Rede de Educação une formação humana e desempenho pedagógico

A Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo acredita que a melhor maneira de educar é alinhar o desenvolvimento das habilidades emocional, social e intelectual. Tem a segurança de que a metodologia adotada em cada um de seus colégios e creches faz deles uma ESCOLA VIVA. O que torna os colégios e creches da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo excelentes escolas é a formação de alta qualidade, nas várias dimensões essenciais, para o desenvolvimento pleno das pessoas. A excelência pedagógica é uma premissa da qual não abrimos mão e que, hoje, está diretamente relacionada ao desafio de formar jovens para o mundo, como ele é no século XXI, em constante transformação. Os colégios e creches da Rede formam, assim, uma ESCOLA VIVA, que sempre soube, em seus mais de 115 anos de prática educacional, conjugar em harmonia sua vocação humana ao desempenho pedagógico. O projeto educacional tem como seu primeiro referencial a filosofia da instituição, que é fundamentada nos valores cristãos. Como base, adota os quatro pilares da educação da UNESCO, as dez competências da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e as competências do ENEM.Cursos oferecidos em nossos colégios: EDUCAÇÃO INFANTIL ENSINO FUNDAMENTAL ENSINO MÉDIO Para coordenar o projeto educacional, cada unidade escolar mantém uma estrutura de gestão composta de: • diretor(a)-geral• diretor(a) educacional• gestor(a) administrativo(a)• coordenadores(as) pedagógicos(as)• coordenadores(as) de área• coordenadores(as) de segmento• coordenador(a) do Sistema Integral(nas unidades onde há Sistema Integral)• coordenador(a) missionário(a)• serviços de suporte educacional/administrativo VISÃOSer uma REDE de educação inovadora, reconhecida pela excelência acadêmica, que prioriza o desenvolvimento integral da pessoa humana. MISSÃOEducar crianças e jovens, à luz dos valores cristãos, para que sejam cidadãos conscientes, críticos e criativos, capazes de conviver com as diferenças e protagonistas na construção de uma sociedade justa e sustentável. VALORESNossos valores são fundamentados nos valores cristãos que norteiam nossa ação educacional: verdade, beleza, bondade, justiça e comunhão. Ir. Maria de Fátima Marques, SSpS, Diretora Presidente da Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo.
12 de fevereiro: Ir. Dorothy Mae Stang, mártir da América Latina

Irmã Dorothy Mae Stang nasceu em 7 de junho de 1931, em Dyton, Ohio, Estados Unidos. Quando jovem, entrou para a Congregação de Nossa Senhora de Namur. Veio para o Brasil em 1966, naturalizou-se brasileira e, desde a década de 1970, atuou na Amazônia, junto aos trabalhadores rurais. Fazia parte da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e defendia uma reforma agrária justa, por meio do diálogo com lideranças camponesas, políticas e religiosas. Em Anapu-PA, batalhou incansavelmente pela implantação de um projeto de desenvolvimento sustentável, que buscasse a harmonia entre as pessoas e a natureza. Mesmo ameaçada de morte, nunca se deixou intimidar. Procurava soluções duradouras para os conflitos relacionados à posse e à exploração da terra. Antes de ser assassinada com seis tiros, aos 73 anos, no dia 12 de fevereiro de 2005, declarou: “Não vou fugir e nem abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor numa terra onde possam viver e produzir, com dignidade, sem devastar”. O corpo da irmã Dorothy está enterrado em Anapu. Todos os anos, em sua memória, celebra-se a Romaria da Floresta a partir do local do assassinato até seu túmulo, por isso é considerada mártir da ecologia. Maria Terezinha CorrêaGraduada em Filosofia pela UFJF, mestre em Antropologia pela USP, graduada em Pedagogia pela UNITINS e Especialista em Ensino de Filosofia pela UFSCar, sócia da APEOESP, ABA e SBPC. Carioca, lecionou 27 anos na rede estadual de ensino oficial de São Paulo com Filosofia e Sociologia, trabalhou entre os ribeirinhos de Humaitá-AM, e em serviços voluntários e pastorais em várias comunidades.
Centro Educacional Madre Josefa

O Centro Educacional Madre Josefa (CEMJ), obra social sem fins lucrativos, mantida pela Sociedade de Ensino e Beneficência, foi fundada em 20 de maio de 2003. Atualmente atende 80 crianças de 2 a 5 anos de idade, em regime integral, e se propõe a educá-las de maneira plural, assumindo um compromisso com os valores cristãos: fé, justiça, solidariedade e construção da cidadania. Nestes quase 17 anos de funcionamento, o CEMJ realiza suas atividades acreditando na educação como força que transforma o indivíduo e o faz compreender-se como gerador de seu próprio conhecimento. Localizado numa região de grande vulnerabilidade social, o Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio de Janeiro-RJ, o Centro Educacional Madre Josefa foi pensado em sua totalidade, atendendo não somente crianças, mas também suas famílias. Também busca gerar emprego aos moradores de seu entorno, muitos deles oriundos de outros Estados do País. Minha jornada profissional se atrelou à fundação da creche. Encantada pela missão de educar e com a tímida vontade de quebrar a ordem social imposta, a empatia com a filosofia da instituição me fez compreender os sentimentos e emoções próprios, de forma objetiva e ao mesmo tempo racional, assim como sentem os demais indivíduos da comunidade. Já no primeiro ano de matrícula, consegui ouvir relatos das famílias sobre a falta de espaço recreativo, educacional e de cuidados básicos para as crianças da comunidade. Como experiência pessoal, pois minha infância foi toda nesta comunidade, sei que tais fatores dificultam as perspectivas e a visão de mundo dessas famílias. Recordo-me das grandes caminhadas até a escola e a falta dos recursos. O que me animava era encontrar naquele espaço professores e pessoas que me acolheriam, iriam me alimentar e, naquele momento, era tudo o que me bastava. Crescendo em meio a tantas outras dificuldades, a escola era o local seguro para estar. A tarefa desafiadora do atendimento no CEMJ foi justamente esta: oferecer à Comunidade do Alemão oportunidade digna para o desenvolvimento infantil. Ano após ano, o CEMJ vem sendo reconhecido na comunidade como um espaço educacional de qualidade. Com efeito, esse modelo de atendimento parece ter dado impulso a uma consciência mais crítica acerca da qualidade de ensino oferecido às crianças, e a esperança passou a ser depositada no modelo de trabalho da Congregação das Missionárias Servas do Espírito Santo (SSpS) como ideal desejado. Esse fato merece ser salientado, pois, a cada família atendida, a procura por uma vaga aumenta. O reconhecimento explícito da diferença na educação oferecida possibilita que esses moldes ultrapassem os muros da instituição, oferecendo às famílias oportunidade de reconstrução em suas próprias relações sociais e no convívio familiar. “Acreditar no sonho é o primeiro passo para transformá-lo em realidade.” (Ana Stoppa) Deixo aqui de lado mudanças espetaculares, como muitos esperam ver. A semente que é plantada e fertilizada não morre. As mudanças que o Centro Educacional provoca vêm pela reflexão, a construção da crítica, o contato com novas culturas, o desejo de crescimento pessoal e intelectual. A creche, como obra social, cumpre, com maestria, sua função, e hoje, para seus indivíduos, o mundo lá fora nunca será o bastante. Acreditamos no sonho de educação para a população em situação de vulnerabilidade, apostamos nos valores humanos e, acima de tudo, respeitamos as pessoas. Gilmara Solidade, coordenadora pedagógica – CEMJ Rio de Janeiro-RJ
A justiça restaurativa com crianças e adolescentes

Gostaria de iniciar lembrando e agradecendo a meus pais amorosos, Virgínia e Cícero, pelo melhor que me oferecem até hoje. Às irmãs Adriana, Karla e Lígia, pela longa parceria. Aos filhos João, Ana Júlia e Bruno, e ao marido Alexandre pela partilha cotidiana no incessante, turbulento e encantador movimento de cuidar e aprender. Também de destacar como inspiração, meio e fim, o que diz a irmã Martina Gonzalez, SSpS, em seu texto “A ética do cuidado”: “Sem o cuidado, não há ambiente favorável para o aflorar daquilo que nos humaniza: o sentimento profundo, a vontade de partilha e a busca do amor”. Divido um pouco de minha experiência no Degase, que é o Departamento-Geral de Ações Socioeducativas, órgão no Rio de Janeiro responsável pela internação e acompanhamento de crianças e adolescentes em situação de conflito com a lei. Trajetória que começa com o voluntariado nas Escolas de Perdão e Reconciliação (Espere) da Fundación para la Reconciliación da Colômbia, uma organização que se dedica a disseminar a cultura de paz e a justiça restaurativa em vários países. Por meio das Espere, conheci as irmãs Nelly Boonen e Martina Gonzalez, e tive o primeiro contato com o processo circular de construção de paz. Essa é uma prática restaurativa que busca o desenvolvimento de relações saudáveis, baseado em sete crenças centrais (veja abaixo) que intensificaram um movimento profundo de transformação em minha vida pessoal e meu envolvimento social. Seguindo na busca pelo conhecimento da justiça restaurativa, acompanhei outras formações teóricas e vivenciais no CDHEP (Centro de Direitos Humanos e Educação Popular de Campo Limpo). Junto ao aprendizado, veio a possibilidade de colaborar. Em 2019, com outras três facilitadoras, iniciamos a oficina Fundamentos de Justiça Restaurativa/Espere com jovens em cumprimento de medida socioeducativa em regime de internação. As atividades ocorreram no Centro de Socioeducação Dom Bosco, na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro-RJ, comunidade onde vivo. Os desafios foram imensos nesse ambiente de inúmeras ausências e violências, estruturado no entendimento de justiça pela lógica punitiva. Como desenvolver uma proposta e atividades continuadas à luz da não violência, em busca de construção de relações justas baseadas no reconhecimento das diferentes identidades, no diálogo e na corresponsabilização? A incerteza da realização do encontro a cada semana pelas necessidades da instituição, a limitação do espaço e do horário e a impermanência dos jovens foram algumas das dificuldades que determinaram o esvaziamento da oficina ao longo dos meses. Mas, apesar da imprevisibilidade e esvaziamento, aumentou gradativamente a sensação de confiança e aproximação entre o grupo. A partir da participação voluntária nas atividades propostas e reflexões sobre valores humanos, novas perguntas puderam ser feitas. Foi um processo: passar do estranhamento e desconhecimento iniciais ao reconhecimento de si e do outro, na descoberta de novas respostas e caminhos possíveis. Um despertar de consciência para a responsabilidade pessoal e coletiva, mesmo que ainda sob a perspectiva limitadora e violenta da privação de liberdade, do sentimento de indignação, da sensação de abandono e falta de rede de apoio suficiente para atender tantas carências. Por fim, esses encontros me fizeram experimentar, mais uma vez, a conexão humana que se estabelece e engrandece a partir do cuidado e validação de nossa identidade, da aceitação de nossas limitações e potências, do compromisso pelo bem individual e coletivo. Independentemente dos lugares que ocupamos, somos seres de afeto em busca de reconhecimento, espaço e integração. Estamos interligados e, por novos e melhores dias, mantenho a esperança. Pressupostos centrais dos processos circulares de construção de paz: 1) dentro de cada um de nós está o verdadeiro eu: bom, sábio e poderoso; 2) o mundo está profundamente interconectado; 3) todos os seres humanos têm um profundo desejo de estarem em bons relacionamentos; 4) todos os seres humanos têm dons, cada um é necessário pelo dom que traz; 5) tudo de que precisamos para fazer mudanças positivas já está aqui; 6) seres humanos são holísticos; 7) nós precisamos de práticas para criar hábitos de viver a partir do eu verdadeiro. (Carolyn Boyes-Watson e Kay Pranis. No coração da esperança: guia de prática processos circulares: o uso de círculos de construção de paz para desenvolver inteligência emocional e construir relacionamentos saudáveis.) Vanessa Bispo Gadelha Valente, voluntária do Centro de Valorização da Vida e das Escolas de Perdão e Reconciliação, Rio de Janeiro-RJ.
Tique-taque, tique-taque…

Dizem que vai ser um ano de muitos recessos, feriados, além das datas comemorativas de sempre. Trazendo para este diálogo o tempo revestido de calendário, será importante anunciar. Ainda bem que já passou janeiro, com seus boletos, impostos, listas e promessas. E se a gente vai ter carnaval em fevereiro, acho que, em março, vai dar para o ano começar de vez. De cara, temos o Dia da Mulher que, para ser celebrado, precisa ser precedido de uma postura cotidiana marcada por sororidade, respeito, autonomia e parceria. Virando a “folhinha”, temos abril, que trará os costumes e a cultura indígena para a pauta. Mas esse debate e essa defesa têm de ser todo dia. Inadiavelmente. Depois vem maio, tempo de tradição casamenteira que deve encontrar casais que reuniram afetos e convicções de uma vida em parceria. E tem também o Dia das Mães, cujo comércio e consumismo não podem nos deixar esquecer que, para ter motivos para celebrar em maio, temos de, agora, experimentar afeto e proximidade. E, em junho, o destaque vai para o meio ambiente. Nosso planeta dá sinais de esgotamento e, diante desse cenário, precisamos mudar hábitos e atitudes enquanto é tempo. Tique-taque, tique-taque… E as férias chegaram… Aproveite para lembrar que é preciso estudar agora para colher os frutos e o merecido descanso no julho que virá. Agosto vem com o discreto charme do Dia dos Pais, figura mais que controvertida nos dias atuais, cujo aprendizado de presença, de proximidade, de diálogo nos desafia a cada dia. E também, a cada dia, revela-nos uma nova geração paterna mais colaborativa, que sabe que ser pai é todo dia. “Entrou setembro…” Ah, a primavera! Cheiro de poesia no ar, uma sensação de que valeu ter vivido até aqui e um discreto mal-estar despontando, indicando-nos que ainda há muito o que fazer. Este ano, a cena das barulhentas e criativas crianças vai dar lugar emergencial às eleições. Em outubro, escolheremos prefeitos e vereadores pelo Brasil afora. Vale acompanhar, empenhar-se em escolher uma boa candidatura ou a menos pior. Mas vote! E 2021 vai agradecer você… Na sequência, vem Zumbi assombrando nossa consciência negra. Espero que nos encontre dignos para celebrar essa data. Então é Natal! Tempo de celebrar, agradecer, renascer, repactuar promessas e atitudes. Sempre haverá tempo… Apesar da correria. Tique-taque, tique-taque… Maria José Brant (Deka), assistente social, estudante de Antropologia, analista de políticas públicas no Programa Bolsa Família, mestra em Gestão Social, mosaicista nas horas vagas.
Comunicação não violenta: uma linguagem de paz num mundo de conflitos

Muita gente, ao escutar sobre comunicação não violenta (CNV), entende que estamos falando de pessoas que são mal-educadas, que gritam, respondem de forma agressiva, etc. Com essa compreensão, dizem: “Isso não é para mim. Sou uma pessoa educada”. Aí há um engano! A CNV não é sobre ser bonzinho e falar baixinho com muita educação e dizer o que as pessoas desejam ouvir, para evitar conflitos. Muito pelo contrário! Um dos pilares da CNV é a autenticidade. A CNV foi desenvolvida pelo psicólogo Marshall Rosenberg, a partir da década de 1970, e vem ajudando pessoas a transformar, pacífica e efetivamente, conflitos em 65 países, nos âmbitos pessoal, organizacional e político. Ele estudou e trabalhou com Carl Rogers, psicólogo e desenvolvedor da abordagem centrada na pessoa. Muito do processo da CNV recebeu influência da investigação de Rogers sobre os fatores que melhoram os relacionamentos. Marshall nos provoca especialmente com três perguntas: “O que está vivo em você agora?”; “O que podemos fazer para tornar a vida mais maravilhosa?”; “Você prefere ter razão ou ser feliz?”. A abordagem da CNV é um processo contínuo de conexão conosco e com as outras pessoas. As perguntas acima dizem respeito a essa conexão. Nessa busca, dois movimentos são importantes em relação à intenção e à atenção. A intenção para a conexão é “quero compreender você e ser compreendido, compreendida”. Na CNV, a intenção não é mudar outra pessoa. E a atenção diz respeito a estar presente, estar por inteiro diante de outra pessoa, grupo e nós mesmos. Isso quer dizer que é necessário um movimento interno de autoconhecimento e uma predisposição interna para acolher o outro. Para criar conexão, é essencial investir na autocompaixão, empatia e autenticidade. A compaixão diz respeito à inclusão, aceitação e integração. A empatia refere-se a entender a perspectiva do outro, com a verdade do outro, da escuta ativa e do não julgamento. E a autenticidade fala da expressão do que realmente sentimos e de nossas necessidades. A CNV se baseia na escuta empática e na expressão autêntica. Dizer “o que está vivo em mim agora” é falar de meus sentimentos e minhas necessidades. Aprendemos a falar o que pensamos e raramente falamos o que sentimos e do que necessitamos, com empatia e compaixão. A girafa é um símbolo da CNV e representa a linguagem-padrão natural de falar e escutar a partir do coração e com ampla perspectiva. Essa linguagem deseja ser autorresponsável (criar compreensão mútua) e conectar-se consigo e com os outros. Na CNV, o chacal simboliza o padrão habitual de ataque, defesa ou fuga. A linguagem do chacal quer mudar o outro, controlar, punir e ser dona da verdade. É uma linguagem de acusação, leva tudo para o pessoal, sempre encontra um culpado que, adivinhem, é o outro. O processo da CNV tem quatro passos que nos ajudam a transformar reações automáticas em respostas conscientes: 1) observar o que está afetando nosso bem-estar, sem julgamentos e interpretações; 2) identificar sentimentos em relação ao que observamos; 3) identificar necessidades que dão origem a esses sentimentos; 4) fazer o pedido claro do que gostaríamos que fosse feito. As necessidades humanas universais são necessidades comuns a qualquer pessoa, por isso são universais (autonomia, segurança, apoio…). O que varia de um indivíduo para o outro é sua manifestação e a maneira de atender a essas necessidades. Os conflitos geralmente ocorrem entre as estratégias. A prática da CNV visa a buscar estratégias para atender às necessidades de TODOS. Ao escutarmos as necessidades e sentimentos dos outros, há uma abertura para a conexão. Nada é mágico. É um exercício e, conforme o aprendemos, nós nos desarmamos e interrompemos a agressividade, minha e a do outro. Vale lembrar que é preciso querer a conexão. Às vezes, você quer, e a outra pessoa não quer. Se você escolheu, não desista. A CNV ajuda a reduzir hostilidades, curar a dor e fortalecer relacionamentos pessoais e profissionais. Se você optou pela conexão, é importante enxergar o ser humano que está do outro lado ou atrás da mesa, na direção de um cargo, no lugar da mãe, do pai, do irmão, da vizinha… Ele é um ser humano e, como todos nós, tem sentimentos e necessidades. Tentar empaticamente identificar esses sentimentos e necessidades pode facilitar uma conversa difícil. Às vezes, você vai perceber que vocês têm as mesmas necessidades, e o que está em conflito são as estratégias. Isso vai facilitar a conversa. Referências MORRISON, Jean. A linguagem da girafa: um passeio divertido pelos fundamentos da comunicação não violenta. São José dos Campos: Colibri, 2019. ROSENBERG, Marshall. A linguagem da paz em um mundo de conflitos: sua próxima fala mudará seu mundo. São Paulo: Palas Athena, 2019. Sandra Mara Resende Pereira, pedagoga, especialista em Teologia Pastoral, mediadora de conflitos, facilitadora de CNV e círculo de mulheres, coaching logoterapêutica, coaching das emoções, graduanda em Psicologia, idealizadora e responsável pelo Espaço Flor de Lótus: educação, espiritualidade e autoconhecimento. Facebook: sandra.resende.54584.
Uma nova masculinidade, menos violenta

Em uma sociedade não violenta, e neste texto preferirei o termo menos violenta, parece-me importante compreender não apenas aspectos individuais que compõe uma pessoa violenta neste século XXI, como estresse, impaciência, ansiedade e mais. Prefiro entender a violência como algo que fala também, e principalmente, de relações humanas. Como quem afirma que “não se é violento sozinho, mas na relação com o outro”. Ou seja, existem aspectos econômicos, sociais, culturais que se referem à relação de um humano com outro que também podem contribuir na composição de uma pessoa violenta. Assim, vou destacar dois tipos de violência que costumam causar grande comoção social, a violência contra mulher e a violência sexual contra crianças e adolescentes. Os dados das duas últimas edições do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2018 e 2019), que faz um levantamento dos registros de boletins de ocorrência das Secretarias Estaduais de Segurança Pública e, ou, Defesa Social de todos os Estados e do Distrito Federal, mostram que o número de vítimas de feminicídio (quando o homicídio de uma pessoa ocorre por ela ser mulher) no Brasil aumentou de 929, em 2016, para 1.206, em 2018. Isso equivale a dizer que três mulheres são vítimas de feminicídio por dia no País. E o número de registros de lesão corporal dolosa, considerada como violência doméstica (a violência que ocorre dentro da casa da vítima), foi de 194.273, em 2016, para 263.067, em 2018, o que equivale dizer que, a cada dois minutos, uma mulher foi vítima de violência doméstica no Brasil. Sabe-se que, em se tratando de feminicídio, em 88% dos casos, o autor foi o companheiro ou ex-companheiro da vítima, conforme índices de 2018. A última edição do Anuário destaca o perfil dos estupros no Brasil e indica que esse crime aumentou de 43.869, em 2011, para 66.041, em 2018, sendo 63% destes considerados estupros de vulneráveis, ou seja, praticados contra crianças ou adolescentes. A faixa de idade mais vitimada foi a de 5 a 13 anos. Em comum, na maioria dessas violências, não está apenas o fato de serem contra mulheres ou meninas, ou de serem praticadas por homens, mas também de ocorrerem na casa da vítima e efetuadas por homens de sua confiança, que lhes deviam afeto ou mesmo cuidado, no caso de crianças e adolescentes. Por isso parece importante que, ao refletir sobre essas violências, e em uma sociedade menos violenta, consideremos como o homem deste século exerce sua masculinidade. Nós, homens, crescemos aprendendo, ou melhor, ouvindo que “em mulher não se bate nem com uma pétala de rosas”. Buscaram nos ensinar a cortejar a mulher, oferecer-lhe flores, abrir-lhe a porta do carro. A sociedade se responsabilizou em ensinarmos que a mulher é mais frágil, e por isso cabe ao homem protegê-la. E mesmo quanto a crianças e adolescentes, essa mesma lógica se estende, e o homem assume a responsabilidade de chefe de família, responsável pela provisão da casa. Assim se constrói a masculinidade, quase que como um contrário da feminilidade da mulher: homem forte, mulher fraca; homem valente, mulher medrosa; homem bruto, mulher dócil; o homem poderoso, mulher submissa. Sem saber dos números de violência aqui descritos, a filósofa Simone de Beauvoir e outros pensadores já defendiam que a masculinidade desta época foi ensinada não apenas como diferente da feminilidade, mas sim como superior a ela. Por isso o homem que é fraco, medroso, dócil ou submisso é chamado de “afeminado”. Ele é menos homem e por isso ele “perde seu valor” diante da sociedade machista. E essa reflexão tem tudo a ver com as violências descritas, pois dizem do lugar que a mulher ocupa em relação ao homem: um lugar de desigual, de menor valor. Por isso não basta nos chocarmos com os inúmeros casos, e digo isso porque os dados aqui apresentados são apenas com relação aos registros de boletim de ocorrência e não se referem às violências que ocorrem, há anos, em absoluto sigilo, no ambiente privado dos lares. Precisamos reconhecer que a masculinidade deste século precisa se reinventar, talvez não sobre o princípio da superioridade sobre a feminilidade, mas sim considerando as simples diferenças, não na concorrência, mas na cumplicidade entre elas. Uma nova masculinidade que vá, de fato, no sentido de uma sociedade menos violenta. Everton Borges, assistente social no Projeto Construindo Novos Valores, do Instituto Novos Valores.
Testemunho de um missionário verbita que se evangelizou com sua missão

São José Freinademetz nasceu na Itália, nas Montanhas das Dolomitas, no Tirol. A formação de suas raízes religiosas primariamente foi feita pelas devoções de sua família. Diariamente, rezavam o rosário nas intenções missionárias. Mais tarde, sentindo a vocação ao chamado sacerdotal, fez os estudos de Teologia no seminário de Bressanone. Depois de um tempo, sentiu que sua vocação era ser missionário e conheceu a Congregação do Verbo Divino. Foi para Steyl, Holanda, onde Santo Arnaldo Janssen estava fundando a Congregação. O primeiro passo foi dado enquanto José Freinademetz superava os obstáculos dos idiomas. Ele era ladino, com sua própria língua, foi estudar Teologia em Alemão e, em sua região, também se fala italiano. O missionário foi enviado para a China por sua Congregação do Verbo Divino. Ele sempre foi pessoa simples e humilde, verdadeiro homem de Deus. Sabia que era para sempre e que não voltaria para suas montanhas. Ele levava no coração o envio para evangelizar outros povos. Chegando à China, teve problemas em aprender outra língua e cultura, além de enfrentar um mundo hostil a uma evangelização colonialista daquele tempo. Até na própria comunidade, nem sempre foi fácil a convivência. Mas o missionário, dotado de uma fé profunda e com uma vontade férrea em propagar a Palavra de Deus, foi superando as muitas dificuldades. Naquele ambiente, o padre José foi descobrindo que o Espírito Santo atua por meio das pessoas e culturas para as quais havia sido enviado, passando por sua própria conversão primordialmente. Santuário Quando voltei de minha missão no Paraguai para trabalhar na Itália, foi-me proposta a construção do Santuário, com uma igreja, museu e hospedagem para grupos de retiro. No primeiro momento, achei que era uma grande pretensão poder contribuir para essa obra no lugar onde o santo tinha marcado a vida de muitas pessoas. Com o tempo, aceitei o desafio, porque senti que era um processo pelo qual eu poderia me identificar com os valores aprendidos na missão e que enriqueceriam os peregrinos que passavam por Oies, na busca de um lugar tranquilo onde poderiam rezar e meditar a vida missionária com o exemplo de São José Freinademetz. Um ambiente sossegado, onde as pessoas vão ao encontro com elas mesmas e se abrem à escuta de Deus. Gostei dessa motivação que estimulou minha caminhada como verbita missionário, podendo incluir um testemunho que é muito animador e inspirador na obra de Deus. A cada vez que vou à Itália, passo vários dias na Casa do Santo, buscando entender como ele segue acompanhando a mim e a tantos outros verbitas e peregrinos em busca de respostas valiosas, até o dia de hoje, aos desafios na missão. É uma graça que Deus me proporciona quando sinto essa aproximação e que me guia no dia a dia, no meio de um discernir o que é de Deus e o que posso abandonar. Daqui, vejo o quanto são importantes os testemunhos de vida que deixamos trilhar neste mundo e que fazem a diferença de uma vida plena, com uma espiritualidade com o pé no chão, perto do povo, percebendo a vontade de Deus em nossa vida. Agradeço essa possibilidade de comunicar, com carinho e alegria, o que me faz mais verdadeiro como missionário verbita. Irmão Paollo Delucca, SVD.
Aposentei… será?

Muitas pessoas que conheço nutrem um enorme desejo de, um dia, ancorados por uma estabilidade financeira, quererem saborear os frutos da aposentadoria. Um desejo justo, já que o trabalho e todas as obrigações atreladas à atividade profissional exigem e acompanham os indivíduos por toda uma vida. Creio, contudo, que esse sonho, se olhado com mais critério, poderá trazer certo desespero quando ele se realizar de fato. Existe uma parcela da população que já transita por esse lugar. Após anos de dedicação em escritórios, escolas, empresas e demais áreas de atuação, veem-se desprezados e improdutivos. Falo isso por experiência própria, pois venho de uma família que batalhou muito para usufruir conquistas importantes. Um imóvel para morarmos, um carro para viagens e emergências e até mesmo a aquisição de uma linha telefônica que, à época, custou muito caro para nosso padrão econômico. O tempo foi passando, nós, os filhos, fomos crescendo e demos início à nossa jornada. O barulho de antes, com brincadeiras, música alta e pedidos comuns de qualquer criança – “MÃE, TÔ COM FOME!”, “MÃE, O EMERSON NÃO QUER ME EMPRESTAR A BOLA!” – foram substituídos por dias menos barulhentos, por refeições mais tranquilas, e a casa passou a ser reflexo do presente de meus pais. Eles deixaram de ser pai e mãe e se transformaram em avós, que já não tinham o mesmo vigor físico de antes. Iniciaram um processo de inércia e tristeza. Chegava a machucar o coração quando ouvíamos nossos pais dizerem: “Nossa, ainda lembram que têm pai e mãe?”. Fomos percebendo que estavam desanimados e infelizes, pois já se viam com a obra de suas vidas acabada. Até que um dia, despretensiosamente, um convite chegou a seus corações: “Dona Marlene, sr. Joel, vocês teriam um tempinho na semana para nos ajudar a montar algumas cestas básicas que serão entregues aos carentes da Favela do Moinho?”. Como um sopro de vida, aquele simples convite feito pela Pastoral Social de nossa comunidade religiosa devolveu a meus “bons velhinhos” a alegria de uma vida em doação. Já haviam se dedicado tanto a cuidarem de nossa educação que essa missão ainda estava latente e necessitava ser revisitada. Daquele primeiro convite para montar algumas cestas básicas, eles foram descobrindo que poderiam contribuir com a vida de muitas famílias nos serviços da Igreja, como ministros da comunhão, como palestrantes do Encontro de Casais com Cristo, fazendo lanche e cuidando de crianças na festa de Nossa Senhora Aparecida… Hoje, algumas caixinhas de remédios estão aposentadas no fundo de uma gaveta, quase esquecidas, da mesma forma que aquelas lembranças que antes serviam apenas para roubar o sorriso de meus pais. O ócio que nasceu com o fim do trabalho formal deu espaço à alegria de servir os necessitados. Parafraseando Jesus, muitas ovelhas, de outros redis, também foram alcançadas. Hoje dificilmente encontro meus pais em casa. Estão pelo caminho, lançando as sementes que tanto nos ensinaram a cultivar. Acredito que essa é uma realidade imutável. O trabalho é parte integrante e necessária para a realização de cada pessoa. Temos de entender que a percepção do trabalho atualmente não está unicamente relacionada ao formal, e sim a todas as atividades realizadas pelo homem, que busca o crescimento de si e do outro, com ou sem remuneração. Essa ação laboriosa cria um caminho para a alegria e criatividade, fazendo fecundo o solo dos sonhos e da realização pessoal. Max de Oliveira Faria, professor de Filosofia, Ensino Religioso e Educação Física; especialista em Educação Escolar e Grupos Especiais; membro da Equipe da Dimensão Missionária do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP.
Crime ambiental de Brumadinho completa um ano

Exatamente às 12h29min de 25 de janeiro de 2019, ocorria um dos maiores crimes ambientais da história. Nesse horário, rompeu-se a Barragem I da Mina Córrego do Feijão, no Município de Brumadinho, Região Metropolitana de Belo Horizonte-MG. Em número oficiais, a tragédia vitimou 270 pessoas, sendo que, até o dia 31 de dezembro último, 13 destas permaneciam desaparecidas. Isso sem contar o incalculável dano ambiental, o que refletirá, por muito tempo, até em áreas bem distantes da barragem. A palavra “crime”, usada por organismos estatais, civis e mesmo a Igreja, não é um exagero. A Companhia Vale, responsável pelo empreendimento, parece não ter se preocupado em proteger a vida dos próprios trabalhadores e das pessoas que viviam no caminho da lama. Conforme investigações realizadas pelo Poder Público e outros profissionais de diversas áreas, a Vale sabia dos riscos do colapso da barragem e até mesmo já tinha na ponta do lápis o número de mortes que ela poderia causar: 214, segundo a Polícia Federal, que teve acesso aos relatórios. Tudo em números frios, tal como manda a idolatria do insaciável deus-mercado. Um relatório da PF, divulgado no fim de novembro último, mostra que a empresa TÜV SÜD não poderia ter emitido, em setembro de 2018, um aval de segurança da barragem de rejeitos de minério de ferro. Se o laudo da empresa tivesse dado um quadro real dos riscos, as autoridades poderiam ter se preparado melhor para minimizar os danos de uma possível tragédia. O Estado de Minas Gerais vem registrando esse tipo de crime desde que começou sua atividade minerária, no início do século XVIII. Um caso icônico ocorreu em 1884. Numa mina de ouro de Itabira da Serra, atual Itabirito, também nos arredores da capital, mais de cem trabalhadores ficaram presos dentro de uma galeria, após o desabamento de uma rocha. Como não havia tecnologia para abrir uma passagem para resgatá-los, a “solução” foi inundar o espaço, sacrificando todos os que gemiam no fundo da terra. As lições não foram aprendidas, em nome dos “benefícios” que a mineração leva à economia do Estado. Decisão inédita A Companhia também é acusada de outro crime, acontecido na tarde de 5 de novembro de 2015, em Mariana-MG. Dezenove pessoas morreram, e a bacia do Rio Doce, que passa por Minas Gerais e Espírito Santo foi contaminada. A Vale, juntamente com a anglo-australiana BHP Billiton, era responsável pela Samarco, que geria a Barragem do Fundão, zona rural da cidade história. A Justiça Federal decidiu não responsabilizar pelo crime os executivos. Se o julgamento não for revertido, ninguém responderá pelas mortes. Mas o caso foi denunciado ao Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH). Em dezembro passado, o órgão considerou o crime ambiental como sendo também contra a humanidade. Essa é a primeira decisão desse tipo no Brasil e pode servir de base para representações contra o País em tribunais internacionais. Feridas que não cicatrizam Não há dúvidas de que as centenas de famílias das vítimas do crime ocorrido em Brumadinho precisarão ter muita força para, pelo menos, aliviar a dor das perdas de seus entes queridos, de suas histórias. Houve muitos outros danos, além dos humanos. Hortas, granjas e pastos às margens dos cursos d’água atingidos foram danificados. O comércio sofreu um forte golpe e nem mesmo o simpático Museu de Arte Contemporânea e Jardim Botânico de Inhotim, lugar único no mundo, conseguiu devolver a vida aos eixos. A pacata Brumadinho, com cerca de 40 mil habitantes, já não é mais conhecida por seu museu, pelas festas, pelas construções históricas nem pelas alturas da serra do Rola Moça, local obrigatório para os adeptos do voo livre. Depois da tragédia, quando se fala na cidade, logo vem à mente as cenas da lama avermelhada e do esforço dos bombeiros para procurar as vítimas. A operação de resgate, aliás, prossegue e já é considerada a maior da história do Brasil. Deus ao lado dos sofredores Passado um ano, falta muito para que as famílias tenham acesso a indenizações devidas e justas. Aos poucos, os holofotes começam a se apagar. É importante que os missionários e outros profissionais que visitaram as famílias nos primeiros dias, rezando com elas e ouvindo-as, não deixem esfriar o ânimo. Também é essencial continuar acompanhando as investigações e exigindo das autoridades a punição aos responsáveis pelo crime, calculado e frio crime. O Deus, que é justo e está ao lado dos sofredores, console aquele povo, suas famílias, seus trabalhadores. De nossa parte, não permitamos que as trevas vençam as luzes. Brumadinho precisa voltar a ser o lugar da vida, da arte, das festas e de voos livres, bem livres. Sementes de esperança Luiz Felipe Ricobom de Sousa, aluno do 9º ano do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP, partilha um poema. A reflexão é fruto da experiência vivida na “Missão sem Fronteiras”, realizada em junho de 2019. Do alto daquele monte,vejo casas, ruas, praças, a igreja,o menino indo estudar.Do alto daquele monte,mineradores indo almoçar. De repente, a lama cobriu as histórias daquela gente.De repente, nada estava mais lá.Quanto valem as vidas ceifadas?Quanto vale o preço da gente?E o risco em toda Minas ainda é iminente. Flor da esperança brota em meio à lama.Brota no suor do bombeiro,na atitude voluntária que canta,nas cordas do violeiro. Todos juntos, no mesmo ideal,mãos dadas contra a impunidade,a barragem vai virar ponte,e o sonho de justiçaé um sonho de realidade. Diácono Alessandro Faleiro MarquesDiácono permanente na Arquidiocese de Belo Horizonte, professor de Língua Portuguesa de aspirantes e verbitas estrangeiros na Província Brasil Norte, revisor de textos para as irmãs servas do Espírito Santo.