,10 (Saulo, o perseguidor). Usando esse artifício, Lucas quer salientar que é uma pergunta que constantemente tem de ser feita durante nossa caminhada. Não há cristão que possa se dispensar de fazê-la sempre, por achar que já sabe a resposta. É interessante que João, embora uma pessoa de cunho fortemente ascético, não exige sacrifícios ou práticas religiosas, como jejum e abstinência. Ele enfatiza uma exigência muito mais radical, que atinge o cerne de nosso ser: uma preocupação com os mais pobres, manifestada na busca de justiça e solidariedade. As Campanhas da Fraternidade seguem essa linha de João, pois, muitas vezes, é mais fácil abster-se de uma carne ou uma bebida do que engajar-se na luta por um mundo melhor. Esse trecho traz à tona, mais uma vez, um dos temas principais do Evangelho de Lucas: o uso correto dos bens materiais. No fundo, João aqui prega antecipadamente o que, mais tarde, Jesus vai ensinar: a partilha dos bens com as pessoas que sofrem necessidades, a justiça nos relacionamentos econômicos e políticos, a conversão que se manifesta numa mudança radical da vida. A segunda parte da passagem insiste que João é inferior a Jesus. João batiza com água como agente de purificação, mas Jesus usará a força purificadora maior do Espírito Santo e do fogo. Lucas vai mostrar em Atos dos Apóstolos, capítulo 2 (na história de Pentecostes), como o fogo do Espírito Santo cumpre sua missão nas pessoas. O texto termina com a declaração de que “João anunciava, de muitos outros modos, a Boa Notícia ao povo” (vers. 18). O que João prega é tão semelhante ao que Jesus pregará e que também merece ser tachado de “Boa Notícia”. A boa notícia da chegada da misericórdia e da salvação de Deus, de uma forma gratuita, mas que exige resposta decidida de cada pessoa. É a crise existencial do mundo todo: aceitar ou rejeitar a salvação oferecida gratuitamente em Jesus. Para Lucas, essa decisão tem de ser renovada sempre, por meio da pergunta “O que devemos fazer?”, enquanto continuamos andando “pelo caminho”. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
Direitos humanos e fraternidade universal

Mais um ano de comemoração pelo aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos. São 73 anos de avanços em garantir o direito à vida dos indivíduos pelo mundo. Desde 10 de dezembro de 1948 que a luta pela dignidade humana passou a ser um desafio universal. Fazer cumprir os 30 artigos estabelecidos pelos representantes de vários países nem sempre tem sido consenso pelos governos. Infelizmente, ainda ocorrem violações dos direitos humanos, o que inclui desrespeito aos direitos civis, sociais e políticos. A violência tem aumentado muito, gerada pelo preconceito, como no caso do racismo ou de fanatismo, causando terrorismo, que ainda existe em várias nações. Com a pandemia, a violação em relação ao acesso à vacina contra a covid-19 e suas variantes nos países mais pobres tem demonstrado o tamanho da desigualdade entre os países. Nossa humanidade anda ameaçada pelo egoísmo, pela discriminação, pela ganância, injustiças. Conforme a Carta Apostólica Fratelli tutti, escrita pelo Papa Francisco, “Muitas vezes, constata-se que, de fato, os direitos humanos não são iguais para todos. O respeito a esses direitos ‘é condição preliminar para o próprio progresso econômico e social de um país’”. A criatividade para que haja igualdade é necessária para que o bem comum possa se torna uma realidade, como afirmou o Pontífice para um grupo de diplomatas, na Albânia, em 2014. Como comemorar o 73º ano da Declaração Universal dos Direitos Humanos se há tantos excluídos (refugiados, famílias inteiras passando fome, homofobia, intolerância religiosa, tortura, desemprego…) no mundo? É necessário preservar o direito dos povos, de suas culturas, independentemente de cor, raça, sexo, religião, nacionalidade, conforme proclama o artigo 2º do mesmo documento. Ser cidadão do mundo, antes, exigia apenas um passaporte. Agora, com a pandemia, o passaporte sanitário também passou a ser exigido. O ir e vir não é mais permitido como antes. Se todos não se conscientizarem da importância da vacinação, a contaminação continuará a ir além fronteiras. Todos devemos entender que somos da mesma espécie, portanto, deveríamos conviver como uma família universal. Em família, uns colaboram com os outros, uns cuidam dos outros. A natureza cuida de todos, concedendo-nos água, ar, terra, fogo para que os alimentos necessários sejam produzidos e sustentem a todos. Assim, o direito natural à vida, à liberdade e à segurança, que foi defendido por John Locke, tornou-se direito positivo. No entanto, nem todos têm acesso ainda a esses direitos, constrangendo até mesmo quem os defende. A igualdade deve ser garantida por meio da lei. Façamos aos outros o que gostaríamos que nos fizessem. A empatia, a solidariedade, a justiça social devem contribuir para que todos cuidem uns dos outros. Que a partilha justa dos bens, a reforma agrária sobre que tanto se falou possam vir a acontecer. A paz é fruto da justiça. Infelizmente, grupos interesseiros têm dominado o que é público, usurpando da coletividade direitos que, além de humanos, são universais, permanentes e insubstituíveis. Leia os trinta artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e reflita como divulgar e fazer cumprir suas cláusulas, a fim de que todos sejam respeitados em suas vidas. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP e SBPC, atualmente é professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC, membro da Comissão de Prevenção e Combate à Tortura pela ALESC, voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis.
“Escritores sem fronteiras”: alunos da Rede de Educação SSpS lançam e-book

Muitos foram os frutos colhidos na realização da 3ª edição da Semana sem Fronteiras, promovida pelas escolas da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo (SSpS), entre os dias 25 e 29 de outubro. O tema foi “Viver a diversidade e construir o respeito no mundo”. Com essa motivação, alunos do ensino médio elaboraram o e-book “Escritores sem fronteiras”, apresentando suas inspirações, aspirações e preocupações. Agostinho Travençolo Junior, idealizador do projeto, explica que os jovens ficaram livres para escolherem o tipo de texto. “Foi possível perceber a diversidade e a criatividade como essência da proposta refletida nas criações”, disse. A obra traz textos em prosa e poesia, compostos por alunos dos colégios Imaculado Coração de Maria (Rio de Janeiro-RJ), Stella Matutina (Juiz de Fora-MG), Espírito Santo (Canoas-RS), Sagrado Coração de Jesus (Belo Horizonte-MG) e Espírito Santo (São Paulo-SP). O trabalho foi acompanhado pelos professores da área de Linguagens. Veja, a seguir, a obra.
2º Domingo do Advento

“Esta é a voz de quem grita no deserto: preparem o caminho do Senhor”Lucas 3,1-6 Atrás das informações históricas deste texto, referentes às autoridades seculares e religiosas que teriam influência nos primórdios do cristianismo, jaz a realidade trágica da resposta negativa deles à Palavra de Deus e a seus mensageiros: João, o Batista, e Jesus, o Cristo. Na pessoa de Pôncio Pilatos, a autoridade romana vai agir na decisão de assassinar o Messias; entre os governantes da Palestina, Herodes Antipas aparece diversas vezes no Evangelho, sempre com juízo negativo, e será o responsável pela morte de João, além de estar presente no sofrimento de Jesus na Semana Santa; Anás (sumo sacerdote de 6 a 15 d.C.) e seu genro Caifás (sumo sacerdote de 18 a 37 d.C.) só funcionam porque os romanos permitem e realmente são a estes que servem. Os sumos sacerdotes sempre serão hostis a Jesus e à sua pregação e, no fundo, são eles os responsáveis por sua morte. No meio desse elenco de poderosos corruptos e perseguidores, Deus manda João Batista como arauto do novo tempo de graça e salvação. Deus não permite que a perversidade e a maldade tenham a palavra final na história da humanidade. Esta será, mais tarde, a mensagem básica do Apocalipse: o mal já é um derrotado e, embora possa parecer diferente, é Deus e não a maldade que controla a caminhada da história. Mensagem de conforto às comunidades sofridas do fim do primeiro século. Mas essa vitória não se concretiza sem que haja luta, sacrifício, e cruz! Lucas põe na boca de João um trecho de Isaías (40,3-5): Esta é a voz daquele que grita no deserto: preparem o caminho do Senhor, endireitem as suas estradas. Todo vale será aterrado, toda montanha e colina serão aplainadas, as estradas curvas ficarão retas, e os caminhos esburacados serão nivelados. E todo homem verá a salvação de Deus (Lucas 3,4-6). Sem dúvida, podemos entender esse trecho com sentido metafórico, como descrição de uma mudança radical no estilo de vida de quem quer aceitar o convite à penitência e ao arrependimento. Os vales a serem aterrados, as montanhas e colinas a serem aplainadas, os caminhos esburacados a serem nivelados simbolizam os empecilhos em nossas vidas a um seguimento mais radical e coerente de Jesus. Quem aceita sua mensagem terá de mudar radicalmente (isto é, na raiz) sua vida. O Advento, embora não seja tempo de penitência no sentido que a Quaresma o é, torna-se tempo oportuno para uma revisão de vida, para descobrir quais são as curvas, as montanhas e as pedras que teremos de tirar para que o Senhor realmente possa habitar em nossos corações. O Papa Francisco indica um elemento a ser vivido mais profundamente na vida individual de todo cristão e na comunidade da Igreja: a misericórdia, tema tão caro ao autor do Terceiro Evangelho, e algo que, muitas vezes, falta em nossas relações, em todos os níveis. O último versículo, “E todo homem verá a salvação de Deus” (vers. 6), faz eco ao tema lucano da universalidade da salvação, usando essa frase que não se encontra no texto paralelo de Marcos (1,3). Ninguém é excluído da mensagem e da oferta da salvação. Mas a resposta depende de cada um de nós! Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
Encontro de lideranças da Rede de Educação SSpS destaca o olhar para o futuro

Entre os dias 18 e 20 de novembro, foi realizado o encontro de lideranças juntamente com o corpo gestor da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo (SSpS). A reunião foi no Convento Santíssima Trindade, em São Paulo-SP. O momento foi de formação pessoal para agregar e ampliar o conhecimento e o autoconhecimento da equipe. Nós nos conectamos através do olhar para o futuro, do cuidado com o outro, do cuidado com a gente e da relação com o mundo. Cada participante partilhou as vivências de seu ambiente escolar. Envolvidos nessa perspectiva, destacamos nossas escolas como espaços de missão na Educação. De forma positiva e ricamente partilhada, outros temas de muita relevância foram discutidos, como liderança, o olhar de cuidado, olhar da imparcialidade, olhar que motiva, olhar que valoriza e reflexões sobre as ferramentas de gestão. O encontro também contou com a presença virtual da irmã Maria Theresia Hornermann, Coordenadora-Geral da Congregação. De modo forte e motivador, ela reforçou a importância da presença missionária na educação como um lugar de cultura e evangelização, agregando ainda mais o olhar para o futuro, que hoje nos inspira. Momentos únicos, vivos, de aprendizado e novas conquistas que “falam com sabedoria e ensinam com amor”, tema transversal que iluminará a Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo em 2022, pulsam na gente. Raquel FiuzaGestora administrativa do Colégio Stella Matutina, em Juiz de Fora-MG.
Coração-manjedoura: alegria e esperança

Tempo, tempo, tempo, tempo… O tempo humano, chronos, é entendido como finito, destrutivo… Nós, cristãos, vemos o tempo como kairós, o tempo de Deus, como tempo de salvação, favorável à graça de Deus, especialmente em dezembro. Tempo de olhar para trás e agradecer a Deus por mais um ano combatendo o bom combate e guardando a fé (cf. 2Tm 4,7) diante de uma pandemia que parou o mundo. Como diz a música:¹ “Te agradeço por tudo que tens feito,Por tudo que vais fazer,Por tuas promessas e tudo que és.Eu quero te agradecer com todo meu ser.” É tempo de olhar para frente, Tempo do Advento, tempo de piedosa e alegre expectativa pelo nascimento de Jesus, o Salvador. E para esse tempo de kairós ser bem vivido, com abertura à graça de Deus, precisa de preparação para esperar Jesus que veio, vem e virá. No Tempo do Advento, começamos a trilhar o caminho de um novo ano litúrgico na vida da Igreja, caminho espiritual para viver e celebrar o mistério da esperança, vigilância e preparação dos corações. Mas essa espera não é passiva, estática, inerte. É uma espera ativa, de conversão, reflexão e preparação do coração para receber o Menino Jesus que deve nascer e habitar em nós. Quando Jesus nasce e faz morada em nosso coração-manjedoura, Ele cuida, faz novas todas as coisas, cura, dá novo sentido… Como está nosso coração? Talvez não esteja preparado, talvez esteja confuso, ansioso, adoecido… Não importa como está o coração. Permita que Cristo nasça e faça morada, liberte, restaure… Aproveite bem este tempo de espera ativa até o Natal, procure preparar-se por meio do sacramento da reconciliação, mudança de vida, perdão, caridade, oração… Quem reza é sempre conduzido pelo céu e para o céu. Nossa Senhora, Mãe do Menino Deus, nos dá um conselho constante em Medjugorje: “Queridos filhos, rezem, rezem e rezem”. O Catecismo da Igreja Católica (cân. 524) nos diz que, “Ao celebrar em cada ano a liturgia do Advento, a Igreja atualiza esta espera do Messias: comungando com a longa preparação da primeira vinda do Salvador, os fiéis renovam o ardente desejo de sua Segunda Vinda. Pela celebração da natividade e do martírio do Precursor, a Igreja se une a seu desejo: ‘É preciso que ele cresça e que eu diminua’ (Jo 3,30)”. Como a diz a música:² “Ouço uma voz vindo da montanha,Ouço cada dia melhor.Ouço uma voz vindo da montanha,E eis uma voz a clamar.Preparai o caminho.Preparai o caminho do senhor.” De acordo com as Normas Universais do Ano Litúrgico e Calendário Romano Geral, “O Tempo do Advento possui dupla característica: sendo um tempo de preparação para as solenidades do Natal, em que se comemora a primeira vinda do Filho de Deus entre os homens, é também um tempo em que, por meio desta lembrança, voltam-se os corações para a expectativa da segunda vinda do Cristo no fim dos tempos. Por este duplo motivo, o Tempo do Advento se apresenta como um tempo de piedosa e alegre expectativa” (cân. 39). Que todos encontrem o Menino Deus em nosso coração-manjedoura, que possamos irradiar sua luz com pensamentos, palavras e ações: “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue nunca andará em trevas, mas terá a luz da vida” (Jo 8,12). Nesse caminho de esperança e vida nova, com a Mãe Santíssima, possamos juntos cantar:³ “Cristãos, vinde todos com alegres cantos.Oh! Vinde. Oh! Vinde até Belém.Vede, nascido, vosso rei eternoOh! Vinde, adoremos!Oh! Vinde, adoremos!Oh! Vinde, adoremos o salvador!” Maria Cristina MaiaMissionária leiga de Deus Uno e Trino, membro da Equipe de Espiritualidade SSpS BRN e da Equipe Nacional de Espiritualidade SSpS e SVD. Referências¹ Música “Te agradeço”. Autora Ana Paula Valadão. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=oX21nw-Vv6M. Acesso em: 4 nov. 2021. ² Música “Preparai o caminho”. Autor Monsenhor Jonas Abib. Disponível em: https://www.letras.mus.br/padre-jonas/291066/. Acesso em: 4 nov. 2021. ³ “Cristãos, vinde todos” (Adeste fideles). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=jc4_w2yIUqc. Acesso em: 4 nov. 2021.
Esconder-se de Deus

O Salmo 139 reflete as tentativas do salmista de esconder-se de Deus. A cada refúgio em que se metia, era encontrado! Se descia ao sheol, lá Deus o achava, se subia às nuvens, lá Deus o esperava. Quando parava para pensar, Deus se antecipava e conhecia seus pensamentos. Por todas as veredas em que procurava se esconder, essas eram conhecidas por Deus. Tentava se revestir de asas e fugir para o mar, mas também não adiantava, lá também Deus o via. Todas as suas tentativas foram em vão. Parecia brincadeira de “pega-pega”, tentando escapar, mas sem êxito. Por fim, deu-se conta de que até seus ossos, quando estavam sendo formados em segredo, eram apenas um esboço, os olhos de Deus já os tinham visto. Somente lhe restou render-se perante a presença onisciente e onipresente. Boquiaberto diante de tais mistérios, restava silenciar-se! Mergulhado em sua confusão, reconheceu sua pequenez: “Ó Deus, como são difíceis para mim os teus projetos, como é grande a soma deles. Gostaria de contá-los, mas são mais numerosos que os grãos de areia!”. Rendido diante de tão grande mistério, pediu que Deus o prescrutasse e conhecesse seu coração. “Prova-me e conheça meus pensamentos.” Eis aí uma história de relação com Deus de um fiel que põe Deus à prova, embora, de antemão, intui qual será o desfecho. O Salmo acaba sendo uma parábola. Por um lado, a percepção que nada escapa do “controle” de Deus e, diante disso, não há saída senão reconhecer sua onipresença; por outro, as tentativas de esconder-se, de ignorá-lo acabam sempre em fracasso. No Salmo, nenhuma vez Deus amedronta ou ameaça o salmista, apenas se deixa perceber em todas as situações. É uma presença que abre cada vez mais horizontes, mostra sua grandeza escondida na imensidão do universo, mas também nas coisas menores, como grão de areia. Há um espaço sem medidas, infinito, onde sua grandeza se manifesta. Diante disso, o salmista apenas pode silenciar-se. Hoje os astrônomos, cada vez mais, descobrem a infinitude do Universo. A cada nova galáxia captada pelos telescópios, mais mistérios se apresentam. Busca-se uma explicação para o Universo, mas nenhuma é conclusiva. Quando se aproxima de uma, outras mil se apresentam sem solução, e os mistérios se multiplicam. Daí é de se admirar que muita gente se declare ateia ou agnóstica. Conformando-se que tudo acaba com a morte. Para isso se contente com a possibilidade de, um dia, a ciência dar explicação para tudo o que existe. Enquanto esta não chega, basta viver como se Deus não existisse ou “escondido”, conformando-se com um sentido para a vida num horizonte pequeno, que cabe em seus raciocínios e explicações. Diga-se de passagem, não convencem o próprio coração que, ansioso, espera por algo mais. Uma ilusão enganosa para quem tenta esconder-se de Deus, não o reconhecendo nas pequenas e grandes coisas. A experiência do salmista, pressionado por tribulações, meditando, percebe que Deus o conhece melhor do que a si próprio, não adianta esconder-se. Pois a tudo Deus conhece! Nada lhe pode escapar. Compenetrado diante de tal mistério, volta-se para dentro de si mesmo e se interroga: o que é o ser humano diante de Deus? Conclui: Ele se mostra presente desde o início de sua vida, ainda em sua formação óssea. Aceita, então, que é aquilo que é, e nada mais. Não há como esconder-se de Deus! Como o salmista, somos convidados a meditar sobre nossa vida, nossas tribulações e na experiência de sua busca. Percebê-lo como participante de nossa história desde seu início, em cada momento já vivido. Constatar sua presença que nos acompanha desde nossas origens. Onde quer que estejamos, sua presença já se antecipou e nos conhece mesmo nos malabarismos que inventamos para nos esconder dele. Mais sábio parece ser, render-se, como o salmista, e dizer “Sonda-me, ó Deus, e conhece meu coração! Prova-me e conhece minhas preocupações. Vê se ando por um caminho de desgraça, e guia-me pelo caminho eterno” (leia e medite o Salmo 139). Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.S
1º Domingo do Advento

“A libertação de vocês está próxima”Lucas 21,25-28.34-36 Neste primeiro domingo do ano litúrgico, Lucas nos mergulha em um dos discursos escatológicos de seu Evangelho. Assim, usa imagens e símbolos que não são de nossa cultura e época, e por isso nem sempre são fáceis de serem compreendidos pelos ouvintes de hoje. Porém, na literatura apocalíptica, não é necessário interpretar cada imagem detalhadamente. O mais importante não é cada pedra do mosaico, mas o padrão inteiro, não cada imagem e símbolo, mas sua mensagem de conjunto. O texto nos apresenta a figura do “Filho do Homem”, o título que os Evangelhos mais usam para Jesus e que nós pouco usamos. Esse título vem de um trecho do livro apocalíptico de Daniel: “Em imagens noturnas, tive esta visão: entre as nuvens do céu, vinha alguém como um filho de homem… Foi-lhe dado poder, glória e reino, e todos os povos, nações e línguas o serviram. O seu poder é um poder eterno, que nunca lhe será tirado. E o seu reino é tal que jamais será destruído” (Daniel 7,13s). Jesus recorda a seus discípulos a mensagem de ânimo que trazia o Livro de Daniel aos perseguidos do tempo dos Macabeus, pelo ano 175 a.C., que, embora possa parecer que os poderes deste mundo, os impérios opressores, sejam mais fortes do que o poder de Deus, isso não passa de uma ilusão. Pois, na plenitude dos tempos, Deus, por meio de seu Ungido (o Filho do Homem), revelará seu poder e estabelecerá um Reino que jamais será destruído. Isso acontece agora, em Jesus! Qualquer interpretação de um texto apocalíptico que bota medo nos ouvintes que sofrem as consequências do reino opressor de qualquer época é necessariamente errada, pois a função da literatura apocalíptica é animar e dar coragem aos oprimidos e sofredores. Por isso, o ponto central de nosso texto de hoje é uma mensagem de ânimo, coragem e fé: “Quando essas coisas começarem a acontecer, levantem-se e erguem a cabeça, porque a libertação de vocês está próxima” (vers. 28). Esse trecho tem uma dimensão fortemente cristológica. Ele nos afirma que Jesus, o Filho do Homem vitorioso, tem em seu controle todas as forças, sejam elas de guerra (vers. 9) ou do mar, símbolo de forças indomináveis na literatura judaica da época (vers. 25). O versículo acima citado traz uma mensagem cheia de confiança: em contraste com a atitude de covardia dos malvados (vers. 26), os discípulos ficarão com a cabeça erguida, para acolher o juiz justo, o Filho do Homem. Mesmo assim, os eleitos devem ficar atentos para não caírem. Devem cuidar muito para que “Os corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida” (vers. 34). Pois é fácil assumir as atitudes do mundo sem que notemos, a não ser que sejamos vigilantes. Por isso, o texto de hoje termina com um conselho válido também para os discípulos dos tempos modernos: “Fiquem atentos e rezem todo o tempo, a fim de terem força” (vers. 36). O Advento é tempo oportuno para que examinemos nossa vida para descobrir se realmente estamos atentos, o tempo todo, para não perdermos as manifestações da presença de Jesus no meio de nós. É tempo de nos dedicarmos mais à oração, para renovarmos nossas forças, para não cairmos na armadilha da “inatenção” no meio das preocupações e barulhos do mundo moderno, para que nossos corações continuem “sensíveis” aos apelos do Senhor, por meio dos irmãos e irmãs, em nosso dia a dia. O ano litúrgico que se inicia neste domingo usa, nos domingos comuns, o Evangelho de Lucas, o Evangelho da Misericórdia por excelência. Sejamos vigilantes para que a misericórdia seja característica de nossas relações e para que não caiamos nas ciladas de atitudes de violência, vingança e dureza de coração, típicas de nossa sociedade e tão propagadas pela mídia hoje. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.