Escuta, fala, pensamento na prática educativa e pastoral

Como articular pensamento, escuta e fala na prática educativa e pastoral? Vamos tecer algumas ideias e considerações que, certamente, terão como destinatárias aquelas pessoas que orbitam os ambientes formais da educação: a escola com seus educadores e estudantes. Iniciamos, contudo, propondo o tema do “silenciar”. Ponto de partida para o exercício do conhecimento de si mesmo, fonte de todo o conhecimento, segundo antiga tradição filosófica. Silenciar é uma autêntica sabedoria, atestada no tesouro herdado de culturas milenares e tradições religiosas: silenciar é uma via que nos permite, mesmo quando ainda é algo simples e superficial, dar-nos conta de nós mesmos. Não há oração (pessoal ou comunitária), prática espiritual ou de meditação e contemplação (e, por que não dizer, não há aula ou produção e aquisição de conhecimentos) que se iniciem sem um gesto e convite ao silêncio interior. Pelo silenciar a si mesmo, as sensações que transitam por nosso corpo, concatenadas ao ritmo da respiração e aos numerosos pensamentos que nos habitam e passeiam pela mente são percebidos, possibilitando uma acolhida serena dessas moções e movimentações interiores, aceitando-as e mesmo as serenando. Não à toa, no espaço educativo da sala de aula, professores e estudantes sabem com clareza: a aula só começa, o conhecer só se torna viável de ser partilhado com o ambiente adequado para tal, com corações e mentes minimamente atentos, com o pensamento e a vontade situados no momento e espaço presentes, corpos relativamente confortáveis, ocupando espaços apropriados e geralmente assentados. Com essas condições preenchidas, a aula começa, os saberes são partilhados e geram-se novos pensamentos, conexões e reflexões. Caso contrário, restam os barulhos, ruídos, distrações, conversas paralelas e resultados aquém das expectativas, além de muita energia despendida sem uma direção acertada. É útil a todo estudante começar o dia de estudos verificando sua agenda, colocando-se de modo consciente em relação às matérias, conteúdos, aulas do cronograma ou, numa linguagem mais atualizada, passando a limpo o check-in daquilo que está previsto para o dia. Isso já introduz certa sintonia com os afazeres, trazendo foco e atenção, favorecendo a presença atenciosa aos temas, conceitos, atividades propostas, predispondo a vontade e a determinação em tomar parte ativamente do momento presente, com suas informações novas e conhecimentos construídos e adquiridos no conjunto das atividades em aula. Estudar é um ato da vontade! Criando as condições favoráveis para essa vontade autodeterminada, o pensamento se orienta melhor e adere com mais ênfase aos objetivos do conhecimento, evitando ficar à deriva de distrações diversas que sempre se apresentam ao longo das atividades escolares e são, de certo modo, algo normal e comum, com os quais lidamos diariamente. O exercício e a prática do silêncio interior, como fonte de conhecimento de si mesmo, ampliam e favorecem, de algum modo, a capacidade de escuta do outro. Fala-se muito em “comunicação não violenta” ou comunicação empática, entendendo-se, com isso, que há modos de nos comunicarmos, utilizando palavras, expressões, tons de voz e atitudes que favorecem a comunicação entre as pessoas e salvaguardam o respeito e até mesmo a compreensão e sensibilidade necessárias entre os interlocutores. Mais que uma técnica ou escolha de palavras, a comunicação tem empatia quando considera que as pessoas afetam umas às outras e elas estão, portanto, inseridas num círculo ético e afetuoso. Podemos dizer tudo, considerando a necessidade de compreender que aquilo que foi dito seja comunicado com responsabilidade própria (sem culpabilizar o outro), considerando o interlocutor como um agente da comunicação, transmitindo as ideias com respeito, honestidade e verdade. Promover a escuta e a comunicação com empatia constitui prática imensamente valiosa no âmbito da educação e das ações pastorais. Aliás, pode-se afirmar que escutar e se comunicar com empatia são práticas, em si mesmas, de teor pastoral, pois se situam e seguem a inspiração de Jesus, que falava às multidões e a cada um utilizando-se de uma comunicação que fazia “arder os corações”. Suas palavras eram ditas com autoridade, reconhecidas e atestadas por sua prática e seu jeito de ser. Jesus se colocava voluntariamente à disposição e atitude de escuta de quem se aproximava dele, quer seja para pedir por saúde e bem-estar, ou a partir de um gesto de conversão. Igualmente escutava aqueles que se aproximavam por curiosidade em vista dos chamados milagres realizados por ele, ou até mesmo quando o interrogavam apenas para testar seus conhecimentos e sua fidelidade à Lei de Moisés e aos costumes do Templo. Invariavelmente, Jesus ouvia/escutava as pessoas, dedicando-lhes tempo e atenção. Por diversas vezes, é dito sobre ele nos evangelhos: sentia compaixão dessas pessoas, alegrava-se com elas por acolherem o evangelho e as exortava, procurando e até encontrando nelas algo de melhor, alguma abertura para acolherem a si mesmas, o outro e à própria experiência de Deus por ele revelada. Por fim, ainda vale dizer: saímos há pouco de uma pandemia global de covid-19, cujos efeitos continuam sendo estudados e compreendidos. Ela nos afetou a todos, de modos diferentes. Passamos por medos, dúvidas, perdas, restrições e muitas sensações e sentimentos contundentes e confusos. A pandemia, como fenômeno biológico, passou, mas seus efeitos ainda são sentidos nos espaços de convivência e aprendizagens (famílias, escolas, igrejas, grupos de amizades e interações sociais). Pais e mães, crianças, adolescentes e jovens, professores e demais profissionais das escolas, agentes de pastoral nas comunidades e igrejas ainda lidam com esses efeitos. Temos ansiedades e fragilidades diversas ainda atuantes nas vidas de tantas pessoas. Dificuldades econômicas, emocionais e até mesmo correlacionadas à saúde do corpo e da mente. Um tempo que nos convida ao cuidado com a vida e com o bem-estar de si mesmo e do outro. Um tempo, portanto, de escuta redobrada das palavras que são ditas e que saem das bocas vindas diretamente dos corações, como um pedido de solidariedade, e até mesmo daquelas que não são proferidas, mas se manifestam nos sinais, comportamentos, lacunas e vazios que esperam ser preenchidos com afeto, empatia, solidariedade e compaixão. Que nossas palavras e escutas, que nossos pensamentos nos movam na mesma direção, fazendo-nos aptos a acolher os que
Maria, mulher da “memória agradecida”

“A minha alma engrandece o Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador” (Lc 1,46-47) Maria foi assunta ao céu porque desceu ao mais profundo de sua humanidade e da humanidade dos outros. A Assunção nos revela que ela foi humana por excelência; toda a sua humanidade foi atravessada pelo divino: nela não havia resquícios de ego inflado, de vaidade, de busca de prestígio e poder. Reconheceu-se como “humilde serva” porque desceu ao “húmus” de sua vida e aí deixou-se conduzir por Aquele que entra na história de cada um pelo lado da fragilidade, limitação, pobreza… Ela viveu a assunção em todos os momentos de sua vida, porque se sentia envolvida pela presença misericordiosa e providente de Deus. Toda a vida de Maria foi “assumida” por Deus porque ela cuidou da vida, colocou sua vida a serviço da vida, ativou todos os seus recursos de vida… Vida aberta, comprometida, vida que se fez visita e se deixou visitar. Maria “desapareceu” no divino porque mergulhou no humano. Sua humanidade foi plenificada. Por isso, a Assunção é uma vitória solidária: nela, todos seremos “assumidos por Deus”. Esta é uma realidade que não acontecerá apenas no fim dos tempos; é realidade sempre atual: já vivemos em Deus, n’Ele nos movemos e existimos; Ele nos envolve continuamente com sua providência, misericórdia e cuidado. Vivemos, então, em contínuo “estado de assunção”. Portanto, a Assunção de Maria diz respeito a todos nós; todos estamos implicados neste mistério; experimentamos a assunção através de dois movimentos: No primeiro, vivemos a assunção quando descemos ao mais profundo de nossa humanidade, às raízes de nossa existência. Há muitos recursos, dons, potencialidades, desejos nobres, inspirações, beatitudes originais, presentes em nosso interior e que querem emergir, elevar-se… A assunção começa em nosso interior quando o “que há de divino em nós” se expande, plenificando e dando sentido à nossa existência. Deus assume tudo o que é humano em nós e ilumina, plenifica… Nada do que é humano lhe escapa; Ele nos eleva, nos faz planar sobre suas asas de águia, para ampliarmos nossos horizontes, nossa visão da realidade… Com sua Graça, desperta e ativa todos os nossos dinamismos e potencialidades internas. Quem vive a assunção sonha alto, deseja grande, torna-se criativo e um eterno buscador. Sua vida torna-se oblativa, descentrada, é movimento de saída de si… A assunção o faz viver com os pés plantados no chão da vida e da história e, ao mesmo tempo, o faz transcender, romper fronteiras, ir além de si mesmo… Quem não se deixa inspirar pelo mistério da assunção limita-se a uma vida “normótica”, repetitiva, mecânica, estreita, atrofiada… Perde o sabor da vida, trava sua criatividade e mata sua capacidade de sonhar. O segundo movimento despertado pelo mistério da Assunção é este: a partir de uma interioridade expandida a pessoa se eleva na direção do outro, através do serviço solidário, da presença compassiva e do compromisso eficaz na transformação da história. A assunção move a pessoa a reforçar os laços, alimentar a comunhão, mobilizar a viver a cultura do encontro; a assunção faz romper fronteiras geográficas, sociais, culturais, religiosas… conclamando à vivência da fraternidade universal. Ela abarca a humanidade inteira. Porque parte do chão da humanidade, a assunção nos humaniza e nos capacita a criar mediações humanizadoras. Não é possível crer na assunção da humanidade se nos deixamos levar pela cultura da aparência, do ódio, da intolerância, da violência… Quem entra no fluxo desses dois movimentos da Assunção sente despertar em si uma profunda gratidão; brota de seu coração e de seus lábios um novo “magníficat”, onde reconhece a ação criativa de Deus, em si mesmo, nos outros e na criação… Proclama que Deus fez, faz e fará maravilhas nele(a), por ele(a), através dele(a)… Vive com vibração e intensidade porque sente que tudo é Graça, de graça, envolvido pela graça… Assim, celebrar a Assunção é entrar no fluxo da gratidão que Maria canta no seu “magnificat”. É modo de ser e viver inspirado na vida de Maria; é preciso nos situar de “maneira mariana” diante de nossa história. “O Todo-Poderoso fez grandes coisas em meu favor”, é uma exclamação que Lucas põe nos lábios de Maria para fazê-la nossa e repeti-la com frequência. Quando algo ou alguém nos emociona, não podemos evitar expressar esse sentimento. O regozijo não é completo se não o compartilhamos. A experiência prazerosa de um Deus que é Misericórdia e Santo fez brotar os mais belos salmos e orações que nos foram legados, cheios de benção e assombro agradecido. A gratidão perpassa o Magnificat e é o sentimento mais nobre que brota das profundezas do coração do ser humano, ao se sentir cumulado de tantos dons. Todos temos experiência que a nossa história carrega lembranças de fatos e de vivências negativas: crises, fracassos, rejeições, erros, pecados… Os desencontros, quebras e rupturas… costumam deixar feridas. Tudo isso pesa na memória e continua influenciando negativamente no presente. Com isso, ela se torna “memória mórbida, doentia”: depósito de rancores, ressentimentos, hostilidades…; ao se fixar no passado, a “memória mórbida” alimenta remorsos, sentimentos de culpa, desânimo, angústia…, embotando a vida, queimando energias, paralisando a pessoa e não abrindo futuro de sentido. Pessoa doente na memória é doente no seu coração, na sua afetividade, nos seus sentimentos… Se a memória não é “evangelizada”, ela continua remoendo aquilo que aconteceu, num desgaste muito grande de energia. Não há mudança e conversão se não houver mudança e conversão da memória. Somente através da “memória redentora”, a pessoa é capaz de se colocar diante do passado, de modo livre e aberto, dando-lhe um novo significado. A memória sadia não muda o passado, mas o “re-corda” (coloca de novo o coração) de modo novo e inspirador. A memória resgata referências, cura feridas, reconcilia-se com a vida e consigo mesma, com as próprias riquezas e fraquezas, com o próprio passado; ela tem sua função de lugar santo do louvor e da gratidão, pois ajuda a tomar consciência dos benefícios recebidos e possibilita ter acesso às recordações não neutras,
Santa Dulce dos Pobres: inspiração para a verdadeira caridade

Em 26 de maio de 1914, nasceu o “Anjo Bom da Bahia”, batizada como Maria Rita de Souza Brito Lopes, mais tarde irmã Dulce. Desde cedo, já dava mostras de seu grande amor por Jesus que se revela sobretudo nos marginalizados, excluídos pela sociedade, pois os abrigava e deles cuidava em sua própria casa. Ao encontrar no irmão o rosto do “Cristo sofredor”, ela viveu plenamente o Evangelho em sua plenitude, dedicando sua vida à causa dos pequeninos do Senhor. Para isso, irmã Dulce erigiu escolas, hospitais, asilos. Conta-se que até um galinheiro antigo ela o transformou, por seu amor a Jesus que tudo transforma e renova, em um hospital para atender os desvalidos da sociedade. O amor a Jesus é capaz de mudar muitas realidades. Para isso, contudo, é necessário viver a misericórdia com o outro, e isso se faz no contato com o outro, compadecer-se da dor do outro, sentir junto, ser o próximo do outro; talvez o único evangelho, o evangelho vivo, que alguém possa ter contato… O Papa São João Paulo II recordava o dito “as palavras convencem, mas os exemplos arrastam”. Isso significa que um gesto vale mais que mil palavras. Precisamos acolher mais, sermos mais humanos, menos individualistas, olhar para a dor do outro, ter empatia. Isso vale mais do que mil discursos teóricos… Santa Dulce dos Pobres, como é chamada, é um sinal que indica o caminho seguro para Deus: o próximo. Que seu exemplo de vida e missão inspire nossa sociedade de hoje, cada vez mais materialista e apressada, individualista e competitiva, para que possamos viver o que o Evangelho ensina. Como diz o Papa Francisco, precisamos de mais santos nos dias de hoje, pessoas que ajam com misericórdia e sejam portadoras da “alegria do Evangelho”, Evangelho que, além de ser anunciado, é preciso ser vivido. Santa Dulce dos Pobres, rogai por nós! Diácono Luciano Ferreira SilvaDiocese de Ponta Grossa-PR. _______________________________________ O serviço da caridade “A natureza íntima da Igreja exprime-se num tríplice dever: anúncio da Palavra de Deus (kerygma-martyria), celebração dos sacramentos (leiturgia), serviço da caridade (diakonia). São deveres que se reclamam mutuamente, não podendo um ser separado dos outros” (Papa Bento XVI, Encíclica Deus caritas est, 25). A caridade é um dever do cristão, uma ação que expressa a experiência da solidariedade em relação ao outro que se encontra impossibilitado de garantir sua condição mínima de sobrevivência e, sobretudo, sua dignidade humana. Muitas pessoas confundem o significado de assistencialismo e caridade, utilizando-as por vezes como sinônimos. Assistencialismo: consiste no conjunto de ações em prol do outro, porém não se preocupa com a erradicação das causas sociais. Como doutrina, defende que não há nada a fazer para resolver os problemas, age somente em ações paliativas, ou seja, no efeito. Caridade: a caridade, por sua vez, identifica-se com o amor de Deus, portanto fazer caridade é ter as mesmas atitudes, as mesmas ações que Deus teria diante da miséria e pobreza. É a prática do Evangelho. O amor a Deus jamais vem desvinculado do amor ao próximo. Não é somente um sentimento de querer bem as pessoas. O amor cristão se manifesta em gestos e atitudes que promovem o bem e a felicidade do outro. Não se pode imaginar um seguidor de Jesus que não se revista dos gestos de amor e de caridade, marcas da vida do Mestre no meio de nós. Ele amou os pobres e os pecadores, acolheu quem era marginalizado pela sociedade da época. Cristo fez-se amigo dos excluídos e cuidou dos famintos. A caridade do Mestre Jesus era presente em cada uma de suas atitudes e ações de promoção da vida e da dignidade da pessoa humana. As obras de caridade estão presentes na Igreja Católica, desde sua fundação. Um exemplo foi o surgimento do diaconato. Para que os apóstolos se dedicassem integralmente à pregação, criou-se a função diaconal para suprir a necessidade de servir as pessoas mais necessitadas da época: as viúvas e os órfãos (cf. Atos dos Apóstolos 6,1-7). Os santos também foram aqueles que dedicaram suas vidas em prol da caridade, como Santa Dulce dos Pobres, Santa Tereza de Calcutá, São Vicente de Paulo, e milhares de outros santos e beatos da Igreja. As pastorais sociais em conjunto com as Cáritas diocesanas são a expressão da caridade e da solicitude da Igreja com as situações nas quais a vida está ameaçada. São atividades pelas quais a Igreja realiza a sua missão de continuar a ação de Jesus Cristo junto a diferentes grupos e realidades. No capítulo 25, versículos 31 a 46, de São Mateus, encontramos o texto conhecido como a “parábola do juízo final”. Para nós, cristãos, deve ser, acima de tudo, assumir a causa dos que mais precisam. Essa foi a escolha de Deus, essa foi a causa nobre de Jesus, que decidirá a participação ou não participação do Reino. A bondade gratuita revela-se quando a gente se dedica aos que não podem retribuir. É na doação ao “último dos filhos de Deus”, o faminto, que damos provas de uma misericórdia evangélica e divina. Façamos da caridade um estilo de vida, uma regra de ouro. Diácono Joanir OliveiraDiocese de Ponta Grossa-PR.
Sobre PAI, PAIxão e comPAIxão

Maria José Brant (Deka), assistente social, analista de políticas públicas na Prefeitura de Belo Horizonte-MG, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.
Travessia existencial para a outra margem

“Jesus mandou que os discípulos entrassem na barca e seguissem, à sua frente, para o outro lado do mar…” (Mt 14,22). Jesus, “homem do mar”. Os evangelhos o apresentam como carpinteiro/operário da construção. Mas tinha amigos pescadores e com eles aparece nos evangelhos, passando, várias vezes, de um lado a outro, pelo mar da Galileia. Jesus não vive só no “terreno sólido”; Ele vive também “no terreno do mar”, sai dos limites conhecidos, aventura-se ao novo, abre-se ao diferente… O evangelho deste domingo nos fala de uma realidade muito humana: somos seres de travessia e vivemos contínuos deslocamentos, desde o ventre materno. Saímos de lugares estreitos em direção a espaços mais amplos, até a travessia definitiva. Toda travessia tem um “para que” (um sentido); ela aponta para algo maior, inspirador. O perigo é deixar-nos determinar pelo medo, bloquear nosso espírito aventureiro e nos “acostumarmos” com a margem conhecida. O relato sobre a travessia do mar em Mateus nos revela que há muitas tormentas e ameaças ao nosso redor. Em meio à tempestade, levantam-se ondas de obscuridades sem sentido, de medos paralisantes, de dúvidas angustiantes… Sopram outros ventos tempestuosos que nos ameaçam, arrastando tantas seguranças que nos sustentaram, quebrando tantos salva-vidas aos quais nos agarrávamos… Mas, em meio às tempestades, urge não perder a calma, ter a coragem de “permanecer na barca” e não permitir que o ruído dos ventos nos vença, que os relâmpagos nos ceguem, que as ondas nos levem… “Permanecer na barca” é a palavra-chave: permanecer firmes nos compromissos assumidos, nos passos que buscam abrir caminhos novos, ainda que seja arriscado; permanecer ancorados na fidelidade a Jesus e a seu Reino e consentir que os ventos levem todos os nossos velhos padrões mentais, ideias fixas e atitudes petrificadas, preconceitos e tudo o que já está caduco e que não nos impulsionam para a outra margem…; permanecer apenas com a pessoa de Jesus e seu sonho como o melhor legado que podemos oferecer aos nossos contemporâneos, sacudidos por tormentas que os afundam sem poderem vislumbrar um novo horizonte e um novo sentido para suas existências. Na tempestade também é necessário “soltar amarras e içar velas”, ou seja, atrever-nos a “viver no Vento”. Aproveitar dos “ventos contrários” para transformá-los em “ventos favoráveis” que conduzam nossa vida para a “outra margem”. Soltar as amarras e âncoras de nossos apegos, de nosso consumismo, de nossa prepotência, afã de domínio, fundamentalismos, patriarcalismo, machismo… Precisamos perder o medo dos novos ventos e içar as velas das novas ideias, das visões arrojadas, dos projetos criativos, da riqueza da pluralidade de culturas, religiões, raças, deixar-nos mover pelo vento dos movimentos de libertação (povos em desenvolvimento, negros, indígenas, os sem-terra, os movimentos ecologistas, pacifistas, feministas…), enfim, acolher o vento que nos impulsiona em direção ao novo e diferente… A barca de nossa vida naufragará na estreita calma de mares mortos se não formos capazes de desatar os antigos nós de marinheiros que impedem içar as velas para receber os novos ventos da história. Durante a tormenta, aprender a recordar que, depois da tempestade, vem a calma, para não perder assim o horizonte nem a esperança. Afinal, somos “seres de travessia”. Temos entranhas ardentes de voltar ao alto-mar, a disposição de enfrentar tormentas, o desejo de descobrir terras desconhecidas, a exploração do novo, a paixão por um horizonte de sentido. Tantos anos ancorados em portos seguros, com ritmos e horários prefixados, sem criatividade e sem intuição…; agora é tempo de nos perder no mar, com a proa voltada para a imensidade… Este é o desafio: despojar-nos do medo, romper os limites e confiar no Sopro, sutil ou tormentoso, que continua nos conduzindo para onde não sabemos. Reconhecer o temor nos impulsiona fortemente a atravessá-lo, a abandonar desculpas esfarrapadas, a não nos deixar prender pelos custos previsíveis. Continuar quebrando nossas pobres seguranças, despojar-nos daquilo que nos alivia e sair, sem alforje, nem duas túnicas, sem sandálias… A travessia traz e leva inovação. Deslocar-se, querendo ou não, implica uma mudança de posição, uma alteração do ângulo habitual, uma exposição ao diferente, um amadurecimento do próprio olhar, um reconhecimento de que alguma coisa nos falta, uma adaptação a realidades, tempos e linguagens, ou a descoberta de uma incapacidade para tal; um confronto indispensável, um diálogo tenso ou deslumbrado que nos deixa, necessariamente, com uma tarefa futura (Card. Tolentino). O primeiro desejo de chegar à outra margem nasce de dentro, do coração, que sabe estar longe de seu centro e entende sua missão de busca e peregrinação interior, de colocar-se em movimento… Sair da margem conhecida, “velha”, rotineira… para encontrar a nova margem: lugar de relação, de questionamento, de criatividade… A outra margem: lugar provocador, incitador e que desperta curiosidade… É aqui que brotam as grandes experiências religiosas, as intuições, os projetos ousados, as ideais vitais. Caminhar para a outra margem é sair do centro, da segurança, da acomodação… e ir em busca das surpresas, das novas descobertas; implica arriscar, ter ousadia, não ter medo de caminhar para os “confins da terra”, para regiões desconhecidas em seu próprio interior… Os poetas, artistas, místicos… são aqueles que fazem a experiência da “outra margem”, vislumbram o outro lado, tocam as raízes mais profundas do próprio ser. O seguidor de Jesus tampouco sabe o que há do outro lado. A ele, como aos demais, lhe custa ver claramente. No entanto, considera que a outra margem é talvez diferente, mas tão apaixonante como esta margem onde ele está; e então, decide animar-se a cruzar a vastidão do mar interior. Em resumo: nessa experiência não se trata tanto de “chegar”, mas de “ser levado”, pois nossos remos não servem para vencer a distância e a correnteza, e precisa do vento benfeitor que sopre, dirija, empurre e persevere, até a outra margem. No nosso processo espiritual, queremos desenvolver esta capacidade de ver quem nós somos e onde estamos, sem o temor de nos defrontarmos com respostas desagradáveis. Somente partindo da realidade de nós mesmos, que é sempre uma realidade rica e original, é que poderemos crescer como
Violência e o poder do Estado

Não há um dia em que, ao assistir ou ouvir noticiário, não apareça um caso de violência. Conforme o artigo 5º da Declaração Universal dos Diretos Humanos, “Ninguém será submetido a tortura nem a penas ou tratamentos cruéis, desumanos ou degradáveis”, e o artigo 9º estabelece: “Ninguém pode ser arbitrariamente preso, detido ou exilado”. Porém a sociedade brasileira tem assistido a vários casos conhecidos nacionalmente e que têm repercutido internacionalmente, tanto de civis quanto de militares em serviço. Por que tanta violência? O que tem violado os direitos humanos de tantos cidadãos brasileiros? A partir dos estudos feitos sobre o Período Moderno, constata-se que os indivíduos controlados pelo Estado passam a serem vistos como meros objetos “mercadológicos”, gerados por um “biopoder”, ou seja, o econômico prevalece sobre o corpo social e cultural, sendo a violência e a exploração como consequências. Em O mal-estar na civilização, o psicanalista Sigmund Freud já alertava para os problemas psicológicos que os indivíduos da Modernidade enfrentariam devido ao poder tanto do Estado quanto da religião, o que seria constatado, mas, ultimamente, também poderes paralelos ao governo oficial. Said, que escreveu o Imperialismo do Ocidente, critica os desastres não apenas econômicos, mas também culturais, por quererem conceber o mundo como “aldeia global”, sendo que as crenças, os costumes, as economias locais, próprias das famílias, bem como a linguagem não foram respeitados nas aldeias ou comunidades. Também verificamos que o massacre cultural dos povos a partir da globalização gerada pelo capitalismo não é nem sempre pela violência física, mas ideológica que existe por trás da mídia. Esta busca manter uma ideia de “aldeia global” por meio da tecnologia, agora informatizada, causando a violência às crenças dos indivíduos, à sexualidade, desestruturando indivíduos e suas famílias que, por causa da produção, terão as energias direcionadas à satisfação de determinada classe. Como saber e combater tanta violência que atinge nossa sociedade brasileira? De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), violência é definida como “o uso intencional da força física ou do poder, real ou em ameaça, contra si próprio, contra outra pessoa, ou contra um grupo ou uma comunidade, que resulte ou tenha grande possibilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação”. A violência física é a que mais atinge diretamente o corpo. A agressão física utiliza a força; a lesão é visível e, por isso, ficam os hematomas, faz-se corpo de delito. Com a tecnologia, a violência psicológica tem sido muito praticada, de modo direto ou indireto. Na violência psicológica direta, o agressor usa palavras de humilhação, por vezes, diretamente à pessoa, com palavras de baixo nível, que baixa a autoestima, como acontece com o preconceito racista, xingamentos. A indireta pode ser por meio de ameaças, imposição de medo à vítima. A violência ideológica pertence a um conjunto de ideias sem fundamentação transmitidas pelos veículos de comunicação midiática; propagandas enganosas que projetam nos indivíduos falsas ideias do que comprar, ter coisas que não são necessárias ou promessas de felicidade, ou de liberdade que não condizem com o mundo real. Outra violência cometida é a financeira, muito comum, praticada por instituições bancárias, estimulando aposentados e, ou, pensionistas a fazer empréstimos consignados ou aplicações desnecessárias, descontando dos salários, que já são mínimos para a sobrevivência, muitas vezes, de uma família inteira. Essa violência também é praticada por familiares quando utilizam o cartão de crédito do parente ou pessoa amiga, “sujando” o nome do titular por faltar com o compromisso de pagar, dentro do prazo, o que deve. Ainda há a violência afetiva, quando a pessoa é privada de ter contato parental. Isso é muito comum em internações arbitrárias de pessoas idosas, que querem viver independentes, mas, por receberem um benefício, são “cobiçadas” por algum ente querido ou instituição, ou após fazerem a doação de propriedades para os filhos, são levadas para casas de repouso, muitas vezes clandestinas. A violência sexual, que ocorre nas relações hétero ou homossexuais e visa a estimular a vítima ou a utilizá-la para obter excitação ou práticas eróticas, pornográficas, impostas por aliciamento. Infelizmente, a violência está em toda parte. A violência doméstica tem aumentado o feminicídio, a violência escolar, como o bullying e outros preconceitos. Esta última gera revolta contra a escola, causando vítimas inocentes, com massacres de crianças e profissionais da educação. A precarização dos professores tem deixado a categoria doente e é cada dia mais desafiadora em relação aos recursos pedagógicos. A Declaração Universal de Direitos Humanos estabelece, em seus artigos, que “toda pessoa tem direito à vida, à liberdade, à segurança”, o que deve garantir formas de estimular uma proteção coletiva para todos. Para isso, devemos educar para a empatia, o respeito, a solidariedade; criarmos coragem para denunciar ameaças e torturas, se for preciso. Discar 100, discar 180 ou 190. Procurar conhecer a Comissão Estadual dos Direitos Humanos, Conselho Estadual da Mulher, Conselho Municipal da Criança e do Adolescente ou Conselho Tutelar, Ministério Público. Diante de todo poder estabelecido pela globalização, abordar a necessidade de reverter os “monopólios” da monocultura do saber, da produtividade, da mercadoria, da economia, das diversidades e compreender a ecologia do saber, da produtividade, das relações das diferenças, entre outros aprofundamentos, sugere o entendimento de diversas facetas das culturas, do ser humano como uma forma de buscar um convívio social tolerante, fraterno, em que, de fato, todos possam gozar dos direitos, sem violência. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia, especialista em Ensino de Filosofia, graduada em Filosofia e Pedagogia, e Teologia pelo Mater Ecclesiae, filiada à ABA, APEOESP, SBPC, Sintram, Aproffib, Pastoral da Pessoa Idosa, ligada à Arquidiocese de Florianópolis, e professora de Filosofia na Rede Pública Municipal de São José-SC.
Injúria racial: uma violação dos direitos humanos e um desafio para a sociedade

A injúria racial é caracterizada como uma ofensa verbal, escrita ou gestual direcionada a uma pessoa ou grupo, com base em sua raça, cor, etnia, religião ou origem. Essa forma de discriminação é prejudicial e contribui para a perpetuação de estereótipos negativos, além de criar um ambiente de ódio e exclusão. É um crime que afeta não apenas a vítima, mas toda a sociedade e tem causado grande impacto, gerando discussões sobre igualdade, respeito e diversidade. No Brasil, houve avanços na garantia dos direitos humanos ao longo dos anos, no entanto, nosso País ainda é uma terra de desigualdade e violações à vida humana. É importante ressaltar que a injúria não se baseia apenas em ofensas verbais, mas também pode ocorrer por meio de gestos, escritos, desenhos ou qualquer outra forma de manifestação discriminatória. Desde 12 de janeiro de 2023, com a sanção da Lei n.º 14.532, a prática de injúria racial passou a ser expressamente uma modalidade do crime de racismo, tratada conforme o previsto na Lei n.º 7.716/1989. Até então, a injúria racial estava prevista apenas no Código Penal, com penas mais brandas e algumas possibilidades que agora deixam de existir. A mudança foi importante por reconhecer que a injúria racial também consiste em ato de discriminação por raça, cor ou origem, que tem como finalidade, a partir de uma ofensa, impor humilhação a alguém. Consequências As vítimas de injúria racial sofrem não apenas danos emocionais, mas também psicológicos e sociais. Essa forma de violência pode abalar a autoestima, gerar ansiedade, depressão e até mesmo levar à exclusão social. Além disso, a injúria racial afeta negativamente a qualidade de vida das vítimas, prejudicando seu desenvolvimento pessoal e profissional. Impacto na sociedade Não é apenas um problema individual, mas também uma questão social. Ela contribui para a criação de um ambiente hostil e desigual, em que a dignidade e a igualdade de todos os indivíduos são violadas. Além disso, alimenta a discriminação e o preconceito, dificultando a construção de uma sociedade inclusiva e justa. Combate Para combater a injúria racial, é necessário um esforço coletivo e abrangente. Algumas medidas que podem ser adotadas incluem: – educação: promover a educação antirracista nas escolas e comunidades, visando a desconstruir estereótipos e promover a valorização da diversidade; – sensibilização: realizar campanhas de conscientização sobre a importância do respeito à igualdade racial, destacando as consequências negativas da injúria racial para toda a sociedade; – fortalecimento da legislação: garantir leis robustas e eficazes que combatam a injúria racial, com punições adequadas e mecanismos acessíveis de denúncia; – apoio às vítimas: estabelecer redes de apoio às vítimas de injúria racial, oferecendo suporte emocional, jurídico e psicológico. Conclui-se que a injúria racial é uma violação dos direitos humanos. Ela afeta a vida de muitas pessoas e prejudica o desenvolvimento de uma sociedade justa e inclusiva. É nosso dever combater essa forma de discriminação, promovendo a conscientização, fortalecendo a legislação e apoiando as vítimas. Somente assim poderemos construir um futuro em que a igualdade e o respeito sejam valores fundamentais para todos, independentemente de sua raça ou origem. Jociane da Silva PereiraProfessora no Colégio e Faculdade Sant’Ana, Ponta Grossa-PR.
Transfigurar nossa capacidade de escuta

“Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o!” (Mt 17,5) O apelo do Deus de Jesus a seu povo, a cada filho e filha é este: “escutar”. O maravilhoso “Shemá Israel”, que nossos irmãos judeus tanto repetem e veneram, esteve nos lábios de Jesus infinitas vezes ao longo de sua vida. Em seus lábios, sim, como bom judeu que era, mas sobretudo em sua vida, como uma atitude. De Jesus falamos mais de suas palavras e de seus feitos, o que Ele “fez e disse”. Quando nos referimos ao seu “fazer”, nós nos fixamos em suas curas, em seus gestos eloquentes como multiplicar o pão para alimentar a multidão, no gesto de lavar os pés dos seus discípulos, de devolver vida e força às pessoas alquebradas por enfermidades etc. E o que Ele “disse”, os textos canônicos e apócrifos conservam para serem rezados, estudados, repetidos diariamente em centenas de liturgias, nos corações orantes, nos estudiosos enamorados da Palavra… De Jesus falamos muito pouco de sua escuta. Jesus é “Shemá” em sua mais pura essência. Embora pareça que tenha falado muito, sempre nos inspira uma etapa longa de sua vida, antes de seu batismo, na qual vivia uma vida normal, como todo bom judeu, cujo guia foi a fidelidade ao “Shemá”. Jesus escutava seu Abba, sua realidade social e religiosa, e continuou escutando. E porque escutou, se tornou um buscador; encontrou João no deserto e o escutou. Depois de um tempo, tomou uma decisão, deixou-se batizar e imediatamente foi conduzido pelo Espírito ao deserto para escutar. O motor da atividade de Jesus foi a escuta da voz do Pai, dos textos revelados e do pulsar da vida. Assim como aconteceu com Jesus, ativar a capacidade de escuta é a que nos possibilita a entrada no mistério. A escuta é como um sacramento que nos unge para a trajetória do seguimento de Jesus, para a travessia que nos faz sair das pequenas ou grandes atrofias: maneiras de pensar, opiniões petrificadas e inamovíveis sobre Deus e os outros, atitudes petrificadas, moralismos doentios, culpas mórbidas… para poder caminhar em direção à plenitude de vida, que é a meta. Tal plenitude não é um lugar físico, é um “estado interior” que nos ajuda a descobrir a direção e a felicidade. Na mentalidade judaica trata-se da “Terra prometida”. Esta não consiste simplesmente em estarmos bem, mas em estarmos em comunhão com tudo, em descobrir que somos uno, que estamos conectados, que somos uns com os outros, que possivelmente passou por nossos pulmões o mesmo oxigênio que passou pelo resto da humanidade, que somos pó de estrelas…; logo, pertencemos ao infinito, ao cosmos e desfrutamos contemplando as estrelas. Somos família. Escutar é perigoso, subverte; e é libertador, pois nos arranca da estabilidade e da acomodação. Quem escuta sai de si e se põe em movimento. Escutar é conectar com o pulsar de tudo e sentir que é preciso ser pessoa de travessia para outra margem, pessoa capaz de soltar para acolher, para abraçar e acompanhar. A vida não é um mistério para aqueles que elegem caminhos seguros. Nossa vida começa a sentir o mistério quando escutamos e entramos em sintonia com a realidade e de sua mão nos deixamos introduzir em outro nível, o do “Shemá”, o da escuta da pulsação d’Aquele que é Presença providente e cuidadosa. A festa da Transfiguração nos anima a que nos tornemos homens e mulheres de “Shemá”, de escuta. Deixar que o longo tempo que Jesus se dedicou a escutar nos contagie; deixar que este aspecto de nossa essência configure mais e mais nossa identidade como pessoas “escutadoras”. A escuta mais profunda se realiza a partir da quietude e do silêncio interior. Como no lago sem ondas, em cuja superfície lisa se refletem as imagens, o ouvido interno capta o som de vida criada e criadora só quando os ruídos artificiais forem aquietados. É preciso afinar mais a capacidade de escuta interior para melhor sentir, discernir e optar. Ao escutar Jesus nos sentiremos movidos a sair de nosso conformismo, romper com um estilo de vida egoico no qual estamos, talvez, confortavelmente instalados, e começar a viver mais atentos à interpelação que nos chega a partir dos mais excluídos e desvalidos de nossa sociedade. Saber escutar nos liberta do fechamento indiferente, do fanatismo e do conservadorismo que aprisiona a vida; liberta-nos também da surdez cúmplice dos ruídos alienadores que bloqueiam os clamores que provêm da Terra machucada e dos irmãos violentados. O “ouvido evangelizado” nos permite abrir ao diferente, à palavra e ao silêncio, à brisa e ao rugir da tormenta. Através do ouvido podemos saborear a beleza das melodias da natureza (água, vento, árvores, pássaros…) e da criação artística. Um ouvido atento que possa perceber o Silêncio, um silêncio carregado de Presença, e o Mistério que pode ser nomeado de diversos modos: Transcendência, Ser, Energia Puríssima, Alá, Deus, Ser, Presença…; Jesus de Nazaré o denominou “Abba”, como expressão de sua experiência de relação amorosa. Saber escutar foi e continua sendo uma aprendizagem longa e difícil, que não termina nunca, e que vai nos conduzindo a um encontro com a Vida; portanto, a uma aprendizagem no caminho em direção ao amor. É preciso aprender o ofício de “escutadores/as”; escuta descentrada que nos coloca no lugar da outra pessoa, escuta para ativar os dois ouvidos: um atento às necessidades dos outros, e o outro atento às nossas próprias ressonâncias interiores. Por isso, é importante aprofundar no que significa fazer do ouvido um lugar para o encontro com o Ser, com a vida, com o Amor, porque isto supõe uma aprendizagem, requer arte e técnica, supõe transitar caminhos diferentes, cultivar um modo original de nos fazer presentes na realidade que nos envolve. É preciso afinar cada vez mais nossos ouvidos para poder escutar a voz dos sem voz, daqueles que já não tem nem forças para gritar, daqueles que perderam a esperança de serem escutados, daqueles que ficaram exaustos, atirados nos caminhos que eles acreditavam serem
Escutar com o ouvido do coração

O Papa Francisco propõe, em sua mensagem para o 56º Dia Mundial das Comunicações, que fixemos a atenção no “escutar”, atitude decisiva na comunicação para um diálogo autêntico. Estamos perdendo, no dia a dia, a capacidade de ouvir a pessoa que está à nossa frente. Ao mesmo tempo, damo-nos conta de que vivenciamos um novo e importante desenvolvimento no campo comunicativo e informativo (podcast e chat áudio), evidenciando que a escuta continua essencial para a comunicação. Ao ser perguntado a um terapeuta qual a maior necessidade do ser humano, respondeu: “O desejo ilimitado de ser ouvido”. O desejo de escutar é o que interpela a todos os que se sentem chamados a ser educadores, formadores, pais, professores, agentes de pastoral… Escutar com o ouvido do coração Na Bíblia, a “escuta” está intimamente ligada à relação dialogal entre Deus e a humanidade: “Shemá, Israel = escuta, Israel” (Deuteronômio 6,4). São Paulo, na Carta aos Romanos (10,17), afirma que “a fé vem da escuta”. A iniciativa é de Deus, que nos fala, e a ela correspondemos escutando-o. Entre os cinco sentidos, parece que Deus privilegia o ouvido, talvez por ser menos invasivo, mais discreto, deixando o ser humano mais livre. A escuta corresponde ao estilo humilde de Deus. Deus ama a pessoa: por isso lhe dirige a Palavra, “inclina o ouvido” para escutar. Nós, seres humanos, tendemos a fugir da relação, a virar as costas, “fechar os ouvidos” para não ter de escutar. Essa recusa de ouvir pode, muitas vezes, transformar-se em agressividade sobre o outro. O Senhor nos chama a uma aliança de amor, para que nos tornemos, plenamente, imagem e semelhança de Deus na capacidade de ouvir, acolher, dar espaço ao outro. A escuta é uma dimensão do amor. Por isso Jesus convida seus discípulos e nós a verificarmos a qualidade da escuta: “Vede, pois, como ouvis” (Lucas 8,18), sugerindo que não basta ouvir, é preciso fazê-lo bem. Só quem acolhe a Palavra com o coração “bom e virtuoso” e a guarda fielmente é que produz frutos de vida e salvação (cf. Lucas 8,15). Somente prestando atenção a quem ouvimos, àquilo que ouvimos, como ouvimos, cresceremos na arte de nos comunicar bem. É a “capacidade do coração que torna possível a proximidade” (Papa Francisco, Evangelii gaudium, 171). A escuta não tem a ver apenas com o sentido do ouvido, mas com a pessoa toda. A verdadeira sede da escuta é o coração. Santo Agostinho convidava a escutar com o coração (corde audire), a acolher as palavras, não exteriormente nos ouvidos, mas no coração: “Não tenhais o coração nos ouvidos, mas os ouvidos no coração”. A escuta como condição da boa comunicação O que torna boa e plenamente humana a comunicação é precisamente a escuta de quem está à nossa frente, face a face, a escuta do outro, com abertura leal, confiante e honesta. Na realidade, em muitos diálogos, efetivamente não comunicamos; estamos simplesmente à espera de que o outro acabe de falar para impor nosso ponto de vista. Na verdadeira comunicação, o eu e o tu encontram-se, ambos, “em saída”, tendendo um para o outro. A escuta é o primeiro e indispensável ingrediente do diálogo e da boa comunicação. Antes de se comunicar, é preciso escutar. O cardeal Agostinho Casaroli, perito da Santa Sé, falava de “martírio da paciência”, necessário para escutar e fazer-se escutar. A escuta requer sempre a virtude da paciência, juntamente com a capacidade de deixar-se surpreender pela verdade da pessoa a quem escutamos. Escutar-se na Igreja O ato de escutar é o dom mais precioso e profícuo que podemos oferecer uns aos outros. Nós, cristãos, esquecemo-nos de que o serviço da escuta nos foi confiado por Aquele que é o ouvinte por excelência e em cuja obra somos chamados a participar. “Devemos escutar através do ouvido de Deus, se quisermos falar através de sua Palavra. O primeiro serviço na comunhão que devemos aos outros é prestar-lhes ouvidos. Quem não sabe escutar o irmão, bem depressa, deixará de ser capaz de escutar o próprio Deus” (Bonhöfffer). Na ação pastoral, a obra mais importante é o “apostolado do ouvido”. Devemos escutar antes de falar, como exorta o apóstolo Tiago (1,19): “Cada um seja pronto para ouvir, lento para falar”. Oferecer gratuitamente um pouco do próprio tempo para escutar as pessoas é o primeiro gesto de caridade. Para saber mais: Mensagem para o 56º dia Mundial das Comunicações Sociais – Papa Francisco. Roma, 24 de janeiro de 2022. [LINK: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/communications/documents/20220124-messaggio-comunicazioni-sociali.html] Irmã Hermelinda Maria Ruschel, SSpSCoordenadora do Comidi (Conselho Missionário Diocesano) – Diocese de Ponta Grossa-PR, membro da Equipe de Comunicação SSpS Brasil.
Equipe de Espiritualidade realiza encontro no Rio de Janeiro

A Equipe de Espiritualidade da Província Brasil Norte das missionárias servas do Espírito Santo (SSpS) se reuniu, nos dias 21 e 22 de julho, no Colégio Imaculado Coração de Maria (CICM), no Rio de Janeiro-RJ. O primeiro encontro presencial do grupo teve como objetivo fomentar a interação entre os participantes e o aprofundamento na herança espiritual deixada por Santo Arnaldo Janssen e a geração fundadora. Como tem sido prática na Congregação das SSpS, a equipe também é formada por irmãs e leigos. A programação começou com a acolhida da Ir. Maria Inês Aragão, coordenadora. Por meio de videochamada, a Ir. Maria Percila Vieira, superiora da Província Brasil Norte, também saudou os participantes. Em seguida, houve uma reflexão sobre a parábola do semeador, narrada no Evangelho de Mateus (13,1-23). Cada um recebeu uma sacola com um pequeno recipiente, terra fértil, um galho espinhoso, uma pedra, sementes de girassol, pincel atômico e papel. Usando o material, todos deveriam expressar as impressões sobre a passagem. A partilha foi um momento muito rico e emocionante. A Ir. Maria Inês conduziu um estudo sobre o tema “Paixão pela missão em Arnaldo Janssen”. Foi uma oportunidade para conhecer melhor os fundadores e primeiros missionários e missionárias da Família Arnaldina. No sábado, as atividades começaram ainda na madrugada, quando a equipe se dirigiu ao mirante do Parque do Leblon, para acompanhar o nascer do sol. Espontaneamente, os participantes elevaram a Deus uma oração de louvor. Na sequência, houve um passeio por alguns pontos da Cidade Maravilhosa. À tarde, a equipe revisou o planejamento, destacando as prioridades para os próximos meses. Após a avaliação do encontro, a equipe participou da celebração da Palavra. A liturgia do 16º Domingo do Tempo Comum destacou a parábola do joio e do trigo, presente no Evangelho de Mateus (13,24-43). Como é costume na Família Arnaldina, também foi dirigida uma prece especial à Santíssima Trindade. O momento concluiu-se com a bênção e o abraço da paz. Alessandro Faleiro MarquesMembro das equipes de Comunicação SSpS Brasil e de Espiritualidade da Província SSpS Brasil Norte, diácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte.