CF 2023: aprendizados práticos sobre o aproveitamento dos alimentos

A Campanha da Fraternidade de 2023 leva para a sala de aula diferentes possibilidades de abordagem do tema “Fraternidade e Fome”. No Colégio Espírito Santo (CES), de Canoas-RS, por exemplo, as professoras do 4º ano do ensino fundamental aproveitaram para relacionar a temática da campanha ao conteúdo trabalhado neste primeiro trimestre, além de sensibilizar os estudantes para a doação de alimentos para famílias e comunidades em vulnerabilidade social, por meio dos projetos desenvolvidos pela escola. Com o livro didático, os alunos aprenderam sobre os nutrientes dos alimentos e a importância do consumo dos diferentes grupos alimentares para o desenvolvimento saudável. “Depois realizamos conversas sobre o reaproveitamento dos alimentos, a fome no Brasil e no mundo, além de situações em que as pessoas não têm como comprar o que comer”, conta a professora Marcia Cardoso dos Santos. Uma estimativa global, elaborada pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), em 2011, apontou que cerca 30% dos alimentos produzidos do mundo são perdidos ou desperdiçados a cada ano, desde o cultivo até a comercialização. “No Brasil, toneladas de alimentos, que poderiam ser aproveitados por famílias carentes, são jogadas fora todos os dias”, cita a professora Roberta Estivanin Ferreira. Em casa, o desperdício de alimentos ocorre quando se preparam refeições que não são totalmente consumidas e quando se esquecem alimentos guardados na geladeira e no armário até que estraguem ou que o prazo de validade expire. Além de falar a respeito, os alunos participaram de uma atividade prática com a nutricionista do CES, Vânia Pagliarini Alves. Ela ensinou o preparo de suco com a casca do abacaxi e de batatas assadas com casca, salientando a importância de aproveitar bem os nutrientes. “A cozinha é um lugar de muita criatividade”, afirma. Para o melhor aproveitamento dos alimentos, Vânia salienta que é importante observar as sazonalidades. “Alimentos da estação têm maior disponibilidade de nutrientes e são mais saborosos. Frutas e tubérculos que podem ser consumidas com casca também são uma boa medida, como a maçã e a batata. No caso do abacaxi, laranja, bergamota (tangerina ou mexerica), podemos fazer chá ou suco com a casca”, exemplifica. As sobras de legumes de uma refeição podem ser reaproveitadas como parte de sopas ou de tortas salgadas. “Todo o alimento que não for consumido na primeira preparação e que tiver controle de temperatura e de exposição poderá agregar sabor e valor nutricional em outras preparações, como suflês, tortas, sopas e purês”, diz a nutricionista. As turmas também colaboraram com donativos para o projeto Páscoa Solidária, que entregará cestas básicas para as famílias de pessoas com deficiência atendidas pela Acadef, no bairro Nossa Senhora das Graças, em Canoas. Outras doações também serão distribuídas pelo projeto CES Mãos em Ação em comunidades carentes e pessoas em situação de rua. Conheça, no vídeo a seguir, mais detalhes da atividade. Marcos Vinícius MerkerJornalista no Colégio Espírito Santo de Canoas-RS, membro da Equipe de Comunicação das SSpS Brasil.

Missionárias servas do Espírito Santo falam sobre os dez anos do pontificado do Papa Francisco

“Conduzido pelo Espírito Santo, Papa Francisco é um profeta, capaz de chorar por seu povo e também de falar com firmeza quando necessário. Sua coragem e sua autenticidade são virtudes que os cristãos e o mundo apreciam”, afirma a irmã Adriana da Silva, SSpS. Por ocasião dos dez anos do pontificado do Papa Francisco, celebrados em 13 de março de 2023, as irmãs missionárias servas do Espírito Santo (SSpS) manifestaram suas impressões sobre a missão de Francisco como líder da Igreja Católica. “Desde que assumiu seu pontificado, embora num contexto desafiador, mostrou ao mundo a importância da solidariedade, da esperança e do amor, por meio de documentos, cartas, discursos, catequeses e homilias”, acrescenta Ir. Adriana. De acordo com a conselheira-geral, a indiana Ir. Tressa Sebastian Nayathuda, Francisco tem marcado seu pontificado pelas virtudes da humildade, da simplicidade e da abertura. “Esses valores se tornaram visíveis quando lavou e beijou os pés de 12 pessoas, tanto mulheres como homens, na prisão, pouco depois da sua eleição como Papa”, afirmou. Irmã Hermelinda Ruschel ressalta, ainda, a grande capacidade de Francisco de se comover com o sofrimento humano causado pela guerra, pela pobreza. Ela também destaca a preocupação dele com o cuidado da natureza e enfatiza seu esforço em favorecer que as mulheres ocupem seu espaço na Igreja. “Aprecio muito a sua iniciativa de fazer ouvir a voz das mulheres na Igreja e seus esforços para realçar as contribuições delas”, declara. Para a irmã Maria Inês Aragão, o caminho da sinodalidade proposto pelo Papa Francisco é um convite a responder, de forma mais adequada, aos desafios de uma época turbulenta e conflitiva: “Como bom pastor, orienta-nos dia a dia, com lucidez”. Nascida na Indonésia, missionária no Brasil há mais de dez anos, a Ir. Theodora Illi sublinha: “Desde o início de seu pontificado, o Papa Francisco tem se mostrado sempre ao lado dos pobres e marginalizados, cheio de ternura para com os que sofrem”. Acrescenta que “embora respeite os dogmas e as doutrinas, é pela vivência do amor que ele tem chegado ao coração do povo”. “O Francisco da misericórdia e da compaixão, acolhedor e atento aos sofrimentos da pessoa. Como pastor zeloso, ensina e orienta o povo de Deus de como vier a sua fé, no concreto da vida”, diz a Ir. Hermelinda Ruschel, de Ponta Grossa-PR. Papa Francisco carrega, em seu nome, o amor pelos pobres e pela criação de Deus, segundo Ir. Juliana de Andrade. “Apesar de estar longe fisicamente, ele se faz tão próximo de nós e nos convida a sermos Igreja em saída que toca o seu povo com misericórdia.” Assista, a seguir, ao depoimento de Ir. Juliana. Dez anos de pontificado Em 2023, a Igreja Católica celebra os dez anos do pontificado do Papa Francisco, o 266º Sumo Pontífice da maior instituição de caridade do mundo, somando 1,2 bilhão de fiéis. Natural de Buenos Aires (Argentina) e eleito Papa em 13 de março de 2013, Jorge Mario Bergoglio é o primeiro Papa não europeu em mais de 1.200 anos. O Papa, ao recordar sua eleição, sempre fala, com reconhecimento e admiração, sobre o amigo brasileiro, Dom Cláudio Hummes, OFM como a inspiração primeira para o nome Francisco. “Na eleição, eu tinha ao meu lado o arcebispo emérito de São Paulo, um grande amigo. Quando a coisa começou a ficar um pouco perigosa, ele começou a me tranquilizar. E, quando os votos chegaram a dois terços, aconteceu o aplauso esperado, pois, afinal, havia sido eleito o Papa. Ele me abraçou, me beijou e disse: ‘Não se esqueça dos pobres’. Aquilo entrou na minha cabeça. Imediatamente lembrei-me de São Francisco de Assis.” É o primeiro Papa que ousa tomar para si o nome de Francisco de Assis. Assumindo sua identidade espiritual, eclesial, teológica e pastoral, torna-se reconhecido por suas encíclicas que convocam o mundo à fraternidade universal e ao cuidado da Casa Comum, e por desafiar a Igreja à saída de si para uma evangelização ampla, fundada na simplicidade, na pobreza na misericórdia. Rosa M. MartinsMestra em Jornalismo, Imagem e Entretenimento pela Fundação Cásper Líbero, licenciada em Filosofia pela Universidade Salesiana de Lorena (Unisal), bacharela em Teologia pela Pontifícia Universidade São Boaventura de Roma. É missionária scalabriniana e vive em Santo André-SP. Indicada ao Prêmio Tarso Genro de Jornalismo em 2020, foi vencedora do Prêmio Papa Francisco, categoria mestrado, do Prêmio CNBB de Comunicação com a dissertação “Menores estrangeiros não acompanhados: uma análise da representação no fotojornalismo italiano”, em 2021.

Os sinais de Páscoa no horizonte da vida

“Eu Sou a Ressurreição e a Vida” (Jo 11,25) O tempo quaresmal caminha para o ponto culminante: a vivência do Mistério Pascal, a celebração da Vida plena, sem as amarras e os condicionamentos que travam o fluir de nossa vida. Tal como um sentinela, situado numa posição estratégica, já estamos vislumbrando no horizonte os sinais da Páscoa. Por isso, a liturgia deste domingo nos traz um relato inspirador, onde Jesus se revela como a Porta da Vida. Cruzar essa porta é apelo Seu, mas é decisão nossa empurrá-la suavemente para dentro e avançar em direção à vida que, a partir do mais íntimo, deseja ser despertada e vivenciada em plenitude. No contexto anterior à ressurreição de Lázaro, aparece de novo o tema das obras, desta vez em relação com o verbo crer: “Se não faço as obras do meu Pai, não acrediteis em mim. Mas, se eu as faço, mesmo que não queirais crer em mim, crede nas minhas obras, para que saibais e reconheceis que o Pai está em mim e eu no Pai” (Jo 10,37-38). Na cena deste domingo, Jesus vai realizar a obra por excelência do Pai que é comunicar Vida, destravando-a das faixas e tirando-a do túmulo da morte. A beleza e a sabedoria do relato deste 5º Domingo da Quaresma consistem em integrar, na pessoa mesma de Jesus, uma dupla afirmação: “Jesus chorou” e “Eu sou a ressurreição e a vida”. Essa é, justamente, nossa condição humana: somos seres frágeis, sensíveis, a quem nos afeta o que acontece e, ao mesmo tempo, somos Vida que se encontra sempre a salvo. Nós nos percebemos como pura necessidade e carência – portanto, vulneráveis -, mas, ao mesmo tempo, somos plenitude à qual nada lhe falta. Como Jesus, somos, ao mesmo tempo, sensibilidade – por isso choramos -, e somos Vida. E isto é o que na tradição cristã se expressou com o termo “ressurreição”. Assim fez Jesus em Betânia: mostrou sua vulnerabilidade humana frente o amigo “que dorme”. A morte será sempre uma história de dor e lágrimas. Quem não experimentou dor diante do sofrimento e morte de um ser querido? Quem não se sentiu, como Marta e Maria, em muitos momentos? Também Ele sente os golpes da vida, sente a dor de quem perde um irmão e se faz solidário. O sofrimento pode nos despertar para a dimensão de profundidade da realidade e de nós mesmos. Mas necessitamos passar por um processo de transformação para que o sofrimento e a dor nos abram ao Mistério e não nos afundem no desespero. Jesus vai ajudar Marta e Maria a passar por este processo. Voltar à casa de seus amigos, num momento em que eles estão tão feridos, supõe também a Jesus deixar-se ferir. Algo terá Ele que perder para dar-lhe ao amigo. A amizade nos faz vulneráveis: “Mestre, ainda há pouco, os judeus queriam apedrejar-te, e agora vais outra vez para lá?”. Jesus vai abraçar a perda de seu amigo até o fundo; e quando a dor e a perda se abraçam, deixam de ser nossos inimigos. “Ficou interiormente comovido e se aproximou do túmulo”, que um dia acolherá também seu corpo. Percorreu assim o caminho que depois percorreriam as mulheres depois de sua morte. As perdas, a dor, a morte, aproximam uns dos outros. Marta e Maria já não estão numa relação de competição nem de rivalidade, e enviam, juntas, uma mensagem a Jesus. Mensagem que revela uma confiança profunda nas possibilidades do amor: “Senhor, aquele que amas está doente”. Não lhe dizem “nosso irmão”, porque querem vinculá-lo a Jesus. A amizade leva-as a crer nas possibilidades latentes no amigo, em seu potencial ilimitado, em sua capacidade de amar e ser amado, em toda a novidade que quer irromper nele. E é nesta situação de vulnerabilidade onde Marta se deixa ordenar e faz sua aprendizagem de verdadeira discípula. Que foi aprendendo Marta desde aquela vez que pedia ajuda à sua irmã? Agora é uma mulher que cresceu e que se atreve a expressar uma petição maior, não mais para si mesma, mas para seu irmão, e diz a Jesus: “Senhor, se estivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido… Mesmo assim, eu sei que tudo o que se pede a Deus, Ele te concederá”. Este contato com seu amigo Jesus, num momento em que ambos compartilham a dor pela perda da pessoa querida, vai fazer Marta amadurecer. Daí em diante será uma mulher desperta, capaz de despertar a outros, e por isso pode dizer à sua irmã: “O Mestre está aí e te chama”. Jesus foi “traído” pelo seu afeto. Aquele que é o Senhor da Vida, o vencedor da morte, tem um coração que ama como o coração do irmão mais fiel, do pai mais sensível… Jesus é atingido pela dor, é agitado por uma perturbação que brota de dentro dele mesmo e que não consegue controlar; a causa da sua emoção é a presença trágica da morte nos que o rodeiam, mas também com a sua morte iminente, que será devastadora. Diante da morte, todos sentimos nossa impotência. Queremos que o enfermo fique curado e viva. A ciência médica hoje pode ampliar alguns anos de nossa vida, mas, no final, a morte termina vencendo o enfermo. No texto evangélico deste domingo, Jesus, na força do Espírito, comanda a ação: pede às pessoas que afastem a pedra e que soltem as amarras de Lázaro, para que ele possa andar. A ação de Jesus é expansiva, pois mobiliza as pessoas para que, por meio de sua cooperação, a vida seja destravada. A vida com as amarras da fome, da exclusão, da violência… não pode ser chamada de vida. Diante de uma sociedade que se especializa em impor pesadas pedras e faixas imobilizadoras, defender a vida é caminhar na contramão de tudo que nos diminui como seres humanos. Há ainda aqueles que vivem a resignação do “quarto dia”,o dia da morte da esperança (para o judeu, o 4º dia representava o começo da decomposição do corpo).

Irmã Roselene Ventura terá experiência missionária nas Filipinas

Alunos e professores do 4º ano do ensino fundamental à 3ª série do ensino médio do Colégio Espírito Santo, em Canoas-RS, lotaram a Paróquia Nossa Senhora das Graças, na manhã de 23 de março, para participar da missa de envio da irmã Roselene Ventura. Em abril, ela parte para uma experiência missionária de seis anos nas Filipinas. A celebração também promoveu o 3º Ano Vocacional do Brasil, convidando os estudantes a conhecerem mais sobre as quatro vocações: vida religiosa consagrada, ministério ordenado, matrimônio/família e laical. Natural de Rondônia, Ir. Roselene sentiu seu chamado vocacional quando ela tinha por volta de 18 anos. A preparação para ingressar na Congregação das Irmãs Missionárias Servas do Espírito Santo iniciou-se em 2008. Em 2020, ela fez a sua consagração definitiva, com os votos perpétuos. “A experiência missionária ocorreria logo após os meus votos perpétuos, porém, em função da pandemia, acabou sendo adiada”, conta. No Colégio Espírito Santo desde 2021, Ir. Roselene atuou como professora de Ensino Religioso, no programa Escola da Inteligência, na Pastoral Escolar e em outras frentes de trabalho, como o grupo CES Mãos em Ação. “A missa de envio foi um momento emocionante e surpreendente. Tudo o que fiz na escola foi com amor, carinho e dedicação. O afeto tão puro e verdadeiro das crianças e dos jovens são um ânimo a mais para a missão”, afirma a religiosa. O embarque para as Filipinas está previsto para o dia 11 de abril. “Ficarei em Cebu. Os primeiros meses são para aperfeiçoamento dos idiomas inglês e cebuano, que é a língua local”, diz a irmã. Depois disso, ela será enviada para as frentes de missão nas áreas da educação e pastorais. “Será uma oportunidade de aprender com a experiência de lá e de conhecer outras frentes de missão antes de retornar para a Província Brasil”, comenta. Veja o vídeo da missa de envio e assista também ao vídeo com depoimentos das irmãs missionárias servas do Espírito Santo sobre a vocação à vida religiosa. 3º Ano Vocacional O 3º Ano Vocacional se iniciou no dia 20 de novembro de 2022 e terá conclusão em 26 de novembro próximo. Neste período, diferentes iniciativas buscam promover a cultura vocacional nas comunidades, nas famílias e na sociedade, a fim de despertar todas as vocações, como graça e missão, a serviço do Reino de Deus. Com base no tema “Vocação: graça e missão” e no lema “Corações ardentes, pés a caminho”, toda a comunidade escolar do Colégio Espírito Santo é chamada a estar com Jesus e a assumir a missão recebida dele. Edições anteriores O primeiro Ano Vocacional foi realizado em 1983 e mobilizou todo o povo de Deus na reflexão vocacional, aprofundando o tema “Vem e segue-me”, recordando que o chamado de Jesus é personalizado, e a resposta é pessoal. Em 2003, um novo Ano Vocacional foi celebrado. O tema “Batismo, fonte de todas as vocações” desejou avançar na reflexão vocacional na Igreja, compreendida com uma assembleia de vocacionados e vocacionadas. O sonho foi de uma Igreja com fisionomia vocacional, em que todos foram e são convocados pela Trindade ao serviço em favor da vida e da humanidade, e, assim, consciente do chamado à missão, pudessem agir com ânimo e coragem em sua ação evangelizadora. Marcos Vinícius MerkerJornalista no Colégio Espírito Santo de Canoas-RS, membro da Equipe de Comunicação das SSpS Brasil.

Narcisismo em tempo de Quaresma

Refletindo sobre a proposta da Igreja Católica para a Quaresma, a de viver um tempo de sobriedade por meio da oração, do silêncio e da abstinência, e olhando a dificuldade das cidades, inclusive onde moro (que tem 14 mil habitantes somente), indiferente diante desta proposta; olhando perplexo (sempre) aos apelos da mídia em tempo de carnaval, pré-carnaval e pós-carnaval, achei oportuno refletir sobre este tema da Psicologia: o narcisismo. Esse conceito foi mencionado por Freud em 1910. A Psicologia define o narcisismo quanto às duas fases: conforme o desenvolvimento saudável e o patológico. O desenvolvimento saudável é descrito como narcisismo primário. Este é identificado nos primeiros meses do desenvolvimento do bebê, no relacionamento com os pais, especialmente com a mãe. É elemento constitutivo do amor-próprio e da autoestima; portanto, destinado à autopreservação do sujeito e formação dos laços sociais. Já o narcisismo patológico, é encontrado no estudo das neuroses, perversão e psicose (Araújo, 2010). Assim, o que vemos na mídia, nos tempos atuais, é a manifestação de um narcisismo patológico, marcado pela necessidade de ser visto, notado e curtido. Nas redes sociais, cresce o número de digital influencers, cujo pesadelo é a possibilidade de perder seguidores ou serem cancelados. No carnaval, há uma neurose em relação ao corpo que vai ser exibido nas ruas, praças, avenidas e programas de tevê, tanto em pequenas cidades como em metrópoles. Gastam-se uma fortuna para realizar cirurgias plásticas, para mudar o formato do corpo. Absurdamente, faz-se harmonização facial em adolescentes de 15 anos, que ainda nem têm o corpo definido pela natureza. Num certo programa de tevê, um jovem brasileiro, que naturalmente corresponde ao padrão de beleza europeu, gastou mais de 100 mil reais para ficar parecido com um boneco chamado Ken. Outra “celebridade” aplicou substâncias gelatinosas nos glúteos para ficar famosa por ter os maiores glúteos do mundo. Outras não aguentam mais o peso dos seios aumentados, têm dores de coluna. Todos estão cientes do risco de morte que correm, mas, mesmo assim, atribuem a Deus a proteção que esperam. Nem percebem que estão brincando de serem Deus, assim como a Eva e o Adão da Bíblia. Os narcisistas patológicos estão entre nós. Eles estão na sociedade, na política, na religião, na vida consagrada, na vida sacerdotal, no trabalho e dentro de casa, na família. Uma ou outra destas características podem servir para identificá-los: insegurança, sentimento de superioridade, falta de empatia, necessidade constante de admiração e atenção, sensação de ser o centro de tudo e de todos, notável superficialidade, manipulação, grandiosidade, papel de vítima, agressividade, etc. O período da Quaresma é um tempo que inevitavelmente nos faz refletir sobre esse conceito. Para os cristãos católicos, este é um momento de nos converter, nos fortalecer espiritualmente contra essa patologia que chamamos de uma das tentações de Jesus no deserto: a tentação do ser. Para os nãos católicos ou não cristãos, este momento pode ser chamado de vacina contra esse mal, ou mesmo como antídoto. O fato é que a pedagogia que a Igreja usa, celebrar este tempo litúrgico logo após o carnaval, ajuda-nos a refletir sobre o sentido de nossa vida aqui neste mundo. Para se fortalecer contra a tentação que, na Bíblia, venceu o primeiro homem e a primeira mulher, a tentação de dispensar Deus, sendo igual a ele ou pondo-o a serviço da humanidade, Jesus se fortalece pelo esvaziamento, pela oração e pela penitência. É oportuno destacar também o fato de a tentação ter se manifestado justamente no momento em que Jesus sentia fome. Podemos associar esse momento, hoje em dia, ao vazio existencial, à fome de ser amado, de encontrar sentido na vida, que leva muitas pessoas a tentar preenchê-lo com o exibicionismo ou egocentrismo, com elementos externos e até mesmo pondo Deus a seu serviço. Isso nos leva a outro conceito filosófico, o hedonismo, que merece um artigo à parte. Como lidar com um narcisista neurótico? A primeira sugestão é convencê-lo a procurar ajuda terapêutica para ser diagnosticado quanto ao grau de seu narcisismo. Embora se acredite não haver cura para essa patologia, ela pode ser amenizada, buscando-se o autocontrole das ações para evitar danos a terceiros. Quando se trata de amigos, namorados ou namoradas, colegas de trabalho ou de estudo, o afastamento pode ser uma maneira de se autopreservar e preservar de danos à sua autoestima. No entanto, quando se trata de parentes, como pai, mãe, filhos ou irmãos, é preciso buscar até mesmo a ajuda terapêutica para se conscientizar de que o problema não está com você, como o próprio narcisista sugerirá quando confrontado. Para os religiosos, busque na espiritualidade, especialmente no estilo de vida de Jesus Cristo, o “antídoto” para esse mal, essa tentação. ReferênciaAraújo, M. G. (2010). Considerações sobre o narcisismo. Estudos Psicanalíticos, 34, 79-82. Pe. Aparecido Luiz de Souza, SVDPsicólogo.

Olhares sobre a floresta

Ao buscar bem-estar e conexão com o natural e o sagrado, estar em meio à floresta sempre me vem à mente. As suas trilhas, a temperatura, o jogo de luz e sombra, a sinfonia de vento e pássaros criam uma experiência estética indescritível. Não deixa de ser um templo, e há inclusive quem defenda que a arquitetura das catedrais góticas é inspirada na sensação de êxtase e enlevo produzida pela combinação da verticalidade dos troncos, da luminosidade filtrada por abóbadas formadas de copas. A floresta é muito mais que misteriosa, essencial e concreta; sua existência não pode ser reduzida à produção de encantamentos. Em uma visão sistêmica de mundo, uma árvore não é compreendida apenas pela subdivisão de suas partes em raiz, caule, folha, flor, fruto e semente. Sua importância está na relação que a fotossíntese estabelece entre a água do solo e a umidade do ar, na vida que habita sua sombra, na copa que abriga outros seres, na alimentação concedida a outras criaturas e nas conexões com a floresta; também está na serrapilheira, habitat de micro-organismos e fundamental para adubação do solo. Já em uma perspectiva mais econômica, que situa o capital e a lógica do lucro como justificativa para quase tudo que orienta nossas ações, as partes das árvores, assim como as propriedades medicinais, muitas vezes, são reduzidos a commodities. A mesma razão se aplica à vida e à riqueza que se esconde na floresta e em seus rios, em suas entranhas e no solo cuja extorsão fundamenta contínuas violações, algumas que se tornam notícia e outras que avançam oculta(da)s, sem que lhes seja dada importância. Construímos um reino para nossa sobrevivência em um recorte feito no mundo natural. Nós nos apartamos da floresta, embora os tentáculos desse reino já não respeitam seus limites e, com o poder de nossa ação sobre a terra ampliado pelo braço tecnológico, nós a usurpamos em escala industrial e nos tornamos risco à sua saúde. A cobiça estimulada pela publicidade, estratégias de comunicação e de design (aqui considerado em sua dimensão estética), ao mesmo tempo em que estimula tal processo, abstrai-nos do que realmente é valioso e imprescindível em nossas vidas: ar puro, água limpa, alimentos não processados e vida comunitária. Os povos da floresta, que vivem uma relação de sensibilidade mais aguda com o meio, parecem ter uma percepção mais clara e mais concreta de sua dependência em relação a ela e da importância do cuidado para preservação de suas condições de vida. Muito temos a aprender com eles; inclusive a considerar que a importância das florestas não pode ser reduzida à celebração de um dia no calendário de datas comemorativas, mas que a mudança deve iniciar-se em nós, com a construção de outra mentalidade que situe a preservação de condições de vida na terra acima da satisfação de necessidades artificiais e de nossa vaidade. Referências BRUM, Eliane. Banzeiro Òkòtó: uma viagem à Amazônia centro do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2021. CAPRA, Bernt Amadeus. O ponto de mutação. Filme produzido pela Atlas Company e Mindwalk Production. 110 min. 1991. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=iUkSmjXfEO8 CAPRA, Fritjof. O ponto de mutação. São Paulo: Cultrix, 1986. JONAS, Hans. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Rio de Janeiro: Contraponto; Editora PUC-Rio, 2006. VIVAT INTERNATIONAL. Disponível em https://www.vivatinternational.org/. Marli Teresinha EverlingProfessora nos cursos de Graduação e Pós-graduação em Design da Universidade da Região de Joinville (Univille), coordenadora do Projeto Ethos – Design e relações de uso em contexto de crise ecológica, colaboradora do Instituto Caranguejo de Educação Ambiental.

Cego de nascença: “passagem” da margem à iluminação

“Enquanto estou no mundo, Sou a Luz do mundo” (Jo 9,5) A cura do cego de nascença (Jo 9) revela-se como uma instigante narrativa que requer ser lida em seu contexto imediatamente anterior; ali encontramos uma discussão de Jesus com os judeus e que começa com esta afirmação: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 8,12). Frente à cegueira cultural-religiosa, Jesus se mostra como Luz na vida. O relato deste domingo nos põe em contato com Jesus que traz Luz-Vida. Ele não só se revela como Luz, mas, através de seu “toque”, ativa a luz presente naquele que não podia ver a luz do dia. Como no caso da samaritana, é Jesus quem toma a iniciativa, mas o interessado deve responder pessoalmente. Todo o relato é simbólico; as alusões ao batismo são constantes. A Igreja primitiva chamava o batismo “photismós”, que significa “iluminação”. Trata-se de indicar aos catecúmenos o caminho que precisam percorrer antes do batismo. Este cego de nascença representa toda a humanidade, porque, em certo sentido, todos somos cegos enquanto não acolhamos Aquele que é Luz. Esta cegueira é a que impede ver a verdade que nos fará livres. Somos cegos quando nos fechamos em nossa mentalidade, critérios, ideologias… Somos cegos quando nos petrificamos no fanatismo, na intolerância e na resistência em perceber a luz que habita naquele que pensa e sente de maneira diferente. “Jesus ia passando, quando viu um cego de nascença.” O “passar” é uma evocação do caminho do Êxodo, caminho de liberdade. No deserto, Deus é o “clarão” que orienta e move o povo de Israel a fazer a travessia da terra da escuridão para a terra da liberdade. Jesus é Luz que “passa” em meio ao mundo da marginalidade e da exclusão, reacendendo a luz da esperança e da vida em cada pessoa. Jesus é a “Luz que toca”;aqui aparece, com muita força, o símbolo do contato físico.O contato nos faz despertar. Existe a idade da palavra, a do ouvido, a do olhar…, mas neste momento Jesus se detém na idade do contato; é a idade da comunhão, a idade da ternura materna. O caminho do tato é o da mais profunda comunhão. Jesus tocava pessoas feridas, quebradas… e sua gestualidade prolongava o sexto dia da Criação. Sabemos pouco da riqueza de nosso contato. O contato nos cura. É um caminho de comunicação maravilhoso. Na enfermidade, muitas pessoas não buscam mais que o contato. Um verdadeiro contato nos envia sempre para dentro. Não é o contato da pele, mas o que nos põe em marcha para nosso interior. Existem forças reconstrutoras presentes em todos nós. Através de suas palavras e do seu toque, o Mestre da Galileia restabelece o contato do cego com a fonte, com os seus recursos interiores. Esses recursos existem em cada pessoa, e cada um pode aproveitá-los. Através do encontro com Jesus e do seu toque, as pessoas descobrem os recursos interiores que devem ser mobilizados. Ele confia nas forças de autocura do ser humano; não precisa fazer tudo sozinho. No encontro com Jesus, o doente entra em contato consigo mesmo, com as fontes interiores que o Pai lhe deu: estas são as fontes das forças de autocura, de dons e habilidades, de força e de esperança. Jesus não explica, não faz uma teoria sobre a origem da cegueira (quem pecou?). Realiza algo muito maior: ajuda o cego, afasta-o da cidade alta (dominada por sacerdotes e escribas) e o convida a descer à fonte da vida, abaixo, no manancial de Siloé, que é sinal profético de abundância e de iluminação futura. Este cego é o homem que não consegue ver desde o nascimento; não se trata de pecado, mas da própria situação vital, da cegueira humana que se expressa, de um modo claro, neste ser humano. Há muitos que o querem ensinar a ver (os mestres da lei), mas o deixam na cegueira. É uma cegueira que começa sendo externa (não ver as coisas, não compreender o sentido da vida) e que termina sendo interior (não saber quem é, em quem pode confiar, viver sendo manipulado por outros). Podemos, então, afirmar que o relato de João é um “texto de rebelião”, um texto que denuncia toda religião que aprisiona as pessoas nas trevas do sentimento de culpa, de medo e de impotência. É o testemunho de Jesus que se rebela contra aqueles que querem manter as pessoas cegas, travando a verdadeira identidade delas que se revela como participação na luz divina, presente no interior de cada uma. Contra tal situação Jesus diz ao cego de Siloé que se rebele, que não permaneça cego à beira do caminho, que veja por si mesmo, que decida, que confesse sua nova liberdade mesmo que isto lhe custe a rejeição das autoridades religiosas, inclusive de seus próprios familiares. Junto ao cego de nascença se faz visível o pecado de todas as pessoas que não o ajudam, que não querem entendê-lo, que o submetem às suas leis e conveniências. Pois bem, Jesus não consola o cego (em sentido superficial), mas lhe diz para ser ele mesmo, que assuma sua própria vida, que desça à água, que se purifique… Jesus mesmo põe barro nos olhos do cego (terra com saliva, alento vital) e lhe diz que vá, que veja, que não tenha medo, que assuma seu destino… Jesus não cria dependência; ativa no cego sua autonomia para que ele seja autor de sua própria vida, inclusive correndo riscos de ser rejeitado. No fundo, Jesus pede ao cego que se rebele contra uma lei de cegueira, que o obriga a mendigar, sob a “caridade” dos mestres cegos que vivem à custa da cegueira dos outros. Pede-lhe que se rebele, que deixe seu lugar de mendigo, que saia da margem e que recupere sua verdadeira identidade. Trata-se de uma rebelião para a liberdade, para a vida. É uma rebelião que conduz ao encontro com Jesus que é simplesmente “filho do homem”, o homem em plenitude. O cego passa a crer em Jesus como “filho do homem”,

Ter compaixão

Ter compaixão é um indicativo para quem tem o desejo de sintonizar-se com outro. A compaixão abre as portas para uma saída em direção ao coração de quem sofre e precisa de solidariedade. A palavra traduz, mais ou menos, o significado de pôr-se na pele do outro e sentir o que sua vida pede quando está em sofrimento. Para tanto, é necessário treinar-se na sensibilidade para perceber o que se passa na vida do outro. Em nós, existem duas tendências: uma de ficar encarcerado em si, pensando apenas nas próprias necessidades, indiferentes ao sofrimento alheio; e a outra tendência que se abre para o convívio solidário com o outro. Jesus viveu a compaixão ao extremo. Ele treinou seus discípulos, muitas vezes, para serem compassivos. Por exemplo, quando eles queriam que Jesus dispersasse a multidão que foi até ele em busca de saúde e alívio dos sofrimentos. Jesus teve compaixão da multidão e disse aos discípulos: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Como? Só tinham cinco pães e dois peixes! Era tudo o que tinham de provisão para si próprios. Jesus lhes disse que colocassem à disposição aquela pequena reserva. Multiplicados os pães e os peixes, saciada a multidão e com sobras de sete cestos, a compaixão de Jesus se tornou gesto educativo. Os discípulos estavam no aprendizado de como serem compassivos. A compaixão está associada à misericórdia; ambas se tornam um sinônimo de soerguimento do outro que está fragilizado. A compaixão aproxima, e a misericórdia compreende e salva. É uma fórmula concreta do amor ativo em ação. É uma linguagem compreensível para todos, porque visa, em primeiro lugar, a salvar a vida e a reconhece como dom acima de qualquer outro. Ter compaixão é ser humano, lá onde a dor desumana está presente, debilitando as forças e ameaçando as resistências da sobrevivência. No fundo, todos, em algum momento da vida, precisam da compaixão de alguém. Ninguém se basta a si mesmo. Por isso a compaixão é tão natural que devia estar presente nas ações humanas, sempre! Contudo a experiência nos diz que não é assim. Como explicar que possa haver tanta gente, por exemplo, morrendo de fome? Cadê a compaixão? Se estivesse ativa, isso não aconteceria. Ela deve estar adormecida ou inebriada por outras coisas, deu lugar à indiferença e à insensibilidade, e assim essa força tão humana se torna tão desumana que não vê o outro necessitado, que fica ignorado em sua fome. Todos aprovamos gestos compassivos porque eles mexem com a sensibilidade e nos aproximam uns dos outros, e resgatam em nós o desejo de fraternidade impresso em nossa alma. Nascemos para isso, pena que, frequentemente, adormecemos em relação a ela e ficamos absortos, olhando para o próprio umbigo, desviando o olhar dos que gritam por compaixão. Ter compaixão, eis um exercício altruísta para o Tempo da Quaresma e um treino para sermos mais humanos e solidários. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

A samaritana: de que temos sede?

“E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna” (Jo 4,14) Nestes próximos três domingos da Quaresma, a liturgia nos apresenta três grandes relatos do evangelho de João: a samaritana, o cego de nascimento e a revivificação de Lázaro. A expressão “Eu sou”, característico do quarto evangelho, se encontra nestas três cenas: “eu sou a Água viva”, “eu sou a Luz”, “eu sou a Vida”. São imagens-símbolo que desvelam e nos ajudam a compreender a verdadeira identidade de Jesus; ao mesmo tempo, são imagens que também revelam nossa identidade. É no encontro destas duas identidades que se fundamenta o sentido profundo do seguimento de Jesus. A Quaresma se apresenta como momento oportuno para enraizar nossa vida n’Aquele que “morreu de tanto viver”; afinal, somos seguidores de uma Pessoa e não de uma religião, de uma doutrina… Seguir Jesus implica tornar visível em nossa vida o modo de ser e viver d’Aquele que foi o “biófilo”: amigo da vida. O relato deste domingo – encontro de Jesus com a samaritana – é uma verdadeira catequese, que nos convida ao seguimento d’Aquele que é a Fonte da Vida. Nem no templo, nem em Jerusalém, nem em nenhum outro lugar se pode viver o verdadeiro culto, que se revela como encontro e identificação com Jesus. Muitas vezes, o que entendemos por prestar culto é apenas idolatria: a tentativa de domesticar e manipular Deus segundo os nossos interesses. Uma mulher da Samaria chega a um poço para tirar água, alheia a tudo o que ali a espera e distraída na trivialidade de sua vida cotidiana que não se abre ao imprevisível: vai só buscar água com o cântaro vazio para retornar à sua casa com ele cheio. Não há mais expectativas, nem mais planos, nem mais desejos. Mas o imprevisível está lhe esperando na pessoa daquele galileu sentado na beira do poço e que inicia uma conversação com ela sobre coisas banais, talvez para não a assustar: falam de água e de sede, de poços e de velhas rixas entre os povos vizinhos, coisas de todos os dias. Repentinamente, irrompe a linguagem “das coisas do alto”, o dom, uma água que se converte em manancial vivo, a promessa de uma sede pacificada para sempre, um Deus em busca do ser humano, fora dos espaços estreitos de templos e santuários. E, no final da cena, o cântaro que era símbolo da pequena capacidade que está disposta a oferecer, fica esquecido junto ao poço, agora já inútil, pois não pode conter uma água viva. A sede da samaritana – e a de Jesus – é a mesma sede de todo ser humano: é insatisfação radical que não pode ser saciada por nada humano. A sede representa as necessidades e aspirações fundamentais do ser humano: sede de sentido e de plenitude, sede de comunhão e de encontro, sede de vida… Somos pessoas-sede! A sede é uma água que nos habita e nos dá vida. A sede é fundamental, essencial. O nosso coração é um “interminável reservatório de sede. Sede de amor. Sede de verdade. Sede de reconhecimento. Sede de razões de viver. Sede de um refúgio. Sede de novas palavras e de novas formas. Sede de justiça. Sede de humanidade autêntica. Sede de infinito” (José Tolentino Mendonça, Elogio da Sede). Como um bom pedagogo, Jesus acompanha a samaritana a descobrir o desejo de água fresca, a saudade humana de amor e felicidade. Em termos orantes, o ser humano, todos nós, temos “sede do Deus vivo” (Sl 42,3), que brota de nossa terra ressequida, rachada, sem água: suspiramos como a corça suspira pelas torrentes de água, por Deus. Só o Senhor nos conduz para as fontes tranquilas (Sl 22). Neste precioso e profundo relato do evangelho de João são tantos os temas que o autor vai alinhavando, a partir de diferentes níveis (histórico, simbólico, espiritual), que se torna impossível aprofundá-los em um breve comentário. A imagem da sede remete à nossa aspiração profunda, incapaz de ser saciada por nenhum objeto. A imagem da água, por sua vez, nos remete à nossa identidade original, que está brotando constantemente em nosso interior. Jesus aparece como o mestre que nos liberta de enganos e de falsas identificações, para que possamos entrar em contato com a “água viva” que Ele mesmo já saboreia, a única que torna possível “nunca mais ter sede”. Essa água não é “algo” – algum objeto que possa nos preencher – nem se encontra longe de nós. Constitui nosso núcleo mais profundo. O que normalmente acontece é que – como a samaritana – estamos longe dela. Ao viver “fora” de nós, desconectados da fonte, nos acontece aquilo que S. Agostinho lamentava: “Tarde te amei, beleza sempre antiga e sempre nova, tarde te amei! No entanto, Tu estavas dentro de mim e era eu quem estava fora”. O importante é saber que a “beleza sempre antiga e sempre nova” não é “algo” (ou “alguém”) separado de nós, embora possamos nos dirigir a ela em chave relacional, nomeando-a como um “Tu”. É outro nome da “água” de que falava Jesus, e constitui nossa identidade última, aquela na qual nos reconhecemos quando nossa mente se silencia; aquela que saboreamos quando, simplesmente, nos deixamos ser; aquela que está sempre a salvo e que, para além das aparências mentais, partilhamos com todos os seres. O encontro com Jesus move a samaritana, e nos convida também, a descobrir o manancial de água viva que flui em nossas entranhas em lugar de continuar sendo buscadores de “poços no deserto”. Jesus espera a samaritana, como espera cada um de nós, ali onde está a trama de nossa vida. Ele inicia sempre o encontro pedindo-nos daquilo que já recebemos, do que já temos… Junto a Sicar ou ao lado de nossos próprios poços… Não é preciso percorrer um caminho diferente, não pede a ela, nem a nós, ir a nenhum templo, nem lugar sagrado; nossa própria vida, com as circunstâncias nas quais vivemos, é o

Grupo MLDUT de Cascavel-PR apoia núcleo de apoio a ostomizados

As missionárias leigas do Deus Uno e Trino (MLDUT) de Cascavel-PR, Andreia, Irene, Loiva e Maria Tereza, visitaram o Renascer – Núcleo dos Ostomizados, localizado no Município. O centro é referência para as pessoas ostomizadas de 24 Municípios paranaenses, mas recebe também pacientes de outras regiões do Estado e do Brasil. A ação foi realizada no dia 1º de fevereiro. Segundo informações do Ministério da Saúde, a pessoa ostomizada é aquela que precisou passar por uma intervenção cirúrgica para fazer no corpo (geralmente na região abdominal) uma abertura ou caminho alternativo de comunicação com o meio exterior, para a saída de fezes ou urina, assim como auxiliar na respiração ou na alimentação. Essa abertura se chama estoma. Muitos procedimentos cirúrgicos necessários para tratamento do câncer acabam gerando estomas. As MLDUT conheceram Wilse, presidente do Renascer. Na adolescência, ela descobriu que precisaria passar o resto da vida com uma bolsa colada ao corpo, para servir como coletora de fezes. Na época, não havia um suporte especializado para isso em Cascavel. Foi a história dela que despertou em um médico a ideia de fundar um núcleo que pudesse dar mais informação e qualidade de vida aos ostomizados, como são chamadas as pessoas que precisam do recurso. O atendimento é multidisciplinar. O que também faz diferença é o paciente poder escolher o tipo de bolsa com a qual mais se adapta. A bolsa é um saco coletor que recebe as fezes ou a urina. Há vários tipos e são indicados conforme a localização do estoma, idade da pessoa e tipo de material a receber. Essas bolsas coletoras podem ser drenáveis ou não, opacas ou transparentes e em uma ou duas peças. O material é fornecido pelo CISOP (Consórcio Intermunicipal de Saúde do Oeste do Paraná), mas, para as demais despesas, o núcleo depende de doações, inclusive de ajuda financeira. A luta do Renascer é para que haja mais garantia dos direitos dos ostomizados, com mais informação sobre o assunto. Numa visita ao núcleo, realizada meses antes, as MLDUT participaram de uma reunião e ficaram sabendo das dificuldades. Na ocasião, Wilse relatou que o local havia sido invadido por ladrões. Foram furtados o ar-condicionado e outros objetos importantes para o funcionamento da casa. A diretora também informou sobre as despesas cotidianas do espaço. Após conhecerem o Núcleo, as missionárias, coordenadas pela Ir. Rosinda, SSpS, decidiram destinar um valor à entidade, como um gesto concreto. “Entregamos a eles o valor de mil reais em dinheiro, arrecadado pelo grupo ao longo do ano de 2022, com rifas e pequenas contribuições mensais das missionárias”, conta a professora Simone Lazzarotto e integrante das MLDUT de Cascavel. O contato com o Renascer – Núcleo de Ostomizados se deu porque uma das MLDUT precisou submeter-se ao procedimento há três anos. Como o trabalho é pouco divulgado, muitas das missionárias nem sabiam que o problema poderia acontecer com qualquer um. “Assim foi com nossa missionária. De um dia para o outro, ela precisou adaptar-se a essa nova vida, viver com uma bolsa coletora das fezes colada ao corpo”, declara Simone. O Renascer – Núcleo dos Ostomizados fica na Rua Carijós, 294 – Bairro Santo Onofre, em Cascavel-PR. Quem desejar obter mais informações e contribuir com o trabalho pode ligar para o número (45) 3326-5884 ou entrar em contato pelo e-mail ostomizadosoestedoparana@gmail.com. Para saber mais Atenção à Saúde das Pessoas Ostomizadas – Ministério da Saúde[Link: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/folder/atencao_saude_pessoas_ostomizadas.pdf] Simone LazzarottoProfessora de Biologia no Colégio Santa Maria, Cascavel-PR.

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