Tema transversal 2020 – Escola viva: vê, sente e cuida

A Campanha da Fraternidade (CF) nos convida a uma nova reflexão e ação diante da vida. O tema traz algumas palavras importantes, como vida, dom, compromisso; e como lema palavras de igual importância, como ver, sentir, cuidar e ter compaixão. Todas essas palavras, se bem pensadas e vividas, tornam-se um (projeto) estilo de vida. O estilo de vida ensinado por Jesus, capaz de transformar nosso jeito de nos relacionar com nós mesmos, com os que caminham conosco e com o planeta, nossa Casa Comum. Por esse motivo, o tema transversal escolhido para as escolas da Rede de Educação das Irmãs Servas do Espírito Santo para 2020 é: “Escola viva: vê, sente e cuida”. Os verbos ver, sentir e cuidar estão presentes na história contada por Jesus e conhecida como a “Parábola do Bom Samaritano” (Lc 10,25-37). Ao ver a difícil situação de alguém, o personagem da narrativa olha, para e se coloca no lugar de homem ferido, procurando fazer o melhor que podia naquela circunstância. Cuidado e acolhida que devemos encontrar na família, na sociedade, entre nossos amigos e na escola. E por falar em escola, uma escola viva vive e ensina a fazer da vida dom e compromisso que se traduz no cuidado e na acolhida com as pessoas, lugar por excelência do sagrado. Colocar-se no lugar do outro Há 56 anos, a Campanha da Fraternidade nos convida anualmente a pensar temáticas que venham ao encontro das necessidades existentes em nossa sociedade. Pensando nas questões humanas e no que precisa ser transformado para que a vida seja vivida com dignidade, a CF nos chama a ver a realidade, pensar sobre ela e buscar ações eficazes de mudança. Diante de aspectos essenciais à vida, como saúde, educação, moradia, exclusão, justiça e tantos outros, a CF vem nos provocar neste ano para que vejamos, sintamos e cuidemos da vida. Contudo sabemos que isso exige, de cada um, de cada uma, o compromisso de deixarmos de lado a indiferença diante da necessidade dos que mais precisam de nós. Não por acaso, a Rede de Educação, inspirada na CF de 2020, escolheu com seus educadores um tema transversal para o ano letivo. Esse tema é responsável por motivar nossos alunos, educadores e familiares à sensibilidade e à diligência que nos tornam mais humanos. Ver, sentir e cuidar, como fez o personagem da parábola contada por Jesus, que sentiu empatia pela situação que presenciou e, colocando seu coração, procurou fazer o melhor. Em tempos de extremo individualismo, colocar-se no lugar de outra pessoa tem se tornado cada vez mais difícil. Por isso, a história do Samaritano é uma provocação e um convite feito por Jesus para se repensar uma sociedade indiferente diante das necessidades dos que mais precisam. Nesse sentido, a escola viva deve ser o lugar onde se aprende e se pratica nosso modo de ver, sentir e cuidar de nós, do próximo e do planeta, nossa casa. Verbos interdependentes que ganham sentido quando acontecem nesta mesma ordem: sente quem vê, cuida quem sente. Inevitavelmente só conseguiremos vivenciar essa trilogia se passar pelo coração, pois só quando a transformação acontece de dentro para fora é que conseguimos fazer diferença nos espaços onde atuamos. Agostinho Travençolo Júnior, educador e coordenador da Dimensão Missionária da Rede de Educação SSpS.
Missionários leigos SSpS participam de seminário em Roma

“Há diversidade de dons, mas um só Espírito. Os ministérios são diversos, mas um só é o Senhor. Há também diversas obras, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos”(1Cor 12,4-6). Com esse sentimento de diversidade de dons, ministérios e obras, mas um só Espírito, sou uma entre os doze missionários leigos SSpS da África, Ásia, América e Europa que participaram do seminário “Missionários leigos SSpS aprofundando a comunhão”, realizado na Casa-Geral, em Roma, de 23 a 29 de fevereiro. Com alegria, gratidão e fé, partilhamos nossa visão, desejos, sonhos, oportunidades, sugestões sobre a nossa participação como “companheiros da missão”. Cada um de nós falou sobre as atividades realizadas em seu país e, quando chegou minha vez, apresentei o que estamos fazendo no Brasil, começando por um breve histórico das servas do Espírito Santo (SSpS) no País e sua organização atual em duas províncias: Brasil Norte (BRN) e Brasil Sul (BRS). Depois fiz um resumo sobre nossos grupos de missionários(as) leigos(as) de Deus Uno e Trino (MLDUT): como nos reunimos, nossa formação, símbolos e identidade visual, como nos comunicamos, o acompanhamento espiritual e como nos mantemos. A Coordenadora-Geral, a irmã Maria Theresia Hornemann, assistiu às apresentações da Alemanha, Angola, Argentina, Coreia, Paraguai, Gana, Índia, Java, Filipinas, Taiwan, Holanda e, ao fim da apresentação do Brasil, reconheceu o trabalho que estamos realizando. A missa de abertura foi presidida pelo Superior-Geral da Congregação dos Missionários do Verbo Divino (SVD), Pe. Budi Kleden. Ele falou sobre o ânimo na construção de novos caminhos que o Espírito realiza bem como sobre os documentos das missionárias SSpS que manifestam a necessidade de aumentar a liderança participativa dos leigos e a coragem de aceitar e valorizar as diferenças. O seminário nos ajudou a fortalecer nossa colaboração como missionários leigos junto às irmãs SSpS e a compartilhar uma visão comum. Também propomos um plano de realização do seminário de acordo com a realidade de cada país, preparamos uma declaração e elegemos dois participantes para nos representar no 15º Capítulo-Geral da Congregação, que será realizado em Steyl, na Holanda de 19 de abril a 21 de maio próximos. Um momento muito especial para todos nós foi a saudação que o Papa Francisco fez na audiência-geral, no dia 26 de fevereiro, aos missionários leigos e leigas ligados às irmãs SSpS. Para nos representar, elegemos Juan Matías (Argentina) e Richar González (Paraguai). A seguir, apresento a declaração que preparamos. Nossos dois representantes vão levá-la ao Capítulo-Geral. Quem são os “companheiros da missão” Mulheres e homens (consagrados e não consagrados) de diferentes nacionalidades e idades, corresponsáveis pela missão com as SSpS: comprometidos com a espiritualidade trinitária e com o carisma missionário; escolhem compartilhar os dons e talentos nas diversas áreas e pastorais da missão. Sentem-se parte da Família Arnaldina como fonte de alegria, fortaleza e esperança. Caminham com as congregações fundadas por Santo Arnaldo Janssen, vivendo a espiritualidade e o carisma na vida cotidiana, ante a urgência dos tempos, e colaboram com o discernimento e trabalho da Congregação das Missionárias Servas do Espírito Santo (SSpS); realizando a missão interna (igreja doméstica – família) e a missão externa (ad gentes), ampliando círculos de comunhão. Companheiros da missão Para os leigos missionários, é importante fazer parte da missão e visão da Congregação das SSpS, pois, ao ampliar os círculos, podem oferecer seus talentos em diferentes áreas da missão de Cristo, em coerência com a vida da Congregação, encontrando realização pessoal e alegria em compartilhar a missão de amar e glorificar o Deus Uno e Trino no coração de todas as pessoas, em uma dimensão espiritual e também concreta. São “companheiros da missão” e se oferecem totalmente, com suas luzes e sombras, para a evangelização, com humildade, honestidade, alegria e disposição para aprender e compartilhar a vida cristã. Desejam poder motivar, comunicar e animar, com entusiasmo, as comunidades, em compromisso com a liderança, com os valores do Evangelho; reconhecendo a ação de Deus em todos os estilos de vida. Visão Ampliar o círculo de comunhão, inspirados e fortalecidos pelo Espírito Santo que renova, dinamiza e alegra a missão com as SSpS e respondem a novos desafios de nosso mundo, promovendo a vida, a dignidade e cuidando da casa comum. Mensagem às SSpS Agradecidos e inspirados pelos frutos de viver no espírito de comunhão, os companheiros da missão desejam continuar juntos o caminho missionário com maior participação e colaboração junto às SSpS, fomentando o espírito de respeito e confiança mútuos, corresponsabilidade, formação contínua, compromisso mais profundo, renovado entusiasmo e fervor. Desejam criar equipes de liderança regionais, provinciais e intercontinentais para trabalhar em colaboração entre os companheiros da missão e as SSpS. Agradecemos muito a oportunidade de, reunidos em Roma, expressar à equipe de liderança congregacional e aquelas que tornaram o seminário possível, bem como a confiança para analisar abertamente novas formas de trabalho conjunto e participar do 15º Capítulo-Geral. Os companheiros da missão renovam o apoio contínuo e o compromisso para alargar cada vez mais os círculos de comunhão. Maria Cristina Queiroz MaiaMissionária leiga SSpS e participante do seminário, Roma, 2020.
Mulheres comprometidas com a vida

Março começa com a letra M; “M” de “mulheres”, “M” de “meninas” e, por que não, também “M” de “musas” inspiradoras da vida? Já pensou em quantas conquistas as mulheres brasileiras conseguiram ao longo dos últimos séculos? Você sabia que, em 1879, as mulheres no Brasil ganharam o direito de cursar uma faculdade? Lembrando, contudo, que eram apenas as da classe privilegiada, em tempos ainda de Monarquia. Em 1932, Período Republicano, às brasileiras foi garantido o direito de votar? Graças à reivindicação de um grupo de mulheres no Rio Grande do Norte. Nas décadas entre 1960 a 1980, muitas artistas, cantoras e atrizes revelaram-se no mercado da indústria cultural? Em 2006, criou-se a Lei Maria da Penha para combater a violência doméstica? Em 2010, escolhemos a primeira mulher presidente da República? Em 2015, a Lei de Feminicídio classifica o assassinato de mulheres como crime hediondo? Quantas mulheres lutaram pela liberdade e, até hoje, buscam pelo direito a uma vida digna, de escolher estudar, de ter uma profissão, de poder constituir sua família na paz? Mulheres de Abaeté, de Itapuã, lembradas no enredo do carnaval deste ano, mulheres quilombolas, indígenas, ribeirinhas, afrodescendentes, mulheres operárias, caminhoneiras, costureiras, cozinheiras, diaristas, domésticas, jogadoras, jornalistas, metalúrgicas, motoristas, professoras, arquitetas, médicas, engenheiras, advogadas, teólogas e tantas outras, enfim, conquistaram o espaço que antes era só masculino. Desde a Antiguidade, as mulheres ocidentais sofreram preconceitos, principalmente em relação à participação política. Ao longo da História, várias foram caçadas como bruxas, queimadas vivas, como na Inquisição, ou assassinadas por questionar atitudes desumanas e injustiças sociais. Um exemplo foi a francesa Olympie de Gouge, que criou a Declaração Universal da Mulher e da Cidadã (1791), como crítica ao Estatuto do Homem, após a Revolução Francesa. Pouco depois, foi morta (1793). No século XIX, outras tantas se comprometeram com a vida das mulheres, enfrentando até chefes, intelectuais, autoridades, como Rosa Luxemburgo. Uma fábrica em Nova Iorque, em 1911, sofreu um incêndio, e 130 operárias morreram carbonizadas, marcando, assim, a data do Dia Internacional das Mulheres. Em 1917, 90 mil operárias participaram do movimento “Pão e Paz” na Rússia. Em 1918, na Inglaterra, as mulheres conquistaram o voto e, somente em 1945, a Carta das Nações Unidas reconheceu a igualdade de direitos entre homens e mulheres, garantindo a vida, a liberdade e a segurança. Na década de 1960, os movimentos feministas possibilitaram avanços internacionais das mulheres de conquistar seu espaço na sociedade, permitindo ver, sentir e cuidar melhor da vida. Simone de Beauvoir, Bertha Lutz, Olga Benário Prestes, entre outras, foram pioneiras em pensar num mundo melhor para todos. Nossa esperança é que as “meninas-guerreiras” do século XXI continuem com coragem e comprometidas com a vida, não somente pessoal, mas também planetária, a exemplo de Malala, que luta pelo direito das meninas à educação; Gretha, que busca conscientizar mundialmente a preservação do meio ambiente, sem esquecer que muitas deram e dão a vida por um mundo de paz e justiça. O Dia internacional da Mulher é lembrado em diversas partes do mundo, gerando vida nova a todas que estão a seu redor. No Brasil, sabemos o quanto ainda temos de melhorar: a presença das mulheres na política, o combate ao feminicídio, a violência doméstica, a igualdade salarial entre os gêneros, os direitos das mulheres rurais e domésticas em se aposentar com dignidade e tantos outros projetos. Elas renunciam a fama, o sucesso, a carreira, a família, mas, com fé, lutam pelos menos favorecidos em orfanatos, em hospitais, atendem moradores de rua, atuam em casas de recuperação, vivem em favor dos indígenas em aldeias, trabalham em campos de refugiados, fazem visitas a presidiários, a idosos e tantos outros. Temos muitos exemplos como os de Ir. Dorothy Stang, Margarida Alves, Santa Paulina, Santa Teresa de Calcutá, Santa Dulce e tantas anônimas e voluntárias que ao verem a necessidade de humanos e também de animais, sentem empatia e buscam cuidar para o bem. Mulheres comprometidas geram vida! Maria Terezinha Corrêa é Mestra em Antropologia pela USP, especialista em Ensino de Filosofia pela UFSCar, graduada em Filosofia pela UFJF e em Pedagogia pela Unitins, sócia da APEOESP, ABA e SBPC. Carioca, trabalhou por 27 anos na Rede Estadual de Ensino Oficial de São Paulo, lecionando Filosofia e Sociologia, atuou entre os ribeirinhos de Humaitá-AM e em serviços voluntários e pastorais em várias comunidades.
Papa Francisco propõe nova economia

O ENCONTRO FOI ADIADO PARA NOVEMBRO, COM O OBJETIVO DE FAVORECERA PARTICIPAÇÃO DOS JOVENS ECONOMISTAS. Saiba mais. De 26 a 28 de março, Assis, a cidade italiana de São Francisco, receberá mais de 2 mil economistas e empreendedores de 115 países, todos com menos de 35 anos, para participar do encontro “A Economia de Francisco”, evento convocado pelo Papa. O Brasil se fará representar por 30 participantes. A agenda prevê debates sobre • trabalho e cuidado; • gestão e dom; • finança e humanidade; • agricultura e justiça; • energia e pobreza; • lucro e vocação; • políticas para a felicidade; • desigualdade social; • negócios e paz; • economia e mulher; • empresas em transição; • vida e estilos de vida; e • economia solidária. “Não há razão para haver tanta miséria. Precisamos construir novos caminhos”, declarou Francisco ao convocar o evento. Ele propõe uma economia “que faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, cuida da Criação e não a depreda”. E afirma a necessidade de “corrigir os modelos de crescimento incapazes de garantir o respeito ao meio ambiente, o acolhimento da vida, o cuidado da família, a equidade social, a dignidade dos trabalhadores e os direitos das futuras gerações”. Para assessorar o Encontro, o Papa convidou Jeffrey Sachs, Joseph Stiglitz, Amartya Sen, Vandana Shiva, Muhammad Yunus e Kate Raworth. Os temas da desigualdade social e da devastação ambiental ocuparão o centro das atenções. Segundo o economista Ladislau Dowbor, no atual estágio do capitalismo, “não há nenhuma razão para haver miséria no planeta. Se dividirmos os 85 trilhões de dólares que temos de PIB mundial pela população, isso equivale a 15 mil reais por mês por família de quatro pessoas. Isso é amplamente suficiente para todos viverem de maneira digna e confortável”. Hoje, segundo a FAO, 851 milhões de pessoas passam fome. A população mundial é de 7,6 bilhões de pessoas, e o planeta produz alimentos suficientes para 11 bilhões de bocas. Portanto não há falta de recursos, há falta de justiça. Como não há falta de dinheiro, e sim de partilha. Os paraísos fiscais, verdadeiras cavernas de Ali Babás, guardam 20 trilhões de dólares, 200 vezes mais do que os US$ 100 bilhões que a Conferência de Paris estabeleceu para tentar deter um desastre ambiental. No neoliberalismo, o capitalismo adquiriu nova face. Deslocou-se da produção para a especulação. As fabulosas fortunas estocadas nos bancos favorecem prioritariamente os especuladores, e não os produtores. Em suas obras, Piketty demonstra que produzir gera empregos e resulta no crescimento de bens e serviços na ordem de 2% a 2,5% ao ano. Porém quem aplica no mercado financeiro obtém um rendimento de 7% a 9% ao ano. O agravante é que o capital improdutivo quase não paga imposto. E a desigualdade de renda tende a crescer, pois, hoje, 1% da população mundial detém em mãos mais riqueza que os 99% restantes. A soma das riquezas de apenas 26 famílias supera a soma da riqueza de 3,8 bilhões de pessoas, metade da população mundial. E, no Brasil, apenas seis famílias acumulam mais riqueza do que 105 milhões de brasileiros – quase metade de nossa população – que se encontram na base da pirâmide social. Segundo a Revista Forbes, 206 bilionários brasileiros aumentaram suas fortunas em 230 bilhões de reais em 2019, enquanto a economia ficou praticamente estagnada. Enquanto isso, aos mais pobres cabem os R$ 30 bilhões do Programa Bolsa Família. Portanto, como assinala Dowbor, não é o Bolsa Família e a aposentadoria dos velhinhos que prejudicam a economia, e sim a acumulação de riquezas em mãos de grandes grupos privados que não produzem, são meros especuladores financeiros. Essas famílias tinham uma fortuna, em 2012, de R$ 346 bilhões. Em 2019, subiu para 1 trilhão e 206 bilhões de reais. Como em nosso país, lucros e dividendos são isentos de tributação, esses bilionários não pagam impostos. O objetivo do Papa Francisco é que vigore no mundo uma economia socialmente justa, economicamente viável, ambientalmente sustentável e eticamente responsável. Frei Betto é escritor mineiro, autor de “Uma Educação Crítica e Participativa” (Rocco), entre outros livros.
A serviço da justiça, paz e reconciliação

A situação prisional do Brasil é uma catástrofe. Em julho de 2019, a população prisional era de 773.151 pessoas privadas de liberdade. Dessas, 33% não tinham qualquer condenação. A população carcerária triplicou nos últimos 20 anos. De acordo com o Departamento Penitenciário Nacional (Depen), o Estado de São Paulo ocupa a primeira colocação, com 233.755 presos; seguido por Minas Gerais, com 78.003 detentos; Rio de Janeiro, com 59.966; Rio Grande do Sul, com 40.687; e Pernambuco, com 33.555. Diante desse cenário, o Centro de Direitos Humanos e Educação Popular (CDHEP) estabeleceu uma parceria com o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD) e o Conselho Nacional da Justiça (CNJ) para implantar ações de justiça restaurativa em dez tribunais do Brasil. Esse avanço é fruto de 15 anos de trabalho e busca inquietante, de uma pesquisa de doutorado e de muitas formações oferecidas dentro e fora do Brasil com os mais diversos públicos. Pouco a pouco, fui me capacitando, ganhando experiências e enxergando lugares de atuação. Desde 2013, outras duas irmãs servas do Espírito Santo (SSpS) de minha comunidade, Martina Gonzalez e Helena Christo, dão formação em fundamentos de justiça restaurativa em presídios de São Paulo, em conjunto com a Pastoral Carcerária. Inspirada na Escola de Perdão e Reconciliação, esse curso trabalha as dimensões cognitivas e emocionais para reconhecer e lidar com sentimentos e necessidades que afetam as relações, aprofundando o perdão como um valor. Ao introduzir a justiça restaurativa, desconstrói e reconstrói conceitos e práticas já enraizadas e propõe um modelo de justiça que conecta e restaura pessoas e relações, possibilitando a reconciliação. O trabalho no presídio tem um aspecto pastoral muito importante, e agradeço minhas irmãs por assumirem essa missão. Cada curso tem dez encontros semanais de três horas de duração, e ouvimos testemunhos edificantes dos presos. Mas me inquietava que o resultado não tinha incidência na política pública. Com o número sempre crescente de encarcerados e as condições nos presídios cada vez mais desumanas, sempre questionava a comunidade: como a justiça restaurativa poderia evitar o encarceramento, a desumanização e a retroalimentação da violência causada pelas respostas punitivas do Estado? Em julho de 2017, participei de uma formação com a juíza Catarina Lima, de Planaltina-DF. Até então, ela era a única juíza criminal que levava em consideração os procedimentos restaurativos para incidir sobre a sentença. Ela estava tão aflita quanto eu em relação à bomba-relógio que o encarceramento em massa está construindo no Brasil. Depois de várias conversas buscando ver como aplicar a justiça restaurativa para ter reflexos na sentença, ela me convidou para trabalhar na Vara Criminal que ela coordena. Aceitei o desafio e a oportunidade, e, ao longo de um ano e meio, uma vez por mês, ia alguns dias a Brasília para os atendimentos. Com formação em Ciências Sociais, tive de aprender muito da área do Direito e descobrir as possibilidades da justiça restaurativa na área criminal. No CDHEP, conseguimos um financiamento para replicar e ampliar os aprendizados em uma Vara Criminal de São Paulo. Contratamos um criminalista e, após quase um ano, com outras duas juízas, iniciamos os atendimentos de casos de crimes graves. No momento, estamos com dez casos criminais e esperamos poder oferecer um bom desfecho para as vítimas, para os ofensores e para a sociedade como um todo. Paralelamente a essas ações, continuaram as reflexões sobre a possibilidade de ampliar a justiça restaurativa na Justiça Criminal. Com mais experiência e apoio de criminalistas, conseguimos oferecer esse novo projeto tendo em vista a diminuição do encarceramento. A parceria com o CNJ pretende contribuir para a implantação, estruturação e fortalecimento de órgãos e serviços de justiça restaurativa nos Tribunais de Justiça, na Rede de Garantia de Direitos e na sociedade civil para atuarem no Sistema de Justiça Criminal e Penitenciário e no Sistema de Justiça Juvenil e Socioeducativo em dez Estados da Federação. O projeto já aprovado se enquadra no Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 16 da ONU, que almeja o acesso à Justiça para todos e a construção de instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis. A mim cabe coordenar a aplicação desse projeto nos dez Estados participantes. Com exceção de São Paulo, são do Norte e Nordeste, os mais pobres e com instituições públicas mais deficientes. Minha sensação é de fecharmos um ciclo de trabalho, indo a outro nível de organização. A paciência, as articulações e as formações de muitos anos produziram uma semente a ser espalhada pelo Brasil. A terra foi preparada. Agora é hora de semear. Um belo desafio e uma ótima oportunidade. Irmã Petronella Maria Boonen (Nelly) é cofundadora da linha de Perdão e Justiça Restaurativa do CDHEP e doutora e mestra em Sociologia da Educação pela USP. O projeto já aprovado: link para https://www.cnj.jus.br/justica-restaurativa-chegara-a-10-tribunais-do-pais/
Conheça a Comunidade Santana: a missão em outra perspectiva

A Comunidade Santana, em São Paulo-SP, é composta por dezoito irmãs servas do Espírito Santo e uma leiga. Segundo a irmã Monika Kopf, sete das religiosas são cadeirantes e quatro precisam de cuidados dia e noite. Essa é uma das características da casa que acolhe missionárias que já trabalharam muito ao longo da vida. “Elas cuidaram tanto e agora têm o carinho de serem cuidadas”, diz a fisioterapeuta Jéssica Aline de Oliveira. Mas se engana quem pensa que as irmãs da comunidade levam uma vida monótona. Com a ajuda de profissionais, elas participam de atividades de formação, trabalhos manuais, exercícios físicos, confraternizações. “Nós acompanhamos tudo o que acontece na Congregação. Todos os informativos nós lemos, refletimos, comentamos”, conta a irmã Monika. Ela acrescenta que todas continuam sendo missionárias. Pela oração, apoiam evangelizadores e evangelizadoras de todo o mundo. Assista ao vídeo e conheça mais sobre a Comunidade.
Campanha da Fraternidade 2020: Dom e Compromisso

Quantas vezes você viu pessoas pedindo ajuda para comprar uma passagem ou um remédio? Ou viu seres humanos debaixo de viadutos, pessoas que se tornaram moradores de rua? A demanda de migrantes, de pessoas desempregadas em nosso País é grande. O que fazer? Neste ano de 2020, a Igreja Católica no Brasil propõe, a partir do período da Quaresma, a refletir sobre o nosso compromisso com a vida, com o outro, com aquele que deveríamos considerar como “irmão”, pois é nosso semelhante, já que chamamos Deus de Pai. Como ser solidário, solidária com o próximo? Jesus, no Evangelho segundo Lucas (10,25-37), dá-nos a resposta ao contar a Parábola do Bom Samaritano. Um estrangeiro que, no caminho, percebeu o outro caído, machucado, necessitado: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34). O samaritano não se omitiu ao ver o problema do outro. A importância do olhar foi fundamental para que ele sentisse compaixão, tivesse empatia. Não ficou criticando os que atacaram o transeunte nem teve preconceito com o caído, porque não era da mesma crença ou porque não era seu conhecido ou conterrâneo; preocupou-se em devolver-lhe a vida, levando-o para uma hospedaria para ser cuidado. Por isso o Mestre perguntou quem, dos três personagens da parábola, foi o mais próximo daquele homem necessitado. Em nossa sociedade brasileira, há diversas situações de dificuldades que precisam ser percebidas, vistas com os “olhos do coração”, ou seja, além das aparências, para que, por meio de atitudes solidárias e cristãs, possam ser geradas soluções, situações de paz. Pequenos gestos são muito importantes para devolver o dom da vida aos semelhantes: olhar para ver a situação do outro, do “próximo”, comover-se com a situação de outrem, não se omitir diante de injustiças, de problemas. Cuidar do outro, auxiliando no que for preciso, encaminhar se necessário; isso também é caridade. A Igreja tem vários exemplos de “samaritanos e samaritanas” comprometidos com o dom da vida, como São Francisco de Assis, São Francisco Xavier, São Vicente de Paula, Dom Hélder, Santa Paulina, Santa Teresa de Calcutá e, mais recentemente, Santa Dulce dos Pobres, que afirmou: “O importante é fazer a caridade, não falar de caridade. Compreender o trabalho em favor dos necessitados como missão escolhida por Deus”. E tantos outros anônimos que oferecem um espaço em sua casa ou num terreno e trabalham no e para o bem dos mais necessitados. Não seja indiferente, preconceituoso. Faça a diferença, outros que dedicam suas vidas aos menos favorecidos. Não adianta somente olhar o vídeo postado nas redes sociais e compartilhar as situações de misérias ou de violências. Isso é continuar na mesmice. Seja presente e comprometido com a vida, que é dom. Denuncie, caso seja necessário. Faça valer o direito à vida, à liberdade, à dignidade. Que tenhamos mais geladeiras solidárias, serviços de ouvir os que estão acamados, os deprimidos, visitas aos idosos e aos doentes, de levar conhecimento àqueles que estão em busca de apoio para aprender um ofício, dar atenção às crianças e aos jovens caídos pelas sarjetas da vida porque perderam seus pais para os desafetos da sociedade desigual. Veja, sinta, cuide de tudo que acontece a seu redor para, assim, compartilharmos e criarmos uma sociedade de justiça, de fraternidade e de paz, a partir de projetos éticos, para o bem de todos. Maria Terezinha CorrêaMestra em Antropologia pela USP, especialista em Ensino de Filosofia pela UFSCar, graduada em Filosofia pela UFJF e em Pedagogia pela Unitins, sócia da APEOESP, ABA e SBPC. Carioca, trabalhou por 27 anos na Rede Estadual de Ensino Oficial de São Paulo, lecionando Filosofia e Sociologia, atuou entre os ribeirinhos de Humaitá-AM e em serviços voluntários e pastorais em várias comunidades.
Família que celebra a fé conserva a união

Ter uma família grande e unida é graça, mas também fruto da busca constante e de cuidados mútuos. Não acontece por acaso, mas precisa ser cultivada, especialmente nos tempos atuais, nos quais, muitas vezes, o individualismo fala mais alto. Mas, para os membros da família da irmã Celiniana, Natália Pykosz, um dos fatores que os mantêm unidos é a fé e o gosto de celebrar juntos. De fato, é uma família muito religiosa e também missionária. Além da Ir. Celiniana, que é missionária serva do Espírito Santo e celebrou, em dezembro do ano passado, 70 anos de consagração religiosa, ela tem também um sobrinho, o irmão Moacyr Rudnick, que é missionário verbita em Moçambique. Em dezembro, a família da Ir. Celiniana se organizou, alugou um ônibus e foi em peso celebrar o jubileu da tia, no Convento Santíssima Trindade, em São Paulo-SP. Vestiram a camiseta preparada especialmente para a ocasião e puseram mãos à obra! Ajudaram em tudo o que puderam. Dos mais pequenos e jovens aos mais idosos, foi uma alegria só! E mais recentemente, no domingo, 16 de fevereiro, a família se reuniu novamente para uma missa solene em ação de graças pela vida da Ir. Celiniana e de todos os membros da família na capela Nossa Senhora do Rosário, no Município de Agudos do Sul-PR. A missa foi presidida pelo Pe. Ademar Lino, SVD. A seguir, apresentamos o comentário da missa feito por sua sobrinha, Roseli Maria Chapieski: “Hoje, aqui estamos para agradecer o dom da vida de cada um de nós, mas sobretudo da tia Natália, irmã Celiniana. Aqui neste local, Tarumã, ela nasceu, aprendeu suas primeiras palavras, descobriu o amor familiar e de Deus com sua mãe, seu pai, irmãos mais velhos, tios e todos os que a rodeavam. Embora revestida de todo esse carinho, sentiu em seu coração um chamado e o seguiu, escutando aquela voz de seu coração a seguir o único TUDO de sua vida. Seguiu o Espírito Santo, seguiu a vontade de Deus! Mesmo que distante fisicamente, mas nunca longe de nossos corações, nossas orações, toda vez que voltava para nos encontrar, sempre foi uma grande festa! O encontro familiar, uns chegando com suas carroças (meio de transporte…), e todos, como podiam, vinham para o encontro da família, porque a presença de Jesus em meio à família é real. Somos gratíssimos a Deus por seu amor fiel e sua fidelidade que também nos manteve na mesma estrada, procurando gerar sempre a presença dele entre nós; esse amor incondicional que aprendemos de nossos avós (Babusz e Babucha) na fidelidade das orações diárias, que é o nosso sustento até hoje.” De acordo com sua outra sobrinha, Seliana Pontes, após a missa, todos foram em procissão até o cemitério onde os pais da Ir. Celiniana, Aleixo e Rosália Pykosz, estão sepultados. Seus irmãos ainda vivos (Afonso, Bárbara, Rosália, Vitória e Genoveva) e todos os presentes levaram a vela que irmã Celiniana recebeu no dia em que fez seus votos de vida religiosa. Esse era um desejo da Ir. Celiniana, em agradecimento. “Foi um momento de muitas graças para todos os presentes”, conta Roseli. E, para completar a celebração, foi feita a venda de almoço no salão da Igreja. A verba foi confiada ao irmão Moacir que a destinou para as missões na África.
Espiritualidade da convivência intercultural

Antigamente era normal passar a vida num mesmo local, com pessoas da mesma origem e conviver apenas com as que praticavam a mesma religião e compartilhavam os mesmos princípios. Hoje vivemos numa sociedade multicultural. Com o aumento das migrações e da globalização, aliado à rapidez das comunicações e à facilidade de transporte, não precisamos mais nos deslocar para outros países para encontrar pessoas com línguas e costumes diferentes dos nossos. Elas estão em nossas cidades e até mesmo em nossas famílias. Conviver com outras culturas é um desafio, pois, apesar de sermos todos humanos, temos maneiras diferentes que vão desde o jeito de preparar a comida e educar os filhos até o modo expressar sentimentos, celebrar a alegria e enfrentar os sofrimentos. Como nascemos e crescemos imersos em nossa própria cultura, tudo o que fazemos nos parece natural, enquanto que o comportamento de outros povos nos parece estranho quando é apenas diferente. Na sociedade atual, a convivência multicultural é fonte de conflitos e de mal-entendidos, mas também é oportunidade de enriquecimento e abertura para novos horizontes. Acolher, conviver e aprender com as diferenças faz parte de uma nova maneira de estar no mundo e exige a superação de nosso etnocentrismo, dos preconceitos e da tendência à exclusão. Do multicultural ao intercultural Para as missionárias servas do Espírito Santo, com comunidades formadas por irmãs de diversos países e de distintas regiões, o desafio é ainda maior, pois somos chamadas a superar o multicultural para vivenciar o intercultural. Qual a diferença? Num grupo multicultural, cada pessoa mantém a própria cultura, mas não há um verdadeiro intercâmbio, e as pessoas ficam isoladas umas das outras; moram juntas, mas, no fundo, estão sozinhas. Por outro lado, se cada pessoa renunciasse à própria cultura para se adaptar aos costumes do país onde está, haveria um empobrecimento cultural e um sentimento de mal-estar reprimido, pois não podemos negar a raiz de onde viemos ou deixar de ser quem somos. Então, o que fazer? É possível construir comunidades com gente tão diferente? Sim, é possível, mas não é fácil. O caminho da interculturalidade é um processo de conversão constante que nos ajuda a perceber que há outras maneiras de viver e de agir tão boas como as nossas, e outras que, tanto como as nossas, precisam de aperfeiçoamento e de transformação. Com base na espiritualidade trinitária, é possível alcançar a interculturalidade. Como Deus é um só, mas, ao mesmo tempo, Pai, Filho e Espírito Santo, cada pessoa divina, em sua diversidade, está de tal forma unida pelo amor às demais que formam uma única realidade. Assim é a Trindade. Também nós somos chamadas a viver em comunhão com Deus, com as pessoas e com toda a criação. Isso significa construir uma convivência que vai além de nossas diferenças, reconhecendo no outro a beleza e a grandeza de nosso Criador, que se expressa de múltiplas formas. Numa comunidade intercultural, as pessoas não estão justapostas em sua maneira de ser e de pensar, mas vivenciam relações dinâmicas nas quais cada uma pode se expressar a partir do que é e da cultura de onde vem, e são aceitas, acolhidas e respeitadas em sua diversidade. Ninguém é melhor que a outra: todas têm dons a oferecer e muito a aprender. Quando isso ocorre, a comunidade se transforma e cria uma nova cultura que é diferente da cultura original de cada uma, mas incorpora elementos de todas elas de acordo com o que promove a vida e o desenvolvimento humano. Chamamos isso de comunidade intercultural, e o resultado é o amor mútuo e a celebração de nossas diferenças como dádivas para o enriquecimento de todos. Seminário de Espiritualidade e Interculturalidade Para aprofundar a vivência da interculturalidade, com base na ótica da espiritualidade trinitária, um grupo de cerca de 35 missionárias servas do Espírito Santo, missionários verbitas e leigos participaram de um seminário internacional em Steyl, na Holanda, de 26 de janeiro a 14 de fevereiro. Éramos de 20 nacionalidades, atuando em diferentes países da África, Ásia, Oceania, Europa e Américas. Assim tivemos a oportunidade de vivenciar intensamente a interculturalidade não somente nos conteúdos e dinâmicas, mas principalmente na convivência entre nós. A primeira parte foi dedicada ao aprofundamento dos conceitos teóricos; a segunda para integrar a espiritualidade pela oração e o silêncio; e a terceira para colocar em prática o que aprendemos e vivenciamos, por meio da produção de materiais para retiros, reflexões e atividades comunitárias. Participar desse seminário em Steyl, local da fundação da família religiosa de Santo Arnaldo Janssen, foi uma experiência inesquecível. Tivemos o privilégio de beber da fonte espiritual que alimentou nossa geração fundadora e que, até hoje, inspira-nos a deixar tudo para anunciar o Evangelho em qualquer país aonde somos enviadas. Viver a interculturalidade, para nós. SSpS, SVD e missionários leigos e leigas, é viver a cultura do Evangelho, abrindo o coração para acolher as diferenças e superar todas as formas de discriminação e exclusão. Em outras palavras, vivenciar a cultura do amor universal e do encontro que abre as portas para a cultura da paz. Irmã Ana Elídia Caffer Neves, SSpSJornalista, membro da Equipe de Comunicação Congregacional e coordenadora de Comunicação da Província Stella Matutina (BRN)
Presença missionária junto ao povo Akwẽ Xerente

No início de 2018, retornei à missão junto ao povo Xerente e logo me tornei um dos membros do NIPAX (Núcleo de Intercâmbio do Povo Akwẽ Xerente), assim como outros apoiadores: Ir. Sílvia, Thêkla Maria Wewering, SSpS, e Pe. Martins Rodrigues Putencio. O grupo é formado por lideranças masculinas e femininas xerentes, pelo qual buscamos refletir e agir conjuntamente, no que se refere a questões fundamentais (terra, cultura, identidade, autonomia) para a sobrevivência como povo. Neste ano, o nosso trabalho está voltado para os seis clãs dessa etnia. Realizamos ações como articulação e organização sobre a questão dos clãs, em vista da realização de um congresso sobre os clãs, entre os dias 1º e 5 de junho de 2020. Percebemos que as identidades culturais, suas tradições estão se perdendo. Por isso o grupo NIPAX pensou em realizar o I Congresso do Povo Xerente, cujo objetivo primeiro é uma reorganização interna dos xerentes como povo Akwẽ, a fim de que possam reunir-se em clãs e tomarem algumas decisões importantes para a preservação de suas culturas. Acredito que será um momento de conscientização, comprometimento e de um despertar para se firmarem como um povo. Será de grande importância principalmente para os jovens xerentes. A minha presença como missionária serva do Espírito Santo inserida na realidade xerente é de uma partilha na vida das aldeias; de luta ao lado deles, de incentivo nos trabalhos para o autossustento. No momento atual, estou comprometida em apoiá-los, dando o meu testemunho de consagrada, que acredita na vida e que devemos cuidar dela e preservá-la, ainda mais dentro de um território onde a vida sofre constantes ameaças, por pressões externas, como o agronegócio (com os desmatamentos e agrotóxicos), os grandes projetos hidroelétricos com os impactos ambientais e outros. Para isso incentivamos as comunidades no plantio das roças de mandiocas e de grãos, pois, além de não faltar o alimento, terão como contribuir na alimentação nos dias do congresso. Entre um trabalho e outro, participo de algumas aulas da língua xerente, ministrada pelo professor Nelson Praze Xerente, membro também do NIPAX. O aprendizado do idioma será importante para a interação com todos da comunidade Akwẽ Xerente. Espero que, ao término do congresso, os indígenas estejam mais fortalecidos e conscientes com relação à identidade e sua autonomia como povo Akwẽ Xerente, para construírem juntos sua história de vida. Participar desse processo de preparação do congresso está sendo para mim um aprofundar no aprendizado da cultura e do modo de vida do povo Akwẽ bem como experienciar o quanto está sendo importante acolher e valorizar cada expressão de vida nas aldeias visitadas, e também poder partilhar com eles a alegria, a fé, a minha entrega amorosa a Cristo entre os xerentes. Por isso destaco Aquele que nos trouxe a vida, a causa de nossa missão: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10). Irmã Maria Leonice Neves é missionária serva do Espírito Santo, pós-graduada em Pedagogia Social com o tema “A atuação das mulheres indígenas xerentes na sua cultura”.