Saúde e nutrição começam na infância

O cuidado com o corpo e uma boa alimentação devem ser ensinados às crianças desde cedo. Com uma abordagem lúdica, é possível mostrar a importância do cuidado com o corpo, tornando a vida mais saudável e aumenta nossa autoestima. Corpo e mente sã. Na educação infantil, valorizamos, por meio do campo de experiência “corpo, gestos e movimentos”, a vivência e a interação das crianças com o meio e o outro. As atividades ampliam seus conhecimentos, fazendo com que reconheçam as sensações e funções do seu corpo e seus limites. Com isso, elas desenvolvem, ao mesmo tempo, a consciência sobre o que é seguro e o que oferece risco à sua integridade física, comunicando-se e aprendendo mais sobre si e seu universo social e cultural. Como ressalta a BNCC (Base Nacional Comum Curricular), é possível formular objetivos de aprendizagem e desenvolvimento para as crianças pequenas, os quais nos permitem, como educadores, fazer com que a aprendizagem ocorra de forma significativa, pois assumimos a função de mediador, ao disponibilizar atividades que despertem a alegria no experimentar e no descobrir. Consideramos, assim, seus saberes, experiências, desejos, interesses, curiosidades, necessidades e ritmos de desenvolvimento em contextos que favoreçam brincadeiras, interações, investigações e explorações. Com as atividades desenvolvidas baseadas nos objetivos desse campo, entrelaçamos corpo, emoções e linguagem. É durante a fase da educação infantil que a criança está construindo sua identidade. A criança utiliza o corpo como instrumento relacional com o mundo. Esse é um processo natural que deve ser estimulado e incentivado desde a primeira infância. Esse movimento corporal saudável é uma prática que deveria ser mantida e incentivada por toda a vida escolar. Você sabia que cuidar do corpo é um ato de amor? E que, quando colocamos em prática hábitos que contribuirão decisivamente no cuidado com o corpo, de uma forma lúdica, tudo fica ainda mais divertido e prazeroso? Com uma simples brincadeira de “faz de conta”, foi criado um cenário no qual as crianças puderam vivenciar um dia no posto de saúde, dramatizando experiências como vacinação, atendimento, medicação… Verdadeiros doutores e doutoras mirins. E o que vimos foi uma turma interessada, curiosa, desfrutando de cada minuto da atividade proposta. Atividades educativas e divertidas tornam crianças mais participativas e felizes, fazendo com que coloquem em prática, com mais naturalidade, esses hábitos que as ajudam a viver melhor. Passam também a compreender que nosso corpo merece um carinho especial e que ir ao pediatra, por exemplo, é um momento que proporcionará descobertas e benefícios. Aquela tão famosa e “assustadora” injeção, aquele “geladinho” do termômetro, o curativo, o remédio que arde, entre outras ferramentas utilizadas por médicos e enfermeiros, passam a ser vistos pelas crianças com um pouco mais de leveza. Quem sabe sem medo, sem choro. Só sorrisos! Com esse olhar cuidadoso e a liberdade do brincar, a criança vai valorizando e adotando cada vez mais hábitos saudáveis. Esse é, sem dúvida, um dos aspectos mais importantes para se ter uma qualidade de vida, assumindo responsabilidades com seu corpo e sua saúde, tanto de forma individual como coletiva. Márcia Zochio, Suzi Gomes e Beatriz Floresta Professoras do Pré I no Colégio Imaculado Coração de Maria, no Rio de Janeiro-RJ.

Etarismo, como combater?

Existe uma idade limite para adquirir conhecimento? Com que idade um indivíduo pode estudar, fazer uma faculdade, aprofundar seus conhecimentos? De uns tempos para cá, é muito comum ver, na educação para jovens e adultos (EJA), senhoras e senhores que, depois da aposentadoria ou de estarem com os filhos já criados, voltam a estudar. Muitos dizem orgulhosamente que retornaram à escola para realizar um sonho. Por que será, então, que, algumas semanas atrás, três jovens estudantes de uma faculdade criaram polêmica com uma colega de curso pelo fato de ela ter mais de 40 anos? O fato é que elas cometeram o chamado “etarismo”. Que é “etarismo”? De acordo com a Sociedade de Geriatria e Gerontologia, é o preconceito contra as pessoas idosas quanto a saúde, capacidade e empenho, idade, fragilidade. A senhora estudante que sofreu o preconceito por causa da idade nem idosa é. No Brasil, geralmente, as mulheres se aposentam depois dos 50 anos e, se for pelo regime do INSS, somente com 62 anos, conforme os anos de contribuição. Dificilmente se aposenta com 40 anos. O etarismo é um tipo de preconceito que deixa muitas pessoas idosas, ainda lúcidas de suas faculdades mentais, indignadas e constrangidas. Logo, para combater o etarismo, precisamos informar as famílias, principalmente os jovens, sobre os direitos da pessoa idosa, inclusive o de ter acesso à educação. Assim, erradica-se o estereótipo de que quem tem certa idade não serve para mais nada, provocando a humilhação social por que muitos têm passado. E o que é humilhação social? O Brasil, em 2021, tinha 215 milhões de habitantes. Destes, 31,23 milhões eram pessoas idosas, representando 14,7% da população, conforme o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Em 2031, há uma previsão de 43 milhões. A maioria é de baixa renda e com baixa escolaridade. O País ainda tem 11 milhões de pessoas analfabetas (conforme dados de 2010, do IBGE), e, entre eles, a maioria é de idosos. Devemos incentivar a pessoa idosa a aproveitar melhor o tempo que tem, respeitando suas fragilidades, oferecendo-lhes conforto, conhecimento, dignidade. Por isso, é importante que todos os cidadãos continuem os estudos para, no futuro, diminuir essa situação. Aquela senhora que sofreu preconceito tinha menos de 60 anos. Ela estava buscando realizar seu sonho de ter uma profissão. Segundo a antropóloga Guita G. Debert (Unicamp), a categoria “idoso” é uma “construção social”. Essa construção, discutida por diversos autores, retrata o papel da pessoa idosa na sociedade, antes e depois da Revolução Industrial, na cultura ocidental e nas sociedades milenares, o que varia de uma sociedade para outra. Os tipos de idosos são variados: urbanos, rurais, aposentados, profissionais, desempregados, os que moram pelas ruas, os que estão nos abrigos e nos hospitais, os que vivem com os parentes e os que vivem só. Todos têm a prerrogativa de ter acesso aos direitos fundamentais, como estudar. Alguns filósofos podem auxiliar a refletir sobre a importância do envelhecimento. Por exemplo, Cícero (século I a.C.), filósofo romano, escreve sobre a velhice com otimismo e coragem, aconselhando a refutar quatro aspectos indesejados que costumam rondar o imaginário de anciãos e anciãs: 1) o impedimento das atividades; 2) debilitação do corpo; 3) afastamento dos prazeres; e 4) que está à beira da morte. Outro filósofo, Sêneca (século I d.C.), chama a atenção para a brevidade da vida. Recomenda empregar o tempo da melhor maneira, na prática do bem e das virtudes, pois é a única coisa que levamos desta vida. Com as mudanças culturais no século XX, a filósofa francesa Simone de Beauvoir, ao dedicar-se sobre o assunto, divide em dois momentos a questão: a visão de fora, da sociedade; e a visão de dentro, do próprio idoso. A vida pelos olhos dos próprios idosos, seja pobre ou rico, apresenta seus sentimentos como jovens. Por isso, respeitar os sonhos das pessoas de idade avançada é uma forma de ter respeito. Em contraponto, há grupos da terceira idade que costumam programar reuniões ou viagens em excursão. Mas, ainda, há aquelas pessoas idosas que não têm condições de sair ou não querem sair, pois preferem ficar em seu cantinho. Ter empatia com todos é um ato de civilidade. Ler o Estatuto da Pessoa Idosa (Lei 10.741/2003), pesquisar os direitos, ter cuidados com a saúde física, mental e espiritual é importante. Devemos combater o etarismo e a humilhação social contra os idosos. Se sofre violência, seja ela física, psicológica, financeira, patrimonial, afetiva, denuncie. Ligue para 180 ou vá direto a uma delegacia da mulher e da pessoa idosa. Sejamos solidários, solidárias com todos. Que Cora Coralina, escritora aos 70 anos, inspire homens e mulheres a viver bem. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, cursou Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP e SBPC, membro da diretoria da APROFFIB, membro da Comissão de Prevenção e Combate à Tortura (ALESC) e voluntária na Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis. Atualmente, professora de Filosofia na Prefeitura de São José-SC.

Domingo de Páscoa: “… e a pedra tinha sido removida”

Domingo de Páscoa: “… e a pedra tinha sido removida” “A pedra da entrada do túmulo é removida” e amanhece um novo tempo, uma nova consciência planetária, uma nova espiritualidade, uma nova maneira de viver o mistério de Deus, uma concepção inspiradora do ser humano, uma nova mentalidade, uma nova maneira de ser Igreja… Amanhece um novo mundo, heterogêneo, descentralizado; um novo humanismo, um novo movimento cultural. Brota um novo despertar a partir de uma maior lucidez e consciência dos problemas mundiais e uma escuta afinada diante do clamor unânime de que outro mundo é possível. Em Jesus ocorre algo totalmente novo. Sua ressurreição traz uma nova maneira de viver que não cabe em nossos esquemas, que não se encaixa em nossos hábitos, sempre limitados e estreitos. O “mistério pascal” é o salto para a novidade, para a beleza, para a transcendência. Imersos na história e na natureza, a Ressurreição nos faz descobrir a verdadeira extensão da Vida. Não encontramos o Ressuscitado no sepulcro, mas na vida. Não encontramos o Ressuscitado enfaixado e paralisado pela morte, mas livre como a brisa da vida. Não “vemos” a Ressurreição contemplando os restos da morte; só podemos contemplar o Ressuscitado no mistério da vida. E “Jesus ressuscitou de tanto viver”. Aquele que viveu tão intensamente não podia permanecer na morte. Por isso, só no compromisso com a vida é que podemos encontrá-Lo. A Ressurreição nos revela: só existe a Vida; só nos resta viver intensamente. Somos seres visceralmente “pascais”, somos potencialidade de vida. Há um dado constante nos relatos das Aparições do Ressuscitado: Ele se faz presente no meio do fracasso, da dor, da tristeza, da ferida…, e, aos poucos, vai iluminando a situação dramática de cada pessoa ou do grupo, vai reconstruindo vidas despedaçadas, vai abrindo horizonte de sentido e confirmando a missão de prolongar o “movimento de vida” iniciado na Galileia. Os relatos de suas Aparições nos revelam como Ele foi reconstruindo as pessoas, amigas e amigos, quebrados(as) pelo fracasso, pela tristeza, pela decepção… Foram ressuscitados por dentro, despertando a vida bloqueada e abrindo o horizonte da missão. Na ressurreição, a vida emerge de forma misteriosa; ela se impõe, simplesmente. Tal realidade desperta fascinação, provoca admiração e veneração…, porque a vida é sempre sagrada. Diante dela ficamos extasiados, boquiabertos, escancarados os olhos e afiados os ouvidos. Ela nos atrai por sua força interna. Portador de uma vida inesgotável, revelada na madrugada pascal, o ser humano vive para mergulhar em algo diferente, novo e melhor. A vida, desde o mais íntimo da pessoa humana, deseja ser despertada e iluminada em plenitude. Amar é romper a casca para que a vida se expanda na doação. A morte do falso eu é a condição para que a vida se liberte. Vida plena prometida por Jesus: “Eu vim para que tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10). “Viver como ressuscitado” implica esvaziar-se do “ego”, para deixar transparecer o que há de divino. Quem se experimenta a si mesmo como “Vida” é já uma pessoa “ressuscitada” e isso faz a grande diferença, pois tem um impacto no seu modo de ser e de viver. Marcadas pela ressurreição, as pessoas captam muitos detalhes que antes não haviam percebido, vivem intensamente, amam com mais paixão, prestam atenção a muitas coisas que antes passavam desapercebidas. Tem um comportamento diferente para com os outros; há, nestas pessoas, mais ternura, são mais sensíveis à dor e à injustiça. Ao saborear o presente da vida, vivem como se fossem ressuscitadas. Creem que, amando mais a vida, se afastarão mais da morte e resistirão às hostilidades do mundo presente. E, no entanto, continuam vivendo na mesma casa, no mesmo trabalho, fazendo as mesmas coisas…, mas seu olhar audacioso desperta as consciências, sacode as velhas estruturas, derruba os muros da exclusão. A Ressurreição não só “dá o que pensar”, mas sobretudo, “dá o que fazer”. “Olhar o ofício de consolar que Cristo nosso Senhor exerce” (EE. 224). Santo Inácio utiliza esta expressão quando apresenta, na 4ª Semana dos Exercícios, a contemplação das aparições do Ressuscitado. Consolar é o que define a ação do Ressuscitado, transformando a situação dos seus discípulos e discípulas: a tristeza se converte numa alegria contagiosa, o medo em valentia e audácia, a negação de Jesus em profissão de fé e martírio… Não se trata de um ato pontual, senão de um “ofício” que definirá para sempre a atividade de seu Espírito no mundo. Nas cenas evangélicas das aparições, o efeito da presença do Ressuscitado sobre os discípulos termina sempre em reconhecimento, em chamado e envio, em restauração de uma vocação e missão. Jesus ressuscitado exerce sobre eles um específico “ofício de consolar”, cujo efeito é iluminar o caminho pelo qual, em seu nome e com Ele, eles hão de percorrer. O “ofício de consolar” é a marca do Ressuscitado, é força recriadora e reconstrutora de vidas despedaçadas. Jesus “ressuscita” cada um dos seus amigos e amigas, ativando neles(as) o sentido da vida, reconstruindo os laços comunitários rompidos, e sobretudo, oferecendo solo firme a quem estava sem chão, sem direção… Essa nova Vida é capacidade de amar como Jesus amou; é “passar pela vida fazendo o bem”. Somos seres ressuscitados quando vivemos os mesmos critérios e valores de Jesus, engajados em seu mesmo projeto. A “vivência pascal” leva a querer algo mais. É “antecipação criadora”; ela tem “rosto novo”. É o futuro que ainda pode ser convertido em “história nova”; é vida vivida com encantamento. A “pedra pesada” da nossa impotência diante da dor, do fracasso e da morte, foi tirada pelo Mestre, que, diante de nós, chama-nos pelo “nome” e nos desafia a viver como ressuscitados. Nossa vida é uma experiência a acolher, uma aventura a amar e um mistério a celebrar. Rompido o túmulo, removida a pedra, resta caminhar… Deixemo-nos iluminar, levemos a Luz da Ressurreição nas nossas pobres e frágeis mãos, iluminando os recantos do nosso cotidiano. Pois vida é um contínuo despedir-se e partir; é inútil permanecer junto ao túmulo. Porque o ausente “aqui” está

Sábado Santo: o Crucificado é depositado no ventre da Mãe-Terra

“José de Arimateia, tomando o corpo de Jesus, envolveu-o num lençol limpo e o colocou num túmulo novo, que mandara escavar na rocha. Em seguida, rolou uma grande pedra na entrada do túmulo e retirou-se” (Mt 27,59-60) Normalmente o Sábado Santo não merece maior atenção de nossa parte; acabada a vivência litúrgica da Sexta-feira Santa, já pensamos no Domingo da Ressurreição. No entanto, o Sábado Santo reivindica uma reflexão e um lugar na nossa vida espiritual. O Sábado Santo é um dia de penumbra: entre a sombra da Sexta-Feira e a luz do Domingo. É o dia da ambiguidade, do luto e da possível boa notícia, da espera e da esperança. É o dia dedicado à solidão de Maria, o “dia não litúrgico”. É o dia em que Jesus “desce” à morada dos mortos, na obscuridade mais absoluta. Ali não há visão de Deus; por isso, a Escritura a chama “inferno”. É o dia do ocultamento de Deus, do silêncio de Deus Pai, da grande solidão de Jesus, do Filho perdido na obscuridade, na “terra de ninguém”. Jesus no túmulo simboliza o silêncio, a volta ao mais íntimo de si mesmo, abraçando a solidão sem se sentir solitário. Sábado Santo é o dia da impotência, da injustiça, da desolação, da solidão; dia em que nos situamos diante da morte injusta imposta pelos “podres poderes”; dia precedido por traições, fugas, gritaria ameaçante, linchamento cruel e mentiroso; dia das esperanças rompidas, do medo que paralisa, do fechar de portas mentais e emocionais; dia incompreensível do silêncio, da “ausência” de Deus. Sábado Santo é também um dia obscuro onde nos custa ver saídas ou futuro, um dia ameaçante carregado de dor e morte; dia das perguntas sem resposta: “por que isso? Como pode estar acontecendo isto? Onde está Deus? Portanto, dia de uma crise radical porque afeta e põe em questão nossas falsas esperanças, nossa onipotência e prepotência, nosso individualismo independente… Podemos expressar três atitudes no Sábado Santo: a) Jerusalém volta à normalidade, nada mudou; b) permanecer no “por quê” isso aconteceu?; c) despertar o “para quê” isso aconteceu? É tempo de deixar-nos abalar pelas perguntas que não suportam respostas fáceis. “O Sábado Santo é aquele intervalo único e irrepetível na história da humanidade e do universo em que Deus, em Jesus Cristo, compartilhou não só nosso morrer, mas também nosso permanecer na morte. Trata-se da solidariedade mais radical” (Bento XVI). A virtude teologal da esperança nos convida a mergulhar no sentido profundo do Sábado Santo: foi o dia do silêncio de Deus Pai e o dia da descida de Jesus, morto e sepultado, “aos infernos da condição humana”. Foi o dia do Espírito Santo que não tinha “onde repousar” e fica como sem alento. O inferno ao qual Jesus desceu é, em primeiro lugar, a morte eterna, a destruição sem saída, o frio cósmico… Mas é, em segundo lugar, a morte histórica que tende a dominar tudo, a morte que vem da injustiça, da indiferença, da prepotência e violência de muitos. Essa morte aparece mais claramente nos ambientes dominados pela cultura do ódio, da intolerância, do preconceito; faz-se visível nos traficantes da vida, na miséria e nos rostos famintos, vítimas de uma estrutura social e política injusta. É a morte dos fabricantes de armas, dos violadores e assassinos…; a morte nos cárceres, nas casas sem pão, nos caminhos sem saída, nos hospitais… O “inferno” está em todos os lugares onde a vida é massacrada pelos prepotentes, onde a Terra é destruída pela ganância de alguns, onde a “lei do mercado” se alimenta do sangue dos mais pobres… Sem a “descida” de Jesus aos infernos da história humana, não existe redenção cristã, não se pode falar de autêntica páscoa. Se não nos comprometemos com os “condenados ao inferno” de nosso mundo, não poderemos entender o mistério do Sábado Santo. Ao longo de toda sua vida, e de um modo especial através de sua morte na Cruz (solidário com os expulsos e condenados da humanidade), Jesus “desceu aos infernos” da pobreza, da exclusão, da violência… Neste “dia de silêncio”, o Crucificado se faz solidário universal; nenhuma situação humana, por mais extrema que seja, ficou excluída dessa presença compassiva. Indo mais além, a vivência do Sábado Santo também nos move a “descer” aos nossos “infernos interiores”, carregados de feridas, sentimentos negativos, traumas, fracassos… e experimentar a redenção no mais profundo de nosso ser. “Nossa época se converteu sempre mais em um Sábado Santo: a obscuridade deste dia interpela a todos aqueles que se perguntam pelo sentido da vida, e de maneira especial nos interpela a nós que cremos. Também a nós nos afeta esta obscuridade” (Bento XVI). O Sábado Santo parece um sábado vazio: cala a liturgia, cala a Igreja, calam os corações. O vazio provocado pela morte de Jesus nos deixa sem alento; sua ausência nos deixa sem palavras. Quando Aquele que é Palavra está ausente, que podem nos dizer as palavras? Mas há um silêncio que está vivo; é o silêncio de quem nos criou no silêncio. Um silêncio entendido como outra forma de presença de Deus. Deus se revela não só na Palavra, também em seu Silêncio, em seu ocultamento. Quando Deus cala e faz calar, fecham-se os lábios, entra-se no mistério, na mística. O silêncio do Senhor nos move a procurar, a escutar, a enxergar… O silêncio de Deus deve ser respeitado, pois a Deus lhe dói a morte de seus fiéis (Sl 116,15): o Pai não estará fazendo luto por seu Filho e por suas criaturas? * Não será que o silêncio do Sábado Santo supõe o direito de Deus se calar? * Que Deus não tem direito de guardar silêncio? * Quem somos nós para exigir de Deus que nos esteja falando continuamente? Além disso, através da passagem do Sábado Santo, realiza-se uma transformação radical de nossa imagem de Deus: não como um Ser Onipotente insensível, que desconhece a dor, senão como Amor vulnerável e vulnerado, que assume como Seu o sofrimento da humanidade. Para que haja uma

Páscoa: acontecimento iluminado e sempre novo

Celebramos novamente a Páscoa, nossa principal festa cristã. Celebramos a ressurreição de Cristo. Esse é o fato mais importante da história da humanidade, embora muitos não o reconheçam. Na verdade, trata-se de um mistério de nossa fé. O fato de ser mistério não significa ser incompreensível. Nós conseguimos entender até onde nossa inteligência é capaz e nossa fé alcança. O mistério sempre ultrapassa os horizontes humanos e se insere na esfera do divino. A ressurreição de Jesus é um fato histórico testemunhado não apenas pelos discípulos de Jesus, mas por muita gente; como São Paulo diz, mais de quinhentos. Não somente as aparições do Ressuscitado são testemunhas de sua ressurreição, mas também o que ocorreu depois dela na vida dos apóstolos e de outros seguidores. Prova ainda da ressurreição de Cristo é o fato de ela ter acontecido há mais de 2 mil anos e continuar presente nos corações dos milhões que hoje creem sem ter visto. Não podemos imaginar que tantas pessoas que acreditam na ressurreição sejam tolas ou ignorantes, com mentalidade arcaica. Pelo contrário, há pessoas, desde as mais simples até as mais cultas, que professam a fé na ressurreição e pautam suas vidas por essa verdade. A ressurreição de Cristo trouxe uma esperança de que a vida não termina no cemitério. Sua palavra transmitida pelos evangelhos e cartas dos apóstolos nos falam que “quem com Cristo morre com ele ressuscita”. Nós professamos na oração do creio “Creio na ressurreição da carne…”. Diante disso, faz sentido rezar pelos nossos falecidos, recomendando-os à misericórdia de Deus; caso contrário, seria vã e mesquinha nossa crença e esperança. Quando celebramos a festa da Páscoa a cada ano, não é apenas uma recordação do fato histórico. Celebramos um acontecimento novo que irradia luz nova, renova nossa vida e estimula a vivermos de acordo com o que professamos. Nós costumamos desejar uns aos outros “feliz Páscoa”. Nesse desejo, está implícita a alegria de nos sentirmos salvos pela morte e ressurreição de Cristo. Esse desejo proclama a certeza da vida eterna no ressuscitado. A Páscoa, simbolizada no círio pascal, aceso e presente nos batismos de novos cristãos, lembra-nos de que ela é luz para nossa vida e, em sua luz, somos convidados a ser também luz no mundo. Celebremos a Páscoa com a mente e o coração. A mente que nos faz aceitar o mistério que nela está presente, o coração que nos faz experimentá-la como realidade profunda que preenche nossos espaços íntimos e direciona nosso agir cotidiano. Que tenhamos todos uma “feliz Páscoa” permanente e jubilosa, reacendendo nossa fé e esperança. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

Sexta-Feira da Semana Santa: as mulheres junto ao Crucificado

“Junto à Cruz de Jesus, estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas e Maria Madalena” (Jo 19,25) Na vida e missão de Jesus encontramos duas paixões: a primeira é a paixão pela vida, pelo Reino, pelo compromisso em favor dos mais pobres e excluídos. Esta paixão é expressão de uma opção, assumida fielmente por Jesus até o fim. A segunda paixão é a da cruz, imposta pelos poderes religiosos e civis. Ela não é fruto da opção de Jesus e nem faz parte da vontade do Pai. Ela é a visibilização da violência, do ódio, do fechamento frente à proposta de vida revelada por Jesus. No grego, “cruz” é “staurós” e tem dois significados: de um lado, é patíbulo, instrumento de tortura imposta pelos romanos aos rebeldes do império; de outro, significa prontidão, preparado, mobilizado, firme, sólido, estar de pé, ser fiel até o fim… Jesus não buscou a cruz do sofrimento, o patíbulo, a morte violenta… Ele buscou a cruz da fidelidade, da vida comprometida. Nesse sentido, a “staurós-cruz” é vida aberta, expansiva, oblativa, vida descentrada em favor dos outros. Ela não é um evento, mas um modo de viver, pois perpassa toda a vida de Jesus. “Cruz-staurós” é vivida a partir de uma causa: o Reino. Assim entendemos a afirmação de Jesus: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome sua ‘cruz-staurós’ cada dia e siga-me” (Lc 9,23). Significa esvaziamento do próprio “ego” para viver em sintonia com os outros, sobretudo com os mais sofredores. Infelizmente, a história da espiritualidade cristã confundiu “cruz-patíbulo” com “cruz-fidelidade” e acabou gerando uma espiritualidade do sofrimento, da mortificação, da renúncia… como se isso fosse agradável a Deus. A Paixão e Morte de Jesus foi “desconectada” de sua vida comprometida em favor dos pobres e sofredores, dando a impressão que só a “paixão de Jesus” é salvífica. Toda a vida de Jesus é salvação porque é vida que destrava vidas e abre para elas um novo sentido. Com isso, privilegiou-se a “cruz da dor” desligada da “cruz da vida”, do compromisso com o Reino. Tal concepção desembocou numa vivência cristã intimista, farisaica, alienada, descompromissada… Sabemos que o(a) seguidor(a) de Jesus quando vive a fidelidade à “cruz-staurós”, por causa do Reino, pode encontrar a perseguição, oposição e morte, como o próprio Jesus (a cruz patíbulo). Mas Jesus integra a “cruz patíbulo” e revela sua máxima solidariedade com todos os crucificados da história. Por isso, esta Cruz assumida é também visibilização da salvação. Nos relatos da Paixão de Jesus encontramos a presença das mulheres que vivem a “cruz-staurós”, ou seja, vivem a fidelidade ao seguimento de Jesus desde a Galileia. Enquanto os discípulos fogem, elas permanecem “de pé junto à Cruz”, numa atitude solidária e comprometida. A presença delas, certamente, foi um alívio para Jesus no momento trágico de sua vida: sentiu que não estava sozinho, pois suas amigas caminhavam com Ele, sofriam com Ele, morriam com Ele… Os evangelistas nos falam das mulheres muitas vezes; o relato da crucificação revela suas presenças como testemunhas, mediadoras e verdadeiras discípulas. Os relatos de Mateus, Marcos e Lucas coincidem em indicar que as mulheres “contemplavam a cena de longe”. João, “que vê por dentro”, as coloca junto à cruz. Estão ali, precedendo-nos no caminho, e não dizem nada. É seu corpo, são seus gestos, suas mãos, seus olhos, seu silêncio… que falam por elas. A linguagem delas é a linguagem da relação. Se elas podem permanecer nessas circunstâncias, é porque amaram muito. Elas nos falam de resistência e de fidelidade, de uma presença comovedora. Estão juntas, expostas a outros olhares, como comunidade de discípulas em torno a seu Mestre, que lhes ensina, agora sem palavras, uma sabedoria muito maior. Em meio à impotência, não se afastam da dor experimentada ao ver sofrer a quem mais se ama, senão que se expõem ao olhar d’Aquele cujo rosto foi desfigurado. * Quem são elas? De onde tiraram forças para permanecer ali quando outros se afastaram? * Onde estas mulheres encontraram a força para segui-Lo por este caminho do Calvário? Que faziam elas ali, junto à cruz? Realizam alguma ação eficaz? Vão poder impedir a morte de um inocente? Algumas destas mulheres são chamadas por seu nome próprio, ou são identificadas por vínculos de parentesco, ou ainda por ter gerado e acompanhado outras vidas. São as mesmas mulheres que haviam seguido e servido a Jesus na Galileia, e agora o farão também na sua morte. Sobem com Ele ao lugar do abandono e da ingratidão, levantando uma ponte de proximidade e de solidariedade que cruza a totalidade da vida de Jesus. Nem um só instante afastaram seus olhares d’Ele. E o que para uns é escândalo e para outros é loucura, para estas mulheres é uma força de Deus impressionante. Elas têm a coragem de permanecer ali, acolhendo o acontecimento em toda sua crueldade e profundidade; elas estão de pé, enquanto outros desistiram ou se afastaram assustados. A partir deste momento elas vão aprendendo a conviver com a morte, com a d’Ele, com a sua e com a dos outros. Vão aprendendo, precisamente em meio à morte, a “celebrar a vida”, mesmo intuindo que uma lança também as atravessará. Estas mulheres nos ensinam que “subir a Jerusalém” é assumir o conflito e a rejeição por defender os pobres e pequenos; é encontrar a perseguição devido ao compromisso em favor da vida; é saber que os grãos que caem em terra precisam morrer para germinar e multiplicar a vida. E é, também, subir animando a outros. Neste dia, a presença silenciosa das mulheres junto à Cruz nos ensina a compadecer, a abrir o coração e a despertar a sensibilidade solidária diante do sofrimento e da dor humanas. Nós nos humanizamos quando nos deixamos configurar pela compaixão, afetar por ela, ser tocados por ela. E deixar que a compaixão comande nossos atos e decisões. Compaixão, padecer com: esse é o segredo da vida, vivida em plenitude. Solidarizar-nos com o outro naquela situação

Quinta-Feira da Semana Santa: a refeição de despedida

“Estavam tomando a ceia”; “e começou a lavar os pés dos discípulos…” (Jo 13,2.5) Esta foi a prática de Jesus que mais causou espanto e escândalo: a partilha nas mesas com pobres e pecadores. Literalmente, Jesus foi aquele que “virou mesas” de muitas pessoas e fundou uma outra mesa: mesa da partilha, da festa, mesa da fraternidade onde todos se sentem iguais… Mesa da vida. Trata-se de uma mesa provocativa, questionadora, incômoda… que requer mudança de lugar, de mentalidade, de atitude… Sair da própria mesa e caminhar em direção à mesa dos outros. Comendo e bebendo com todos os excluídos, Jesus estava transgredindo e desafiando as formalidades do comportamento social e das regras que estabeleciam a desigualdade, a divisão, a exclusão… Jesus revelava uma grande liberdade ao transitar por diferentes mesas; mesas escandalosas que o faziam próximo dos pecadores, pobres e excluídos… Ele não só transitou por outras mesas, mas instituiu a grande Mesa para a festa, a intimidade, a memória: a “mesa do Lava-pés e da Última Ceia”. Ali, Ele “despoja-se do manto” (sinal de dignidade de “senhor”) e pega o avental (toalha, “ferramenta” de servidor). Jesus está no meio dos homens como Aquele que serve. “Despojar-se do manto” significa “dar a vida” sob a forma de serviço. Jesus coloca toda a sua pessoa aos pés dos seus discípulos. O Criador põe-se aos pés da criatura para revelar como ela é amada e como deve amar. O texto joanino nos diz que Jesus realizou o “lava-pés” durante a última Ceia. Todas as refeições tinham o “lava-mãos”. Algumas ceias especiais tinham o “lava-pés” no início como sinal de acolhida e de hospitalidade. Jesus realiza seu gesto enquanto a refeição está acontecendo. Certamente Ele estabeleceu uma relação muito estreita entre o comer e o servir, melhor dizendo, entre a refeição e o serviço solidário. Até Jesus, os convidados para a refeição eram servidos e saíam satisfeitos. A partir de Jesus, os convidados para a refeição servem-se uns aos outros e saem da refeição para servir os outros. O dom recebido é partilhado entre os seus; mas isso não basta, ele precisa ser colocado à disposição de todos, a começar pelos mais carentes. O dom é, ao mesmo tempo, graça e missão. O Evangelho de João, portanto, substitui a instituição da Eucaristia pelo Lava-pés. Audaciosa inovação que dirige o gesto eucarístico para a revolução das relações humanas: o poder do Senhor se converte em capacidade para servir; a autoridade não se exerce submetendo o outro, mas possibilitando que o outro “seja”. Com este gesto Jesus desvela uma imagem nova de Deus: o Todo-Misericordioso esvazia toda e qualquer expressão de poder e submissão entre os humanos. Ninguém serve a Deus, a não ser do jeito de Jesus, isto é, lavando os pés, amando até o fim. Nosso Deus não é prepotência, mas condescendência. É o Criador que se põe aos pés da criatura. Nosso Deus é um Deus que “desce”, que se “inclina” para acolher. Mistério da Encarnação: Deus abraçando e sendo encontrado junto aos pés dos seus filhos(as). O “descendimento” do Senhor aos pés dos discípulos e fazendo-se servidor, transforma o status da servidão (“o servo não sabe o que faz seu senhor” – Jo 15,15) em fraternidade (“não vos chamo servos, mas amigos” – Jo 15,15). Deste modo, aqui se revela o verdadeiro senhorio de Jesus: a possibilidade de restabelecer a igualdade entre as pessoas através da superabundância de um amor que se derrama, sem reservas, para todos. Este gesto provocativo de serviço e despojamento d’Aquele que é “Senhor” desperta em cada seguidor(a) o desejo de considerar suas qualidades e capacidades como veículos de doação, não de poder ou de manipulação. A partir deste “ousado gesto” já não se justifica nenhum tipo de superioridade, mas somente a relação pessoal de irmãos(ãs) e amigos(as). O Lava-pés é gesto ousado que quebra toda pretensão de poder. Jesus viu claramente que o perigo mais grave que ameaça seus seguidores é a tentação do poder. Não há dúvida de que isso é o que causa o maior dano a todos, o que mais nos desumaniza, pois alimenta divisão, submissão, obediência infantil… Por isso, com esse gesto, Jesus expressa que nunca quis agir como o superior que se impõe com poder; do mesmo modo, viu em semelhante comportamento uma conduta radicalmente inaceitável entre seus seguidores. A relação que se estabeleceu entre os discípulos e Jesus não foi a de submissão a um poder que manda e dá ordens, mas a do “seguimento” que brota da experiência de sentir-se atraído e seduzido pelo “modo de proceder” do mesmo Jesus. O gesto do lava-pés é repleto da “espiritualidade do cuidado”. O cuidado é um diálogo de presenças, não só de palavras. São seres “vulneráveis” que se encontram. O cuidado é expressão de ternura e delicadeza. É atenção às pessoas; é gesto de inclusão. O cuidado é gesto amoroso para com o outro, gesto que protege e traz serenidade e paz. O amor é a expressão mais alta do cuidado, porque tudo o que amamos cuidamos. E tudo o que cuidamos é um sinal de que também amamos. Cuidar é envolver-se com o outro ou com a comunidade de vida, mostrando zelo e preocupação. Mas é sempre uma atitude de benevolência que quer estar junto, acompanhar e proteger; é ter espírito de gentileza e ternura para captar e sentir o outro como outro, como original, e acolhê-lo na sua diferença. Lava-pés não é teatro, mas modo habitual de proceder e de estar no mundo. “Tal Cristo, tal cristão”: na vivência do serviço evangélico, somos chamados a vestir o “avental de Jesus”. “Vestir o coração” com o avental da simplicidade, da ternura acolhedora, da escuta comprometida, da presença atenciosa, do serviço desinteressado… O que é “tirar o manto?” Para nós o “manto” poderia ser nossa máscara, nossa redoma, nossa capa de proteção que nos distancia dos outros…; é tudo aquilo que impede a agilidade e a prontidão no serviço… “Tirar o manto” é a atitude firme de quem se

Rede de Educação SSpS realiza encontro de lideranças

Entre os dias 23 e 25 de março, o Convento Santíssima Trindade, em São Paulo-SP, acolheu mais um encontro das lideranças da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo (SSpS). A abertura, na quinta-feira, foi marcada pela celebração e posse do novo diretor-geral da Rede de Educação, João Carlos Martins. A oração, conduzida pelas irmãs, foi linda e emocionante, um momento de acolher o novo, mas também de relembrar e agradecer por tudo o que foi conquistado até agora. No jantar, também recebemos o novo diretor do Colégio Stella Matutina (Juiz de Fora-MG), Edgard Humberto, e rezamos pela recuperação de nossa querida Clarice, diretora do Colégio Espírito Santo (São Paulo-SP), que esperamos estar conosco novamente, em breve. Na sexta-feira, 24 de março, iniciamos o dia na nova sala de reunião. Apresentamos os dados de sustentabilidade das escolas da Rede. A frase de abertura de João Carlos foi: “Sustentabilidade é uma forma de realizar os sonhos e se constrói com muitas mãos”. Essa foi a primeira vez que contamos com a presença das diretoras dos centros educacionais, e como isso engrandeceu nosso encontro! Nesse momento de discussões e partilhas, percebemos que, apesar das diferentes cidades e realidades, escolas, centros educacionais, nós temos em comum muito trabalho. No sábado, 25 de março, último dia de encontro, a meu ver, foi a “cereja do bolo”. Foi um dia que encheu meu coração ao conhecer o trabalho no Centro de Integração do Migrante (CIM), tendo à frente a irmã Malgarete. Foi uma emoção sem tamanho ver de perto o trabalho missionário incrível com os migrantes que chegam a São Paulo. Experiência oportuna que nos enche de gratidão, certeza e sentimento de um novo olhar para a vida, compartilhado por todos do grupo. Finalizamos nosso encontro em uma visita ao Colégio Espírito Santo, com um belo acolhimento de toda a equipe da escola, preparado por Priscila, gestora administrativa da unidade. Foi muito bonito ver o cuidado em cada canto, em cada detalhe da escola. Assim, o encontro teve seu fim com um olhar para o futuro, traçando metas claras e objetivas, e estudando temas pertinentes, atuais, que serão discutidos ao longo do ano, como a excelência pedagógica, a multiculturalidade e currículo missionário como base de nosso fazer educativo. Tudo isso para mostrar que nossas escolas permanecem mais vivas que nunca. Natalia Oliveira MendesGestora administrativa do Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Belo Horizonte-MG.

Semana Santa: os grandes momentos de Deus em nossa história

A cada Semana Santa que celebramos, revivemos os maiores mistérios de nossa fé. Na Quinta-Feira Santa, entramos no mistério eucarístico. Jesus institui o sacerdócio e a Eucaristia. Como entender em profundidade o mistério que aí se esconde? Jesus toma pão e vinho, e sem mudar suas aparências e características físicas e químicas, transformam-nos em seu corpo e sangue. Quem deles comunga, come e bebe o corpo e o sangue de Cristo, com gosto de pão e de vinho. Se dissesse a uma criança que ali está Jesus, ela talvez não entenderia, porque ela ainda não consegue “ver” com os olhos da fé. Ela poderia dizer que comeu apenas um pãozinho e nada mais. É preciso estar imbuído da Palavra de Jesus, que afirma que ali é Ele quem está presente, em sua realidade plena. Após a consagração, ao ouvir “isto é mistério da fé”, respondemos, com convicção, que nós reconhecemos, afirmando que ali se realiza a morte e a ressurreição, e aguardamos ansiosamente a vinda de Jesus. O celebrante (padre, bispo, Papa) o faz não em seu nome, mas em nome de Cristo. Jesus conferiu esse poder ao sacerdote pelo sacramento da ordem por Ele instituído na Quinta-Feira Santa. “Todas as vezes que o fizerdes, fazei-o em memória de mim” (1 Coríntios 11,24). Eis aí os mistérios da Quinta-Feira Santa. Na Sexta-Feira Santa, celebramos a paixão e morte de Jesus. Também aí se esconde outro mistério de nossa fé. Quem poderia imaginar que o próprio Deus tomasse corpo humano e o oferecesse livremente à morte de cruz, como prova definitiva de amor por nós, num gesto salvífico que atingiu a todos os que vieram antes de dele e os que nasceram depois ou ainda virão enquanto o mundo existir? Não haverá outra redenção; a de Cristo foi definitiva. A força desse gesto ultrapassa séculos e gerações. É todo o Universo redimido nessa cruz salvadora. No Sábado Santo, celebramos o grande mistério da ressurreição. Cristo ressuscita dos mortos. O crucificado se manifesta vivo diante de testemunhas, que se tornam portadoras de sua mensagem para todos os povos, tempos e recantos do mundo. O “aleluia” proclamado manifesta a alegria do mistério aceito, no qual se coloca todo o sentido da vida e da morte. É um eco que ressoa no universo e canta o hino eterno junto com o coro dos anjos e santos. O “Exultet” (exultem) proclama a grande Páscoa, que não é mais uma passagem por águas oceânicas, mas a que vai para além dos níveis terrenos, alçando-se nos albores eternos. No Domingo da Páscoa, a grande festa cristã se estende para um perpétuo “Dia do Senhor”, recordado em cada Eucaristia celebrada em milhares de igrejas, templos, capelas e outros recantos sagrados. Resplandece, nesse dia de Páscoa, o mistério da ressurreição, que selou para sempre a redenção e a salvação. A Semana Santa, que ocorre cada ano, revive esses grandes mistérios que dão sentido à fé cristã e razão de viver para e dos cristãos. Que os mistérios de nossa fé celebrados na Semana Santa encham sua vida de um “aleluia” alegre e festivo, porque, mais uma vez, podem-se viver os grandes momentos de Deus em nossa história humana. Feliz será você quando vivenciá-la nas celebrações de que participar, celebrando os mistérios de nossa fé! Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.

Jerusalém: uma “praça da alimentação”

“Quando Jesus entrou em Jerusalém, a cidade inteira se agitou, e diziam: ‘Quem é este homem?’” (Mt 21,10) Jesus participava do sonho de todo o povo de Israel que via em Jerusalém a cidade da promessa de paz e plenitude futura, lugar da acolhida, ambiente fecundo onde ninguém passaria fome, pois todos teriam o direito de participar da “grande mesa do pão”. A tradição profética havia anunciado uma “subida” dos povos, que viriam a Jerusalém para iniciar um caminho de comunhão e justiça, e adorar a Deus no Templo, que estaria aberto para todos. Toda a cidade se converteria num grande Templo, lugar da inclusão e da partilha, onde se cumpririam as esperanças dos povos. Com sua entrada em Jerusalém, Jesus quis recuperar a cidade como lugar do encontro e da comunhão, como espaço da paz e da solidariedade…, desalojando aqueles que se fechavam a qualquer tentativa de mudança. Por isso, seu gesto provocativo e escandaloso de entrar na cidade montado num jumentinho, símbolo da simplicidade e do despojamento de qualquer pretensão de poder e força, causou violenta reação naqueles que se beneficiavam da estrutura política e religiosa da cidade. Jesus entrou em Jerusalém rodeado pelo povo simples. Este povo, escravo e oprimido, o aclamou porque viu n’Ele uma luz de esperança, de vida, de libertação; escutou seus ensinamentos e viu seus feitos durante alguns anos; sentiu-se tocado pelas palavras de vida, de justiça, de amor, de misericórdia, de paz… Também viu seus gestos de cura dos enfermos, de defesa dos fracos, de oferta de alimento aos famintos, de reabilitação dos desprezados, de acolhimento dos marginalizados, de denúncia dos opressores… Jesus quis continuar anunciando e realizando na cidade de Jerusalém aquilo que fizera na região excluída da Galileia; quis também humanizar esta cidade para que ela fosse sol de justiça e paz para todos os povos. Esta é a cidade que Deus deseja: uma praça da alimentação, uma mesa celebrativa para todos. A praça é de todos e todos podem ter acesso a ela, todos podem circular livremente, criar relações e convivência, fazendo a experiência de serem aceitos e reconhecidos como humanos. A mesa, no centro da praça, é lugar de hospitalidade, de festa e de memória, lugar da partilha do pão e dos frutos da terra. Ali ninguém passa fome. Compartilhar a mesa é o grande símbolo da convivialidade, da reconciliação e da inclusão. O ritual da mesa rompe as distâncias e garante a proximidade, estabelece o estreitamento dos vínculos com o diferente. Junto à mesa, cada um se coloca diante do outro, não importando as diferenças de vida, de opções. A comunhão acontece por meio de um gesto que não é de poder, mas de esvaziamento, não é de apropriação, mas de partilha, não é de fechamento, mas de abertura das mãos que acolhem, que distribuem… A mesa da refeição se torna lugar de humanização do ser humano. Espaço de verdadeira reserva de humanidade. Muitos são aqueles que sabem abrir as mãos, partir o pão, saciar a fome do irmão. Com o gesto do “re-partir” se estabelece uma rede de relações entre as pessoas que aceitam conspirar, co-inspirar,o mesmo ar, o mesmo sonho, a mesma causa. E nada fica como estava… encantamento que faz ressuscitar a vida que já estava morta; refeição que transforma os desertos em mananciais de água. Fazer memória da entrada de Jesus em Jerusalém pode ser uma ocasião privilegiada para transitarmos por nossa Jerusalém interior, um bom espaço onde encontrar a nós mesmos, identificar-nos com os diferentes personagens e sentir-nos parte daquela história. O relato da Paixão de Jesus revela ser também a história de cada um de nós. Porque, afinal de contas, é uma história que aconteceu no passado e continua acontecendo também hoje, em nossa interioridade. E é a partir do hoje que nós temos de vivê-la, numa atitude contemplativa. E é a partir de nós, e não a partir daqueles personagens de então, que teremos de assumi-la. Vamos, então, com Jesus montado num jumentinho, transitar pelas ruas de nossa Jerusalém interna, reconhecendo os diferentes personagens que ali atuam e que significam diferentes atitudes vividas por cada um de nós. Cada personagem do evangelho é um espelho onde nos vemos. Jerusalém não é só uma cidade geográfica, situada na Palestina. Domingo de Ramos nos motiva a fazer o percurso em direção à nossa Jerusalém interior. Mas, para descer em direção a esta cidade, é preciso despojar-nos da vaidade, do prestígio e do poder, montado no jumentinho da simplicidade. Nossa Jerusalém interior é também lugar das contradições e ambiguidades; ali dentro experimentamos a trama de relações conflitivas, ali nos deparamos com as angústias, carências e dúvidas… É preciso cuidar o coração da nossa “Jerusalém interior”, esvaziá-lo, limpá-lo, aquecê-lo, transformá-lo em humilde e acolhedor espaço, para que o Espírito do Senhor possa aí descer e habitar, transmitindo-lhe vida, luz, calor, paz, ternura… É preciso voltar a pôr o “coração de Deus no coração de nossa Jerusalém”. Faz-se necessária uma opção corajosa, como Jesus, para entrar e estar no interior de nossa Jerusalém, para aí descobrir o verdadeiro coração de Deus, que pulsa no ritmo dos excluídos, dos sofredores, dos sedentos. A Campanha da Fraternidade deste ano quer despertar em nós uma sensibilidade solidária com aqueles que são vítimas de uma estrutura social e política que concentra os bens nas mãos de poucos, de maneira especial os alimentos. “Fraternidade e fome” denuncia a vergonhosa chaga social dos famintos em um país que é grande produtor de alimentos. A fome clama aos céus e ressoa em nosso coração; ela é expressão de uma profunda incoerência dos cristãos que se dizem seguidores d’Aquele que veio multiplicar os alimentos. Estamos muito distantes das primitivas comunidades cristãs que “tinham tudo em comum, partiam o pão pelas casas com alegria e simplicidade de coração” (At 2,46). Nosso coração deve se revelar como “praça da alimentação”. O lema da Campanha da Fraternidade deste ano – “dai-lhes vós mesmos de comer” – nos revela que nosso interior é uma reserva de

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