A Solenidade da Santíssima Trindade e sua importância na vida de um cristão

Celebramos, no domingo logo após a Solenidade de Pentecostes, a Solenidade da Santíssima Trindade. Por ordem do Senhor Jesus, em Mateus (28,19), cada um de nós foi batizado e consagrado a Deus “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. Fazemos nossa oração diária em sintonia com a Santíssima Trindade. Traçando sobre nosso corpo o sinal da cruz, sinal do amor de Deus por nós, abrimos nosso ser para a Trindade: “Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém!”. Ainda nos braços da mãe, talvez sem entendermos o sentido do gesto ou o alcance das palavras, aprendemos a fazer o sinal da cruz e nossa primeira oração: “Em nome do pai e do Filho e do Espírito Santo. Amém”. Esse “amém” no fim da oração é um vocábulo hebraico e, explica Catecismo da Igreja Católica (n.º 1026), está ligado à mesma raiz da palavra “crer”, e exprime a solidez, a confiabilidade e a fidelidade de nossa fé. Pode proclamar tanto a lealdade de Deus para conosco como nossa confiança nele. Com o “amém” que pronunciamos, anunciamos ter encontrado Deus e depositamos nele nossa inteira e total confiança. Esse piedoso sinal da cruz, pelo qual se benze o cristão, invocando as Três Pessoas Divinas, prática já comprovada no segundo século, é um costume de sentido profundo e completo: significa consagração, profissão de fé e oração. Em cada oração que fazemos todos os dias, sempre começamos e terminamos com o sinal da cruz. Com esse sinal, entramos na presença da Santíssima Trindade. É uma louvação às Três Divinas Pessoas, porque elas se revelaram na história e nos convidam a participar de sua comunhão divina. A resposta humana à revelação da Santíssima Trindade é o agradecimento e a glorificação. Depois, decoramos a doxologia (a louvação): “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo”. E não demorou para aprendermos, desde crianças, muitas vezes antes da primeira comunhão, a professar com piedade e precisão, mesmo sem entender o que haveríamos de compreender, pouco a pouco, mais e melhor, ensinados por nossa mãe, avó, catequista, com solenes palavras: “Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra […] Creio em um só Senhor, Jesus Cristo […] Deus verdadeiro de Deus verdadeiro […] Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida e procede do Pai e do Filho; e com o Pai e o Filho é adorado e glorificado”. Esse nosso Credo é, em sua estrutura íntima, uma confissão da Trindade. Na verdade, a atenção e a devoção às Três Divinas Pessoas continuam centrais em nossa vida, e tirá-las de nossa fé causaria não só um irreparável dano, mas acabaria com o próprio fundamento de nossa existência cristã. Por isso, crer na Santíssima Trindade e amá-la com todo o nosso ser tem consequências imensas para toda a vida (cf. o Novo Catecismo nos n.os 223-227): significa reconhecer a grandeza e a majestade de Deus. “Deus é tão grande que supera nossa ciência” (Jó 36,26). Significa viver em ação de graças: se Deus é o Único, tudo que somos e tudo o que possuímos vem dele: “Que é que possuis que não tenhas recebido?” (1Cor 4,7). Significa reconhecer a unidade e a verdadeira dignidade de todos os homens: todos foram feitos “à imagem e à semelhança de Deus” (Gn 1,27). Significa usar corretamente das coisas criadas por Deus, como rezava São Nicolau de Flüe: “Meu Senhor e meu Deus, tirai-me tudo o que me afasta de vós. Meu Senhor e meu Deus, dai-me tudo o que me aproxima de vós. Meu Senhor e meu Deus, desprendei-me de mim mesmo para doar-me por inteiro a vós”. Crer na Santíssima Trindade também significa confiar em Deus em qualquer circunstância, mesmo na adversidade. Uma oração de Santa Teresa de Jesus exprime-o de maneira admirável: “Nada te perturbe, nada te espante. Tudo passa, Deus não muda. A paciência tudo alcança. Quem a Deus tem nada lhe falta. Só Deus basta”. Uma fé completa Crer no Deus bíblico, a partir de Jesus, é necessariamente crer na Santíssima Trindade. O Deus de Jesus, o Deus cristão, é o Pai e o Filho e o Espírito Santo, a Santíssima Trindade. Pai, Filho e Espírito Santo sempre estão juntos: criam juntos, salvam juntos e juntos nos introduzem em sua comunhão de vida e de amor. Na piedade de muitos fiéis, há uma desintegração da vivência do Deus trino. Alguns só ficam com o Pai, outros só com o Filho e outros só com o Espírito Santo. A religião só do Pai é o patriarcalismo. Todos dependem dele, sem qualquer criatividade. A religião só do Filho é o vanguardismo. Jesus é considerado o “companheiro”, “o mestre” e “nosso chefe”, irmão de todos. É um Jesus com apenas relações para os lados, sem uma dimensão vertical, em direção ao Pai. Essa religião cria cristãos vanguardistas. A religião que só se concentra na figura do Espírito Santo é espiritualismo. Eles só cultivam suas emoções interiores e pessoais. Eles esquecem que o Espírito Santo é sempre o Espírito do Filho, enviado pelo Pai para continuar a obra libertadora de Jesus. Não basta a relação interior (o Espírito Santo) nem a somente para os lados (Filho), nem só a vertical (Pai). Importa integrar as três. Que seria de nós se não tivéssemos um Pai que nos aconchegasse? Que seria de nós se esse Pai não nos desse seu Filho para fazer-nos também filhos de Deus? Que seria de nós, se não tivéssemos recebido o Espírito Santo, enviado pelo Pai, a pedido do Filho, para morar em nossa interioridade e completar a nossa salvação? Vivamos a fé completa, numa experiência completa da imagem completa de Deus como Trindade de Pessoas. Entrar no mistério amoroso de Deus Fomos batizados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Batizar em nome de alguém significa estabelecer com ele uma relação pessoal. Pelo batismo, entramos numa relação pessoal com Deus uno e trino. Batizar em nome do Pai e
Dimensões da sexualidade, diversidade e respeito

A diversidade nos enriquece, e o respeito nos une Durante o ano de 2021, todas as escolas de nossa Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo terão como tema transversal “A diversidade nos enriquece, e o respeito nos une”. Esse será o pano de fundo de todas as nossas ações pedagógicas e marca também como reflexão para que toda a nossa comunidade educativa, alunos, educadores e familiares, possa repensar nossas atitudes diante desse mundo tão plural que vivemos e, assim, trabalhemos na construção de uma sociedade mais justa e fraterna. Além disso, aproveitamos também o mês de maio para conversarmos sobre esse tema. No dia 21, celebramos mundialmente o Dia da Diversidade Cultural para o Diálogo e Desenvolvimento. Falar sobre a diversidade é uma tarefa complexa, já que, aos olhos da Antropologia Teológica, todo ser humano é único e irrepetível diante Deus. Cada um, cada uma é parte de um todo que foi pensado e amado por Deus. Fomos criados à sua imagem e semelhança, e, por isso, chamados a viver no e por amor. Nessa lógica, podemos intuir que a diversidade existe desde que a primeira espécie humana (Homo erectus) surgiu neste planeta, há 2 milhões de anos. De acordo com as mais recentes descobertas, o Homo sapiens conviveu com alguns dos seus antepassados, dando mais ênfase a esse convívio diverso. A diversidade está presente em nosso cotidiano, 24 horas por dia. Está em nossas casas, em nossas escolas, em nossos trabalhos e em nossas igrejas. É de suma importância compreender que nossas diferenças nos ajudam a sermos melhores, nos enriquecem e nos tornam mais capazes de construir um mundo mais solidário. Devemos olhar nossas crianças, e digo as menores mesmo, pois, para elas, não existe preconceito, diferenças… Elas convivem de maneira harmônica em nossas salas de aula. Quem trabalha com a educação infantil pode nos ajudar nessa reflexão, mas, conforme o crescimento e as informações que vão recebendo, ou não, essas diferenças vão se tornando obstáculos quando não são bem elaboradas internamente. Jesus, em sua missão, encontrou diversas pessoas, de variadas etnias, opiniões, jeitos de ser, e sua postura foi única: O AMOR, trazendo com ele a misericórdia e a compaixão que derrubam barreiras e preconceitos. Basta olhar o grupo dos doze apóstolos, composto por uma diversidade de pessoas. Em nenhum momento, incitou a violência, de espécie nenhuma, mas acolheu todos aqueles que dele se aproximavam. Isso posto, vamos pontuar alguns aspectos mais específicos da diversidade que desejamos ressaltar. Ao olharmos nosso entorno ou até mesmo quando vemos dados de pesquisas oficiais, fica claro que nossa sociedade é diversa. Geralmente, tende-se a pensar que o modo como lidamos com a diversidade é um assunto já superado e compreendido pela maior parte da sociedade. Mas, ao nos depararmos com as questões que envolvem a diversidade sexual e as dimensões da sexualidade, ainda há caminhos que geram dúvidas e preconceitos. De início, é preciso entender que a sexualidade vai além do conceito biológico do sexo e atrelado ao processo reprodutivo. Ela é algo particular, estando relacionada ao gênero, à identificação das pessoas dentro das possíveis identidades de gênero, ao envolvimento emocional com outras pessoas e consigo próprias. É também uma questão cultural, já que, por ela, são estabelecidos vínculos afetivos e é pautada em padrões criados por grupos de pessoas e valores construídos em cada sociedade. Por conta de toda essa rede de relações (biológica, sociocultural, afetiva e ética), ela deve ser vista e estudada segundo suas várias dimensões e deve ser respeitada e levada a sério. Para que essa compreensão e respeito sejam colocados em prática, é preciso que alguns termos vinculados a essa temática sejam entendidos. Sempre que nos referimos ao sexo biológico, estamos falando da distinção entre macho e fêmea. Porém não devemos confundir o sexo biológico com a identidade de gênero, que se refere ao gênero com o qual o indivíduo se identifica. Desse modo, ser do sexo masculino é ter cromossomos XY; por outro lado, ser do gênero masculino é identificar-se com esse gênero. Embora sexo e gênero tenham uma forte correlação, nem sempre eles são coincidentes. Dentro desse contexto, uma pessoa cisgênero é aquela cuja identidade de gênero coincide com seu sexo biológico, enquanto uma pessoa transgênero é aquela que sua identidade de gênero não coincide com o sexo biológico. Há ainda as pessoas que não se identificam com nenhum dos dois gêneros ou com os dois. Existe ainda o que chamamos de orientação sexual, que é como se caracteriza o desejo sexual predominante de uma pessoa: se é por pessoa de gênero diferente (heterossexual), igual (homossexual) ou de mais de um gênero (bissexuais ou pansexuais). Muitos outros termos existem dentro desse guarda-chuva, mas esses são os mais populares. A discussão sobre sexualidade se torna cada vez mais importante, uma vez que jovens passam por situações de transtorno psicológico por não se entenderem/aceitarem ou não serem aceitos por outros, além de várias situações de preconceito que ainda são vistas e vividas em um país como o nosso, onde, teoricamente, temos a liberdade para viver a sexualidade do modo que nos convier. Compreender as dimensões da sexualidade é fazer com que ela não faça qualquer pessoa perder seus valores, sua atividade e sua vida. Em janeiro de 2015, o Papa Francisco recebeu Diego Neria Lejárraga, espanhol de 48 anos. Diego, que nasceu mulher, mas sempre se sentiu homem, tinha escrito ao Papa para pedir-lhe apoio diante da rejeição e da incompreensão que sofre por parte de seus conhecidos e até mesmo de religiosos quando vai à igreja, por conta de sua mudança de sexo. Durante seu encontro, perguntou ao Santo Padre se havia lugar para ele na casa de Deus. Como resposta, recebeu um abraço. Ao sair do encontro, Diego disse sentir uma imensa paz. É, portanto, imprescindível que seja parte de nossas atitudes diárias promover o acolhimento a todos a nosso redor, independentemente de suas características físicas, étnicas, culturais, religiosas ou sexuais, e que tenhamos em mente que, dentro da sociedade inclusiva
Irmãs renovam compromisso de proteger a Casa Comum

Conscientes da gravidade da situação planetária e da veloz rota da humanidade rumo ao colapso ecológico, a questão da integridade da Criação tem se tornado um ponto central nas discussões das várias instâncias da Congregação. O tema é abordado tanto nas pequenas comunidades espalhadas pelos cinco continentes quanto nos Capítulos-Gerais, quando representantes das irmãs de todo o mundo se reúnem para tomar decisões que orientam toda a Congregação. Impelidas a escutar o grito da Terra e o clamor dos pobres, no fim de 2020, as irmãs missionárias servas do Espírito Santo da Província Brasil Norte renovaram coletivamente o compromisso de assumir um estilo de vida, tanto pessoal quanto comunitário, que leve em consideração a ecologia integral e o cuidado com o planeta, nossa Casa Comum. Os eixos fundamentais que atravessam esse compromisso dizem respeito à relação íntima entre os pobres e a fragilidade do planeta, à convicção de que tudo está estreitamente interligado e à crítica ao paradigma das formas de poder que derivam da tecnologia e da cultura do descarte. Apontam para um novo estilo de vida regido pela espiritualidade do cuidado que deve permear a vida em missão de cada irmã. Nesse sentido, as irmãs se comprometem a buscar meios que corroborem a consciência de que a vida humana está estreitamente interligada com todas as formas de vida planetária; a discernir constantemente sobre o estilo de vida, considerando os hábitos de consumo (reduzir, reutilizar e reciclar), o uso responsável dos recursos da natureza e das novas tecnologias; a cultivar uma vida saudável em conexão com a natureza, com especial atenção à alimentação mais natural. As irmãs também têm clareza de que o cuidado com a Casa Comum é uma causa que todas as pessoas deveriam assumir. Por essa razão, tendo como base os documentos da Congregação, as encíclicas Laudato si’ e Fratelli tutti, bem como a Carta Brasileira pela Economia de Francisco e Clara, as irmãs querem incentivar a reflexão e o engajamento sobre a ecologia integral com as pessoas com as quais mantêm contato nos diversos campos de missão. Além disso, comprometem-se a apoiar e, na medida do possível, participar dos movimentos que lutam pela integridade da Criação, desenvolvendo parcerias, criando redes em defesa do bem comum e fortalecendo a atuação da Vivat, organização fundada pelas próprias missionárias servas do Espírito Santo e os missionários do Verbo Divino. Que possamos, como humanidade, crescer na consciência ecológica e na corresponsabilidade no cuidado e proteção da Casa Comum, a partir de nossas pequenas ações e práticas cotidianas. Irmã Stela Martins, SSpS, coordenadora da Redes (Rede de Solidariedade), graduanda no curso de Ciências Sociais.
Colégio Espírito Santo e comunidade Xerente estreitam laços

Pensar a Casa Comum e a saúde de nosso planeta tem a ver com uma reflexão profunda sobre a atuação humana, a qual deve refletir em ações concretas que possibilitem a continuidade da existência da vida na Terra. E não é de hoje que falamos sobre isso, porém nossas ações ainda são muito tímidas. Quem sabe a esperança esteja no brilho dos olhos das crianças da etnia xerente? Educadoras e alunos das turmas de infantil 5, primeiros e segundos anos do Colégio Espírito Santo, de São Paulo-SP, refletindo sobre o poder da partilha e da educação, conversaram sobre a responsabilidade que temos de manifestar atitudes de amor e de cuidado para com todas as pessoas que fazem parte de nossa “Casa Comum”. Nasceu, então, o projeto “Natal da Casa Comum”, que teve como propósito trabalhar a importância do reconhecimento do outro e das atitudes de amor ao próximo. A comunidade indígena Xerente, localizada no Estado do Tocantins, foi um dos muitos espaços alcançados pelas manifestações de afeto de nossos alunos. Um livro virtual foi encaminhado às crianças que estudam na escola da aldeia. O presente foi recebido da melhor forma possível. Segundo Wakukepre, professor na escola do povo xerente, os alunos realizaram batismos do material como manifestação de gratidão pela troca de conhecimento, de acordo com a tradição da etnia. Foi pensando não somente em nossa relação com as pessoas, mas também em nossa Casa Comum e na saúde de nosso planeta que pretendemos, por meio desse projeto, possibilitar um espaço de troca e reflexão profunda sobre o sentido de sermos humano e, assim, buscarmos ações concretas que possibilitem a continuidade da vida na Terra. Respeitar e reconhecer diferentes culturas é questão fundamental como comunidade escolar. Receber o retorno do projeto “Natal da Casa Comum”, que foi apenas uma pequena manifestação das reflexões que buscamos estimular em nosso cotidiano escolar, e poder compartilhar o resultado dessa ação coletiva só reforça a importância do trabalho que buscamos desenvolver como educadores missionários. Ponte intercultural Outra parceria foi realizada com a ajuda das missionárias servas do Espírito Santo que trabalham com a etnia xerente. Por meio de diálogos de aproximação proporcionado com lideranças da comunidade indígena, nossos educadores vêm realizando trocas de livros, outros materiais didáticos e experiências educativas. A experiência já criou uma ponte intercultural e de fraternidade. Em fevereiro, foram encaminhados aos xerentes diversos materiais escolares e um valor em dinheiro para que eles pudessem adquirir roupas para as crianças da comunidade. A doação também possibilitou a compra de material esportivo para os pequenos, que adoram praticar o futebol.Assim, seguimos cheios de esperança, conseguindo encontrar nas crianças, nas comunidades indígenas, nas atitudes de cuidado, afeto, amor ao próximo, justiça social e tolerância, a cada dia, a cultura de paz que almejamos. Beatriz Von Lasperg Careli é professora do Colégio Espírito Santo, e Agostinho Travençolo Junior é assessor Rede de Educação Missionárias Servas do Espírito Santo.
Cristo é a nossa paz

Em 17 de fevereiro, Quarta-Feira de Cinzas, iniciamos a Quaresma. Também nesse dia, em todo o Brasil, abrimos a Campanha da Fraternidade (CF) que, neste ano, tem como tema “Fraternidade e diálogo: compromisso de amor” e o lema “Cristo é a nossa paz: do que era dividido fez uma unidade” (Ef 2,14a). Esta CF nos convoca a todos para a construção de um mundo no qual reine a paz verdadeira, que nasce como fruto do diálogo e do compromisso de amor. O tema vem de encontro a um mundo dividido por ideologias, ódios, injustiças sistêmicas, notícias falsas (fake news) que perturbam a paz e a convivência pacífica entre pessoas e povos. Nosso mundo, que está marcado pela pandemia, a qual já trouxe tanto sofrimento a milhões de pessoas, precisa de paz e solidariedade para superar os males causados pelas doenças e para a construção de uma nova humanidade. A tarefa de superar as divisões e os males precisa ser assumida por todas as pessoas de boa vontade, pelos governantes das nações e por todos aqueles que têm responsabilidades que afetam o espírito de convivência pacífica e ordeira. A verdadeira paz é fruto do protagonismo do Evangelho que nos ensina que todos somos irmãos, mesmo que nascidos de pais biológicos diferentes. A imagem e semelhança colocada em nós pelo próprio Deus é fonte e certeza de que é possível uma vida mais humana, mais esperançosa e menos conflitiva. Nossas esperanças se voltam para todos os que podem contribuir com seu testemunho, deixando de lado toda desavença e disputa. A experiência da pandemia nos mostrou que todos somos frágeis e precisamos uns dos outros. Para superar esse mal, nossa esperança se volta para as vacinas que começam a ser injetadas em defesa do organismo, para combater o vírus. É uma luz diante do caos vivido por um ano inteiro. Superar, contudo, a pandemia é um dos desafios que nos afligem. A CF nos encoraja a superar todo tipo de divisão e a estabelecer novos modos de convivência que vençam tantos outros males que vão além da pandemia. A campanha nos propõe uma constante conversão como processo permanente. Ela nos pergunta “sobre como nos envolvemos com as transformações sociais, econômicas, espirituais, ecológicas, individuais e coletivas, a fim de que sejamos cada vez mais coerentes com os ensinamentos de Jesus nos evangelhos”. E prossegue dizendo: “Jesus nunca orientou seus discípulos e discípulas a criarem inimizades e perseguirem outras pessoas em seu nome”. A Quaresmo é um tempo de conversão. São 40 dias em que somos convidados à prática da oração, do jejum, da partilha do pão. “Viver um jejum que agrade a Deus e que conduza à superação de todas as formas de intolerância, violências e preconceitos.” O Tempo de Quaresma, de modo particular neste ano, incentiva-nos, nas palavras do poema de D. Pedro Casaldáliga, a viver a paz inquieta: “Dá-nos, Senhor, aquela paz inquieta que denuncia a paz dos cemitérios e a paz dos lucros fartos. Dá-nos a paz que luta pela paz! A paz que nos sacode com a urgência do Reino. A paz que invade, com o vento do Espírito, a rotina e o medo, o sossego das praias e a oração de refúgio. A paz das armas rotas na derrota das armas. A paz do pão da fome da justiça, a paz da liberdade conquistada, a paz que se faz ‘nossa’, sem cercas nem fronteiras. Que tanto o ‘shalon’ como ‘salam’, perdão, retorno, abraço… Dá-nos a tua Paz, essa paz marginal que soletra em Belém e agoniza na Cruz, e triunfa na Páscoa. Dá-nos aquela paz inquieta, que não nos deixa em paz!” Como no caminho de Emaús, no diálogo entre os dois discípulos e o desconhecido os levou a ter uma nova compreensão dos fatos, nós também somos convidados a descobrir, em nossa história, a história de salvação que Cristo vem operar aos que aceitam trilhar os caminhos por Ele proposto, numa visão nova de comunhão que vence os medos e nos torna anunciadores da realidade inaugurada pela Ressurreição de Cristo. Só com Ele, superaremos as visões distorcidas da história e encontraremos o caminho de volta ao convívio alegre com os irmãos de caminhada. Que a paz de Cristo habite em nós e em nosso mundo. É com esse espírito que queremos iniciar a Quaresma e a Campanha da Fraternidade de 2021. Pe. Deolino Pedro Baldissera, SDSPadre salvatoriano há 43 anos, professor e psicólogo pela Universidade Gregoriana de Roma, com mestrado em Psicologia e doutorado em Ciências da Religião. Atualmente é pároco em Videira-SC.
Festa da Sagrada Família

“Ele crescia cheio de sabedoria, e o favor de Deus estava com ele”Lc 2,22-40 O Evangelho na Festa da Sagrada Família é tirado dos primeiros capítulos de Lucas. Mais uma vez, encontramos um tema muito importante: o encontro entre a Antiga e a Nova Aliança. Durante o Advento, Lucas fazia um paralelo entre Isabel, Zacarias e João Batista, e Maria, José e Jesus. No texto de hoje, os justos da Antiga Aliança são representados pelas figuras de Simeão e Ana, profeta e profetiza. Outros dois temas de Lucas também se destacam nesse relato: o Espírito Santo e a opção pelos pobres. Lucas destaca que os pais de Jesus foram ao Templo, conforme a Lei (cf. Lv 12,8), para oferecer o sacrifício (dois pombinhos). Na Lei, esse sacrifício era permitido aos pobres. Mais uma vez, continuando a lição da manjedoura e dos pastores, Lucas sublinha o amor especial de Deus aos pobres. Deixa bem claro que Maria, José e Jesus eram contados entre eles; como, aliás, era toda a população de Nazaré de então! Simeão e Ana representam, em quase os mesmos termos de Zacarias e Isabel, os justos que esperavam a salvação de Deus, o grupo conhecido no Antigo Testamento como os anawim, ou “pobres de Javé”. É de notar-se que, em seu canto, Simeão proclama que ele pode “ir em paz”, simbolizando que as esperanças dos justos da Antiga Aliança agora serão realizadas em Jesus. Como na Visitação, a idosa Isabel, símbolo também dos justos, acolhia com alegria a chegada de Maria com Jesus; agora Simeão e Ana recebem, com a mesma alegria, a novidade da Nova Aliança, concretizada em Jesus. Mais uma vez, Lucas coloca juntos homem e mulher, um tema comum em seus escritos (cf. 4,25-28; 4,31-39; 7,1-17; 7,36-50; 23,55-24,35; At 16,13-34). Assim, Lucas insiste que homem e mulher se colocam juntos diante de Deus. São iguais em dignidade e graça, recebem os mesmos dons e têm as mesmas responsabilidades. Como já fez em 2,19 e fará de novo em 2,50, Lucas frisa que os pais não entendem plenamente ainda o alcance do mistério de Jesus. O versículo 33 insiste que “O pai e a mãe do menino estavam admirados do que se dizia dele”. Mais uma vez, apresentando-nos José e, especialmente, Maria como modelos de fé. Apesar de qualquer revelação que eles tivessem, também precisaram caminhar na escuridão da fé, descobrindo, passo a passo, o que significava ser discípulo de Jesus. Jesus “crescia e se fortalecia, cheio de sabedoria, e o favor de Deus estava com ele”. Mas esse crescimento foi gradual, como com todos nós, e sua família tinha um papel importantíssimo em seu crescimento. Se, como adulto, ele podia nos dar a imagem de Deus como o amoroso Pai, tema tão caro a Lucas, era porque também aprendeu isso pela experiência do pai adotivo, José. Se cresceu na espiritualidade dos anawim, era porque aprendeu isso desde o berço, junto com os pais. Se foi fiel na busca da vontade de Deus, era porque assim se aprendia no ambiente familiar. Em um mundo como o nosso, que desvaloriza a vida familiar, o texto de hoje deve nos animar e desafiar, para que, como Maria e José, na claridade e na escuridão da caminhada, criemos um ambiente onde o amor possa florescer e onde nossos jovens possam aprender, como por osmose, a importância do amor nutrido em uma fé viva, na contramão da nossa sociedade consumista e materialista, que vê na família unida uma ameaça a seus contravalores. Ninguém ignora que hoje a família tradicional enfrenta enormes dificuldades. Diante dos problemas, respostas fáceis não servem. Nem sempre é óbvio o caminho a seguir. Novas dificuldades e novas perguntas exigem um novo olhar da parte da Igreja. Há poucos anos, presenciamos algo, infelizmente, quase inédito na Igreja: um Sínodo sobre a família, em que todos os participantes eram convidados pelo Papa a expressar, abertamente e sem medo, suas opiniões. Como a Igreja precisava disso! Houve divergências, obviamente, pois nem tudo é claro. Há quem prefira ignorar a realidade, fechar os olhos diante de problemas reais que causam, muitas vezes, muito sofrimento no seio das famílias e refugiar-se em chavões legalistas em lugar de procurar descobrir o que Jesus faria em tais situações. O Espírito Santo vai iluminar a Igreja e as famílias se realmente buscarmos juntos as maneiras evangélicas a responder aos novos desafios. Rezemos pelas famílias, pelas que estão bem firmes e pelas desestruturadas, e rezemos pelo Papa Francisco, para que tenha força e saúde para continuar sua grande missão como representante de Jesus compassivo e misericordioso em nossos tempos. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.
Nossa mensagem de Natal

Neste ano, a celebração do Natal está muito diferente das anteriores. Revela-se um contexto que nos conduz a uma comemoração mais silenciosa, restrita a círculos familiares, sob a exigência da distância social. Assista ao vídeo e veja nossa mensagem! blog.ssps.org.br
O tesouro da liturgia doméstica no Natal

A pandemia não trouxe apenas dor, luto, lágrimas. Estamos sendo obrigados a rever várias atitudes, inclusive dentro da prática religiosa. Assim, eu gostaria de deter-me um pouco nesse aspecto. Antes de entrar no tema do Natal, acho bom partilhar algumas considerações. Nestes meses, foram revelados, escancarados alguns problemas que quase sempre existiram, mas andavam meio disfarçados pela correria do cotidiano. Sem querer esgotar a lista, destaco aqui o clericalismo (não apenas de clérigos, diga-se!); o desconhecimento da amplitude litúrgica de nossa Igreja (até hoje, muitos pensam a liturgia apenas como a missa); e o “assistir” passivamente aos ritos, seja pela tevê, seja pelas redes sociais; em resumo, aflorou-se a ignorância ou a omissão quanto às bases existentes desde o início da Igreja e restabelecidas, com louvor, pelo Concílio Vaticano II. Os perigos reais da famigerada covid-19 obrigaram comunidades de fé a terem de respeitar o isolamento, afetando gravemente a vida eclesial. Um dos lados positivos dessa história é a Igreja ter tirado a poeira que escondia um tesouro: as liturgias domésticas. Até pelos séculos IV, V, os seguidores de Jesus se reuniam na chamada domus ecclesiae para celebrarem os sacramentos, serem instruídos, organizarem a caridade e consolarem-se. Muitos de nossos ritos atuais são herança desse tempo. O cristianismo, contudo, passou a ser “religião oficial”, e isso levou os cultos para ambientes públicos, cheios de pompa. A liturgia doméstica valoriza o sacerdócio comum dos batizados. Essas celebrações, devem estar em comunhão com a Igreja, mas não se atrelam a certos protocolos dos ofícios comunitários. O despojamento, a brevidade e, claro, o ar familiar dão o tom. Por isso não é recomendável transferir mecanicamente para o lar o modelo da igreja paroquial. Em tempo: é importante sublinhar que esse formato é “outra liturgia” e não se opõe jamais à comunitária. Ambas podem (e precisam) conviver, mesmo depois da pandemia. Para a liturgia doméstica do Natal O Natal é oportunidade para uma tocante celebração na domus ecclesiae deste início de Terceiro Milênio. Há inúmeras propostas elaboradas por especialistas, quase todas maravilhosas! Vale reforçar: como é uma autêntica liturgia, o presidente é Cristo! Ele está presente, de forma real, na Palavra proclamada e na reunião dos batizados. Ouso sugerir alguns encaminhamentos. Evitarei aqui dar os textos prontos, pois cada Igreja-lar tem sua autonomia para dirigir ao Senhor as próprias orações. Nunca é demais recordar que o povo de Deus, em Cristo, é sacerdote, profeta e rei, e, pelo Espírito Santo, sabe como fazer (cf. Romanos 8,26-27). No que couberem, as orientações são válidas também para quem, devido ao isolamento, tem de celebrar sozinho ou para inúmeros outros contextos, como junto ao leito de um enfermo, por exemplo. Jesus veio para todos! O ambiente Escolha um lugar significativo para sua família. Pode ser em torno do presépio, da mesa das refeições cotidianas, na sala de estar, na varanda, no quintal… Evite ornatos alheios ao espírito cristão, próprio dessa solenidade. Considere como alienígenas figuras do Papai Noel, neve artificial, renas, trenós, duendes e outros penduricalhos. Jesus é o centro! A luz é um elemento significativo do Natal, por isso, se for oportuno, haja pelo menos uma vela. Ela pode ser acessa no início da celebração, na proclamação do Evangelho ou em outro ponto do rito. A Bíblia é outro sinal a estar presente desde o início da oração. Afinal, Cristo é a Palavra que se fez ser humano e veio viver conosco (cf. João 1,14). Em outros contextos, faça as devidas adaptações. Os ministérios Escolha com antecedência alguém para presidir o momento. É recomendável que a leitura bíblica seja proclamada por quem tem mais aptidão para leitura. Também seria muito significativo a pessoa mais idosa conceder a bênção final. Há outros ministérios que podem ser exercidos, como o de música. Como é uma liturgia, repito, haja o devido esmero: a preparação do espaço, o contato prévio com as leituras, o ensaio dos cânticos. Informalidade não significa falta de capricho. As crianças É muitíssimo louvável o envolvimento das crianças. Que tal, após a proclamação do Evangelho, uma delas colocar a imagem do Menino Jesus sobre a manjedoura? Em seguida, as outras podem depositar flores no presépio. O importante é elas se sentirem acolhidas. Essa é uma das heranças não corroídas pela traça (cf. Mateus 6,19-20). Com certeza, levarão por toda a vida uma doce recordação desse dia sagrado e, queira Deus, sigam o exemplo. As leituras Recomendo vivamente que as leituras acompanhem as da liturgia solene. Isso demonstra comunhão com toda a Igreja e ajuda a manter o foco na vinda de Jesus. Jesus está presente também no Pão da Palavra, por isso é uma hora especial. Podem-se proclamar todas as leituras ou apenas algumas delas, porém não se deve deixar de lado o Evangelho. A seguir, as indicações: Para quem celebra na tarde do dia 24 de dezembro: Isaías (62,1-5); Salmo 88/89; Atos dos Apóstolos (13,16-17.22-25); * Evangelho de Mateus (1,18-25). Para a celebração da noite de 24 de dezembro: Isaías (9,1-6); Salmo 95/96; Tito (2,11-14); * Evangelho de Lucas (2,1-14). Para quem celebra na madrugada do dia 25 de dezembro: Isaías (62,11-12); Salmo 96/97; Tito (3,4-7); * Evangelho de Lucas (2,15-20). Para a celebração nas outras horas de 25 de dezembro: Isaías (52,7-10); Salmo 97/98; Hebreus (1,1-6); * Evangelho de João (1,1-18 ou 1,1-5.9-14). Preces Com a família reunida, é salutar dirigir a Deus louvores, pedidos e agradecimentos; interceder por outros familiares, pelos sofredores, pelos vizinhos, pelos falecidos, pelo mundo. Recomendo que as preces sejam breves e bem objetivas. Depois todos rezam juntos o Pai-Nosso. Caso haja membros de diferentes denominações cristãs, pode-se recitar a versão ecumênica. Bênção à mesa Um gesto sacratíssimo é bendizer a Deus por Ele nos nutrir com o Pão da Palavra, da Eucaristia e com o alimento a sustentar-nos o corpo. Seria muito oportuno que todos, juntos, abençoassem a reunião em torno da mesa, um prenúncio do alegre banquete na Casa do Pai e anunciado por Jesus. Outra possibilidade é o membro mais idoso ou quem preparou a ceia
Natal da Casa Comum

Enfim, chegamos ao fim do ano de 2020. Para muitas pessoas, este é um período em que as reflexões sobre as próprias atitudes, desejos e planos passam a fazer parte dos pensamentos. Entretanto vivemos um período bastante atípico, pois tais reflexões permeiam os pensamentos de muitos de nós há meses. Muitas famílias precisaram se reestruturar. Muitos profissionais precisaram se reinventar. Muitos trabalhadores descobriram novas habilidades. Perdemos muitas vidas, não somente causadas por uma nova doença, mas também pela ganância de algumas pessoas, destruindo parte de nossa Casa Comum, em busca de riqueza material. Algumas pessoas perderam a esperança. Entretanto, em meio a tantas novidades, desafios, dor e medo, tem sido possível resgatarmos partes simples, mas fundamentais para a vida em qualidade de todos os seres. Tivemos, como nunca, a oportunidade de refletir, por um tempo maior, a respeito do que realmente importa. Para você, o que realmente importa? Como resposta a essa pergunta, em um momento entre alguns educadores do Colégio Espírito Santo, no qual partilhávamos reflexões e memórias de trabalhos já realizados neste período em anos anteriores, concluímos que, para nós, o que realmente importa é o amor. Amor às pessoas, à natureza, à vida. Neste ano, fizemos uso da tecnologia em situações que nunca havíamos imaginado. E, por que não a utilizar para dividir amor e bons desejos? Afinal, quando compartilhamos amor e emanamos energias positivas, não devemos escolher quem receberá, apenas nos permitimos sentir e contagiamos o outro com os bons sentimentos. Assim, para dividirmos os bons pensamentos, neste Natal, criamos, junto com nossos alunos da educação infantil, 1º e 2º anos do ensino fundamental, um livro virtual no qual cada criança registrou, por meio de desenhos, palavras, frases ou cartinhas, qual o significado do Natal para cada um e quais desejos nossas crianças querem compartilhar com todas as pessoas do mundo. A princípio, esse material será enviado a todas as famílias do Colégio Espírito Santo e todos os alunos de nossos centros educacionais. Mas a ideia (e nosso desejo) é que o amor registrado em cada página alcance e afete o maior número de pessoas possível e, assim, conseguiremos, juntos, celebrar o Natal, a vida e o cuidado em nossa Casa Comum. É com muito carinho que dividimos com você os dois volumes deste livro virtual. Para isso, basta acessar os links a seguir. Sinta-se abraçado, também, neste Natal! Clique na imagem. Nathalia Fernandes Soares Hino é coordenadora pedagógica da educação infantil do Colégio Espírito Santo, em São Paulo-SP.
4º Domingo do Advento

“Faça-se em mim segundo a tua palavra”Lc 1,26-38 Maria de Nazaré é a terceira figura importante nas leituras do Tempo do Advento. O texto de hoje é riquíssimo e mereceria um tratamento muito mais pormenorizado. É essencial para entendermos a figura de Maria tal como apresentada nas Escrituras. No esquema de Lucas, a anunciação à Maria se contrapõe àquela feita a Zacarias (Lc 1,5-22). Naquele relato, é feita a um sacerdote, idoso, no Templo. No texto de hoje, a uma moça, jovem, no dia a dia de um lugarejo, Nazaré. O sacerdote não acredita e fica mudo, simbolizando que os ritos do Templo não têm mais nada a dizer. Maria acredita e é proclamada “bendita entre as mulheres” (1,42). Infelizmente, muitas vezes, este trecho é interpretado de maneira a nos apresentar uma Maria totalmente passiva, sem expressão. Ideologicamente, foi usado para insistir que as mulheres, no mundo e na Igreja, deveriam ficar passivas e sem expressão. Tal interpretação distorce totalmente o que Lucas quer nos dizer. Maria, embora não entenda plenamente (Lc 1,29; 2,19; 2,50ss), aceita não somente ser instrumento da vontade de Deus, mas ser protagonista da realização desse plano divino. A frase “faça-se em mim” não deve ser interpretada de uma maneira passiva, mas como o grito de entusiasmo de quem quer ser colaboradora na realização da visão que Deus tem para o mundo. Não se refere somente ao fato de engravidar (isso seria muito pouco), mas à grande visão de Deus para os seus filhos e filhas. Um pouco adiante Lucas vai mostrar o alcance dessa frase, quando, na boca de Maria, ele coloca o grande canto de libertação, que é o Magnificat. Não é possível entender a profundidade da frase de Maria, na Anunciação, sem ler também o Magnificat (1,46-55). O que Maria quer quando ela pede que seja feita nela a vontade de Deus? Ela quer a realização da viravolta no mundo, que é o advento do Reino de Deus, quando Deus vai “dispersar os homens de pensamento orgulhoso; precipitar os poderosos dos seus tronos e exaltar os humildes; cobrir de bens os famintos e despedir os ricos de mãos vazias” (1,51-53). Em um mundo onde a realidade é a prepotência e a violência dos poderosos contra pobres e indefesos, e onde as mulheres, muitas vezes, estão na liderança da resistência, Lucas nos apresenta Maria como protagonista da concretização do Reino. Como ela, quem realmente quer receber o Salvador no Natal deve comprometer-se, de uma maneira concreta, na construção de um mundo novo, de justiça e fraternidade, tão contrário ao que vivemos hoje, em tantos lugares, e que Maria canta no primeiro capítulo de Lucas. Padre Tomaz Hughes, SVD, biblista e assessor da CRB e do Cebi. Dedicou-se a cursos e retiros bíblicos em todo o Brasil. Publicou diversos artigos e o livro “Paulo de Tarso: discípulo-missionário de Jesus”. Faleceu em 15 de maio de 2017. Suas reflexões bíblicas são muito atuais.